PARTE I OS DOENTIOS (continued 5)
Reading edition
Desde que o viu rico, Villa Alva entrou a respeital-o, a servil-o, a lamber-lhe a poeira das botas. Era elle quem fazia as eleições na terra, quem orientava a opinião, quem fomentava a intriga. Ia frequentes vezes a Beja.
—Fallar com os trunfos! cochichava-se ás noites, na loja do Burjaca.
E com veneração, referia-se aos quatro ventos a sua alliança com as notabilidades politicas, deputados que lhe offereciam jantares, lhe mandavam cartas de amostras, Diarios da Camara com discursos e as minutas de preços do vinho, nos mercados de Lisboa.
Aquella preponderancia fazia-o temido, e andava nas palminhas, dificultando a sua intimidade aos menos favorecidos.
No intuito de surprehender alguma informação relativa ao negocio, os proprietarios procediam com elle por pequenas sabujices, grande interesse pela azia de sua reverencia, um esmero de palavras e rodeios servis, como se fallassem a um senhor. Villa Alva queria em elle querendo, ria em elle rindo e basofiava em elle basofiando. E a conezia não chegava nunca! Emfim, uma tarde correu que o velho cura ia ser transferido a exigencias da politica, para Sant’Anna, lugarejo de algumas casas, sem recursos, sem agricultura e sem rendas, torpemente esquecido na aridez da serra. Em casa das Silvas, padre Nazareth mostrou-se penalisado do pobre homem, que ficava a morrer de fome. Mas intimamente dava-se os parabens. Conseguira afastar finalmente o pulha que se atrevia a humilhar com sessenta annos de honrada labuta, a sua florente carreira de homem sagaz, em tirocinio para conego.
Sobre o caso, Manoel do Cabo architectou logo o seu tratado pratico de moral caracteristica, por este modo formulada, sempre que um mendigo se arrastava para lhe pedir esmola:
—Grande cavalgadura!
—Porque, meu bemfeitor?
—Inda o pergunta! Aposto que é homem de bem!
—Saiba o meu bemfeitor que sim.
—Pois amigo, se vossê tem feito canalhice em quanto era forte, estava agora rico. Pedaço d’alarve! E exemplificando, estendia o braço para o fundo da praça, onde d’um lado sorria a casa nova do capellão, ampla, clara e toda alegre das tintas frescas, e a miseravel vivenda empardecida e deserta, que pertencia ao parocho velho, e desde a sua partida se não abrira mais!

Dois Primos

Quando Jorge bateu, a Albertina acabava de se levantar da mesa. Era uma rapariga alta e fina, com o typo meudinho e arrebitado, que dá á mulher o ar canaille da ribalta. A sua elegancia formulava a ultima novidade dos armazens de modas, tinha o chic do dia, a côr e a graça da ultima revista de Paris. Vestida com uma simples saia, um reles chale e uma cuia torta, teria passado indifferente até á policia civil, que é quem na capital roe nos ultimos detritos da femea, que o amor escalavrou por essas alcovas e restaurantes nocturnos. Sem o espartilho cuirasse que lhe dava o rhythmo postiço e flexuoso do busto, sem as meias escarlates luzentes de abelhas de oiro e esticadas acima do joelho, sem os sapatos de decote largo onde uma roseta de setim se enroscava com volutas de serpe negra, sem o nankim das pestanas, a veloutine da garganta, o carmim da bocca e a unha crescida dos fados electrisantes, essa boneca que tinha o ar de parir o utero á força de comprimir as ancas, daria a simples femea lymphatica, com folies de cœur e hysterismos alambicados, ninho de tuberculos do peito e uma genuina incapacidade para os misteres da sua condição e da sua classe.
Seria uma preguiçosa, uma gulosa, uma estupida, incapaz da maternidade, incapaz da abnegação, incapaz da lucta pelos que amasse, da permanencia no dever como n’um tabernaculo inviolavel, e da resignação, tão heroica e tão santa, de certas mulheres pobrissimas, na sua labuta tormentosa e quotidiana.
Aquella vida do palco era a unica que ella teria podido seguir sem contrariar os seus instinctos e satisfazendo todas as suas vaidades.
Em criança tivera uma educação apurada e completa—diziam os paes. Fallava as linguas, cantava, tocava, e implantára no pequenino craneo a paixão do luxo e a paixão do namoro—duas lanternas que ao longe pareciam illuminar-lhe as phantasias do futuro. D’uma vez que a trouxeram a Lisboa e a levaram ao theatro, um subitaneo clarão se lhe fez dentro—tornára nitida a aspiração vaga em que ardia nas suas insomnias de virgem provinciana, descobrira a vereda que havia muito, as suas tendencias tacteavam, como um cego em busca de uma porta para tomar folego. Tinha sido na Trindade, n’uma noite de première. As decorações da scena com os seus cambiantes tenros, as suas florescencias singulares, as cascatas de perolas cahidas na limpidez ideal dos lagos cortados a palmouras de cysnes, as transmutações, os adereços, os vestuarios dos principes e das princezas, dos pagens imberbes e das bailarinas aladas, surgindo em attitudes lascivas das cascas de ostra giganteas, esquecidas na gruta marinha da penedia, galvanisaram-lhe os nervos e o coração, arrebatando-a do seu ninho de senhora nubente para a phantastica allucinação das liberrimas existencias onde se vive em azul, se cingem as carnes em photospheras de pedras, e se faz roçagar no mosaico hilariante das alcatifas, as longas caudas dos vestidos de quarenta libras, amarrotados hoje e ámanhã benevolamente esquecidos a Fanchette, nossa confidente e nossa criada de quarto. Ah! como seria bom cantar alli, quasi nua, com os pequenos pés inquietos calçados na chinelinha de Cendrillon ou nas botas altas do principe Jasmim, os cabellos polvilhados de loiro, as mãos cobertas de rubis e a garganta titilante no fremito de um trillo ou na petulancia de uma aria, escarlate de provocações!... E as paixões desencadeadas com o impeto das procellas andinas, as supplicas virginaes dos adolescentes loiros que lhe devessem o primeiro grito do sexo espicaçado, as apoplexias dos banqueiros e as surdas invejas das mulheres mordidas pela estranha aureola do seu imperio!... Não dormiu n’essa noite. Era cerrar os olhos e encher-se-lhe logo a cabeça de bailados, córos, transformações e esplendores, cuidando estar diante da multidão, phrenetica ante a nudez dos bustos e abrasada pelo calor do ambiente. O expluir das ovações como a embalava n’uma embriaguez funesta, que lhe fazia latejar as fontes; e em circulos de diabolicas walsas vinham-lhe as reminiscencias da vida de terra pequena, tão insipidas de episodios e tão aridas de commoções, em que a sua mocidade deslisára até alli, como em calmaria podre. Operou-se n’ella então uma brusca metamorphose, uma rebellião feroz contra a pequena roda em que vivia. A tranquilla casa burgueza dos paes, cheia de um conforto simples e de um aconchego honrado, fez-se-lhe odiosa e triste. Entrou a embirrar com os moveis, com os velhos criados, com o jardim de canteiros oblongos e cheios das magnificas roseiras que o papá cultivava, e tinham a reputação das mais bellas da terra. As suas maneiras eram agora seccas, as suas respostas sacudidas e imperiosas. Soffria distracções profundas, e respirava a espaços por grandes suspiros de cansaço. Aquella tristeza sem explicação inquietou os paes e as tias. Que era? Que não era? Depois, a phase de explosão chegou, periodo singular de contrastes, ora alegre, ora colerico, ora sarcastico, em que nada parava, as musicas, o guarda-roupa, os criados, a reputação e o toilette das ricas e pretenciosas herdeiras suas visinhas. Tudo achava banal e indigno da sua attencão.
Uma crueza de palavras entrou a expluir-lhe na bocca; achava os homens pelintras e as mulheres idiotas, e reclamou um dia asperamente do primo Jorge as cartas que lhe escrevera, dizia—para mangar com elle. E como estranharam, ella bateu o pé, tremula de raiva, gritando que nunca seria esposa de um homem com tamanho nó de guela.
Um dia desappareceu de casa para não voltar lá mais—e d’alli a um mez os cartazes annunciavam o seu debute.
Seis mezes que se não viam. Como o tempo passa, bom Deus! Havia tres que ella debutára, e tinham-se passado tantas coisas, tantas!... Quando elle entrou, Albertina sentiu um fremito pela espinha dorsal ao encaral-o. Estava mais vigoroso e mais bonito, correcto no seu veston de grandes botões, sapatos de bicos curvos e a calça azul ferrete cahindo amplamente sobre as polainas côr de perola. Era alto, nunca lhe parecera tão alto, realmente. E o vermelho dos beiços dava-lhe um ar sadio que a frescura dos dentes justificava. A vida de Lisboa refundira completamente aquelle provinciano timido, pacato e sincero, apaixonado pela caça, leitor dos maus romances e cheio de uns acanhamentos que realmente...
Ella soubera da nova residencia de Jorge, e uma tarde, quando subia o Chiado vestida na sua pelliça e baixando a cabeça ás barretadas dos folhetinistas que por alli se davam ares principescos, tinha dado com elle, cara a cara.
Fingiu não o vêr. Tinham-se-lhe esgarçado já as primeiras illusões faiscantes da vida nova em que entrára; sem querer até, experimentava ás vezes n’aquella solidão em que se via, mesmo no calor da celebridade que se arrogára, o quer que era de remorso, tristeza impregnada de torpor, um secreto medo da morte e a ternura para os tristes velhos que quasi aniquilára com os desvarios d’aquella vida deshonesta. Ria-se d’estas pieguices depois. Realmente, uma rapariga como ella era, a pensar em coisas de tão ridicula sentimentalidade!... Um dia escreveu-lhe; queria ser perdoada, amada outra vez com aquelle amor tão sincero e tão simples, de homem forte e cheio de mansidão benevola dos sãos. O egoismo da gente com quem tratava, fizera-lhe sentir a necessidade de ter como defeza um amigo leal. Estimal-o-hia simplesmente, vertendo-lhe no seio as pequenas amarguras da sua vida caprichosa. Amal-o não, talvez não. Além de que, Jorge podia lá amar uma mulher de theatro, que ia cear ao José Augusto com actores e jornalistas, dava beijos nas faces oleosas dos empresarios, e era forçada a pagar generosidades de joias com generosidades de alcova... Amal-o não, ai não! Conhecia-lhe bem a linha de caracter, escrupulosa e séria. Sentira a adoração d’aquelle homem, ardente e balbuciante, com uma especie de mysticismo estranho. Que dedicação e que lealdade! Ah! tivesse ella conservado a sua linha casta de filha unica, reclusa na paz da casa paterna, e seria agora a esposa d’aquelle rapaz de hombros redondos e epiderme fina, sob que um sangue generoso em reticulos circulava. Que vida teriam feito juntos ás noites, de serão, sob a luz do mesmo globo e em torno da mesma banca de trabalho, os pequenitos adormecidos n’um canto de sophá, cahidos os reposteiros e uma paz celeste abrindo as azas sobre o dulcissimo grupo das duas cabeças sonhadoras! Que de asneiras se fazem na vida, bom Deus! Inda se elle a quizesse como amante... Áquella idéa, uns restos de pudor afogueavam-na, erguia-se phrenetica amarrotando as bordaduras da robe, uma vontade amarga de morrer.
Encararam-se por um instante, ella com um sorriso contraindo, elle de imperturbavel seriedade e muito pallido. Quando Albertina lhe tocou na mão sentiu-a abandonada, como a que se dá aos indifferentes. Seis mezes antes, que differença!...
—Senta-te aqui, disse ella.
E passado um instante:
—E meu pai, e a mamã?
Jorge encolheu os hombros.
—Que tens tu com essa gente?
—É verdade, esquecia-me, tornou ella baixinho, com um estrangulamento de lagrimas. Eram sete horas, e não havia espectaculo n’essa noite. O gabinete tinha uma claridade velada, que esbatida do globo fosco do candieiro, amaciava os aspectos n’uma penumbra vaga de entrevista. Com as janellas cerradas—era no inverno—os perfumes dos enormes bouquets suffocavam, tepidos e langorosos. Nas jardineiras, em pinhas de pequeninos vasos branco e ouro, as begonias espalmavam as suas folhas decorativas e gordas, bronze raiado de escarlate, e cobertas de um delicioso crochet. Cahiam pesadamente das galerias os reposteiros amarellos, destacando no fundo claro das paredes. Pelos fauteuils, na ottomana e sobre as etagères douradas esqueciam-se as partituras em voga e os papeis, trasladados pela grossa letra enfadonha dos copistas. N’um angulo de marmore, jazia a cinza do charuto de um outro, que estivera antes e se fôra. Jorge pôz-se a mirar em torno. Era luxuoso aquillo, cheirando a femea. Defronte da ottomana e por uma porta aberta, via-se um canto de toilette na penumbra: fórmas albas de cortinados e rendas, uma luzerna de espelho, e ao canto a psyché de marmore branco, em forma de concha. Quem pagava aquillo tudo? dizia Jorge para si.
—Mas falla, pelo amor de Deus! disse ella puxando-lhe o braço e forçando-o a sentar-se. E febrilmente, com voz um pouco tremula:
—Foi uma desgraça, bem sei. Tinha porém de ser e não ha remedio já. É o destino, que queres? Fui bem má comtigo. Uma mulher como eu, era indigna de um homem como tu. Sabia lá fazer-me do teu tamanho!... Atirou-lhe os braços ao pescoço:
—Mas falla, falla!... dizia entre beijos.
Jorge repelliu-a devagar, com esforço. Pensava, nem sabia em que estava a pensar. Estava magnifica, a priminha—era tudo.
—Ha seis mezes não usarias d’essa frieza commigo, murmurou ella, deixando-lhe a cabeça no hombro.
—Eras honesta.
—És cruel, tambem.
—Ouve, exclamou Jorge violentamente, tomando-a pelos pulsos—para que te pintas? Para que?
—Eu?
—Tu. Nos olhos, na bocca, nos hombros. E esta casa, quem paga? E este luxo? Não respondas. Paga quem entra, bem se vê.
—Oh Jorge! gritou ella em soluços. E um pouco dobrada, deixava escancarar com abandono provocante, a fenêtre do roupão de velludo, orlada de rendasinhas sobrepostas.
—É claro, bem claro, dizia elle com uma scintilla de cão cioso na vista.—E mais baixo, n’um tom de reprehensão amiga:
—Foi para isto que deixaste Leiria, a nossa casa, o tio Arsenio e as familias das nossas relações, não? Pensas que poderás viver sempre cantando, tendo celebridade e reclames nos jornaes?
—E porque não? dizia ella ingenuamente.
—Olha que é uma vida de encher olho, não tem duvida. Foi então para enriquecer uma cocotte, que teu pai trabalhou quarenta annos sem descanço, não vendo outra coisa senão a filha, e não se importando com outra coisa que não fosse um teu capricho? Educaram-te nas virtudes burguezas, que na mulher preparam a mãi, simplesmente para que um bello dia fugisses, roubando a casa dos teus?
—Estás doido?
—Seria melhor que o estivesse. E agora? Em que ponto ficam as nossas relações, não me dirás?
Ella quiz attrahil-o a si:
—No ponto em que as interrompemos em Leiria. Porque não?
O primo Jorge riu com uma casquinada brutal.
—Tu estás tola, priminha. Eu namorar-te? Tem graça, palavra.
E com ares de cynico:
—As mulheres do theatro não se namoram.
Albertina estava attonita do que ouvia.
—Então? disse ella sem saber, ao acaso.
—É simples, ia dizendo Jorge. Primeiro cercam-se, como as cidades sem viveres. Depois compram-se. Entendeste?
Ella ergueu-se com os labios brancos e as mãos crispadas. Estendeu-lhe seccamente a mão.
—Adeus.
Voltou-lhe as costas com um ar de rainha e entrou na alcova.
Jorge não se perturbou lá muito com aquella despedida formal, e deixou-se ficar socegadamente ao canto do sophá, fumando o seu charuto. Só quando ouviu os soluços da prima se resolveu a entrar devagarinho na alcova. Havia um cheiro de Ylang-Ylang e pó d’arroz de Lubin; fórmas brancas cahiam na penumbra, de cassas apanhadas e fauteuils muito baixos, de casimira perola. Os pés afogavam-se n’uma pelle de urso, macia e branca, com garras douradas. Primo Jorge respirava alto, caminhando ás escuras, entontecido de perfumes, um baque nas fontes. E muito baixo:
—Albertina! disse elle. Voejavam-lhe diante dos olhos, abelhas de oiro, em circulos febris. Os seus dedos tocaram n’uns cabellos, depois um bocado de pelle setinosa. Ergueu-lhe carinhosamente a cabeça pelo queixo, ajoelhára-lhe aos pés, apoiando-lhe os braços nos joelhos. E n’um tom de voz, em que havia o uivo do desejo refreado, dizia-lhe:
—Pateta! Ouve.
E aos beijos, com palavras entrecortadas:
—Como d’antes, minha filha, como d’antes...
Retesados, os seus braços enlaçavam-na pelo busto, com uma ancia que fazia medo.
D’alli a nada, Albertina terminava com voz plangente o romance do ultimo semestre da sua vida. Era pura como outr’ora, apesar de tudo, jurava ella, expondo pelo quebramento da postura na ottomana, o onduloso desenho dos quadris e a linha elastica do collo todo abotoado nas costas, cingido n’um corpete de velludo bronze e aberto no seio em fenêtre, d’onde espumava a gargantilha, n’uma alvura de nymphêa.
Se elle soubesse!... No theatro e na cidade sentia-se fluctuar n’um abandono glacial. A adulação e os bouquets com que lhe atapetavam o caminho, causavam-lhe a nostalgia da sua pequena cidade natal. Quem se interessava agora por ella, quem? Ás vezes, olhando a gente que passava nas ruas, acotovelando-se com pressa de chegar cedo, e não querendo saber dos que paravam no caminho, sentia um medo funebre invadil-a toda. Se morresse, quem lhe fecharia piedosamente os olhos e a acompanharia ao cemiterio? Que olhasse pelas janellas d’aquelle segundo andar a cidade, viva em baixo e a róda—transeuntes cacheticos e ruas tenebrosas, mesmo á claridade do gaz. Que triste era tudo! O primo Jorge deixava-a fallar á vontade, aninhado junto d’ella, como sob a tepidez de uma aza de cysne, e tendo uma das mãos em viagem touriste pelas colinas, de que o decote triangular patenteava o sopé, de uma amenidade inteiramente grega.
—E que mais, que mais? dizia elle, gaguejando.
Albertina mirava-o com esses olhos velados de reptil, que exercem em certas organisações nervosas invencivel fascinação. A curva do queixo era redondinha e branca, e subia n’um espraiamento suave até ao lobulo escarlate da orelha, onde um diamante faiscava como pupilla ciumenta. Parecia bonita sob aquella excitação, com os olhos fendidos a nankim, as olheiras ensombradas a bistre, e verniz labial do mais caro. Todo debruçado, o primo Jorge inhalava os perfumes tepidos da sua carne, olhando-lhe, nas pennugens da face encarada de perfil, os corpusculos suspensos da veloutine que a alabastrisava. Aquella absorpção lethargica e a excitabilidade excessiva que lhe viera, deram-lhe um quebramento dorsal, uma lassidão de musculos e o desejo incoherente de se abandonar n’um espreguiçamento eterno, sobre a flaccidez eburnea das espádoas. Sentia um peso de palpebras langoroso e febril, que não era o somno.
—Que horas são?
—Oito.
Eram dez e meia dadas. Albertina fallava baixinho, como receando acordar um baby, e a sua voz de estranha doçura, vinha, filtrada por um secreto medo, anesthesial-o como esse insidioso gaz hilariante que traz a morte entre risos.
—Amava-o, tinha-o sempre amado como em criança. Por nenhum homem mais sentia aquella attracção, aquella confiança e a intima alegria de lhe fallar sem receio. Porque fugira ella de casa e se afastára da profunda ventura de ser d’elle, mediante os latins de um padre? Mas não se separariam nunca mais, não era verdade? Nunca mais! Seriam como um irmão com uma irmã, ella dizendo-lhe a sua vida sem omittir o episodio mais vulgar, elle contando-lhe tambem au jour le jour as suas esperanças e os seus desalentos. E seria ella quem lhe faria tudo, quem o trataria se estivesse doente, quem lhe daria conselhos e lhe engommaria as camisas, obscuramente, sinceramente, sem o menor resquicio de peccado entre os dois. Os perfumes que pelo decote vinham do seio d’ella embriagavam-no; sentia-se penetrado por aquelles olhos de salamandra, como velados por uma nictitante subtil. Havia dois mezes que tinha entrado na chamada grande vida, vida realmente bem pequena, que consiste em um sujeito estragar o estomago nos hoteis, dizer asneiras n’uma tabacaria, n’um café ou no camarim d’um actor, e arranjar pelo attrito das solas duras e das convivencias safadas, ao mesmo tempo uma collecção de callos e um museu de vicios pelintras.
Estava no primeiro andar do Alliance, quarto e saleta com porta independente, frequentava os theatros e batia em tipoia pelo Chiado ás quatro da tarde, mostrando no assento dianteiro os bicos dos enormes sapatos de polimento e a sêda côr de perola das meias esticadas. De resto, fazia um gasto decente no elemento hespanhola, sem indagar se lhe vinha directamente das Caldas ou da agencia de criadas. E á noite, descendo o Chiado com a gola do carrik levantada, sentia-se appetecido pelas senhoras pallidas que iam pelo braço dos maridos cacheticos ou condescendentes, com o adulterio nos olhos. O seu ar de camponio de bom sangue fazia impressão: era desejado. E como tinha dinheiro...
Extincta a phase nevrotica com que é uso iniciar-se um bourgeois gentilhomme na roda galante da juventude oiro e azul, o primo Jorge entrou a vêr um pouco n’esse como encandeamento em que se deslumbrára. Mesmo entre vadios é forçoso ter posição. Já hoje se começa a penetrar um pouco pela vida intima de cada qual. A Jorge bastaria o ser rico ou parecel-o—uma amante sempre dá outro ar, outro tom e outra consideração. Foi quando recebeu a carta de Albertina. Que diabo! Já lhe tinha feito a côrte, de mais a mais. Eram tres da manhã quando se despediram.
Ella, envolta n’um grande penteador de cauda, tremia de frio, offerecendo-lhe a testa ao ultimo beijo, pés nús sobre a felpa cariciosa e fofa do tapete. Fallavam muito baixo, com singulares fulgores na pupilla e uma meiguice de termos, que lhes vinha do orgasmo nervoso em que estavam.
—Mas és lindissima assim, dizia-lhe Jorge, cingindo-a pela cinta e beijando-a na bocca.
Albertina tinha um riso delicioso, gulosamente recortado pela dentadura, de gata irascivel. E mordaz:
—E aquella tua tirada de ha pouco... disse ella surprehendendo-o vencido, e batendo-lhe na face com o ar petulante, que tantos applausos lhe rendia no palco.
—Moralista! dizia zombeteira. Todos o mesmo.
Cantavam gallos pela cidade, quando elle sahiu. Desenhados em negro, ora no clarão baço dos lampeões batidos pela ventania do inverno, ora alongados na penumbra das ruas e lembrando arganassas estropeadas, os varredores desciam de vassoura ao hombro, batendo gallegamente os tamancos. Primo Jorge ia contente, cerebro lucido, um bom charuto na bocca.
Ao entrar no quarto do Alliance, não se conteve que não dissesse:
—O que ella sabe, senhores, o que ella sabe!—Despia o carrik de pello fulvo.—Esplendida! E que artista...
Viu sobre a mesa uma carta. Era da mãi de Albertina dizendo ao sobrinho que estava viuva, e supplicando-lhe instasse com a filha, para ella abandonar a vida má que emprehendera. Encontral-a-hia de braços abertos, cheia de perdão no seu luto, e prompta a adoral-a como outr’ora. O primo Jorge riu-se. Estava um pouco bebedo, e passára sempre por isto que se chama—um bom rapaz.
—Está tola, a velhota, disse elle.
E queimando a carta:
—Afinal se não fôr eu, é outro. Ao menos fica tudo em familia.
E d’alli por diante acompanhou a prima todas as noites ao theatro, e ficou com ella por amante.
Acrescentando, com ares devassos:
—Até apparecer coisa melhor.

A Expulsão dos Jesuitas

Á borda do mar ficava o mosteiro, erguido em peanha de granitos erriçados de arestas e cobertos na base, de tufos de algas verdenegras. Nascera no dia que um dos nossos velhos reis alcançára de infieis um triumpho, conseguindo arrojal-os bem para lá das fronteiras. Com o tempo, aquella casa tosca de origem, guerreiramente dentada de setteiras profundas, entrou a merecer por suas virtudes a protecção de prelados e infantas. Os cavalleiros que partiam para as conquistas, os principes que voltavam das batalhas carregados de despojos, as infantas que iam em Hespanha e na Austria, ligar a sua vida á vida aventureira dos grandes capitães e senhores, antes de deixarem a patria, ou ao chegar a ella, entravam a profunda arcaria algida do templo, a depôr no tabernaculo o penhor da sua fé, do seu reconhecimento ou da sua saudade. Nada mais severo que semelhante edificação, por cada raça augmentada e refundida, nas fórmas architectonicas do tempo.
Penetrava-se na igreja por um portal esguio e baixo em ogiva, posto no cimo de uma escadaria de balaustres curvos, onde se engalfinhavam monstros exoticos no marmore das efflorescencias polluidas da idade. Sobre o portal e á altura do côro, tres rosaceas de vidros córados, deixavam jorrar no santuario a purpura sanguinolenta do sol; por cima, era o coruchéo limoso, entre as duas flechas das torres negras, encimadas de cataventos rangentes. Á altura da rosacea central, um poste sustentava os dez fios conductores do telegrapho—e dava uma commoção indefinida vêr assim ligados, como dois reophoros de pilha voltaica, aquelles dois pólos de mundos diversos e separados por dezenas e dezenas de seculos—a casa dos monges e o zinco transmissor da electricidade. Dentro do templo, parte gothico, parte barbaro, e no fundo das capellas sombrias em que perpetuamente arfava a luz soturna dos lampadarios de bronze, viam-se deitadas em sarcophagos de volutas multiplices, figuras de bispos e eremitas, cavalleiros e santos, toscas esculpturas terrificas, de capacete ao lado e espada aos pés, em cujas lapides se podia colligir e lêr, como n’uma velha chronica fiel, a historia completa da nação. Os santos eram ainda mais toscos que as estatuas dos mortos. Tinham as fórmas hirtas, a expressão feroz e os barbaros perfis attonitos, d’esses idolos que ainda hoje se encontram mutilados nas ruinas dos pagodes hindustanicos, sob palmeiraes colossos.
As Virgens revestidas de brocados, scintillantes de incrustações de oiro e pedras e coroadas por diademas do mais singular detalhe, olhavam dos nichos com olhos de vidro, estendendo as mãos ferozes e grossas, n’um chuveiro de ameaças.
Em oração, os martyres chagados abriam n’um spasmo as frontes selvagens, flagellando corpos de brutal nudez. Viam-se cahindo das paredes, poentos e aluidos pela humidade, paineis de milagres em que Deus era exaltado como um sêr feroz e sujeito a caprichos de benevolencia, para este ou para aquelle, sepultando uns sob as ruinas das casas, roubando a outros as colheitas, fulminando os filhos, matando de fome os paes, e não cedendo nunca da sua raiva pharaonica, senão á força de procissões e sacrificios. N’aquelles milagres pendentes em galeria das paredes da igreja, uma geração de envilecidos e tristes desfilava, vergada á oppressão de senhores, a guerras impiedosas, a fomes, a pestes e terramotos. Alguns tinham alli vindo deixar os cabellos e os vestidos. Muitos, que haviam enfermado de uma perna ou de um seio, offereciam, experimentando melhoras, a imagem em cera ou em prata d’essa perna ou d’esse seio. Mostravam-se n’um alpendre da cerca, rumas de lemes, velas e mastaréos, destroços de barcas e ferros de arados, dos miseraveis surprehendidos em perigo de morte que assim tinham comprado a clemencia dos santos do mosteiro. Nas aldêas visinhas, ainda agora se narrava com fervor mystico e secreto medo, a serie de prodigios e milagres succedidos na igreja, em tempos calamitosos.
Por uma fome do anno de 1573 havia apparecido no santuario um braço de fogo sustendo um feixe de espigas. Um physico que ousára escarnecer de Deus, fôra morto por um corisco ficando negro na mesma hora, nas escadas do altar-mór. E o milagre do pai e do filho, e o das duas cabeças do enforcado...
Em tempos d’el-rei João III nosso senhor, o mosteiro fôra entregue aos jesuitas então no maximo esplendor do seu poderio e fortuna. Era alli que mais de preferencia se recolhiam os santos padres de Jesus.
A contemplação do oceano cantando a sua eterna legenda, a linha caustica entre céo e mar, a solidão e a poesia do sitio, convidavam aquelles homens negros, que a meditação preenchia, como um liquido preenche um vaso. A cerca perdeu n’esse tempo uma parte da sua nudez—viram-se os limoeiros e as madre-silvas vestir os muros, jorrar agua das carrancas dos tanques, e os pomares arredondarem as suas pinhas de verde envernizado. Permittiu-se ao povo que visitasse a horta, os claustros e as grutas de devoção particular. Á hora da missa a turba enchia o mosteiro avida e devota; as confissões feitas com fervor, mas sem as ameaças do inferno que os antigos monges vociferavam, attrahiam sympathicamente os penitentes. E Deus appareceu á terra sob uma face de perdão, que quasi se desconhecia.
Cem annos depois, apesar de se guardarem com a maior fidelidade, as santas reliquias e milagres do mosteiro, as vetustas tradições estavam esquecidas entre o povo, e poucos se lembravam de ter ouvido aos avós a narrativa das duas cabeças do enforcado, do pai e do filho, e da morte do physico-mór.
Mas eis que o marquez expulsa os jesuitas, cujo poder e argucia arcavam com os seus.
Do portico escancarado vê-se sahir uma procissão de padres negros e fronte pallida, de cruz á frente. As santas mulheres ajoelham na passagem para lhes beijar os vestidos e receber a ultima benção. De novo o mosteiro fica deserto, sem o caracter hospitaleiro de uma casa de conselho e oração consoladora. Os negros phantasmas dos monges ascetas, lividos e frios, prégando abstinencia e flagicios volvem a percorrer os claustros lugubres e a rezar nas capellas, em que os olhos dos idolos ameaçam o mundo e proclamam a aniquilação dos povos. Uma treva enlucta os espiritos e fluctua de emtorno ás muralhas. Em baixo, o escarneo da vaga que alue pelas cavernas o alicerce de rochas do templo, é como um rir de diabo aos pés de um Deus inanimado! De noite, a lua que lança flechas pallidas pelas setteiras profundas para dentro do mosteiro, alumia estranhos conclaves de espectros. O vento segreda nos nichos e á roda dos mausoléos, e baixinho parece orar aos pés do santuario. A chuva infiltra-se nas abobadas e humedece os cimentos. D’entre as junturas das pedras irrompem gramineas e zambujaes. Ninguem vai vêr o mosteiro e o portico está fechado. E aquella mole de pedra, emburelada em musgos e erguida á beira do mar, lembra um suicida ajoelhado fazendo a ultima oração.
No verão de 1880, o conde F. meu amigo, lembrou-me que poderiamos fazer na sua propriedade uma estação agradavel. Tinham acabado n’ella um chalet elegantissimo em tijolo vermelho, com tectos de cortiça apainelada, á beira-mar. O parque de eucalyptus, enorme e cruzado de aleas, que uma arêa negra polvilhava, offerecia já troncos de grande espessura e belleza, soberbos e direitos, sacudindo aos ventos salgados da costa os seus molhos de folhas em cutelo. Para o interior a vinha era tão exuberante que subia pelos troncos das arvores, os pomares alastravam-se turgidos de fructos n’uma distancia de milhas, e nas collinas que demarcavam o dominio, immobilisava-se o verde funebre dos pinhaes, cujos filamentos pareciam cabellos verdes de antigos deuses aricos. Na matta, a caça abundava, coelhos, rapozas, perdizes e gallinholas. Para obtermos a melhor pesca, bastava que debruçados na amura de rochedos, lançassemos as redes á agua. O calor em Lisboa apertava; imagine-se o que seria no Alemtejo, na casa de meus paes! Decididamente valia a pena ir com F., valia decididamente a pena. E partimos. Antes de penetrar na quinta dei com o mosteiro, em que nunca ouvira fallar. Veio-me naturalmente a curiosidade de o vêr por detalhe, e passar uma noite até, com as sombras legendarias e romanescas que tamanho medo faziam ás aldêas circumvisinhas.
Por baixo do edificio, o mar tinha escavado profundissimas cavernas que as algas mais finas tapisavam traiçoeiramente. Estalactites conicas desciam da abobada a encontrar estalagmites, em que os molluscos arrastavam mosaicos de incrustações excentricas. Por entre as columnatas o fragor da ressaca, nas noites de temporal, era de instrumentação titanica, e reboava no templo como a evocação biblica do Valle de Josaphat.
As grutas prolongavam-se nas trevas em todas as direcções, e iamos de gatas, escorregando nas babugens que a maré deixava na dentadura das penedias. D’uma vez o archote apagou-se-nos, e o phantastico palacio do mar não tinha termo—galerias sobre galerias, columnas truncadas e janellas abertas sobre a treva fetida e sepulchral!
Visitadas as cryptas, penetrámos no mosteiro. Tão pesada e ampla construcção fez-me vêr que a base perdia pouco a pouco a solidez, á medida que por baixo a onda ia limando o granito. Aqui e além até, as abobadas fendiam surrateiramente; em cada inverno chuvoso, se succediam os desabamentos parciaes, e o lagedo dos claustros abaúlava-se abrindo boccas nas junturas, de que uma respiração putrida parecia exhalar-se. Tinhamos chegado á quinta nos fins de maio, e em julho ainda lá estavamos. Mas fatigados já, o conde especialmente, que o retinham alli negocios de dinheiro, por que dizia sentir o mais authentico desprezo. Visitado o mosteiro, caçadas todas as perdizes, gallinholas e betardas do sitio, ferido nos viveiros naturaes da costa um bom golpe de pesca, as nossas duas imaginações impuzeram-se o trabalho de descobrir diversão, que nos garantisse a estada na quinta até meados de agosto—tempo de Cascaes e do jogo forte.
Uma manhã ergui-me antes do dia e fui acordar o conde.
—Achei, venho participar-t’o.
—O que achaste tu a esta hora?
—Uma distracção, c’os diabos!
—Da natureza das outras, aposto. Modificaste o feitio dos papagaios, hein?
—Ora adeus! disse eu rindo.
—Então dize lá.
—Sabes que me dou um pouco á telegraphia?
—Não tens lucrado muito com isso, não.
—Vaes vêr que se lucra sempre em saber as coisas. Vou mandar vir o meu transmissor aperfeiçoado e fios conductores.
—E estabeleces um telegrapho entre o chalet e a casa da Palmira. Estás tolo, com toda a certeza.
—Mau! Ouve.
—Bem! Dize.
—Ligo o transmissor por meio de fios, aos dez fios telegraphicos que se apoiam na rosacea do mosteiro. E recebemos os telegrammas fresquinhos e sem pagar nada. Hein?
—Mas, disse o conde encantado. É preciso que vamos habitar o mosteiro.
—E porque não?
Elle deu um salto na cama.
—Mas é esplendido!
—De certo.
—E póde-se alarmar o paiz.
—Não vejo como.
—Nem eu, c’os diabos, mas póde-se alarmar.
—Bem.
—E é como se os telegrammas nos fossem enviados directamente, como se nos obedecessem a agencia Havas, os gabinetes da Europa, as grandes capitaes, o Oriente, e o diabo que te leve, que nos leve e leve todo o mundo!
—Eia!
—E podemos incendiar o orbe.
—Pelo telegrapho? que idéa fazes do telegrapho?
—Eu, nenhuma. Não morde?
—Conhecendo as pessoas, não.
—Tanto melhor! E quando teremos os apparelhos?
—Ámanhã.
—Telegramma que passe, hein?...
—Não escapa!
—E gratis, gratuites, sem pagar nada, hein?
—Clarissimo!
—Dá cá um chôcho pela idéa.
—Prefiro um calix de Madeira.
No outro dia, o transmissor chegou com o rolo de fios, e mettemo’-nos á obra. Ás cinco da tarde recebemos o primeiro telegramma.
«S. Petersburgo, 8, ás 11 horas da manhã.—Uma bomba explosiva rebentou junto do czar, quando este se preparava para montar a cavallo. A policia procede em investigações.—Havas».
—Este diabo escapa sempre. É extraordinario.
—Ahi vem outro.
—Vou jurar que é bomba, que ainda d’esta vez não alcançou o invulneravel.
—Nada. «Paris 8, á 1 hora. Chegou a embaixada Birman e partiu o snr. Grevy».
—Todos para casa do diabo.
Estavamos no côro de marmore branco, com baixos-relevos representando martyrios de santos. Das paineluras negras, monges e virgens perdiam-se na penumbra da abobada, deslocada pelo templo com uma vastidão de crepes. As estatuas dos monges e cavalleiros pareciam colossaes, de immoveis nos mausoléos, essa austeridade das figuras de Miguel Angelo, no tumulo dos Medicis.
—É triste isto! disse eu commovido.
A perspectiva do mar, roxo da banda do nascente, tinha irritações animaes até á linha rubra do occaso—dorso de cetaceo ensanguentado pelo arpéo do sol moribundo. A vista, que percorrendo a immensidade liquida sem repousar n’um ponto, voltava com um desalento de ave ferida, trazia a idéa da morte e a saudade de uma existencia menos crua, n’esses dithyrambicos impérios em que as cabeças se corôam de flôres.
De repente, na absorpção em que tinhamos cahido, pareceu-me que um fremito percorrera o balaustre onde me encostava. E cada vez mais distantes, foram-se succedendo estalidos seccos.
—Não ouviste? disse eu ao conde.
Elle não tinha ouvido. O que?
—Parece que isto tremeu.
—É que te escutavas. E como estás com medo...
Pozemo’-nos a rir.
—Sabes que mais? Vamos passar a noite ao chalet.
—Cobarde!
—Tanto melhor! E se esta dança nos cahisse em cima?
—Oh diabo! Podia ser que não ficassemos vivos, não te parece?
—Quasi.
—Então vamos. Primeiro a tua saude.
—Obrigado. Queres que eu tenha medo por nós dois.
—Mas os telegrammas?
—Ámanhã continuaremos na exploração.
—Olha bem para mim. Isto é exploração ou roubo, hein?
—Seja roubo. Anda.
—Então dá ás coisas os verdadeiros nomes, irra!
Descemos. Aquelles estalidos tinham-me dado calefrios, palavra de honra.
—Como tu vens enfiado! dizia F. troçando.
—Como tu vens amarello!
—Qual de nós teve maior susto?
—Foste tu; é boa!
—Foste tu; pois quem?
—E se ficasses na derrocada, ó conde?
—Não tinha pena, palavra.
—Bem, não fallemos mais em tal.
—Mas ámanhã continuamos com os telegrammas?
—De certo.
—E elles que chegam como garraios!
No dia seguinte, era meio dia quando acabamos d’almoçar. O conde bebia como um saxonio, para honrar a memoria do irmão de seu tio, dizia, honrado commerciante londrino do Caes do Sodré.
Em plena luz e sob a pressão de quatro garraforias ninguem tem medo. Vamos aos telegrammas?
Deitámos caminho do mosteiro, e entoando o God save the queen apparecemos ante o portal gothico do templo. F. gritou-me zombeteiramente:
—Adiante! Era elle quem tinha medo.
Subi ao côro. Na fita de papel, sempre em movimento e desenrolando-se com imperturbavel presteza, no cylindro de aço annexo ao apparelho, o punção do receptor tinha escripto, horas antes, este telegramma:
«Paris 9, ás 10 horas da manhã.—Terminou o prazo de 24 horas concedido aos jesuitas de Paris, para sahirem das casas que occupavam e fecharem os cursos publicos que regiam. Hoje ás 11 horas, a policia fará despejar todos os estabelecimentos da Companhia de Jesus. Receiam-se disturbios. O prazo de 15 dias foi cedido aos estabelecimentos da mesma Ordem, em actividade em toda a França.»
—A padralhada vai ficar fula! gritou F. O que dirá padre Kurpi, respeitavel e escanhoado director espiritual de minha tia baroneza? Eh! que vai tudo razo!
—Uma hora. Isto enfastia. Vamos ás ostras.
—Não vejo inconveniente, disse o conde com um jogo de hombros. Vamos lá.
—Se passar algum telegramma, o punção deixa na fita escripto o que houver.
Descemos aos rochedos e das rochas á arêa. A maré enchia, e uma agua crystallina e tepida, do sol no zenith, acariciava lubricamente as barbaças das caryatides d’alga que á bocca da gruta faziam carantonhas.
—Já fizeste a digestão? inquiriu F.
—Já e tu? E o banho está tão patife!...
—N’esse caso atiremo’-nos á agua.
—Vá feito.
Em cinco minutos, as nossas cabeças sahiam á flôr do oceano como as d’esses tritões alegres, que nas estampas rodeiam os carros em concha dos deuses marinhos. Nadavamos a distancia em frente da caverna, que vista d’aquelle ponto tinha as mais singulares parecenças com uma bocca de reptil descommunal.
—Repara, dizia eu apontando. Aquella fita de arêa clara que forra a entrada, é como um beiço estendido. Depois, logo as primeiras pedras aguçadas compõem a porção incisiva e canina da dentadura. Olha para o fundo. Vês as estalactites conicas que descem do tecto? São os dentes do crocodillo com fome. Olha mais para o fundo, aquella arcada incompleta—é a guela. Lá tens a uvula, o céo da bocca retalhado de sulcos negros. Agora para cima da bocca, aquella buracaria em triangulo. Primeiro temos as narinas, ferozes e dilatadas. Nas horas de borrasca a agua esguicha por alli, como dos respiros de uma balêa. E os olhos, tão profundos e sem orbita! Depois a cabeça, toucada do barrete gothico do mosteiro.
—É original! dizia F. reparando.
—É terrivel, juntei eu.
Continuámos a nadar. Um zumbido de vida exuberante sahia da agua. De cabeça estendida, eu olhava a caverna. Parecia-me ter notado um movimento lateral de maxillas, na estranha bocca do inferno. O monstro triturava. Diabo!
Ri-me d’alli a pouco do poder da minha imaginação, irritada ante aquelle scenario de titans.
A faiscação do astro vestia o cetaceo do mar n’uma couraça de relampagos, e uma rêde de oiro amoldava-se á ondulação do monstro respirando. Mas então notei que as estalactites oscillavam, e as fauces do antro se uniam n’uma estrangulação de raiva. D’essa garganta formidavel de agonisante, um oceano arremessou contra nós montanhas de agua negra, fervilhando em espuma sulphydrica.
A violencia do jacto foi tamanha que ambos nós, eu e o conde, fomos morder a arêa do fundo, distantes da caverna como estavamos. Das entranhas da terra sahiram rugidos como se o mundo fizesse derrocada—vimos mexer o convento, abaterem-se as flechas das torres, desabar a abobada com fracasso indescriptivel—a vaga atirou-se raivando de encontro aos destroços, como um mollosso aos peitos de um vencido. E meia hora depois, no sitio do mosteiro assentava a pyramide torva dos destroços, sobre que as gaivotas aos gritos descreviam as suas espiras fatidicas.
Chegado á praia e envergado o fato, o meu primeiro cuidado foi vêr as horas.
—Tres e meia! A derrocada tinha portanto sido ás tres, no dia 9 de junho de 1880.
O conde chegou a casa sem poder fallar. Nunca assistira a espectaculo mais grandioso. Nem o incendio do Banco.
Dias depois, um criado da quinta veio trazer-nos intacto o receptor que pudera salvar nas ruinas, e um bocado de papel onde estava escripto a punção, o seguinte telegramma:
«Paris 9, ás 3 da tarde. Completou-se em Paris a expulsão dos jesuitas. O povo assistiu sem protesto ao cumprimento dos decretos da Republica. Reina socego».
Pois que o povo era indifferente, a pedra quizera protestar derruindo, contra essa lei que afugentava implacavel, as tristes ovelhas do Senhor!

O Ninho d’Aguia

Na tarde anterior dirigira-me ao montado, cahia a noite. Uma contemplação profunda fazia-se em torno e o campo adormecia. Sobre as arvores, o céo concavo tinha laivos rosa, como sorrisos tristes de boccas que exhalam o ultimo adeus. Longe, por entre os caules seculares dos azinhaes e carvalheiras, uns acharoados de incendio ardiam em apotheoses fulgidas, sobre que os braços do arvoredo desenhavam em negro fórmas de estranhos esqueletos. Cahiam a prumo, d’uma banda e outra, fórmas de granitos aridos mostrando nos reconcavos e na profundeza lobrega dos barrancos, os primeiros phantasmas da noite com os seus capuzes de sombra derrubados na fronte, e um escorregamento de passadas mysteriosas—como de ronda sinistra que desemboca na quietidão d’uma viella, no silencio da noite velha. Ao centro do abysmo, a vereda serpenteava, corcovando a sua fita saibrenta por entre agglomerações bruscas de basalto e grés vermelho, d’onde os matagaes irrompiam como hirsutos cabellos d’uma cabeça decepada. Por sob a vegetação aggressiva dos espinheiros e zambujaes, uma linha d’agua corria, fazendo murmurios timidos de segredos trazidos de fraga em fraga—e essa queixa contínua e chorosa das gotas cahindo manso, acrescentava uma nota saliente á symphonia em surdina dos vegetaes adormecidos e dos ultimos ninhos em rumor. O montado começava d’alli a subir pelo irregular das collinas. Não podia enganar-me na marcha. Tinham-me dito—vaes pela vereda, chegas ao cotovêlo da rocha, á esquerda, sobes a encosta.
—É a ultima azinheira, tronco direito e vermelho, com a cortiça descascada. Leva corda para subires. Olhas para cima, aproximas-te sem fazer ruido, ouve bem—sem fazer ruido! Dás com o ninho logo. Quando a noite se fecha, a aguia chega, azas abertas, vôo circular e gritinhos alegres de boa ménagère que volta, com o dia ganho e um reptil no bico curvo, para os pequeninos esfaimados.
Eu decorára todo este itinerario, promettendo não esquecer a menor cautela, iria devagarinho, muito devagarinho, sem chapéo, descalço mesmo, olhando para cima e em direitura á azinheira de tronco vermelho e nú de cortiça. Tinha então doze annos, era rubro e selvagem, de grenha fulva, os dentes pequeninos e ralos, muito brancos, que erriçavam de gumes o meu riso escarlate e feroz—de korrigan vingativo. Achavam-me o orgulho de um rei e a pouca educação de um herdeiro presumptivo. Era de poucas palavras, vinham-me ao sol alegrias colossaes que transbordavam de mim como o rufo de um tambor extravasa da caixa de ar; todos os meus musculos amplos e duros na contracção, contornados nas linhas altivas de um athleta imberbe, amavam a lucta e se tonificavam na carreira. Passára até alli n’uma herdade, entre boiadas de que uma mansidão poderosa se abala glorificando a força, á rabeira dos arados, plena liberdade monteza, onde o homem regula as pancadas do seu coração pelo palpitar tranquillo da grande natureza que desabrocha em evohés hilariantes. Manhã nada já eu estava a pé, sentado á banca da cozinha com os ganhões da herdade, diante da açorda patriarchal que o alho impregna de odores vermifugos. Vestia como elles a camisola de lã, o largo chapéo de borla e os grossos sapatos cardados do agricultor, pião na algibeira, uma cicatriz transversal na testa, de pedradas antigas. Era imperioso e adorado; de resto abusava, dizia sempre—quero porque quero! Quando eu dormia, minha mãi ia beijar-me, e d’uma vez acordando sob um d’esses beijos, que são como nymphêas albas cahidas no marmore das epidermes frias, voltei-me e disse-lhe enraivecido:
—Os homens não se beijam, apre!
Queimava em podendo, as bonecas de minha irmã, gostando de a vêr chorar e de a fazer soffrer para me rir depois.
—Bem feito! Bem feito!
D’uma vez bateram-me. Em quanto eu berrava, o gallo cantando, fazia apotheose da postura recente de uma gallinha amarella, que desposára. Fui-me a elle e torci-lhe o pescoço.
—Para não mangares commigo. Toma!
A eira, diante do monte da herdade, era em plano inclinado, dura e polida, sem hervas. Deitava-me no cimo e vinha rolando até baixo. Nunca conseguiam trazer-me limpo—que tinha um odio insoffrido pelos fatos novos e pelos peitos engommados, considerando a gravata um traste inutil, de que me servia para amarrar chocalhos ao pescoço das ovelhas. Só annos depois acreditei que o mundo que eu não conhecia, o outro, fazia d’essa tira de sêda uma fronteira e perigosa—por muito infestada pelo contrabando.
N’esse dia, mal deram cinco horas e me apanhei fóra da escóla, deitei caminho do montado. Tinha á cintura uma corda de linho com azelha, para subir á arvore, e no bolso uma navalha de podar com gume de fouce. Todas as precauções foram por mim empregadas. Ao dobrar da rocha, descalcei os sapatos e tirei o chapéo. Metti a navalha no peito e desenrolei da cintura a corda. Depois, resolutamente dirigi-me á azinheira. Lá estava o ninho, era enorme e construido sobre tres pernadas robustas—como sobre os tres dentes de uma forquilha. Eu nunca vira coisa igual, a fallar sinceramente. Tinha o feitio oval de um berço e ficava tão alto, tão alto que fazia vertigens. Era preciso subir até lá. Atirei a laçada á primeira bifurcação do tronco, icei-me.
Depois, escarranchado na pernada mais solida joguei com o laço ás ramarias superiores e fui subindo. Á medida que me elevava, a ascensão entrava a difficultar-se: as folhas em tufos compactos prendiam-me os cabellos, os ramos oscillavam sob o peso do meu corpo, e de quando em quando soavam estalidos ameaçadores. Mas via já bem o ninho d’aguia. Primeiro havia um alicerce de quatro ou cinco ramos de sobro, cruzados; depois um leito de folhas seccas e pequenas hastes; sobre o leito, folhas macias de trevos, de tamuges e fenos—e forrando delicadamente o estojo, uma colcha de pennugens brancas que a aguia arrancava do peito, nos seus transportes de mãi. Com insano trabalho cheguei-lhe ao pé. Pulava-me o coração no peito, como um pinto no ovo de que nasceu, e qual não foi a minha alegria ao vêr aconchegadas no ninho, uma de encontro á outra, adormecidas e tremendo de frio, duas aguiasinhas implumes, disformes ainda mas de vigorosas proporções! Cerrára-se de todo a noite. Um claro luar com reflexos metallicos atravessava as vaporisações do arvoredo penetrando-as de uma poeira lucida de atomos scintillantes. Nas faias da ribeira, os rouxinoes faziam jogos floraes, arremessando-se os sonetos mais rhythmicos; o veio crystallino dos regatos ia contando ás folhagens humidas dos balseiros e canaviaes, uma lenda antiga de fadas azues e thesouros maurescos, narrativa muito em segredo, entre murmurios de beijos que ao longe mansamente se perdiam.
Dava trindades o sino da aldêa—e as aspirações pairavam n’aquelle calado ar, em que as borboletas reaes saltitavam traçando sinas de mulheres predestinadas. A lua na tela do céo esmaiado, lembrava com as suas ranhuras, a mascara da Comedia no panno de uma opera-comica, que a luz da ribalta illumina. Ergui os olhos—acabava de ouvir um grito. Vi a aguia pairar um momento por sobre a minha cabeça, de azas abertas, cujas remiges em cutelo sifflavam como as vélas de um moinho em actividade. Depois aquelle vulto negro desceu perpendicularmente, raivoso da minha audacia e estendendo o bico de gumes curvos, para me ferir. Agarrado á corda dei um salto abandonando o ninho, e fiquei suspenso da arvore um instante, a dez metros do chão pedregoso e batendo os dentes de terror. Que fazer? A corda por curta, não chegava ao chão. Deixar-me cahir era morrer. De repente porém, a enorme pernada deu um estalido secco, houve um attrito de folhas e lentamente vim baixando. Quando pousei no chão, com os dois filhos da aguia no peito da camisola e a navalha nos dentes, senti um prazer sem limites. Tinha destruido uma felicidade e praticado a façanha de subir á azinheira, sem outro auxilio mais que o de uma pequena corda nodosa e fina. Levaria os implumes para a herdade e creal-os-hia com carne e sangue fresco, de cordeiro. E elles cresceriam, alcançando as poderosas fórmas dos paes—bico adunco e corneo, a terrivel garra contractil, symetria elegante nas azas, que um jogo muscular movimenta com inexplicavel destreza. E pertencer-me-hiam, estariam na gaiola por minha vontade, comeriam se eu quizesse. Esta idéa de ter alguem sob a minha obediencia encheu-me de orgulho. Podia fazer mal sem ter medo das queixas que arrancasse. E vinham-me tendencias para opprimir, para espicaçar, para expôr á tortura. Tambem meu pai me batia! Que soffressem! Na azinheira, a aguia ia de ramo em ramo, soltando a cada investigação inutil, o seu grito melancolico. Corria as arvores proximas, voejava quasi á flôr do terreno, batendo com as azas nos tojaes da selva, e indo em todos os sentidos como allucinada. Depois abriu as azas horisontalmente com um pulo, susteve-se nas pennas como n’um pára-quedas, e com firmeza cortou o ar obliquamente, subindo á região das nuvens. De quando em quando, na calada do campo morto, o seu grito de mãi roubada ouvia-se na escuridade—como o silvo de um barco em perigo que pede soccorro.
A minha paixão d’aquella noite foram os filhos da aguia.
Persistia na idéa de creal-os—de os fazer gente, dizia eu. Tinham os olhos quasi fechados, com uma orla amarella e a nictitante espessa, meio descida. O pescoço nú offerecia um desenho esguio, andavam de rojo, dando pequenos gritos em busca da pennugem quente da mãi. Metti-lhes á força miolos de pão pelo bico, que elles bolsaram escancarando a guéla com carantonhas de uma graça infinita. Em seguida servi-lhes agua, mas recusavam tudo, os biltres, e se os deixava um momento punham-se a girar de cabeça alta, á procura do aconchego que não sentiam. Minha irmã que apesar do mysterio em que eu envolvia as minhas operações, conseguira espreitar o que eu fazia, trouxe-me então a idéa de metter as aguiasinhas debaixo da gallinha que na capoeira chocava os ovos que fôra pondo.
—Ella pensa que são já pintainhos, e as aguias vão crescendo, crescendo... E dás-me a mais pequenina, sim?
—Dá!... uma figa.
Quando nos mandaram deitar ás oito horas, tudo estava feito—a gallinha consentira em adoptar os dois orphãos e a coisa ia bem! Não pude dormir em toda a noite com a idéa nos pequenos. Se a gallinha os picasse, se os deixasse cahir do cesto!... Os gatos lançar-se-hiam furiosos contra esses dois desamparados e devoral-os-hiam, rosnando.—Applicava o ouvido: se ouvisse chiar saltava logo da cama. Quanto tempo levariam a crescer? Um mez ou dois—estavamos a quatorze. E contava pelos dedos—era tanto tempo ainda! Mandaria fazer um carro, que os filhos da aguia puxariam. E com que inveja ficariam os rapazes da escóla, vendo-me arrebatado pelos volateis, como esses deuses que representava o Manual Encyclopedico! No dia seguinte, ergui-me cedissimo, havia estrellas ainda. E mesmo descalço fui, pé ante pé, até á capoeira, para investigar do que havia. Os moços na eira, faziam já girar os bois na retraçagem dos calcadouros, e ouvia-se na altura o angelus vibrado pela cotovia. Acocorei-me devagarinho ao pé do cesto, estendendo as duas mãos ao longo da palha.
A gallinha dera signal, e cheia de colera, as pennas alvoroçadas, precipitou-se contra mim á bicada, implacavelmente, até me fazer sangue. Ás apalpadellas percorria a cama de palha em que os ovos se aninhavam; achára apenas uma das aguiasinhas. Diabo!...
Então, sem medo já que dessem por mim, corri a abrir a lucarna, e o dia entrou, humedecido pela neblina cheirosa da manhã. Estava apenas uma aguia, era certo!... Dei um berro de novilho marcado a ferro candente, que resoou por toda a casa. Queria a outra aguia por força, por força, por força! Queria-a, então? Queria a porque queria! Era minha, tinha-a eu achado, então? E como ninguem dava resposta entrei ao pontapé a tudo, ebrio de uma raiva sanguinea. E n’um formidavel choro rolava-me pelo ladrilho todo nú. Todo o meu grande desejo era que me attendessem e viessem todos surprehendidos, saber o que havia. A voz de minha mãi chamava pelas criadas; entrei a sentir nos quartos ruidos bruscos de sapatos que se arrastam e saias que se enfiam, á pressa. Já gritava menos, conseguira o meu fim, tinha incommodado e mettido susto a todos de casa. Era bastante! Agora, iriam todos procurar a minha aguia, haviam de m’a encontrar por força, ou arranjar-me outra novasinha em folha, como aquella. Apre!
Quando de repente me chegou o grito da mãi roubada, grito brusco e quasi surdo, como se o coasse uma larynge extincta. Toda a noite o ouvira, ora perto ora distante, e sempre com uma nota de ira impotente e supplicação desprezada, na tenebrosa calada do matagal. Fui para a lucarna instinctivamente attrahido, á escuta. Era um grito intermittente, primeiro muito fraco e repetido, como de alguem a gemer—gri! gri! gri!—; após, subitamente, essa voz dilatava-se, enrouquecia, fazendo quasi um bramido. Uma mulher não expressaria melhor a angustia, o desespero e a morte. Córava o oriente como uma epiderme sadia traduzindo a commoção d’um beijo; nas moradas dos ninhos, entre decorações de folhagens e caricias de poetica doçura, as familias de passaros, de melros, de pintasilgos, rolas e poupas, chilreavam felizes e singelas, deslumbradas na irradiação do céo.
Só ella, a aguia, ia chamando embalde pelos seus, através a vastidão egoista do ether, em que a vibração luminosa ondulava, e apunhalada no seu unico amor como essas crueis imperatrizes, que Deus castiga no unico ponto vulneravel da sua alma.
Com os olhos alongados, via-a rastejar á flôr do sólo, pelas chapadas e penhascos, extenuada e rouca, despregando as azas obliquas, de enormes remiges em cutelo, como tectos de lares despovoados pela assolação da morte.
—Coitadinha! dizia eu commovido. Coitadinha!...
Então fiquei entorpecido n’um constrangimento profundo e singular, que nunca tinha experimentado. Sentia na guéla o embaraço inexprimivel, que é nas crianças o prologo do choro, do grande choro soluçado e inconsolavel, sob que a alma germina em bons impulsos e leaes dedicações, como na terra se abrem as flôres primaveraes, sob o influxo das primeiras chuvas.
Antes que viessem surprehender-me corri a vestir-me, e resoluto, os olhos cheios de lagrimas e a corda á cintura, voltei a buscar depois a aguiasinha. Minha irmã chamou-me, soluçava.
—Olha, morreu!... disse-me toda afflicta, mostrando-me o cadaver da outra aguia, que durante a noite, com mil precauções tinha ido roubar ao cesto.
—Por isso achei falta, gritei colerico, batendo o pé. E aos urros, crescendo contra ella de punhos cerrados, dizia-lhe golfando improperios:
—Maldita! Má! Peste! Nosso Senhor ha-de castigar-te, deixa estar.
Ai de mim! Na capoeira, a gallinha raivosa, reconhecendo o outro engeitado á luz da manhã, acabava de o matar á bicada, lançando-o fóra do cesto.
Então desatei a chorar. Nunca fôra tão desgraçado, nunca!... Nem quando me davam açoites com o chinelo, o que estava debaixo da cama de meu pai, a rir-se de mim pelo buraco ignobil da tomba. E agora, que fazer?
Metti no seio da camisola os dois engeitadinhos mortos, e a correr atravessei a eira, sem dar bons dias a ninguem. O dia começava. Rasgando as escuridões em que se envolvera, o panorama sahia das nebrinas dissipadas a golpes de sol aqui e além, nas cristas dos outeiros. Desci a correr a ladeira do monte, pendores suaves d’onde o olhar abrangia para todos os lados, perspectivas do mais bello matiz, montados, restolhos de searas, regatos orlados de choupos e faias, mais para além, hortejos alegres onde chiavam noras e se espiralava o fumo dos casaes, vinhedos sem fim bordando sinuosidades bucolicas, brancas ermidas pousadas nas montanhas, e perdendo-se na serenidade esfumosa do horisonte, povoações que na luz iam fazendo mais e mais nitidos os seus delineamentos. A paizagem tinha agora uma nitidez de gravura. As aldêas sorriam para o noivado da natureza em festa, em quanto d’uma banda e outra, grandes massas de arvoredo abriam destaques surprehendentes.
Iam tranquillamente pelos terrenos ceifados, os carneiros dos rebanhos, alongando o pescoço, a fofa corpulencia tufada da lã patente em camas de espiraesinhas miudas.
Alguns velhos guias experientes e graves, de focinho erguido, a grossa cornadura em anneis de diametros crescentes, toda enrolada como o arripio da cabelleira de um dandy, chocalho pendente por corrêas de couro crú, a orelha inquieta, olhavam vivamente o largo, bebendo os sons e procurando-lhes a origem solicitos, como quem tem sobre si a responsabilidade da tribu e o futuro dos pequeninos. Acima da redondeza das ancas de alguns, cabritinhos fulvos, de grandes orelhas horisontaes, uma meiguice candida na vista, erguiam-se a prumo furando caminho, as maxillas entreabertas, por onde se escapava um queixume tenuissimo—mé! mé!—alguma coisa como os rudimentos da cartilha do rebanho. Varios preguiçosos, estacados a meio da corrente mergulhavam o focinho na agua, bebendo. Poucos tinham já passado, e cortavam a dente as gramineas alastradas nas barranceiras. O velho cão descança, n’uma postura séria de patriarcha, em quanto nas meias tintas dos planos secundarios, o pastor de manta ao hombro e polainas encarquilhando na grossa tromba dos sapatos cardados, tinha o seu ar pasmado de montanhez, olhando a catarata de ouro fundido que o sol jorrava do nascente, n’uma apotheose de causticas vivas—olhar em que se estagnava a silenciosa doçura triste dos olivaes cinzentos e se reflectia a concepção pantheista de um Deus amantissimo, que fecunda os trigos das searas, preside ás crias e vem de noite, mansamente, com o seu capuz de estrellas derrubado para diante, lançar a benção ao gado que dorme, inoculando no sonho do pastor o esmalte de um sorriso de ceifeira, vermelho como as cerejas humidas de junho.
Correndo através do montado cheguei á ribeira, que pude salvar n’um pulo de lobo, e sem me deter entrei a trepar a pedregosa encosta, na direitura do ninho. Faziam-se alli accumulações selvaticas de tojeiros e silvados, cabeças de rochedos pardacentos, espinhaes de luxuriante amplitude, que tolhiam o passo a quem ia. E aquelle recanto plutonico e brusco desenhava-se n’uma como penumbra de floresta, que de cima cahia filtrada pelos amontoados da folhagem. Deixára de ouvir a aguia, e era pungente o socego d’aquella região, equiparado ao orpheon gigantesco de volateis, que na planicie entoava o poema symphonico da manhã. Por duas ou tres vezes ergui a voz para insufflar a vida nos echos do desfiladeiro. De rocha em rocha quando muito, o echo repetia a ultima syllaba, n’um murmurio timido como rezado á roda de um feretro, e morria.
Pela montanha, troncos penitentes e negros, orando de braços abertos. Nos pegos da ribeira, as reticulações verdenegras dos limos deixando evolar a putrilagem das febres más. Silencio abrazado, pesando.
Quando cheguei ao ninho arquejava. E antes de erguer a vista sobre elle, detive-me um instante, olhando á roda com um terror sombrio que o remorso envenenava. Se a aguia désse commigo podia matar-me á bicada. E teria razão—ai de mim!
Estava sósinho. Não se via d’alli o monte já. De repente, casualmente, sem mesmo querer, dei com a aguia que de cima do ninho abria as azas, e sobre mim estendia o seu pescoço avido. Fiquei tremendo ante a raiva silenciosa que paralysava a terrivel rainha. Ella ia de certo formar vôo e cahir sobre mim, para dilacerar-me com as suas garras de tres gumes implacaveis de uma vingança cruel.
Olhamo’-nos por tempo. As azas da aguia abriam os seus leques enormes de varetas curvas. A immobilisação porém continuava e o pescoço permanecia cahido á borda do ninho. Veio-me a idéa de que podia estar morta. Atirei-lhe com uma pedra—a mesma indifferença.
Sem querer saber de mais, desenrolei a corda e atirei-a á primeira pernada da arvore. Quando attingi a altura do ninho, pude olhar bem de perto a aguia agonisante, que um fremito vago percorria. Era poderosa e magnifica, de enormes azas pardacentas, cujas fortes remiges se aguçavam como punhaes, na ponta. Estava de bruços sobre o ninho, como se quizera aquecer o peito de encontro aos froixeis alvinitentes em que os filhinhos tinham visto a primeira luz. A cabeça um pouco chata descahia adiante n’um bico de bordos dentados, e sobre a iris de oiro, a nictitante ia descahindo na sombra da agonia, como um apagador sobre a luz do cirio paschal.
A aguia morreu n’esse dia, á mesma hora em que as outras aves voltavam cantando aos ninhos, para dormir com a prole. Por muito tempo, cruzando o montado atraz dos rebanhos de meu pai, pude vêr nos cimos da azinheira gigante, suspenso o berço-tumulo, a que o esqueleto da aguia fazia guarda, dia e noite, de azas estendidas, branquejando na sombria folhagem da arvore. E vinham-me então remorsos, que fôra eu o assassino d’aquella dynastia real!
Vai completar-se um anno que a tua filha desceu á cova, ó minha mãi! E vendo-te curvada no teu luto, pobre mulher envelhecida de lagrimas, sublime por toda uma vida de abnegação sem exemplo, para mim fico pensando, que deve ser cruel o Deus que tu adoras, se nunca teve remorsos de haver roubado tambem—o Ninho d’aguia.
1881—Villa de Frades.

A Dor

Quando o ultimo orango deu origem ao primeiro homem, e esse homem, chegando á virilidade pôde desfrutar a grandeza da indomavel força de seu pai, domada pela bondade hilariante da sua luminosa intelligencia, fez um dia a si proprio esta pergunta:
—Em que diffiro eu d’aquelle carrancudo sêr, que não falla senão por guinchos e só por contracções grotescas se exprime, que para a alegria tem um grito e um urro para a cólera, que vê morrer os filhos e fugir-lhe a esposa, sem que o invada este desconsolado entorpecimento que eu sinto se não remedeio o mal, e se para o que me cerca não encontro explicação?
Elle caminha aos saltos, coberto de pellos e ululante de vinganças, trepando pela nodosidade dos caules e enchendo do seu terror feroz as grutas e os maciços das florestas palpitantes de ninhos, pisando sem remorsos as corollas mais purpureas e os calices mais olorantes, e não vendo na vastidão opulenta e na chromatica irradiante d’esse mundo alado ou d’esse mundo vegetal, mais que a rêde em que descuidosamente os seus inimigos vem cahir e onde elle faz as suas victimas!
É das differenças superficiaes de estructura—de eu estar nú e elle vestido de pellos, de elle ter cauda e eu não, dos seus pés terem o feitio das suas mãos prehensis, em quanto as minhas plantas se espalmam pela asperidão das marchas a que as submetto—é das differenças apparentes de organismo, que nascem estas discordancias de natureza—n’elle a seccura, a ferocidade, o egoismo e a inconsequencia—em mim o sagrado terror da responsabilidade, o alcance de vistas que me perturba, a previsão sagaz que me aconselha, e esta commoção sem origem que se entorna no meu corpo, e me tortura ou me enthusiasma, conforme provém de uma necessidade satisfeita, ou conforme provém de um contratempo inesperado?
E como se interrogava em voz alta, no meio dos castanheiros que as trepadeiras vestiam em amplexos concupiscentes nas suas couraças de folhas, viu surgir dos rochedos negros em que pousava, o velho deus das selvas, alta figura cingida, de cachos e coroada de flôres, com barbas de musgos e vasta cabelleira de relvas verdejantes.
—Abre a cabeça de teu filho, disse o deus.
O homem tomou o machado de silex, chamou seu filho, e fazendo-o ajoelhar fendeu-lhe o craneo de um só golpe.
—Essa caixa de osso que partiste, é como a casca lenhosa de certos fructos tropicaes de que te alimentas. Partida a casca, esses fructos revelam a polpa delicada, de extraordinario tecido e exquisito sabor.
—Guarda esse fructo, disse o deus.—E após, com imperio:
—Abre a cabeça de teu pai! ordenou-lhe. O homem encontrou na toca do grande baobab o velho orango que lhe dera o sêr, acocorado e tropego, roendo talos. Deu-lhe as boas noites, pediu-lhe a benção como de costume, e quando o orango lhe estendia a mão lanugenta, sentiu na fronte o gume do machado que lhe separava o craneo em duas metades.
—Extrahe-lhe o fructo, tornou o deus, e o homem obedeceu.
—Bem, disse o outro.
E apontando cada um dos cerebros desnudados:
—Este é o cerebro de teu filho, este o de teu pai. Vês que é maior o do pequeno que o do velho, não vês? Agora segue com a tua unha estes arabescos mysteriosos que sulcam a polpa arrancada ao pequeno. Elles desenham o quer que seja de legenda em hieroglyphicos: é a buena-dicha da especie humana. São as circumvoluções, que mal se esboçam no cerebro do orango e que os teus levarão mais e mais profunda e profusamente impressas. Até teu pai o cerebro era alguma coisa tosca como o granito; de ti por diante elle lapida-se, depura-se e modifica-se—é a pedra preciosa, caustica na sombra e tenebrosa na luz, dotada de fulgor proprio e propensa a illuminar ao longe os tenebrosos recessos dos instinctos que herdaste e tens de transmittir suavisados e aptos á utilidade, pela cultura a que tu mesmo os forçarás. Corta-os ambos em pedaços e examina-os bem. São da mesma materia, teem identica fórma e parecem do mesmo valor. Mas um é o ferro bruto que o mineiro distilla do filão recondito, o outro é o ferro dotado de propriedades magneticas. Pódes chamar áquelle, carvão negro e torvo, se tiveres olhado n’este o diamante lapidado, que scintilla pelos engastes das tuas orbitas como se ardesse vívido na corôa de um rei.
—Comprehendo! disse o homem pensativo.
—Olha melhor esse miolo dos dois fructos descascados. Cada polpa se me afigura formada de lobulos ou espheroides. É como um continente dividido em nações pelos grandes rios, ou um paiz repartido em districtos, pelas grandes estradas reaes. Cada districto é a potencia que rege alguma determinada funcção do corpo—são as bossas. Ha a bossa da memoria, a bossa da intelligencia, a bossa da luxuria, a da gula...
E apontando cada proeminencia, o deus chamava-as pelos seus nomes. Algumas que eram salientes na criança, ou mal se esboçavam no orango ou positivamente não existiam[5]. Em compensação o cerebro do bruto tinha n’outras, um desenvolvimento colossal a respeito do pequeno. O deus fazia-as comparar miudamente, uma a uma.
—Todas as que presidem á direcção de necessidades animaes, instinctos ou appetites, são consideraveis em teu pai, dizia elle ao homem. Todas as que se referem ao intellecto são de surprehendente grandeza em teu filho. Eis por que buscas alguma coisa mais na vida que a replexão do teu estomago se tens fome, que a ingestão de agua corrente se tens sêde, que o repouso se tens somno, e o coito brutal se a virilidade do teu sexo faz explosão ante a femea que passa, serva obediente da tua crueldade ou docil instrumento da tua lascivia! D’esse instincto, que a natureza instituiu para povoar os seus continentes e os seus mares, encher de rumor as florestas e de cardumes as aguas, instincto todo grosseiro nos que te são inferiores, tiraste tu os effeitos mais dôces, as symphonias mais limpidas, os mais castos threnos e as mais scintillantes volatas. Chamaste-lhe o amor, e crystallisando o amor transfizeste-o na adoração. Á femea escrava quebraste as algemas, não consentindo que os seus pés sangrassem, como os teus rudes pés de luctador, nos abrolhos da selva e nos espinhos da maledicencia. Da tua rude cabana fizeste um templo, da tua fé um lampadario, uma cupula da tua religião e da mulher o teu deus. No santuario do teu amor, puzeste o deus, e da cupula do templo o lampadario encheu de esplendores mysticos a tua familia e a tua alma. Pela adoração domaste a tua força, aprendendo a ser delicado para os fracos, altivo para os soberbos, cruel para os maus, justiceiro, generoso e valente! Estas qualidades deve-las á tua intelligencia, fluido singular que emana d’este lobulo—e apontava—e te destacou dos teus antepassados. Por essa faculdade, dominarás os elementos e os animaes, serás rei e senhor, porque o teu braço obedecerá sempre á tua cabeça. Cada geração receberá da anterior um patrimonio de idéas adquirido, entregando religiosamente á que lhe succeder, acrescentado pelos seus esforços, esse patrimonio sagrado e inviolavel. A tua ambição será satisfeita, descança.
—E serei eterno? disse o homem, tremendo áquella idéa.
—Na historia.
—Na vida! Que me importará a historia? Se poderei viver assim sempre, dominando mares e povos, e experimentando cá dentro esta plenitude de seiva que extravasa do meu corpo, e se desentranha em colossaes alegrias?
—Não! disse o deus com voz profunda. Morrerás!
—De que me serve então tudo isto? exclamou elle contrahindo a face serena, que uma graça infinita deificava. E erguendo os braços desesperado cahiu a chorar a mesquinhez da sua condição. O velho deus sorria.
—E qual a bossa, que no cerebro de meu filho corresponde a este horrivel veneno que a tua palavra me faz beber?
O deus apontou-lh’a, dizendo:
—Esse veneno chama-se a Dôr e nunca envenenou teu pai.
—Faze-me então voltar á nativa bruteza dos meus, disse o homem. Prefiro a inconsciencia rude do orango, a essa intelligencia que illuminando-me a vida me faz d’ella um ergastulo, e onde não poderei fazer um passo, bom ou mau que seja, sem que este tribunal interior, incorruptivel e soberano, me detenha se vou com pressa, ou bruscamente me acorde se adormeci, para me julgar do que eu fizer e para me castigar a toda a hora.
A voz do deus bradou:
—Jámais!
E desde então esse animal vaidoso, julgado o mais perfeito e o mais livre dos sêres vivos, tornou-se no miseravel escravo que eternamente geme sob o chicote do seu verdugo—esse verdugo que se chama: o Pensamento.
FIALHO D’ALMEIDA
CONTOS
PARTE II A cidade do vicio
NO PRELO