*§. I.*
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*§. I.*
Das remessas dos Animaes.
As remessas dos individuos do reino animal são as mais difficultosas pelas preparações, que he necessario fazer, a fim de impedir a corrupção, a que estão mais sujeitos, que os individuos dos outros dois reinos. E como estas preparações varião algum tanto conforme a variedade de algumas das especies animaes, exporemos separadamente as que são proprias de cada huma dellas.
Mas primeiro que tudo he preciso advertir em geral, que os Animaes destinados para o Museo, devem ser apanhados de modo, que fiquem todos, sem exceição alguma, com a cabeça inteira; os quadrupedes com todas as unhas e dentes, e sem rotura consideravel na pelle; as aves com o bico e pés, e com todas as pennas; os peixes com todas as barbatanas e cauda; em huma palavra ao menos aquellas partes, de que se servem os Naturalistas para caracterizarem cada huma das especies, devem, depois de feita a preparação, ficar, quanto for possivel, no seu estado natural.
Dos Quadrupedes.
Como he impraticavel conservar sem corrupção por muito tempo com a carne os quadrupedes grandes, faz-se preciso esfollallos de modo que, cheia a sua pelle com alguma materia estranha, se lhes dê a mesma fórma exterior, que tinhão em quanto vivos.
Para este effeito nos animaes quadrupedes de mediana grandeza far-se-ha na pelle ou huma incisão direita desde a parte mais inferior do ventre até o anus, ou duas incisões, cada huma das quaes principie no mesmo anus, e continue pela parte interior das coxas até á juntura destas com as pernas.
Por esta abertura feita de qualquer dos dois modos, que parecer mais conveniente, depois de separada, com os dedos ou com algum instrumento accommodado, a pelle que rodea as duas coxas, se tiraráõ estas para fóra, cortando-as pelas articulações, que as unem com as pernas, cujos ossos se descarnaráõ, quanto for possivel.
Depois se continuará a despegar a pelle das costas até chegar á cauda, a qual, se não se puder esfollar, se cortará pela juntura, que a une ao tronco.
Feito isto, se voltará para a cabeça do animal a parte posterior da pelle, que já está separada do corpo; e puxando-a até ás espaduas, se fará nos braços o mesmo que se fez nas coxas, cortando-os pelas articulações das canellas; as quaes tambem se descarnaráõ da mesma sorte que as pernas.
Continuar-se-ha a puxar a pelle até descobrir ametade da cabeça para a descarnar: separada esta do corpo pela sua juntura com o pescoço, se extrahirá toda a substancia do cérebro; e depois de bem limpa a cavidade, se encherá esta com estopa, ou algodão misturado com pedra hume calcinada em pó, ou com outras materias de cheiro astivo, como tabaco, pimenta, alcanfor, &c., ensopando primeiro tudo em oleo de therebentina.
Com esta mesma composiçao, depois de se cortar a lingua pela sua raiz, e descarnar bem os queixos, se encherá a parte da goélla que restar pegada á cabeça.
Tambem se arrancaráõ os olhos, de modo que se não rompão as palpebras; e depois de bem limpas e enxutas de toda a humidade as suas orbitas, se encheráõ com as mesmas materias que acabamos de apontar. Em lugar dos olhos arrancados se metteráõ outros artificiaes ou de vidro, ou de esmalte, ou de outra materia sólida, que imitem na figura e cores os naturaes; e quando isto se não possa fazer com a perfeição devida, remetta-se ao menos o seu desenho com as cores proprias, ou huma relação exacta, que suppra do melhor modo a sua falta.
Depois de separada toda a pelle, deve raspar-se bem o interior della com algum instrumento de aço pouco affiado, para que a não rompa, e esfregar-se com sabão desfeito em agoa tepida, até que fique sem o menor resto de carne, sangue ou gordura, que possa ser principio de corrupção. Para acabar de seccar toda a sua humidade, se pulverizará a mesma parte interior da pelle com cal extincta ao ar, e reduzida a pó por si mesma, ou tambem com cal viva misturada com huma doze de greda, que baste a temperar a sua actividade. Esta pulverização póde repetir-se huma e mais vezes, até que se conheça que a pelle está inteiramente secca. E para extinguir todos os insectos, que possão causar algum damno ao cabello, será muito conveniente defumar as pelles já seccas com o vapor de enxofre inflammado; e se embrulharáõ logo em pannos bem tapados para evitar que outros infectos venhão de novo depositar nellas os seus óvos.
Acabadas estas operações, encher-se-ha todo o espaço, que occupava o corpo do animal, com a mesma composição, com que se encheo a cavidade da cabeça, ou com outra equivalente que conste de materias molles e seccas, e de drogas antiputridas: e por meio de arames grossos á proporção da grandeza do animal, e dispostos pela parte de dentro, se dará ao pescoço, aos pés, á cauda e a todo o volume a sua postura natural.
Composto em fim e limpo o cabelo de todas as nodoas de sangue ou gordura, que no tempo da preparação tiver contrahido, se accommodará a pelle assim preparada dentro do caixão em que ha de ser transportada, pondo-a e segurando-a, de modo que não balance; e tapando as juntas do caixão com tiras de papel ou de panno embebidas em drogas amargas e acres, para impedir que entre a humidade.
Como este methodo de encher as pelles dos quadrupedes de mediana grandeza não póde praticar-se com os demaziadamente grandes, bastará que se remettao as suas pelles com a cabeça pegada, e com todas as unhas. Estas pelles devem preparar-se com todas as precauções que já apontámos: e quando estas não sejão bastantes para as seccar bem, e extinguir todos os infectos, se metteráõ pelo espaço de seis horas em fornos, cujo gráo de calor seja o maior que as pelles possão supportar, sem que se queime o cabello; depois do que se defumaráõ, como acima dissemos, com o vapor de enxofre inflammado; e se embrulharáõ cada embrulharão cada huma á parte em pannos bem tapados, introduzindo pelas suas dobras therebentina, e outras drogas de cheiro penetrante e sabor acre. Tudo o mais se fará, como fica dito das pelles dos outros quadrupedes.
Mas, como só as pelles não bastão para dar huma idéa justa da fórma e postura do animal, recommenda-se aos Correspondentes, que mandem junto com ellas hum desenho, ou huma descripção exacta, ao menos daquelles, que não são vulgarmente conhecidos, ou que tem alguma coisa de extraordinario.
Recommenda-se tambem aos mesmos Correspondentes, que, quando succeda receberem algumas pelles de animaes, remettidas de algum lugar distante da sua residencia, que não fossem logo depois de separadas do corpo devidamente preparadas, e nas quaes observem o mais leve indicio de corrupção principiada, as mettão promptamente e conservem pelo espaço de dois dias em algum licor espirituoso; e depois as sequem, e accommodem nos caixões pelo methodo acima exposto.
Os quadrupedes pequenos, que não possão preparar-se, como os de mediana grandeza, se preparão facilmente deste modo. Por huma incisão pequena junto ao anus se extrahiráõ todos os seus intestinos; e depois de bem limpa e enxuta a cavidade que fica, se encherá esta com estopa ou algodão misturado com os mesmos ingredientes, que acima dissemos. Arrancados os olhos com as advertencias já expostas, se metteráõ os corpos em agoa ardente por algum tempo, renovando-a ao menos huma vez. Depois se acamaráõ em vasos cheios de licor composto de tres partes de agoa pura e uma de espirito de vinho, no qual se tenha dissolvido huma boa porção de pedra hume calcinada. Os bocaes destes vasos, em que hão de ser remettidos os animaes, devem ser tapados, quanto for possivel, com tampas bem justas e betumadas com uma mistura de cêra e rezina; e os mesmos vasos accommodados nos caixões de modo que não quebrem, se forem de materia fragil, nem balancem com o movimento do transporte.
Os esqueletos dos animaes, que tambem entraõ na classe das preciosidades que merecem hum lugar distinto nos Gabinetes, não precisaõ de preparações tão delicadas, para se remetterem sem perigo de corrupção. Basta que, depois de bem descarnados e limpos todos os ossos, se ponha um numero differente repetido nas duas extremidades, por onde se unem uns com os outros. Por meio desta numeração será facil armar novamente o esqueleto, para lhe dar a sua fórma natural.
Os ossos de cada animal devem empacotar-se á parte, para não haver confusão; e accommodallos de sorte nos caixões, que se não quebrem no transporte.
Como póde succeder que algumas vezes não haja toda a commodidade de se remetterem os esqueletos inteiros, como fica dito, nesse caso venhão ao menos as partes mais notaveis dos animaes pouco vulgares; e dos outros, aquellas partes que tenhão alguma coisa de extraordinario.
Das Aves.
O methodo de preparar as aves grandes pouco differe, do que acima se expoz para os quadrupedes de mediana grandeza. Ainda que se póde principiar a operação por huma unica incisão feita no ventre desde o anus até o osso do peito, he melhor que se facão duas de sorte que, nascendo ambas do anus, vá cada huma dellas correndo ao comprido das coxas até terminar no encontro da aza da mesma parte.
Pegando no vertice do angulo, que fórmão no anus as duas incisões, se irá separando pouco a pouco com os dedos, ou com algum instrumento accommodado, a pelle do ventre, e voltando-a para a parte da cabeça da ave até chegar aos encontros das azas.
Despegada do mesmo modo a pelle que rodea as coxas, tiradas estas para fóra, e cortadas pelas suas junturas com as pernas, cujos ossos serão bem descarnados, se continuará a operação, separando de vagar a pelle das costas até chegar ao uropigio, o qual se cortará com huma tisoura pela articulação que o une ao corpo.
Feito isto, se pegará na parte posterior já esfollada do corpo da avecom a mão esquerda, e com a direita se irá tirando com sentido, para que se não rompa, o resto da pelle, até chegar ás azas; as quaes se devem separar do tronco pelas suas articulações, descarnando, o mais que for possivel, os ossos que ficão pegados á pelle.
Continuar-se-ha a puxar a pelle que veste o pescoço, até descobrir parte do cranio, o qual se cortará transversalmente hum pouco acima da sua união com o pescoço; separando deste modo do resto do corpo a cabeça junta com a pelle.
Por esta abertura feita no cranio se extrahirá toda a substancia do cerebro; e se fará tudo o mais que pertence á preparação interior da cabeça, do mesmo modo que fica dito dos quadrupedes.
Porém nas aves aquaticas, e outras de cabeça grande, cujo pescoço não he facil de se esfollar até descobrir o cranio, sem o perigo de romper a pelle, separar-se-ha da cabeça o pescoço pela ultima juntura; e depois de revirada a pelle, se fará a extracção do cerebro por hum buraco feito de proposito na parte superior do cranio, que corresponde ao padar.
Antes de revirar a pelle se raspará levemente o interior della, para purificalla de todo o sangue e gordura; e se pulverizará com pós, que constem de huma parte de pedra hume queimada, outra de alcanfor, duas de solimão, duas de nitro puro, duas de flor de enxofre, quatro de pimenta, e outras quatro de tabaco.
Para revirar facilmente a pelle, sem estragar as pennas, se terá feito passar antes da operação pelos narizes da ave hum fio comprido e forte, o qual servirá para puxar a cabeça fóra, e dar á pelle a sua situação natural.
O methodo de encher as cavidades do corpo, da boca, e dos olhos he inteiramente o mesmo que nos quadrupedes. Basta só advertir, que esta preparação das aves requer mais alguma delicadeza, para que fique a sua pelle inteira, e todas as pennas limpas e direitas.
Depois de bem concertadas as pennas, se envolveráõ estas aves em huma tira de panno, principiando pela cabeça; e se accommodaráõ entre materias molles e seccas ensopadas em oleo de therebentina dentro dos caixões, com todas as mais cautelas, que já dissemos.
Este methodo de preparar as aves não he facil de praticar-se com algumas dellas, principalmente com as pequenas, por causa da delicadeza da sua pelle. Neste caso poderáõ enviar-se em vasos cheios de licor espirituoso, preparando tudo da mesma sorte, que se disse sobre a remessa dos quadrupedes pequenos; e tendo unicamente a advertencia de quebrar-lhes o osso do peito, para não ficarem com difformidade, e de as envolver, como acabamos de dizer das aves grandes, com tiras de panno, para se não descomporem as suas pennas.
Se a distancia não for muito grande, quaesquer que sejão as aves, bastará que, depois de preparadas pelo ultimo methodo, que acabamos de expôr, se lancem de infusão pelo espaço de quinze dias em espirito de vinho bem forte, em que se tenha dissolvido huma boa porção de pedra hume e alcanfor. E sem outra maior preparação podem remetter-se com as cautelas já indicadas.
Os óvos, que pela sua raridade devem remetter-se para ornato dos Gabinetes, depois de evacuada toda a sua substancia por hum pequeno buraco feito de proposito em hum dos seus pólos, ou em ambos, se for preciso, se acamaráõ em bocetas com algodão, ou outra materia molle e secca, para evitar o perigo de se quebrarem. Os que porém se mandão para fecundarem, antes de se metterem nos caixões, se cobriráõ bem de verniz pelo methodo sabido de Reaumur.
Os ninhos, que pelo seu artificio forem dignos da curiosidade do naturalista, se accommodaráõ da mesma sorte, e com as mesmas precauções em bocetas bem tapadas. E para extinguir os insectos, que ordinariamente trazem, se metteráõ em hum forno, que só tenha o gráo de calor necessario para este effeito; tendo o cuidado de os envolver logo em pannos, para impedir novos insectos.
Dos reptís.
A preparação de todo o genero de reptís, serpentes, e cobras grandes, cuja pelle póde separar-se do corpo, he inteiramente a mesma, que a dos quadrupedes de mediana grandeza, tanto no que respeita ao modo de os vazar e tornar a encher de materias estranhas, como no que pertence ao modo de os accommodar nos caixões.
Só deve advertir-se, que a incisão, por onde principião todas as mais operações, nos reptís, como o sardão e outros, deve fazer-se da parte do ventre ao menos desde o meio da cauda até o pescoço, conduzindo-a pelo interior das coxas e braços até ás suas articulações; e nas cobras grandes, como as giboias, se fará em todo o seu comprimento, por onde as escamas das costas se ajuntão com as do ventre. Estas se accommodaráõ nos caixões, enrolando-as espiralmente, como ellas muitas vezes fazem, em quanto vivas.
Os reptís pequenos podem remetter-se em licores espirituosos, em que se tenha dissolvido bastante quantidade de pedra hume e alcanfor; e tendo o cuidado de renovar estes licores ao menos duas vezes antes da remessa.
Dos peixes.
Aquelles peixes, que os Naturalistas chamão cetaceos, e cujas pelles são tão fortes, como as dos quadrupedes, podem preparar-se do mesmo modo que estes; excepto que a incisão se deve fazer na parte inferior por todo o seu comprimento, para os evacuar com mais facilidade. Dos peixes, que forem demaziadamente grandes, bastará mandar as pelles seccas e preparadas, como dissemos dos quadrupedes.
Se os peixes, que houverem de se mandar, forem chatos e delgados de sorte, que possão seccar-se bem, extrahidas com algum instrumento accommodado as suas entranhas, e lavada bem a cavidade que fica, se lançaráõ de infusão em agoa ardente pelo espaço de doze até quinze dias. Findos estes, se estenderá o peixe com o lado mais branco para baixo sobre huma lamina de vidro, ou de madeira bem liza; tendo particular cuidado, em que as barbas, cauda e barbatanas fiquem na sua situaçao natural: e para que estas á medida, que forem seccando, se não torção, e descomponhão; depois de concertadas, e em quanto estão humidas e com a sua cólla natural, se lhe pregaráõ pela parte de cima algumas tiras de papel, que serviráõ para as conservar sempre na mesma posição.
Feito isto, se exporá ao calor do Sol, ou a hum vento forte; e passados quatro ou sinco dias, se despegará o peixe por meio de huma agulha de fardo, ou outro instrumento similhante, que mettendo-se entre o peixe e a lamina, se faça caminhar da cabeça até á cauda, para não desconcertar as barbatanas; o que succederia, conduzindo-se a agulha em sentido contrario.
Voltando o peixe com a parte inferior para cima, se exporá segunda vez ao Sol ou ao vento, pelo tempo que for preciso. Repetindo isto, até que se conheça estar o peixe perfeitamente secco, se untará por fóra com bom verniz transparente, e se accommodará nos caixões com todas as cautelas já indicadas.
Os peixes escamosos, que pela muita delicadeza da sua pelle não podem fer preparados como os cetaceos; nem tão pouco pela grande grossura da sua carne se podem seccar bem, como os chatos e delgados; se cortaráõ em duas partes, conduzindo o córte pelo embigo desde a cabeça até á cauda; e tendo o cuidado de que todas as barbatanas e a cauda fiquem inteiras e pegadas a huma das duas ametades. Esta ametade, que he a que se destina para se conservar, se alimpará da parte das escamas com o gume de huma faca, que a toque levemente, e corra desde a cabeça até á cauda; porque em sentido contrario arrancaria as escamas, em cujas cores e lustre consiste hum dos principaes merecimentos dos peixes escamosos.
Com a mesma faca, ou outro qualquer instrumento accommodado, se irá despegando pouco a pouco toda a carne, até que fique só a pelle com a ametade da cabeça pegada. Desta se tirará o cerebro que restar, e todas as porções de ossos, que fórmão differentes separações no interior do cranio. Tambem se extrahirá toda a substancia do olho, cuja figura e cores se devem notar, como dissemos, para se supprir depois a sua falta com outro artificial. Se a cabeça do peixe for muito curva, se aplanará, pondo-lhe em cima algum pezo; com a advertencia que antes se deve metter por baixo e por cima da cabeça alguma materia molle.
Esta meia pelle assim preparada se pegará pela parte interior com a sua mesma cólla natural a huma folha de papel; e sua porão as barbatanas e cauda na sua fórma e situação natural. Depois de bem secca se untará com verniz transparente, e se metterá no caixão com as precauções necessarias.
Os peixes em fim, que ou pela sua pequenez, ou por outras causas, não poderem preparar-se por algum dos modos, que acabamos de expôr, se enviaráõ em vasos cheios de licores espirituosos, os quaes devem ser mais fortes, e renovar-se mais vezes antes da remessa, do que se requer para os outros animaes pequenos. He escusado repetirmos aqui tudo o mais, que já se disse, sobre este genero de remessas de animaes pequenos.
Dos animaes crustaceos.
Todos os animaes, a que os Naturalistas dão este nome, ou habitem no mar, ou nos rios, ou na terra, se preparão do mesmo modo, attendendo unicamente á sua grandeza; segundo a qual podemos dividillos, em quanto á sua preparação, em duas classes, de grandes, e pequenos. Estes, quando pela sua pequenez se não puderem evacuar de toda a sua substancia molle e corruptivel, ou quando não possão seccar-se sem detrimento sensivel da sua fórma e cores naturaes; accommodando primeiro sobre o ventre as suas pernas, e dispondo do melhor modo as suas antennas, para se não quebrarem, se embrulharáõ, cada hum á parte, em hum pequeno panno, que se envolverá com hum fio; e assim embrulhados se lançaráõ em espirito de vinho para se remetterem.
Os crustaceos grandes podem mais facilmente evacuar-se; o que se fará, separando a casca, que cobre o corpo, da parte inferior, á qual ficão pegadas as pernas, e toda a substancia molle do animal. Esta se tirará toda do melhor modo possivel; ainda mesmo, a que está dentro das pernas, senão de todas, ao menos das mais grossas. Lavadas, e bem limpas todas as cavidades, que ficão depois de extrahida a substancia interior, se encheráõ com as mesmas materias, que já apontámos, fallando dos outros animaes. Antes de os encaixotar, devem expôr-se ao ar o tempo necessario para se seccarem bem. Depois de seccos se accommodaráõ em bocetas com todas as precauções precisas, para que cheguem inteiras todas as suas partes, ainda as mais delicadas. Para isso será conveniente, que cada hum destes animaes se embrulhe em hum panno, depois de postas na sua situação natural todas as pernas, e antennas; e que as bocetas, em que hão de ser remettidos, tenhão capacidade bastante, para não ser necessario dobrar estas partes mais faceis de quebrar-se.
Dos insectos.
No que pertence ao modo de preparar os insectos destinados para o Museo, podemos considerallos, a pezar da sua prodigiosa variedade, como repartidos em tres classes, a cada huma das quaes compete huma preparação particular.
Todos aquelles insectos, cujo corpo he cercado de huma casca dura, e assás forte para conservar depois de secca a sua fórma exterior, se metteráõ em fórnos, que só tenhão o gráo de calor necessario para dissipar toda a humidade interior, sem offensa das partes, que devem conservar-se inteiras. O calor do Sol, sendo muito activo, poderá supprir a falta de fórnos, principalmente nos Paizes quentes.
As borboletas, e algumas especies de moscas, cujas azas imitão as das borboletas, tambem se preparão do mesmo modo, seccando-as ou em fórnos, ou ao calor do Sol. Porém, como todo o merecimento destes insectos consiste na delicadeza de suas azas, e na vivacidade e formosura de suas cores, as quaes unicamente nascem de hum pó brilhante que as cobre, e que he muito facil de despegar-se; he preciso mettellas, assim que se apanharem, entre duas folhas de papel com as azas bem estendidas; e assim mesmo se exporão ao calor, mudando de papeis até que estejão perfeitamente seccas, e em termos de se poderem encaixotar com as cautelas necessarias.
Todos os outros insectos, que constão de huma substancia molle, e que depois de seccos perdem inteiramente a sua primeira figura, e as suas cores naturaes, só podem conservar-se em licores espirituosos pelo mesmo methodo, que já expuzemos sobre os quadrupedes pequenos.
Não he preciso advertirmos, que a accommodação dos insectos nas bocetas requer hum cuidado particular, para se não quebrarem no transporte as suas partes mais delicadas, que são as principaes, de que se servem os Naturalistas para distinguir as diversas especies.
De outras producções pertencentes ao reino Animal.
Debaixo deste titulo comprehendemos todas as especies de animaes de conchas, e todas as mais producções, principalmente marinhas, que tem algum sentimento de vida, ainda que obscuro. As mais notaveis são as Estrellas do mar, em que se observão sinaes menos equivocos de sensibilidade.
Estas, quando são pequenas, e de pouca grossura, depois de as metter alguns minutos ou em espirito de vinho, ou em agoa fervendo, para coagular a substancia interior, de que se compõem; se exporão pelo tempo necessario ao vento, até que fiquem perfeitamente seccas, e livres de corrupção. E cobrindo-as com algum verniz transparente, se encaixotaráõ com as cautelas já sabidas.
Mas aquellas, que são maiores, e consideravelmente grossas, nunca poderáõ seccar-se de modo, que escapem de corrupção. Será preciso extrahir-lhe huma especie de carne, ou parenchyma, de que estão cheias; e depois seccar e envernizar as suas pelles, como fica dito.
Para fazer com mais facilidade a extracção desta substancia interior, se fará no centro, onde se unem as pernas ou raios das estrellas marinhas, da parte das costas, huma incisão circular, mas incompleta, para que fique pegada ao resto do corpo esta porção de pelle, que se corta. Por este buraco se extrahirá por meio de algum instrumento de ferro curvo, que se introduza pelo interior de cada huma das pernas, toda a substancia corruptivel.
Deve porém advertir-se, que, para ficarem depois de seccas na sua posição natural todas as estrellas marinhas, tanto as grandes como as pequenas, he preciso, que logo depois de apanhadas, e em quanto estão vivas, se ponhão com o ventre para baixo em cima de huma meza; pela qual ellas mesmas por si estenderáõ as suas pernas até ficarem na suas postura natural. Nesta mesma postura se deixaráõ por espaço de tres ou quatro dias, até se conhecer que estão mortas, para continuar as operações, que acabamos de expôr.
Todos os animaes marinhos, que são guarnecidos de muitos espinhos agudos, delicados e duros, se preparão, extrahindo com hum arame curvo na ponta por huma abertura natural, que todos tem pela parte inferior, a substancia molle que está dentro da concha; cuja cavidade se lavará bem com agoa ardente; e depois de tudo estar perfeitamente secco, se accommodará cada huma destas peças na sua boceta com algodão, observando todas as mais cautelas necessarias, para que no transporte se não quebrem os seus espinhos.
Todo o genero de conchas ou univalves, ou polyvalves são dignas de se conservarem nos Gabinetes. Não se devem mandar as que se apanhão nas costas do mar, que as ondas lanção em terra, as quaes com a contínua fricção da arêa ficão roçadas, e sem huma grande parte do seu merecimento natural. Por isso o mais seguro he mandar só aquellas, que se apanhão com o seu verme ainda vivo, o qual com hum alfinete, ou com hum arame facilmente se tira, depois de ter lançado a concha em agoa fervendo. Deste verme basta que se mande o desenho, se houver quem o faça: e para o fazer, se metterá a concha, em quanto o seu verme está vivo, em hum vaso cheio de agoa do mar, se ella for marinha, ou de agoa doce, se ella for fluvial; porque então sahe o verme todo fóra da concha, e dilata ao natural todas as suas partes de sorte que com muita facilidade se póde desenhar: nas conchas terrestres será preciso esperar, que o animal saha por si mesmo para se poder tirar o seu desenho.
Depois de bem seccas as conchas, se embrulhará cada huma delias em hum pouco de algodão, segurando-o por fóra com hum fio; e se accommodaráõ com diversas camadas do mesmo algodão dentro das bocetas, em que devem remetter-se com todas as mais cautelas.
Deve advertir-se a respeito de todas as producçóes do mar, que antes de as seccar, para se remetterem, he preciso lavallas em agoa doce; porque o sal marinho attrahe muito a humidade, de que póde originar-se corrupção.