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A architectura religiosa na Edade Média

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Nota de editor:

Devido à existência de erros tipográficos neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.

Rita Farinha (Agosto 2010)

A ARCHITECTURA RELIGIOSA NA EDADE-MÉDIA

ENSAIOS DE HISTORIA DA ARTE

A ARCHITECTURA RELIGIOSA NA EDADE-MÉDIA POR AUGUSTO FUSCHINI

Illustration from A architectura religiosa na Edade Média

LISBOA IMPRENSA NACIONAL 1904

A Minha Filha Octavia Fuschini de Lima Mayer

INTRODUCÇÃO

As noções fundamentaes do nosso espirito são absolutamente indefiniveis. Sentem-se; nada mais. Se lhe procurarmos a definição, cahiremos em simples labyrintos de palavras, consistindo, quasi sempre, em verdadeiros circulos viciosos. Tomemos, para exemplo, o espaço e o tempo, noções bem fundamentaes.

O que é o espaço? É o

meio

, sem limites, onde existem em continuo movimento todos os corpos; o que equivale a dizer que o

espaço

é o

espaço

.

O que é o tempo? É a serie indefinida de momentos, durante os quaes se realisa a successão dos factos physicos e moraes; o que equivale a dizer que o

tempo

é o

tempo

.

Assim, parece que as idéas ou noções fundamentaes teem o singular caracter de ser facilmente comprehensiveis pela intelligencia humana, sem que ella tenha palavras rigorosas ou phrases perfeitas, para as definir com sufficiente clareza.

Dados o espaço e o tempo, a materia e o espirito em perpetuo movimento produzem a totalidade dos factos e phenomenos physicos e moraes, constituindo o Universo, que sem as primeiras noções seria absolutamente impossivel e incomprehensivel.

Pouco nos importa saber, n'este momento, se a materia e o espirito coexistem, ou se o espirito é apenas um attributo da materia, organisada segundo leis desconhecidas. Os phenomenos passam-se como se fossem distinctos; deixemos, pois, a investigação d'este problema, que aliás parece insoluvel, aos metaphysicos e aos theologos.

O que podemos considerar quasi certo é que a materia em movimento nos dá as noções exactas do espaço e do tempo; e o espirito em actividade nos dá, tambem, as noções claras do bem, do bello e do justo, que são como as primeiras completamente indefiniveis na sua natureza absoluta.

Quem aprecia o tempo e o espaço? Os sentidos physicos.

Quem aprecia o bem, o bello e o justo? Esse

sentido

especial e perfeitissimo, denominado consciencia, a faculdade de

julgar

que possue a intelligencia humana.

As similhanças mostram-se ainda mais intimas. As noções do espaço e do tempo são inseparaveis. A nossa intelligencia não pode conceber uma sem a outra. O bello, o bem e o justo manifestam a mesma qualidade. São noções correlativas.

É certo que a complexidade dos phenomenos animicos torna esta correlação menos evidente do que a primeira, mais simples e clara pela sua origem physica; mas, discutindo bem e com profundidade qualquer facto de ordem animica, chega-se a descobrir que uma d'estas noções do nosso espirito envolve, sempre, as outras duas em maior ou menor grau.

Assim, pois, poderemos, sem grande receio de errar, estabelecer tres definições:

A Arte é a expressão do bello;

A Moral é a expressão do bem;

O Direito é a expressão da justiça.

Ora, como as noções do nosso espirito se manifestam subordinadas a leis geraes, temos tres sciencias, que estudam as manifestações externas e visiveis da propria essencia do espirito humano.

Eis-nos entrados no campo positivo e experimental. Um longo periodo historico prova já que o nosso espirito é successivamente perfectivel e evolutivo; não o sendo, de certo, nos principios fundamentaes, mas sim na applicação d'esses principios e na variedade infinita de combinações, que se podem fazer com as idéas, como se obtem com as notações musicaes.

Se nos fosse permittido, empregariamos a seguinte expressão: a perfectibilidade é a lei fundamental do espirito humano, a evolução o seu methodo.

Convém, todavia, observar, como um facto historico e psychologico, que a alma humana—digamos a palavra—não é perfeitamente livre no pensamento e na acção. Deixemos a theoria do

Livre Arbitio

para ser definida em Concilio.

Os astros, esses até, que estão sujeitos a leis immutaveis e mathematicas, soffrem perturbações nas respectivas orbitas, por influencias ainda mysteriosas algumas, outras descobertas em certos casos. Ora, sobre as leis moraes as influencias são variadissimas; por isso, o

astro espiritual

, a Idéa, caminha sempre em determinado sentido, ás vezes, com enormes desvios.

O raciocinio prevê as causas d'essas grandes irregularidades e a experiencia demonstra a verdade d'essas previsões.

Em relação á Arte, estas causas podem grupar-se em tres grandes categorias:

1.ª A influencia do

meio

natural, da atmosphera physica e cosmica;

2.ª A influencia do

meio

historico, isto é, do conjuncto de circumstancias que em dado momento constituem a atmosphera social;

3.ª A influencia do

meio

particular de cada individuo, formado pelo proprio caracter e talento, pelas suas condições dentro da sociedade e da familia, ou pelo menos, dentro do pequeno grupo social, em que se executa o seu trabalho e se exerce a sua actividade.

Teremos occasião de explicar mais tarde algumas applicações d'estes principios; mas seja-nos permittido concretisal-os um pouco mais, principalmente o primeiro.

Nas leis historicas—e a Arte tem historia e leis—entre as influencias, actuando obscura e vigorosamente sobre o caracter dos povos e sobre os destinos das nações, a sciencia não conseguiu ainda definir bem a acção profunda dos elementos climatericos e geographicos sobre o espirito humano; todavia, essa influencia presente-se, ou melhor prova-se e deduz-se da diversidade das raças e dos caracteres moraes dos habitantes da terra.

A forma humana, como é incontestavel, soffre a influencia d'este

meio

externo e ás modificações d'essa forma correspondem modos de ser e intensidades differentes de intelligencia. Ora, se nas linhas geraes do nosso espirito se observa a acção dos agentes climatericos e geographicos, como a vida dos povos depende das proprias funcções intellectuaes e, pelo menos, em forte proporção o bem e o mal proveem do exercicio da intelligencia humana, não é vago presentimento mas verdade scientifica a existencia de leis, embora ainda não formuladas, que expliquem a correlação das idéas e das instituições dos povos com a climatologia e a geographia da zona habitada.

Na constituição de certas noções, esta influencia deve ser profunda. A noção de Deus, o melhor manancial da Arte, e o grupo de idéas e de sentimentos, que em volta d'ella, como centro, constituem por assim dizer uma categoria do espirito humano, estão, sem duvida, n'estas condições. O exemplo é excellente.

Seja qual fôr a origem da crença no sobrenatural, derive esta crença da intima essencia da alma, provenha da revelação divina, nasça da generalisação espiritual ou material das forças naturaes, funde-se na grandeza dos factos cosmicos, ou no receio dos phenomenos physicos, é indiscutivel que a essencia e a evolução da idéa de Deus e das formulas do culto externo offerecem caracteres mais ou menos harmonicos com as condições geographicas e climatericas, que lhes serviram de ambiente.

O polytheismo guerreiro, honesto e nebuloso, dos povos septentrionaes da Europa e o polytheismo grego, livre e artistico, foram concebidos em

meios

differentes. As regiões asperas e rudes do norte, onde os gelos e as tempestades, durante longo periodo do anno, difficultam a lucta pela existencia, não podiam ser habitadas pelas divindades do Olympo.

O ceu puro da Grecia, a limpidez da atmosphera jámais escurecida por tempestades terriveis, a amenidade do clima, os contornos suaves dos montes, o murmurio poetico dos pequenos rios, as frescas florestas de platanos em valles abertos, o perfume de flores variadas, o sabor delicado dos fructos, em summa, as excellentes condições climatericas e geographicas da Grecia permittiram ao genio popular a creação de uma familia de divindades, em quem o amor sensual, o gôso physico e a belleza das formas traduziram admiravelmente a doçura das forças naturaes.

As vagas enormes, revoltas e furiosas dos mares arcticos não podiam gerar a belleza do Eterno Feminino. Das ondas serenas do mar Egeu, coroadas de espuma branca e transparente como finissima renda, que vinham quebrar-se com suavidade sobre a areia dourada das costas do Peloponeso, nasceu o formoso corpo de Venus, a expressão ideal da belleza da forma.

E, todavia, germanos e gregos eram da mesma raça, d'esses aryas brancos e louros que dos confins da Bactriana, talvez por caminhos differentes, haviam emigrado, seguindo a trajectoria do Sol, que lhes indicava propheticamente a sua grande obra, a futura civilisação da Europa.

Se fizermos tambem estudos sobre raças differentes, chegaremos aos mesmos resultados.

A

anthropomorphose

da idéa de Deus é lei fundamental do espirito humano e até hoje o manancial mais rico de productos artisticos de todas as ordens. A representação physica e a definição moral da divindade derivam, sem a menor duvida, da idealisação e da generalisação das qualidades physicas e psychicas do homem. Pode haver duvida se, conforme o

Genesis

, o homem foi creado á imagem e similhança de Deus; é, porém, indiscutivel que na constituição d'este symbolo lhe demos muito da nossa forma e ainda mais do nosso espirito.

Eram polytheistas as raças aryanas, segundo parece. A duvida pode nascer de que na Grecia o polytheismo pertencia ás classes populares, emquanto os sabios criam na Unidade do Espirito. Assim, Anaxagoras, Socrates e a sua escola, em que floresceram os maiores sabios, philosophos, estadistas e artistas do grande seculo de Pericles, acreditavam na unidade de Deus; eram monotheistas.

Seja como fôr, é facil de comparar a forma e o espirito de Jupiter, do Monte Olympo, com os de Jehovah, do Monte Sinai, isto é, a concepção da divindade entre aryas polytheistas, os gregos, e semitas monotheistas, os hebreus.

A figura sombria e magestosa de Jehovah não só era feita á imagem e similhança do caracter hebreu; mas reflectia, tambem, a grandeza melancholica da cordilheira do Libano e das montanhas da Palestina.

Esse Espirito, vivendo fóra do cahos e creando a ordem entre os elementos, eternos como elle, pelo esforço da propria vontade omnisciente, ora energico e duro, ora manso e amoroso, pedindo a Abrahão o cruel sacrificio do filho e contentando-se com a offerta no templo de algumas pombas brancas, era o reflexo d'esse clima da Palestina, onde, umas vezes, furiosas tempestades electricas rasgam as calliginosas nuvens e os raios fazem explodir os rochedos, ou o

simoun

, soprando dos areiaes ardentes da Arabia, secca as plantas e prostra os homens; onde, outras vezes, os ventos frescos do Mediterraneo, fazendo voar no ceu azul bandos de nuvens brancas, levam a frescura e a vida á flora tropical riquissima das campinas da antiga Judéa.

Se apreciarmos bem a natureza essencial dos factos mythologicos, que formam a biographia lendaria de Jupiter, encontraremos não o espirito ardente, sombrio e puro da divindidade hebraica, mas esse caracter leviano e sensual, que define a raça hellenica, pelo menos no ramo jonico. Foi ainda a acção do clima, que facetou os caracteres da raça; foram ainda estes caracteres, que se crystallisaram n'uma forma especial da idéa de Deus.

Emquanto á influencia do

meio

social, que poderiamos escrever que não fossem paraphrases das idéas e copias das leis positivas, que Taine expoz, com a maior lucidez de espirito e brilhantismo de estylo, na

Philosophia da arte

, depois applicada á Grecia, á Italia e aos Paizes Baixos?

De facto, se o

meio

climaterico e geographico envolve e faceta o espirito humano, o

meio

social ou historico tem ainda mais profunda e directa influencia sobre o individuo. Assim, pode dizer-se, em rigor, que o homem existe mergulhado n'uma atmosphera moral e intellectual, da qual recebe, se nos é consentida a phrase, a alimentação animica.

Ora, a acção d'esta atmosphera exerce-se tanto mais energica e activamente, quanto as manifestações intellectuaes mais dependem do mundo exterior. A sciencia pode até certo ponto dispensar o applauso das multidões; a arte, pelo contrario, exige-a, porque o seu principal fim consiste em corresponder a essa necessidade do bello, que parece ser qualidade fundamental da alma humana.

Diz-se que Wronski descobriu leis mathematicas, que só poderão ser bem comprehendidas em seculos futuros. Admittamos a hypothese. Affirmaremos pela nossa parte que artista algum terá a pretensão de crear primores para as gerações futuras, sob pena de não ter admiradores actuaes, o que lhe pede o proprio espirito, e compradores, o que em regra lhe exigirão as conveniencias particulares.

A regra de boa philosophia que nos aconselha a sermos

homens do nosso tempo

, é uma lei suprema para os artistas, imposta pela propria essencia da arte e pelas necessidades animicas e sociaes dos seus cultores.

Assim, a influencia do

meio

social, que se exerce sobre todas as manifestações do espirito humano, actua com maior intensidade nos de ordem esthetica.

Convem, egualmente, attender á influencia do caracter individual do artista, ao seu pequeno

meio

familiar, ao ambiente das amizades e dos odios que se forma em volta de nós sempre e mais actua sobre os grandes artistas, em regra, neurasthenicos e possessos da nevrose do genio e do talento. Taine tambem se refere a este ponto, um pouco ao de leve talvez. Sem a ousadia de o completar, citemos um exemplo curioso e caracteristico, um só para não avolumar esta modesta exposição.

É sabido que no seculo XVII Sevilha foi um riquissimo centro de Arte. Na

casa de ouro

reuniam-se, dia a dia, poetas, prosadores, pintores e esculptores, entre elles Cervantes, Quevedo, Murillo, Valdez Leal, Montañez, Herrera e muitos outros. N'esse seculo a escola hespanhola de pintura attingira o maior esplendor. Os chefes da escola sevilhana eram Murillo e Valdez Leal, que aliás é pouco conhecido fóra da peninsula a não ser pelos eruditos.

Murillo era um santo homem, modesto e simples no viver, um mystico absorto no amor de Deus e da familia, artista colossal, creado e feito pelo unico esforço do seu genio e pelo amigavel auxilio de Velasquez. Valdez Leal, pelo contrario, era um genio atrabiliario, cheio de emulação ardente a roçar quasi pela inveja, ambicioso e energico, bom catholico de certo porque era perigoso não o ser no seculo XVII, principalmente em Hespanha. Genio tinha-o, não tanto como Murillo; mas o genio transparece nos seus quadros, a nosso ver principalmente no formoso quadro do

Bispo morto roido pelos vermes da morte

, uma maravilha de perspectiva, de desenho, de côr e de effeitos de luz.

O caracter d'estes grandes pintores traduz-se nas suas obras. O estylo vaporoso de Murillo, o seu estylo definitivo, offerece as qualidades do seu espirito. Colorido suavissimo, contornos um pouco vagos, expressões bondosas em assumptos mysticos, dão uma impressão ideal aos seus quadros, dos quaes, se o nome se perdesse, se poderiam deduzir as qualidades do espirito do auctor.

Valdez Leal tem qualidades extraordinarias, não é duro como João de Castilho, mestre commum d'elle e de Murillo, nem violento como Herrera; mas sente-se na sua pintura a influencia da vontade e o azedume do caracter.

Este exemplo parece-nos ser frisante e podia ser completado com outros, até entre nós e nos tempos modernos...

Expostas estas doutrinas sobre a influencia do ambiente, que envolve a evolução da Arte e actua sobre os artistas, convem observar que a acção do mundo exterior tende a diminuir com o desenrolar do progresso. É, talvez, esta uma das causas da especie de

anarchia

, que hoje se observa na producção da Arte e nos estylos dos artistas. O excesso de individualismo dá, sem duvida, liberdade e expansão aos genios; mas o genio é a excepção e a regra o talento.

Podemos, pois, acceitar como demonstrado, que a Arte é evolutiva e as suas phases especiaes, os estylos, correspondem a estados do espirito humano, sob a influencia das condições particulares da natureza, da sociedade e até do proprio individuo.

Appliquemos esta doutrina á Architectura, porque os seus productos, pela propria grandeza e quantidade, se conservam melhor e se perdem menos, manifestando, assim, menores soluções de continuidade. Limitaremos, por obvias razões, esta applicação á Architectura religiosa nos tempos christãos, o assumpto exclusivo d'este livro, fazendo, apenas, um breve schema.

O Estylo Classico grego, modificando algumas qualidades e ganhando outras, produziu o Classico Romano.

O espirito do Christianismo, no Imperio do Occidente, obtendo a liberdade e a acção social, apoderou-se do classico romano, modificou-o, segundo as necessidades religiosas e do culto, gerando o Estylo Latino. Ao mesmo tempo quasi parallelamente, o Christianismo no Imperio do Oriente, fundando-se em outros elementos, creava o Estylo Byzantino. Sob a acção do elemento barbaro, os dois estylos, caminhando para o centro da Europa, se nos é permittida a expressão, encontraram-se, harmonisaram-se, produzindo o Estylo Romanico.

As modificações profundas, occorridas nas sociedades dos seculos XI, XII e XIII, transformaram o Estylo Romanico, nascendo o Estylo Ogival, que atravessou tres seculos, para a seu turno se transformar, sob a acção poderosa da Renascença.

Os estylos são, pois, élos d'essa cadeia de phases architectonicas, que se estende atravez dos seculos, ligando a inspiração e o trabalho da Humanidade.

Assim, a Arte é a expressão do bello, e o Estylo a forma particular d'essa expressão, em determinado periodo historico.

PARTE PRIMEIRA

ORIGENS DA ARCHITECTURA CHRISTÃ

CAPITULO PRIMEIRO

A LUCTA ENTRE O PAGANISMO E O CHRISTIANISMO

O antigo espirito classico, que produzira as magnificas civilisações da Grecia e de Roma, esmorecia, como esmagado sob o peso da sua propria e grandiosa obra, quando dois elementos novos, talvez regulados pela lei suprema da conservação e do perpetuo rejuvenescimento da Humanidade, se manifestaram com profundo vigor e intensidade no seio das velhas sociedades decadentes: o Christianismo e a invasão dos barbaros.

Assim, os factos historicos, as idéas e os sentimentos humanos, as instituições sociaes, a moral, a politica e a arte, se explicam pela acção reciproca e poderosa dos tres principios, o classico, o christão e o barbaro, que são as causas efficientes da edade-media e da civilisação moderna.

Já no tempo de Cesar e de Augusto, os primeiros Imperadores, cuja grandeza de genio é incontestavel, a sociedade romana entrára em plena decadencia. Os vicios da antiga Republica, que os bons cidadãos e os philosophos contemporaneos não haviam podido expungir, cavaram-lhe a ruina.

O Imperio correspondia, sem duvida, ás necessidades de corrigir ardentes ambições em continuas luctas, que produzem sempre a anarchia politica, e de imprimir acção energica e centralisadora á enorme expansão das conquistas; mas o Imperio trazia na propria essencia dois vicios terriveis e inevitaveis: o despotismo, a extincção completa das ultimas liberdades publicas, e a constituição militar, como poder especial independente dos cidadãos, o

militarismo

segundo a expressão moderna.

Na agonia da Republica, Catão de Utica previra o desastre. Luctara para o evitar, chegando até a apontar o homem, Julio Cesar, que devia destruir o quasi phantasma da antiga liberdade romana. O futuro Dictador, ainda muito novo, espreitava e preparava, entre os prazeres dos ricos e dos poderosos da Roma republicana, pelo amor das mulheres, pela elegancia, pelos costumes faceis e até pela lisonja, a origem da grandeza, que mais tarde encontrou no proconsulado das Gallias.

Assim tambem, Napoleão, frequentando os salões politicos e litterarios do Directorio republicano, conseguiu ser nomeado general em chefe dos exercitos da Italia. Singular coincidencia entre dois homens de caracter tão parecido, dois genios innegavelmente; um procura nas Gallias, a França, outro na Italia, a Republica Romana, as origens de futuros imperios!

Durante o Imperio, pelo menos nos primeiros tempos, as ambições foram enfreadas pela existencia do poder perpetuo da dictadura; mas, se algumas das antigas instituições conservaram os nomes, foram-lhes tiradas a pouco e pouco as ultimas funcções. Os fracos lampejos da liberdade republicana em breve se extinguiram na escuridão profunda do mais feroz despotismo, até hoje conhecido. O Cesar era dictador e pontifice-maximo, o soberano absoluto dos povos e o chefe espiritual das consciencias.

Tambem é certo que a energia da centralisação politica e administrativa do Imperio facilitou o espirito conquistador e a conservação das conquistas, mais do que o podia fazer a esphacelada Republica; mas, como consequencia logica, estas mesmas condições favoraveis prepararam o militarismo. Os exercitos nacionaes da Republica tornaram-se as legiões cesarianas do Imperio, que lhes pagava e as dirigia, transformando-se a pouco e pouco em guardas do Imperador. Era natural e logica esta confusão entre o homem e o principio. A nação, o povo, a liberdade, os direitos dos cidadãos, tudo desapparecera encarnado na pessoa de um Cesar deificado.

Os resultados eram fataes. Tiberio creou as

guardas pretorianas

para defeza da pessoa do Imperador. Sentindo a sua força, os

pretores

imperiaes completaram depois logicamente a doutrina e as guardas pretorianas começaram a escolher os Cesares.

O despotismo e a centralisação do Imperio accentuaram, assim, as causas da decadencia da sociedade romana, dando-lhe, apenas, por algum tempo um falso aspecto de força e de grandeza.

Nos ultimos annos da Republica era já, na realidade, profunda a desmoralisação das classes superiores. O ouro das depredações, feitas nas provincias conquistadas, os costumes luxuosos e dissolutos, importados com o ouro dos povos orientaes, os grandes latifundios, em que se dividia a Italia, possuidos por familias poderosas, haviam amollecido a antiga rigidez do caracter romano. São ainda hoje citadas e celebres as prodigalidades da magnificencia e do luxo de Lucullo,

questor

da Asia.

As despezas excessivas de um estado de guerra constante em regiões differentes e afastadas, a defeza de vastissimas fronteiras, já então ameaçadas em mais de um ponto, as estradas e as respectivas obras, pontes, castellos, campos entrincheirados, que constituiam a admiravel rede de communicações militares romanas dentro e fóra da Italia, as espoliações dos grandes e pequenos funccionarios, exigiam o ardor do fisco, motivavam-lhe as violencias, exercendo-se, como sempre, sobre as classes populares.

Estas pessimas sementes, lançadas no campo da democracia, ainda haviam sido contrariadas durante a Republica por instituições e franquias populares. O Imperio, nivelando a sociedade abaixo de um Cesar deificado de quem tudo e todos dependiam, extinguindo as ultimas liberdades, creando uma especie de côrte de grandioso fausto, que no tempo de Elagabalo attingiu as loucuras orientaes nos costumes e no luxo, desenvolvendo por necessidade o espirito e as forças militares, accentuou estas causas de decadencia. Nos começos do Imperio, um philosopho epicurista, Petronio, deixou-nos uma face viva d'esse estado moral e social, n'uma satyra celebre e cheia de vigorosa ironia, o

Satyricon

.

A religião polytheista perdera o prestigio e a força. As classes superiores professavam um epicurismo devasso, elegante e atheu. O povo, sem crenças, debatia-se na miseria politica e economica. Os mythos do polytheismo podiam interessar imaginações ardentes e poeticas; mas não consolavam desgraçados, que sobre a terra sentiam apenas, sem uma esperança, a rudeza do trabalho, as crueldades da dôr e o receio da morte.

Os deuses tinham perdido o seu prestigio, porque não faziam milagres; esses deuses alegres e devassos, que acceitavam os Cesares por collegas e o deixavam, a elle, pobre povo, soffrer e morrer de fome, mais miseravel e esquecido do que as bestas das cavallariças imperiaes...

A religião precisa de milagres, como a politica de grandes e espectaculosos factos, para se engrandecerem aos olhos dos simples. Esta necessidade do espirito humano mais vulgar comprehendeu-a Jesus Christo, o honesto e bom, o illuminado pela Justiça Divina, elle, que tanto lhe repugnava fazel-os.

A philosophia oppunha ainda impotentes esforços ao desabar da sociedade romana; mas bem na essencia era tambem epicurista. Além d'isso, prégar a moral pelo valor da propria moral, dizer aos simples de espirito que a virtude tem em si o proprio premio, exaltar a humildade e a pobreza aos pequenos, quando os soberbos e os ricos avassalam os bens e os prazeres do mundo, é doutrina assás abstracta que só comprehendem os philosophos, embora ás vezes não a pratiquem. Seneca, no principio do Imperio, ensinava esta doutrina ao povo romano, escrevia livros elogiando a pobreza; mas o philosopho esquecia-se, apenas, de que era feliz e riquissimo. A philosophia só é uma grande força, quando o exemplo acompanha a palavra.

Por esse tempo, principio do Imperio, na provincia romana da Judea, manifestou-se o Christianismo. As causas efficientes d'este esplendido e profundo movimento do espirito humano não podem ser desenvolvidas e estudadas em trabalho d'esta natureza.

A egualdade entre os homens de todas as raças e condições, o amor e a fraternidade humanas enunciadas como leis supremas, a fé profunda na existencia de um Deus justo, feito á imagem e similhança da bondade e da doçura de Christo, a esperança n'uma vida eterna de felicidade e de goso, merecido premio das virtudes e boas obras sobre a terra, doce compensação dos soffrimentos d'este mundo, emfim, a essencia delicada do Christianismo desceu sobre os desgraçados, os pobres, os enfermos, os escravos, essa enorme legião de miseraveis, affagou-os, levantou-lhes as almas, como a chuva fresca e crystallina levanta as cearas resequidas por longo sol ardente.

Falar aos escravos em liberdade, egualal-os aos senhores, reconhecer-lhes alma e direitos sobre a terra, embalal-os com a visão mystica de uma vida eterna, nunca o polytheismo tivera esta linguagem eloquente, nem os philosophos e os moralistas classicos haviam professado taes doutrinas.

Devemos observar que a escravidão no mundo classico era um facto legitimo, consequencia logica das organisações sociaes. O cidadão livre dirigia o Estado, o escravo trabalhava e produzia. As democracias gregas e a romana, como no Oriente, professavam a divisão das castas, embora mais adoçadas. A cabeça, os braços e os pés tinham funcções hierarchicas differentes. A grandiosa estatua social repousava sobre o plintho da escravidão: se o destruissem, o colosso ruiria em pedaços.

Alem d'isso, o numero de escravos em Italia, principalmente na grande e populosa Roma dos Cesares, era enorme; prisioneiros de guerra uns, outros reduzidos á escravidão hereditaria ou por varias causas, mas em grande parte da mesma raça dos senhores, ou de raças equivalentes. A escravidão moderna defendeu-se, por longo tempo, recrutando as victimas entre as raças negras ou indias da America, consideradas inferiores. O escravo do mundo antigo, recordando-se da passada liberdade, ou sentindo-se do mesmo sangue dos senhores, devia experimentar bem no fundo da alma o sentimento de revolta, que nenhuma miseria humana consegue suffocar. As grandes sublevações servis, principalmente a ultima de Spartaco, um seculo antes de Christo, confirmam estas observações.

A doutrina de Christo, cheia de amor, de esperança e de bondade, era tambem de molde para suggestionar a alma da mulher, incutindo-lhe a fé e o ardor do proselytismo. O espirito feminino é um instrumento perfeito e delicado. A natureza creou as mulheres para nossas amantes e mães, as duas expressões mais finas e elevadas dos sentimentos humanos; por isso, se não lhes concedeu outros em larga escala, as notas da alma feminina são n'estes de deliciosa finura, ás vezes incomprehensivel para os homens vulgares.

A mulher classica estava bem longe de ter subido ao logar elevado, que depois lhe deu o Christianismo no seio da familia. A grega vivia isolada no

gyneceo

, leve sombra do serralho dos povos orientaes. A romana subira um pouco; sendo, porem, ainda considerada sujeita ao marido, como os filhos ao patrio poder.

O divorcio entre os antigos era um facto corrente e facil; ora, a mulher sente que o seu logar é na familia. O adulterio, crime horrendo para as mulheres, soffria em geral penas infamantes ou a morte. A mulher classica era, em summa, uma serva, uma filha, uma forma de propriedade do marido.

O Christianismo tornava-a companheira e egual ao homem. Christo dissera que o casamento na terra se mantinha no Ceu. Jesus defendera a adultera e, um dia, glorificou a loura mulher de Magdala, envolvendo a prostituta no doce manto do seu amor, glorificando-a perante os homens e salvando-a perante Deus.

O Christianismo tinha a linguagem, eloquente e expressiva, que entendem logo os simples e as mulheres.

Assim, nos primeiros tempos, o florilegio christão é riquissimo em martyres femininos. A mulher morre pela religião de Christo com a fé e a resignação, diremos mais, com a vontade e a energia do homem. É um facto singular d'este bello e grandioso movimento do espirito humano.

O polytheismo era a religião da forma e da belleza, cheia de mythos absurdos e incomprehensiveis, religião de culto externo, secca philosophia encarnada em symbolos obscuros. O Christianismo era a religião do espirito, replecto de doces verdades e de sentimentos adoraveis, religião de culto interno, moral clara e divina que Jesus Christo expozera com phrases singelas no bello sermão da montanha.

Os prophetas hebraicos haviam dito que seria espiritual a religião do futuro e constituiria o patrimonio da humanidade; que a piedade valia mais do que o sacrificio e o conhecimento de Deus mais do que os holocaustos. Nós vemos hoje realisada a grande obra de Christo. Os prophetas viram o futuro a quarenta seculos de distancia!

Assim, se explica como o Christianismo teve uma expansão enorme, apenas começou a ser evangelisado entre os povos classicos, sujeitos ao jugo do Imperio. O

meio

estava preparado, a doutrina era excellente.

Os que soffriam os males de espirito, os Os que soffriam os males de espirito, os que padeciam as doenças da carne, os pobres, os enfermos, as victimas da sociedade classica, affluiam ás catecheses, bebendo com soffrega delicia o filtro espiritual do Verbo Eterno.

A diffusão da religião christã em Roma, logo nos primeiros annos, constitue um facto assombroso na historia do proselytismo. Já no anno 64 de Christo, o grande incendio, que devorou parte importante de Roma, pôde ser attribuido á malevolencia dos adeptos das novas idéas, considerados conspiradores contra o Imperio e gente de costumes suspeitos e mysteriosos. Nero iniciou as perseguições, o que demonstra o espirito que reinava em Roma e o numero avultado de christãos, que impelliam os poderes constituidos a extinguil-os pela força e pela violencia.

Os melhores imperadores romanos, assim considerados ainda hoje pelo genio politico e pelo caracter pessoal, foram os maiores perseguidores dos christãos. Trajano, Marco Aurelio, Deocleciano alargaram as perseguições pelas vastas provincias do Imperio. O sangue correu em jorros, sem distincção de edade e sexo. A lucta foi terrivel e desegual entre as idéas classicas, que então representavam a ordem, e as idéas christãs, innovações perigosas e immoraes, segundo a critica do tempo. Os primeiros tres seculos do Christianismo constituem o periodo brilhante dos martyres, cujo sangue cimentou a

pedra

, sobre a qual Jesus Christo fundára a sua Egreja.

As perseguições não foram simples actos de crueldade, como o suppozeram os christãos, que depois imfamaram os imperadores, fazendo a historia a seu modo. Eram actos politicos; ora, a politica de força e de violencia confunde-se com facilidade com a violencia de odios e de crimes. Eis o que explica a furia singular e ardente dos bons imperadores romanos contra o Christianismo.

O poder em exercicio é sempre conservador por natureza e essencia; deve sel-o até, entre certos limites, por deveres de responsabilidade. O Christianismo apresentava-se como uma revolução nos espiritos, a transformação radical da religião pagã em que se fundavam as sociedades classicas. A consciencia da egualdade e da liberdade humanas atacava a intima essencia do paganismo, substituia-lhe a moral, modificava-lhe a politica e feria de morte os principios da sua organisação economica.

O despotismo repousa sobre a passividade dos cidadãos, precisa d'elles inertes de vontade, movendo-se como automatos sob rigida disciplina, ás ordens respeitadas e não discutidas do poder supremo. É a lei da constituição do despotismo, que seguiu mais tarde Santo Ignacio de Loyolla, quando pretendeu oppor a terrivel machina de guerra, a Companhia de Jesus, aos progressos da Reforma.

O Christianismo creava homens livres e conscientes; embora o seu espirito mystico tendesse infelizmente a destruir as qualidades civicas, o

civismo

a virtude das sociedades classicas. Além d'isso, o Cesar-Imperador era o

pontifice-maximo

, poderiamos dizer o papa da religião pagã. O Christianismo atacava-o nas duas principaes origens do poder despotico, fazendo sair do marasmo e da podridão o espirito humano e matando-lhe a influencia religiosa sobre milhões de individuos. É verdade que Jesus Christo dissera:

dae a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus

; mas... dissera-o sorrindo...

Estavam, pois, gravemente ameaçadas as grandes forças do Imperio; a segunda, a organisação religiosa, condemnada sem remedio e talvez fosse a principal. Constantino protegeu o Christianismo desde os primeiros tempos do seu reinado; mas só se baptisou alguns dias antes de morrer. O grande estrategico-politico, usando da força do Christianismo, apoiando-se n'elle, não abdicou o cargo e a importancia de

pontifice-maximo

, isto é, a influencia sobre o paganismo, senão nos ultimos momentos da sua vida.

Eis como se explica a lucta tremenda entre as duas doutrinas, uma representando o mundo antigo, outra que trazia em si o germen das futuras sociedades. Admiravel manifestação da força irresistivel da verdade e da justiça!

O Imperio Romano, o maior poder que até hoje viu a terra, e o paganismo, que formára tantas civilisações e creara a philosophia, a sciencia e a grande arte classicas, esses dois colossos, dispondo de tudo que tem força e valor n'este mundo, levantaram-se com impeto terrivel para esmagar o verbo simples e verdadeiro de um judeu desconhecido da Gallilea. E a força e o poder cairam vencidos pela Idéa!

Jesus Christo, envolvido em pobre tunica, acompanhado de poucos discipulos, pronunciára a sentença da destruição do paganismo, quando do alto da montanha, com voz doce e suave, annunciou á Humanidade o bello preceito:

Amae a Deus sobre todas as cousas e ao proximo como a vós mesmo

.

A revolução estava feita. Christo foi a encarnação da Idéa, que então correspondia ás necessidades intellectuaes e moraes da Humanidade e preparava os seus futuros destinos.

Admiravel manifestação da força irresistivel da verdade e da justiça!

CAPITULO SEGUNDO

OS TRES PRIMEIROS SECULOS DO CHRISTIANISMO

Pelas razões expostas no precedente capitulo, era muito difficil e perigosa a situação do Christianismo, nos primeiros seculos. As grandes perseguições repetiam-se, sempre com maior intensidade e crueza, sob os successivos imperadores, que, muito naturalmente, procuravam conquistar a força e a sympathia da opinião publica pagã, exigindo d'elles as violencias e as atrocidades caracteristicas das luctas religiosas. No intervallo d'estas exacerbações de odios, a desconfiança e a vigilancia insupportaveis e constantes opprimiam o gremio dos christãos, que, aliás, nos primeiros tempos devia ser constituido em geral por elementos pobres e obscuros, sem força alguma na politica e na administração do Imperio.

Este estado de cousas prolongou-se desde as primeiras manifestações visiveis do Christianismo em Roma, em data impossivel de fixar, até ao reinado de Constantino, isto é, durante um periodo de mais de tres seculos. A ultima e mais formidavel perseguição foi ordenada por Diocleciano no anno 303 da éra christã. A tetrarchia, que então governava o Imperio, facilitou esta colossal e longa perseguição, estendendo-a por todas as provincias romanas, com a crueldade e o vigor que manifestam sempre as medidas extremas de salvação publica.

Durante estes tres seculos terriveis, a grande maioria dos pobres e dos ignorantes, que constituia a associação christã, não tinha qualidades, nem gosto, nem tempo, para cultivar as artes, aliás já bem decadentes n'essa epoca. Perseguidos pelas auctoridades romanas, dominados por ardente proselytismo, em continuas catecheses, vivendo receiosos entre perigos e miserias, não lhes sobravam, decerto, vontade e tempo para cultivar as artes, ainda que para isso possuissem qualidades estheticas.

O Christianismo era doutrina tão espiritual, fazia depender tanto a felicidade da prece e da virtude, elevando a alma a Deus e conduzindo-a ao Ceu, que as formas visiveis do bello, a plastica das artes, deviam ser consideradas inuteis, se não peccadoras, aos olhos dos crentes. O mysticismo da edade-media e a seita dos Iconoclastas estavam latentes no Christianismo nascente.

Alem d'isso, os christãos perseguidos, considerados inimigos da sociedade pagã, não podiam construir templos, nem ter formas publicas de culto, imagens de Deus e dos martyres, sempre o melhor manancial da Arte, que nos seculos futuros produzirão phases artisticas de grande valor. Nem eram ricos, ao menos, para cultivar as artes, suppondo que o ardor da propaganda e o espirito da religião lhes consentissem o culto pagão da forma.

A religião precisa de reunir os seus adeptos, para mutuamente avigorarem a fé e incitarem a esperança. Sem a communidade dos fieis, a religião toma o aspecto de simples philosophia, mais ou menos completa, fria, sem vigor de propaganda, porque as multidões, ligadas pela mesma idéa, teem em si o condão singular de excitar o enthusiasmo, essa embriaguez d'alma que a leva até ao sacrificio.

Os christãos reuniram-se, sem duvida, desde os primeiros tempos; mas essas reuniões eram clandestinas, como as dos conspiradores dos tempos modernos. Os logares mais occultos e afastados deviam ser os preferidos. Era logico. Quando o gremio religioso cresceu, e cresceu rapidamente, não devia ser facil problema encontrar logares amplos e seguros para a communicação dos fieis e as necessidades do culto, embora nascente e simples.

A estas necessidades correspondiam as

catacumbas

, vastos subterraneos que existiam em volta do centro populoso da Roma dos Cesares. A religião christã em Roma desenvolveu-se debaixo da terra, como para symbolisar a acção da Idéa Nova, que ia minando e corroendo as bases das antigas sociedades pagãs.

O auctor d'este livro visitou em Roma uma das mais famosas

catacumbas

, a de S. Calixto. Percorrendo os subterraneos, lobregos e humidos labyrintos de encruzilhadas, guiado pela luz mortiça de uma lampada, sentiu na alma a poesia do passado, revelaram-se-lhe a fé e a esperança, doces e profundas, que os seus

irmãos

em Christo, de ha dois mil annos quasi, sentiam, quando receiosos mas resolutos vinham por entradas e caminhos differentes reunir-se no sanctuario, para a admissão de neophytos e para as praticas religiosas.

N'aquella atmosphera pesada e humida pareceu-lhe ouvir ainda os primitivos canticos, a historia poetica dos martyres mortos que a linguagem eloquente do espirito religioso dava aos vivos, como exemplo. Enthusiasmou-se com a fé simples e primitiva, nutriu a esperança firme e serena na desejada victoria; emfim, durante algumas horas, sentiu-se possesso, deliciosamente possesso, da energia de vontade, da pureza de sentimentos e da firmeza de crenças de um iniciado d'esses primeiros seculos do Christianismo.

Galerias sinuosas e extensas de secção regular, um metro por dois metros, cruzam-se com angulos muito abertos, formando um complicado tecido de subterraneos, excavados em tufo escuro, porôso e infiltrado de agua. Nas duas paredes lateraes d'estas galerias, longas filas horisontaes de sarchophagos, sobrepostos por vezes em tres ordens, foram excavadas na rocha branda. Eram as sepulturas dos primeiros christãos.

Nos tempos primitivos, provavelmente, esses sarcophagos foram fechados por lapides; mas hoje, abertos e negros á luz vacillante da lampada, essas filas extensas de buracos teem um aspecto monstruoso, infundem um sentimento de pavor e de espanto, terriveis quando no fundo de alguns se vêem ainda branquejar os ossos e as caveiras de seres, que soffreram e morreram ha quasi dois mil annos.

De grandes em grandes espaços, estas galerias alargam-se, ou convergem umas poucas, formando subterraneos amplos de maior altura de abobada natural. São os sanctuarios, ou as cryptas. Nas catacumbas de S. Calixto, existe n'estas condições uma grande sala de forma rectangular, que, sem duvida, constituia o templo, para onde se descia de fóra por longa escadadaria, construida depois de Constantino, isto é, da liberdade do Christianismo. Do lado esquerdo do templo, passa se para a grande crypta de Santa Cecilia. Parece attestar que ahi foi depositado o corpo da nobre e rica dama de Roma, uma esculptura na parede representando uma mulher luxuosamente adornada. Esta crypta communica com a dos Papas, assim chamada por conter um grande numero de Pontifices do terceiro seculo da era christã. Sarcophagos de pedra de esculptura archaica conservam ainda os restos dos martyres, uns esquecidos, outros beatificados ou santificados pela Egreja.

Dedalos de corredores, constituindo enormes necropoles, sobrepõem-se ás vezes em dois e tres andares e, se é verdadeira a affirmação, estendem-se nas catacumbas de S. Calixto por mais de quinze kilometros.

O reconhecimento da liberdade religiosa do Christianismo tirou ás catacumbas a importancia primitiva. Transformadas em logares de veneranda tradição, conservadas, talvez, para cemiterio de alguns christãos mais afamados, as catacumbas soffreram modificações na anterior disposição. Assim, nos sitios mais importantes foram rasgados

luminarios

, que deixam passar luz de fóra, tenue e duvidosa, e

arcocelios

que enfeitavam e cobriam sarcophagos de pedra. Estas obras parecem de caracter posterior á emancipação do Christianismo e a logica leva a crel-o.

Eis, em rapidos traços, os caracteres geraes d'estes sombrios subterraneos, onde nasceu a luz brilhante do Christianismo e os grupos cada vez mais numerosos

de homens de boa vontade

construiam os alicerces das modernas sociedades.

É evidente que até ao seculo IV os christãos, sob a acção da vigilancia pagã, não podiam construir templos. A architectura christã, pelo menos, nasceu depois d'este seculo. O mesmo se póde dizer sobre a esculptura dos arcocelios e dos sarcophagos, grandes peças difficeis de trabalhar dentro das catacumbas e impossiveis de transportar de fóra, por longos corredores estreitos, sob as vistas dos agentes das perseguições, que o eram todos os adeptos e defensores do antigo polytheismo.

A arte d'este tempo é ingenua. Consiste, como é de crer, em esculpturas grosseiras. A maior parte das pinturas, se muitas existiram, deve tel-as desfeito o tempo. Além d'isso, não nos parece facil distinguir hoje o que foi feito no tempo das perseguições, ou depois da liberdade do Christianismo, em que as catacumbas deviam ser consideradas logares santos e concorridos pela veneração dos fieis.

Estas razões, que nos parecem fundadas, circumscreveram ainda mais a acção dos artistas christãos dos seculos primitivos. A arte n'esse tempo limitou-se a pinturas e esculpturas simples, baixos relevos ligeiros, verdadeiros traços profundos desenhando figuras informes, ou ingenuos symbolos, uns adequados do paganismo ao espirito da nova religião, outros creados, como linguagem mysteriosa, que só os iniciados podiam ler e comprehender. Assim, o peixe, symbolo de Jesus Christo, é um emblema muito espalhado nas catacumbas. Era necessario, com effeito, ser iniciado para comprehender que Ichtus, em grego o peixe, representava aos olhos dos fieis as primeiras lettras das palavras mysticas:

Jesus Christo, Filho de Deus, Salvador

.

Inutil seria e prolixo, n'este ponto, descrever os symbolismos religiosos, que envolvem um ligeiro caracter de arte: a pomba e ás vezes Psyche alada, que representavam a alma; a ancora a esperança; o ramo de oliveira a paz; e tantos outros symbolos e allegorias, que ainda hoje se encontram nos costumes da Egreja e na tradição dos povos christãos.

Na realidade, tudo isto não constituia verdadeira arte; muito embora nas primeiras egrejas do Estylo Latino possamos encontrar elementos trazidos das catacumbas. As cryptas dos templos lembram as das catacumbas. Os tumulos de pedra dos martyres e santos, que nas catacumbas serviam de altares, apparecem mais tarde no Estylo Latino. São usos respeitados; a tradição santifica-os, conserva-os e transforma-os. Eis ainda um exemplo da evolução da Arte.

Taes eram as condições sociaes e moraes do Christianismo, antes do IV seculo. No anno 306, Constantino, filho de Constancio Chloro tetrarcha das Gallias e da Bretanha, foi proclamado imperador pelas legiões gaulezas.

O grande periodo da Edade-Media vae começar em breve. O poderoso Imperador Constantino, o genial espirito do primeiro christão coroado, parece presidir a este periodo historico, em que se accentua a evolução e o poder do Christianismo, creando novas sociedades e novos estylos de Arte.

Constantino era um grande homem e um profundo politico. Sem falarmos na unidade e na organisação do Imperio, que elle creou com admiravel energia e sagacidade nem sempre clementes e doces, dois actos seus demonstram-lhe o valor: a protecção concedida ao Christianismo e a escolha da situação de Byzancio, para capital do Imperio. Estes dois factos, além de influencia enorme sobre a conservação do Imperio, tiveram acção profunda e decisiva na evolução social da religião e das artes christãs.

É evidente que esta evolução tinha de existir, porque, já antes do reinado de Constantino, o Christianismo, moralmente vencedor, não podia ser suffocado; mas o movimento seria diverso, talvez mais lento e de caracteres secundarios differentes. Os grandes homens não conseguem crear as opportunidades, nem modificar as causas profundas que transformam o modo de ser animico e social da humanidade; comtudo, o genio aproveita-as, imprime-lhes caracter especial, dirige-as em determinado caminho, de entre os variados de que dispõe a natureza e o espirito para se approximar indefinidamente do fim supremo, os ideaes do bem, do bello e da justiça.

Constantino vira nas Gallias o caminhar rapido do Christianismo. Tinha assistido, provavelmente, aos actos de perseguição alli praticados por ordem de Deocleciano. Sentira a fé dos crentes, apreciára a energia de alma dos martyres, a valentia das mulheres que se deixavam suppliciar, sem protestos, sem choros, olhando o Ceu com esperança e cobrindo apenas os corpos, animadas d'esse pudôr do espirito que desconhecia quasi o paganismo. Para elles, martyres, a morte não era horrivel; por um lado, davam o exemplo, por outro, obtinham a liberdade da alma, que em breve ia ser feliz, vivendo para sempre no seio do doce Christo. Constantino era um genio e os genios vêem sempre no futuro.

Depois, annos de morticinio não extinguiam os christãos. Parecia que a flora do Christianismo rebentava sempre mais forte e variada. A suggestão do martyrio, fundando-se na esperança, trazia novos adeptos, que appareciam por toda a parte, como nos campos cobertos de relva pullulam as boninas brancas na primavera.

Constantino era politico e os politicos usam das forças vivas para os seus altos designios. A idéa e a força sempre crescente do Christianismo, que haviam levado, talvez, Diocleciano a abdicar a coroa imperial não podendo transigir com elle, eram elementos necessarios, unicos, para o sonho de Constantino, a unificação e a reorganisação do antigo Imperio Romano.

Alem d'isso, Constantino era um philosopho. A idéa polytheista estava condemnada. Os verdadeiros sabios nunca haviam acreditado n'esses mythos monstruosos uns, ingenuos outros; n'essa religião, emfim, sob cuja influencia cabiam aos pedaços a politica das sociedades pagãs e a moral dos cidadãos. A doutrina christã, simples e virtuosa, o seu principio deista, a unidade do Espirito Supremo ideal dos philosophos, deviam ter um encanto poetico aos olhos do imperador, constituir uma aspiração da sua alma.

Não é, pois, necessaria a revelação divina para explicar a conversão de Constantino. Em nome das perseguições feitas aos christãos, o novo imperador marcha contra seu cunhado Mazencio, o tetrarcha da Italia, derrota-o nos campos do Pó, aperta-o na retirada e, ajudado pelos christãos, levando na frente o

labarum

, com a cruz de Christo e o prophetico lemma

in hoc signo vinces

, vence-o e fal-o morrer junto dos muros de Roma. No anno seguinte, em 313, o imperador publica em Milão o Edito de Tolerancia, a aurora da liberdade para a Egreja triumphante.

Dois annos depois, ataca o tetrarcha do Oriente, Licinio, sempre a titulo das perseguições exercidas contra os christãos; derrota-o em Siballis, aprisiona-o, promette-lhe a vida e manda-o matar passado tempo!

A unidade politica do Imperio estava feita; faltava, apenas, a organisação administrativa. Os christãos haviam sido auxiliares do imperador; tornaram-se, pois, seus protegidos. Constantino não combatia ainda abertamente o paganismo; enfraquecia-o a pouco e pouco, enchendo os christãos de favores, mostrando por elles viva predilecção. Ora, os favores e a predilecção dos poderosos são uma ordem e um incentivo para os pequenos.

O trabalho de propaganda de Constantino foi lento e efficaz. Não bastava que o Christianismo vivesse de tolerancia. Antes de ser religião do Estado, precisava tornar-se pessoa moral, possuir propriedade, o que entre os romanos era a melhor manifestação de força e de soberania. Em 321, outro Edito imperial auctorisa a Egreja a receber donativos e a possuir bens temporaes. O imperador concede, depois, privilegios aos templos da nova religião, entre elles o direito de asylo dos templos classicos; eguala os dois sacerdocios em direitos e regalias; começa até a perseguir os pagãos. Eram costumes do tempo.

Para dar unidade á nova Egreja e expungir a heresia de Ario, que no terceiro seculo do Christianismo ameaçava já a tradição orthodoxa, Constantino convocou em 325 o primeiro Concilio Ecumenico, a reunião dos bispos de todas as dioceses do Imperio, em Nicea. Este concilio teve subida importancia sobre a unidade e a disciplina do Christianismo, como mais tarde a manifestou, tambem, o Concilio de Trento, iniciando a theocracia dos pontifices romanos. Deu o exemplo da definição do dogma nas reuniões da Egreja Universal; fixou a doutrina da consubstanciação do Pae e do Filho; divinisou Jesus Christo, enunciando o

Symbolo dos Apostolos

, ainda hoje o

Credo

resado pelos christãos; finalmente, fulminou o anathema e a excommunhão sobre Ario e a sua doutrina, que negavam esta consubstanciação.

O arianismo, porém, não se deu por vencido e, durante seculos, manifestou profunda influencia sobre o Christianismo, principalmente na catechese dos povos barbaros.

Assim, pode dizer-se que o arianismo, preparando o espirito dos povos germanicos, é o verdadeiro germen do movimento da reforma religiosa, que nos seculos futuros dividiu o Christianismo em dois poderosos ramos, o catholico e o protestante.

Constantino fizera-se christão de facto, faltava-lhe apenas o baptismo; comtudo, como esse sacramento lhe sacrificaria as funcções e a influencia de

pontifice-maximo

do paganismo perseguido, quasi extincto mas tendo ainda proselytos, o imperador, encarnando-se no politico, deixa a prova indubitavel e solemne da conversão, para os ultimos dias da vida. O politico ainda transparece na escolha de Byzancio, reedificada e engrandecida, para capital do Imperio. Com effeito, em torno das suas vastas fronteiras, já no tempo de Constantino, uma cinta de ferro de povos barbaros cingia-se cada vez mais. Eram as ondas das invasões, que se começavam a formar e entrarão com movimento irresistivel no seculo seguinte.

O genio de Constantino presentiu a proxima e inevitavel lucta, o terrivel choque dos povos do norte nas fronteiras do Imperio. A cidade de Byzancio, defendida pelo Caucaso, pelo Mar Negro e pelo profundo fosso do Bosphoro, offerecia-lhe uma posição relativamente mais segura do que Roma para capital, o cerebro e a alma dos seus vastos estados. O imperador transferiu a séde do governo para Constantinopla, no anno 330 da nossa era.

Assim, o Christianismo foi reconhecido religião do Estado, official e professada pelo imperador, segundo o antigo aphorismo:

cujus regio, ejus religio

.

Um novo periodo historico vae, pois, começar para a Humanidade. A politica e a moral, expressões geraes da actividade humana, manifestarão caracteres differentes do passado. O espirito do Christianismo presidirá a esta phase longa e brilhante da evolução historica, que ha de inflorar-se com a civilisação e o progresso modernos.

Entre o mundo classico e o christão parece existir hoje um abysmo; todavia, na evolução do espirito não occorreu a menor solução de continuidade. As sociedades modernas ligam-se ás antigas, como a arvore se prende ao solo pelas raizes, como a planta se enxerta n'outra, de que recebe a seiva e o alimento.

A arte classica e a christã parecem, tambem, distinctas, quando na realidade nasceram ambas do movimento evolutivo e ascencional do espirito humano. As differenças provéem da intima natureza das religiões, que imprimiu caracteres especiaes á expressão do bello, a Arte, nas duas sociedades.

Todas as religiões se dirigem, mais ou menos directamente conforme a perfeição da doutrina e do culto, para o ideal do bem, do bello e do justo; mas procuram-n'o por differentes caminhos. O polytheismo grego e romano, pelas condições especiaes da sua formação, via esse ideal atravez da belleza da forma. O Christianismo, pelo contrario, contempla-o atravez da belleza do espirito. Os fins são identicos; apenas os meios de os attingir se manifestam differentes.

A religião classica exaltava a alma, penetrando-a de doce sensualismo. O amor e o goso eram bens da vida, de que os proprios Deuses davam bons exemplos. Diogenes no seu tonel professava esta doutrina. Desprezando as vaidades do mundo, aquecia-se aos raios do sol e contemplava o bello visivel da natureza.

A religião christã exalta a alma, penetrando-a de elevado espiritualismo. A vida é a estrada rude e aspera, que a alma vae subindo dolorosamente até entrar, emfim, pela porta da morte na felicidade eterna. S. Jeronymo, na sua cella humida e fria, rasgava as carnes com cilicios e açoutes para calar os sentidos. Desprezando, tambem, os bens mundanos, absorvia-se na contemplação da belleza ideal do Eterno Espirito.

A applicação d'esta doutrina é facil e concludente. Na architectura, comparemos duas producções singulares em merito e belleza: o Parthenon e a Cathedral de Strasburgo.

O Parthenon foi o templo mais perfeito da arte classica; a Cathedral de Strasburgo gosa da fama de ser exemplar completo do mais rico estylo da arte christã. No primeiro, todas as proporções e elementos foram estudados e combinados para attingir a harmonia e a belleza da forma; mas a expressão é fria. O monumento não diz nada ao nosso espirito. Na segunda, pelo contrario, a belleza da expressão completa a da forma. A Cathedral de Strasburgo é um poema de pedra, um cantico da religião christã.

Na esculptura observa-se o mesmo. O auctor d'este livro percorreu os museus de Italia, viu nas vastas galerias do Vaticano accumuladas centenas, milhares de estatuas classicas. Nunca, nunca, até hoje, a esculptura moderna attingiu tal belleza de formas!

Mas, n'essa multidão immensa de primores, não encontrou a expressão. As physionomias são de uma serenidade olympica, as attitudes magestosas, em geral, não teem movimento. A expressão não existe, até quando as condições do acto mais a exigem. A morte não tem contracções no rosto. A lucta não manifesta a furia do odio. O amor é frio e solemne. Todas as bellas estatuas teem a impassibilidade de Jupiter ou de Minerva, conforme os sexos.

As excepções são rarissimas; contam-se sem difficuldade. O grupo de Laocoon e dos filhos, envolvidos pelas serpentes, as lagrimas de Niobe, chorando os filhos, são exemplares curiosos da expressão dos antigos estatuarios. Saindo dos museus classicos, encontramos em Italia por toda a parte a vida, a expressão, o movimento dos esculptores da Renascença, de que Bernini nos dá singular exemplo no extasis de Santa Thereza de Jesus, uma das mais extraordinarias estatuas produzidas pelos artistas modernos.

A arte classica e a christã traduzem, pois, a essencia intima das respectivas religiões. Na primeira, predomina a forma; na segunda sobresae o espirito. Estas observações parecem-nos fundamentaes na Historia da Arte.

CAPITULO TERCEIRO

AS INVASÕES DOS BARBAROS

O mestre de Socrates, Anaxagoras, que professou a philosophia em Athenas cinco seculos antes de Christo, ensinava aos seus discipulos este principio:

o Espirito começou pacientemente a revolução, que deve realisar-se; os seus progressos são rapidos, sel-o-ão cada vez mais

.

Este espirito, sem duvida, era a lei da perfectibilidade humana, bem evidente nos seus resultados, embora enygmatica nas proprias origens.

O periodo historico da Edade-Media resulta da acção reciproca das tres manifestações do espirito, representadas pelo paganismo, pelo christianismo e pelos barbaros. É a longa phase das suas luctas, das suas concessões mutuas, das suas combinações, verdadeira

endosmose

e

exosmose

de idéas, que termina pela constituição homogenea das sociedades modernas.

A Edade-Media começou no seculo V, definida pela primeira invasão dos barbaros, germanos, hunos e alanos, e dura até á tomada de Constantinopla, em 1453, pelos turcos de Mahomet II. Estes dez seculos, sombrios e tristes, infundem ainda hoje, apesar da distancia do tempo, um sentimento vago de pavor e de melancholia, taes são os flagellos, as guerras, as miserias, como eguaes não houve n'outra quadra historica, que n'este espaço immenso, principalmente até ao seculo X, assolaram a humanidade.

A acção reciproca do paganismo e do Christianismo já procurámos esboçal-a nos anteriores capitulos. Vamos referir-nos, agora, aos

barbaros

, elemento novo e activo, causa de poderosa transformação social e moral sem duvida, que vem entrar directa e profundamente na scena da historia. De entre os tres, como é de justiça, reconheçamos a hegemonia ao Christianismo.

Já no tempo de Constantino hordas numerosas de

barbaros

, mais ou menos organisadas em nações, se distribuiam pelas vastas fronteiras do Imperio, desde a cordilheira do Caucaso até á embocadura do Rheno. Os hunos e os germanos constituiam a primeira zona d'estes povos, apertados entre os limites do Imperio e outras zonas de barbaros, escalonadas para o norte da Europa. Os hunos de raça mongolica occupavam as vertentes septentrionaes do Caucaso e estendiam-se para o nordeste. Os godos guarneciam a costa norte do Mar Negro e mais além, para o occidente, a margem esquerda do Danubio; os vandalos, os allemanos, os francos e frisões, depois, até á embocadura do Rheno, fechavam o circuito, cheio de perigos previstos e tremendos.

De quando em quando, esta massa de innumeraveis guerreiros trasbordava em alguns pontos e passava as fronteiras romanas; comtudo, até ao seculo V o Imperio resistira. Derrotava-os, dominava-os e concedia-lhes até vastas provincias, confiando-lhes a guarda d'essas fronteiras, ameaçadas por outras hordas. A acção da diplomacia imperial completava a dos exercitos, semeando intrigas e dissensões entre as nações barbaras e os mais poderosos chefes, assoldadando generaes e guerreiros; empregando, emfim, todos os meios de intriga e de veniaga que dividem as forças do inimigo.

Assim, correram os factos até ao fim do seculo IV, quando um movimento geral dos hunos, promovido por causas particulares internas, arremessou estas grandes massas nomadas e os alanos, sobre os ostrogodos e os visigodos. Os primeiros submetteram-se ao jugo dos hunos. Os visigodos vencidos entraram no Imperio do Oriente, obtendo terras a pedido de Ulphilas, bispo godo ariano. Revoltados em breve, bateram o Imperador Valente e mataram-n'o em Andrinopla. A habilidade do Imperador Theodosio dominou-os e deteve-lhes a expansão conquistadora; mas esta primeira investida deve ser considerada o facto primordial da invasão dos barbaros.

Theodosio organisou o Imperio, que, durante os dezeseis annos do seu reinado, gosou tranquillidade relativa; todavia, o movimento dos hunos e dos alanos para o occidente communicou-se a todas as nações barbaras, repercutindo-se até ao Rheno.

Logo no principio do seculo V os visigodos de Alarico assolaram a Italia e pozeram cêrco a Roma. Quasi a seguir, os suevos de Radagués precipitaram-se como nova onda sobre a peninsula, sendo vencidos por Stilicon, da raça vandala, ao serviço do Imperador Honorio. Os visigodos, seis annos depois, apparecem novamente e assediam Roma. O grande chefe Alarico morre, quando preparava a conquista da Sicilia.

Entretanto, Attila, o famoso chefe dos hunos, marchava sobre a França. Romanos, francos e godos vencem-n'o em Arles. Attila retira sobre a Italia, devasta as regiões do Pó, desce sobre a cidade de Roma, que foi salva pelo Papa Leão o Grande. A morte de Attila dissolveu a invasão dos hunos, cuja crueldade e selvageria ficaram historicas.

Outra horda de barbaros vem devastar a Italia: os vandalos de Genserico tomam e saqueiam a cidade de Roma. A esta onda segue-se outra, os herulos de Odoacro. Novo saque de Roma, novas devastações precedem a coroação do chefe herulo, como Rei da Italia. A queda do Imperio do Oriente, pela desmembração das respectivas provincias, tornou-se emfim um facto consummado.

Quasi no fim do seculo V, os ostrogodos de Theodorico fecharam o primeiro periodo das invasões barbaras. Odoacro é vencido e morto. A restauração do Imperio do Occidente já não era possivel; mas Theodorico consegue reconstituir, nos antigos moldes imperiaes, um vasto dominio, comprehendendo a Italia, limitado ao oriente pelo Drina, para além o Imperio Byzantino, ao norte pelo Danubio, para além os lombardos e os gepides, e a oeste definido pelas nações dos francos, dos borguinhões e dos visigodos.

Tal é em succinto o quadro, a pintura do estado de guerras e de miserias, que atravessaram os paizes e os povos do antigo Imperio Romano, reduzido no fim do seculo V ao Imperio Byzantino, no extremo oriente da Europa. A estes movimentos dos barbaros nos referiremos apenas, porque os outros, na Bretanha, na Gallia e na Hespanha, tiveram n'esse periodo pequena importancia sobre a arte christã, que na realidade nasceu em Italia e no Imperio Byzantino.

Todos estes barbaros, que em ondas successivas se precipitaram sobre o Imperio do Occidente, exceptuando os hunos e os alanos, constituiam ramos da mesma raça aryana, de que os gregos e os romanos provinham tambem, descendentes mais ou menos puros e directos de emigrações remotissimas. Se as linguas d'estas nações barbaras eram, pois, entre si incomprehensiveis, embora da mesma familia, os caracteres individuaes e ethnicos apresentavam intimas analogias.

Mais ou menos nomadas, as nações barbaras possuiam energico espirito bellicoso. Rudes e destemidas, embora não selvagens ou crueis, essas vastas confederações nacionaes procuravam em luctas aventurosas satisfazer o espirito guerreiro, que mais tarde singularmente manifestaram duas instituições suas: o feudalismo e a cavallaria.

O polytheismo, entre ellas, tivera o mesmo caracter, antes de se converterem á heresia do arianismo. A religião manifestava entre os barbaros um espirito poetico e nebuloso, que lhe davam os

bardos

, como entre os celtas cantando hymnos, em que eram glorificados os deuses e os grandes actos dos heroes nacionaes. Foram estes bardos, que na Edade-Media deram origem aos famosos menestreis.

Homens robustos, de caracter franco e aberto, leaes como companheiros, fieis aos seus chefes, estes

barbaros

, como lhes chamavam os romanos, nutriam enraizados no espirito o amor da liberdade e o respeito da propria dignidade, professando, como se diria hoje, um energico individualismo. A este amor da liberdade individual se devem attribuir em grande parte alguns factos importantes da historia, como, por exemplo, a constituição das communas e principalmente o movimento da

reforma

religiosa, a bella e grande lucta da theocracia e da democracia christãs, em que esta ficou vencedora, a final, no seculo XVI.

Assim, o caracter disciplinado, a dedicação pelos chefes, em geral escolhidos pelo valor e por altos feitos, não excluiam uma organisação social democratica, que se manifestava em reuniões periodicas de guerreiros, onde se discutiam e resolviam as questões de interesse commum da tribu. Estas qualidades singulares dos barbaros, bem oppostas ás dos romanos da decadencia, caracterisam ainda hoje as nações do norte da Europa, suas legitimas descendentes.

O amor da liberdade fraccionava as nacionalidades barbaras, constituidas pela federação de pequenos estados ou tribus, onde era possivel a vida local. Communicava-lhes um certo espirito nomada, inimigo dos grandes centros; exigia-lhes uma vida separada e independente de pequenos senhores, avessos ao trabalho, ignorantes por indolencia não por desprezo das artes e das sciencias, só ardentes e activos na guerra, na caça e no exercicio da soberania. Sentem-se n'estes traços os futuros barões feudaes. Entregando o trabalho penoso aos escravos e ás mulheres, pelas quaes aliás professavam certo respeito, considerando-as investidas de dons propheticos, estes

barbaros

traziam em si o germen, que, ao calor do Christianismo, devia produzir a consideração, singular e antinomica com outros costumes, e o amor mystico e respeitoso pela mulher no tempo da cavallaria.

Estas virtudes, sem duvida, tinham reverso; os

barbaros

eram irasciveis, ebrios, jogadores e libertinos; ainda n'isto se manifestavam os futuros barões feudaes. Tal era o caracter dos povos, que assolaram o Imperio do Occidente no seculo V, não falando nos hunos e nos alanos, povos de outra raça que foram um episodio na historia da Europa. Ora, estas qualidades, no exercicio da intelligencia e nas diversas manifestações sociaes, tiveram grande influencia no organismo da Edade-Media, e logicamente sobre a arte; influencia mais accentuada nos periodos romanico e ogival.

Quando os barbaros tocavam a antiga civilisação romana, eram fascinados por ella. É um facto incontestavel na historia. A primeira demonstração deu-se na constituição do reino godo de Italia por Theodorico, um precursor de Carlos Magno e como elle um

barbaro

de genio. Educado na côrte imperial de Constantinopla, apreciára o immenso valor da organisação social e do direito romanos, offuscados e desprestigiados pela pequenez dos homens. A grandeza do espirito de Theodorico avalia-se bem por um só facto, extraordinario e caracteristico. Legislando a justiça no seu vasto imperio, decretou que as questões suscitadas entre dois godos, seriam resolvidas por um godo, entre um romano e um godo por um romano, entre romanos por outro romano; assim, conclue o

barbaro: cada um terá o seu direito garantido e, apesar da differença dos juizes, uma só justiça reinará para todo o mundo

. E, todavia, os godos eram os conquistadores e os romanos os vencidos!

Este espirito de justiça nascia do amor pela liberdade e do respeito pela dignidade humana, que é a sua consequencia logica. Era a manifestação esplendida do caracter fundamental da sua raça, que os

barbaros

traziam para a caduca civilisação romana, recebendo em troca tradições de gloria, sabias instituições e um direito escripto, que ainda hoje causa a admiração do mundo moderno. Na religião, Theodorico, um sectario das doutrinas de Ario, idéa perseguida nos seus adeptos e fulminada nos concilios, mostra se tolerante. A Italia era orthodoxa e continua a professar as suas doutrinas. Os christãos elevam templos por toda a parte, gosam de inteira liberdade de culto. O

barbaro

só vacilla um momento no fim da sua vida, como represalia ao Imperador do Oriente, que perseguia o arianismo com violencia e crueldade.

O seu governo pacifico e justo restabelece a ordem, desenvolve a riqueza, fomenta o commercio interno e externo. As antigas instituições romanas são respeitadas, consultadas até. Os cargos civis são para os romanos, os militares para os godos, que assim se conservam separados como casta guerreira. O direito romano serve de base ao novo direito gothico. Emfim, a combinação das tres manifestações do Espirito, segundo a expressão de Anaxagoras, começa a dar homogeneidade a uma nova civilisação.

O reinado de Theodorico é, pois, uma tentativa da fusão de principios, um relampago de luz serena e clara que irrompe do seio tenebroso dos primeiros tempos da Edade-Media. Dentro de dois seculos constituir-se-ha o Santo Imperio de Carlos Magno.

PARTE SEGUNDA OS ESTYLOS CHRISTÃOS PRIMITIVOS

V SECULO AO X SECULO

CAPITULO PRIMEIRO

ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO LATINO

O Christianismo saíra das catacumbas nos meiados do seculo IV. Quasi todo o seculo seguinte passara-se em invasões successivas. Hordas de barbaros precipitaram-se sobre a Italia, talando, destruindo e roubando o que umas ás outras deixavam. As perseguições religiosas haviam cessado; mas a heresia de Ario perturbava os espiritos, e as invasões accumulavam morticinios e flagellos. O trabalho não tinha socego, a agricultura abandonada decaíra, a propriedade estava ameaçada e a industria e o commercio esmoreciam, asphixiados por pesada atmosphera de fogo, de sangue e de incerteza. Não é n'estas condições da sociedade e do espirito humano que as artes se desenvolvem e florescem. O Estylo Latino, que principiára a formar-se nos meiados do seculo IV, constitui-se lentamente no seculo seguinte.

A derrota do paganismo inutilisára os templos e mutilára as estatuas dos antigos deuses. Ora, parece-nos haver comprehendido na historia das religiões, que a vencedora esmaga a doutrina vencida, persegue-lhe ferozmente os adeptos e, como os antigos exercitos definiam a victoria dormindo sobre o campo da batalha, as religiões triumphantes occupam e apropriam ao seu culto os antigos templos profanados e desertos.

Este principio deriva de rasões logicas e de qualidades ou defeitos da propria alma humana. O vencedor expolia o vencido; vê-se isto ainda nos tempos modernos. O espirito da nova religião sente a necessidade orgulhosa de fazer adorar o seu Deus nos mesmos recintos e altares, onde os

idolatras

adoravam os deuses vencidos. Além d'isso, os templos inuteis offerecem, em regra, condições de construcção adequadas ás praticas religiosas; ora, em todas as religiões mais perfeitas existem usos e praticas similhantes. O vencedor não tem tempo para construir logo a principio, encontra sanctuarios em sitios escolhidos e convenientes, aproveita-os. É uma rasão. Assim, nós vemos os arabes de Hespanha aproveitarem as egrejas godas, transformando-as em mesquitas, onde o Alcorão occupa o logar da Biblia; mesquitas que, depois, se tornam templos christãos. Assim, os turcos de Mahomet II, tomando Constantinopla, fizeram de Santa Sophia e dos templos byzantinos do Oriente conquistado as suas primeiras mesquitas.

O Christianismo não procedeu por esta fórma, salvo raras excepções. Em primeiro logar, porque o espirito e os ritos da nova religião eram assás differentes dos do paganismo. A expressão da arte classica não dizia bem com a essencia do culto christão. Além d'isso, os templos classicos eram pouco espaçosos. O

naos

, a cella ou sanctuario dos deuses, era pequeno; o que dava amplidão ao tempo classico, o

pro-naos

, o portico que mais ou menos envolvia o

naos

, correspondia ao culto e aos ritos pagãos; não se amoldava, porém, aos do Christianismo, cujas multidões, sempre crescentes, precisavam reunir-se amiudadas vezes para os exercicios divinos.

As circumstancias desgraçadas da sociedade romana, esboçadas anteriormente, proporcionaram aos christãos os grandes edificios das

basilicas

, logares de reuniões publicas, tribunaes, mercados e bolsas de commercio e bancarias, se em referencia a esses tempos se podem empregar as ultimas expressões tão modernas.

O amortecimento da actividade social e a extincção da vida politica dos cidadãos, que os chamavam aos

foros

junto dos quaes existiam as

basilicas

, o abatimento do commercio e das industrias, emfim, as condições adversas dos seculos IV e V tornaram quasi inuteis estes enormes edificios, outr'ora correspondendo a necessidades publicas e regorgitando de cidadãos, na plena actividade de trabalho em variadas operações commerciaes. Os christãos preponderantes em Roma, logo no principio do imperio de Constantino, começaram a apropriar-se d'estes edificios do Estado, adequando-os ao culto e aos ritos da nova religião.

As basilicas romanas produziram, pois, a fórma e o estylo das primeiras egrejas christãs. Sobre as respectivas disposições existiam duvidas, que a critica e a inducção procuraram resolver; assim, a reconstituição d'estes edificios parece ser hoje questão resolvida. A importancia que tiveram sobre a arte christã, a grandeza e a magnificencia dos que existem hoje, principalmente em Roma, obrigam-nos a mais desenvolvida descripção.

Vitruvio deu-nos as regras principaes da construcção d'estes monumentos e esclareceu-nos sobre os seus empregos. O architecto aconselha que as basilicas sejam levantadas em sitios quentes e amenos, para facilitar a reunião dos commerciantes. Os seus fins estão, pois, definidos, pelo menos no ultimo seculo antes de Christo em que viveu o celebre architecto romano. As regras são incompletas, sem deixarem de ser tambem interessantes, porque traduzem o espirito methodico e as proporções prefixadas e tradicionaes da arte classica.

A largura das basilicas, diz Vitruvio, deve ser pelo menos, o terço do seu comprimento. Adequadas ao terreno, que, se for longo, obrigará a construir

chalcidicos

nos extremos da basilica. As columnas do pavimento terreo terão altura egual á largura dos porticos, como o architecto chama ás naves lateraes, que a seu turno devem offerecer approximadamente um terço da largura do corpo ou nave central. As columnas superiores, as das galerias sobrepostas aos porticos, serão um quarto mais baixas do que as do pavimento terreo. O parapeito, lançado entre as columnas d'estas galerias, offerecerá altura sufficiente para que as pessoas de cima não sejam vistas pelas de baixo. Por muito incompletos que pareçam, estes pormenores seriam sufficientes para dar approximada idéa dos fins e das disposições d'estes edificios classicos.

Schema de uma basilica romana

Schema de uma basica romana
Schema de uma basica romana

O nome de basilicas parece indicar-lhes origem na Grecia, onde provavelmente existiram construcções com fins equivalentes; comtudo, pode tambem definir-lhes a grandeza e a magnificencia, visto que a palavra grega expressa o poder real.

A basilica apparece nos ultimos tempos da republica. Construida nas proximidades dos

foros

, grandes praças onde existia a tribuna dos oradores e se discutiam e resolviam os negocios publicos, a basilica parece ter sido um annexo indispensavel d'estes

foros

, recinto abrigado e coberto para occasiões de intemperie. A mais antiga em Roma, a Basilica Porcia, suppõe-se ter sido construida cêrca de duzentos annos antes de Christo. Depois, como mais importantes, contavam-se a Basilica Emilia, construida por Fulvio, a Basilica Simpronia, elevada por Tito Sempronio,

censor

no ultimo seculo antes de Christo. Estas construcções faziam parte das dadivas, com que os politicos e os ambiciosos do tempo procuravam conquistar as boas graças do povo.

Os imperadores, depois, elevaram muitas. Cesar, Trajano, e por ultimo Constantino construiram-nas em Roma. Cidades de importancia secundaria possuiam basilicas. Assim, pudémos ver ainda os restos da que existiu em Pompeia, junto do pequeno

forum

. Ora, esta cidade era, como outras, semeadas nas margens do golpho de Napoles, uma verdadeira estação de verão, provavelmente do caracter que hoje têem Nice e as povoações da Côte-d'Azur, sobre o Mediterraneo.

A basilica de Pompeia constitue um excellente exemplar, porque demonstra que nas primitivas não existia ábside. No fim da nave principal, uma tribuna quadrada, avançando sobre o transepto e de altura superior á de um homem de regular estatura, constituia, decerto, o espaço reservado para o tribunal. Nas ultimas basilicas posteriormente construidas, por exemplo a de Constantino, já apparece a ábside saliente, abobadada em meia cupula, para installação dos juizes.

A descripção d'esta ultima basilica dar-nos-á idéa clara da disposição interior e grandeza d'esta natureza de construcções. Media cêrca de 90 metros de comprido, por 75 metros de largo. Em geral, as basilicas offereciam consideravel superficie. Segundo o maior comprimento, eram divididas em tres naves, cortadas perpendicularmente por tres transeptos. Na extremidade dos eixos da nave e do transepto centraes existia uma ábside; no outro extremo, em face das ábsides, abriam-se as entradas, das quaes a principal dava sobre a Via-Sacra.

Reunindo estes elementos, podemos figurar com grande exactidão as disposições internas das basilicas. Em geral, Reunindo estes elementos, podemos figurar com grande exactidão as disposições internas das basilicas. Em geral, eram vastos edificios, constituidos por uma nave central terminada em ábside e ladeada de porticos sobrepostos em dois pavimentos, que attingiam a altura do corpo central. Este conjunto, exceptuando a ábside abobadada em meia cupula, tinha cobertura de madeira com as traves a descoberto.

Nos tempos primitivos, pelo menos, o edificio cercado de porticos era accessivel por todos os pontos. Depois, as columnas periphericas foram substituidas por paredes, onde havia portas symetricas nos extremos das naves em face das ábsides.

No pavimento terreo reunia-se o tribunal, occupando a ábside e o transepto annexo; os negocios commerciaes e bancarios d'aquelle tempo tratavam-se na grande nave central; nos porticos inferiores lateraes estavam os logares dos vendedores, á similhança dos

bazares

orientaes. Os porticos superiores constituiam logar de reunião para ociosos e para os que procuravam as diversões da sociedade e da conversação.

Para bem fixar os caracteres das basilicas, apresentamos um claro schema, onde todos os respectivos elementos estão expressamente desenhados. N'este schema faremos notar as disposições relativas do tribunal, constituido pela ábside, onde estacionava o juiz e o pessoal annexo, pelas cadeiras ou tribunas dos advogados, ladeando esta ábside, e finalmente pelo recinto fechado, que sem duvida devia existir para separar os negocios do tribunal dos restantes, que se tratavam tambem nas basilicas. Estes elementos são a origem de disposições especiaes nas egrejas do Estylo Latino, como adeante diremos.

Emfim, diz-se que as basilicas eram de architectura simples e de modesta ornamentação. É um erro; taes edificios, dados os seus fins e a mira dos doadores e constructores, principalmente quando foram os Cesares, não podiam deixar de manifestar grandeza architectonica, embora a severa e solemne grandeza classica. A ornamentação era rica e profusa em estatuas e objectos de arte, como o foi sempre a grega e a romana. Este ultimo facto, pelo menos, é attestado pelas descripções dos historiadores. É claro que n'este ponto nos referimos ás antigas basilicas romanas e não ás que, seguindo o estylo, edificaram depois os christãos.

As basilicas romanas deram, pois, origem ás primeiras egrejas do Christianismo no occidente. Parece-nos, todavia, conveniente, n'esta formação do estylo latino, distinguir dois periodos, sem lhes poder fixar datas, como aliás é sempre difficilimo nas transições artisticas: o primitivo, desde Constantino até Theodorico, em que o estylo devia ser, em regra, relativamente simples e pobre, e o segundo, sob a influencia da riquissima arte byzantina, que ia successivamente attingindo a perfeição manifestada no seculo VI, pela construcção de Santa Sophia de Constantinopla. As relações entre o occidente e oriente eram muito frequentes e activas n'aquella epoca, para que se não desse esta influencia de uma arte grandiosa e de ornamentação riquissima, sobre o Estylo Latino nascente.

Nos primeiros tempos houve, sem duvida, vacillações. A consolidação da egreja deve ter influido muito na constituição do estylo. As basilicas christãs dos melhores tempos tinham fórmas definidas; obedeciam, por assim dizer, ás regras de alguns typos apurados e preferidos; por isso, é até certo ponto possivel descrever-lhes os caracteres geraes.

A disposição interior das egrejas do Estylo Latino apresentava figuras differentes; a circular e a rectangular foram as mais empregadas, principalmente a ultima. Exemplos ha, tambem, do emprego combinado do circulo e do rectangulo, como se vê na egreja basilica de S. Martinho de Tours. A architectura era simples e sobria, seguindo o espirito e a fórma do estylo classico romano. A diversidade manifesta-se mais accentuada nas disposições internas, accommodadas ás necessidades do novo culto, e na ornamentação mais ou menos rica, onde exerceu decidida influencia o Estylo Byzantino, em plena florescencia no seculo VI.

Figuremos, agora, uma visita a estas basilicas do Estylo Latino, fazendo um ligeiro schema dos seus caracteres principaes; observaremos, comtudo, que esta descripção

theorica

soffre as modificações impostas pelas circumstancias, pelas disposições dos edificios apropriados e, emfim, pela imaginação e concepção artisticas, que, embora dentro das regras dos estylos, teem sempre maior ou menor liberdade de acção.

Um espaçoso

atrio

, fechado por muros, ás vezes revestidos de porticos internos, dava ingresso á egreja. No fundo d'este

atrio

quadrado, que foi origem dos adros das nossas egrejas, em frente da respectiva entrada, elevava-se o edificio do templo. A fachada era formada por tres portas e tres janellas, correspondendo aos eixos das tres naves internas. A porta central servia para os grandes ceremoniaes. Sobrepujando as portas e as janelas, um frontão pouco alto encobria o madeiramento dos telhados. N'esta disposição vê-se a ordenança classica.

Em frente da egreja e encostado á fachada, um portico de columnas formava alpendre sobre as portas, logar protegido onde se abrigavam os fieis. Algumas vezes, não havia saliencia para fóra da superficie vertical da fachada, que então repousava sobre o intercolumnio externo do portico. As portas da egreja ficavam, n'este caso, precedidas de uma especie de vestibulo. Nos lados d'este portico duas fontes serviam para as abluções.

N'estas fontes teem origem os baptisterios, edificios sumptuosos que mais tarde foram elevados junto das egrejas, nos atrios ou fóra d'elles, onde se praticava em grandes bacias de marmore o baptismo por immersão, usado n'aquelles tempos. Depois, a transformação dos ritos, dando caracter symbolico ao baptismo, introduziu os baptisterios no corpo das egrejas proximo da entrada.

As fachadas lateraes da egreja, em regra, não tinham janelas. A parede lisa era coroada por uma cornija, repousando sobre modilhões. As janelas da fachada eram fechadas por grandes laminas de marmore, rendilhadas de pequenas aberturas circulares ou em lozangos, dando a impressão das rotulas orientaes.

No interior, a egreja offerecia as caracteristicas disposições da basilica romana: tres naves, a do centro mais larga e alta, as lateraes com dois pavimentos sobrepostos, abrindo na principal, compunham a superficie coberta do edificio. Segundo o preceito primitivo da divisão dos sexos nas ceremonias religiosas, os homens occupavam a nave lateral da esquerda, as mulheres casadas a da direita e as virgens e as viuvas os pavimentos superiores d'estas naves.

ROMA. BASILICA DE S. PAULO—Fachada principal

ROMA. BASILICA DE S. PAULO—Fachada principal
ROMA. BASILICA DE S. PAULO—Fachada principal

Nos extremos das naves, em frente das portas, rasgavam-se tres ábsides; a da nave central, a mais importante, constituía o

presbyterio

ou a

tribuna

. Nas lateraes guardavam-se os livros santos e os objectos do culto. Estas ultimas foram a origem dos

thesouros

e das

sacristias

das nossas egrejas.

Na ábside central, a

tribuna

, em degraus de marmore dispostos em amphitheatro, sentavam-se os presbyteros; ao fundo, n'uma cadeira tambem de marmore o bispo, ou o officiante, presidia ás cerimonias religiosas. Nas basilicas romanas, como vimos, era este o logar dos juizes.

Em face da tribuna, isolado, levantava-se o altar, coberto pelo

ciborio

, o

baldachino

das basilicas modernas de Roma, vasto e alto docel sustentado por columnas, formando uma especie de pallio de marmore. O altar, em geral, era o sarcophago de um santo, o da invocação da egreja. Sobre a mesa do altar viam-se baixos relevos, o

alpha

e o

ómega

, o

labaro

, a

palma

do martyrio e outros symbolismos religiosos.

No solo, por baixo do altar, existia um pequeno subterraneo, o

martyrio

ou a

confissão

, contendo reliquias de santos; quando este subterraneo era vasto tomava o nome de

crypta

. Todos estes elementos nasceram das tradições do Christianismo das catacumbas.

Este conjunto do altar, o

santuario

, ficava entre a tribuna e o côro, constituido por um vasto espaço quadrado, limitado por muros baixos, no extremo da nave central. Nos tres lados do côro, excepto o mais proximo do altar, bancadas de marmore em amphitheatro davam logar aos chantres e cantores. Dois

ambons

symetricos, nos extremos do côro, ladeavam quasi o altar. Correspondiam proximamente ás tribunas dos advogados romanos e são a origem dos pulpitos. Estas disposições caracteristicas pódem observar-se ainda hoje nas antigas cathedraes hespanholas, cujos coros cortam as naves principaes.

A conveniencia de extremar o publico da tribuna e do altar, fez mais tarde construir um muro, ou balaustrada perpendicular aos eixos das naves, entre o côro e o altar. Assim, ficou definido o transepto e desenhada a cruz latina das egrejas dos futuros estylos occidentaes.

Os tectos eram de madeira, em geral de vigas descobertas, ás vezes de grandes caixões. A abobada não foi, nem podia ser empregada em edificios d'esta construcção.

A riqueza e o luxo das egrejas do Estylo Latino manifestavam-se principalmente no interior. Os tectos eram de essencias raras, esculpidos e recamados de metaes, entre os quaes figurava o ouro. As columnas das naves, ligadas por architraves, ou por arcos de volta inteira, as paredes das naves, divididas em compartimentos por pilastras, eram construidas e revestidas de finos marmores e de porphyros. O altar e o côro principalmente offereciam ornamentação riquissima, revestidos de esculpturas onde e quando era possivel; assim como a tribuna, cuja semi-cupula representava grandes quadros biblicos em mosaico de fundo de ouro, que ás vezes se estendia a outros pontos da egreja. É evidente que esta pujante ornamentação se desenvolveu nos melhores tempos do estylo, sob a influencia do Estylo Byzantino. Sabe-se, com effeito, que os romanos empregavam com raridade o mosaico nas paredes.

ROMA, BASILICA DE S. PAULO—Fachada lateral (norte)

ROMA, BASILICA DE S. PAULO—Fachada lateral (norte)
ROMA, BASILICA DE S. PAULO—Fachada lateral (norte)

O pavimento das egrejas nos tempos primitivos fôra de grandes lages; depois, vieram os mosaicos de desenho fino e variado, formados de pequenos cubos de marmore branco, de esmalte e de porphyro verde e amarello, chamado

opus alexandrinus

, nome que lhe caracterisa a origem oriental.

Se accrescentarmos, por simples curiosidade, por exceder a esphera da Historia da Arte, que os primitivos templos eram construidos pelo systema romano na qualidade e disposição dos materiaes, teremos dado uma succinta idéa da formação e dos caracteres do Estylo Latino, isto é, do primitivo estylo christão no occidente.

Não temos, infelizmente, em Portugal um só exemplo do Estylo Latino. O nome de

basilica

, applicado a algumas das nossas egrejas, taes como a da Estrella e a de Mafra, corresponde simplesmente á expressão de grandeza e sumptuosidade, mais ou menos merecida, sem se referir a qualidades architectonicas, porque estas egrejas são de caracteristico Estylo da Renascença. Os maiores e mais bellos exemplares existentes do Estylo Latino é necessario procural-os entre as trezentas e oitenta e nove egrejas e capellas, que ornam a artistica e historica cidade de Roma!

Entre as basilicas do Estylo Latino avultam as de S. João de Latrão, Santa Maria Maior, S. Paulo e S. Lourenço, as duas ultimas construidas fóra dos muros da antiga cidade. Ora, são exactamente estas ultimas que nos parecem mais caracteristicas, quer nos elementos externos, quer nas disposições internas.

A Egreja de S. Paulo, fóra dos muros, constitue de facto um formoso e rico exemplar do Estylo Latino. As suas disposições geraes traduzem, com a possivel exactidão, os caracteres das basilicas romanas, anteriormente descriptas. Esta grandiosa construcção conserva ainda uma pequena parte antiga, se não primitiva, mas o restante é de epoca moderna.

Diz a tradição que no local de um cemiterio, onde repousavam os restos de S. Paulo, o grande Apostolo das Gentes, o imperador Constantino mandou edificar uma primeira basilica, que depois foi restaurada e engrandecida por successivos imperadores, sendo terminada por Honorio no anno 423 da nossa era. Um grande incendio destruiu em 1827 grande parte d'esta primitiva basilica.

Então, o Papa Leão XII, pedindo donativos á fé dos christãos de todo o mundo, começou a reedificação da antiga basilica; fazendo, porém, engrandecer e enriquecer os novos planos. Em 1854, o Papa Pio IX sagrou o novo e magnifico templo, do qual apresentamos os principaes elementos, como excellente definição das feições especiaes do Estylo Latino.

ROMA—Interior de S Paulo

ROMA—Interior de S Paulo
ROMA—Interior de S Paulo

A fachada principal é formada por um vasto portico da Ordem Corynthia, para o qual se abrem as sete portas da egreja; por detrás d'este portico eleva-se o corpo da nave central do templo. Devemos observar que nas egrejas do Estylo Latino, em regra, desappareceram as galerias superiores das basilicas romanas. Abolido o uso da separação dos sexos nas ceremonias religiosas, a conveniencia de bem illuminar as egrejas aconselhou a suppressão d'estas galerias. Assim, o corpo da nave central eleva-se sobre os corpos lateraes, recebendo luz directa e profusa de grandes janelas. A fachada principal de S. Paulo é ricamente decorada por mosaicos modernos. As portas, que abrem no bello portico, são antigas, de bronze e de excellente Estylo Byzantino.

O interior da egreja offerece cinco grandes naves, formadas por quatro ordens parallelas de columnas, vinte em cada ordem. São, pois, oitenta columnas, tendo as bases e os pedestaes de marmore branco e os fustes de granito rosa polido. Sobre a cornija da nave central corre uma serie de medalhões circulares em mosaico, que representam retratos de antigos Papas. Esta grande nave é directamente illuminada por dez janelas lateraes, sendo os respectivos intervallos preenchidos por frescos, que representam scenas da vida de S. Paulo. O tecto riquissimo é feito de caixões de madeira esculpidos e dourados. O arco da capella-mór constitue, talvez, um dos elementos da primitiva basilica de Constantino. Este arco, ladeado por duas estatuas colossaes de S. Pedro e de S. Paulo, é guarnecido na parte superior por antigo mosaico, que se suppõe ser do anno 440 da nossa era.

A ábside, para onde se sobe por tres degraus, tem na semi-cupula um mosaico, que se presume ser do seculo XIII. O altar, do mesmo seculo, é coberto por um ciborio, formado por quatro columnas de porphiro, que sustentam um docel de Estylo Ogival.

No lado norte do transepto abrem-se, tambem, tres portas precedidas de um portico corynthio de menor importancia. A torre dos sinos, coroada de um mirante, está collocada por detrás da ábside.

A Egreja de S. Lourenço, segundo a tradição tambem construida por Constantino no anno 330 da nossa era, foi modernamente restaurada por Pio IX, cujos restos mortaes n'ella repousam, e constitue egualmente um exemplar muito bom do Estylo Latino, mais modesto e severo.

Na fachada, o portico é da Ordem Jonica, coberto por telhados muito inclinados e evidentes. O corpo da nave central, ornada de pinturas a fresco, não tem frontão.

No interior, de cada lado, onze fortes columnas jonicas de granito rosa e de cipolino dividem o templo em tres naves, dando-lhe um aspecto de severidade e grandeza que mais realça ainda a cobertura da nave central, feita de grandes vigas descobertas, douradas e esculpidas. Esta egreja não tem na realidade um verdadeiro transepto, o que mais a approxima das fórmas tradicionaes das basilicas romanas, das quaes se afasta, por outro lado, porque a ábside termina em parede plana, guarnecida de janelas.

ROMA. BASILICA DE S. LOURENÇO

ROMA. BASILICA DE S. LOURENÇO
ROMA. BASILICA DE S. LOURENÇO

Não sendo possivel nem opportuno desenvolver descripções mais completas d'estas grandiosas e riquissimas basilicas, julgamos haver escripto e apresentado graphicamente os sufficientes elementos para bem fixar os caracteres do Estylo Latino, mais puro e rico.

ROMA—Interior da Basilica de S. Lourenço

ROMA—Interior da Basilica de S. Lourenço
ROMA—Interior da Basilica de S. Lourenço

CAPITULO SEGUNDO

ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO BYZANTINO

Roma deixára de ser a capital do Imperio. Conservára de direito as suas antigas tradições, o seu cognome de

cidade-eterna

; de facto, a capital do Imperio já no seculo III, sob Maximiano, havia sido deslocada, para o norte. Era em Milão. Assim, foi n'esta cidade que Constantino promulgou o edito de tolerancia, de que data a liberdade do Christianismo. As extensas fronteiras e as enormes agglomerações de estados e de povos, que formavam o Imperio, exigiram, talvez, uma capital mais no centro, com sacrificio de Roma, muito afastada, quasi no meio da peninsula italica.

Além d'isso, os imperadores, em geral, preferiam habitar as cidades do oriente, onde por exemplo Diocleciano residiu quasi sempre. As tendencias luxuosas e os costumes mais do que faceis dos imperadores deviam tender a approximal-os do fóco de luxo e de vida devassa, de que os satrapas médo-persas deram exemplo imitado e haviam deixado profundas tradições respeitadas. São ainda hoje proverbiaes o luxo e os costumes do oriente.

Constantino, pelas razões que expozemos, edificára em Bysancio a nova capital do Imperio. A permanencia da côrte do autocrata romano no oriente foi, sem duvida, um golpe profundo na vida social e na riqueza da Italia, reduzida a um exarchado. Com o chefe supremo e a alta administração do Imperio, a pouco e pouco devem ter emigrado para Constantinopla as melhores forças vivas e os mais valiosos elementos sociaes, que tendem sempre a agrupar-se em torno do poder central.

O Christianismo existia já n'aquellas provincias do Imperio; mas a acção da nova capital e do proprio imperador imprimiu-lhe necessariamente grande expansão. As mesmas causas e influencias, que no occidente haviam produzido o Estylo Latino, foram encontrar-se com outras especiaes, nascidas e desenvolvidas no oriente. Um outro estylo christão, differente do occidental, foi tambem o producto da acção reciproca d'estes elementos. A sua formação é coeva e parallela. Póde dizer-se que o espirito classico e o do Christianismo produziram simultaneamente dois estylos architectonicos: no occidente, o Latino; no oriente o Byzantino, de que nos vamos occupar.

O genio romano era o reflexo, um pouco pallido na verdade, do genio hellenico. Imitou-o na religião, na sciencia e na arte, seguiu-lhe os passos nem sempre com grande felicidade. Nas manifestações da actividade social os romanos foram superiores aos gregos; mas em creações do espirito, na sciencia, na philosophia e na arte, a Grecia teve apenas em Roma um soffrivel discipulo. Os romanos, é certo, eram amadores, grandes amadores da arte, como os inglezes modernos exactamente, que a adoram, cultivando-a pouco, ou pelo menos não produzindo creações novas, comparaveis com os d'outros povos.

Apenas a Grecia se tornou provincia romana, o enorme thesouro da arte hellenica foi posto a saque; Roma enriqueceu-se com tudo quanto podia ser transportado: estatuas, quadros, vasos, vieram adornar os templos, os

foros

e os edificios publicos, povoar os palacios e as galerias dos vencedores, que assim se enriqueceram com productos artisticos, durante seculos creados e accumulados pelo trabalho e pelo genio gregos.

Roma adorava a Grecia. Nero, deante do povo hellenico, quiz ser athleta e artista. O prestigio imperial provocou as acclamações; a força garantiu-lhe e facilitou-lhe a grande espoliação dos objectos artisticos. É provavel que, sujeita a

este espirito

dos amadores romanos, a Grecia ficasse quasi desprovida de estatuas, algumas das quaes poderemos ver ainda hoje nos grandes museus da Italia.

Apesar de tudo, o genio artistico grego era tão vivo e energico que se manteve sempre, durante os flagellos da conquista e das depredações romanas. Foi este genio de grandes qualidades estheticas, formado n'uma escola de excepcional grandeza, que a modesta arte latina do occidente, formada pelo classico romano e pelo Christianismo, encontrou ainda pujante e activa no imperio byzantino. Ora, esta substituição da esthetica romana pela grega constituia já uma grande vantagem para a nova evolução da Arte.

Além d'isso, Constantinopla estava perto da Asia Menor e d'essas grandes provincias romanas, que comprehendiam a Mesopotamia e parte do grande imperio dos Sassanides. Esta vasta região, onde floresceram tantas civilisações antigas, confinava com a mysteriosa

Fars

, a Persia, que em guerras successivas fôra vencida pelos heroes da Grecia. Todas estas nações, a Phrygia, a Lycia, a Caria, a Lydia e sobretudo a Assyria e a Persia haviam tido uma arte mais ou menos adiantada. Esta parte da historia da arte antiga é assás obscura nas origens e nas relações reciprocas; mas estudos modernos vão demonstrando a importancia das manifestações estheticas entre estes povos orientaes.

A influencia de ornamentações riquissimas e de estylos cheios de originalidade, adequados aos costumes, ás necessidades e ao clima do oriente, estendia-se principalmente para os lados do Bosphoro, o caminho que tinham seguido as invasões médo-persas. Foi a acção reciproca d'estes elementos, o classico hellenico e os estylos orientaes, que, substituindo o romano e sob o influxo do Christianismo, produziu o Estylo Byzantino.

A basilica, levada do occidente por Constantino e pelos christãos do seu tempo, chegára a elevar-se na capital e nas provincias orientaes do Imperio; mas as suas fórmas especiaes, pobres e severas, não poderam por longo tempo resistir á atmosphera ardente da arte oriental. O seculo V foi, pois, o periodo da evolução rapida d'esse novo estylo christão, que o imperador Justiniano teve a gloria e o orgulho de caracterisar n'um só edificio, dos mais bellos do mundo.

Os planos e a construcção de Santa Sophia de Constantinopla foram dirigidos por Anithemius, nascido em Tralles, e por Isidoro, de Mileto. Estes architectos, cuja fama ficou immorredoura como a de Ictino e Callisthenes, os constructores do Parthenon o mais bello templo do classico hellenico, eram ambos naturaes da Asia Menor, onde haviam florescido adeantadas colonias jonicas. Mileto, uma das mais famosas, pertencia á Caria, Tralles á Lycia, provincias limitrophes, das quaes a ultima tocava a Assyria e a Mesopotamia, approximando-se do Imperio dos Sassanides, a Persia. Estes dois homens de incontestavel genio foram, pois, oriundos de raças e nações, onde o espirito hellenico e o oriental tinham descoberto combinações singulares e bellas na arte da construcção, nos estylos e na ornamentação dos edificios.

A construcção do templo de Justiniano, iniciada em 532, correu com tal rapidez, que em 27 de novembro de 537, dia da sua sagração, o Imperador pôde soltar esta soberba e historica expressão:

Gloria a Deus que me julgou digno de construir uma tal obra. Venci-te Salomão!

De facto, nunca a riqueza da ornamentação e do culto excedeu a magnificencia de Santa Sophia, nos tempos do Imperio Byzantino. Ainda hoje, decahido e estragado pelos turcos, que lhe cobriram os marmores e os mosaicos com estuques rendilhados, onde se lêem versiculos do Alcorão, o edificio de Santa Sophia constitue o primeiro e mais admiravel monumento do Estylo Byzantino, o seu melhor exemplar, o mais perfeito e mais rico.

O Estylo Byzantino, que se estendeu com enorme rapidez pelo norte da Italia e pelo sul da França, chegando até á Allemanha, não penetrou em Hespanha e muito menos em Portugal, pelo menos em edificios importantes que tenham deixado tradições ou vestigios materiaes.

Para definirmos, pois, os caracteres d'este estylo, esbocemos curta descripção de Santa Sophia de Constantinopla, o seu principal monumento, que nos esclarecerá e servirá de guia, como fizemos no Estylo Latino.

O exterior de Santa Sophia é simples e severo. Uma multidão de cupulas de differentes dimensões, dominadas pela grande cupula do corpo central da antiga egreja, dão-lhe um aspecto caracteristico, perfeitamente oriental, como o das cidades em climas onde a neve é desconhecida, a chuva rara e reina quasi sempre calor ardente. A impressão de solidez do edificio deprehende-se d'essas cupulas achatadas, repousando sobre paredes espessas, separadas por botareos entre os quaes se abrem pequenas janelas de volta inteira. Estamos já longe das coberturas de madeira sobre paredes delgadas do Estylo Latino e bem perto das pesadas abobadas sobre muros espessos, reforçados por botareos, do Estylo Romanico. Na gravura, que apresentamos, Santa Sophia é representada no estado actual, isto é, ladeada de quatro

minaretes

e cercada de construcções, que as necessidades do culto do Islamismo e a selvageria artistica dos turcos teem feito encostar ao antigo monumento.

CONSTANTINOPLA—Exterior de S.ta Sophia

CONSTANTINOPLA—Exterior de S.ta Sophia
CONSTANTINOPLA—Exterior de S.ta Sophia

A construcção, exceptuando a pequena saliencia da ábside principal, está circumscripta n'um vasto quadrado de 77 metros de lado, como se vê da seguinte planta, limpa das excrescencias de origem turca.

Illustration from A architectura religiosa na Edade Média

A disposição interna offerece tres naves, a do centro muito larga e alta em relação ás lateraes. A cobertura d'esta nave central constitue um dos caracteres principaes da architectura byzantina. No meio d'ella desenha-se um grande quadrado de 31 metros de lado, exactamente a largura da nave, definido pelos angulos internos de quatro enormes pilares muito elevados, sobre os quaes veem apoiar-se quatro grandes arcos de volta inteira. Repousando sobre os fechos d'estes arcos, ergue-se uma cupula colossal, cujo diametro é, portanto, egual ao lado do quadrado. O espaço vasio, que ficaria comprehendido entre os quartos de circumferencia da cupula e os dos arcos sobre que ella assenta, foi cheio, formando uma superficie concava e triangular, gerada pela curvatura da cupula descendo ao longo dos arcos. Esta construcção, facilitando a passagem da figura circular da cupula para a quadrada dos pilares, constitue quatro enormes

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