PARTE I OS DOENTIOS (continued 3)
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—Ora! tres dias correm n’um momento. Deixa lá, filha.
Bebiam a pequenos goles aquella alegria côr de opala, que polvilhava carmins de vida nas faces e reluzia nos olhos com uma scintilla garota.
—Quando chegará o tio Sabino? perguntou o Carvalhosa.
—Tem tempo, respondeu a mulher.
—Damos-lhe o nosso quarto, quando elle vier. É o mais espaçoso e o que tem melhor papel. Demais fica ao pé da sala...
—Exacto. É preciso comprar dois metros de alcatifa, que a nossa está velha. E outro candieiro, de globo.
—Isso depressa se faz. Estava-me agora a lembrar d’uma cousa, que tinha immensa graça.
—Que é?
—Se elle chegava por ahi ámanhã ou no outro dia; emfim, quando eu estivesse fóra.
—Mas nunca o vi! disse Maria do Resgate.
—Era por isso que tinha graça. As duvidas em que havias de ficar!... Mas espera. E o retrato que vinha dentro d’aquella maldita carta, que perdi? Lá se foi tambem, com os demonios!
—Deixa. Não se perca o tio, o mais não faz transtorno.
—Egoista!
—Tens os olhos luzidios, agora reparo.
—E tu as faces tão córadas, menina!
O Carvalhosa tornou a encher os calices. E tomando o seu, tocou-o com o de Maria do Resgate, para uma saude.
—Pela felicidade dos nossos pequenos! disse o marido.
—Vá lá, acrescentou Maria do Resgate, pela felicidade dos nossos pequenos!
Beberam. Então o Carvalhosa mudou de lugar para vir sentar-se entre a mulher e o Arthur. E baixando a voz disse:
—Sabes que falta uma menina no nosso rancho. Não gostavas?
Ella córou toda, e baixou a vista rindo com os seus dentinhos gulosos.
—Toleirão! murmurou, torcendo-lhe a orelha.
—Arthur! disse o Carvalhosa.
—Papá!
—Ficavas muito contente se eu te desse uma irmãsinha, meu filho?
—Oh papá, eu antes queria um cavallinho. Dê, papá, dê...
—Que destempero! fez Maria do Resgate com um riso dôce.—Eram seis e meia da tarde, noite já.
—Vou vestir-me, disse o Carvalhosa. Pois não sabes? Tenho a cabeça leve.—O corredor estava ás escuras, e os passos do Carvalhosa soavam, já no quarto. Maria do Resgate accendeu uma vela e entrou com o par-dessus de viagem. O marido assoprou a luz, e ergueu-a ao collo, vigorosamente.
—Não faças bulha, que a rapariga está na casa do jantar, segredou-lhe ella toda tremula.
Ás sete horas, o Carvalhosa beijou os pequenos e partiu.
—Ó papá! gritou da janella o Arthur.
—Que é isso?
—Não se esqueça da manasinha, não?
—Já a encommendei, descança.
No dia seguinte, quasi duas horas da tarde, bateram á porta e a criada veio dizer que estava um senhor de idade. Maria do Resgate foi vêr. Apenas ella appareceu, um homem já ruço depôz no corredor uma pequena mala de coiro, e abrindo os braços estreitou com a maior franqueza a pobre rapariga, pespegando-lhe tres beijos muito repenicados nas bochechas.
—Querida sobrinha! querida sobrinha! fazia elle repetindo os abraços, com uma ternura que os seus cabellos brancos tornavam honesta. E detendo-se a notar o embaraço e o rubor da pobre mãi, observou:
—Tu não me conheces, hein? E toda espantada a olhares para mim? Eh! Sou o tio Sabino Pancada, o do Pará, o que escreveu ha duas semanas. Não te mandei um retrato; vê lá se estava parecido, olha bem.
Mais risonha já, Maria do Resgate levou-o para a saleta, bem ao pé da janella, e esteve a miral-o. Era homem alto e magro, maçãs salientes e enormes suiças em cypreste, oculos escuros e cabello á escovinha. Tinha as grossas mãos d’um trabalhador, dedos nodosos e unhas chatas, o olho sereno dos fortes e a pelle requeimada.
—Pois é o tio? disse ella adoravelmente. Ah como estou contente em o vêr, não faz idéa. Tanto que lhe devemos, tanto! Succedeu justamente o que o Alfredo pensava... justamente! Uma cousa assim, não.
—Então que pensava meu sobrinho?
—Hontem á noite, antes de partir...
—Que? fez elle com espanto, penalisado; partiu?
—Ás oito da noite de hontem para Elvas, em serviço do correio. Que elle é do correio, ha mais de dez annos. O tio deve saber.
—Sim, sim, é do correio. Mas que pensava o excellente rapaz?
—Disse-me assim: muito me havia de rir se por estes dias, em quanto eu andava por fóra, te apparecia ahi o tio Sabino.
—A passagem tem graça; palavra que tem!
—E vai, disse-lhe—oh filho, mas eu nunca o vi mais gordo—modos de dizer!—Pois era por isso mesmo que tinha graça. A cara com que tu ficavas!... Porque na verdade não o faziamos em Portugal tão cedo. A carta dizia por estes mezes. Já o tio vê...
—De certo, de certo. Mas uma pessoa não faz sempre as cousas como as premedita, filha. Ás vezes pensa-se assim, e sahe assado. Principalmente no commercio. De modo que recebi um telegramma do meu correspondente em Paris, e tive de embarcar no paquete mais proximo. Cheguei agora mesmo. Venho enjoado do mar e aborrecido da vida a bordo. Que massada, não imaginas! Vossês dão-me cá commodo em casa, como eu lhe mandava pedir? Apesar de viver só no Pará, tenho sempre pena de não haver arranjado familia. É como um homem vive feliz. Eu fico em qualquer canto, não se incommodem vossês.
—Eu mando arranjar o quarto n’um momento. E venha o tio vêr os pequenos, o seu afilhado e a casa. E tomar alguma cousa, que deve trazer vontade.
—Não será mau, não será mau.
—Arthur! chamou toda radiante a Maria do Resgate.—Uma criança appareceu de bibe curto ás préguinhas, todo garrido de rendas e entremeios. Era forte e vermelha, de grandes olhos e bocca pequenina. Tinha uma barretina de cartão na cabeça e uma espada na mão, meias de lã ás riscas, ares de guerreiro victorioso.
—Eh marôto! fez o tio Sabino com um movimento para agarrar o pequeno.
—Quem é, mamã?
—O teu padrinho, pateta; pede-lhe a benção e dá-lhe um beijo.—O pequeno obedeceu.
—Gostas de mim, gostas? inquiria fazendo inflexões ternas de voz, o velho commerciante.—E para o entreter promettia-lhe caixas e caixas de bonitos que trouxera na bagagem, para elle só. Cobria-lhe as faces de beijos, dizendo—pareces-te com teu pai, tens o ar e os olhos da nossa gente, marotinho. E loiro e valente, eh!...—Maria do Resgate dava ordens na casa de jantar, revolvia as gavetas do linho rico para a cama do hospede; ia-se estrear a colcha de damasco amarello, com passaros, que o Carvalhosa adquirira n’um leilão. E dos guarda-louças sahia a melhor porcelana ingleza, quasi transparente, com filetes delgados, de caros esmaltes em mosaico. Quando o tio Sabino entrou na casa de jantar teve como um deslumbramento. As crianças saltavam-lhe nos joelhos fazendo perguntas sobre tudo; as cortinas de cassa afastadas para a banda, deixavam entrar o sol tepido de inverno e a pureza incomparavel do ar. Pelas janellas, abrangia-se o panorama mais vasto e pitoresco da cidade e do rio; os canarios cantavam celebrando a alegria da hora e comendo a alface fresca e tenra presa nos arames das gaiolas; no aparador de carvalho de ferrarias sinzeladas, as frutas e as passas, ás pinhas nos açafates das Caldas e em fruteiras de vidro, sorriam em disposições symetricas; tinham posto flôres frescas nas jarras e descoberto a face de crystal polido do faqueiro de prata em estojo de velludo cereja. Um gosto, um conforto e um aceio aromaticos, pareciam crystallisar n’aquelle interior a felicidade domestica, como um diamante nos tres dentes de um engaste. Havia um só talher, mas as crianças pediram mais lunch e foi preciso para as satisfazer e agradar ao tio Sabino, sental-as á mesa, aos lados do velho, doido de alegria e cheio de commoções de ventura.
—Vossês aqui devem ser muito felizes, dizia elle mirando tudo. Vê-se de tudo isto que devem ser bem felizes. Ah!... eu nunca tive familia, senão criança. Que bem que isto faz!
E dilatado referia a sua historia, os contratempos dos primeiros annos, a avareza febril com que são contadas, embrulhadas e adoradas as primeiras economias, a cidade de projectos construida á medida que se avança no negocio, a doida embriaguez com que se recebem as primeiras felicitações quando nos presentem ricos. Que mundo de aéreas phantasias, que titilamentos de ambição sem termo!...
Por tres ou quatro felizes, sessenta e mais partidos da patria com enthusiasmo, saude e esperanças, e cedo entregues á miseria, ao envilecimento e á morte.—E referia as casas de malta das cidades americanas, onde n’uma promiscuidade ignobil apodrecem dezenas e dezenas de pessoas; os miasmas das respirações accumuladas e dos corpos sem hygiene; as asperas fadigas sem paga, dos miseraveis sem protecção!
O seu ideal fôra sempre um ninho como aquelle de Maria do Resgate, no meio da familia e entre crianças loiras.—Maria do Resgate sorria ás expansões calorosas do velho, satisfeita de o vêr contente e commovida da historia d’aquelle trabalhador infatigavel, que só captára as sympathias da riqueza ao cabo de trinta ou quarenta annos de labuta. Sem querer, tinha reparado n’uma cousa—o tio Sabino não offerecia na pronunciação o menor resaibo brazileiro. O Alfredo apontára-lh’o como homem intelligente e amigo de leituras; bem podia ser por conseguinte, que aquella correcção no dizer, um pouco lisboeta por ventura, fosse esforço de estudo e evidente resultado da resistencia ao contagio. Não pensou mais em tal, d’alli em diante. O chapéo do Chili, as botas de larga tromba, a pelle secca e trigueira, a longa barba corredia e os dentes encravados em gengivas fofas de carie, attestavam de sobejo o negociante do Pará, enriquecido pelo trabalho de toda a ordem, e filtrado durante longos annos, através as gradações, que vão da miseria ao conforto. A refeição durou muito, porque o tio Sabino era fallador, e a cada passo interrompia a mastigação para fazer festa aos pequenos ou dar palestra á Maria do Resgate. Quando se ergueu da mesa, um rubor se lhe alastrára na pelle. Pediu licença para accender o velho cachimbo de cipó, representando um tigre cingido por uma boa, cousa segundo affirmava, sem que não podia passar depois da comida. Foi até á janella, e esteve largo tempo debruçado ante o panorama magnifico da cidade cheia de sol. Tinha nos dedos enormes anneis de brilhantes, e um grosso cordão de ouro lhe servia de corrente de relogio. Os cabellos um tanto raros nas fontes, arripiavam-se-lhe para traz, descobrindo os angulos de uma testa abaúlada, de teimoso. O nariz astuto e cartilagineo era movel nas azas, cahindo aduncamente em gancho. Sorrindo, uma contracção franzia-lhe as commissuras da bocca rôxa. Era antipathico á primeira vista, mas a voz e a palestra insinuavam-se, agradando. Maria do Resgate foi dar a ultima vista d’olhos pelo quarto que a criada acabára de arranjar, e voltou dizendo:
—Que estava prompto e quando o tio quizesse...
O negociante não se fez demorar. Ia mudar de roupa e sahia até ao jantar afim de conduzir as bagagens, e encommendar camisas no Leão da Europa, mais módernas.
—Pois vá, vá, dizia a Resgate, de aventalinho branco. E tagarellando:
—O tio desculpa-me a desordem que vai por essas casas, sim? Como não esperavamos... E demais tenho uns engommados.
O quarto era a alcova do Carvalhosa, forrada de branco, frisos de ouro aos cantos. Ficava ao centro o leito de ferro fundido, ornado da colcha de damasco amarello e envolto nas amplas azas de um docel de casquinha dourada onde dois pombos trocavam beijos. Defronte da janella uma console com pedra branca sustentava um grande espelho oblongo, de moldura negra e serpentinas aos lados. Do outro lado, sobre a banca de noite havia um despertador de crystal e uma palmatoria de prata dourada, com vela. O quarto era contiguo ao toilette de Maria do Resgate, e a porta aberta permittia observar a desordem d’aquelle interior; frascos destapados, sabonetes humidos diluindo na agua das bocetas de porcelana, agua suja no lavatorio, uma caixa de prata fosca representando um pecego, aberta com pó d’arroz á borda do tremó em ferradura; ao canto a banheira tepida exhalando perfumes de agua Farina e vinagre de Lubin, uma duzia de anneis sobre um cofre; escancarado o guarda-vestidos, e uma gaveta aberta mostrando um cofre de joias lapidado, em que as pulseiras, as medalhas e os pingentes se enroscavam tremeluzindo, em volutas de serpente phantastica. Justamente por instincto de vaidade, Maria do Resgate não fechou a porta que separava d’aquelles aposentos o quarto do tio, querendo que elle visse a sua riqueza, pudesse aspirar os perfumes de que ella fazia uso, ficando sciente dos mil cuidados em que envolvia o corpo branco, de burguezinha garrida. Do toilette ia-se para a sala e para o escriptorio do Carvalhosa. Havia no escriptorio um contador de charão com ferrarias maltezas que tinha abertas as portas e a chave na fechadura—era onde se guardava o peculio adquirido e accumulado. O tio Sabino percorreu rapidamente os tres compartimentos, sala, escriptorio e toilette que communicavam entre si, e por onde se podia entrar por duas portas, pela da sala que dava para a escada, e pela da alcova onde elle ia dormir. Bem! Lançou ruidosamente a agua na bacia do lavatorio, tirou o frack de cheviotte cinza, arregaçou as mangas da camisa de chita e atirou com as botas. Lavava as ventas, bufando de satisfação. Dobrou cuidadosamente o fato que despira, e metteu-o na mala d’onde já fizera sahir uma rica farpella de pano preto. Pôz camisa lavada e envergou a farpella nova. Diante do espelho apartou a guedelha, e sacudia a poeira das botorras, cantarolando:
Ai—i—ó—ai! Quem escorrega, tambem cai.
E paramentado de rico, fez ainda sahir da maleta de coiro uma especie de sacco de lona com fechos e corrêas. Debaixo da cama, por esquecimento tinham ficado as alpargatas do Carvalhosa. O tio Sabino calçou-as, as suas narinas palpitavam. Correu o fecho da porta cautelosamente, foi até ao escriptorio do Carvalhosa e saccou da gaveta do contador uns rolinhos de libras; de passagem pelo toilette arrecadou o cofre de joias, os anneis e a caixa de pós d’arroz; de cima da banquinha de noite desappareceu a palmatoria de prata dourada e tudo foi arrecadado no sacco.
Ai!—i—ó—ai! Quem escorrega, tambem cái.
Fechou destramente o sacco, tendo-lhe mettido primeiro a camisa de chita que despira, a fim de não tinirem dentro os metaes. E de chapéo á banda e cachimbo na bocca sahiu, o sacco pendente, fechando a porta e tirando-lhe a chave. Ninguem estava no corredor; Maria do Resgate engommava na saleta; as crianças na cozinha cortavam papagaios, chilreando.
—Até logo, minha sobrinha, até logo.
Ella veio correndo, com o seu riso affectuoso.
—O jantar é ás cinco, sim? Mas querendo dá-se ordem para mais tarde.
—Qual! Não temos precisão de incommodos. Ás quatro e meia estou.
Deu-lhe dois beijos na testa, levantou ao collo os petizes dizendo-lhes calinices—a moça abriu a cancella para elle sahir.
—Tenho bem que dar ás pernas ainda hoje, ia dizendo o tio Sabino. Ir á alfandega, ir ao consul, ir á cámisaria, ir tomar midida di roupa ao alfaiate... Até logo, até logo...
E com a mala pendente, o lenço escarlate fóra do bolso do frack e a bengala debaixo do braço, desceu a escada, cantarolando:
Ai!—i—ó—ai!
Eram seis horas da tarde e nada de tio Sabino.
—Talvez se demorasse na alfandega.
Sete horas, e Maria do Resgate acabara de notar a porta da alcova fechada. Diabo!...
No dia seguinte a policia andava em campo para descobrir o larapio, que com tamanha pilheria roubára a familia do Carvalhosa. Nem o habil Antunes, nem o sagaz Castello Branco, nem o astucioso Ferreira conseguiram cousa alguma.
É necessario cuidado com os tios da America.

A Idéa da Comadre Monica

Logo nos fins de setembro, quando tinham cahido as primeiras gotas de chuva, o Canellas tratou de encetar a sua vindima. Não era cedo já, a fallar serio. Havia duas semanas que o Garrocho começára, e que muitos lavradores tinham aberto os seus lagares. A novidade promettia. O verão ia temperado, no inverno não chovera de mais, e d’esta moderação de clima provinha a riqueza dos cachos e a vigorosa maturação dos frutos. Feitas as contas o Canellas devia seis moedas ao todo. O da Vanga, emprestára-lhe tres libras para comprar o jumento na feira da Vidigueira; devia quatro meias corôas ao boticario, da doença da mulher; devia ao medico; devia uns fiados na loja; oito mil reis, das casitas. Se fosse feliz na colheita da uva, pagava tudo e ainda guardava a sua tarefasita de vinho. Deus ia ajudando um homem, dizia elle para a mulher, e quando o pequeno fosse crescido melhor passariam. Assim, uma bella manhã, o Canellas com a mulher e o filho, deitaram caminho das vinhas, mais o burro. Pela estrada iam encontrando os ranchos de vindimadores; os rapazes trigueiros e musculosos da freguezia, ceifões e polainas, os chapéos de grosseiro feltro derrubados para diante; grupos de raparigas de sangue vivo, grandes olhos ardentes de meridionaes, os cestos ao quadril; velhos trabalhadores corcovados, de barrete, alforge ao hombro, atraz dos seus jumentos vagarosos, felpudos e pacificos; pesados carros de duas rodas calçadas em chapas de ferro, luzentes do attrito no saibro das estradas e pejados de enormes cestões de verga, para o carrego das uvas. A cada volta do caminho convergiam veredas por onde os magotes derivavam, dando—boa fortuna!—aos que se dirigiam para outro sitio. O campo n’aquelle tempo começava a perder o viço. Entre vinhedos de um verde carregado, emmaranhado e pittorescamente confuso, alastravam-se a perder de vista os ferragiaes amarellos, sêccos de raizes do trigo ceifado, onde as ovelhas mansissimas, sonoras de chocalhos, pasciam destroços, as hervagens finas dos barrancos, os fenos fibrosos dos corregos e as gramineas deixadas nos vallados. A região sem grandes depressões atrevidas, sem cordilheiras de arestas a prumo, offerecia á contemplação um aspecto sereno de ondulações graduaes, moldadas quasi na mesma curva regularissima; toda a zona abrangida n’um olhar, soffria o cultivo solícito e amigo da aldêa proxima, branca agglomeração de casinholas de taipa, sem estructura regular, desenhada no fundo cinzento, metallico e um pouco triste, das grandes oliveiras de troncos fendidos. A léste, no esfumado anil da massa de ar, linhas quebradas de valles distantes esboçavam-se risonhamente na luz da manhã. Nos limites da freguezia, no termo, a herdade assignalava-se com azinheiras gigantes e sombrias, grandes braços pelludos de musgos, contorcidos como n’uma desesperação sem remedio, contra o risonho céo transparente, bordado pelo algodão das nuvens em farrapinhos tenues, como um capricho de criança. O Canellas dirigiu-se á sua vinha, que ficava distante.
—Olha se nós recolhemos este anno um potinho de vinho!... Vendido, dava bem para um porco de quatro arrobas.
—O vinho ha-de estar barato, disse a Luiza, a esposa.
—E eu hei-de ter uns sapatos, gritou o garoto, saltando com os seus rijos pés immundos, na poeira da vereda. O burro, de orelha pendente, o passo reflectido, o olhar tristonho e lyrico, ia caminhando, todo coberto de moscardos. Á frente de todos, o cão Bedelho, corria e ladrava ás perdizes. O ar aquecia, o sol rebentava no céo a cascata da sua luz crua e candente, em quanto nos silvados e nas faias do proximo ribeiro, os garotos dos melros, na frescura humida das folhas espalmadas, faziam troça da companhia.
A vindima durou-lhes quatro dias, e a novidade fundira-lhes bem. Foi um tempo alegre, o que passaram. Em quanto a Luiza toda arregaçada, de chapeirão nos olhos, colhia os fructos mais o filho, cantando, o Canellas com uma vara de marmeleiro dirigia o burro carregado com dois cestões cheios, da vinha para a aldêa, e com outros dois vazios, da aldêa para a vinha. Quando acabaram o trafego, houve jantar de carne, para que foi convidada a visinha Monica, madrinha do rapaz. E á noite na banca da casa de fóra, jogaram-se as cartas, a Padre-Nossos.
—Quando fôr tempo, disse a Luiza á comadre, ha-de provar um copinho do nosso. A Monica arrebitou a penca, um riso guloso.
—Agora para o inverno, que é para aquecer. E vieram as confidencias, os orgulhos do bom governo de casa, a feliz plenitude de não deverem nada a ninguem—senão obrigações. Tinham pago ao medico, tinham pago á botica, ao da Vanga, os oito mil reis das casas... E ainda, na despensa, ao canto, fervia a talhita de mosto, objecto das mais caras esperanças e base de uma abundancia de chouriços excepcional em casa pobre, no inverno que ia entrar.
A Monica, sêcca figura de viuva pobre, seios chatos e estereis, um grande lenço de chita preta no pescoço, as contas de louça desfiadas a gloriæ e a Salve-Rainhas durante a monotonia dos serões, roía-se de inveja, um riso amarello de comilona e de desamparada. E formulando bons desejos que não sentia, ia pedindo a Deus désse aos compadres tanta fortuna como desejava para si propria. O casal agradecia. O Canellas a espaços, esfregando as grossas mãos de cavador, observava:
—Estemos pagos e sastifeitos! Cinco senhoras!
—Estemos pagos e sastifeitos! E em côro, todos formulavam planos de futura prosperidade: a compra de uma courella á Barrada, a acquisição de uma adega e a postura de bacello, nas terras da Pichaleira. A Luiza tinha precisão de um capote de pano para ir á missa; indagava da comadre qual era o preço, queria do bom!
—O meu, dizia a Monica, custou-me quatro sobranos. Ainda foi no tempo do meu homem, que Deus tenha. Que hoje!... Quero um trapo de uma saia e tenho de o ganhar.
Desde aquella festança, a Monica cresceu de desvelos para o afilhado, vinha todas as manhãs saber como tinha passado a comadre, e como estava o pote do vinho.
—Nada para sustancia como dois dedos de sumo. Logo pela manhãsinha, que regalo!...
E armavam grandes palestras a respeito do tempo, das lavoiras, dos casamentos e dos escandalos. A filha do Cardoso estava maluca pelo Francisco da Balsa. Contavam-se cousas bonitas. O mundo ia por agua abaixo. E por transições subtis, alludiam ao pote da despensa. Um domingo provaram. Era todo vermelho, transparente e fluido, de um aroma delicado de roupeiro e moscatel. Boa gota, comadre! Sim senhoras. Boa gota! dizia a Monica, beberricando. E com um estalo de lingua: é de rachar pedras, caramba! De tarde sentiram a cabeça pesada e foram-se deitar muito vermelhas. No outro dia, outra. Cada vez sabia melhor. O rapasito estava na escóla, a tractos com o Monteverde. Á noite, depois da cêa, o Canellas ia logo para a cama, cançado de cavar desde o romper do sol nas fazendas dos senhores proprietarios da terra, e não dava pela falta. Ellas, as duas, em se apanhando sós, era aos quartilhos. E dilatadas em narrativas eroticas de frades, de estudantes e mulheres infieis á honra conjugal, passavam as tardes juntas e os serões, com grandes risadas, uma profusão de gestos e de palavras, certa licença de epithetos, reparavel.
Finalmente pelo Natal, o Canellas foi emechar o seu vinho, segundo o uso. Destapou o potito: que diabo!... Estava quasi meio. Chamou a Luiza todo desconsolado.
—Ó mulher, não sabes? Temos o pote em meio. Quem tirou d’aqui o vinho? A Luiza debruçou-se, muito admirada.
—Santo nome de Deus! exclamou. E com um accento choroso: ora vejam a nossa desgraça!...
—Tu bebestel-o, mulher! affirmou o Canellas. Ella encarou-o duramente, sem resposta. O Canellas aprumou-se colerico.
—Tu vendestel-o, mulher! A Luiza voltou-lhe as costas, desdenhosa. Á tardinha, depois d’uma scena violenta, o Canellas sahiu. A mulher foi logo a casa da comadre contar tudo, pedir conselho. A Monica depoz a meia, tirou os oculos gravemente.
—Ai, não tenha receio. Esta noite, arranja-se.
—Mas como, comadre, como? Se elle sabe de tudo, ai espinhela! Foi para casa cheia de medo. O Canellas voltou á noite para cear, taciturno, abatido, sem dar palavra. Bateu no pequeno mal achou pretexto, atirou o chapéo com mau modo. Ao entrar no quarto da cama, resmungava:
—Estas bebedas, senhores!... Não dormiu toda a noite, a pensar no seu vinho e a amaldiçoar a hora em que casára. Mas não vira nunca a Luiza alegre, não tinha motivos de suspeita. Havia bons annos que não guardava vinho. O pote, de barro, estava talvez secco, era poroso, tinha seis gatos no bojo, podia ser que absorvesse, ou deixasse sahir o mosto. Mas tanto!... Deram dez, deram onze, deu meia noite, e elle ás voltas na cama. De repente sentiu correr no telhado. Poz o ouvido á escuta. Ouviu rir. Uma voz gritou: Canellas! Canellas! Riam, aos pulos nas telhas. Canellas! Santo nome de Jesus! Era o diabo! Chamou a Luiza: ó mulher! Não ouves? São as bruxas. Não ouves? Canellas! Canellas! Começou a rezar o Credo, enganava-se no meio, começava outra vez, não sabia concluir. Diziam:
—Vamos ao vinho! E a correria continuava. Vamos ao vinho! O pobre estava em suores, varado de medo.
No outro dia mal luziu o buraco, saltou fóra da cama, vestiu-se ás apalpadellas, poz a manta ao hombro, agarrou nos alforges, desprendeu o burro e partiu para o trabalho. Tinha a cabeça em agua, não se lhe tiravam da mente os gritos e as risadas. Canellas! Canellas! Então, as bruxas andavam com elle? Vamos ao vinho! Vamos ao vinho! E sentil-as-hia correr no telhado todas as noites, aos berros e ás gargalhadas, distribuindo os seus pobres almudes pela communidade, e ainda em cima, escarnecendo-o. Durante o dia viram-no mettido comsigo, acabrunhado, carrancudo, dando enxadadas na terra desesperadamente, a suar como um cavallo.
Ao cahir da noite entrou em casa; a Luiza estava ao canto da chaminé, diante do lume de azinho, o chale pela cabeça, aspecto adoentado e beato, o rozario entre os dois dedos. Demais, gravida de cinco mezes...
—Ora santas noites!
—Santas noites!
Reparou na postura da mulher, tão finadinha como um carapau.
—Que é isso? Estás doente?
—Deixa-me, ando morrendo, mesmo morrendo. Todo o santissimo dia com febre, calafrios, dôres. Ai!... e nas cruzes.
—Mas o que é?—Ella disse choramingando:
—Não vivo muito, não! O Canellas commoveu-se: estás doida! E solicitamente, achegando-se:
—E a respeito de vontadinha de comer, ha?
—Nem nada, marido. Ainda hoje me não entrou migalha n’esta boquinha de Deus. Tudo me sabe mal.
—Mas não appeteces nada? chá e fatias; mata-se o gallo.
—Ai, não! Só appetecia uma cousa. Mas não, é melhor não.
—Dize o que é, anda. Se fôr caro compra-se: ora!...
Ella ficou calada, rezando automaticamente.
—Então, que dizes? Que appeteces? Vamos.
—Olha, o que eu comia bem agora, eram uns peixinhos da ribeira das Sormarias. Tenho mesmo vontade, mesmo de dentro. O Canellas foi logo albardar o burro, agarrou n’um cesto e poz-se a caminho, sem querer ouvir mais.
—Não tenha algum desmancho! ia elle dizendo.
Apenas lhe não sentiu os passos, a Luiza correu a chamar a comadre. Entraram ambas na despensa. Tinham mettido o resto do vinho n’um odre; uma agarrou por um lado, outra por outro, e arrastaram o couro turgido até á porta. Era noite fechada e ninguem passava na rua. Das chaminés evolava-se o fumo dos lares, ouvia-se rir nas habitações das familias, e um cão latia no campo, sem echo; em quanto, acalentadas no berço as crianças choravam. D’alli a pouco as duas, viram chegar o Coxo, taberneiro, pesada figura de velhaco, apopletico, gorro sebento, um riso desdentado de patife, ironias bestiaes, navalha.
—Venha o bago! disse a Monica. O Coxo quiz roubar-lhe um beijo. A Luiza occultára-se atraz da porta.
—Podias ter vindo mais cedo, disse a velha. Estendia as mãos ao preço do odre, dizendo:
—São tres almudes, tinto; a quartinho, tres mil e seiscentos. Sete meias corôas e mais um tostão. Barato como pouco. O Coxo deu o dinheiro, pegou no odre, e foi-se depois de ter cingido amorosamente o estafermo.
—Agora, tornou a Monica, venha a minha commissão e aqui tem o dinheiro.
A Luiza deu-lhe seis tostões.
—Vamos á ribeira, disse ainda a velha. Embrulharam-se nos chales, fecharam a porta; á socapa sahiram para o campo, e apenas na estrada, deitaram a correr. Era quem mais podia, por aquellas ladeiras acima, em direitura á ribeira.
—Ai que arrebento! dizia a viuva, arquejante, a espaços. A final chegaram ao sitio. Pararam, em conferencia.
—Tu vaes para o outeirinho de lá. Eu fico, mesmo defronte, agachada na rocha. Assim foi. Não viam nada á roda. O céo pesava de grossas nuvens caliginosas e tragicas. Esbarravam com as azinheiras seculares, cahiam sobre carrascaes e tojeiros. Nas trevas, as ramas torcidas pelo nordeste, tinham gestos aggressivos, de reprobas. Por todo o campo, quando passava a rajada, sentiam-se risos abafados, segredos de feiticeiras, a sombra mexia-se, ondulava, tinha transmutações sinistras. O Canellas no entanto, estava mettido á agua, com o cesto no braço, puxando a linha da isca. Inda não conseguira apanhar peixe; o medo agoniava-o. Se as bruxas soubessem que estava alli!... De repente, cahiu uma pedra na ribeira, e esboroamentos de terra foram descendo, como deslocados por um pé em falso.
—Mau! E o anzol não prendia. Diabo!...
Pareceu-lhe que diziam segredinhos nas barranceiras, acima da sua cabeça. Andava gente em cima, viu um vulto acocorar-se.
—Ó camarada! gritou elle, em tremuras. Tudo calado. Puxou a linha; nada! De repente, uma voz moribunda chamou:
—Berrabaz!
Outra respondeu:
—Satanaz! O Canellas não sabia de que terra era. O que faria á sua vida? Alli acabava n’aquella noite. Benzeu-se. Iam dar cabo d’elle, espetar-lhe agulhas nos rins, metter-lhe á força um sapo nos dentes... Tornou a voz:
—Vamos afogar o que está na ribeira?
—Não, que a mulher está rezando o rozario á Virgem.
—Olhem se a Luiza não tem ficado rezando ao lume, hein? Santa mulher! Como elle estava agradecido ás suas orações!...
—Berrabaz!
—Satanaz!—Um cão uivava funebremente, no casal do Pelles. O Canellas batia os dentes, deixára cahir o cesto. O vento dava risadas de escarneo, dançavam as azinheiras e o céo fazia ouvidos de mercador. A voz insistiu:
—Vamos afogar o que está na ribeira?
—Não, que a mulher está rezando á Virgem. D’alli a nada:
—Berrabaz!—Satanaz!
—Vamos a beber-lhe o vinho?—O Canellas pulou:—com mil raios!
—Vamos.
—Vamos a partir-lhe o pote?
—Vamos.
O desgraçado ergueu as mãos desesperado e murmurou chorosamente:
—Ai a minha desgraça! Ai o meu rico vinho tinto!
Alta noite, a Luiza enrolada sempre no seu chale, rezando sempre as suas contas ao canto do lar, viu romper pela casa dentro o Canellas esbaforido, sem peixes, sem anzoes, sem sapatos, sem chapéo, sem manta, alagado em suor, trémulo de medo e morto de cansaço. Contou tudo á Luiza:
—E vai, ouvi dizer: vamos a beber-lhe o vinho? Vamos. Partimos-lhe o pote? Partimos. Tu sentiste alguma cousa, mulher? A Luiza persignava-se, com os olhos em alvo.
—Eu nada, disse ella. Não senti nada: uma cousa assim!...
Foram vêr á despensa. Tinham bebido o vinho, e o pote estava em pedaços. Entraram a chorar. Veio a comadre.
—Que é lá isso de prantos n’esta casa? disse ella, afflicta. Contaram-lhe.
—Pois eu lhes juro, que as bruxas nunca mais os perseguem. Sei as orações de as afugentar.
De facto, nunca mais tornaram, nem bruxas nem boas vindimas, nem potes de vinho.
Tal foi a idéa da comadre Monica.

Historia de Dois Patifes

Toda a manhã, Fernanda andou impaciente pelas casas, esperando os gatinhos. Ao acordar, fôra aquella a sua primeira idéa—os dois pequeninos animaes cheios de viveza e graça, em cujos olhos ria uma innocencia travêssa e dôce. Havia tempos que a tia Consuelo lh’os promettera, quando fossem crescidinhos. E a cada visita á boa senhora, Fernanda levava horas e horas com elles, brancos de neve, uma finura de pennugem que acariciava a pelle, as duas cabecinhas inquietas com orelhas que se fitavam petulantemente, a cada ruido do gabinete. Fernanda tinha uma paixão por aquelles dois diabitos brancos que levavam os dias, ou sugando as tetas da mãi, grande gata de pello fulvo e pupillas glaucas, ou rebolando no tapete os corpinhos electricos, n’uma embriaguez de vida que fazia prazer. O gato era o mais leviano, com as suas patinhas fôfas e os dedos rosados na planta, de que as unhas transparentes e curvas sahiam desembainhadas, nos momentos de irritação, se lhe pisavam a cauda. Tinha os olhos azues, cheios de fibrilhas inquietas mais escuras, uma ingenuidade selvagem no encarar, fitando as orelhas velludinosas, em que parecia residir toda a petulancia d’essa cabeça infantil. O focinho côr de rosa, com barbicas alvoroçadas sorria um pouco, mesmo quando assanhado, e das gengivas vermelhas e humidas, os dentinhos em serra, agudos e pequenos, resahiam gulosos, desafiando a gente. A gatinha affectava mais seriedade e mais coquetterie, uma ambição contida de se fazer senhora e uma sciencia complicada em se fazer amar do macho. Nunca era a primeira no ataque, e zangava-se mal presentia uma offensa. Á comida exigia os melhores pedaços, rosnando sôfrega, com a pata erriçada de unhitas curvas, contra o primeiro que lhe chegasse ao prato. Dormitava muito, como a mãi; ás vezes o irmãosito chegava-se, cauteloso, estendendo as patas e movendo vagarosamente a cauda, as pupillas cheias de um clarão de patifaria. Com um movimento destro erguia uma pata—zás!—no ventre da sua companheira, que entreabria preguiçosamente os olhos, immovel, com o focinho enterrado na penugem do ventre. Esta indifferença benevola, arrojava o gaillard do gatinho a maiores garotices. Chegava-se então muito meigo, unhas escondidas, o dorso alto, as orelhas chatas e deitadas para traz. Com as duas patas da frente, cingia o pescoço da pequenina, e entrava a morder-lhe repetidamente o peito, os labios, a pontinha das orelhas, em quanto com as unhas trazeiras lhe raspava voluptuosamente o ventre e as côxas, provocando cocegas.
Ella estremecia, toda percorrida de um gozo intimo e alongando o corpo para traz; e de ventre para o ar ficava immovel, espreitando, com a bocca entreaberta e os olhitos reluzentes de uma caustica lasciva, de bacchante núa. Abraçavam-se então, luctando, as caudas em espiras; armavam saltos por cima dos moveis, iam esconder-se nas franjas espessas dos fauteils muito baixos, e suspendendo-se em cacho dos pés esculpidos das consoles encrustadas de metal e madre-perola, sacudiam-se, balançando os corpos como dois gymnastas em exercicios de destreza. A tia Consuelo, impacientava-se já de semelhantes correrias. Descobrira uma nodoa no carmezim do divan da sala e achára extirpado a unhadas o ventre de uma antiga bergère preciosa, do tempo da senhora infanta D. Anna. Além d’isso, a estroinice dos brutinhos punha uma nota impertinente na monotonia somnolenta da casa, antiga casa cheia de silencio e conforto, onde o piano dormia mezes inteiros e os moveis do salão alinhavam, como collegiaes em revista, os seus bôjos vestidos em camisas de bretanha.
A gatarrona mãi toda insensivel ás festas, muda e impertigada como a dona da casa, era tão indolente como esta; e ao lado de D. Consuelo, sobre uma almofada de sêda, dormia dias inteiros, com uma colleira escarlate de fechos de ouro. Só ella, com a sua idade circumspecta e a sua molleza freiratica, dizia bem no salão de côres austeras em que D. Consuelo recebia os padres de S. Luiz e as irmãs do Coração de Maria, e levava as tardes sepulta na voltaire, toda amortalhada em velludo negro, touca de rendas pretas e as Meditações sobre o divino Jesú nos joelhos. De fórma que, um domingo determinou expulsar do santuario os patifes ruidosos, o que alegrou Fernanda vivamente: ia emfim ser toda d’aquelles garotinhos gentis e ferozes.
Era domingo, luminoso dia do primavera germinadora e florida, sonoro de rumores de gente festiva e cortado de vôos d’andorinhas meigas, que entravam a construir os ninhos pelas cimalhas das aguas-furtadas. Fernanda não quiz almoçar sem que os bichos viessem; conseguira dois lugares á mesa para elles; a gatinha ficar-lhe-hia quasi no collo, o gato mais longe, com um pratinho de porcellana provido dos melhores bocados. E que nome lhes poriam? Foi um meditar profundo sobre o problema.
Houvera em casa uma gata franceza, que morrera de velha e tinha um rabo branco caricioso—A Blanche. Pobre querida! Estava sepultada no jardim entre duas roseiras de todo o anno. E Fernanda recordava o seu modo subtil de se roçar pelas saias á comida, com o rhum-rhum dolente de uma beata offerecendo rezas, e o seu comer dificultoso de desdentada, rejeitando os ossos das perdizes e preferindo bolos fôfos, de recheios aromaticos, que ao almoço se serviam em pilhas, sobre cabasinhos de rosas, de velho Sèvres rocócó. E apparecera morta uma manhã de inverno, ao pé do lago. A gatinha devia chamar-se Blanche tambem, um nome da côr do seu vestido setinoso de princeza. Mas o Arthur, o garoto mais velho da casa, era de opinião diversa. Segundo elle, deviam baptisar-se os dois bébés, na banheira de marmore do rez-do-chão, sendo elle padrinho, mais o trintanario.
Mergulhariam os moiritos na banheira cheia de uma agua perfumada, ao som de rezas que só elle sabia, e de umas bengaladas valentes, ao primeiro berro que soltassem os neophytos, na banheira trasvasando. Depois do que, seria servido vinho aos pequenos, com applicação de pancadaria supplementar e guizadas ao pescoço—o que os tornaria fortes, avisados e aptos á comprehensão da vida e á constancia na lucta com as arganassas, que por acaso encontrassem nas excursões á despensa ou ás cocheiras da casa. Fernanda magoou-se com semelhantes opiniões, e quasi chorou pelos pobres innocentes que lhe mandava, do fundo do seu conforto beato e egoista, a boa tia Consuelo. Quando elles chegaram n’um cabaz de vimes, com laços ao pescoço e um pouco assustados da jornada, Fernanda não sabia que fazer para melhor exprimir a sua satisfação: era um côro de risos candidos e gorgeios innocentes; ia do pai para os joelhos da mamã, e esquecida já das maldades do Arthur passava-lhe os braços ao pescoço, cobrindo-lhe a face de beijos. Quizera para os dois gatinhos todo um palacio de sêda e gulodices, com o seu trem completo de cozinha, a longa bateria de peças de folha reluzentes e pequenas, fogões installados nos respectivos poiaes de madeira pintada, um serviço de porcelana fina, mobilia e carruagens elegantemente forradas a pedaços de setim de todas as côres, lavatorios e leitos, uma multidão de objectos microscopicamente construidos, que a paciencia da mamã adquirira, durante uma semana inteira de investigações, pelos armazens de quinquilharias da cidade. E a installação, que encantadora e que trabalhosa!...
A gatinha saltava desdenhosamente por cima das ottomanas e das causeuses delicadas, atirava com lavatorios e caçarolas, fazendo com a cauda desabar os guarda-louças tão ricamente providos. Quanto ao gato, foi impossivel mettel-o no kiosque dourado onde tantas preciosidades de mobilia se accumulavam. Ao primeiro esforço de Fernanda para o fazer entrar, assoprou raivoso, desembainhando unhas ameaçadoras contra a dôce protectora, que tão generosamente lhe offertára opulencia e conforto. E apenas o largaram no parquet, desatou a fugir pelas salas como um desalmado evadido. Em breve, Fernanda se persuadiu da impossibilidade completa de fazer caseiro o ménage.
E a pomposa e pequenina residencia passou a ser habitada por uma familia extraordinaria de bonecas de todos os tamanhos. A paixão do loiro amorzinho pelos dois maus animaes vertia agora o fel de uma ingratidão profunda. Ella não podia comprehender realmente, o desdem soberano dos gatos pelas magnificas provas de amor que lhes dera, no seu enthusiasmo de pequena caprichosa. E nos primeiros dias, os seus afagos para o gatinho orvalhavam-se das lagrimas d’um resentimento angelico e mal contido. Elles, os dois patifes, adquiriam pouco a pouco a sua franca e leviana liberdade; ao almoço e ao jantar subiam pelos vestidos e pela toalha, reclamando em voz alta o seu talher de pessoas de familia; atacavam sem a menor ceremonia os pratos que apanhavam sem guarda no aparador e nas bancas da cozinha; iam miar em côro por baixo das alcofas da carne crua e dos cabazes providos de peixe fresco; escamugiam-se surrateiramente para a despensa a encherem os bandulhos de quanto apanhavam de succulento, e umas vezes por outras, nas noites humidas e chuvosas, tinham o pessimo costume de afiar as unhas nos mognos polidos e nos estofos matizados dos gabinetes, sulcando e rasgando, sem preferencia e sem attenção de preços. Fernanda ria com elles e achava-os de uma graça captivante. E a todo o transe defendia-lhes as velhacadas, orgulhosa de soffrer pelos que amava com tamanha loucura.
Chegou o dia dos annos do Arthur—uma quinta-feira, em maio. Determinaram ir passar o dia á quinta, em Carriche.
Ia a boa dama Consuelo, as pequenas Magalhães, as primas Lopes e todo o mundo infantil da familia. Na vespera, disfarçadamente, em quanto o Arthur estava no collegio, Fernanda sahira com a mamã á compra de presentes para o dia seguinte. Tinha um mundo de projectos na mente: torres ideaes de cartonagem com sinos dourados e portaes de columnellos; jardins de cascatas surprehendentes, grandes exercitos de chumbo formados em ordem de ataque com baterias de latão; as arcas de Noé em que reside um mundo inteiro de bugigangas coloridas; esquadras empavezadas de flammulas com almirantes de estanho, commandando tripolações de madeira suissa; pequeninos theatros com figuras de verniz e paizagens ternas de Nuremberg; tudo quanto a phantasia póde realisar de pueril e caprichoso e quanto uma criança póde exigir, na incoherencia dos seus devaneios côr de rosa.
A mamã aconselhava um cabazinho de dôces frescos, do Baltresqui. Era mais delicado! Mas Fernanda tinha os olhos n’uma cathedral de madeira branca, elegantissima de cupulas e rendilhados, por cujo portico profundo e alto na sua escadaria de balaustres gothicos, uma multidão de fieis ia subindo, collada com gomma arabica.
—Que lindo, mamã, que lindo! dizia ella, pousando devotamente as duas mãosinhas toute roses, no magnifico zimborio com ventanas de espelho e ornatos de cartão representando faunos engalfinhados. E imperiosa, impertigada nos tacões dourados dos seus sapatinhos de verniz, declarou que escolhera, e que o Arthur deveria ficar muito encantado de um presente de tal modo original. A cathedral foi conduzida na carruagem com extremas cautelas, ao lado de um chapéo que para a pequenina a mamã escolhera na Emilia d’Abreu. Recolheram cedo a casa, antes do pequeno voltar, e á noite n’um gabinete fechado e sobre a larga mesa coberta de tapete, os presentes da familia e dos amigos do Arthurinho ostentavam, n’um soberbo bazar, as suas fórmas pittorescas e os seus matizes originaes. Eram os cabazes de camelias vermelhas bordadas de heras e pequeninos bouquets de violetas de Parma; as bocetas de côres vivas e esmaltes garridos, turgidas de doçarias caras; grupos de porcelana e terre cuite n’uma infinidade de posições ingenuas ou garotas. A Laura deixára a sua photographia risonha de cherubim pensativo, um rostinho dôce coroado de uma bella cabelleira loira, em anneis. E os amigos todos, o Alfredo, o José e os dois gemeos Nogueiras, tinham vindo trazer uma lembrança amavel, chicotes, capacetes, cavallos de molas, magicos em caixas, o diabo! Ao centro a cathedral de Fernanda com as suas torres severas, de um gothico amaneirado, e o seu zimborio de columnellos flexuosos, erguia-se magestosamente no meio da cidade de camelias e violetas, e das pinturas vívidas dos cofres, cheios de rebuçados e pastilhas e aromatisados das mais finas essencias.
Por entre as corbeilles extravasando côres e perfumes, os gitanos de terre-cuite dançavam aos pares, e as pastorinhas de louça com os seus trajos coloridos e os seus rostinhos frescos, pareciam de antemão celebrar a formosa manhã a desabrochar no anniversario do dia seguinte.
Como o Arthur ficaria contente, quando ao outro dia abrissem á sua curiosidade, aquelle profuso mundo de brinquedos e gulodices!... E Fernanda, nos bicos dos sapatinhos e sem fazer ruido, arrumava e dispunha tudo, ao lado da mamã, tocando com as pontas dos dedos as cousas, como n’uma capella, absorta n’um extasi profundo de sonhos innocentes, como se o seu espirito viajasse por um grande paiz de quinquilharias ideaes e maravilhosas.
Quando acabaram a tarefa, a mamã sentou-a no collo, commovida por aquella dedicação fraternal e solicita que tudo queria para presente d’annos do Arthur; beijaram-se ambas, por muito tempo.
—É verdade, disse Fernanda, e o chapéo?
A mamã foi buscar o chapéo: era um delicioso bijou de palha amachucado á banda, com um ramilhete de myosothis adoravelmente perdido n’um tufo de gaze fina, tão fina que mal se apertava na mão, parecendo espumar por entre os dedos, como Champagne vertido de uma torneira.
A pequenina quiz pôl-o: ficava graciosamente, um pouco tombado sobre os olhos.
De sob as abas, em caprichosos rodopios, rebentava a cabelleira loira de cherubim, que adquiria contra a luz transparencias de oiro fino, emquanto uma onda de tule branco ia cingir-lhe o pescoço, como aragens tecidas por mão de princezas mouriscas, das que fallam os contos do Meio-dia.
O desejo de Fernanda era não tirar mais esse pequenino e fresco chapéo, cuja aba tombada enchia de uma sombra humida os seus grandes olhos. Mas era forçoso esperar o dia seguinte, quando fossem para a quinta. A pequenina exigiu que o chapéo ficasse sobre a banca, entre os presentes d’annos do Arthur, descoberto e aninhado na sua onda fofa de tule branco. Esteve ainda a olhal-o: os myosothis com as florinhas miudas, de uma contextura paciente e nitida, dispostas n’um forte cacho azul, entre folhas verde baço, davam um encanto ingenuo á copa conica, um pouco extravagante talvez. Visto de lado, parecia um ninho de pennugens tepidas, de que os passaritos houvessem partido um minuto antes. De repente a sineta tocou: voltava o Arthur do collegio. Fecharam a porta do gabinete muito depressa, não desconfiasse elle. No dia seguinte, quando lhe mostrassem tudo, dizendo:—ahi tens, é para ti...—que loucuras e que jubilos não commoveriam esse vermelho endiabrado, de que os velhos criados tinham já medo! Apenas o gabinete ficou só, a gatinha trepou para cima da mesa, e pôz-se a mirar tudo, dando passadinhas leves, toda cautelosa pelo meio dos presentes accumulados, cheirando e lambendo aqui e além. Nos seus olhitos garotos, um clarão de malicia ingenua, parecia beber enlevadamente os matizes: farejava os cofres por todos os lados, baixando a cabecita, como quem reflecte. Diante da cathedral o seu pasmo pareceu crescer, porque se deteve de pescoço estendido, a medir a altura das cupulas, de patas firmes nos primeiros degraus da escadaria, com prejuizo de dois devotos de cartão, que esmagou com uma indifferença soberana. Deu com o chapéo de Fernanda enroscado na facha de tule branco, e a passadas lentas foi para elle, com o dorso alto, espiralando a cauda, toda contente do achado. A tarde cahia, e o gabinete carregava-se de sombra.
Pela vidraça, a paizagem ganhava manchas sombrias e grandes esbatimentos de um vago picado a pontinhos de gaz rutilante. Subia do bairro commercial e das grandes ruas de transito um tohu-bohu de labutas que esmorecem, e carruagens que se perdem, circulando. Um sino tocava. No gabinete, faziam-se deslocamentos confusos de fórmas e de aromas, e os olhos da gata phosphorecentes, luziam como dois faroes em fluctuação, na penumbra alastrada em torno. A palha do chapelito gemeu: a gata acabava de enroscar-se no ninho da copa, fazendo posição para dormir. Nunca sentira cama mais macia e mais dôce que n’aquelle fundo de chapéo forrado de sêda branca, onde o tule enrolado dava uma molleza preguiçosa de cochim, de edredon! Inda porém não tinha cerrado os olhos, e já o irmãosito, dando um salto agil, cahia em cheio sobre a ampla aba do chapéo, amachucando o precioso cacho de myosothis. A coquette então ergueu a cabecinha ironica, com um meneio creoulo de amante benevola. De cima da aba curva, como de cima de um muro, pendia a patinha do gato, toda branca e nervosa, desafiando.
Essa pata estendeu-se, estendeu-se, e subtil, como n’um jogo de prendas, deu uma sapatadasita no craneo da femea, retrahindo-se logo. Mas a gatinha parecia querer dormir e aninhou-se de novo no seu fundo de copa, onde a sêda punha a alvura cariciosa de uma alcova.
A tactica do gato, mudou então: rebolando-se lascivamente pelo declive da aba, o marau pôde attrahir a si todo o tule da facha livre, que Fernanda enrolára ao pescoço, um momento antes.
Uma vez envolto nas ondas de espuma do tecido, entrou a arrastar o chapéo atraz de si, pela mesa fóra. Foi o signal: a gatinha sacudiu rapidamente a somnolencia, espreguiçou-se com uma distensão prolongada de patas e de espinha dorsal, escancarando a guela e distendendo as unhas. Esse movimento largo desenhou vigorosamente o corpinho da fera contente, que desperta. O dorso, de uma alvura singular de arminho, teve um lampejo brusco de scentelha, quando o craneo chato e muito curto, de maxillas ferozes, roçou com um deleite perfido de volupia, as pennugens imperceptiveis das patas, armadas terrivelmente de alfanges curvos. Com um pulo agachou-se na copa do chapéo, como n’uma caverna, á espreita. O seu olho inquieto fusilava. Todo o corpo encolhido, percorria-se de pequeninos fremitos de impaciencia, que as orelhas continuavam, imprimindo á cabeça um grande cunho de astucia recalcada. O gato vinha de rastos apagando o som dos movimentos, garrido no seu tule como um pagemzito aventureiro. E á medida que elle vinha, o pescoço da gata, do outro lado da aba, alongava-se, escorregando dôcemente pela sêda do forro. Por fim as patas encontraram-se, e cada qual disputou o tule, ás unhadas, a dente. A facha, que se desenrolava do corpo d’elle, acabou em frangalhos, nas unhas dos dois.
Um golpe desunira porém duas fibras de palha, da aba derrubada. O gatinho metteu a cabecita pela abertura, radiante de maldade, e foi morder o cacho de myosothis. Do seu lado a gata continuou a obra, descobrindo os dentinhos brancos. Mas em breve o destroço se propagou aos presentes d’annos do Arthur, com uma rapidez de saque premeditado. As corbeilles viram-se despojadas das suas cintas de hera, reluzentes e excentricamente recortadas, e dos seus maciços de camelias reaes. Na vertigem do can-can desenfreado, que os dois diabitos armaram por cima da banca, todos os objectos leves eram arrojados para a banda n’um rodopio constante; os gitanos partiram braços e pernas, as pastorinhas ficaram sem cabeça, algumas bocetas violentadas cederam, e foi um destroço geral de natas, especiarias e recheios. Um rebuçado d’ovos ficou pegado á cathedral de Fernanda, obstruindo o portico por onde os devotos de cartão começavam a entrar, envernizados e festivos. E a walsa extraordinaria continuava sempre sem respeito e sem cansaço. Na manhã do dia seguinte, em quanto no pateo o cocheiro punha o landeau, e as carruagens chegavam trazendo os priminhos e as numerosas tias, Fernanda com uma deliciosa tunica azul céo e um largo collar de marinheiro bretão, foi chamar o Arthur que acabava de vestir-se.
—Bons dias, disse ella, beijando-o. Tens alli muitos bonitos, vem vêr.
O pequeno não quiz saber de mais; foi ás carreiras abrir a porta, e entrou cheio de avidez, no gabinete onde estavam dispostos os presentes.
Ao principio, Fernanda e o irmão entreolharam-se n’um desolamento indescriptivel, vendo os dois gatinhos abraçados que dormiam tranquillos, no meio das ruinas do soberbo bazar construido na vespera. E tão socegados como se nada lhes pezasse do que haviam feito!
—Olha, balbuciou Fernanda sentindo as lagrimas na garganta, estragaram tudo!
—É verdade, fez attonito o Arthur.
Veio-lhe um impeto de raiva sanguinea contra os dois patifes, que pareciam zombar com os seus tranquillos olhares, da assolação que haviam feito. E com o primeiro chicote que viu, descarregou nos lombos do grupo uma vergastada sibilante, que arrancou um berro ás duas gargantas contrahidas.
Diante do esqueleto do gracioso chapéo de palha, tão pittorescamente ornado do seu cacho de myosothis, a pequenita cruzando as mãosinhas pallidas, de uma esculptura fina e reticulada de vêas microscopicas, chorava silenciosamente as perolas de uma dôr serena e de um amor espesinhado de ingratidões—porque amára com paixão os ingratos pupillos.
—Seus maus! dizia ella sempre que os via na cozinha, já crescidos, dormitando na mesma cadeira.
Mas quasi sempre, a sua mão esquecida e meiga, lhes ia afagar as cabeças somnolentas e chatas, como de dois pequeninos tigres preguiçosos.

A Desforra de Baccarat

O conde não acompanhou sua esposa n’essa noite.
Era quinta-feira.
O inverno rigoroso, céos continuamente emburelados em forros plumbeos, chuvas eternas que não davam guarida, lama pelas ruas, bocejos pelos gabinetes, aspectos constipados, a bronchite tripudiando a sua impunidade pelos narizes das familias, e em S. Carlos a Varezi trillando divinamente, com aquelle sorriso que parecia uma esperança e que se tornou desde que ella partiu, n’um desespero. No Gremio, Alberto de Selvas esperava o conde; além d’isso apostára no Club a queda do ministerio; e por fim, elle não queria dizer, mas Fatime esperava-o, queria cear com elle, a Fatime do corpo de baile, uma loira picante, de carnes friamente impuras, cujo olhar, de um pardo inerte, possuia nos accessos de cólera, fulgurações de adoravel maldade. Razões que impuzeram resistencia ás supplicas da condessinha e diante de cuja teimosia ella fez beicinho, com uma expressão de candura inimitavel. De modo que, mal Charmille, o velho criado grave, serviu o café no pavilhão chinez, e o conde bebeu o seu velho cognac digestivo, pediu o prussiano, accendeu um carvajal pequenino, de um aroma penetrante, e beijando a condessa partiu.
No pateo ouvimol-o cantarolar as coplas dos Sinos, e as suas botas rangerem no xadrez do atrio. Depois o coupé rodou e ficamos sós. A tarde cahia, e sobre o terraço para onde rasgavam as janellas do gabinete de trabalho, um raio do sol peneirado através das moitas de trepadeiras, tinha uma luz harmonica, ineffavel, discreta, em que se sentia a confidencia, em que se sonhava o idyllio, de uma pureza archangelica, nas regiões phantasticas do incommensuravel, sobre o dorso de cometas desgrenhados. Uma arara monotona chalreava, suspensa por um só pé a um supporte metallico, patenteando no arrojo das pennas, de brilhos ardentemente metallicos, matizes inconcebiveis, divinos cambiantes de um mordente estranho, tons apaixonadamente fulvos, em todas as gradações do espectro, com saturações vivas de escarlate e violencias de verde, de um caustico exaltado. A condessa fechou o livro e olhou para mim. Era uma criança anemica, fina belleza aristocratica, crescida como uma avenca australiana, no molle ambiente impregnado de essencias, dos boudoirs, dos salões e das largas galerias claras, em que antepassados graves, olham dos seus quadros poentos, ridiculos ou funereos nos seus vestuarios de todas as idades.
O seu typo bourbonico, pallidamente senhoril tinha um cunho real que feria, e sentindo-a respirar e sorrir, todo o mundo se abalava por ella n’uma sympathia enthusiasta, n’um vasto amor infinito e terrivel como a morte. Umas religiosas irlandesas haviam-na educado no Bom Successo: por toda a parte grades, a austeridade da clausura, frias pedagogas embiocadas em negro, o sino batendo as suas pancadas cortantes, as preguiças de levantar cedo, as tristes harmonias que lhe ensinavam nas harpas douradas, e em que pareciam soluçar tormentosas legendas de amores mythicos, e rolarem pelas escadarias dos cadafalsos vermelhas cabeças palpitantes.
Sahiu de lá fallando menos mal as linguas, bordando jardins suspensos em almofadas de apparato, com um vicio, o piano, e um vacuo diante da sua alma—a vida em que ia entrar. Sua mãi, uma rainha de bailes, lia romances dias inteiros, em chambre, deitada n’um divan opulento, o cabello por cima das mesas, perfumes caros na epiderme e meias de sêda esticadas acima do joelho.
E ella afez-se tambem ás leituras.
Belot, que uma amiga lhe emprestára, poz em vibração na sua alma uma corda mysteriosa, e pela primeira vez na sua vida de virgem, se abrasou em impetos. E o seu sangue impetuoso teve allucinações candentes, em que passavam homens brancos, virginaes, athleticos, nús e vívidos, que lhe estendiam os braços.
Desceu com o visconde Ponson, com o scelerado Capendu e com o patife Zaccone, aos pavores dos subterraneos em que se despenhavam protogonistas heroicos; quiz sofrer com elles as inclemencias dos carceres e as agonias da tortura, escamugindo-se quando pôde pelas sahidas mysteriosas em que molas occultas fazem girar portões de rochedos; subiu as escadas de corda, mascarada de velludo negro, com um frasquinho de saes no bolso e um punhal nos dentes; penetrou conclaves lobregos em que conspiradores avançam solemnemente para fazer phrases, e se pronunciam juramentos terriveis com as espadas núas sobre braseiros consagrados, á luz de tochas de cêra amarella. E romanticamente decorou phrases pomposas das heroinas, teve attitudes theatraes de uma exhibição ridicula, esgares e lyrismos. Pintava de bistre, olheiras sentimentaes, e sobre os hombros semi-nús em gaze vaporoso, deixou revolutear os cabellos turbulentos, seccos, crespos, em tons hilariantes.
Mas uma tarde parou uma carruagem á porta.
Um rapaz que ella vira em S. Carlos, de luneta de oiro, na Havaneza puxando punhos de apparato, nos chás do ministro d’Allemanha declamando theorias, no parlamento pedindo caminhos de ferro em nome do progresso e da civilisação, entrou com um velho.
Vinham pedil-a em casamento.
O pai de Beatrice fazia politica, pedia tambem caminhos de ferro e moralidade nas provincias da publica administração, mal sabia o nome dos filhos e só ao jantar estava com a familia, não obstante lamentar a decadencia da sociedade portugueza, nos artigos de fundo.
A mãi por causa d’ella, não podia installar commodamente os amantes, tinha por isso birras, rogava pragas em voz alta. Vida do diabo! Raio de filhos!
Um dos apaixonados, o conego D. Venancio, queixára-se até ás criadas, que aquillo não podia continuar assim, que nem uma pessoa era senhor de levar a sua capa de trazer e os seus solidéos de retroz preto, com uma borlasinha na nuca.
De modo que o casamento fez-se.
O Illustrado fallou com boas orações incidentes explicativas e adjectivos novos, da festa, dos convidados, a fina flôr, das toilettes, tudo de aprimorado gosto, publicava com pompa.
E havia dois annos que Beatrice era condessa, a condessinha, e que eu, o melhor amigo do conde, assistia ás suas matinées e ás suas desillusões.
Na bocca pequenina d’ella, vermelhamente lasciva, uma contracção ironica dizia as suas impaciencias, os seus arrebatamentos, as suas fluctuantes predilecções, os seus languores e os seus desdens. Amava os vestidos decotados e os largos collarinhos de cretone azul, que permittem a viagem mystica do olhar artista ou sacrilego, até á promessa, aos esplendores de um seio...
O meu olhar casualmente, innocentemente—dou a minha palavra de honra,—como uma ave ferida, foi de manso e pouco a pouco, como quem quer reter o vôo e não tem forças, cahir tambem n’esse abysmo de alabastro, e ao reparar attonito no sacrilegio, viu a condessinha sorrir, um risinho lancinante que dizia:
—Então... que é lá isso, tambem...
A carne é fragil. Fragil e petulante.
N’aquelle momento quizera ter cegado. Depois—não vão dizer nada—senti pena de não ter olhado melhor. Mas era shocking!
Lançava as culpas para a condessinha; para que punha aquelles collarinhos? E olhando-me aos espelhos das paredes, via-me chammejante, em tons apopleticos de lagosta, o frisson das grandes culpas pela espinha dorsal.
Assim chegou aquella tarde.
Beatrice continuava abandonada no fauteil, a sorrir.
E o maldito collarinho aberto, o sicario, aberto, aberto!...
A tarde esmaecia nos longes, sobre o mar, e no silencio a noite condensava escuridades no ar com um methodismo severo, imperturbavel, gradual.
O relogio feriu cinco horas.
Por uma janella aberta o rumor da cidade entrava; carruagens sentiam-se ao longe, e no vasto negro, pontinhos de gaz bordavam evoluções caprichosas, marcando as curvas das ruas, o afunilamento dos beccos, as dilatações das praças lamacentas.
Não pedimos luz.
Eu fumava na causeuse. A condessinha distrahida agora, absorta e com o olhar perdido nos relêvos do tecto abandonava-se; e na penumbra das coisas, o seu busto adquiria linhas ideaes de visão benigna, a morbideza calida de certas organisações doentias.
Ergueu a voz:
—Meu marido...
—Para que diabo vem agora o marido? pensei phrenetico, com um embate audaz no cerebro.
—Meu marido diz-me sempre ter em si, Armando, o seu melhor amigo.—Curvei-me.
—É uma honra...
—Cale-se, é apenas gratidão. O conde é sincero.
E mudando de tom:
—Armando, que idade tem?
—Vinte, condessa, bem monotonos na verdade.
—Vinte annos!—E a sua voz, de uma inflexão musica, era suave como uma caricia.
Eu sentia-me todo levado para ella...; mas de subito lembrei-me do conde, o meu melhor amigo.
Pobre Carlos! Áquella hora, jogava talvez no Gremio com os seus intimos, e perdia. Bello rapaz! Tinhamos sido condiscipulos no collegio, elle era casmurro nos seus significados de latim, levava puxões d’orelhas.
De uma vez, lembrava-me, haviamos jogado a tapona; elle tivera um gallo na testa, feito com um compendio de logica, a que nunca pudera chegar. E tinhamos ficado mal, indifferentes, todo o anno. E via-o magro e bonito na sua blusa de riscado cheia de tinta de escrever, um molho de chaves de bahús na algibeira, tilintando.
Ás onze horas ia ao club fallar em politica, altivo na sua opinião respeitada, entre conselheiros graves de calva e suiças claras. Á meia noite, Fatime, o vampiro, esperal-o-hia n’um coupé, a S. Roque, para irem ao Restaurant Club cear, e fazer depois a digestão entre beijos e champagne até madrugada, hora em que a bailarina costumava receber um trintanario loiro, trescalando a cavallariça.
E reatando a palestra, para dizer alguma coisa, perguntei:
—E a condessa, quantas primaveras?—Olhava de soslaio o seu largo collarinho azul e vinham-me suspiros evaporados d’uma grande indolencia.
—Dezoito, respondeu, mas estou velha, sabe?
—Uma aurora! disse eu com a petulancia de quem lapidou uma phrase com o meu tom de mais effeito, de que usava nos grandes momentos. O meu olhar cahia sobre ella, como uma má sina. Na penumbra, brancuras de seios empallideciam. E continuando:
—Quem tem dezoito annos é sempre feliz, innocente; aos dezoito annos a vida é uma benção, um aroma, uma perola... E queria ser eloquente, mas estendia-me, fazia má figura. Ella ria com os seus dentinhos brancos que recortavam de alvuras gulosas o escarlate lascivo da sua bocca humida.
E grave, passado tempo:
—Sabe, Armando, que essa sua prosa sujeita a rimas, dava bellos endecasyllabos?
Fiquei todo corrido, uma larga desconsolação espasmodica, as fontes aos baques.
—Oh! condessinha, é cruel. E sentia-me córar como um cabula.
—Olhe, quer que sejamos francos? A minha vida é bem triste. O conde é um rapaz adoravel. Vestidos, quantos appeteço. Manda vir joias de Paris. Não me recusa cousa alguma. Eu não queria tanto sim, vê? Porque isto mostra-me que elle me esqueceu cedo, que se não interessa por mim, que se não preoccupa dos meus caprichos, entende? Que me deixa ir assim, ao Deus dará. E juro, Armando—eu não lhe merecia isto.
Chispavam scentelhas do meu olhar na ampla dobra azul do collarinho. A sua tunica branca, immensa, apertada na cintura sem esforço, quebrava-se toda em dobras á roda, aos seus movimentos rapidos. E contra a luz os seus cabellos crespos, cortados em borla na fronte, lembravam fios de ouro sem liga. A sua voz tinha uma resignação penitente, afogada n’uma tristeza passiva e sem resolução.
Commentei:
—Oh! é injusta. Não é isso que o conde me confessa todos os dias.
O labio teve um escarneo cheio de meigas censuras.
—Realmente? Olhe cá. E elle diz então que me ama? Entendo. Armando pensa que o amor que elle lhe narra é consagrado a sua mulher? Porque, diga, Carlos nunca pronunciou o meu nome durante essas expansões. Seja franco, vamos. Mas diga então.
—De certo que pronuncía, condessa: é bem claro, é lógico.
Ergueu-se vivamente, a mão crispára-se-lhe.
—Mente, Armando, mente! Perdôe-me a injuria, mas falta á verdade. Elle ama apenas estas coisas, ouça:
E contava pelos dedos.—O seu cavallo arabe, o jogo de fundos e... digo?
Ria-se nervosa, desafiando.
—Condessa!
—Fatime. A dançarina judia.
Exaltava-se.
—Oh illude-se, juro que se illude. O conde está no Gremio.
—Armando, olhe bem para mim. Ousa enganar-me, então? E rapida, suffocada, risonha:
—Hoje á meia noite, elles cêam ambos. Quer saber aonde?
—Mas...
—É desleal occultando-me a verdade, repare.
—Como soube...
—Comprei os criados. Póde ir dizer a meu marido. Quando se é trocada por uma bailarina, fica-nos o direito de chegarmos até onde nos aprouver. Não lhe parece?
E atravessava-me com o olhar. O seio batia. Fugitivamente, os meus olhos iam casar-se na côr do seu collarinho. Curvei a cabeça sem responder. A condessinha insistiu com doçura, quasi em segredo:
—Não acha?
Fechei os olhos sem dar palavra. Sentia-me perturbado. Onde ia ella chegar? E depois lentamente, respondendo á sua pergunta, os meus labios disseram não, mas todo eu affirmei que sim.
Podem clamar quanto quizerem, mas a condessinha desejava-me, queria-me, ella, a esposa do meu melhor amigo, e a minha fragilidade sentia-se attrahida para ella, como uma aza de penna para um iman, sem remedio, sem consciencia e sem destino. Para que nos deixava o conde todas as noites sós? Para que a desgostava a ella, pobre criança innocente e caprichosa?
Havia uma semana que eu andava perturbado diante de Beatrice. Notára que os seus collarinhos de serão eram cada vez mais largos, e que o seu seio de um marmore fatal, em que destacaria bem o sangue d’uma punhalada, arfava impetuoso, se proximo de mim. As minhas noites entraram a ser riscadas com a phosphorescencia d’aquelle desejo, como um profundo mar entenebrecido e sombrio. Os seus olhos fixos e humidos de ancia, grandes como dois mundos, estavam sempre diante da minha vista. E o peor não era isso.
Mas aquelle diabo do collarinho...
—Armando, disse ella, bem sabe como eu sou supersticiosa. Vai acontecer desgraça por certo.
Olhe. Hontem, uma borboleta negra entrou-me no boudoir, em quanto tomava o meu banho tepido. Tudo estava fechado, as cortinas e as vidraças unidas, os stores pendentes. De modo que da rua, aquella fatal mensageira não veio, com certeza. Digo-lh’o eu, Armando, vai succeder desgraça. Não dormi esta noite, pensando horrores. O conde veio tão tarde!...
E baixinho, só para eu ouvir:
—E sabe, trazia no fato um aroma que não era o dos seus sachets. Eram os beijos de Fatime. Escusa de olhar para mim, Armando. Não tenho ciumes nenhuns. Ainda ha poucas noites, na walsa do Roberto, eu atirei flôres á bailarina. Porque é uma artista. E que belleza!
E lenta:
—Não tenho ciumes, não. Pobre conde! faz o que póde. Todos fazem o mesmo. Fosse eu homem, t’o cantaria...
E feito um silencio curto, os olhos baixos:
—A minha vingança é outra!
E lentamente, deixando cahir as palavras:
—Pena—de—talião!—Apre!
Ouvia-se o tic-tic da pendula. Eu erguera-me agitado, a tremer, sem uma palavra, sem uma idéa, sem uma resolução. Estavamos quasi ás escuras, e mesmo assim, eu via o seu collarinho decotado e a scintillação caustica dos brincos. Accendi sobre o fogão, duas serpentinas de bronze.
A condessinha immovel, de pé na sua pallidez fascinante, o penteado desmanchado, tinha um sorriso vago; e vendo a impressão que as suas palavras violentas me causavam, disse:
—Se o offendessem, Armando vingar-se-hia.
Eu ia protestar; ella juntou logo:
—Sou filha dos marquezes de Penha Longa; dez vezes mais orgulhosa por isso, que qualquer outra.
—Orgulho fatal! exclamei eu.
—Quero a desforra! Estou cançada de humilhações.
Eu avancei e disse com força:
—Seria indigno!
Beatrice resentiu-se, os olhos encheram-se-lhe de grandes lagrimas sublimes. Balbuciou:
—Armando!
Tornei asperamente:
—Seria cobarde!
E aproximando-me com voz curta, rapida e vibrante, como a d’um vingador colerico:
—É loucura ou crime? Hein?
Cahiu aniquilada no fauteil, terrivelmente pallida, os labios tremulos, dizendo imperceptivel:
—Oh Armando, Armando!... Fui amparal-a. Meu Deus! O peso do seu corpo enlouquecia-me; eu amava-a, eu queria-a! Atirei-me chorando a seus pés. Ah! que infame, que infame eu era!
O relogio deu meia noite. Áquella hora, o conde ceava com Fatime, n’um gabinete côr de rosa, do Restaurant Club. Bebiam talvez o seu champagne; o conde teria ditos de uma mordacidade equivoca; a judia gargalhadas sonoramente soltas. Resoaria um beijo... Nós ambos, a condessinha e eu, sentados no mesmo fauteil ceavamos alguma coisa excitante e bebiamos pelo mesmo copo, aos golinhos.
Beijos quentes, prolongados e devoradores, uniam os nossos labios impuros. De sobre o fogão, o retrato de Carlos olhava sorrindo o grupo. E um perfume mysterioso fluctuava.
Beatrice lembrou-se de repente:
—E o conde?
—Ora! Tenha juizo. Tambem, para que foi cear com Fatime? E rindo:—compraste então os criados; peça bem pregada! Nada de dar cavaco, percebes, nada de dar cavaco... Shut!
—Amo-te tanto, tanto! Aborreço o conde por tua causa. Quando elle apresentou aqui os seus amigos, lembras-te? Trazias as tuas polainas de caça, um nickerbokar de Pool, n’uma bonita e fresca manhã. Iam caçar. Eu fiquei á janella, em roupão, os cabellos despregados.
Bebia devagar, e ao cabo:
—Ah! Esta liberdade inebria-me, meu Deus; não póde ser um crime. Amar um homem que se viu depois de casada!... E muito baixo, phrenetica:
—Os teus cabellos, a tua bocca tão fresca, a tua pelle tão fina! Deixa-me morder, uma dentadinha pequena, para não fazer sangue.—Eu deitava champagne.—Mas perturbas-me, convulsionas-me, Armando! Um beijo: cala-te, cala-te, meu Deus! É preciso que me sintas: quereria morrer comtigo, no mesmo instante, dormir no mesmo caixão, n’um cemiterio de grandes arvores e sombras frescas. Endoudeço, enlouqueces-me!
E com os seus brancos braços de esculptura, fortes, sinselados e quentes, enlaçava-me o pescoço, um rubor febril na face, os olhos afogados n’um languor amoravel. E dizia-me terna, ternissimamente, como só as mulheres dizem na noite de nupcias:
—Tenho tanto peso na cabeça, Armando! Um somno tão grande!...
E toda ella vergava pesando sobre mim, a cabeça decahida no meu hombro.
—Vês como sou tão humilde, tão tua, nem eu sei... uma escrava.
Abandonava-se, suspirando. Os meus beijos desciam pouco a pouco pelo seu pescoço, em direcção ao seu collo.
Repetia:
—Uma escrava!...
—Mas ha pouco, louquinha, dizias-me tu tão altiva: Sou filha dos marquezes de Penha Longa, dez vezes mais orgulhosa por isso, que qualquer outra mulher. E agora? Incoherente...
E torcia-lhe o labiosinho amuado, côr de rosa.
Ella bebia. E fazendo estalar a lingua:
—Ah! Não repares no que eu disse. Nós fallamos sempre em orgulho e antepassados, quando não temos que dizer outra cousa. O papá era assim: nós aprendemos.
—Oh condessa! disse eu espantado.
—Ora! De mais o sabes tu. Dá-me champagne!
—Olha. E um beijo, outro, outro...
O conde ceava com Fatime, provavelmente.

Quatro Épocas (CONTADO POR UM MISANTHROPO)

Por detraz da nossa casa, passado o laranjal, ficavam as oliveiras, manchando de pardo o terreno ondulante que uma herva espessa e florida cobria. As primeiras sezões que tive, por um verão de ha quarenta annos, agradeci-as aos calores insupportaveis a que durante uma semana me expuz sem chapéo, sem véstia e sem sapatos. No campo, segundo o costume patriarchal da gente pobre, mal o sino da igreja dá meio dia, o pai senta-se á mesa, defronte da mulher, os filhos á roda, e janta-se. Findo o jantar, a familia levanta-se conservando o seu lugar e cada qual põe as mãos. O pai e a mãi rezam em voz baixa, emquanto os filhos recitam alto a oração de graças pelo alimento d’aquelle dia. «Muitas graças e louvores sejam dadas ao meu Senhor Jesus Christo, pelos muitos bens e esmolas que me faz, tem feito e tem para fazer em quanto fôr servido.
Padre Nosso...»
Depois, o chefe abençôa os pequenos e manda-os tratar da vida; os mais velhos para o trabalho, os mais novos para a escóla. O mestre que tive era um relapso sem emenda. Dia sim, dia não, gazeta sabida! Que jubilo o meu quando, ao chegar com a pasta e a cantarinha d’agua, ouvia pelo taboado da escóla o sapatear rebelde dos rapazes e as vozes bramirem n’um côro estridente que dizia:
—Não ha escóla, não ha escóla!
Iamos em bandos depois, cantando praça abaixo, aos sôcos, aos empurrões e aos berros.
Uma vida de bezerros circulava nas nossas arterias sadias; uns atiravam com terra á cara dos outros, com pedras e com as pastas. Alguns dos mais graciosos arremedavam o mestre, fazendo carantonhas de estoirar de riso. Vários ainda, dos que moravam perto, iam jogar o botão, arrancando sem piedade as marcas das ceroulas e das calças e os botões das jaquetas e colletes. D’uma vez que appareci sem botões, minha mãi deu-me açoites com tão aspero chinello que nunca mais tive vontade de jogar. Aquella sova explica por ventura o asco que ainda hoje sinto pelos jogos—tão abençoada foi ella!
Já n’aquellas idades, que uma alegria embebeda de exuberantes e puras phantasias, armavamos panelinhas de tres, quatro e cinco, para a brincadeira. Succedia ás vezes, que essas pequenas sociedades eram surprehendidas pelo mestre em pagodes reaes. Levavam todos com a regoa ou iam de joelhos todos, conforme.
A minha era composta, do Chico Rato cujo pai era feitor em nossa casa, do Manel da Pomba, um loiro de olhos sinceros, mau como os demonios, e do Zé Estrello, hoje pastor.
Em dias de feriado ou de gazio toca para o olival dançar nos baloiços, fazer caça aos ninhos ou atirar pedrada velha aos telhados das adegas fronteiras.
D’uma vez apanhámos um gato que todas as noites nos ia roubar as crias dos coelhos. Atámos-lhe um baraço ao gasnete, pendurámol-o n’uma oliveira e foi pedrada até que morreu. Eu chorava de pena.
—Oh minha lesma! dizia com desprezo o Manel da Pomba, descarregando ás tres e ás quatro, sobre o pobre animal meio morto.
Mas o que mais nos divertia era o baloiço. Atavamos as arreatas das mulas umas nas pontas das outras; Zé Estrello, que era o mais possante, dava o laço na pernada solida de uma oliveira secular.
As pontas pendentes da corda eram atadas a uma cortiça rija, que servia de assento.
E estava prompto—um! dois! tres!
Começava a frescata.
Durante os cinco ou seis annos que serviu aos nossos prazeres, a velha arvore nem por um instante nos trahiu. A cortiça do baloiço era occupada ás vezes por tres rapazes. Quebravam-se as cordas e vinhamos ao chão; a arvore porém nem nos mettia susto, estalando. Boa e velha amiga que parecia feliz deixando-nos pender dos seus ramos metallicos, como esses cachos vivos de que fallam as historias maravilhosas!...
Uma noite, depois da cêa, estando todos ainda sentados á roda da mesa, meu pai fazendo a voz solemne, disse-me que eu estava um homem e precisava cuidar do futuro. Eu tinha uma forte admiração pelos carpinteiros, n’aquelle tempo. A arte com que elles punham branca, nova e polida uma velha tábua com que o meu canivete nada podia!... A habilidade para tudo ajustar e o gosto com que arranjavam os carros com que brincavamos, arrastando carretadas de trigo, pelas eiras—davam-me um pasmo sem limites e um desejo serio de lhes seguir a profissão.
—Eu cá quero ser carpinteiro! disse eu todo grave.
Meu pai bateu na mesa, e o senhor prior que estava presente, riu da minha ambição.
—Estás tolo, ou que diabo tens? disse meu pai de sobr’olho hirsuto, olhando-me.
—Vaes mas é para o collegio, como os meninos do cirurgião, ajuntou o prior com bondade.
Eu abri os olhos sem entender, ou tremendo de entender. Ir para o collegio, n’uma terra distante onde ninguem me queria, deixar o Manel da Pomba e o Zé Estrello, e a horta, a casa, o olival, o baloiço e a arvore amiga e tolerante? Que? De cabeça baixa, minha mãi não dizia nada. Puxei-lhe a sáia devagarinho, ferido de grande medo:
—Não quero ir, mãi, não quero ir!
Os olhos d’ella fecharam-se, e aos cantos das palpebras comprimidas, lagrimas silenciosas cahiram, de uma saudade que ainda hoje me entristece.
Tinha já nove annos e parti.
A lembrança que no collegio, á noite e após todo um dia de aulas, que a dureza dos prefeitos me enlutava de amargos desalentos, me vinha mais viva, mais inconsolavel e mais triste, era a da arvore velha do olival, que sem queixa me aturára tanto!
Bons tempos da infancia purpureados de risos e cheios do casto aroma da innocencia—que vos não verei mais!...
No collegio, á medida que os annos corriam e enraizava d’essas leaes estimas que servem para toda a vida, as puerilidades da aldêa apagavam-se-me pouco a pouco, como lampadas sem oleo em templos desertos. Da segunda vez que vim a ferias vestido como um pequeno senhor, de luvas e relogio, pareceram-me despreziveis as minhas velhas affeições. Fui uma tarde á escóla de chapéo na cabeça e bengalinha de junco. O mestre tratou-me por senhor e sentou-me a seu lado, córando da superioridade desdenhosa que eu mostrava. Os rapazes ergueram-se respeitosamente como se tivesse chegado o commissario dos estudos. Aquella gentalha de sapatos cardados, véstias de saragoça e camisas de pano crú fez-me nojo, e tive humilhação pensando que fôra assim tambem, por tanto tempo. Lá estavam nos seus bancos de pinho o Zé Estrello, o Manel da Pomba e o Rato, de cabello hirsuto, punhos sebentos e livros amachucados, olhando-me com esses grandes olhos dôces que certos cães d’agua fitam nos donos em os vendo a comer. Pouca gente entrára de novo na escóla. De vez em quando, o mestre batia com a regoa na mesa e gritava:
—Ólá do canto! Temos paulada não tarda um instante.
A casa immunda, cheia de cuspo e papeis rasgados, era de uma nudez ignobil.
—Aqui não aprendem francez? perguntei eu com uma superioridade que os meus dez valores na disciplina não justificavam muito.
E n’essa noite á cêa, em quanto meu pai olhava para mim n’um extasi e a ternura de minha mãi orvalhava de lagrimas o casto lenço branco que se lhe encruzava no seio, disse passando a mão pela testa e cabello, como via ás vezes fazer aos de Mathematica, no collegio:
—Lá fui á escóla, fazer o meu bocado de troça.
Aos quatorze annos estava um homem, espigado e pallido, com as olheiras symptomaticas da transição de idade. Era bonito e meigo, com mãos de mulher que veios azues reticulavam, como em certos marmores sagrados. As gengivas tinham-se-me descarnado um pouco, fazendo mais compridos os dentes.
Ardia na aspiração intensa de usar cabello crescido e fatos de casimira clara. O uniforme negro do collegio e o cabello á escovinha da ordem, torturavam-me o orgulho de rapazinho elegante. O meu grande desejo era ser externo, fumar e ir ao theatro. Um de Introducção já crescido, cahira uma vez d’um cavallo e a queda fizera-o idolo da rapaziada. Quem pudera tambem gozar de semelhante triumpho!—pensava eu por vezes, sentindo um ciume ardente do heroe. Uma magica das Variedades, onde fomos todos n’uma noite de carnaval, patenteou para mim o amplo scenario de um mundo com que o meu temperamento nervoso já sonhára confusamente. O de Introducção emprestára-me um binoculo, o que me permittiu observar meudamente as decorações, os figurantes e os camarotes. As bailarinas e os deuses vestidos de malha apertada, que lhes desenhava todas as linhas dos corpos, fizeram mo palpitações de arterias e seccuras de garganta. Havia um principe loiro de uma belleza sem rival. Amei-o cá fora, annos depois, quando já perdera a frescura e subira em preço—ai de mim! Era uma actrizita de dezesete annos, bocca vermelha e fallas musicaes, vestida de rapaz. Nada mais gracioso que os seus pequenos pés ligeiros que pulavam ondas, rochedos, abysmos e perigos—tudo de lona, é claro. A sua cinta era fina e flexivel, e as ondulações do seio scintillavam n’uma armadura de galão, ás escamas. Essa noite foi uma febre para mim, impetuosa, allucinada e tremenda. Que revolta, Santo Deus! Estendido no leito do dormitorio, onde seis ou sete dos meus condiscipulos tranquillamente dormiam, eu experimentava dentro de mim o quer que era de um desabamento. Faltava-me o ar e tudo me andava á roda. Que miseravel aquella clausura regulada a sopa, vacca, arroz e duas peras verdes! E dez horas de estudo, madrugadas peniveis, reprehensões, oppressões e malquerenças!... Sim, para além do collegio com a sua monotonia de claustro, as suas apostillas, as quintas, os domingos de folga e a roupa lavada duas vezes por semana, outra existencia auriflammante tumultuava em amores, em pompas, em perigos, e doidas phantasias preconcebidas e logo realisadas. E aquelle principe loiro, aquellas fadas azues, e as apparições que o magnesium idealisava de uma fascinação irresistivel, viviam, cantavam, amavam a seu bel-prazer assim vestidos, lançando á roda o cheiro da carne viva e sadia que chama os famintos de deleites, e faz rolar as libras dos perdularios. O candieiro apagou-se por noite velha. Ergui-me cautelosamente, em camisa de dormir.
—Que anda ahi? perguntou com voz de porta-machado o Carvalho, prefeito, que fôra de lanceiros.
Aquella voz enregelou-me, e tornei para traz como se por mim houvesse passado a maldição de Israel. O de Introducção trouxe-me romances.
E a leitura fructificou no campo que a magica das Variedades havia irrigado. A Filha do Parricida—que esplendido!—Já léste? dizia eu a toda a gente. O Filho do Diabo fez-me sonhar. E os Bastidores do Mundo, o Doutor Negro, e os Mysterios de Londres! Todo eu era escadas de corda, alçapões, raptos, personagens mascarados e juramentos solemnes.
No quintal ás vezes, reproduziamos as scenas terriveis que iamos lendo ás escondidas. Fingindo irmos a cavallo, encontravamo’-nos n’um recanto de rua.
—Quem sois? perguntava um.
—A lua romperá, respondia outro.
—Deixai passar, irmãos, fazia o primeiro, e cada qual seguia o seu destino.
D’outras vezes ao chá, um de nós exclamava arremessando ao outro um lenço:
—O senhor é um cobarde!
O insultado erguia o trapo, bramindo:
—Ah, que essa affronta só se póde apagar com sangue. Ámanhã no Bosque de Bolonha, ás sete.
—Lá estarei, senhor!
E iamos dormir em seguida, com o maior socego.
Estes devaneios eram positivamente um estado pathologico. Estavamos magros e pallidos, adoravamos as noites de luar e as inglezas de olhos claros e tornozêlo masculo, que nos domingos de inverno viamos sahir da missa dos Cyprestes, loiras e frescas, apanhando os vestidos. Um piano, uma voz de mulher, qualquer namoro e o menor promenor da vida das ruas, era para nós um thema de sentimentalidade. Suspiravamos por cousas ethereas e por aventuras trovadorescas. Estudavamos pouco e tomavamos oleo de bacalhau e ferro em pilulas. Aos quinze annos acabei os preparatorios, e nas ferias grandes que se seguiram, meu pai falleceu. Nas cidades, a morte do chefe da casa, chega a ser um episodio sem consequencias mais altas que o luto da praxe e duas missas rezadas—quando a familia não fica a morrer de fome. Muda-se logo de casa por via de regra, os filhos alargam a esphera dos seus habitos livres, e fazem acquisição dos vicios que não tinham. Em quatro mezes, o fim de cada membro da casa destroncada é comer alegremente as rendas que um trabalho agro por ventura accumulou, no espaço de uma existencia de acerrima labuta. O campo porém, conservando muitas das virtudes patriarchaes, dá a esta perda um caracter de fatalidade sem conciliação. A viuva envelhece de lagrimas e estiola como uma trepadeira queimada; um dos filhos se é homem, emprehende e continúa a tarefa do pai, adquirindo nos habitos, no amor e no respeito da familia o mesmo grau de fervor cego e de obediencia dedicada. Senta-se á cabeceira da mesa nas refeições, dirige os trabalhos do campo, recebendo as rendas, ordenando as colheitas e levantando-se mal o buraco luza. Mas o seu governo é todo nominal. Quem alli impera, quem a tudo preside, quem julga tudo e tudo ordena, é o velho, o marido, o pai, o outro, querido phantasma evocado a toda a hora e a proposito de tudo, cujo sudario até, vem estender-se de noite, n’uma alvura de nebrina a encher de fecundante orvalho as vegetações que elle proprio plantou. Quando meu pai fechou os olhos, eu estava bem pouco apto a retomar o arado que a sua mão exhausta deixára cahir. Era franzino e branco, de um temperamento irritavel á menor emoção, medroso, phantasista e indolente, a quem as duras profissões repugnavam como uma vileza, e a idéa da vulgaridade enchia de um terror supersticioso. Minha mãi chorava a toda a hora com dois irmãositos ao collo. A casa silenciosa parecia um tumulo profanado. Pobres como eramos, se um dia não velassemos a horta e o olival, a miseria bater-nos-hia á porta. E justamente quando eu ia entrar na Polytechnica!... Não sei como aquelle tempo passou. Ha coisas que até em idéa são sinistras. Lembro-me que perdi o anno e amei minha prima Martha, uma loira diaphana que viera para nossa casa, da herdade em que nascera.
Esse amor que era dôce, sincero e casto, deu a nota mais alta na escala romantica d’aquelle periodo da minha vida. Envergonho-me de o dizer, mas lemos Paulo e Virginia, Raphael, e o Atala em commum, ella vestida de branco porque eu lh’o pedia, eu de cabellos crescidos e grande lustro de pomada nas poupas.
Martha com a sua natureza contemplativa e triste, propendia áquelles lances patheticos da minha imaginação de collegial. Era de uma simplicidade dôce e de uma serena belleza, que os seus olhos azues enchiam de esplendores religiosos. Em ella olhando para mim, eu córava. Toda a minha ambição agora era fazer-me bonito e cidadão para me impôr á sua ingenuidade. Que primavera a d’aquelle anno! Depois do jantar iamos de braço dado através dos laranjaes em flôr, n’um tapete de campainhas, fumarias e malmequeres, ao rumor das noras e sentindo cahir a agua nos tanques da horta. Meus irmãos corriam adiante, com chapéos de palha, fazendo chiar os seus carros de pinho. Nós devagar, sentiamos no aroma nupcial das arvores o quer que era de benção que vinha em golfadas, sobre nossas cabeças. E debaixo da velha oliveira secular que já me protegera os brinquedos de garoto e cujas ramarias artisticas, de tons cinzentos, abriam ao sol o seu toldo amigo, o nosso amor efflorescia tranquillo como se de cima o olhasse, das folhas e dos ramos, o bom Deus de bondade com que os pequeninos sonham a sorrir.
Aos vinte annos o meu espirito soffrera mais uma transformação. Creára amor pelo estudo e sentira a necessidade de um ponto de vista em sciencia, que lhe permittisse sugar dos seus asperos labores um certo numero de noções praticas para a vida de cada dia. O curso de sciencias naturaes conseguiu destruir todo o mundo romanesco e labyrinthico que eu idolatrava em arte, dando-me um certo gosto a final pelos estudos de observação. Comecei por queimar todos os romances inverosimeis dos snrs. Terrail, Reynolds, Feval, Montepin e Zaccone. Depois executei os snrs. Feuillet e Feydeau; em seguida fui-me aos poetas e vendi-os a oitenta reis o volume—por escarneo. Nas ferias herborisava com um amor de que um anno antes me julgaria incapaz; partia de manhãsinha levando os cadernos de dissecação na bolsa de caça, e um estojo de tubos de vidro munido de compridos alfinetes no bolso—para as collecções de insectos. Ao cahir da noite voltava com duas perdizes á cinta e alguns coelhos, os tubos cheios dos coleopteros caçados, uma multidão de plantas curiosas esmagadas no album.
Minha mãi que não comprehendia o meu interesse pelos bichitos, muita vez me olhava surpreza, vendo-me estar horas esquecidas com um aptero no alvo de um microscopio de Raspail que eu adquirira no leilão de um classificador. Como se ergue lentamente o store colorido de uma janella, através de que um panorama vivo se enxerga, assim os estudos de analyse erguiam de sobre o meu cerebro as phantasias bizarras e piegas permittindo-me palpar e surprehender a natureza no drama da sua gestação colossal. Longe de me deseccarem as faculdades creadoras e as aspirações saltitantes da imaginação, aquelles trabalhos minuciosos, pacientes e nem sempre coroados de exito, davam-me ás vezes concepções delicadas, de larga elegancia artistica. Adquiri na phrase uma precisão incisiva, de pensador.
E cheguei a classificar um homem ao primeiro golpe de vista, como fazia a um insecto posto no foco de uma bella lente de crown-glass. A aridez das primeiras tentativas não me arrastou a essa tristeza morna e aborrecida de certos padecentes de dyspepsias chronicas. Por esse tempo era eu um grand gaillard vermelho e forte, com mãos solidas e afeitas indifferentemente ás argolas do trapesio, ao cabo da enxada e aos escalpellos do amphitheatro. Comia, como vulgarmente se diz—como um alarve, tinha o sangue vivo e sadio, casto além d’isso. A residencia no campo, após a morte de meu pai, operára a metamorphose do individuo anemico, secco e propenso aos delirios da imaginação voluptuosa, no util primate de sangue quente e respiração pulmonar, capaz de derrubar a Sé com um socco e ser levado á morte pela mão de uma criança. A reclusão dos livros reporta o homem a uma simplicidade dôce e austera de habitos e emoções, e fal-o bom depois de o haver feito grande.
Nenhum tonico mais efficaz á saude do espirito que a saude do corpo. Uma enformatura de athleta tem de ordinario um rouxinol por alma. De fórma que eu sentia a bondade extravasar de mim como nos tempos biblicos o oleo de naphta da urna da santa mulher, que ajoelhada ungia os pés de Jesus. Os violentos exercicios em que o esforço muscular se despende, a carreira, a gymnastica e a caça, faziam a minha paixão dando-me o culto da minha propria fórma. Erguia verticalmente os dois braços, tendo em cada mão sentado um dos meus irmãositos—cousa que assombrava o Zé Rato e fazia contentes os garotos. Diante dos grandes espectaculos em que a natureza expende a mãos plenas o jogo icaro das suas forças harmonicas, a minha alma tinha fremitos d’azas como as andorinhas que vão atravessar o oceano. A vacillação fatalista do periodo lamartmiano fôra substituida por uma comprehensão logica dos factos, por uma tranquillidade honrada á idéa do futuro e pelo testemunho da mais sã consciencia. Entrei a fazer religião do trabalho, o que me permittiu não pensar mais em Deus, tendo-o sempre no coração. As mulheres eram concordes em que a minha belleza era superior á minha amabilidade. Uma senhora achou-me uma noite a conversação de um lente. E algumas diziam de mim:
—Pretencioso!—porque lhes não fallava das locaes amorosas e das revistas de modas.
Comprehende-se que o meu enthusiasmo puritano por tudo quanto era grande, não sobrasse para o espartilho das serigaitas que se me agitavam no caminho.
Assim modificado, tinha agora o mais completo desprendimento pelo que se chama gozar. Apagára-se-me o ideal pelintra de muito folhetinista imberbe, que consiste em ser comprimentado á porta da Havaneza por tres burguezes que passem, mostrar todos os invernos tres pares de calças novas sobre dois de botas velhas, e um plastron vistoso n’um seio tuberculado.
A ostentação e a exterioridade enfastiavam-me como certos cheiros de acidos vegetaes. Odiava em geral o ruido e o luxo, não achando digna de um homem serio qualquer das languidas que nos passeios e nos theatros via desfilarem, monotonas e sorvadas, por diante de mim. No seio dos meus papeis ou na intimidade flagrante da natureza em festa, sentia-me outro homem, respirando saudavelmente e digerindo ás mil maravilhas; uma alegria penetrava-me com essa entoxicação anodina do gaz hilariante, nos organismos nervosos, e eu crescia e revigorava sentindo a vida como um beneficio sem preço. Foi durante esse tempo, o mais laborioso, o mais infatigavel, o mais util e o melhor de toda a minha vida, que pude realisar as collecções de insectos que hoje pertencem á Escóla Polytechnica e me valeram os emboras dos grandes trabalhadores da Europa, e estudar quasi completamente a flora continental que Brotero deixára lacunosa. N’estes trabalhos depurára-se a minha sensibilidade ao extremo de me commover perante uma bella arvore ou ao cabo do estudo de qualquer complicado coleoptero. Um individuo vegetal captivára o meu amor ardente, apaixonado e ingenuo. Era ainda a oliveira que desde a infancia me offerecia a sua sombra benefica, a sua ramaria frondente e a enorme corpolencia secular do seu tronco. Que grandeza, a d’esse gigante que uma especie de bondade envolvia e divinisava!...
Aos cincoenta annos tinha os cabellos brancos e a pelle rugosa. Minha mulher, de compleição doentia dera-me filhos sem saude e de sensibilidade estranha. Eram pequenos pallidos de grandes olhos ardentes e mãos febris, frageis e curiosos, cujo futuro me fazia tremer.
Estava cançado e velho. Toda a vida sentira pelo dinheiro um desprezo sem limites, não lhe dando a honra sequer de o accumular. Perdera a vista do olho direito, aos trabalhos do microscopio. Era mais pobre que no tempo de meu pai—tinha apenas de meu o olival. Para economisar, dirigia eu mesmo os trabalhos do campo e andava vestido de saragoça. Ás vezes, vinha-me o remorso de não ter alcançado uma fortuna para essas pobres crianças, que a perpetua contemplação do mesmo panorama parecia enlutar de melancolias negras e de presentimentos funestos. Pouco a pouco, á medida que os annos me polvilhavam de neve os cabellos, ia experimentando uma irritação surda pelo meu passado laborioso, mas esteril d’essa cousa vil e preciosa chamada moeda. Não tinha senão despezas; lucros, raros! Então reneguei da heroica abnegação de outros tempos, tornando-me vulgar, macambuzio e cheio de admiração pelos lavradores opulentos da visinhança, que recolhiam vinho ás adegas e trigo aos celleiros. Os filhos d’elles espesinhariam talvez um dia os meus filhos, vingando a imbecilidade dos paes da orgulhosa superioridade com que eu os tratára. Os filhos d’elles seriam felizes, cheios de confortos e prazeres, com a faculdade de estudarem onde bem quizessem, e de fazerem fortuna como bem lhes parecesse. E os meus, mal enroupados, doentios e invejosos—quem sabe!—se conhecendo um dia a minha historia maldiriam a intransigencia do meu caracter e a pouca solicitude com que lhes tratára dos interesses!
Os meus dias então eram levados em percorrer o olival, no calculo dos litros de azeite que me renderia a colheita. Que desalento aquelle meu! As arvores não carregavam todos os annos: enchia-as de pragas, e maldizia a minha vida.
A oliveira secular sómente, comprehendendo a minha situação e adivinhando a angustia d’aquelles passeios solitarios, procurava com fructos abundantes compensar o modesto tributo que as outras arvores tão custosamente me pagavam. Fôra para mim a eterna mãi affectuosa, de cujos ramos pendera criança, a benevola confidente que cobrira do seu docel de folhagens o meu amor por Martha, o esplendido e victorioso vegetal diante de que o meu extasi de botanico tantas e tamanhas vezes tinha exultado. O amor que eu lhe votára soffrera as quatro phases de todos os amores da vida humana, em transigencia sempre com a orientação do caracter e com o progredir dos annos. Fôra primeiro, o amor de criança incoherente e doido; fôra mais tarde o amor de adolescente, idealista e reveur, representativo da idade em que o homem desaggrega da alma as crenças innocentes e começa a participar da influencia dos primeiros instinctos masculos. Transfeito no amor de sabio elevára-me até regiões altivolas.—Depois, no inverno da vida, aquella emoção archangelica primeiro, impregnada de poesia radiosa depois, e tornada sublime por fim, decahira no vil egoismo que mais prefere aquillo que mais rende, impressão sem grandeza e sem ideal, derradeira efflorescencia da alma obcecada pelos interesses, pelas amarguras e pelas oppressões!

O Funambulo de Marmore

A contessina sentiu-se triste n’essa manhã, aborrecida da quietação languida do seu boudoir, da falsa pompa de vegetação dos seus salões-estufas, da vida contemplativa dos aquarios de crystal-rocha, da atmosphera perfumada dos salões e das alcovas, onde o oxygenio vivificante se corrompe, por entre a subtileza das exhalações de opoponax e verveine, contidas nos frascos bohemios, todos facetados e scintillantes. Mandou pôr o coupé, um pequenino coupé estofado de carmesim, grandes fivelões de madre-perola floreteados; escolheu um vestido claro, de um estofo liso, grandes laços vermelho e branco, apertado em longa cuirasse, com uma cauda aristocratica, que deixava no ouvido um dôce frou-frou inebriante.
E com um gorro de pennas, de fórma excentrica, uma tira de gaze a meio rosto, atada na nuca, penteado simples, em que destacavam contra a luz uns pequeninos anneis dos seus cabellos castanhos, sobre a fronte de castidade sonhada, com uma camelia branca no seio, a contessina saltou para o carro. Era sabbado, nos dias lucidos de maio. O cocheiro teve ordem de seguir ao longo dos boulevards, atulhados de gente activa que tumultuava nos passeios, nos armazens, nas casas de modas e nos ateliers, vivamente, alegremente, raça de gigantes e de artistas que ia fecundando as industrias com o poder da sua violenta actividade.