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Contos

PARTE I OS DOENTIOS (continued 2)

Reading edition

—Mas não pódes, não tenho ordem, percebes?—E dava razões:—ella estava com causticos, com una emplastos na espinha; tinha acabado de tomar o remedio; era um banho forte, que fazia dormir. E que bem tinha visto pelo oculo, pois não era verdade? Não lhe tinha visto os olhos fechados? era somno, está claro! E que se queria vêl-a boa, não a fosse agora acordar, a pobre velhota. Percebes?

—Ámanhã vens tu aqui, entendes?—de manhãzinha cedo, e talvez já ella esteja capaz de te vêr; entendes? Pois isto é que é.—Elle de cabeça baixa, reflectia.

—Vossemecê não me engana, não? Sou um pobre de Christo, vivo dos jornaes; não vê?—E apresentava a pasta. O guarda compadecia-se.

—Não engano, homem: para que te havia de enganar? É boa!—Armava no rosto uma sinceridade benevola e rudemente ingenua. O João sahia vagaroso.

—Então ámanhã, meu senhor. Adeus. Seja por alma de quem lá tem.—Ao fundo dos degraus deteve-se para voltar a cabeça. E ficou-se a murmurar pensativo:

—Mas quando uma pessoa está doente, não apanha ar. Alli teem as janellas escancaradas.—Ia devagar, embebido, com os jornaes na pasta.

—Elles sempre são cirurgiões, disse, entendem mais que um qualquer.—E a espaços:

—Então ámanhã. Hei-de-lhe contar que estou muito obrigado á visinha; nem que fosse minha mãi.—E chegou á rua, ergueu o pregão. Todo o mundo era feliz e sorria. Ninguem reparava n’elle.

Disseram-lhe depois que a mãi morrera, e a sua vida mudou. Nunca mais foi visto no sitio nem tornou a levar ao velho o Noticias, todas as manhãs. Dormia nas escadas, de manhã vendia os jornaes, o resto do dia passava-o nas ruas, sentado pelos bancos das praças, dormitando canalhamente ao sol. E a suavidade de genio, a doçura implume dos seus olhos derivaram n’uma rispidez, n’uma malicia de garoto.

Entre os da sua idade começou a ter predominio; era o das partidas subtis, o que commandava as troças que o bando fazia aos velhos, o que ia gritar nas escadas, o que armava intrigas, desenvolvia contendas, e nos magotes repartia sôccos e pontapés, no meio da grita e das risadas dos taberneiros. Durante dois annos viveu esta bohemia das ruas, tripudiando no meio infimo a sua turbulencia e a sua alegria. Ás vezes tinha fome: ia pedir nas ruas escuras, com o barrete na mão, a quem passava. E o seu coração soffria todos os maus modos e todas as humilhações, sem rebeldia. N’esta senda privou com os incorrigiveis, conheceu os mendigos, os gatunos e as velhas de capote verde, sem meias, que esmolam nos adros das igrejas, em lamentações dolorosas. Uma vez a policia entrou n’uma casa de malta, na vespera de uma parada, e varreu quanto lá achou para a prisão. Os pequenos foram mettidos na Casa da correcção e os gatunos no Limoeiro, por contas antigas. Sentiu duramente o carcere, e sinceramente chorou a vadiagem dos antigos dias, em que o seu pé vivo, forte e agil, pisára livremente as ruas em corridas ruidosas, em pandegas de boa marca. Na reclusão, os seus dias medidos por occupações sujeitas a uma tabella e a um horario, foram enlutados no tedio e no sentimento da propria inutilidade: levantava-se antes de nascer o sol com os demais companheiros estremunhados, tiritando do frio que ao longo dos corredores se esfusiava cantando; um sino batia horas acima das abobadas, e o echo ondulava de cella em cella, como o soluço de uma alma penitente, a quem não perdoam; pelas profundas janellas do antigo convento, pedaços de céo faziam manchas lucidas, de espiritualisação ineffavel, em que o olhar dos pupillos se dilatava com grandes tristezas de opprimidos. Caminhavam formados dois a dois para a capella, á oração da manhã. Depois cada um ia para a sua officina, ou para a aula de estudo. Os rudes prefeitos passavam lugubres, lividos e cheios de consumpção, e os seus olhos ferozes corriam sobre as cabeças humildes dos rapazes, curvadas sobre os livros ou sobre os trabalhos de officina. Aos domingos ouviam missa; uma charanga tocava no pateo e os jornaes convidavam o publico a ir vêr o collegio, louvando os desvelos do director e proclamando os resultados da instituição beneficente. Alli tomou elle proposito, aprendendo a ter aceio, correcção e aprumo; aos dezoito annos o Ferreira tomou-o para aprendiz: era já uma pessoa cheia de si propria, estatura avantajada, completamente formada, que passara incorruptivel no meio viciado do hospicio, resistindo aos vicios morbidos e fataes da caserna, e salvo n’uma palavra, da ociodade e do desprezo de si mesmo.

Resolveram encontrar-se, o João e Carolina, todas as noites, á hora em que fechava a officina: iriam passear, fallando dos seus negocios sem temer ditinhos da visinhança. Elle instára vivamente para que se ligassem; era assim melhor, não soffriam tanto as saudades da ausencia e estariam á vontade; e se a coisa tinha de ser, que fosse quanto antes. Carolina lutava um pouco; todos os seus cuidados eram o pai; quando elle chegasse a casa e os visse, que diria? E supplicante, uma meiguice infantil, obrigava o João a ceder, com pequeninas caricias voluptuosas e finas. As noites eram frias e escuras, orvalhadas no alto de scintillações de estrellas, archipelagos de luz n’um Pacifico lobrego e sem fim. Reuniam-se a uma certa hora no largo da Estrella, e de braço dado, estreitamente unidos, com declarações pelintras empoladas de palanfrorio sem nexo, diziam um ao outro o seu amor eterno, citando cantigas, pequenos versos de manjarico, procurando a sombra, desviando-se das zonas claras projectadas pelos lampeões, como proscriptos cônscios da sua culpa. De ordinario vinham por S. Pedro d’Alcantara, S. Roque, até ao Chiado. Áquella hora as ruas atulhavam-se de gente abafada em capotes felpudos, carruagens cheias de mulheres melancolicas; um largo ruido emergia da luz, da vida e da enorme respiração da cidade, espapando-se nos ares n’um tom indistincto e abafado. Á porta da Havaneza um forte grupo enchia o asphalto; caras em sombra sahiam das golas altas; de todos os lados partiam rumores de palestras que apanhadas de relance, davam a diversidade mais curiosa e frisante; marialvas pallidos e bonitos, altas pernas apertadas em calças prenhes de joelheiras, chupavam cigarros em grupo, provocando as costureiras que recolhiam dos armazens; militares seccos, sonoros de esporas, uma curva de espinha, discutiam ás esquinas. Á porta da casa Singer, destacando em sombra na crua luz irradiante do lustre, um conego forte e barbeado, envolvia-se na sua capa, baixo perfil de javardo estupidamente grave. D’um lado e outro, a fileira de transeuntes seguia, gente de todas as castas, mulheres embuçadas em mantas, rapazes debeis e palreiros, velhos dilettanti da opera que faziam a digestão com charutos fortes; ao trote de grandes parelhas, as familias iam para S. Carlos, recostadas nos cochins dos coupés; e Carolina invejosa da vida que não vivia e da opulencia que a deslumbrava, ia picando as scenas de commentarios amargos, um vago rancor de proletaria. O João murmurava de quando em quando:

—Isto é o tom, isto é o tom!—Gente pasmada parava diante das vitrines do Seixas, admirando oleographias, porcelanas, pequenas esculpturas suissas. Defronte quasi, no Elie Bernard, as amas de toucas de renda apartavam polichinellos, pequenas arcas de Noé, para frescas crianças de banqueiros, aconchegadas de arminhos e louramente ideaes. No Leonel, as senhoras de cauda princesse, perfis orgulhosos de marquezas, pallidamente altivas, viam setins da estação, fortes velludos de pregas electricas, opulencia cara. Sentia-se apregoar o Jornal da Noite. Divas de mantilha marmoreas de riz, elegancias de figurino, vendiam-se a quem passava, com pequenas tosses e psts! Elles atravessavam a multidão, isolados no ruido como estrangeiros. A rua Nova do Carmo tinha menos gente, menos luz. No fundo do Margotteau, uma luz soturna agonisava sobre estofos amontoados, pilhas de cochins, bancas de jogo marchetadas, e brilhos de lustres, pendentes do tecto. Sobre o Rocio cahia a cupula tenebrosa da noite, como um assombro legendario; em D. Maria, acima da arcada, pontinhos de gaz escreviam espectaculo; em torno da praça rolavam os trens; soldados risonhos saracoteavam-se na penumbra entre os grupos de velhos celibatarios; o Martinho estava cheio de estudantes e de litteratos; e contractadores de senhas, cauteleiros e americanos em marcha faziam um ruido infernal e continuo, o tohu-bohu das capitaes exaltadas pela nevrose da noite. Elles iam seguindo vagarosamente. Fechavam as lojas. Chegavam de ordinario a casa muito tarde. A visinhança dormia. No relogio da Estrella badalavam quartos, som lugubre. Passavam a noite amando-se, jurando a si mesmos fidelidades eternas e amores phenomenaes, em quanto a vela de sebo posta a um canto, deitava clarões amarellos e um cheiro suffocante de morrão.

Afinal o João fez conduzir para casa da rapariga o seu bahú, os seus arranjos. A visinhança fallou do escandalo, nunca se vira uma pouca vergonha assim, o mundo estava perdido.

Muitas diziam:

—Já a comadre bebe! Mas deixa que o pai saberá...

Só a Marcellina achou natural.

—Cada qual governa-se, sentenceava ella.

Os primeiros dias correram-lhes distrahidamente, nas espiras d’um amor canino e deshonesto.

O João apparecia tarde na officina, cheio de somno e de fadiga. E soffria as meias palavras do Ferreira, a sua grosseira rabugice de velho rigorista, via-o atirar as cousas com mau modo, girar nervosamente por entre os bancos de trabalho com o olhar relampejante através dos oculos. Para o aprendiz, o melhor tempo era o recolher do trabalho, ao cahir da noite: ia quasi a correr para casa, subia a escada a quatro e quatro; Carolina estava de ordinario costurando, com um casibeque de lã, lenço na cabeça, a face de uma pallidez transparente e dôce. Elle tomava-lhe delicadamente a cabeça, com as duas mãos; beijavam-se com uma sofreguidão provocante, e toda ella vergava languidamente no peito do aprendiz, sonhando as divagações mais sublimes. Nunca sahiam, senão noite feita. Diante d’uma mulher, o João experimentava um aconchego tepido, delicioso: com ella, a sua força, a sua fórma vigorosa e superior, acobardava-se, quebrantava-se, cahia: era então dos sentidos. Não se lembrava de olhar em torno de si, no desleixo da casa nua, repartida em compartimentos baixos e rectangulares, sem luz e esfolados nas hombreiras, com laivos d’oca barbarescos no rodapé. Pelas paredes encostavam-se moveis antigos e côxos; leitos de ferro de varaes tortos, tinham colchões extirpados e cobertores de uma farrapice sordida; em volta nem um objecto limpo e cuidado, nem uma côr alegre e rutilante, em que a vista pascesse uma satisfação honesta; todas as fórmas duras e cruas das cousas tinham um desleixo antigo, de annos, e desmantelavam-se como bem lhes parecia. Pelos aspectos, via-se a historia de Carolina, a sua orphandade, as ausencias do coveiro na desolação das covas, como um desterrado. Na cozinha, a chaminé derruia lambida da fumarada, cheia de terra e tijolos partidos, abrindo como uma guela calcinada e pulverulenta. Têas d’aranha, espessas e papudas, faziam prateleiras aos cantos. N’um poial humido e cheio de covas, rimas de pratos sujos, de almoços antigos, estavam para alli de semanas; sobre o peito da janella, uma palmatoria de barro tinha um coto de sebo; a miseria enrodilhava-se pelas cousas, n’uma frialdade canalha e vilissima, em que se accusava uma existencia sem destino, sem direcção, sem o exemplo d’outra. Nenhum movel no seu lugar, o lavatorio vazio, uma bacia n’uma cadeira, saias enxovalhadas nos ferros dos leitos e o gato lambendo-se sobre um chale. E á medida que passava o tempo e os dois conviviam, Carolina que no começo por pudôr, fôra um pouco cuidadosa, entrou a entregar tudo ao acaso, para alli, ao deixa-te estar que estás bem. Em quanto só, era ella quem lavava a sua roupa, de mez a mez. Quando o João se ligou com ella, foi impossivel continuar aquillo. Eram precisas camisas engommadas, roupas, lenços brancos, quem costurasse, quem cuidasse com amor, sem fadiga, sem mau estar, todos os pormenores do lar e todas as pequenas necessidades do trajo. Carolina nunca engommára. Foi perguntar á Marcellina como era. A velha deu explicações: que se molhava primeiro a roupa em gomma fervida, com um trapinho, e depois se punha a enxugar muito bem, a enxugar... Carolina lavou corajosamente as camisas do aprendiz, mas não ficaram brancas—que birra!... E resignada aqueceu o ferro, pôz em pratica quanto ouvira da velha; mas o ferro tostou-lhe o pano deixando uma nodoa escura e fumegante; ella ficou toda desconsolada, lacrimosa, temendo ralhos, quando o João viesse. Fazia um mez que se tinham visto no arraial. E Carolina reflectindo, comparava os dias á medida que elles se distanciavam do primeiro: as cousas não são algumas vezes o que parecem; nem tudo o que luz é ouro—lá diz o rifão. Era verdade! E entristecia-se. O jantar foi menos animado que os anteriores. O João não tinha vontade, era sempre a mesma cousa... E em conversa disse os seus pratos mais predilectos, em que havia mexilhão, cabeça de porco, refogados. Ella estranhou a palavra.

—Refogado! disse sem perceber bem. Olhava o tecto—Refogado!

—Sim, não sabes? fez elle admirado d’aquella ignorancia. E pôz-se a dar explicações, a dizer como era. E d’alli a pouco:

—Em cousas de cozinha, a modos que sei mais que tu.—E sem mudar de tom:—Diabo! Que te ensinaram então?—Carolina resentiu-se um pouco. Estiveram distrahidos n’essa noite; queriam ambos disfarçar, ter excessos, exuberancias, brincadeiras, pequenas ternuras piegas, mas de repente esqueciam-se, e paravam sem saber porque, absorvidos. Elle perguntava-lhe:

—Em que estás pensando?—Carolina encolhia imperceptivelmente os hombros, um meio sorriso sem expressão.

—Nada.—E ao acaso:—em meu pai. Porque perguntas?—Estiveram assim. Viam-se os seus esforços para entabolarem palestra e parecer como nos outros dias, mas um tedio e uma contemplação intimas dominava-os, atraiçoando-os.

—Ámanhã é domingo, observou Carolina. E com admiração:—Já ámanhã é domingo, hein?

—É verdade, perguntou elle, tenho roupa?

Carolina sentiu-se empallidecer. Balbuciou:

—Tens.—O seu desejo seria aventurar uma explicação, dizer o que succedera, afiançar a sua boa vontade, pedir perdão da sua simpleza selvagem; mas que vergonha!... Qualquer rapariga engommava, varria, sabia cozinhar, manter limpas as cousas, brancas as hombreiras, sadias de traça as roupas guardadas nas gavetas e nos bahús: e só ella, a burra nada sabia, aquelle grande cavallão! Tomou coragem:

—Olha, disse, e ficou-se; sentia-se palpitar.

—Que é?—Na calada a asthma do gato resfolegava.

—É que eu...—curvára a cabeça com a vista obscurecida de lagrimas. O João ergueu-lhe a cabeça com a mão, tomando-a pelo queixo, com carinho quasi.

—Que diabo tens tu, filha? Então! Que diabo quer dizer essa aquella?—E sem obter resposta:

—Se tens alguma cousa, Carolina...—e commovido, admirado:—mas offendeste-te do que eu disse ha pouco? Nem reparei, foi sem tenção de te magoar.—Beijava-a repetidamente, procurando chamal-a a uma tranquillidade conciliadora e a uma justa apreciação de palavras.

—Não vês que te amo tanto, hein? não vês? Uma pessoa, ás vezes, nem repara nas cousas que diz; vês tu?

Ella abafava soluços, com o lenço.

—Não é nada, não é nada: isto é do meu genio a modos tristonho, dizia ella; que eu bem sei que não sirvo para nada, bem me conheço. Para que serve um diabo assim?... Nada sei fazer, nunca tive quem me ensinasse, por minha desgraça! Até nem roupa...

O João acudiu logo:

—Se não está arranjada é o mesmo; lá isso não tem duvida; não nos havemos de ralar por tão pouco. Ora! Manda-se á engommadeira; alguma vez aprenderás.—E enxugava-lhe as lagrimas.

—Sua tola! Agora a choramingar.—E dava-lhe pequeninos beijos, abraços amigos, dispensando-lhe solicitudes paternaes.

—Vale lá a pena! resumia. Não sabes, acabou-se. Ninguem nasce sabendo, isso é velho. Ninguem te ensinou... não tens culpa; é boa!...

Mas no seu animo encrespára-se um mau humor que o ralava, e uma irritação sem alvo fazia-o passear com rapidez, accentuando as passadas no sólo. Não sahiu no domingo, ficou á janella fumando. Via passar na rua, grupos todos aceados, mulheres vermelhas e fortes, cheias de saude e de alegria. E sem querer punha-se a comparal-as com Carolina, tão lymphatica, tão desleixada e tão pouco limpa. Homens iam de charuto, fumegando com pompa, bengala, suas botas engraxadas, camisa muito branca.

E elle não tivera camisa lavada, nem gosto para dar o seu giro ás hortas ou ao passeio.

E molestado, roído, retirou-se para dentro, foi estender-se ao comprido na cama.

—Ai! suspirou. A gente sempre faz cada uma!—E ficou-se immovel, reflectindo, com saudades dos tempos em que era livre e tinha camisas lustrosas, todas brancas, cheirando frescamente a sabão.

Pouco a pouco o aprendiz pôz-se a reparar em tudo, na casa, nos objectos d’uso, na cozinha, nas lavagens. Carolina não tinha nenhum d’esses instinctos delicados e espontaneamente artisticos, que são a revelação da mulher; nos seus menores labores era de uma incorrecção tosca e de uma rotinice escura. Não varria a casa, ou varria-a mal; nenhum methodo, nenhuma paciencia, nenhum amor em conservar as cousas. O João mandára para casa uma commoda, cadeiras, um pequeno espelho, duas jarras de louça azul, e elle mesmo tinha disposto tudo, esfregado o sólo, as portas, concertado as bancas e o leito, nas horas vagas. Mas dias depois o pó cobria tudo, havia signaes das mãos gordurentas de Carolina nos puxadores das gavetas; a cama estava sempre desmanchada, com o signal dos corpos. Elle perguntou-lhe uma vez:

—Que fazes tu, quando eu vou para a officina?

—Costuro alguma coisa, durmo. É tão triste!...

—Mas filha, deves arranjar a casa... aventurou elle.

Carolina ficou-se. A sua natureza preguiçosa, habituada aos ocios, quebrava-se de fraquezas, bocejos e espreguiçamentos, só de lembrar-se do trabalho que tinha a fazer. Ás vezes luctava, fazia uma grande actividade, mexendo por um canto e por outro, mas vinha a fadiga, o aborrecimento: atirava-se para cima dos colchões.

—Se eu não posso!...

O aprendiz dera-lhe vestidos novos, uma pequena capa de xadrez, mantas, roupas de patente com abertos. E tudo andava pendurado pelas portas, á poeira e aos encontrões, desmazeladamente. Passava horas penteando os seus cabellos ruivos, annelados e finos, de lustro macio e espessura abundante, phantasiando penteados, ensaiando laços, cuias arrebitadas, vaidadesinhas de criança. Outras vezes amanhecia preoccupada, taciturna, nervosa, salivando pelos cantos; fazia o almoço muito cedo. O João ainda ficava ás vezes na cama: ella ia devagarinho olhal-o; aproximava-se curiosa, absorta no vulto do aprendiz que arfava sob as roupas mornas. E cheia de vertigens, de subitaneas paixões que rebentavam do seu temperamento em espiraes de desejos, lançava-se a elle, abraçando-o como doida, fazendo as protestações mais vivas e os amuos mais dôces, tentando vender-se sob uma face nova, inventando mesmo ardores, manias e excentricos phrenesis inexplicaveis. No meio de tudo isto, e afóra estes arrulhos, o seu desarranjo era o mesmo; não lhe passava pela cabeça que captivaria o seu homem, tornando-lhe o lar alegre, limpo, fresco, fazendo luzir a boa ordem, a boa administração e o decoro nos mais simples pormenores da residencia. Fóra do peccado mortal, não tinha prestimo, nem imaginação, nem proposito.

E n’este meio o seu corpo desenvolvera-se um pouco; os seios ampliaram-se n’uma curva graciosa, de contorno quasi casto; e esmaltado de pallidez morbida, lasciva e um pouco scismadora, o seu rosto era dôce, de uma harmonia dolente, como certas pinturas de virgens martyres que oram em attitudes pias, no fundo das capellas da arte gothica.

Um dia o João achou-a fetida, cheirando a saias velhas; nunca mais lhe sahiu esta idéa da mente; entrou a achal-a esqueletica e cançada; ao deitar-se fazia um esforço para não parecer saciado, mas os seus beijos eram frios, convencionaes, espaçados. Ella reclamava, cobrindo-o da sua paixão como de um caustico, querendo reapoderar-se d’um amor que lhe sentia fugir e padecendo em balde, ciumes de todo o mundo. E começou a desconfiar, a seguir o João á officina, a furtar-lhe as voltas. Nas menores palavras que elle dizia encontrava dois sentidos, o apparente, e o occulto que parecia envolver sempre um sarcasmo, uma ameaça, um insulto. Foi uma lucta tremenda; a sós fallava alto, altercava comsigo mesma, dizia pragas, architectando projectos de vingança e planos de seducção.

Havia horas em que a sua vontade era morrer, tomar qualquer corrosivo, precipitar-se da muralha de S. Pedro de Alcantara; outras vezes estalava de afflicçoes, contorcia-se em desvairamentos supremos, querendo chorar, soluçar, pôr em evidencia a sua sorte. Quando elle vinha, affectava rosto sereno, uma certa despreoccupação feliz: mas a sua gana era apertar-lhe as guelas, para que outra o não gozasse. Em quanto o João comia, ella encostada á porta da cozinha punha-se a fital-o do fundo da sua paixão damnada, cheia de idéas tragicas. Uma noite agarrou-o pela cintura, os olhos envidraçados:

—Tinha mesmo vontade de te matar! disse sofrega. O João riu-se, olhando-a; mas ficou logo todo serio, abrazado n’aquella ancia, e uma corrente galvanica percorria-o, nascida no olhar d’ella, sequioso e feroz, cheio de gula e de fel.

Vieram então as pequenas especulações, as pequenas ciladas sujeitas todas a um plano geral de má indole, de reserva e de ciume—da parte de Carolina. Umas vezes, era o jantar que não estava prompto a horas, outras reclamava bugigangas de adorno, fitinhas, meias de riscas escarlates.

O João satisfazia tudo, ouvia tudo, mas era-lhe indifferente esta ou aquella deliberação; tudo achava capaz, assisado, justo.

Já não era o mesmo. Emmagrecera nas faces e andava pallido, com os olhos fundos de cansaço. Tinha agora para mirar as mulheres uma attenção persistente, uma fixidez de olhar que as percorria todas, desde os cabellos até aos pés. E muitas vezes na rua voltava-se para traz, seguindo as que lhe passavam perto. As suas predilecções eram todas para as roliças, e sentia furores pelas trigueiras, em cujo labio superior via ensombrar-se a penugemzinha de um buço, denotativo de vivacidades de temperamento e escandecencias de sangue.

—Mulher que se sinta nas mãos! notava elle rudemente.

Esta transição demarcava o homem feito e precocemente liberto das ultimas infantilidades, homem com caracteristicos de appetite, phrenesis e vacillações de caracter.

A cara emborbulhára-se-lhe de barba, tinha-lhe engrossado a voz e accentuava-se um cunho imperioso no seu modo de dizer.

Na officina, quando de manhã apparecia em algum d’aquelles desalentos profundos, nascidos da desordem das noites, os collegas riam-se cobrindo-o de chufas e apoquentando-o com perguntinhas velhacas. Do seu banco, o Ferreira não dava palavra, mas de quando em quando sahia-lhe um canto nasal, espaçado por grandes silencios, que era a sua fórmula de raiva brusca, recalcada por sessenta annos de prudencia. Os intimos porém queriam da bocca do João saber por força como tinha sido, se adormecera tarde e se a lua de mel continuava. Entre risadas apupavam-no dos bancos de trabalho:

—É o mez dos gatos, não admira, diziam.

Elle dava cavaco em ouvindo estes dichotes. Ficára mal com os dois ou tres mais atrevidos, jurando que faria alguma ainda. O seu genio concentrava-se n’um silencio reflexivo, quasi triste. Era muito exacto ás horas do trabalho, pacientissimo aos ralhos da rapariga, vivia pouco em casa, recolhia tarde. Ella uma vez observou-lhe:

—Tu já não és o mesmo rapaz, João!

—Ahi vens com tolices, tornou elle.

Carolina invadia-se de um terror desconhecido, toda entregue a uma desconsolação.

Uma tarde a Marcellina appareceu:

—Adeus, filha, adeus.—E notando a commoda, as cadeiras:—Viva! Isto é que é! isto é que é!... Viu-se tafularia maior?—E mirando Carolina:

—Que senhoraça, que senhoraça! Toda no chefe. Sua espiguilha no casibeque, sua cruz ao pescoço... Ai! quem tem homem não sabe o que tem. Vejam como tudo está mudado.—E baixo:—Quanto custou cada metro?—Apalpava a fazenda do vestido, esfregando-a, estudando a espessura. E expluiu logo em narrativas, que a mulata tornára para o hospital, e morrera! Minhas ricas quatro moedas, que fiquei a vêr navios. E azorragando os caloteiros abria a caixa de tartaruga, tomava rapé com os dedos em leque, sorvendo com grande delicia, o olhar piedoso.

—Como te vaes dando com elle? inquiriu, passado tempo.

—Bem; então como? É muito bom rapaz, lá isso sempre o direi.

—Bom genio, hein?

—Bom genio...—E vencendo uma repugnancia, affectando grande franqueza para com a velhona:—Olhe, todos nós temos as nossas cousas, percebe?

—Está visto, está visto. Que bom, só Deus.—Fizeram um silencio beato. A Marcellina desconfiava já que tinha havido mócada. Interrogou cheia de curiosidade:

—Mas houve alguma cousa?

—Não. O que havia de haver? Hoje em dia, uma mulher precisa saber de tudo. Eu confesso a verdade: de engommados não sei. Quem é pobre não usa certas cousas.

—N’isso fui eu sempre, com’a primeira. Não é por me gabar. Que engommo encanudados ainda hoje, como poucas—e explicita:—e que é uma das cousas mais custosas de fazer bem, o engommado!... só o polimento!...

—É verdade, é verdade, dizia Carolina.

—Mas o que? Elle disse alguma piada por isso?

—Estranhou. Elle nunca se zanga.—Armava no rosto uma soberania indomavel.—Zangar-se? Oh!... tenho-o aqui fechado—e estendia o punho—mas...

—Ora dize a verdade: tu queres contar-me alguma. Co’os diabos! Bem sabes como eu sou. Falla á vontade. Se eu te puder valer... p’r’ás amigas estou ás ordes.

—Olhe, é verdade. O João nos primeiros dias, eram excessos que nem eu sei. Andavamos sempre aos abraços, ás festinhas, nunca nos separavamos. Mas ha uns dias que o vejo apoquentado, mettido comsigo; come e vai-se com Deus; hoje não gostou do jantar; passa as noites fóra, recolhe-se altas horas; a minha desgraça!—A velha pasmava.

—Pois olha, fartou-se cedo, o melro! Então será de má bocca? Mas não desconfias de nada? Não lhe déste tu motivo?

—Que eu saiba, não. Talvez se aborreça por eu não saber bem governar a casa. Sempre disse: nunca Deus me dará fortuna em cousa nenhuma!—A Marcellina reflectia. E d’alli a pouco:

—Queres tu experimentar as cartas? A vêr o que dizem.—Carolina estremeceu.

—Credo! Tenho medo.—E mais baixo:—Dizem que apparece o diabo!...

Ficaram caladas. E depois:

—A mim, ninguem me tira da cabeça que o João anda de olho com alguma gaja.

Puzeram-se a fallar no tempo. Marcellina ergueu-se para sahir.

—Se elle te não quizer, filha, não morrerás de fome por isso. Graças a Deus, em quanto houver homens, qualquer mulher se governa. Tive muito d’isso, tive. Ai!... Tomára-me n’esse tempo!—Desceu a escada. Á porta observou, piscando maganamente o olho:

—Não fui das que gozei menos, não. Que até condes beijaram este palminho de cara. Ai! Bom tempo!—E serviçal:—Eu indagarei, eu indagarei a cousa.

A rapariga não dormiu n’essa noite. Ergueu-se inda lusco-fusco, cabeça pesada, uma fadiga enorme nos membros. Sentia que a sua vida oscillava na noticia que a Marcellina trouxesse, como n’um fulcro de aço uma agulha magnetica. Ao meio dia de feito, a velha voltou, olho arregalado, agilidade de alcoviteira no andar, rebolando-se, co’as barbicas assanhadas.

—Sabes tu, sabes tu? Vai todas as noites ao Moinho de Vento palestrar com uma sirigaita do primeiro andar, mesmo á esquina do pateo, por cima da loja de louça. Está alli horas ao relento, a tomar argarejos: só com uma carga de pau!

—Por isso elle vem tarde!...

—Vejam as habilidades do Santo Antoninho de quinta, hein? Ahi está para que elle se empenhou tanto commigo, para chegar á tua falla; vês tu?—Atafulhava as ventas de simonte. Carolina ficára morta de surpreza, de terrores, e desesperação.

—A minha desgraça! repetia. A minha desgraça!...

—Quem me contou tudo foi a Mathildes, uma que engomma para fóra; eu estava mesmo parvinha de todo, nem o queria crêr, vê tu lá. A gente vê caras não vê corações: é certo. E para mais é todo amigalhaço do irmão da dita pessoa; andam sempre de sucia, grandes chalaças, sim senhor; franquezas de tabaco; para onde quer que vão, vá de vinhaça, comes e bebes, com toda a grandeza! Ai! hoje presentemente, minha rica, nem uma creatura sabe para o que está guardada. Algum dia em acontecendo uma d’estas, parece que até ia tudo raso. Havia justiças, muita obediencia; então com quem brincavam elles? Hoje... Eu até fiquei sem vontade de comer: t’arrenego! e depois veio-me a dôr.—Dava um estalo com a lingua.—Mas deixa estar, que t’o cantarei.—Carolina nem ouvia.

—E agora? disse ella com um gemido, atirando-se com uma grande angustia sobre os colchões, miseravel na sua decepção.

A Marcellina tentava fazel-a sentar, compondo um rosto compungido. E dizia a espaços:

—Ó filha, pelo amor de Deus! Isso não é agora morte de homem. Ha muitos modos de governo. Estavamos servidas se fossemos agora a morrer por todos os malandros que se raspam, em nos apanhando.

E como achando o modo de tudo solver, em quanto a outra chorava:

—Olha, pódes-te empregar na fabrica, dois tostões por dia; leva-se lunch.—E muito baixo:—para quem quer reinar, nada melhor.—Piscava o olho:—percebes, percebes?—E desenvolvia projectos, propunha expedientes.

Encontras logo arranjo; nas fabricas então é como passastes. Conheço lá muitas que andam alli mais estimadas, que eu sei; ellas bem vestidas, bem doiradas, arranjo de seu, alli o jantarinho de carne todos os dias...

—Gente sem vergonha! commentou Carolina, com voz cantada pelo pranto.

—Ora historias, filha, historias!—E sentenciosa:—Que n’isto de vergonha cada qual toma da que gosta. Em se evitando fallas do povo, deixa andar. Dois dias que a gente anda por cá...—E generalisando a doutrina que prégára:—se vamos assim, então não ha ninguem de vergonha no mundo.—Carolina abanava a cabeça. A velha com ademanes de mestra, cuspia-lhe no animo a sua piedade de estafermo.

—Ainda estás muito verde, minha rica! dizia.

Cahiram em silencio. Ás vezes soluços fundos, estrangulavam a garganta da rapariga.

—E eu que cri em tudo! lamentava ella.

—E não queres vêr? Eu iria pôr a mão nos livros sagrados. Não me salve, se julguei que succederia isto.—E com voz cantada:—vamos nós agora a vêr o fio da meada. Como diabo sahirá elle d’esta?

—Como sahirá? casando com a outra. Vejam como. Lá tem o irmão que a defenda. Só eu não tive quem me aconselhasse.—E desfazia-se n’um choro intimo, dizendo a sua infelicidade.—Morre quem faz falta, só Deus me não chama p’ra si...

Havia tempo que homens altercavam na rua, entre sons de guitarras. De repente, uma voz avinhada disse um fado choroso, em que se despediam almas e se davam facadas, em verso. Rameiras de grandes caudas de gomma riam com estrepito, dizendo doçuras roucas, de uma vadiagem canalha. Carolina gemera:

—Ai vida, vida! Só aquellas nunca estão tristes!

A velha tinha-se erguido, interessada na algazarra da rua, curiosa de espreitar a pandega como um antigo commensal expulso. A voz dizia:

Pobres donzellas honradas, Quanto de vós tenho dó!... ..........................

Carolina de cabeça um pouco erguida, tinha ficado a escutar; toda a gente ria quando ella chorava!... Em que coração acharia interesse?—E via de pé a sua desdita envolta em fumos negros, olhal-a cheia de rancor inquebrantavel. Queria recordar-se da sua meninice, como quem se refugia, mas diante d’ella desfilavam recordações lugubres, surgiam grupos de mortos, filas de cyprestes, um coveiro encanecido que erguia a enxada, cantando.

Não tinha a menor idéa do que fosse ter mãi ou ter amigas. No seu contacto com a gente, entrevira apenas o tenebroso fundo de bestialidade que referve em cada homem, com um fragor de luxuria cruel. Vivera sempre em si propria, sem a reminiscencia de um carinho que alma piedosa lhe houvesse prodigalisado. Quantos beijos deixára roubar aos moços do cemiterio e quantas palavras tinha merecido aos gatos pingados, todas vinham hervadas da mesma idéa e do mesmo intento. E assim crescera n’aquella incultura de espirito sem guia, sentindo dentro avigorentar-se-lhe apenas uma tendencia—a da cadella fertil, que vai entregar-se. Através da sensação rudemente nascida olhára o mundo, esfaimada e torpe como se fôra um verme descommunal das sepulturas, incapaz pelos desolados scenarios que tinha contemplado nos seus dias de criança, de dar accesso na sua alma ás multiplices emoções e susceptibilidades hystericas, que fazem da mulher o precioso receptor das cousas mais subtis, que a lingua não exprime e os olhos mal sabem formular.

Tinha-se dado ao primeiro que chegára, sem condições e sem receios de pudor. Fôra a Marcellina a causa de tudo. Para que lhe viera contar de padres babosos e varinas amancebadas?

E detida, conscia de um desalento mortal, sentia na penumbra os olhos de Marcellina, cahidos sobre a sua cabeça com um brilho fatidico. Fóra, riam com estrepito no meio de disputas sordidas. A velha tomou-lhe a mão, aproximaram-se ambas da janella.

—Queres um conselho mesmo cá de dentro, queres?

—Que é? fez a rapariga.

A outra estendeu o braço na direcção das janellas de taboinhas, e o seu dedo engelhado apontou as cabeças de altos penteados, que destacavam com relevo negro no tom vermelho dos quartos alumiados da casa fronteira.

—Olha, disse ella. E com gesto de quem se impõe, de quem se mette por uma pessoa dentro:—Lembra-te do que te digo hoje.—A sua voz insistia, escolhendo os tons persuasivos, dôces, sinceros, e ao mesmo tempo as suas palavras discretas, ditas no fundo d’um segredo, vinham com uma intenção perfida, cheia de depravação. Carolina ficou hirta perante aquellas insinuações, olhando com os seus olhos cheios de febre, a cara franzida, esperta, d’essa megera que dominára o seu destino impellindo-a na perdição e apontando-lh’a como um fim logico, consequente e feliz. Grandes desvairamentos pulavam-lhe no craneo, exagerando-lhe os sons, tornando-lhe as figuras sarcasticas e as sombras lugubres. E as fontes pulavam-lhe, como molas premidas que reagem; e o seu espirito dilacerado de afflicções saturava-se de alguma coisa estranha, como o indifferentismo ou a idiotice.

N’essa noite o João entrou a deshoras; cambaleava de bebedo, cantarolando todo cheio de terra, como quem tivesse cahido pelas ruas, á porta das tabernas. Ella viu-o chegar sem se mostrar surpreza, como quem esperava mais. Mas disse ao metter-se na cama, estas palavras sem nexo:

—A fabrica...

E com um movimento imperceptivel de labios:

—O collegio...

E ficou a pensar, immovel, com os olhos fitos na luz.

Estas duas palavras representaram d’alli em diante o seu destino, guiaram-na por um caminho espinhoso que sonhara ridente, em horas de contemplação e plenitude.

Ao João era manifesto o tedio d’aquella vida e o mau estar d’aquella união. Pouco a pouco, com transições insensiveis, as palavras d’elle adquiriam notas asperas, grandes phrenesis inesperados, uma taciturnidade crescente, moedora e constante. Ella experimentava por seu turno uma altivez ferida e rebelde de mulher espesinhada e esquecida por outra; em certos dias estrangulava de raivas surdas em que resfolegava a espaços, a ancia de humilhar, infamar, perder alguem; fazia arias estrondosas pelas casas fóra, garganteando pelintramente como no theatro; mas a noite vinha gradual; ficava logo invadida mortalmente de uma grande tristeza, de uma inexplicavel passibilidade indifferente ao estimulo, dominada de presentimentos e architectando toda tremula futuros famintos, esfarrapados e enfermos. Não passava uma tarde sem vêr a Marcellina; juntas, parolavam durante horas, desenrolando planos mysteriosos e discutindo futuros. A velha revelava pormenores de officio, as subtilezas de que lançam mão certas mulheres, o segredo de provocar, chamar, sorrir, andar na rua, mostrar as riquezas do busto, conservar a face rosada, mesmo depois de uma noite de orgia. Carolina reagia com monosyllabos apenas, a esta insinuação torpe; mas abandonada pelo João, a fallar a verdade, que faria? Foi assim que ella determinou entrar na fabrica, em Alcantara. O João não oppôz resistencia; via o meio de afastar aquella rapariga importuna que o estorvava nos seus projectos, nos seus namoros. Ia todas as manhãs muito cedo, com o seu passo miudo e rapido, saracoteada e risonha, com a sua manta de borlas, uma capa de escocez verde, saia de folhos, o lunch n’um cabazinho da Ilha. No caminho encontrava as companheiras, moças alegres e desembaraçadas, cheias de risos, largando chalaças de mordacidade equivoca. E iam todas por alli fóra. Os merceeiros dirigiam-lhes afagos perfidos, apupavam-nas os gallegos sujos, os estudantes e os soldados. Que pandega! Respondiam a tudo com grandes risadas bebedas. Uma então, a Jeronyma, trigueira, a face picada de bexigas, até dava encontrões nos policias, piscando os olhos: e todas se divertiam a valer. Á entrada da fabrica, os operarios davam-lhes abraços, com grande intimidade; tratavam-se todos por tu, com uma algazarra incorrigivel, até que o fiscal, de barba branca, o seu casacão amarello, um cachimbo preto de nogueira, abria as portas da officina. No corredor, os operarios dividiam-se em turmas; uns iam para o empapelamento dos cigarros; outros iam picar o tabaco; alguns cortavam rotulos para as caixas de charutos. Se o borborinho crescia em torno das longas mesas de trabalho, o fiscal erguia a voz:

—Nada de algazarra! Parece que estamos n’alguma feira!—E todos fallavam baixo, contando historias pagãs de gente sem vergonha, de uma sordidez de viella. Sem grande esforço Carolina aceitou estes habitos que se lhe afiguravam de uma naturalidade legitima, tão sincera e tão commoda. Affeiçoára-se á Jeronyma, participando das suas opiniões, dos seus ditos, da sua fama. Ao escurecer o fiscal dizia, dando uma grande palmada na mesa:

—Seja louvado Nosso Senhor Jesus Christo!—E todos largavam o trabalho, tomavam os seus chapéos, os seus chales, os seus capotes; na escuridão do corredor estalavam beijos, pares canalhas escorregavam nas escadas, havia gritos, e a chusma em tumulto, n’uma desordem vadia, atulhava rapidamente o pateo, combinando cêas, encontros, relações impuras. Foi a vida melhor que Carolina viveu. Aquella grande liberdade, infiltrára-lhe uma alegria espontanea, uma grande destreza, um vigor manifesto. Ganhava dinheiro além d’isso; cabida nas graças do fiscal, obtinha sempre uma feria bem favorecida, sua gorgeta para alfinetes. Teve a partir d’aqui, pelo menos, uma duzia de amantes, amantes de uma semana, de um dia, preferidos á noite, esquecidos no dia seguinte, e concorrendo todos para a sustentação d’um luxo que pouco a pouco se ia manifestando em Carolina. Um domingo appareceu em casa da alcoviteira, toda penteada á moda, com um chapelinho de fitas verdes, um casaco bordado de contas, meia de riscas, leque. A velha discutia com duas raparigas o preço de um vestido de fazenda, que mostrava com largos elogios.

—É um ovo por um real, minha rica, dizia.—Um vestido como novo!

—Mas seis mil reis é muito bom dinheiro, santinha!

—Pois olhem que da peça é o triplo do custo. Agora façam lá o que quizerem.—E voltada para Carolina:

—Viv’ó luxo! Viv’ó luxo! Vaes óservando que eu tinha razão no que dizia.—E com insistencia:—tendo tino não ha cousa melhor, meu anjo.—E baixo, tomando-a de parte:—E elle?

Carolina encolheu os hombros desdenhosa, um ar de desprezo. A velha disse-lhe ao ouvido:

—Quem paga a renda da casa?

—Meu pai. Ha dois mezes que o não vejo, por tal signal.

—Pois filha, se o João não te serve para nada que se ponha ao fresco, quanto antes. Primeiro, o teu governo.

—Sim, sim, disse ella pensativa.

E dirigida pela alcoviteira, começou a viver só.

Desde esse dia, as aventuras vieram-lhe por centenas. Conheceu todas as especies de homens a quem se impingia ás horas, por baixo preço. As gengivas tinham-se-lhe descarnado, pintava os beiços com carmim e para o giro da noite cobria-se toda de pó d’arroz. Forçava-a a profissão a pequenos sacrificios, no intento de agradar aos que a buscavam. Comprimia os pés em sapatinhos altos, golpeados no peito para deixar vêr a meia de côres.

Apertava a cintura e os flancos com espartilhos que a estrangulavam em duas metades, deixando-lhe o thorax afunilado e hirto, o figado oppresso e a respiração entrecortada. Á hora dos theatros, quando nas ruas da cidade baixa fervilha inquieta a multidão dos que digerem, e giram buscando par os velhos viciosos e os rapazes definhados, ella descia do seu bairro obreiro mais a Jeronyma, paramentadas ambas de arrebiques pelintras—á pingadeira, como lhe chamavam. Tinham horror á policia, procuravam as sombras da rua chegadas uma á outra, e olhando quem ia com o riso postiço das rameiras de profissão. A espaços, automaticamente quasi, segredavam aos homens amabilidades sordidas, desenrolando toda a giria do officio.

E ao pararem para apertar as mãos dos cocheiros e dos trolhas circumvagavam a vista de um modo inquieto a vêr se—andava algum.

As noites assim passeadas até deshoras fatigavam-nas de morte. De manhã nem se podiam mexer, uma paralysia de musculos, as articulações endurecidas, um travor na bocca saburrosa, das más digestões desordenadas. Succedia por vezes amanhecer-lhes pelas escadas, no outro extremo da cidade, ou nas hospedarias de má nota onde vão anichar-se as ultimas excoriações da torpeza. Expulsavam-nas então com o nojo que nasce da saciedade, escada abaixo, sem lhes pagarem muitas vezes.

Se retrucavam, era sempre a mesma ameaça que as ia fazer calar—a policia e o livrete. Aquellas duas palavras punham-lhes baques nas fontes, suores de rins e um calafrio mortal pelo dorso.

Na rua, os dichotes dos vendilhões e dos gallegos cuspiam-lhes na face obscenidades de tremer. Riam-se, retrucando algumas vezes. Mas a humilhação era frisante e seguiam sempre sob o terror da chacota ou da prisão. A indolencia de Carolina era agora mais refinada que nunca, deixou de ir á fabrica, passava os dias na enxerga da pocilga, dormitando.

E d’uma vez teve fome, sabbado por signal. Contrahira já os ultimos vicios supplementares da devassidão, fumava, bebia, e nas tabernas em estando bebeda punha-se a dizer com voz rouca fados ignobeis, no meio dos cocheiros excitados e ao som dorido da guitarra.

Os velhos appeteciam-na de preferencia, pelo seu ar moço e pelos seus cabellos ruivos. Havia um coronel reformado que lhe dava dinheiro para sapatos catitas. Era um velho gordo, de oculos, todo grave na sua sobrecasaca preta. Gostava d’ellas bem calçadinhas, meia esticada, e começava sempre pelo pé, acariciando-o de diminutivos ternos.

Era o seu melhor amigo, aquelle senhor tolerante, e d’uma vez desapparecera. Vieram os maus dias então, a policia vigiava as casas de má nota, e prendera a Jeronyma uma noite...

Carolina lembrou-se de voltar á fabrica. Sentia-se doente, fatigada d’aquella vida de acaso que lhe não tinha dado senão fomes, maus tratos e terrores. Mas encontrou já occupado o lugar, que deixára na officina. Quando descia ao pateo, deu com o fiscal que se pôz a olhar para ella muito tempo. E d’alli a nada lhe disse, voltando a cabeça:

—Como vossê anda já...

Aquella commiseração affligiu-a cruelmente, e chorou todo o dia mirando no espelho a cara chupada e amarella, onde entre circulos rôxos luziam dois olhos febris. Dias depois, a policia que a espreitava conseguiu surprehendel-a em flagrante, e d’alli a nada era inscripta no livro de cinco mil nomes, uma das glorias já hoje, d’esta florescente cidade que passa os seus dias enchendo de moeda falsa os Brazis, e servindo oleo de bacalhau ao melhor de cem mil tuberculosos.

Datam d’aqui todos os episodios da existencia que teve o seu epilogo ha tres dias, n’uma das camas da enfermaria de Sant’Anna, no Desterro. Foi o tio Farrusco quem cobriu de terra, sem commoção nem saudade, o corpo espedaçado pelo meu escalpello, da rapariga corroida de podridões sinistras, abandonada do berço ao tumulo, e pasto unicamente de desejos infames e de desvairamentos vis. Tenho sobre a minha banca n’este momento, a sua caveira fria, limpa de pelliculas e cartilagens, branca e escarninha, cujas maxillas escancaram diante de mim n’uma careta tragica, a sua concavidade cheia de sombra. Este despojo inerte, rendilhado e esponjoso pelos estragos do hydrargyrio, embalde interroga a meditação que me abysma, sobre as causas provaveis da grande desmoralisação actual.

1878.

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Sempre Amigos

Illustration from Contos

Joanna tinha já dois pequenos.—O Ricardo de cinco annos, fulvo como um novilho e o João, pequerrucho de peito. Era uma rapariga alta, musculo duro e sobrancelha espessa, cujos punhos podiam amassar sem cansaço alqueires e alqueires de pão, e cujos quadris agitados na marcha sob as saias de baetilha, avivadas de azul, revelavam a solida enformatura montanheza das primitivas mulheres, tostadas e laboriosas. Casára havia seis annos com o Jerolmo, por uma vindima mais fertil. E ambos pobres, ella filha mais nova de um maioral do conselheiro e elle ganhão da herdade de Valparaiso haviam gostado um do outro, bailando depois nas romarias do verão, procurando-se instinctivamente nas ceifas e mondas e aos domingos á hora da missa conventual. Não estava arrependida de haver casado, não. O Jerolmo era trabalhador incansavel e sadio; Joanna começára por namorar-lhe o peito cabelludo e trigueiro e a forte caixa de pulmões dilatada a cada esforço de trabalho; captivára-a além d’isso depois, a sua mansa maneira de dizer as coisas, sem notas altas na voz e sem impaciencias nervosas de bilioso, a sua vida toda regulada por habitos e a condescendencia tida para os velhos.

De uma vez vira-o erguer-se de punho cerrado e olho torvo a desancar n’uma malta que primeiro o espicaçara de bestialidades. Até alli, todos de boa saude, louvado Deus! Seis annos de ventura decorrida sem attritos e sem nuvens. E os dois rapazitos!... Lembrava-se dos terrores do primeiro parto e das alternativas de humor caracteristicas, os suores dorsaes e frios, a dôrzinha vaga primeiro e intensa depois, em toda a região dilatada.

Em certos momentos, um mundo de phantasias projectando-se-lhe do phantoscopio da mente, innundava-a de photospheras de luminosa essencia—se seria um pequeno, valentão capaz de ajudar o pai se seria uma rapariga de calcanhar quadrado e dentes solidos que enchesse de cantigas e de actividade o ninho!... Todas as noites á hora da cêa, o casal accumulava e destruia planos, fazendo e desfazendo receios—perdidas evocações d’esse primeiro tempo de esposa!... Mirando a casita e as cadeiras de Evora da casa de fóra, as prateleiras de louça e as quatro garrafas de vidro branco postas em symetria, olhando no quintalorio a méda de azinho para os lumes do inverno e o bacoro para a fartura do anno, Joanna sentia, no meio dos filhos e dos labores constantes da sua vida azafamada, um bem estar de consciencia satisfeita, um como jubilo intimo. O seu trabalho caseiro luzia: viam-lhe sempre o ladrilho varrido e as cadeiras arrumadas, um esteirão algarvio ao canto para as visitas, cobertas de retalhos lançadas sobre a mesa e dorsos dos bahús, o pequeno espelho redondo pendendo ao lado de um Francisco José, d’Epinal, brancas as paredes com rodapé de almagre em torno, e a cinza do lume constantemente varrida do lar. Dando largas á sua iniciativa de negociante creára além d’isso no quintal um exercito de gallinhas e gansos, cujos ovos o Ricardo ia vender todas as manhãs em altos pregões, pelas ruas da villa.

Manhã clara, era a primeira a erguer-se na rua e a encetar a labuta inquebrantavel e voluntariosa.

Paredes meias vivia a Francisca, casada com o Estragado, um bebedo.

Joanna tinha amizade a essa pobre mulher macilenta e soffredora, semanalmente espancada pelo marido, que para mais lhe impunha o sacrificio de fomes e farrapos.

Dissera muitas vezes, vendo-a passar para o pégo com trouxas de roupa á cabeça, envelhecida e estupida pelo contagio das miserias e brutalidades soffridas, com o filho semi-nú agarrado ás saias e o engeitadinho ao peito:

—Nem sei como vossemecê póde, coitadinha! A outra não se queixava; tinha as miseraveis resignações d’uma cadella expulsa; com um geito de hombros e a voz sumida retrucava sempre:

—Então, paciencia! Deus não quiz...

E Francisca era reconhecida á visinha, que bastantes vezes a livrára das brutalidades do bebedo e das frequentes penurias da casa.

A Joanna, comparando a sua sorte á da pobre engelhada, sentia da comparação, exaltar-se a sua felicidade, abençoando a hora em que lhe nascera o primeiro impulso para o Jerolmo. Quando este chegava do trabalho, com o largo e velho chapéo braguez deitado para a nuca, a manta e a enxada ao hombro, ceifões já pellados pelo convivio dos asperos attritos, o burro e o borrego atraz, fartos de herva e alegres da jornada, Joanna não se continha sem lhe referir os soffrimentos da pobre mulher e a pancadaria do Estragado.

O marido então encolhia egoistamente os hombros, farto da eterna lamuria e repetindo:

—Deixa-os lá. Que se avenham.

O Estragado era dos seus tempos de rapaz, pudera seguir-lhe a vida ponto a ponto e observar-lhe a predisposição fatal para a vadiagem e para o vicio. Aquella indole de desordeiro repugnava-lhe, que sentia um tedio pelos que não tinham como elle a infatigavel actividade productiva e a repousada consciencia dos deveres cumpridos. Áquella hora os trabalhadores recolhiam em bandos dando santas noites; uma poeirada suffocante erguia-se na ladeira sob os grossos sapatos cardados dos cavadores e das patas dos jumentos carregados de alforges e feno; a tarde morria enlaivecendo de um ouro fulvo o poente; pelos campos fóra os grillos, as rãs, os ralos e os mochos preludiavam a longa sonata nocturna, em quanto defronte da casa o Ricardo mais o filho da visinha, descalços e ferozes, jogavam os touros, rolando na relva com um vasto prazer inexhaurivel.

—Sabes o que me convinha? disse d’uma vez o Jerolmo para a mulher.—Ir p’ra feitor d’uma casa. Não anda uma pessoa a estragar-se pr’áhi a cavar desde manhã á noite, e sempre ganha algum vintem melhor.

—Pois está visto que era o que te convinha! Um homem de trabalho como és...

—Diz que o conselheiro precisa. Fui-me a fallar com elle, mas ha pretendentes. Mal sabes quem, mulher?

—Algum alma ruim... disse a Joanna.

—Aqui o nosso visinho Estragado, nem mais nem menos. Oh senhores, que eu ri de maior quando o Galante me contou!

—Aquillo, que nem lhe chega o tempo para as tropelias que arma á pobresinha da mulher... Excommungado, o Senhor me perdôe! Mas é só esse que pedincha?

—Só! Fiquei de ir ter esta noite com o conselheiro. Talvez se arranje a cousa.

—Era grande fortuna, homem. Casa farta, boa paga, elle uma bella pessoa. Mas o Estragado!... Ora não vi!

Estavam na cozinha. O Jerolmo á cancella, limpava da lama as polainas de saragoça e o ferro da enxada, em quanto a Joanna de avental, refogava a cêa e ia pondo a mesa, ao fresco, no quintal. Sentiram passos na casa de fóra, a Joanna foi vêr. Era o Estragado que sahia surrateiramente.

—O visinho é bem confiado, não ha duvida, disse a Joanna toda zangada. Não ha maior atrevimento! Quem escuta de si ouve, e é bem certo.

—Diga ao seu marido que m’as não fica a dever.

—Deixa-o lá, disse pachorrentamente o marido.—Está bebedo, coitado. Deixa-o ir!

Cearam; o Jerolmo á cabeceira da banca vigiava o filho, advertindo-o a cada partida do garoto. Entre os dois ficava o cão.—Da outra banda a Joanna, com o pequenito adormecido no regaço, migava sopas na malga.

Por cima, o céo um pouco escurecido e todo picado d’estrellas, tinha um arfar de penumbras profundas, em que os olhos se perdiam, divagando. Um ventinho fresco, impregnado de fenos, fazia agitar com murmurios finos as folhas metallicas da figueira verdeal. O bacoro no chiqueiro resonava espapaçado no charco. Tempo das eiras. Puzeram-se a fallar nos trigos; as searas tinham fundido bem, mas os tremezes menos. Então o Jerolmo contou as suas esperanças no trigo ribeirinho que semeara na courella das Taypas—um palmo de terra que valia um milhão, segundo elle.

—E estava lindo, ahi pelo tempo da fava! disse a Joanna.

—Do que precisavamos era de uma vinhita—tornou o Jerolmo após um momento de pausa.—E partia o pão trigueiro em grandes pedaços.

—Nada como a vinha p’ra render.

—Apesar das molestias.

—Com alguns sobranos tinhamos ahi um ou dois milheiros. Estava a calhar.

—Ou mesmo bacello que puzesses...

Elle então enumerou projectos de futura prosperidade—comprar um carro com parelha de mulas na feira de Villa Viçosa, ter vinhas e olivaes, a abundancia de uma horta com aguas correntes e nóras rumorosas, n’um pedaço de valle profundo, com a sua barraquita sob nogueiras verdes.

E para se animar citava de memoria os casos de fortuna accumulada pinto a pinto por homens activos e poupados; o snr. Joaquim das Nogueiras que estava pôdre de rico, o Fandango que seu pai conhecera a carregar estrume, o Baleizão que fôra da tropa e até estivera preso. Não havia muito que visitára o monte do compadre Nazareth.

—O meu padrinho! gritou Ricardo.—E a cado passo interrompia:

—Elle é meu padrinho, não é, pai?

—Pois senhores, continuava Jerolmo, aquillo é que é lavoura, aquillo é que se chama seara!—E dilatado accumulava pormenores—quarenta moios nos celleiros, roças de palha do tamanho das torres da igreja, juntas de bois mais gordos que eu sei lá! E as carretas da vindima, as tapadas, a casa dos arados, o moinho sobre rochas e dependurado no Guadiana—um encanto!

—Casa que é um ovo! argumentava Joanna embalando o pequerrucho nos joelhos.

—Pois mulher, ha trinta annos não passava d’um ganhão do Francisco do Cabo. E honrado, honrado como Deus!

—O que se quer é saude, deixa lá. Deus ajuda quem trabalha, resumia a mulher.

E entre risos:

—Muito me havia de rir se ainda vinha a ser a senhora lavradora!

—E eu cá hei-de ter uns sapatos e andar a cavallo, exigiu o Ricardo, que molhava os punhos da véstia de cotim na malga ratinha da cêa.

—A dizer a verdade não temos sido dos mais infelizes.

—Está de vêr que não, apoiou Joanna. E deixa correr! Este anno talvez se peça pouco emprestado. Para o anno que vem já se pede menos, para o outro nada, e depois toca a ajuntar p’r’á fazendinha.

—Pois vou-me ao conselheiro, a vêr o que decide.

—Até logo.

Á porta voltou-se e disse a rir:

—O que tinha graça era agora o amigo Estragado fazer-me uma espera e armarmos de garreia.

—De tudo quanto ha ruim elle será capaz, o carga d’ossos. Peste!

Apenas sahiu, o Ricardo pulou logo a parede para o quintal da visinha á cata do Manel, que tasquinhava pão secco de pansa para o ar.

—Vamos pró adro, o pai abalou.

Não foi preciso mais.

Foram ambos ás carreiras. No quintal, a Francisca roía o seu pão secco e negro, de semanas. A amassadura por pagar, uns fiados na loja do Vieira, trapos por toda a banda... Ao chegar a casa, o Estragado atirára-lhe um sôco ao vazio, pedindo o jantar para que não tinha dado feria. E cobrira-a de injurias obscenas diante dos filhos, exprobrando-lhe a fealdade e fraqueza.

Puxára-lhe até pelos cabellos, gritando com voz avinhada de cobarde:

—Grandessissima porca! grandessissima bebeda!

Dera-lhe bofetadas com a aspera mão ignobil de assassino, clamando que estava farto, que seria até capaz de a matar a punhadas. A pobresinha abatida e com o gesto errante, nem podia chorar. Aquella vida de vilezas e insultos roubára-lhe até o refugio das lagrimas, embotando-lhe pouco a pouco a razão. Abria os olhos sobre o bebedo n’um pasmo tremulo, dizendo baixinho:

—Não me batas mais, pelo amor de Deus, não me batas mais!

Resumia-se para ella tudo na sova e na escravidão muda do martyrio. Não tinha já mãi nem pai, haviam-lhe morrido os parentes.—Sua irmã fôra assassinada pelo marido n’uma azinhaga sinistra e de noite para os lados do Moinho Branco. Era a ultima representante d’uma raça de vergastados incapazes de resistencia e não sabendo na vida outro fim mais que a obediencia ao algoz e a procreação animal das marrãs de montado.

—Visinha, gritou a pobre mulher do quintal, para a Joanna que acabava de levantar a mesa.

A outra subiu á lenha para debruçar-se na parede, sobre o quintal do Estragado.

—Que é?

A esse tempo já a Francisca trepára do outro lado, com o chale de baetilha pela cabeça.—E disse n’um tom choroso:

—Perdôe-me pelo amor de Deus, que não me esqueço de quem me faz bem. É a minha desgraça, aquelle homem, a minha vergonha...

—Houve pancadaria de moiro, aposto!

—O costume, Nosso Senhor nos ajude. E se fosse só isso...

—Então que mais temos?

—O meu homem não entrou na sua casa ha pouco?

—Entrou, para escutar o que cada um está dizendo na sua casa; foi pró que elle entrou! Mas ouviu-a toda!

—Ai filha! Veio de lá como uma féra. Puxou-me pelos cabellos, quebrou os cantaros da agua, bateu no rapaz com uma corda; que eu é que tinha a culpa, que ia tudo a tiro, que haviam de saber quem era Joaquim Antonio. Perdôe-me pelo amor de Deus, perdôe-me tanta mortificação. Pelos modos ouviu fallar no lugar de feitor do conselheiro... E está com a pinga!

—Sempre gostava de saber se é peccado cada um agenciar a sua vida! O meu homem vai fallar com o fidalgo; o seu quer o lugar—que vá tambem. O outro escolhe, e ninguem tem de que se ficar queixando. Esta é a rezão!

—Tudo lhe disse, visinha, tudo lhe disse! Homem, o visinho Jerolmo não lhe parece mal que tu queiras ser feitor e pretendas o mesmo nicho que elle! Vai e fallas. Fallando é que uma pessoa se entende. Agora o vereis! Ainda me deu mais. Visinha, perdôe-me pelo amor de Deus, mas eu queria dizer-lhe... é que... Olhe, estou a tremer que nem varas verdes, nem me tenho nas pernas, veja lá. Mas é que elle sahiu com más intenções, que se havia de pagar, que ia dar cabo d’elle... Perdôe-me, filha, perdôe-me por alma de seu pai, mas elle é mau e capaz de fazer alguma, em estando bebedo. Não deixe sahir seu marido esta noite, não o deixe sahir.

—Mas se elle se foi agora mesmo! disse a Joanna, de subito abalada.

D’um pulo saltou da lenha, deitou pela cabeça a pobre saia de chita azul, sem mais pensar no Ricardo que brincava no adro, e com o pequeno ao collo deitou a correr para casa do conselheiro. Eram mais de nove horas. Os homens estavam nas eiras, fóra da villa; aqui e além, deitados ao fresco junto das portas escancaradas e escuras, alguns vultos dormiam. A penumbra da noite picada de estrellas, errava nas embocaduras, em cones movediços de uma indecisão phantastica. O campo dormia, e sómente a espaços, no como silencio absorto dos restolhos, latia um cão, ou tilintava a esquilla d’algum jumento de trabalho. A casa do fidalgo ficava no outro extremo da villa, isolada dos casebres por uma alameda de freixos enormes. Á roda era a horta, e por detraz dos laranjaes o olival sem fim. Joanna corria quanto lhe era possivel, arrastada por presentimentos funestos e cheia da idéa do seu homem que era o seu deus.

Nos casinholos d’aquella banda tudo dormia já; a alameda em frente, escancarava a bocca de trevas, que á menor lufada de vento parecia ficar ruminando alguma cousa penivel, n’um segredar entrecortado. A casa do conselheiro mal apparecia ao fundo, com a sua linha de grandes janellas morgadias, cujas pesadas cimalhas avultavam n’uma facha confusa de granito. Em outra occasião Joanna não teria ousado atravessar o caminho áquella hora—que errava por alli o vulto do doutor Soiza á procura do seu inimigo. Muita gente lhe tinha já ouvido os brados roucos, depois de corrido o sino da camara[4], e contava-se que um homem o encontrára havia annos, perdendo a falla no mesmo instante.

Á entrada do arvoredo Joanna deteve-se a escutar junto de um tronco. Estalavam as ramas por cima, com ruidos seccos. Applicando o ouvido, sentia-se na horta o correr da agua no tanque. Ninguem estava ainda em casa do conselheiro. Joanna resfolegou mais tranquilla: não tinha havido nada! E rapida, aconchegando a criança, percorreu a alameda e foi puxar a sineta do portão, que deu um som vibrante no silencio do edificio. Perguntou pelo marido; não tinha lá ido ainda. Fecharam-lhe a porta com fracasso sem mais resposta. Joanna então ficou hirta e muda, encostada á hombreira, com as fontes latejando.

Onde estava então o Jerolmo, não estando a fallar com o fidalgo? Não era homem de sucias, nunca fôra visto em tabernas, não trabalhava nas eiras, não era cantador noctivago... Era a primeira vez que ella ignorava o seu destino; que fazer? Então relanceando a vista á roda sentiu um calafrio, dos rins á nuca; á forca de perscrutar a sombra as imagens falsearam-lhe, deslocando-se lhe á vista desvairada; parecia que os troncos iam e vinham rojando caudas de folhagens como espectros evocados de campas; os estalidos abriam um murmurio de risinhos sofreados; ondulavam sem nexo bandos de fórmas estranhas e o rumor da agua era de uma conspiração sinistra...

Joanna sentia no peito o coração em sobresaltos e um zumbido perfido enchia-lhe os ouvidos. E cheia de um medo algido, olho atraz olho adiante, como se legiões de genios maus a seguissem, percorreu a alameda arrumada aos troncos e cozida com a sombra. A meio caminho deteve-se. Vira da outra banda um corpo mover-se. Escondeu-se por detraz d’um tronco, com os olhos fitos no ponto em que a fórma bulira. Julgava já ter-se enganado. Mas o vulto tornou a apparecer, cortando em transversal o caminho. Bem depressa passou por diante de Joanna, que tomada de pavor não fazia um movimento, de collada ao freixo.

Viu um homem de barrete preto e em mangas de camisa caminhar aos solavancos. Bebedo por força; fallava só, com palavras entrecortadas e torvas.

—Outro que fosse, regougava, outro que fosse... quero lá saber! Tudo se paga. Arre!

Mais além já, parou um instante cantarolando:

N’esta rua cheira a sangue, Alguem n’ella se sangrou: Dizem que foi meu amor, D’uma sova que levou.

Essa voz rouca e difficil como coada por uma garganta sem cordas, fez tremer Joanna. Era o Estragado. Vinha do conselheiro? Mas se o Jerolmo não fôra lá, que recear? O bebedo ia já longe quando a pobre mulher se resolveu a abandonar o escondrijo. Apressou o passo; era tarde e talvez que o Jerolmo estivesse em casa já... se estivesse, bom Deus! Esta esperança dissolveu-lhe um pouco os terrores, que era animosa como uma filha de herdade. Mentalmente prometteu logo uma missa á Senhora da Boa Morte se nada tivesse havido. Saltou do vallado para a estrada e receosa de magoar o pequenito apoiou-se n’um pedregulho, mas a mão teve um contacto humido e molle que cedeu, ao pousar. Joanna agarrou n’aquillo: era um farrapo de lenço; puxou, e uma cousa dura cahiu dando na pedra um som metallico.

Era uma navalha cheia de sangue. Perdeu completamente a cabeça; o seu coração dilatou-se effervescente de agonias e ourada de lugubres evocações a sua imaginação bolsou presentimentos funestos. Poz-se a correr sem destino pelas ruas da villa, clamando em altos gritos contra o Estragado, contra Deus, contra a sua desgraça! Na calada do povo adormecido a sua voz resoava com uma sonoridade alta e rapida a que o desvairamento imprimia uma nota febril e sincera, que commovia.

Alguns postigos abriram-se, por onde cabeças somnolentas e avidas escutaram. Depois, sapatos ferrados bateram as pedras e os balcões das casas, e os vultos embuçados nas mantas foram seguindo Joanna. Ella contava a quem vinha, que o seu homem estava morto, que os filhos estavam sem pão, que fôra o Estragado. Começava trinta vezes a narrativa ao ultimo que chegava, com a voz velada de choros e estrangulada de soluços. Mas onde estava o Jerolmo? Um trabalhador que recolheu tarde dera nas escaleiras do adro, com o Ricardo e o filho da visinha Francisca, adormecidos um ao lado do outro. Vira a porta aberta e luz na casa de fóra.

Então foram todos vêr a casa do Jerolmo, batendo fortemente os sapatos de trabalho. Algumas mulheres atemorisadas, de chale pela cabeça e em grande abatimento, seguiam Joanna resmungando lamentações. Em breve a terra estava em alvoroço, e quando a pobre rapariga chegou á soleira a rua ia já cheia. A casa estava vazia. Recomeçaram os gritos e os commentarios, o prior veio saber o que era, com o largo capote nos hombros e o chapeirão descido. Todos contavam; a algum pormenor menos fielmente emittido, vozes diziam:

—Não foi assim! A coisa começou...

E punham-se a dizer como tinha sido.

—Mas lá por se encontrar a navalha suja de sangue não se segue que haja mortes, objectou o prior.—E a sua voz de um timbre ingrato e cheia de authoridade fazia peso na roda. Muitos eram da opinião de sua senhoria, concordando:

—Está bem de vêr, está bem de vêr.

—O que devem é ir rebuscar bem a alameda e os meloaes que ficam á roda da horta do conselheiro. Talvez até o Jerolmo esteja nas eiras.

—De lá venho eu agora, disse um.—Não dei noticia d’elle.

Varios trabalhadores então, partiram a esquadrinhar a alameda.

—Se passarem lá por casa digam á senhora Magdalena que lhes dê uma lanterna, disse o prior.—A Joanna quiz tambem ir, mas as mulheres oppuzeram-se. E sentadas na casa de fóra, embiocadas nos chales ou com saias pela cabeça, jaziam silenciosas e curvadas, como se um vento de assolação as vergasse. No silencio lugubre, os soluços da Joanna vinham a espaços como um estribilho magoado. A um canto discutia-se o Estragado, com pormenores recentes. Segundo muito boas opiniões, enforcado devia elle estar havia muito tempo—peste ruim! Algumas tinham palavras de dó para a Francisca—que tinha o corpo como um fungão, da pancadaria. Ao fundo da rua, a voz avinhada ouviu-se:

N’esta rua cheira a sangue, Alguem n’ella se sangrou...

Ao mesmo tempo a calçada soou do outro lado sob os pés de muitos homens. E pela porta da Joanna quatro moços do campo entraram carregando uma escada, onde vinha estendido o corpo do Jerolmo. Toda a gente se tinha erguido fazendo um ruido indescriptivel de prantos; uma rapariga cahiu com um flato, algumas fugiram para o quintal, aterradas do cadaver. Joanna só, estendida nos ladrilhos e resistindo a todos os empuxões que lhe davam para a afastar d’alli, Joanna só não tinha medo. Passára os braços ao pescoço do homem, enchendo-lhe de beijos a cara e a bocca aberta, de que um sangue viscoso corria. Uma enorme paixão rebentava d’ella sobre aquelle corpo que arrefecia pouco a pouco, retesando-se, com um sinistro desenho, anguloso e livido. Fóra, o regedor conseguira agarrar o Estragado por um braço. Vozes clamavam rudemente:

—Está preso! em quanto retiniam nas pedras, com pompa de entremez, as espadas dos senhores cabos de policia. A Francisca que se interpuzera de cabellos soltos, arrastava-se abraçada aos joelhos do marido, pedindo clemencia com a voz arrastada e baixa, em que havia um fundo de miseria e de dôr. Os pulsos sahiam-lhe das mangas da roupinha tisicos e inabalaveis; por mais que fizessem não lhe arrancavam as mãos das calças do Estragado. Os maus tratos, as bestialidades e as fomes com que aquelle homem a trucidára desde o primeiro dia de casados, haviam enraizado no seu coração uma cega obediencia, uma necessidade fatal d’aquelle imperio torpe; mesmo assim gostava d’elle, pai de seu filho, o que partilhava o seu catre e lhe déra esse primeiro beijo, que é como a annunciação da maternidade á mulher virgem.

Das escadas do adro então, as duas crianças ergueram ao mesmo tempo as cabeças, despertando ao alarido dos prantos.

—O que é aquillo? disse o Ricardo.

—Olha, é muita gente. Não ouves a chorarem? notou o Manel.

—Oh vamos a vêr! insistiu o mais novo.

E como o Manel cambaleava estremunhado de somno, o outro passou-lhe o braço ao pescoço a segural-o.

E com ares protectores dizia-lhe:

—Vê se partes as ventas, vê...

Todo abafado no casacão, o senhor prior saciado das novidades fresquinhas sahia de casa da viuva, pensando que era ainda uma rica moçoila.

Por outro lado, a morte do Jerolmo irritava-o: fôra depois de cinco annos o mensageiro das suas labutas vinicolas, o que lavrava a seu gosto, o que fazia uva á siranda com mais desembaraço.

Não bebia, não fumava, não era exigente nos preços... Assim pensava sua senhoria quando deu com os pequenos, que iam a passinhos preguiçosos e esfregando os olhos com os punhos, em direitura ao tumulto. E ao vêl-os tão unidos cresceu-lhe uma raiva de dentro, biliosa e vingadora. Separou-os com um safanão furibundo.

—Sucia de marotos, que os enforco!

E dirigindo-se ao Ricardo:

—Vossemecê não tem vergonha em andar com o filho do ladrão que matou o seu pai, hein?

E para o Manel que chorava aterrado d’aquella aggressão:

—A minha vontade era frigir-te, podengo!

E deu-lhe um puxão de orelhas teso.

No dia seguinte foi o enterro. Era d’esses dias ardentes em que, nos troncos das oliveiras as cigarras cantam, e as rôlas se abatem por dezenas sobre as ultimas poças verdenegras dos ribeiros. Apenas o sino chamou a padres e o prior appareceu precedido do sacrista de cruz e caldeirinha, viu-se sahir de casa da Joanna o cortejo. Adiante o sacrista ia de cruz alta e campainha na mão—velho marau de sapateiro, de olho patife e calva luzidia, dos que sabem quantos escandalos usam acompanhar toda a gente do berço ao sepulchro.

Fôra noviço de capuchos, adquirira habitos de glotão e de bebedo, aprendendo a negar a mulher decente. Rosnava-se um pouco das suas relações com a snr.ª Magdalena do prior, e temia-se em geral do seu cynismo correlacionado, segundo se affirmava, com o do diabo, pelo desfastio com que pisava rosarios bentos e fatias de pão torrado. As beatas fulminavam contra elle exorcismos temerosos, porque á sahida de uma missa de finados ourinára na pia da agua benta, estando bebedo. De cruz alçada e opa escarlate, Zé do Ó caminhava piscando o olho ás mulheres, que em saia de estamenha e sapatos de couro crú viam da soleira marchar a procissão da morte, lacrimosas e trocando lamentos. A partir d’elle, duas filas de homens do campo seguiam com os fatos de aspera saragoça dos domingos, chapéos de Braga nos olhos, ornados de uma borla redonda, e os capotes de baetão das mulheres nos hombros. Alguns ainda novos, que tinham sido amigos do Jerolmo e como elle destinados sem resistencia ou vacillação, de pequenos, para cavadores, iam com os olhos vermelhos voltando a cara, envergonhados de serem vistos em pranto pelas mulheres que vinham ás portas e ás esquinas das ruas, rodeadas dos filhos descalços. Viam-se os altos pescoços curtidos pelas calmas do estio e pelas ventanias do inverno, no convivio dos trabalhos de picareta, de arado e de fouce.

As mãos de enormes dedos coreáceos e palmas rugosas de callos, tinham curvas unhas, disformes de martelladas e entalões. Nos dorsos, as vêas de uma espessura consideravel ramificavam-se-lhes em arvore saliente, pondo em pregas a epiderme de poros largos, de que sahiam cabellos. Alguns eram já velhos e curvados, contando trinta, quarenta e cincoenta annos de labuta em charneca, nas lavouras, nas ceifas, nas ferras do gado, no córte dos azinhaes e na recovagem de noite por caminhos terriveis, de matagal em matagal. Tinham as cabeças brancas e o passo vago, e olhavam com esse olhar vazio de quem nunca teve esperança e de quem jámais teve fortuna. Haviam ganho toda a vida o mesmo salario, cobrindo-se de filhos constantemente e fazendo da fecundidade uma distracção, a unica, que lhes era dada, e que ainda assim caro pagavam. Dois ou tres nunca haviam possuido um fato novo. Quasi todos tinham andado descalços e rotos até aos vinte annos.

Havia n’essas faces, mesmo fóra dos enterros, o mesmo ar lugubre e suspenso que alli mostravam; pareciam seguir como se aguardassem alguma cousa retardada de ha muito, boçaes e emparvoados, não dando pela carie dos dentes e pelo espasmo de humildade que os ia bestificando. Proximo á tumba os irmãos da Joanna e os tios do Jerolmo iam affectando grande mágoa com as golas dos capotes erguidas, cabeças baixas e amarradas em lenços. Depois o padre: era alto, possantes hombros de tambor-mór, a barba de cinco dias negrejando de espessa, um carrancudo alarve na face. Como a volta era apertada, o seu pescoço extravasava gordurento fazendo uma rosca de carne, que pendia reflectindo um rubor sobre a pelle do queixo e da cara, d’onde o suor borbulhava. Tinha as orelhas de um guardião, ar imperativo e voz grossa, em que a nota surda dos desejos que se refreiam, dominava. Era um pouco agricultor e um pouco musico e nas recitas da terra fazia papeis de tyranno, esbracejando com furia para todos os lados. A tumba ia por fim, aos hombros de quatro mendigos, e um rapaz após levava o banco de pinho para a fazer descer, nos responsos.

Era um esquife de pau preto com balaustres delgados, tendo o ar d’um berço. Na villa causava horror. Era com que mettiam medo ás crianças: via-se-lhe pregada na cabeceira uma cruz preta, e um Christo de ferro com resplendor de lata que tremia, agonisava pessimamente fundido, mostrando os olhos vazios. No fundo via-se a enxerga coberta de paninho preto em farrapos, onde deitavam os cadaveres, havia muito. Esse pano tinha nodoas gommosas, á altura da cabeça. Os va-nu-pieds abatidos para a valla durante os ultimos quinze annos haviam alli impresso o seu remember de mucus sanguinolento, de que tresandava um fetido em baforadas. Era onde ia o Jerolmo, vestido no seu fato de saragoça, com sapatos de bezerro enormes nos pés, os dois pulsos unidos por uma tira de chita negra a premir as mãos cruzadas no peito, na attitude de uma imploração derradeira.

—Ainda hontem a estas horas estava são e vivo! era o pasmo da villa.—E vinha todo um volume de ponderações sobre a fraqueza da creatura de Deus.

Aos solavancos dos velhos que tinham desiguaes alturas, o corpo pendera mais para uma banda; á menor anfractuosidade do caminho então, os sobrecarregados rogavam surdamente as pragas mais torpes,—que nem valia a pena levar um boi d’aquelles pelos seis vintens da esmola.

O mais ratão dos quatro era um velhito baixo, que mostrava escarlate uma orbita sem olho e já cahira numa contramina de horta. Dizia elle com bella emphase, todo serio:

—Como estas bestas morrem sem derreterem os toucinhos, senhores!

O garoto do banco escandalisou-se e resmungou:

—Vossemecê não tem vergonha em fazer mangação dos defuntos?

Os outros riram, e o mais alto:

—Caluda, filhote! Que ainda te havemos de levar adiante.

Mas o prior voltou-se, e da frente o sacristão veio correndo de cruz ao hombro, em ar de clavina, com a caldeirinha estendida para o responso. Os quatro da tumba pararam, o garoto estendeu o banco.

—Abaixo! ordenou o prior enfastiado.

O esquife desceu. Uma vida fecundante de atomos impalpaveis vibrava na luz, metallica na irradiação da cupula amplissima. O enterro tinha parado e todos se voltavam para traz, olhando o prior que espargia agua benta sobre o corpo do Jerolmo. Estava-se quasi fóra da villa, ao meio da rua ultima d’aquella banda, que entre filas de casebres caiados corria, corcovando-se bruscamente depois sobre a azinhaga.

Como o sol batia de chapa, os trabalhadores faziam tecto com as mãos em arco, á altura das sobrancelhas, abrindo a bocca e premindo as palpebras, por uma contracção inconsciente de musculos faciaes. Sobre os balcões das portas, as mulheres olhavam alongando saudosamente os grandes olhos pretos, humidos de lagrimas. Abaixo da orla das saias de chita viam-se os tornozêlos de algumas, calçados em meias de linha azul. Muitas faziam meia, com os cabellos oleosos de azeite e a marrafa separando as madeixas em duas pastas symetricas e alisadas. Na terra das soleiras as crianças seminuas rolavam-se rindo; um fumo raso subia das chaminés. Na ultima porta tinham acabado de jantar e via-se a malga na mesa baixa, os garfos de ferro com tres dentes apenas, restos do enorme pão da amassadura da semana, e em torno inda sentada a familia, onde o chefe, velho pastor de polainas altas e ampla calva, rezava de mãos postas e labios mexendo, com o chapeirão nos joelhos.

O Jerolmo era muito estimado. Todos diziam —coitadinho!—lagrimejando. E enumeravam as suas virtudes, o seu bom genio, a sua economia, a sua temperança. Os bons leva Deus, que são do céo, dizia uma velha. Mas a voz do prior ouviu-se imperativa e cheia de sabedoria em ruminação de latins, e fez-se um silencio piedoso. Toda a gente ajoelhou, que ninguem ouvia latim n’outra postura na villa. A recitação grave e n’uma lingua estranha dava aos espiritos simples a profunda emoção de um fim proximo e a lembrança de almas que partem para as regiões serenas da bemaventurança com o seu peculio de graças adquiridas e azas brancas da innocencia. O prior ia dizendo:

—De profundis clamavit ad te Domine. Domine exaudi vocem meam; nec aspiciat me visus hominis.

Kyrie eleison, Christe eleison, Kyrie eleison! Pater noster...

E as vozes rezavam baixo n’um côro murmurado, que ia como o som do vento n’uma fenda, alternadamente agonisando e subindo até se perder, á ultima aspersão de agua benta do prior. De pescoço estendido as mulheres brancas de pavor, olhavam ao meio da rua o esquife envolto na luz, onde ia o corpo do trabalhador, retesado na rigidez que antecede a podridão. Descahira-lhe a cabeça para traz por haver escorregado um pouco a cabeceira da enxerga, e o bordo da queixada, de uma linha parabolica, repuxava-lhe angustiosamente os tendões do pescoço esverdinhado, em que fazia corcova o nó da guela inutil.

Corria-lhe das ventas um fio de sangue negro que os moscardos vinham beber zumbindo, e por entre os dentes a espaços, na bocca que se abrira na convulsão da ultima hora, gotas de gaz podre faziam crepitar globosinhos, da intima fermentação que progredia.

Os amigos d’outro tempo tiravam então o lenço do bolso das véstias e sahiam aos dois e aos tres do seu lugar, para piedosamente virem limpar a cara e os labios do Jerolmo.

—Bemdito seja Deus! diziam, apavorados pelo fervilhar da corrupção cadaverica que a torridez do sol activava prodigiosamente.

O prior tinha acabado o responso e abrira o seu enorme chapéo de sol.

—Carreguem, ordenou sua reverencia aos quatro homens. E o enterro entrou na azinhaga que ia dar ao cemiterio.

Cada qual sentindo-se um pouco á vontade no campo, teve a necessidade de fallar na sua vida, cousas alegres e capazes de afugentar os maus pesadêlos da cova.

—Quem teve seara guapa foi cá o mariola!—ia dizendo um homemzarrão, e depunha os grossos dedos no hombro de um secco, de olho desconfiado.

—É p’ra que saiba. E ainda temos hoje um calcadouro de tremez.

—E quando chega esse casorio? quiz saber um rapazola louro, riso boçal de pobre diabo.

—Está p’ra tarde. Antes da vindima não, diziam.

O de olho desconfiado não dava palavra, deixando que respondessem por elle.

—E moça de estimação. Desenxovalhada e mais branca!... Seio de encher olho e golpelha, c’os diabos!

—Pódes lá com uma vacca d’aquellas, meu poeta!—diziam-lhe. Aquillo é mulher p’ra te bater, ó Rato!

O de olho desconfiado ria, e disse pachorrentamente:

—Quatro mil cruzados em terras, está dourada que nem uma princeza, rica saude e vinte e quatro annos. Um sobr’olho preto; que mais quero?

O louro conhecia-a e o seu riso abria-se sensualisado, com uma reminiscencia gulosa.

—Está bem de vêr! Está bem de vêr!

A calma picava. Sentia-se zumbirem os insectos, e ao longe nas oliveiras o ciciar das cigarras punha um ruido secco. Do outro lado discutia-se a Joanna, ainda frescalhona; apesar dos dois filhos aquillo vinha a casar ainda.

—Não seria eu que casasse com ella. Entrando só com o corpo e ter de aturar dois diabos! Olha a fortuna!

—Cá p’ra mim, dizia um barbado, mulher que casa duas vezes é capaz de pregal-os ao marido.

—É a minha systema! Mulher só p’ra um homem! O mais, cabras!

—Homem, que hão-de ellas fazer? perguntava um benevolo.

—Mas a Joanna fica mal, coitadita. Elles não tinham fazenda. Teem o burro, as casitas, uma geira de terra além ás Taypas...

—Demais, o irmão do Jerolmo quer partilhas.

—Qual! tornou um viuvo, entendido.—Ha filhos. Só se levar a cinza da lareira, que é boa p’ra barrelas.

—Como ha-de a pobresita governar os pequenos?

—Ora! Como? Como as mais, no campo. E a Rita Santinha e a Thereza do Mudo, não vivem? Á monda, á empa, á vindima, á ceifa. Pois onde? Avezada a tudo como está, póde bem fazel-o.

—E nada má, fazia surdamente um amarellento, com certo riso.

Os vallados prolongavam agora a facha da rua que findára, e eram alli altos os silvados e tão robustos os cachos de amoras, que os rapazes mais novos sahiram do renque para fazer provisão. Estavam ao cimo da collina. O cemiterio ficava a meia encosta, cintado em muros brancos, com uma cruz de ferro na fachada. Do ponto do caminho em que iam, a paizagem era da mais plena largueza de horisonte e da mais bella disposição de promenores. Convergiam de ambos os lados as courellas ceifadas, sobre a garganta do valle, que ia perder-se a pouca distancia junto do ribeiro e aos pés de uma antiga orla de choupos e faias. Das ouvielas dos ferragiaes e das vinhas irrompiam seccos os pastos, cammomillas, malmequeres, grizandas, maravilhas e enormes cardos de calices espinhosos. Para a esquerda ondulava n’um mar verde vivo, quasi sem gradações, fatigante e sadia, a região das vinhas. Figueiras gigantes abriam até ao chão parasoes metallicos de largos folhedos, sobre que revoava a pardalada. Aqui e além as hortas abriam na grande symphonia chromatica, uma cadencia graciosa de tons bronze e verde salsa; as nogueiras junto dos tanques ensombravam sofregamente as nóras e cisternas, usurarias da frescura. Á direita era olival, tristonho e abrazado. No ribeiro á sombra dos canaviaes, as lavadeiras batiam as roupas, cantando. O fio d’agua era tenue como de uma vida que pouco a pouco se desprende, e serpeando por baixo do arco da ponte, onde um tufo de eucalyptos novos bolia, ia expirar lentamente na arêa, sob as raizes sequiosas das junças e escalrachos.

Era junto dos eucalyptos mesmo, que o Ricardo mais o Manel estavam á pesca das rãs, quando o enterro appareceu em cima. De entretidos nem deram por tal. Haviam conseguido de manhãsinha logo, escapulir-se de casa em quanto as mães soluçavam e as comadres iam prodigalisando lamentações e consolos de momento.

—Não sabes o que a mãi disse, ó Manel?

—Que foi?

—Que em ella me vendo andar comtigo me havia de dar sova.

—É mentira, deixa fallar, é mentira.

—Olha, o pai morreu, tornou o Ricardo. Já não ralha, pois não?

—Nada que não! Em fazendo trovões.

—Oh vamos brincar?

—Eu cá dispo a véstia. Peço um pedaço de pão á minha mãi e não appareço senão ás Trindades, expoz o Manel todo resoluto da idéa.

—E eu cá tambem.

—Olha, disse o Manel abrindo os olhos espertos, que um embevecimento clareava. Vamos ás rãs?

—Oh vamos.

As rãs eram a paixão dos dois, o seu sonho, a sua coisa mais ambicionada na vida. Tinham construido sobre ellas as lendas mais extraordinarias e feito, por copia do que ouviam ás mães, uma quantidade de promessas aos santos se um dia conseguissem apanhar uma viva, das grandes.

Á tardinha, quando os olhos vigilantes da Joanna por um instante os largavam, corriam logo para o ribeiro. Á chegada dos dois as rãs saltavam de todos os lados, da espessura dos juncos e mentrastes, sobre a agua dos charcos com um sonoro plhau! na profundeza dos pégos. Calavam-se logo agachados no tufo de eucalyptos, esperando pacientemente a occasião. N’uma circumvolução do regato, pensando-se sósinhas algumas das rãs coaxavam á flôr d’agua, erguendo acima do nivel tranquillo as chatas cabeças verdes, olhos estourados de iris côr de ouro, a enorme bocca semi-elliptica aberta ao ar n’uma especie de sorriso extatico, e a fila de pequeninos dentes corneos um pouco curvos, dispostos para a apprehensão dos animalculos. Erguiam-se então com grandes precauções e subtilezas, acautelavam extraordinariamente o ruido das passadas, promettendo baixinho na febre do desejo, duzias de padre-nossos a Santo Antonio se fosse servido entregar-lhes algum dos animaesinhos que faziam a sua paixão e o seu desespero. Mas precipitados como eram não conseguiam jámais aprisionar os elegantes anuros, e cahindo a noite das montanhas azues alinhadas em decoração ao fundo da paisagem ridente, voltavam cheios de tristeza e cansaço para as cêas da familia, acabando por adormecer um ao pé do outro. Na volta sentiam com surda raiva o côro de rãs unisono e forte, magnificamente instrumentado de ironias, que parecia de proposito erguido para lhes saudar a retirada e escarnecer do desalento e pouca arte que empregavam na pescaria. Tal côro, na penumbra mysteriosa e vasta dos campos, tinha a concentração harmonica e a poesia nubigava de um threno—hymno de liberdade de uma colonia que de subito readquire a sua independencia. O Manel, especialmente, embirrava com a troça. E com mão rapida, fazia chover nas poças d’agua mais sonoras, grandes pedras talhadas em cunha e seguidas de pragas adequadas ao caso e á solidão do lugar.

Tinham ouvido aos rapazes que as pernas das rãs tinham uma carne excellente e branca, tenra e fina como a de gallinha. Nenhum d’elles comera ainda: mas era magnifico! Tinha-lhe contado o Coxo, um idiota da terra, que uma vez apanhara uma rã muito grande. E vai abriu-a, e tinha na barriga um canivetinho de duas folhas, muito bonito. Para os dois pequenos, ter um canivete de duas folhas era uma opulencia inestimavel. Em qualquer d’elles, nos dias de desavenças ou amuos, querendo fazer sombra ao outro, já dizia:

—Deixa estar que eu hei-de ter um canivetinho de duas folhas e tu não!

—Ha-de, uma figa torta! dizia logo o outro.

Porque traziam as rãs canivetesinhos na barriga? Não sabiam. Mas traziam, traziam!

O Manel que era o mais imaginoso, entrava a explicar que as rãs faziam buracos pelo chão, furavam, furavam... e iam ter á loja do Vieira para roubarem as navalhinhas. Então o Ricardo ria.

—Mentira!

E com a vózita gaguejada, phantasiava por seu turno uma theoria sobre os canivetes. E ambos á borda das poças se interrogavam de vez em quando, surprezos:

—Mas como será que ellas teem canivetes lá por dentro? Aquillo é cousa que os engolem.

—Qual!

Como o calor era intenso, os anuros andavam no fundo da agua, por baixo de limos reticulados com a delicadeza de frócos. O tufo d’eucalyptos lançava porém sobre o pégo mais proximo da ponte uma sombra alongada: alli sentia-se coaxar. As duas crianças agachadas quedavam-se, á espreita:

—Que cantoria que fazem! dizia baixinho o Ricardo.

—Deixa! resmungou o outro com ares fanfarrões. Eu dou cabo d’aquelles diabos.

Piscava os olhinhos com intenção, tirando do bolso um pedaço d’arame aguçado.

—Ellas apparecem, eu vou com isto estendido e tancho-as por uma perna.

E com profundo desdem:

—Hoje não é cá preciso padre-nossos!...

Foram-se aproximando do pégo, de gatinhas. Viam-se os tornozêlos do Ricardo, grossos e de ligamentos inabalaveis, e o pé polpudo e forte, bom para firmar o corpo. Devia ser de estatura mediana e muito robusto, de rico sangue. Pela camisa aberta e rasgada via-se o contraste da carne branca do tronco com a epiderme fulva da cara e das mãos. Solido como um novilho devia ter a indole ingenua e boa do Jerolmo, como lhe herdára a enformação animal. O Manel era esguio e secco, anguloso de ossatura. Tinha os cabellos corredios e as mãos estreitas, com unhas que revestiam quasi o dorso das phalanges terminaes. Era já teimoso e de nervos susceptiveis. A sua organisação sensibilissima, presentida, daria mais tarde o typo physicamente inhabil para a labuta da enxada e em construcção perpetua de estratagemas. Tinha os olhos grandes e lucidos como dois onyx molhados, e a linha do nariz sem proeminencia, fazendo lembrar na cara olivatre e comprida o que quer que era de masque egypcia. Áquelle tempo, o sino da Misericordia mandava o ultimo dobre de finados. E o som badalado de quebrada em quebrada chegou ás crianças.

O Ricardo parou, erguendo a cabeça. Alongava os olhos com essa tristeza vaga dos que de outra fórma não conseguem formular uma commoção interior. Lembrava-lhe o pai morto que iam metter na cova. Como essas naturezas que a musica enche de soluços e de invencivel angustia, o sino com aquella toada grave e preguiçosa—Tlão! Tlão!—Tlão! Tlão!—dava-lhe como uma reminiscencia lugubre.

A esse tempo o Manel erguera-se tambem, esquecido da pesca. E os seus olhos deram com o enterro. O Zé do Ó ia entrando já pelo cemiterio, a opa escarlate parecia de longe uma papoila cortada que o vento impelle.

Na meia-laranja da porta depois, os homens de escuro apinhavam-se para deixar passar a tumba, muito alta aos hombros dos velhos, em que o Jerolmo de mãos postas oscillava penetrando os muros brancos.

—É o teu pai! fez o Manel.

—Vai pró céo, então não vai?

—Está visto!

—Elle não gostava do teu, então gostava?

—Não gostava! O meu anda sempre bebedo. É tão mau!... Dá com a corda.

—Ó Manel! Manel!

—Que é?

—A gente havemos de ser amigos sempre, então não havemos?

—Havemos.

—E brincar sempre, então não havemos?

O outro não respondeu. Em quanto o Ricardo de gatas se adiantava para o pégo com o arame na mão, os olhos do filho da visinha acompanhavam de longe os movimentos da massa de gente negra que viera ao enterro. Toda a noite a mãi chorára, miseravelmente abatida sobre a enxerga que servia tambem para albardar o burro.

O pai fôra levado entre cabos de policia para a cadêa de Evora, com as mãos atadas nas costas e o fato roto. No puxão de orelhas e nas palavras desprezivas do prior sentira que estava filho de um assassino. Ouvia n’uma toada fatidica os signaes da Misericordia. Então as suas narinas palpitaram, sentiu na garganta como um novello que se engrossava para o estrangular. Uma cousa abateu-o todo, percorrendo-o de uma estranha galvanisação de mágoas.

Entrou a chorar alto, com profundos soluços que n’um jogo brusco lhe alevantavam as pobres costellas esburgadas.

—Deixa, dizia o Ricardo puxando-lhe as calças, deixa lá. A mãi não ralha, não.

E esquecidos, innocentes, recomeçaram a pescaria. Do outro lado da ponte as lavadeiras tinham cessado de bater roupa. As suas vozes cobriam de pragas o Estragado, assassino, bebedo e ladrão, que Deus confundisse na outra vida e as justiças degredassem n’esta, para càsa do inferno.

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O Tio da America

Illustration from Contos

«Ha tempos, escrevia Sabino de Sousa Pancada, commerciante de seccos e molhados no Pará, a seu unico sobrinho e futuro herdeiro Alfredo Carvalhosa, já n’aquelle tempo pai de dois pequenitos e esposo da boa Maria do Resgate—ha tempos que medito uma viagem á Europa, com residencia demorada no meu paiz natal. Vai em trinta annos que aqui estou, e nem uma só vez tornei a vêr Lisboa. A velhice traz-me saudades. De fórma que por estes tres ou quatro mezes mais proximos ahi me tens, prezado sobrinho. Arranja-me quarto ao pé do dos teus pequenos, de quem me lembro tanto como se os tivesse visto alguma vez. O Arthur, principalmente, é a minha paixão. A photographia que me mandaste ultimamente, pinta-m’o como um cherubin, pobre criança!...»

—Aquillo é homem d’ouro! ponderava o Carvalhosa para a esposa, mignonne sadia e fresca, que tornava o ninho sonoro da musica dos seus risos. Honrado a mais não! E homem intelligente! Quando d’aqui sahiu não passava d’um pobre rapaz sem protecções e sem chelpa, infeliz no officio de selleiro que lhe mandaram ensinar, e devorado de febre e desgostos. Isto contava meu pai que Deus tem. D’uma vez apparece-nos em casa, de chapéo á brazileira e chale-manta, a pedir a benção aos tios e declarando que se partia para o Pará, na barca Ligeira, do Neves. Cada qual fez por tirar-lhe semelhante mania dos cascos.—É morte certa! dizia minha mãi.—É tolice de metter os tampos dentro! ponderava meu pai, que fôra da alfandega de consumo.

Apesar de tudo, o tio Sabino abalou. Quatro annos depois tinha o estabelecimento na rua de Gonçalves Dias, e hoje é rico como os primeiros negociantes do Pará, despacha gommas, ginguba e oleo de palma, negoceia em velames e cabos, tem fazendas no interior e dinheiro nos bancos, subscreve com grandes quantias para os monumentos e obras uteis do seu paiz, soccorre os parentes, estudou nas horas vagas, e sabe onde tem a cabeça, coitado!

—E homem de sessenta annos! juntou Maria do Resgate afagando os cabellos loiros do Arthur.

—Deus lhe acrescente a vida, que por me julgar habilitado á herança me não esqueço da amizade com que o bom velho me tem recebido.

—Nem eu!

—Nem eu! gritou o Arthur, que era tido em casa como um precoce extraordinario, e já tocava no piano pedacinhos de Madame Angot.

—São horas, vou-me para o serviço, disse o Carvalhosa dando nas testas da familia os tres beijos sacramentaes.

Era do correio havia dez annos, vida trabalhosa mas soffrivelmente paga. N’essa noite tinha de seguir para Elvas em commissão de serviço. Estava-se em fevereiro, tempo humido e lamacento. O Carvalhosa andava um pouco encatarrhoado. Á porta do correio tirou o lenço para se assoar, e á volta para casa caminho do jantar, notou que perdera a carta do tio Sabino. Não lhe deu aquillo grande cuidado, a fallar a verdade. Tinha-a mettido no bolso da ingleza provavelmente, e ao sacar do lenço cahira-lhe. Nunca Deus lhe désse maiores cuidados! Esteve até á noite com a familia, rindo das doidices do Arthur e contemplando com deliciosa emoção de pai, o soberbo grupo de Maria do Resgate com o mais pequenino ao peito. Tivera sempre pelo lar aquella adoração lyrica e sã, que o devotava corpo e alma á familia, e o parecia guiar no trabalho como essas grandes estrellas cujo deslocamento conduz através o deserto as pobres caravanas melancolicas. Era feliz, realmente. Nunca passára os tempos maus de certos desgraçados surprehendidos no berço, pela pobreza arida ou pela desolada orphandade. Perdera o pai quando o emprego lhe rendia quinhentos mil reis, já o Arthur era nascido. Annualmente, nos meados de julho, o tio Sabino presenteava o anniversario do pequeno com uma inscripção de cem mil reis, varias latas de dôce de tijolo, uma duzia de cuias pintadas a escarlate e branco, e basta collecção de plumas e cofres com embutidos indios.

O aceio e o bom gosto de Maria do Resgate rebrilhavam na disposição dos moveis, de uma conservação viçosa, na symetria dos quadros de gravuras ou oleographias, na brancura dos umbraes, na nitidez dos papeis, na graça simples dos reposteiros de cretone e das cortinas de cassa, na harmonia impagavel dos bouquets de rosas e dhalias cortadas no quintal e radiantes á vista em jarras de porcelana esmaltada, sobre a cimalha do velho aparador de carvalho, a preciosidade da casa, que a esposa trouxera.

Desde os quinze annos que tinha sonhado o futuro assim—uma casa limpa, uma mulher fresca e risonha, bons dentes e halito suave, dois pequenos fortes, braços brancos e olho ingenuo, em cujo azul ceruleo revisse, como n’um espelho, a sua ventura pacifica e dôce, de casado. E mais tarde a riqueza bafejal-o-hia, trazida pelo tio Sabino, bom velho cuja solicitude lhe dava uma commoção. Poderia vêr o Arthur n’um palacete de jardins umbrosos e rumores de cascatas, medico ou engenheiro, e de bigode, com um coupé bem polido e uma parelha bem gorda. E o mais pequenino tambem, de militar, com premios e galões, atravessando ao entardecer a Baixa sobre um cavallo branco, no meio dos suspiros das herdeiras ricas. Por esse tempo seria elle um velho e a Maria do Resgate tambem. Vinha-lhe uma pena sincera de não ter vinte annos quando os pequenos os fizessem, uma especie de ciume da intimidade que elles viessem a dispensar aos amigos, e do amor que prodigalisassem infructifero a qualquer dos alegres peccados mortaes de Hespanha, que a mantilha cérca de um prestigio canaille de bacchantes.

Ás quatro horas jantaram. Era uma quinta-feira fria, sol limpido e grande pureza de ares. Ao largo o rio, visto d’aquella altura, tinha um espanejamento de enseada, em leque. Um pano de fundo, de cordilheiras e nuvens ás camadas, cahia de cima fechando o horisonte. Os barcos corriam á vela no rio, e o fumo dos vapores da carreira, ennodoava o azul placido.—Subia o pregão das ovarinas descalças e o rumor dos trens, circulando. Uma especie de bondade despregava bençãos, de cima do azul em cupula, que as pombas cortavam de adejos castos, como lenços saudosos que palpitam, fazendo adeuses á terra.

Abriram uma garrafa de Porto, á sobremesa. O Carvalhosa quiz saber se estava o farnel aviado—partia ás oito horas no comboio de Santa Apolonia, e demorava-se tres dias.—Escusava de gastar no bufete.

—Tanto tempo! disse amuada Maria do Resgate.

Mas era serviço—que remedio senão obedecer...

—E eu que fique sósinha para aqui!

—Manda chamar a tia Prazeres, aconselhou o marido. Já te fica companhia.

—Não está em Lisboa. Foi acompanhar o genro a Villa Franca.

Notes in this chapter

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