← Table of contents
A architectura religiosa na Edade Média

Front matter (continued 2)

Reading edition

pendentes

, que ligam a mesma cupula aos arcos, sobre que ella repousa.

Illustration from A architectura religiosa na Edade Média

Esta disposição, muito caracteristica, comprehende-se com facilidade, estudando o anterior córte, feito pelo centro da cupula e perpendicular ao eixo maior da nave central.

Para o oriente e para o occidente—porque o eixo principal da egreja tem esta direcção—duas semi-cupulas firmam-se nas paredes externas e encostam-se aos arcos internos, tocando-lhes quasi o intradorso; assim fica fechada a cobertura da nave central. O templo era, pois, orientado; a luz da madrugada espalhava-se na grande nave, durante as ceremonias religiosas, em geral matutinas. Esta orientação apparece mais tarde no Estylo Romanico. Vamos, assim, fazendo desde já simples approximações.

Os grandes arcos lateraes da nave principal foram cheios por paredes, onde se abrem arcadas de volta inteira sobre as columnas do primeiro e segundo pavimento das naves secundarias; por cima d'estas galerias a egreja recebe luz directa de janelas, abertas para o exterior e deitando sobre os terraços das mesmas naves, cobertas por abobadas de volta inteira.

Assim, o corpo central do edificio apparece definido, mais elevado do que os collateraes, recebendo luz de fóra. Se o Estylo Latino deixou aqui reminiscencias das galerias sobrepostas para separação dos sexos, a disposição tambem faz lembrar as naves centraes mais elevadas dos templos romanicos e ogivaes. Na parede oriental, sob a semi-cupula respectiva, rasgam-se tres ábsides, das quaes a do centro, um pouco saliente do edificio, era o

sanctuario

. Na parede occidental em frente das ábsides, existem as tres portas de entrada, precedidas de um duplo

narthex

, reminiscencia do porticos dos templos classicos, adoptados tambem pelo Estylo Latino.

Se a isto accrescentarmos que o edificio é profusamente illuminado por numerosas janelas de volta inteira, relativamente pequenas, existindo na base da grande cupula central uma verdadeira corôa de quarenta d'estas janelas, que lhe dão um aspecto singular de elegancia e de levesa, teremos esboçado singela descripção architectonica, que, sem confusões e incertezas segundo pensamos, dará idéa do edificio e das feições caracteristicas do Estylo Byzantino, que Santa Sophia traduz magistralmente.

Sem falarmos por emquanto na ornamentação, devemos concluir que o primeiro caracter evidente d'este estylo é a cupula. Como quasi todos os elementos fundamentaes architectonicos, foi ella conhecida no mundo antigo. Constitue uma especie de cobertura, que os grandes constructores e architectos da antiguidade deviam ter descoberto quasi ao mesmo tempo, principalmente nos climas muito quentes, de longas estiagens e por isso de poucas florestas, que economicamente fornecessem madeira para construcções. Póde servir isto de exemplo para as influencias do clima sobre a construcção e d'esta sobre a arte. Assim, tambem a ogiva, por outras rasões especiaes, deve ter sido conhecida pelos bons architectos e constructores, porque os houve excellentes na mais remota antiguidade.

A cupula veiu do Oriente, da Persia dizem; é natural e logico. Mas não póde existir a menor duvida em que, pelo menos, na Roma antiga foi conhecida. Ainda hoje na cidade eterna A cupula veiu do Oriente, da Persia dizem; é natural e logico. Mas não póde existir a menor duvida em que, pelo menos, na Roma antiga foi conhecida. Ainda hoje na cidade eterna a podemos ver no Pantheon de Agrippa, transformado em egreja christã, onde por signal jazem os restos mortaes de Victor Manuel I, o unificador da Italia. O auctor d'este livro admirou esta soberba cupula, que produz espanto pela perfeição da construcção arrojada, tão excellente que resistiu á acção de dezenove seculos, porque foi edificada no imperio de Augusto. Se a cupula de Santa Sophia admira tendo o diametro de 31 metros, a do Pantheon causa assombro porque a excede em grandeza. É toda de pedra talhada e tem 43 metros de diametro; no alto, tambem a 43 metros, offerece uma grande abertura por onde o templo recebe a luz.

CONSTANTINOPLA—Interior de S.ta Sophia

CONSTANTINOPLA—Interior de S.ta Sophia
CONSTANTINOPLA—Interior de S.ta Sophia

Bastaria este exemplo existente para demonstrar, aos que não ignoram o principio da evolução da arte e da sciencia de construir, que uma maravilha d'estas não póde constituir um producto esporadico n'uma civilisação. Roma conhecia este systema de construcção, porque o empregou, logo conhecia-o tambem a Grecia. É regra logica e segura. Verdade seja que o Pantheon é um templo circular, precedido de um simples portico de frontão classico; n'este caso, a cupula repousa toda sobre paredes, emquanto que em Santa Sophia firma-se sobre quatro pilares, com auxilio dos

pendentes

. Eis a caracteristica differença.

D'esta fórma especial de construcção, que provavelmente foi empregada nos tempos mais remotos em Babylonia, na Assyria e na Persia, n'um ou n'outro ponto preferida por condições locaes, é que não se encontraram, até hoje, vestigios no classico romano e no hellenico. A

cupula de pendentes

é, pois, um dos caracteres fundamentaes do Estylo Byzantino, herdado de estylos antiquissimos.

Entre nós existe um exemplo d'esta cobertura, na Egreja do Sagrado Coração de Jesus, vulgarmente denominada da Estrella. A cobertura interior do cruzeiro, quadrado de cêrca de 12 metros de lado, é uma cupula d'este genero, sustentada por quatro arcos. A unica differença, aliás secundaria, consiste em que a cupula repousa sobre um corpo cylindrico, entreposto entre ella e os arcos, em cuja superficie se abrem as janellas. Em geral, as cupulas byzantinas repousavam directamente sobre os arcos sem interposição do tambor cylindrico; dizemos em geral, porque nos pareceu que esta interposição, embora pouco accentuada, se dá na egreja de S. Marcos de Veneza, sem, todavia, o podermos affirmar com plena convicção.

A ornamentação de Santa Sophia era tambem caracteristica. A vontade omnipotente do Imperador, secundada pelo espirito respeitoso—iamos a escrever servil—dos funccionarios das suas vastas provincias, fez saquear os templos pagãos do oriente, como tambem se praticára no occidente, para enriquecer o novo templo, o emulo do antigo templo de Salomão. A historia relata a este respeito espantosos factos de espoliação e destruição dos antigos templos classicos de Palmyra, Pergamo, Heliopolis, Epheso e outras cidades. Ora, as depredações n'este caso exerceram-se nos thesouros immensos da arte hellenica e oriental; emquanto, no occidente, o Christianismo encontrou a mais modesta arte do classico romano. Comprehende-se, pois, a enorme differença da ornamentação das egrejas nos primeiros estylos christãos.

Os mais ricos materiaes foram empregados com profusão. Marmores rarissimos e finos, o porphyro, o granito e a malachite constituiam as columnas e forravam as paredes. Por toda a parte reinava esse

luxo

asiatico, em que a prata, o ouro e até as pedras preciosas se revesavam com os grandes mosaicos orientaes de fundo dourado ou de azul escuro, revestindo as cupulas e os pendentes de immensos quadros, contendo passagens do Novo e do Antigo Testamento, scenas reaes e symbolismos diversos, onde as figuras appareciam com desenho incorrecto, sem vida e movimento, em grupos symetricos, expressões hieraticas de uma arte crystallisada, que perdera as tradições do grande estylo e não estudava a natureza.

A magnificencia dos objectos do culto attingiu proporções phantasticas em Santa Sophia.

Como se o ouro não fosse bastante precioso, o altar era feito de uma singular liga de ouro, prata e perolas e pedras preciosas reduzidas a pó. As suas quatro faces, cobertas de baixos relevos byzantinos, brilhavam rica e profusamente incrustadas de perolas e gemmas de todas as especies.

Este altar era coberto pelo

ciborio

em fórma de torre, cujo docel de ouro massiço repousava sobre quatro columnas tambem de ouro e prata, entre as quaes se viam suspensas grandes espheras de ouro com a cruz grega. No interior do ciborio, pendente do docel e como pairando sobre o altar, uma pomba de ouro representava o Espirito Santo. Era a custodia, onde se guardavam as sagradas particulas. Todo este conjunto refulgia de perolas e gemmas preciosas.

O

sanctuario

fôra separado do corpo da egreja por uma alta divisoria de prata, sustentada por doze columnas de ouro. Nas grandes superficies de prata d'esta divisoria viam-se esculpidas em alto relevo figuras de santos e lavores de caracter byzantino.

Quasi no centro da nave central, em frente do altar, um enorme

ambon

de fórma circular, em recinto vedado, servia de côro para as dignidades ecclesiasticas e de tribuna para a côrte imperial. Era coberto por um docel de metaes preciosos, encimado de uma grande cruz de ouro, recamada de granadas e perolas; este docel firmava-se sobre oito columnas de marmore. De marmore e recamadas de ouro eram tambem as escadas de accesso do ambon.

Nas hombreiras e nas portas do edificio havia-se prodigalisado a prata, o marmore, o marfim e o cedro. Emfim, todos os restantes objectos do culto, por mais secundarios que fossem, manifestavam riqueza deslumbrante, accusando a tendencia oriental de carregar as linhas e as fórmas estheticas com pesados ornamentos, encrustados de gemmas e metaes preciosos.

Imagine-se, pois, o effeito deslumbrante de tudo isto: columnas e paredes de finissimos marmores polidos, mosaicos de fundo de ouro revestindo as abobadas das cupulas e das absides, espalhando-se pelos pendentes e pelo corpo da egreja em grandes quadros, os altares, o ambon e os objectos do culto divino recamados de pedrarias, as grades e divisorias de prata, imagine-se toda esta riqueza salomonica e oriental, rutilando á luz de 6:000 grandes lampadas de metaes preciosos ricamente cinzelados!

Esta impressão extraordinaria, embora não comparavel, sentiu-a um dia o auctor d'este livro ao entrar n'uma festa religiosa, em S. Marcos de Veneza; occorrendo-lhe, n'esse momento, a bella e rigorosa phrase de Theophilo Gautier, porque a egreja, bem mais modesta em tudo do que o foi a de Santa Sophia, tinha reflexos fulvos e brilhantes, como se fosse uma

grande caverna de ouro!

Em rapidos traços, tal foi nos primitivos tempos a Egreja de Santa Sophia de Constantinopla, ainda hoje rica e soberba apesar de saqueada pelos turcos de Mahomet II, se não pelo proprio Mahomet; egreja, transformada em mesquita, que os dignos descendentes dos conquistadores cobriram de estuques com arabescos orientaes e versiculos do Alcorão!

D'esta simples e modesta noticia deprehendem-se os caracteres, ou melhor as feições do Estylo Byzantino; devemos, porém, entrar ainda n'este ponto em alguns pormenores.

A fórma das egrejas byzantinas offerecia differentes disposições. Démos a de Santa Sophia, falaremos ainda de outras. Em S. Vital de Ravenna, edificio coevo de Santa Sophia, a planta offerece a figura de um octogono regular; a grande cupula central repousa sobre oito pilares internos, dispostos nos angulos do polygono, deixando entre si e as paredes da egreja uma nave octogonal. A cruz grega desenha-se nos eixos principaes dos dois corpos da egreja, o que termina na abside e o que ao meio lhe fica perpendicular. É claro que n'este caso os pendentes são pequenos e sel-o-iam successivamente, quanto mais numerosos fossem os lados do polygono.

Na antiga egreja dos Santos Apostolos em Constantinopla, a nave principal, tendo em comprimento o triplo da largura, é cortada ao meio por um transepto perpendicular das mesmas dimensões. Nove cupulas de pendentes eguaes cobrem esta superficie, representando uma verdadeira cruz grega. S. Marcos de Veneza é uma imitação d'esta egreja. Sem multiplicarmos os exemplos, poderemos estabelecer como tendencia geral a maior ou menor approximação da cruz de braços eguaes, a do estylo grego.

No conjunto os edificios, em geral, manifestam-se pesados, austeros e simples, pelo menos nos tempos primitivos. A cupula principal eleva-se e predomina sobre as menores e mais baixas, se estas existem, sobresaíndo na tendencia horisontal das outras coberturas. A construcção respira estabilidade e solidez. As janelas são pequenas, segundo o uso oriental, muito numerosas, de volta inteira como as portas, offerecendo ás vezes a fórma de ferradura tão usada no Estylo Arabe, que afinal teve tambem muitas das origens do byzantino no mundo oriental.

O interior respira a riqueza, que manifestou em grande escala a egreja de Santa Sophia. A ornamentação é caracteristica; mas, na realidade, são as

cupulas de pendentes

, os

mosaicos

orientaes, as

arcadas sobre columnas

, os

capiteis

, e os

arcos geminados

, que melhor definem o Estylo Byzantino, alem de outros que já descrevemos e vamos enumerar. Observaremos que um grande numero d'estes elementos, não todos, serão empregados depois nos Estylos Romanico e Ogival.

Os mosaicos, de fundo de ouro ou de azul muito vivo, representam em grandes quadros, principalmente nas cupulas, nos pendentes e nas abobadas das absides, motivos sagrados ou profanos em que entram poderosos senhores, como nos de Ravenna. A arte é, porém, hierarchica, secca e fria. Em geral, o desenho manifesta singulares intenções de symetria. As personagens não têem vida e movimento; parecem, se nos consentem a expressão, multidões de manequins, dispostos em maus quadros scenicos. Este espirito byzantino da arte influiu, de certo, nos pintores e nos esculptores occidentaes, nos periodos romanico e ogival.

A ornamentação profusa inspira-se nas artes do Oriente, offerecendo fórmas curiosas e originaes. Os capiteis, por exemplo, são de extrema diversidade. Massiços e pesados, quasi todos, variam de contornos: cubicos, arredondados na base, em pyramides truncadas de arestas salientes, ás vezes dois sobrepostos, como succede na egreja de Ravenna. A sua ornamentação manifesta, tambem, caracteres diversos, em que predominam perolas, galões entretecidos, rendilhados de folhas phantasticas, graciosos lavores abertos que parecem ornados de pedrarias. Ás vezes, aves e animaes de singulares aspectos, vasos e cestos, completam esta profusa ornamentação, em que foram abandonados e esquecidos o gosto e as proporções classicas.

No Estylo Byzantino, a esculptura, bem como a pintura, apresentam-se decadentes, padecem quasi de eguaes defeitos. A pedra é trabalhada sem os córtes largos e profundos, que procuram o relevo pelas sombras e saliencias dos planos e dos ornamentos. Os artistas byzantinos lavravam frouxamente a pedra. Parecia empregarem mais o buril do que o escopro; foram mais gravadores de metaes do que esculptores de pedra.

É evidente que todos estes caracteres byzantinos tiveram profunda influencia sobre os dos Estylo Romanico e Ogival, onde muitos apparecem, mas já tratados com outro vigor e largueza.

Assim, pensamos ter dado successiva idéa do Estylo Byzantino, que o calor do Christianismo fez brotar vigoroso e esplendido do fertil solo da arte hellenica e oriental.

CAPITULO TERCEIRO

ACÇÃO RECIPROCA DOS DOIS ESTYLOS CHRISTÃOS PRIMITIVOS

Assim, o espirito do Christianismo, reanimando as energias quasi moribundas da arte grega e oriental, e da romana, creára dois formosos estylos; correspondendo, na realidade, a expressões definidas do bello nas duas maiores civilisações, em que então se dividia a Humanidade.

O Estylo Latino nascera primeiro, começando a constituir-se logo após a saída do Christianismo das Catacumbas. Abandonando a Italia, Constantino levou-o comsigo e implantou-o na sua nova capital, Constantinopla, que teve, pois, como o occidente, as suas basilicas, entre as mais importantes a dos Santos Apostolos, a de Santa Irene e a primitiva de Santa Sophia, que Justiniano dois seculos depois transformou no grande templo byzantino, descripto no capitulo anterior.

No periodo de formação do Imperio do Oriente, isto é, desde Constantino até Theodosio, o Estylo Latino desenvolveu-se com maior ou menor intensidade, salvo n'essa breve tentativa reaccionaria do polytheismo vencido, que se encarnou no imperador Juliano.

O Estylo Latino não tinha, porém, as qualidades exigidas pelo

meio

grego e oriental, nem as basilicas classicas, de que elle derivava, eram muito vulgares no oriente, se algumas importantes existiam. O proprio clima não aconselhava coberturas de madeira, que o doce e temperado clima da Italia e a tradição conservaram no primitivo estylo. Como as plantas exoticas teem, em regra, vida artificial e difficil, o Estylo Latino, nascido no occidente, não encontrando no oriente condições favoraveis, estiolou-se a pouco e pouco e por fim desappareceu sob a influencia de elementos architectonicos mais poderosos, porque eram harmonicos com o

meio

natural e social, para onde o Estylo Latino fôra transplantado.

Todavia, o novo Estylo Byzantino, que ia formar-se em harmonia com esse

meio

natural e social, não podia repudiar os elementos architectonicos fundamentaes do Estylo-Latino vencido, que não eram antinomicos com os seus e correspondiam, alem d'isso, a qualidades e exigencias do espirito christão, que, sendo origem commum de ambos, imprimira á Arte novas feições em situações differentes.

De facto, não é difficil observar que o Estylo Byzantino, apesar da sua originalidade, se apropriou de alguns caracte De facto, não é difficil observar que o Estylo Byzantino, apesar da sua originalidade, se apropriou de alguns caracteres fundamentaes do Latino; muito embora, como em breve diremos, a fusão d'estes estylos se devesse realisar mais tarde sob a acção do elemento barbaro, que não podia deixar de manifestar profunda influencia sobre a architectura christã, visto que a teve decisiva e innegavel na constituição das sociedades medievaes.

Uma observação interessante na formação do Estylo Byzantino consiste em que a sua maior obra, nunca depois excedida nem até egualada, Santa Sophia de Constantinopla, parece ter apparecido como um facto esporadico e uma creação inspirada dos architectos gregos; a verdade é, porém, que o Estylo Byzantino não fugiu á lei de todas as producções humanas, tendo uma formação lenta e evolutiva. Existem e existiram edificios, que constituem verdadeiros marcos milliarios d'esta evolução. O genio dos constructores de Santa Sophia, apenas a precipitou,

dando-lhe

a apparencia de uma verdadeira revolução nos estylos architectonicos.

É logico suppôr que o periodo de verdadeira constituição do Estylo Byzantino deve ter começado quando Constantinopla foi declarada capital do Imperio. O desenvolvimento de uma nova phase da arte exige sempre elementos de actividade social e de riqueza, que só poderam reunir-se quando a administração geral do Imperio concentrou no oriente todas as forças creadoras, com grave sacrificio do mundo occidental.

Nos principios do seculo VI, o estylo achava-se constituido, offerecendo a sua mais perfeita expressão no templo de Justiniano.

O apparecimento, relativamente rapido, d'esta obra de arte tão perfeita e rica do Estylo Byzantino tinha de exercer forçosamente profunda influencia sobre a arte occidental. Não só as egrejas e as construcções byzantinas começaram logo a elevar-se nos antigos dominios do Estylo Latino e a invadir a Italia, na parte que então constituia um Exarchado do Imperio do Oriente, mas foi rapida a dispersão d'este novo estylo, principalmente no sul da Europa.

Muitas causas especiaes do tempo facilitaram esta dispersão, que reinou na Italia, no sul da França e chegou até á Allemanha, as duas nações que mais tarde deviam cobrir-se de monumentos romanicos e ogivaes. As relações de todas as ordens, entre o occidente e o oriente, eram activas n'esses seculos. Commerciaes havia-as constantes, porque as grandes caravanas, que iam ao Extremo Oriente permutar mercadorias, atravessavam a extensa zona, onde florescia o Estylo Byzantino, tendo um dos seus grandes

caravansarás

em Constantinopla.

Além d'isso, o espirito religioso activava o movimento dos peregrinos occidentaes para os logares santos na Palestina, onde florescia o Estylo Byzantino, até no proprio templo do Santo Sepulchro de Jerusalem, que serviu depois de exemplar a tantos outros. As descripções, sempre um pouco imaginosas dos viajantes, adornavam o novo estylo de magnificencias e maravilhas, que segundo vimos eram bem merecidas.

Estas causas, só por si explicam a influencia da ornamentação oriental sobre a arte do occidente; a acção, porém, tinha de ser mais completa. Assim, ainda durante a existencia do Imperio ostrogodo de Theodorico, no curto reinado de sua filha Amalasonte, o Estylo Byzantino começou a invadir a Italia. A Egreja de S. Vital de Ravenna, capital do reino godo, foi erecta em 534, epocha em que duravam os trabalhos de Santa Sophia. A Cathedral de Parenzo, cidade maritima da costa oriental do Adriatico, seguiu-se-lhe em 540. Como era natural, a invasão fez-se primeiro pelas grandes cidades litoraes d'este mar, em constantes relações com o mundo oriental.

O facto historico culminante, que facilitou a dispersão do Estylo Byzantino, foi todavia a constituição do Exarchado em Italia. Por morte de Theodorico, sua filha Amalasonte assumiu a regencia em nome do filho Athalarico. Esta princeza herdára algumas das grandes qualidades de seu pae e entre ellas accentuadas tendencias para a civilisação classica, então representada pelo Imperio Byzantino. A morte do herdeiro da corôa entregou-lhe a herança paterna, que a nova imperatriz partilhou com Theodato, seu primo, transigindo assim com a surda irritação dos guerreiros ostrogodos. O assassinio da princeza foi o resultado da transigencia. Então, a desordem e a dissolução apoderaram-se dos estados de Theodorico.

Justiniano aproveitou o ensejo, pensando em restaurar o antigo Imperio de Constantino. Belisario conquistou o sul da Italia e avançou até Ravenna, que por momentos pertenceu á corôa do oriente. As constantes intrigas da côrte byzantina sacrificaram em parte a obra do heroico general de Justiniano, que então incumbiu o persa Narsés de recomeçar a conquista. O famoso eunucho, valido do imperador, em victoriosas companhas contra os godos conseguiu vencel-os, constituindo o ducado de Italia, reduzida a provincia do Imperio Byzantino.

A morte de Justiniano levou ao throno Justino II, espirito fraco, dominado pela imperatriz Sophia, que odiava o heroico eunucho Narsés. Na côrte de Constantinopla ferveram, pois, as intrigas ambiciosas contra o duque de Italia, a quem a propria imperatriz não poupava desgostos e motejos, não se atrevendo a atacar de face o poderoso exarcha e habil administrador. Uma phrase sangrenta fez trasbordar a vingança de Narsés. Dissera a imperatriz, referindo-se ironicamente ás desgraçadas qualidades physicas do duque de Italia, que

elle era um homem digno de fazer parte de um grupo de fiandeiras

. A resposta do eunucho não se fez esperar. Sentindo a morte proxima, Narsés, incitou entre os lombardos, poderosa e guerreira nação germanica que habitava a Pannonia, a idéa da conquista da Italia. Assim, elles, em 568 atravessando os Alpes, precipitaram-se sobre a peninsula, conquistando em poucos annos parte importante da região septentrional, que ainda hoje conserva o nome de Lombardia.

O Imperio Byzantino, privado de grandes generaes e profundamente corroido por vicios e intrigas, conseguiu apenas detel-os na marcha para o sul; ficando a Italia dividida entre duas poderosas influencias: ao norte, o reino lombardo; ao sul, as provincias do Exarchado de Ravenna, que durou até meiados do seculo VIII, em que foi, emfim, destruido e englobado no novo reino germanico. Assim, durante dois seculos, a civilisação e a arte byzantinas estiveram em contacto directo e intimo com uma das mais intelligentes nações barbaras, das que invadiram o solo da peninsula italica.

As relações entre os Chefes dos Estados tambem eram frequentes. O Imperio do Oriente tinha para os reis semi-barbaros singular prestigio, pelas tradições como legitimo representante do grande poderio romano, que aliás os seus antecessores haviam destruido, pela civilisação relativa e, emfim, pelas immensas riquezas e pelo luxo asiatico da côrte byzantina. As tradições gloriosas e as riquezas foram e hão de ser em todos os tempos motivos de admiração, de respeito e até de culto para os espiritos inferiores. Assim, muitos chefes barbaros solicitavam a nomeação de

patricios romanos

, ou acceitavam-n'a como grande honra; com effeito, foram

patricios

Theodorico, rei da Italia, e Clovis, rei de França. Estas relações diplomaticas do tempo não deviam contribuir pouco para a propagação da influencia da arte byzantina, nas nações occidentaes da Europa.

O movimento logico do ardente mysticismo christão facilitou, ainda, esta propagação em grande escala. Desde os primeiros tempos do Christianismo os seus mais ferventes e menos ignorantes proselytos deviam considerar a representação material das idéas sagradas, de Deus principalmente, quasi uma verdadeira profanação. Era a consequencia logica de doutrinas muito

espiritualistas

na essencia.

Assim acontecera, tambem, que os chefes do povo hebreu, Moysés entre outros, haviam mais de uma vez destruido os idolos, deante dos quaes se prostrava o povo. O Mosaismo e o Islamismo, duas religiões de forte essencia espiritual, não admittiram nunca a representação material da divindade. No rigor da logica o Christianismo devia chegar, e chegou de facto, a identicas conclusões.

D'aqui proveiu a famosa seita dos

Iconoclastas

, no fim do seculo V já tão poderosa que teve por chefe ou adepto, pelo menos, o Imperador Zenon. Estes

destruidores de imagens

, que as perseguiam com o terrivel furor religioso, atravessaram quasi quatro seculos no Oriente, chegando a invadir a propria Italia. No seculo VIII estes verdadeiros barbaros eram poderosos. Condemnados por Concilios regulares, embora protegidos por alguns imperadores, vieram só a extinguir-se no seculo IX. N'este periodo extenso as artes byzantinas, pelo menos a esculptura e a pintura, soffreram rudes perseguições nas suas obras, o que promoveu um exodo dos respectivos artistas para o occidente, onde a seita foi sempre menos poderosa e nociva.

Emfim, as Cruzadas no fim do seculo XI levaram para o Oriente centenas de milhares de homens de relativa instrucção, que conhecendo apenas a modesta arte occidental, se extasiavam deante dos primores e da magnificencia, que iam encontrando no seu caminho, desde Constantinopla até á Palestina.

Foram todas estas causas, que em varias epochas facilitaram a dispersão da arte byzantina no occidente. Assim, o Estylo Byzantino logo no seculo VI começou a espalhar-se na parte septentrional da Italia, alargando-se depois successivamente pela Lombardia.

A influencia da ornamentação byzantina em mosaicos, pinturas e esculpturas, que já anteriormente se manifestára sobre o Estylo Latino e que os artistas, emigrados do oriente pelas perseguições dos iconoclastas, haviam accentuado, achou-se agora fortalecida pelos proprios edificios, cujos fundamentaes elementos architectonicos eram bem superiores em majestade, grandeza e duração aos correspondentes no primitivo estylo christão, nascido no occidente.

Apesar das qualidades do seu emulo, o Estylo Latino occidental offereceu resistencia, e não foi tão facilmente vencido como no oriente. Na Italia fôra creado e se espalhára com profusão, correspondia ao

meio

natural e social; era, emfim, o producto do genio classico romano e o representante de antigas tradições.

Foi sempre singular a resistencia tenaz d'esse antigo espirito classico romano, que por longos seculos viveu sobre o solo da Italia, sem duvida conservado pela hereditariedade do sangue e pelas tradições vivas dos antigos monumentos. Assim, o Estylo Romanico não penetrou facilmente no sul de Italia e o Ogival, cuja expansão foi enorme por toda a parte, se a invadiu, teve de transigir e amoldar-se ás circumstancias. Entrou na Lombardia, elevando um dos melhores edificios em Milão; mas, a partir de Florença, onde na opinião dos proprios italianos começa a verdadeira Italia, o ogival tomou caracteres muito especiaes e transigiu com o espirito classico.

O auctor d'este livro teve ensejo de apreciar bem este facto, quando percorreu aquelle paiz. Alem d'isso, o movimento artistico da Renascença terminado no seculo XVI, que representa um verdadeiro retrocesso ás origens, isto é, ás idéas e aos estylos classicos, foi preparado e realisado em Italia, exclusivamente por elementos italianos, quer fossem escriptores, quer amadores ou artistas.

Assim, a grande vitalidade do espirito classico no solo da Italia foi origem de muitos factos importantes na Historia da Arte, sendo, segundo julgamos, tambem a causa da tenaz resistencia do Estylo Latino em face do poderoso invasor oriental.

Emquanto o Estylo Byzantino realisava a invasão da Italia, durante

o seculo

VI, elevando as suas construcções ao lado das latinas, as leis historicas preparavam as bases das futuras constituições sociaes. O seculo V fôra o periodo das invasões na Italia, nas Gallias e na Iberia. Na Italia, que mais nos interessa porque foi no occidente o fóco da arte, viu-se passarem os visigodos de Alarico, os suévos de Rodagués, os hunos de Atila e os herulos de Odoacro, como rudes e barbaros conquistadores; mas as conquistas succediam-se, deixando ruinas e miserias, sem crearem organisações sociaes estaveis. Como verdadeiras ondas rebentavam no solo da peninsula, espraiando-se em grandes côrsos, que tão rapidamente quasi se retiravam, como se haviam formado. Apenas, os herulos de Odoacro, revoltados contra Augustulo, o ultimo imperador do occidente, por curtos annos formaram uma vacillante monarchia, destruida no fim do seculo V pelos ostrogodos de Theodorico.

O proprio Imperio ostrogodo tivera ephemera duração. O genio indiscutivel do grande chefe imprimira-lhe, segundo vimos, certa unidade e brilhante grandeza; mas a fusão das raças não se déra. O conquistador era intelligente e humano, um espirito liberal e justo, civilisado na côrte de Byzancio; mas bem na essencia Theodorico ficára sempre um conquistador, confiando mais na força das armas do que na acção lenta e segura da catechese politica. Por isso, conservára os seus guerreiros isolados quanto possivel da civilisação classica, constituindo uma verdadeira casta. A morte de Theodorico foi o signal da dissolução dos seus Estados, sendo pouco depois d'ella conquistada a Italia por Belisario e Narsés, os habeis generaes de Justiniano.

No seculo VI começou na realidade a constituição de nacionalidades mais fortes e duradouras. Assim, ao expirar do seculo V, organisou-se no occidente da Europa, sob o energico governo de Clovis, convertido ao Christianismo, a monarchia dos frankos, origem do Imperio de Carlos Magno e da actual França; e nos meiados do seculo VI, como já vimos, a Italia achava-se dividida em duas grandes nacionalidades, ao norte a monarchia lombarda, ao sul as provincias byzantinas do Exarchado.

Os lombardos de Alboino eram, todavia, mais rudes do que os godos de Theodorico; ou, pelo menos, o chefe lombardo não possuia a malleabilidade do genio, a illustração e a grandeza de caracter do conquistador godo. Os povos vencidos foram no principio tratados com maior egoismo e crueldade. As exacções assumiram proporções violentas, porque o espirito selvagem e guerreiro das hordas lombardas não era temperado pelo caracter superior e prestigioso de Alboino.

A estabilidade relativa da conquista lombarda, que durou desde 568 até 774, anno em que foi destruida por Carlos Magno, e sem duvida as qualidades intellectuaes dos novos invasores permittiram a lenta fusão da raça vencida e da vencedora. Os riquissimos terrenos da Lombardia foram de novo arroteados pelos fortes e energicos homens do norte. A abjuração do arianismo pelos vencedores, que abraçaram o Christianismo orthodoxo dos vencidos, facilitou as relações sociaes. A combinação dos sangues creou a pouco e pouco novas gerações, em que se casaram as qualidades animicas e ethnicas dos vencedores e dos vencidos, recebendo de uns o espirito da liberdade e o valor guerreiro, que haviam perdido os romanos da decadencia, de outros a cultura intellectual e moral, que não podiam possuir os barbaros do norte, por melhores que fossem as suas tendencias e disposições. A fusão das raças produziu, assim, uma sociedade mais ou menos homogenea, fundada na unidade da religião e na constituição de uma lingua commum, primeiro esboço das futuras sociedades, que deviam resultar da alliança dos tres espiritos creadores, o christão, o classico e o barbaro. A ordem e a sciencia, o commercio e a industria começaram, pois, a reflorir na Lombardia, apesar das continuas guerras que os seus habitantes sustentavam, principalmente com o Exarchado, por elles emfim destruido em meiados do seculo VIII.

N'este cadinho, se nos consentem a expressão, a arte oriental e a occidental em contacto não podiam deixar de produzir uma liga especial, sob o calor de novas idéas e sentimentos, nascidos do rejuvenescimento de uma importante fracção da Humanidade.

A origem do Estylo Romanico deve ser attribuida a estes factos historicos, embora n'outros pontos e n'outros seculos se dessem circumstancias similhantes, que facilitaram tambem a evolução e a dispersão d'este estylo. Assim, é certo que a constituição da monarchia franka se deve considerar no occidente o resultado equivalente da acção das leis historicas, e sabe-se que durante a dynastia merovingiana, depois da conversão de Clovis, se elevaram muitas construcções; mas os lombardos encontraram-se na posição singular e favoravel de contacto com a arte byzantina, cujos edificios e producções se elevavam nos seus proprios Estados. Esta situação especial envolve logicamente mais directa e proficua influencia na formação de novas physionomias da arte.

Alem d'isso, os lombardos manifestaram-se sempre bons architectos e excellentes constructores, quer o fossem por disposições proprias de raça ou herança do sangue romano, quer o exemplo das construcções existentes lhes desenvolvessem e aperfeiçoassem estas qualidades. Assim, quando a monarchia lombarda foi destruida por Carlos Magno e reduzida a provincia do Imperio, os artistas lombardos espalharam-se pelos restantes Estados imperiaes, sendo considerados bons architectos e habeis constructores. Ainda hoje a expressão Estylo Lombardo, applicada a uma feição do romanico, attesta a grande influencia d'estes artistas n'este periodo da evolução da arte.

Difficil será, sem duvida, tentar a fixação de datas, embora seculares, para os factos da genese do Estylo Romanico primario. N'estes remotos seculos por completo fallecem os documentos e os melhores, os proprios monumentos coévos, em grande parte desappareceram pela acção de longa antiguidade e de muitas e profundas catastrophes, offerecendo os que existem duvidosa classificação. É indiscutivel, todavia, que esse periodo de transição existiu, porque entre o Estylo Latino primitivo e o Romanico secundario, constituido no seculo XI, as differenças manifestam-se tão radicaes que só as pôde explicar uma longa evolução.

O Estylo Byzantino, em verdade, approxima-se mais do Romanico secundario em certos caracteres fundamentaes; mas ainda entre elles as respectivas physionomias manifestam-se tão distinctas, que envolvem um longo periodo intermedio de elaboração. Como as transformações biologicas e ethnicas das raças animaes exigem gerações successivas e numerosas de verdadeiros typos intermediarios, assim, entre os estylos christãos primitivos e o Estylo Romanico secundario é logica e necessaria a existencia de um periodo de transição.

Alem d'isso, a comparação dos caracteres architectonicos demonstra que o Estylo Romanico secundario comprehende os de ambos os seus antecessores, constituindo não uma simples mistura de elementos diversos, mas em verdade uma sabia e harmonica combinação, que fixou uma feição especial da arte.

[1]

Assim, o Estylo Romanico recebeu do Latino as disposições geraes das fachadas e os narthexs, a fórma interior das egrejas nas naves, nos transeptos e nas absides, os triforios, as cryptas, os altares, os ciborios, as tribunas e outras disposições particulares archictetonicas e ornamentaes; e do Byzantino as abobadas e as cupulas, os pilares massiços e as grossas columnas, os pesados e variados capiteis, as arcadas de volta inteira, os arcos geminados e sobretudo a variedade e riqueza da ornamentação.

Quando começou a manifestar-se essa transformação, que constitue o periodo do Estylo Latino de transição, ou o Estylo Romanico primario?

Em geral, as maiores creações do espirito humano, coincidem com os grandes movimentos historicos. O marasmo politico suffoca a actividade intellectual e entibia a energia da alma; escravisa e annulla o pensamento, estancando-lhe as forças creadoras; substitue os grandes ideaes pelos pequenos interesses, as nobres ambições pelo sordido egoismo; emfim, reduz o animal humano a um automato, que apenas

sente

a necessidade e o prazer de uma vida de sensações faceis e vulgares. Assim, vivem os chinezes ha milhares de annos, adormecidos dentro de uma formula social crystallisada na sciencia, na moral e na arte.

A constituição do extenso e poderoso Imperio franko de Carlos Magno, em meiados do seculo VIII, principalmente depois da conquista do Reino Lombardo, póde considerar-se o inicio provavel do Estylo Romanico primario. Este grande facto politico, um dos maiores da Historia, deu, como é sabido, profundo impulso á civilisação, e sob o aspecto da arte disseminou-a pelas vastas provincias de um vasto Imperio, habil e energicamente governado por um dos maiores espiritos, com que até hoje se inflorou a Humanidade.

Foi então que os architectos e constructores lombardos, espalhando-se no occidente e no centro da Europa, encontraram, sem duvida, excellente atmosphera para desenvolver as singulares aptidões do seu talento e a profunda sciencia de longa pratica, creando novos elementos e novas combinações architectonicas, que prepararam o Estylo Romanico secundario, a phase pura e perfeita d'este estylo.

Esta revolução na esthetica nasceu indiscutivelmente da acção de um novo espirito creador, sem a influencia do qual a arte no occidente teria crystallisado, permanecendo quasi invariavel por longos seculos, como succedeu no oriente ao Estylo Byzantino, que apenas gerou o Estylo Russo, cuja physionomia actual conserva ainda accentuados e caracteristicos os traços, embora orientalisados, do seu antecessor. Esse espirito innovador, que modificou a politica e a moral das antigas sociedades, esse forte e benefico movimento, que agitou e saneou o pantano do mundo classico, esse espirito revolucionario, que das montanhas da philosophia, da sciencia e da arte classicas fez brotar poderosos mananciaes de novas idéas e de novas fórmas, foi o elemento barbaro.

A sua grande qualidade, o amor pela liberdade do pensamento, foi o sangue forte e generoso, que veiu dar calor e vida á cançada e anemica compleição classica. Na arte o seu trabalho de regeneração, atravessando as phases do periodo romanico, devia produzir a definitiva e magnifica concepção do mais perfeito estylo religioso conhecido, o Estylo Ogival.

PARTE TERCEIRA

OS ESTYLOS CHRISTÃOS DEFINITIVOS

XI SECULO AO XV SECULO

CAPITULO PRIMEIRO

SYNTHESE SOCIAL DOS SECULOS XI E XII

Quando no anno de 814 da era de Christo morreu Carlos Magno, o seu vasto Imperio, abrangendo a França, a Allemanha, parte da Austro-Hungria, a Hespanha até ao Ebro e a Italia quasi toda até ao Volturno, entrou em dissolução, tendo o destino fatal de todas as tentativas de restauração do antigo poder romano.

A unidade apparente, que reinava entre raças e nações differentes, proviera do prestigio pessoal de Carlos Magno, do seu talento administrativo, da bondade do seu caracter, em summa da elevação intellectual e moral de um homem, que imprimiu ao movimento do espirito humano, tão abatido n'aquelles tempos, um vigoroso impulso, afrouxado nos seculos seguintes, mas, ainda assim, não perdido para a Humanidade.

As antigas e inuteis discussões byzantinas tomaram, com effeito, novo caracter especial, constituindo a philosophia da Edade-Media, a Escholastica, que na realidade nasceu nas academias e nas escolas, creadas por Carlos Magno. Este movimento intellectual é interessantissimo, principalmente nas duas primitivas phases: a primeira sob a influencia do idealismo de Platão, subordinando a philosophia, isto é, a sciencia, á theologia; a segunda, sob a acção do realismo de Aristoteles, durante a qual a sciencia e a theologia caminham a par.

O seculo XIII, como veremos, foi o da lucta mais activa entre

realistas

e

nominalistas

, entre as influencias de Aristoteles e de Platão, lucta formidavel, nem sempre incruenta porque teve perseguidoras e martyres, sendo uma das origens da reforma religiosa do seculo XVI e do movimento philosophico e positivo das sciencias nos seculos seguintes.

O Imperio de Carlos Magno constituiu, pois, um periodo curto e brilhante depois d'esse espaço obscuro e terrivel das invasões, em que tantos povos de origem differente se precipitaram sobre o esqueleto do antigo mundo romano.

Sob a acção poderosa de Carlos Magno, a unidade administrativa do Imperio podia considerar-se completa. Os delegados do poder central, duques, condes, vigarios e outros funccionarios, governavam os diversos Estados, quasi reduzidos a provincias, em nome do imperador, em quem residia o poder supremo indiscutivel e respeitado. Já no tempo de Carlos Magno, comtudo, o espirito de rebellião lavrava entre estes funccionarios, cujo caracter germanico, guerreiro e independente, altivo e ambicioso do poder, os levava a pensar na hereditariedade dos cargos e na permanencia das funcções. O prestigio pessoal do imperador contrariára-lhes os designios, que tomaram vulto e animo depois da sua morte. Estas tendencias definem a origem e são a causa da organisação do

feudalismo

, constituido no seculo XIII, em que tambem se manifesta o primeiro periodo do Estylo Ogival.

Os filhos e netos de Carlos Magno não lhe haviam herdado nem o prestigio nem as qualidades pessoal. Tibios e ambiciosos, em continuas guerras, enfraqueciam-se mutuamente, deixando engrossar a idéa de independencia, que sempre germinára entre os delegados imperiaes. Assim, o fraco Carlos-o-Calvo, rei de França, reconheceu aos senhores, que o eram já de facto, o direito da hereditariedade e certa independencia, na

Capitularia

de 877, anno da sua morte, que define historicamente o começo do feudalismo.

Ao mesmo tempo, nas classes sociaes inferiores, constituidas principalmente pelos vencidos e pelos pobres e trabalhadores, lavrava tambem o espirito da liberdade, animado pelo Christianismo e pelas tradições das antigas instituições romanas. A Republica excitára sempre a vida local. O Imperio, depois, restringira-a successivamente; conservando-lhe, apenas, as funcções indispensaveis para facilitar o exercicio do poder central. Esta acção, a decadencia dos costumes dos cidadãos dos ultimos tempos e as responsabilidades fiscaes dos municipios romanos, fizeram decaír as

curias

da sua primitiva grandeza.

É sabido que nos ultimos tempos do Imperio as funcções municipaes, consideradas de perigo e onerosas, não eram disputadas, como outr'ora; para obter os

curiales

, os imperadores viram-se forçados a obrigar os cidadãos a desempenharem estes cargos, com penas e multas correspondentes. O espirito communal, todavia, não se extinguira de todo nem com a depravação dos costumes romanos, nem com a conquista dos barbaros. No sul da França, por exemplo, mais livre das invasões, os antigos municipios romanos haviam-se conservado com maior ou menor pureza.

Além d'isso, a tradição d'estas instituições locaes mantinha-se, e os seus principios existiam vivos, com o brilho das legislações theoricas, no antigo direito romano. É muito provavel, tambem, que o espirito de fraternidade e de solidariedade de certas classes romanas, como as dos artifices e dos operarios, tivesse atravessado o longo collapso do V ao X seculo. Pelo menos parece serem d'isto exemplo as associações

franco-maçonicas constructoras

, que tanta influencia tiveram na arte ogival e, a nosso ver, se não se filiam nas similares romanas, pelo menos derivam d'ellas, como exporemos a seu tempo, n'outro ponto d'este livro.

Seja como for, julgamos que os dois principios, o

feudalismo

, nascido do espirito barbaro, e o movimento das

communas

, insufflado pelo espirito christão, sem duvida os agentes principaes da civilisação dos seculos XI ao XV, manifestaram as primeiras tentativas de evolução entre o Imperio de Carlos Magno e os começos do seculo XI, no qual na realidade começa a

Renascença,

que se operou durante um longo periodo, com relampagos admiraveis nos seculos XIII e XVI, sobretudo sob o aspecto da arte.

De facto, a Edade-Media parece dividida em dois periodos distinctos: o primeiro do seculo V ao seculo X, o das terriveis luctas entre os tres principios, o classico, o christão e o barbaro; o segundo periodo do seculo XI ao seculo XV, o da lenta combinação e fusão d'estes principios. No seculo V, a luz já quasi crepuscular do grandioso mundo classico perde-se na noute, longa e tempestuosa noute d'alguns seculos. A pallida aurora do mundo moderno começa a despontar a partir do seculo XI.

Estes dois periodos são definidos por um facto historico interessante e de alguma importancia. O espirito mystico do Christianismo e as profundas miserias, soffridas pelo mundo romano logo após a victoria d'esta religião, geraram a lenda do

millenio

periodo de mil annos durante o qual a humanidade dos vivos e os martyres e adeptos do Christianismo resuscitados gosariam, sob o proprio reinado de Jesus Christo, todas as felicidades e os maiores bens sobre a terra. O principio d'estes seculos de Justiça implicava logicamente o fim de um mundo cheio de dores e flagellos, que assim foi prefixado para o ultimo dia do seculo X.

A superstição teve sempre grande presa sobre os espiritos ignorantes e fracos; julgue-se, pois, da influencia na Edade-Media d'esta prophecia, fundada em textos sagrados, tendo uma longa tradição e admittida por homens superiores, até por alguns papas. Nos fins do seculo X, a approximação d'este dia tremendo amortecera todas as expansões da actividade humana. Para que servia, com effeito, trabalhar, produzir, construir, fazer esforços, quando estava prestes o fim d'este mundo e o principio d'aquelle em que todos seriam eguaes e felizes, reinando sobre a terra a justiça e a felicidade sob o sceptro do proprio Christo?!

Por isso, a historia descreve o collapso profundo e crescente, que se apoderou do mundo christão, quando se avisinhava esse dia de Juizo, tão admiravelmente traduzido pelo desconhecido poeta medieval de um dos mais bellos canticos da egreja:

Dies irae, dies ille Solvent seculum in faville.

N'esse dia um panico profundo envolveu todos os espiritos. As egrejas encheram-se de fieis, que esperavam a catastrophe entre prantos e rezas; ora, por uma doce ironia da natureza, a aurora do primeiro dia do seculo XI raiou esplendida.

Para apreciar bem a importancia d'este facto, que hoje parece pueril, é preciso transportarmo-nos aos primitivos tempos da Edade-Media, avaliarmos a ignorancia extrema de todas as classes sociaes, com rarissimas excepções e essas escondidas principalmente nos conventos; apreciarmos, emfim, o espirito publico n'um tempo em que primava a idéa religiosa, não tendo outros competidores.

A passagem do perigo imminente alliviou a alma humana, dando-lhe expansão ás faculdades creadoras e activando-lhe o exercicio do trabalho. Assim, o segundo periodo da Edade-Media é bem differente do primeiro.

No seculo XI, a sociedade christã entrou n'uma evolução accentuada. O feudalismo achava-se quasi constituido. Esta nova organisação social espalhou-se pela superficie do antigo imperio de Carlos Magno. A terra, toda dividida em

feudos

, pertencia aos suzeranos; mas os

senhores

tinham n'esses feudos quasi absolutos direitos de soberania, absorvidos a pouco e pouco aos reis, agora confinados em pequenos Estados propriamente seus.

Em compensação, estes suzeranos recebiam dos feudatarios o respeito pessoal e a defeza da sua honra, auxilios prefixados em homens equipados a cargo dos mesmos feudatarios em caso de guerra e, emfim, rendas pecuniarias, ou certos impostos cobrados por conta do suzerano, que ás vezes tambem conservava o direito de justiça, funcção em geral independente dos senhores feudatarios. Esta organisação politica era, na realidade, uma federação de pequenos Estados, tendo um soberano ou imperador mais ou menos nominal.

O direito reconhecido aos senhores feudaes de crearem dentro dos seus Estados novos feudos, disseminava as baronias e originava uma hierarchia de suzeranos secundarios, seculares e ecclesiasticos. Os grandes dignitarios da egreja, os bispos, eram senhores feudaes na sua diocese e suzeranos nos seus Estados. As grandes doações, feitas á egreja, haviam multiplicado o numero dos senhores feudaes ecclesiasticos, que chegaram a possuir em França e Inglaterra o quinto das terras, e o terço na Allemanha.

N'esta organisação autonoma e guerreira sente-se claramente o espirito dos barbaros, que seculos antes haviam destruido o Imperio Romano. As violencias e as luctas intestinas entre estes senhores eram constantes e traduziam-lhes o caracter audacioso e cupido; o amor pelas aventuras e o desejo ardente do poder arremessavam-n'os uns sobre os outros, impondo-se reciprocamente pelo direito da força n'uma sociedade, onde eram mal reconhecidos pelos fortes e poderosos os principios do direito e os dictames da justiça. Assim, a egreja, em nome da religião, unica influencia energica sobre aquellas almas de bronze em corpos vestidos de ferro, procurou intervir, definindo com modestos resultados a

trégua de Deus

, a prohibição da lucta em certos dias da semana.

Estas poderosas unidades guerreiras repousavam, como era logico, sobre a servidão das classes civis, principalmente das mais numerosas e pobres. Em verdade, o Christianismo tinha adoçado o caracter duro e barbaro da escravidão classica. No regimen feudal, a classe dos miseraveis, os

servos de gleba

, que em torno dos castellos agricultavam a terra e eram herdados como fazendo parte d'ella e sendo verdadeiros instrumentos de trabalho, tinha subido um pouco na escala da escravatura, cujos pontos culminantes se desenham no mundo classico e depois no moderno, quando se desenvolveu o infame trafico das raças de côr, consideradas inferiores ás brancas. O feudalismo, repassado pela religião christã, olhava-os como homens, sem direitos politicos e civis é certo; mas estava longe, muito longe ainda, de os considerar, como o

antigo regimen

, o das monarchias absolutas fundadas no Catholicismo, o fez depois, uma multidão de miseraveis, sem garantias, sem direitos e quasi sem familia, que os cynicos dos seculos XVII e XVIII consideraram massa

taillable, et corvéable à merci

.

Assim, no segundo periodo da Edade-Media, pelo menos a grande maioria do povo—digamos a palavra—gozava de certas vantagens, que provinham dos dois espiritos em acção parallela: o germanico e o christão. A familia offerecia uma expressão mais elevada e perfeita. Na antiguidade o casamento era um contracto, na Edade-Media um sacramento, que ligava por toda a vida. O Christianismo consolidára a pedra angular das sociedades com a indissolubilidade do matrimonio. Depois, Jesus Christo encarnára-se no seio de uma mulher, a Virgem. O espirito germanico, acceitando estas doutrinas, trouxe a essa unidade da familia, onde o homem se completa, os seus caracteres de hombridade e de liberdade; o seu

ponto de honra

, emfim, que foi uma feroz creação moral do feudalismo, adoçada pelo Christianismo.

Ainda foi o espirito germanico que implantou no mundo romano o julgamento pelos eguaes—pelos pares—origem do moderno jury. Na Edade-Media o imposto era admittido pelos contribuintes, o que envolvia

prévia

consulta, nem sempre talvez respeitada, mas em summa reconhecida. A egreja, n'esse tempo ainda, conservava o principio electivo romano para as altas dignidades ecclesiasticas. Estes e outros principios temperavam um pouco a tyrannia feudal, e quasi todos elles desappareceram no regimen despotico das monarchias absolutas e da theocracia pontificia.

As classes civis na Edade-Media agrupavam-se nos grandes centros, onde se mantinham as transacções e as industrias rudimentares do tempo, e nos pequenos burgos, povoações dispersas creadas naturalmente, ou facilitadas pelos senhores dos feudos, que davam guarida e protecção aos fugitivos dos feudos limitrophes; além d'isso, eram formadas por essa multidão de

servos de gleba

, que dispersos ou concentrados perto dos castellos, constituiam os verdadeiros agricultores, como os

sudras

da India antiga.

O movimento communal nascera naturalmente nos grandes centros, promovido pelas causas geraes, precedentemente apontadas. Demos n'este ponto idéa da essencia e constituição d'este movimento, em que tiveram acção importante os trabalhadores d'esse tempo, como teem nos tempos modernos os operarios industriaes na formação das futuras sociedades socialistas.

A acção das associações, ou confraternidades operarias, na constituição das communas e a influencia que exerceu uma das mais poderosas, principalmente no periodo ogival, a dos

franco-maçons constructores

, obrigam-nos a abrir um parenthese para nos occuparmos das suas origens e dos seus fins. As origens provaveis estão nas associações romanas similares, ou por filiação directa e successiva, o que aliás não demonstra a historia no grande collapso do V ao X seculo, ou organisada sob a acção das tradições e das leis romanas na phase activa das construcções do primeiro e segundo periodo romanico, nos seculos XI e XII.

Pelo primeiro ou pelo segundo processo, ou talvez por ambos, ninguem póde deixar de reconhecer a profunda similhança entre as duas associações: as romanas e as da Edade-Media. Já no tempo da Republica, havia em Roma um collegio de pedreiros, cuja existencia se prolongou durante o Imperio. Constituia uma verdadeira associação de classe no sentido moderno da expressão, composta de architectos, pedreiros e canteiros ligados pelos principios da confraternidade moral, mutuo auxilio e protecção ao trabalho. O Estado reconhecera-lhe a existencia. Possuia estatutos, propriedades, salas de reunião; era, emfim, uma instituição legal.

No regimen interno, os associados, classificados mestres, companheiros e aprendizes, tinham assembléas deliberantes, secretarios, fundos proprios administrados por um thesoureiro, archivos, escolas, em summa, tudo que caracterisa uma poderosa associação. As praticas internas, mais ou menos secretas, empregavam symbolismos, entre os quaes figuravam as ferramentas dos respectivos officios.

Esta vasta associação espalhava-se por todo o Imperio—ella, as suas lojas filiaes, ou outras associações congeneres—era privilegiada pelas leis; por exemplo, não pagava impostos. N'estas condições, abrangia uma area tão extensa que existem d'ella noticias historicas na Gallia e na Bretanha, onde provavelmente deu origem, com outras associações romanas, aos primitivos

guilds

, os antecessores dos poderosos Trade-Unions da Inglaterra moderna.

Esta simples descripção, fornecida pelos escriptores romanos, manifesta similhanças tão singulares com os caracteres fundamentaes das grandes associações constructoras da

franco-maçonaria

, que pela filiação directa, o que nos parece mais plausivel, ou pela influencia da tradição, as mesmas idéas e os mesmos interesses approximaram estas classes de operarios, salvo as differenças provenientes da acção do Christianismo na Edade-Media.

Dos seculos V ao X, espaço de tempo a que chamamos o primeiro periodo medieval, as miserias, as crises sociaes e a acção mystica do Christianismo haviam desenvolvido o espirito cenobitico e monastico, como necessidade da segurança e do descanço do corpo, e da paz e da liberdade do espirito. As sciencias e as artes refugiaram-se nos primeiros conventos. Em 529, por exemplo, S. Benedicto fundou a celebre ordem dos benedictinos, a cujas praticas religiosas foram impostas tambem, como obrigações scientificas, a conservação da sciencia classica e a copia dos manuscriptos. Esta ordem poderosissima, cujos trabalhos valiosos são conhecidos, espalhou-se por todo o orbe christão, constituindo grandes e historicas abbadias.

Em volta d'estes conventos, que logicamente comprehendiam os architectos e os constructores dos mosteiros e dos templos, agruparam-se os operarios, organisando as primeiras associações christãs. Ora, a tradição e a essencia das grandes associaçães romanas deviam manter-se no espirito e nos archivos dos mosteiros d'esse tempo. Por esta fórma se explica a ligação, directa ou indirecta mas indiscutivel, das associações romanas e das medievaes.

Assim, os primeiros traços historicos da

franco-maçonaria

datam do seculo XI, isto é, do seculo em que se define o segundo periodo do Estylo Romanico. No seculo XIII, estas associações apparecem já independentes, com organisação completa e construindo as maiores cathedraes do Estylo Ogival. Teremos occasião de desenvolver o assumpto n'outra parte d'este livro.

É indiscutivel que as corporações de artes e mesteres, embora bem rudimentares n'essa epocha, feitas á imagem e similhança das romanas, deviam constituir grandes forças revolucionarias nos primeiros movimentos communaes. A communa nasce, pois, do amor da liberdade, manifestação do espirito germanico, do principio das organisações methodicas e regulares, tradição do espirito romano, e dos sentimentos de caridade e mutuo auxilio, essencia intima do Christianismo. Em nenhum facto historico da Edade-Media se distingue mais clara e profundamente a acção parallela e harmonica das tres manifestações d'esse espirito, de que falavam as escolas de Anaxagoras e de Socrates. A communa, todavia, representava tambem a ligação dos fracos quasi inermes, contra o feudalismo guerreiro e potente. A natureza intima d'esta instituição democratica provém de todos estes principios.

Os primeiros movimentos communaes accentuados datam do seculo XI, embora, como dissemos, as organisações municipaes romanas tivessem subsistido nos pontos do Imperio mais livres das invasões barbaras, por exemplo no sul da França. Nos seculos XII e XIII a organisação communal era já poderosa. Estas communhões, confederações, ou conjurações, segundo os nomes caracteristicos do tempo, haviam-se formado nos antigos centros, ou em centros novos. O seu principal fim, n'esses tempos de guerras e desastres, foi a defeza reciproca; a primeira obrigação dos cidadãos consistia em se reunirem armados, quando tocava a rebate o sino do campanario, em volta do qual se agrupava a communa, e d'onde esculcas vigilantes, noite e dia, espreitavam os perigos de subitas investidas. A organisação interna das communas nasceu logicamente d'estas agremiações primitivas, realisadas á sombra da egreja, que, ás vezes, constituia o ultimo baluarte das luctas entre os burguezes e a cavallaria feudal.

Pela habilidade, pela pertinacia, aproveitando com astucia as occasiões favoraveis das luctas entre os senhores feudaes e a sua necessidade de dinheiro, as communas foram obtendo a pouco e pouco a organisação autonoma, umas livres constituindo quasi

feudos burguezes

, se nos consentem a expressão, outras sujeitas ao delegado do senhor ou do suzerano, o

preboste

; mas todas reunindo uma força respeitavel, depois aproveitada pelos senhores mais habeis para instrumento dos planos de restauração da unidade do poder real, que antecedem e preparam a formação das monarchias do direito divino.

No seculo XIII as communas livres e do

prebostado

eram numerosas e os seus direitos mais ou menos reconhecidos por contratos, entre os senhores feudaes e as agremiações burguezas. Libertadas dos antigos serviços pessoaes, tendo uma organisação administrativa independente e electiva, que envolvia, ás vezes, o direito de justiça, em qualquer caso repousando sobre o julgamento dos

pares

, livres de tributos arbitrarios substituidos por contribuições fixas, as communas manifestam n'este seculo certa unidade de organisação e os caracteres de liberdade e de vida locaes.

Taes foram, descriptas na essencia e em rapidos traços, as duas forças, o feudalismo e as communas, que fizeram a historia do segundo periodo da Edade-Media. N'este meio social, se a ignorancia era profunda, as sciencias e as artes davam os primeiros passos. A Escholastica, nascida com o Imperador Carlos Magno, depois da morte de Alcuino e de Engenhard, perdera o brilho que attingira nas escolas e academias imperiaes. Revive no seculo XI, em que Abelard, celebre pelos seus amores com Heloisa, lhe imprime um vigoroso impulso, do qual resultará o grande movimento Escholastico do seculo XIII, com as figuras primaciaes de S. Thomás de Aquino, o auctor da Summula Theologica, e de Roger Bacon, o sabio universal e prophetico. Estes dois grandes homens representam duas escolas, a primeira que por evolução successiva devia produzir a theologia e a metaphysica, a segunda que originaria o methodo experimental e é a essencia positiva das sciencias modernas.

No seculo XI começam tambem as guerras religiosas, o embate das grandas forças do islamismo, accumuladas ao sul da Europa, e do Christianismo, occupando o centro e o norte. A primeira lucta corpo a corpo, travada nos campos da Palestina, constituiu a Cruzada do anno de 1096. O feudalismo move-se em peso e 600:000 guerreiros reunem-se em Constantinopla, ponto de partida. As populações servis da Europa christã respiram, alliviadas d'esta força tremenda, que vae a Jerusalem libertar o Santo Sepulcro. As fileiras rareadas do feudalismo facilitam a constituição communal. Alem d'isso, o movimento das Cruzadas, que dura dois seculos, activa as relações de todas as ordens com o Oriente, põe as nações occidentaes em mais directa communicação com a arte byzantina, que tanta influencia tivera já sobre o Estylo Latino, e contribue poderosamente para a riqueza e dispersão dos Estylos Romanico e Ogival.

N'este pequeno quadro dos seculos XI e XII pretendemos definir o

meio social

, em que se desenvolveram os mais completos estylos da arte christã. A pintura é incompleta, mas um trabalho d'esta natureza não se presta a maiores desenvolvimentos historicos. Os necessarios fal-os-emos tratando dos Estylos Romanico e Ogival. N'este ponto, basta notar que o espirito humano teve rapida e ascensional evolução nos dois seculos XI e XII, o periodo do Estylo Romanico, e que o seculo XIII representa na historia uma phrase brilhante, um relampago da Renascença, em que principia o periodo ogival.

CAPITULO SEGUNDO

ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO ROMANICO

Os

meios

sociaes em que se formaram os Estylos Latino e Byzantino descrevemol-os, com rapidos traços, em anteriores capitulos. Seguindo o methodo adoptado, apreciámos as circumstancias historicas em que se operou a fusão d'esses estylos e fizemos depois o quadro do estado social dos seculos XI e XII, periodos medios durante os quaes se definiram as duas feições do Estylo Romanico, o da constituição perfeita e o da transição para o Estylo Ogival.

D'estes quadros, se embora curtos ficaram perfeitos, devemos tirar conclusões geraes. A fusão dos tres espiritos, o classico, o germanico e o christão, está quasi realisada. A homogeneidade do pensamento prepara a das sociedades. É a aurora do mundo moderno, que desponta ha oito seculos. São enormes os dias da historia da Humanidade; duram por longo tempo, como por myriades de seculos se contam os da historia da Natureza.

O espirito da liberdade começa o seu caminho, nem sempre directo e facil mas constante e orientado, para as instituições modernas. Essa força poderosa, a liberdade do pensamento, vae engrandecer as antigas sciencias, crear outras novas e, como a arte é uma sciencia, engrandecel-a tambem em todos os ramos, refundindo a antiga esthetica, como transformou a philosophia classica.

A tendencia para a ordem social produz a riqueza, a relativa instrucção desenvolve o gosto, elementos que constituem a melhor atmosphera do trabalho intellectual e da sua applicação pratica. As sciencias e as artes saem dos conventos, onde a barbarismo dos primeiros seculos as obrigára a procurar refugio. Os senhores fazem os seus votos e cumprem-n'os, elevando templos, e constróem castellos e palacios nos seus Estados. As communas nascentes edificam os seus campanarios e tambem os seus muros e fortalezas. A emulação estabelece-se. Os pequenos tyrannos até procuram salvar as almas, mercadejando com Deus e cobrindo o sangue dos assassinios e as torpezas dos actos com templos admiraveis. Sirva de exemplo a grande Cathedral de Milão, construida em 1386 por João Galeas Visconti, duque de Milão, um dos maiores malvados do seu tempo, aliás bem fertil em individualidades d'esta especie, dispersas por toda a Europa feudal.

O Christianismo domina sem rival; para elle começára tambem a unidade que teve depois n'outros seculos. Chame-se Catholicismo, religião reformada ou orthodoxa grega, é sempre o mesmo espirito tendo acção identica sobre os destinos do orbe christão, que nós e os hespanhoes havemos de alargar mais tarde, descobrindo os mais longinquos confins do mundo.

Este bello movimento do espirito humano, iniciado nos seculos XI e XII, avigora-se no seculo XIII, cuja atmosphera facilitou a formação do Estylo Ogival, aquelle que até hoje produziu, em menos tempo, a maior quantidade de monumentos de todas as ordens, admiraveis manifestações de grandeza e de qualidades de arte. Agora, porém, circumscrevamos os nossos

raciocinios

ao Estylo Romanico secundario e ao terciario, chamado de transição, porque n'elle, durante o seculo XII, se opera a passagem para o Estylo Ogival.

As grandes provincias occidentaes do Imperio Romano, a Gallia, a Iberia, a Bretanha, haviam sido devastadas pelas invasões germanicas; a propria Italia, como vimos, soffrera os maiores flagellos, perdera primeiro a hegemonia e depois fôra arrancada á corôa imperial do oriente. A miseria era extrema em toda a parte. Na Italia, por exemplo, no principio do seculo VI, S. Benedicto retirava-se para Subiaco, a cem kilometros de Roma, para n'este

vasto deserto

levar vida contemplativa e ascetica, creando depois com os adherentes, que dia a dia se agrupavam em volta d'elle, a celebre ordem dos Benedictinos. Este estado social, perigoso e incerto, e o proprio mysticismo da religião christã crearam as primeiras associações religiosas, que satisfaziam ás necessidades do espirito e á segurança e ao socego dos homens, que não andavam envolvidos nas tremendas luctas do tempo. Taes são na essencia as origens das ordens religiosas, que, a pouco e pouco, principalmente depois das Cruzadas, se organisaram regularmente.

N'estas associações se refugiaram a sciencia, a philosophia e a arte, que precisam para boa cultura o socego do corpo e a tranquillidade do espirito. Algumas ordens religiosas, como as dos Benedictinos, tinham nos seus estatutos escriptos, além de regras e praticas religiosas, obrigações de caracter scientifico; ora, esta ordem teve, como é sabido, uma expansão enorme e rapida, depois da fundação, no seculo VI, do primeiro mosteiro em Monte Cassino. De facto, esta poderosa e sabia associação espalhou-se pelo occidente, dando origem a abbadias que ainda hoje teem nome na historia: em França as de Cluny e Citeaux, construidas nos seculos X e XI, na Allemanha as de Ratisbonne e Salsburg, em Inglaterra as de York e de Westminster, para não citar ainda mais outras. Tambem, nos ultimos seculos do primeiro periodo da Edade-Media até ao principio do seculo XI, se formou em Italia a associação civil dos

irmãos pontifices

, que depois se constituiu em ordem religiosa; os seus fins consistiam em construir e reparar pontes, facilitando assim o caminho das peregrinações, que se dirigiam aos logares santos e a outros pontos de veneração christã.

A existencia d'estas associações religiosas exigia a construcção de grandes edificios, para a vida em communidade, e a da egreja para os exercicios divinos. Os primeiros associados em Christo foram assim, logicamente, os architectos e constructores dos proprios templos; quasi os unicos quando as miserias da sociedade se accentuaram ainda mais nos seguintes seculos. Em volta dos conventos e das egrejas em construcção, agrupavam-se os operarios, os restos das antigas associações romanas, talvez, ou pelo menos gremios nascentes que mais tarde deviam dar origem á

franco-maçonaria

. Assim, ao lado da sociedade religiosa constituia-se outra associação civil, que os proprios superiores ou abbades cultivavam pela sciencia e pela religião, organisando-as e não desdenhando a honra de fazer parte d'estas corporações de artes e officios.

O movimento iconoclasta favorecia estas organisações, trazendo artistas experimentados do oriente, que no occidente procuravam o trabalho e a protecção dos conventos. Entre os grandes serviços que o Christianismo prestou á Humanidade, durante a Edade-Media, não foi este o menos importante: conservar a sciencia e a philosophia classica e desenvolver novas feições estheticas.

Assim correram as cousas até ao seculo IX, quando sobreveiu a grande invasão dos normandos, que, descendo do norte, infestaram o occidente da Europa, a França e principalmente a Bretanha. Estes grandes

piratas

do mar, que

as tempestades levavam aonde elles queriam ir

, assolavam, saqueavam e queimavam tudo na sua passagem, mais sequiosos de presa e mais brutos de sentimentos do que os proprios hunos de Atilla. A pouco e pouco, é certo, uma civilisação superior infiltrou-se-lhes no sangue e adoçou-lhes os costumes selvagens; mas os grandes males estavam feitos e era indispensavel reconstruir os edificios, as egrejas e os conventos, cujas ruinas, ainda negras do fumo dos incendios, attestavam a brutalidade dos novos invasores.

Os primeiros constructores christãos tinham encontrado edificios feitos, as basilicas; apropriaram-se d'ellas, imitaram-n'as por toda a parte, saqueando as riquezas dos antigos templos classicos para as adornar. Agora, os architectos occidentaes, os frades principalmente, encontravam-se em circumstancias differentes. As necessidades do culto tinham modificado as egrejas, embora conservando-lhes a antiga feição; a estabilidade das associações religiosas manifestava outras exigencias na duração dos edificios. O tempo e os flagellos da guerra haviam esgotado os thesouros, d'onde os antigos architectos tinham tirado a ornamentação dos templos primitivos; emfim, ao novo Estylo Byzantino, espalhado e conhecido no occidente, offerecia-se campo largo e aberto, onde a sua influencia se podia exercer com grande actividade. Todas estas condições especiaes tendiam a imprimir novos caracteres ás construcções architectonicas.

A solidez do edificio e a sua maior duração envolviam o problema da natureza da cobertura. Os novos constructores resolveram-n'o empregando a

abobada

, que fôra excluida das construcções primitivas do Estylo Latino e tinha sido raras vezes usada no Estylo Romanico primario. A abobada de volta inteira ou abatida era muito usada em Roma; mas os edificios escolhidos para egrejas ou para modelos dos templos do Estylo Latino, as basilicas, não a tinham, nem a comportavam, dadas as condições de estabilidade e de espessura dos muros, ou das columnas, sobre as quaes repousava a cobertura. A tradição, principalmente em materia religiosa, tem sempre grande força; por isso, as tradições da basilica foram, n'este ponto, quasi absolutamente conservadas.

Além d'isso, o Estylo Byzantino empregára a cupula de construcção difficil e a abobada em arco de circumferencia, facil de construir; estamos, pois, plenamente convencidos de que o caracter fundamental do Estylo Romanico secundario, a

abobada

, foi o resultado da influencia do novo estylo oriental. Mas o systema de cobertura abobadada exige, sem discussão, maior espessura de paredes, que lhe possam sustentar o peso e resistir ás pressões lateraes; por isso, os edificios romanicos apresentam estes caracteres, pela diminuição dos vãos abertos e pelo emprego de contrafortes e botareos. Aqui, são as proprias necessidades da construcção, que levam os architectos a adoptar os processos e as fórmas do Estylo Byzantino. Emfim, logicamente, se o arco de circumferencia predomina na parte principal do edificio, a harmonia do estylo indica-o para os outros elementos, portas, janelas e arcos, assim tambem traçados no Estylo Byzantino.

Os architectos latinos, acceitando a ordenação classica, preoccuparam-se pouco com os ornamentos externos; pelo contrario, a interior das basilicas deparára-se-lhes rica e era-lhes facilitada pelos excellentes materiaes e productos artisticos, com que topavam por toda a parte, restos conservados dos precedentes estylos. Os architectos romanicos trabalhavam em mais perfeita liberdade de acção; mas tinham poucos thesouros artisticos para ornamentação das egrejas. Além d'isso, a solidez dos edificios e a sua longa duração provavel convidavam-n'os a estudar e a realisar combinações estheticas, que os embellezassem no exterior.

A extensão do uso dos sinos e a invenção dos relogios exigiram a construcção de elevadas torres, que muitas vezes tambem, como já vimos, satisfaziam a necessidade de defeza, ultimo baluarte da communa, ou castello do convento. Era, pois, natural que essas torres symetricas, por exigencias estheticas e do clima ornadas de agulhas ou de elevados corucheus, se tornassem elementos principaes das fachadas mais ricas e grandiosas.

Por esta fórma, muito logicamente, se deduzem os caracteres fundamentaes do Estylo Romanico, devidos uns a influencias dos anteriores estylos, outros a necessidades de construcção, a novos usos e ritos e até á acção do clima, que em certas circumstancias influe sobre a escolha e emprego dos materiaes e por elles na formação dos estylos.

Expostas estas idéas geraes, que a nosso ver ligam as condições do

meio

social dos seculos XI e XII, durante os quaes o espirito humano manifestou determinada phase, com os caracteres do estylo que é a sua feição especial nesse periodo da evolução da arte, desçamos a explanações indispensaveis para melhor distinguir e apreciar o Estylo Romanico secundario, que reinou no seculo XII.

É bom notar que a classificação dos estylos por seculos é um pouco arbitraria; querendo, apenas, significar que dentro d'este espaço foi construida a maioria dos principaes monumentos de determinado estylo; o que não quer dizer que alguns o não fossem antes ou depois d'esse limite. Além d'isso, entre as differentes nações, que usaram do mesmo estylo, não se manifesta elle rigorosamente nos mesmos periodos, nem até offerece perfeita unidade e similhança de caracteres, que, pelo menos nos secundarios, apresentam differenças sensiveis provenientes de varias causas, entre as quaes o clima, os materiaes de construcção e as tradições locaes se devem considerar importantes.

As disposições anteriores das egrejas romanicas offerecem muitas variantes. Algumas, talvez as mais numerosas, seguem o typo tradicional das basilicas; tres naves, cortadas pelo transepto, a do centro mais ampla e prolongada pelo côro, que n'este estylo se alongou mais, constituido por um corpo recto terminado pela abside. Como vimos, no primitivo Estylo Latino a abside formava o

presbyterio

, depois seguiam-se o altar e o côro, dispostos já na nave central; nas egrejas romanicas estes tres elementos foram introduzidos na abside alongada por paredes rectilineas, espaço a que o uso deu o nome geral de côro. Proveiu este engrandecimento de necessidades do culto, da melhor separação do sanctuario em relação ao templo e do uso generalisado dos orgãos.

N'esta fórma, algumas vezes as naves lateraes avançam, ladeando o côro até á curva da abside, outras vezes circumdam-n'a por completo, constituindo a

charola, ou deambulatorio

, para o qual nos ultimos tempos se abriram capellas. Infelizmente, Portugal não possue exemplar algum completo e rico d'este estylo. Os que existem são pequenos, pobres e estragados por successivas restaurações antigas que lhes deturpam as fórmas e a ornamentação: mas a Sé de Lisboa, a que nos referiremos em capitulo especial, fornece exemplo das disposições particulares do Estylo Romanico.

N'este plano, o mais habitual, desenha-se com nitidez a cruz latina, formada pela nave central e pelo côro, cortados pelo transepto. Em algumas egrejas nota-se o facto singular do eixo do côro, em vez de prolongar o da nave central, inclinar-se para a direita do observador. Esta anomalia foi attribuida a defeitos de construcção descuidada, vulgar nos edificios romanicos menos importantes, ou ao symbolismo da inclinação da cabeça de Jesus Christo, quando expirou sobre a cruz. A segunda hypothese parece-nos mais provavel.

Outras egrejas offerecem a disposição octogonal, imitando n'este caso as byzantinas de S. Vital de Ravenna e do Santo Sepulcro de Jerusalem, que serviu de modelo, como era natural, a muitos templos, até com identica invocação. Existe n'este genero uma egreja, que nos parece constituir excepção muito singular, e onde em cada lado do octogono interior ha uma abside: a de S. Miguel de Entraigues, em França. Emfim, a planta circular, se não abunda, tem exemplos n'este estylo.

Em geral, a porta ou as tres portas de entrada defrontam com o côro; mas egrejas existem de duas absides ou córos fronteiros, isto é, tendo dois transeptos nos extremos da nave central; n'este caso as entradas são lateraes.

A cobertura empregada foi a abobada, principalmente a partir dos fins do seculo XI. Em data anterior nas egrejas subsistiram em geral as coberturas de madeira; este facto é muito provavel ter-se dado nas mais pobres e em regiões ricas de florestas. Assim, pareceu-nos que parte das egrejas das nossas povoações do norte foram do Estylo Romanico secundario ou do periodo de transição, restauradas no tempo ogival e no da renascença manuelina, de que teem em geral muitissimos elementos; ora, estas egrejas tiveram sempre, dada a espessura das paredes e das arcadas das naves, cobertura de madeira. Talvez possam dar d'isto exemplo duas pequenas egrejas excellentes, a de Caminha e a de Villa do Conde. Fazemos esta affirmação com reservas, porque entre nós as restaurações, em regra, foram tão más e radicaes, que mascararam a feição anterior dos edificios; mas que tenham sido do Estylo Romanico secundario ou do terciario, a sua cobertura foi sempre de madeira.

A fórma das abobadas póde reduzir-se a dois typos: o de volta inteira, ou o que resulta da penetração reciproca de cylindros ou cones de base circular, constituindo as abobadas de arestas, ou as de arco de claustro. Estas fórmas são fundamentaes nas construcções do segundo periodo romanico, porque a ogiva, quando apparece nos começos do seculo XII, caracterisa o terceiro periodo, o de transição, como veremos em breve.

Tambem o Estylo Romanico tem as cryptas do latino, maiores ou menores e em geral debaixo do côro, nas egrejas mais importantes.

Ainda as torres caracterisam este estylo. São relativamente pouco elevadas, massiças, ornadas de

arcaturas

, ou de arcos de volta inteira, e cobertas por agulhas de pequena altura. Umas vezes ficam separadas do corpo do edificio, como é de uso nos de Italia, outras vezes, fazendo parte d'este corpo, ou ornamentando-lhe a fachada. Algumas egrejas teem mais de uma torre, dispostas duas symetricas na fachada e uma outra sobre o cruzeiro, interiormente aberta, formando uma especie de zimborio, ou fechada pela propria abobada d'este cruzeiro. A Sé de Lisboa offereceu a primeira disposição. A terceira torre, caída pelo terramoto de 1755 e de que existem evidentes vestigios, denominava-se

torre sineira

, o que explica os seus fins especiaes, a que foram depois applicadas as grandes torres da fachada.

Um elemento, que nos parece constituir um dos caracteres importantes do estylo romanico, é a existencia de galerias, mais ou menos largas, sobre as arcadas que dividem a nave central das lateraes. Estas galerias, denominadas

triforios

, de pequenos arcos simples ou trilobados, são verdadeiras reminiscencias dos porticos superiores das basilicas, onde as viuvas e as virgens assistiam isoladas ás ceremonias religiosas. O exemplo encontra-se na Sé de Lisboa, guarnecida por um triforio nas paredes da nave central e nas do transepto. A construcção moderna tem columnellos com galba e capiteis de dimensões classicas; mas nas sondagens feitas foram encontradas as verdadeiras dimensões do triforio primitivo e o seu typo accentuadamente romanico. Tambem a Sé de Coimbra tem triforio; n'esta egreja, porém, a galeria é muito larga e de fórma especial.

As portas e as janelas são de volta inteira, onde, ás vezes, os

arcos geminados

byzantinos demonstram o parentesco proximo dos dois estylos. Os supportes, os pilares, as columnas e os capiteis, fugindo a todas as proporções classicas, manifestam-se rudes e fortes. Os grandes pilares das naves, até quando já tendem a tornar-se polystylos, são grossos e curtos. A expressão de força sobrepuja n'elles a de elegancia, dando-lhes, aliás, um aspecto grandioso; umas vezes, apresentam-se quadrados e lisos, ou com columnelos nichados nos angulos; outras vezes, cylindricos ou polygonaes, revestidos de meias columnas. Esta disposição prepara os pilares polystilos, isto é, ornados de finos e elevados columnelos, do Estylo Ogival.

Os capiteis apresentam variadissima ornamentação, em geral differente em todos elles, ainda que pertençam ao mesmo vão. Este facto caracteristico será explicado, quando tratarmos do Estylo Ogival. Offerecem a fórma de pyramides quadradas ou conicas, truncadas e invertidas, coroados por um simples abaco. As columnas desobedecem a todos os modulos classicos, não teem galba, apresentam-se cylindricas, em geral, ou ligeiramente conicas.

As arcadas de volta inteira são formadas de varias molduras, as mais ricas ornadas de desenhos, dos quaes já encontrámos alguns no Estylo Byzantino. No interior e no exterior dos edificios romanicos, as

arcaturas

, simples ou entrelaçadas, constituem ornamentos muito vulgares e elegantes das paredes, sobre as quaes teem maior ou menor saliencia.

O conjunto exterior dos edificios romanicos produz no espirito uma impressão caracteristica de força e severidade, embora tambem, ás vezes, de elegancia e riqueza. Os coroamentos elevados, em alguns edificios revestidos de ameias, sobre cornijas repousando em

macheculis

, as torres massiças e quadradas, os muros muito espessos revestidos de botareos pouco salientes, por entre os quaes se abrem as janelas, dão a estes grandes edificios um aspecto de fortificação, de que, em verdade, serviram muitas vezes nos tempos medievaes.

Ao vel-os, melancholicos e sombrios, parece que a sua grande alma de pedra sente ainda as impressões dolorosas das desgraças profundas e dos horriveis flagellos, atravessados pela Humanidade durante essa triste quadra da historia. O seu caracter religioso é para muitos mais completo e elevado do que o dos edificios ogivaes; por isso, hoje o Estylo Romanico começa a ser considerado mais verdadeira expressão da arte christã do que o ogival. Citamos a opinião por curiosidade, embora com ella não estejamos muito de accordo.

As fachadas romanicas variam muito, conforme a inspiração dos architectos, para que possam ser descriptas em schema desenvolvido; mas n'estas fachadas os portaes de entrada, em geral um ou tres, offerecem grande importancia. São formados de archivoltas de muitas molduras mais ou menos ornamentadas, repousando sobre capiteis e columnas da natureza anteriormente descripta. No fundo d'estes portaes de arcadas embocetadas e decrescentes, abre-se o vão da porta, offerecendo em geral um tympano de pedra, ora com baixos relevos symbolicos, ora liso ou formado de pequenos parallelipipedos. D'esta ultima disposição existe entre nós exemplo na antiga porta lateral da Sé de Lisboa, hoje restaurada. Algumas vezes o tympano era de pintura polychromica sobre fundo de ouro, systema que constitue, sem duvida, uma imitação pobre dos ricos tympanos byzantinos de mosaico, como se vêem em S. Marcos de Veneza. Por cima dos portaes, janelas da mesma disposição architectonica dão luz ás naves; a central é a origem da futura rosacea do Estylo Ogival.

O

narthex

, ou galilé, dos primitivos estylos conserva-se nas condições expostas n'outro ponto d'esta memoria.

A ornamentação geral é variada e caracteristica n'este estylo. Folhagens caprichosas entre phantasticos corvos e cabeças de expressões grotescas, combinações geometricas de galões recamados de perolas, zig-zags e arabescos impossiveis de definir constituem reminiscencias do Estylo Byzantino e são precursores do Estylo Ogival. Na porta lateral da Sé de Lisboa foram descobertos e restaurados dois capiteis do lado esquerdo, que nos parece envolverem uma excepção rarissima no Estylo Romanico. Na base dos capiteis, em cada um, duas pombas bem trabalhadas parece dão bicadas em cachos pendentes da folhagem. São dos mais bellos capiteis que temos visto. A pintura polychromica apresenta-se, ás vezes, nos capiteis dourados, de que existem traços evidentes na Sé de Lisboa, ou pintados, assim como os fustes das columnas, as molduras das archivoltas e certos pontos das paredes.

É evidente que a abundancia e perfeição dos ornamentos dependem da edade do estylo, mais rudes e simples no primitivo, mais perfeitos e variados quando se approxima o Estylo Ogival. Assim, quasi todos os elementos principaes d'este futuro estylo se encontram, mais ou menos esboçados no romanico.

Seria quasi impossivel comprehender bem os dois estylos sem os comparar, estudando-os separadamente. No Estylo Romanico, o caracter de todos os elementos é a força e a severidade: no Ogival a elegancia e a suavidade, que mascaram a força sem a diminuir, a não ser na decadencia d'este ultimo.

Eis em rapidos traços os caracteres mais salientes e geraes do Estylo Romanico secundario. Em verdade, não são muito accentuados, exceptuando a abobada, por isso, o estylo talvez seja definido, ou pelo menos completada a definição, pelos caracteres ornamentaes, aliás, tambem sujeitos ás condições particulares e aos materiaes empregados nos differentes paizes. Assim, no sul da França, como na Italia, onde reinou mais accentuadamente o Estylo Byzantino, os edificios romanicos teem qualidades um pouco differentes, embora sempre subordinadas ás regras geraes e ás feições do estylo. Os do sul são mais leves e cuidados do que os do norte; na Allemanha e na Inglaterra manifestam-se mais pesados e de ornamentação mais barbara e primitiva. Em qualquer caso, a grande influencia do Estylo Byzantino, na constituição da architectura dos seculos XI e XII, manifesta-se incontestavel.

O Estylo Romanico terciario—o de transição—apresenta os mesmos caracteres do secundario; comtudo um elemento não empregado no periodo anterior, o

arco em ogiva

, produz logicamente importantes modificações na disposição geral dos edificios. Este arco deve ter sido conhecido em todas as nações da antiguidade, que tiveram grandes constructores e edificios importantes. Se o não empregaram em grande escala, foi decerto porque a natureza dos respectivos estylos, com tendencias horisontaes nas linhas mais apparentes, não se adequava estheticamente ás disposições inversas do arco ogival. As investigações scientificas vão demonstrando este facto e o futuro nos dirá o que se póde ainda descobrir.

O arco em ogiva tem propriedades mechanicas tão evidentes em si, tão faceis de provar pelo simples raciocinio e pela mais modesta experiencia, que seria quasi uma offensa á capacidade, aliás extraordinaria, de alguns architectos classicos suppôr que não lhes foram conhecidas e portanto que não applicaram o arco ogival, quando as condições o exigiram. Todos sabem, com effeito, os extremos cuidados de construcção, na perspectiva e na disposição dos materiaes, que os architectos classicos empregaram no Parthenon: sciencia tão profunda, demonstrada pelo moderno estudo do monumento, como depois não houve exemplo, e em que foram até attendidos os erros visuaes nas grandes linhas horisontaes e perpendiculares. Negar a estes e a outros famosos architectos perfeito conhecimento das vantagens da applicação da ogiva seria um indiscutivel absurdo.

No arco em ogiva as componentes horisontaes das pressões, exercidas sobre os pilares, são menores do que no arco de volta inteira e decrescem successivamente com a maior altura da ogiva. Este theorema é tão facil que a mechanica de todos os tempos o devia ter demonstrado. As rasões pelas quaes começou a ser usado no segundo periodo romanico e depois teve geral emprego no Estylo Ogival, a que deu o nome, eis o que nos cumpre investigar como inducção interessante.

É muito provavel que a solidez e a economia das construcções fossem a rasão suprema da sua adopção, sem, todavia, deixarmos de considerar as condições estheticas de edificios, como os romanicos, que iam tomando fórmas elevadas e ponteagudas, repellindo por sua natureza as grandes linhas horisontaes e as curvas continuas. As qualidades estaticas do arco em ogiva prestavam-se a diminuir a espessura das paredes, isto é, davam aos edificios egual solidez real e tornavam-n'os mais economicos, elegantes e ideaes, se nos permittem a palavra; correspondendo, assim, ao espirito essencialmente mystico e religioso que o Christianismo havia desenvolvido na Edade-Media. A ogiva apparece, pois, como elemento logico de um estylo e expressão esthetica do estado especial do espirito humano no periodo historico, que procurámos definir n'outros capitulos d'este livro.

Cumpre-nos, todavia, observar que a ogiva, só por si, não caracterisa o terceiro periodo romanico. Os edificios tomam, sem duvida, um aspecto mais leve; mas a ornamentação tambem offerece transformações importantes. O trabalho é mais perfeito. Novo systema de molduras

substitue

em parte as primitivas, os ornamentos mais pesados apparecem rejuvescidos, outros novos são creados; emfim, a guarnição vegetal, precursora do ogival, desenvolve-se n'este periodo.

Na esculptura e na pintura persiste a fórma ascetica, delgada e alta, de roupagens de pregas parallelas e apertadas, da arte byzantina. As physionomias são graves e serenas, traduzindo o extasi mystico, de quem abandona o corpo esqueletico e macerado n'este mundo e deixa voar a alma livre para a celeste beatitude do espirito; verdadeiras fórmas hieraticas e tradicionaes, e porque o são, seccas e sem movimento.

Uma decoração magnifica começa a manifestar grande desenvolvimento no ultimo periodo do Estylo Romanico: os

vitraes

, as vidraças coloridas das janelas. O uso dos vidros nas egrejas parece haver começado no seculo X. É muito provavel que os vitraes ordinarios substituissem longo tempo antes as laminas de pedra rendilhada, que encontrámos no Estylo Latino. Que esses vitraes fossem depois superficialmente pintados, tambem é de crer; mas o verdadeiro vidro polychromico, com a côr fundida e incrustada na massa, não apparece senão no seculo XII, por modo incontestavel e com desenvolvida applicação, de que existem ainda alguns exemplares.

Estes vitraes primitivos offerecem caracteres definidos, pelos quaes é relativamente facil conhecel-os. O tecido de chumbo, que sustenta e encastra as pequenas placas de vidro, tem malhas muito miudas, visto que n'esse tempo cada côr differente correspondia a uma só malha, sendo divididas em muitas as côres de grande superficie, por necessidade de construcção da vidraça. O fundo do quadro offerece, em geral, um mosaico azul. Na parte superior do vitral desenha-se, conforme o periodo, a ogiva ou o arco inteiro, sobrepujando pequenos quadros de scenas do Antigo e Novo Testamento ou de lendas christãs, onde as figuras, bem como alguns ornamentos, manifestam claramente a influencia da arte byzantina nas disposições, no desenho e nas roupagens. Em geral, a côr dos objectos representados não corresponde á natural, sendo as côres escolhidas mais no proposito decorativo do que no da expressão da realidade, que entre certos limites lhes deu a natureza. Esta Estes vitraes primitivos offerecem caracteres definidos, pelos quaes é relativamente facil conhecel-os. O tecido de chumbo, que sustenta e encastra as pequenas placas de vidro, tem malhas muito miudas, visto que n'esse tempo cada côr differente correspondia a uma só malha, sendo divididas em muitas as côres de grande superficie, por necessidade de construcção da vidraça. O fundo do quadro offerece, em geral, um mosaico azul. Na parte superior do vitral desenha-se. conforme o periodo, a ogiva ou o arco inteiro, sobrepujando pequenos quadros de scenas do Antigo e Novo Testamento ou de lendas christãs, onde as figuras, bem como alguns ornamentos, manifestam claramente a influencia da arte byzantina nas disposições, no desenho e nas roupagens. Em geral, a côr dos objectos representados não corresponde á natural, sendo as côres escolhidas mais no proposito decorativo do que no da expressão da realidade, que entre certos limites lhes deu a natureza. Esta admiravel ornamentação, cujo effeito é surprehendente, attinge a maior perfeição no Estylo Ogival; para elle, pois, reservamos mais algumas considerações.

Julgamos haver dito o sufficiente para caracterisar o Estylo Romanico nos dois periodos, o secundario e terciario. Accrescentaremos, apenas, que a classificação dos edificios, principalmente nas epocas de transição de estylos limitrophes, é assumpto delicado, que exige sobretudo muita experiencia e observação de exemplares bem definidos. As idéas geraes não bastam, nem é sufficiente o estudo dos livros. É preciso pela experiencia ter apurado a critica e a sciencia, possuir um senso esthetico educado; uma cousa correspondente a essa qualidade singular que teem os grandes medicos de diagnosticar a doença, quasi adivinhando-a pela simples observação do enfermo.

Além disso, é indispensavel conhecer a historia do monumento, se elle a tem escripta, aliás refazel-a com successivas investigações, estudando pedra a pedra, elemento a elemento, porque nos periodos de transição, principalmente, tudo se sobrepõe e combina por tal fórma que o enygma parece sorrir dos nossos esforços em cada canto dos monumentos.

Entre nós, citaremos um exemplo: ainda hoje vacillamos sobre se a egreja de Alcobaça deve ser considerada romanica do terceiro periodo, ou já ogival. Nas arcadas do côro, mascarada por bellos intercolunmios jonicos manifesta-se o romanico, talvez do segundo periodo, depois, no corpo da egreja, as ogivas dos arcos e das abobadas casam-se com pilares ainda de caracter romanico.

Restaurações successivas, feitas em largos periodos, desnorteiam o observador. Exceptuando, pois, a fachada, do feio e pesado Estylo da Renascença dos principios ou meiados do seculo XVII, parece-nos ser esta egreja um soffrivel exemplar do romanico de transição. Discutiremos este assumpto, interessante sob o aspecto da classificação architectonica dos nossos monumentos, em um dos seguintes capitulos d'este livro.

CAPITULO TERCEIRO

A SÉ PATRIARCHAL DE LISBOA E A SUA RESTAURAÇÃO

Não pretendemos fazer uma monographia da Sé de Lisboa; nem o edificio tem valor architectonico que mereça investigações demoradas, nem ácerca d'elle existem documentos ou dados provaveis, que possam facilitar similhante trabalho. A carencia de elementos historicos, regra pelo menos nos monumentos nacionaes primitivos, não soffre excepção na antiga cathedral metropolitana, cujos archivos foram em grande parte destruidos pelo incendio, que seguiu o terremoto de 1755.

Assim, citamos esta egreja como simples exemplo nacional do Estylo Romanico; porque foi, sem duvida, o melhor dos edificios d'este estylo existentes em Portugal. Effectivamente, entre nós devem apenas considerar-se de relativa importancia, como monumentos romanicos, a Sé de Lisboa, a Sé Velha de Coimbra e a da Guarda, porque, se algumas outras egrejas começaram por ser d'este estylo, successivas reconstrucções e restaurações no periodo ogival e no da renascença mascararam-lhe quasi por completo as feições. Alem d'isso, são estes templos os de maiores dimensões, e excepcionalmente podemos encontrar pelo paiz alem d'elles uma ou outra pequena egreja ou capella do Estylo Romanico, mais ou menos puro.

Ainda assim, dos tres modestos exemplares romanicos, que possuimos, dois, a Sé de Lisboa e a da Guarda, acham-se mais ou menos profundamente alterados por obras realisadas em differentes seculos, algumas assás barbaras. Apenas, o terceiro, a Sé Velha de Coimbra, teve nos ultimos annos conscienciosa restauração, que a repoz quanto foi possivel no estado primitivo. Pensou-se, tambem, ultimamente na Sé de Lisboa e n'este sentido alguma cousa se tem feito; mas tão profunda é a ruina d'este templo e do respectivo claustro, que a estas obras talvez melhor se deverá chamar dispendiosa reconstrucção, do que simples e economica restauração.

Apesar do exposto, faremos rapido bosquejo historico ácerca da Sé Patriarchal de Lisboa; templo que, embora nunca fosse grandioso de dimensões ou rico e cuidado de estylo, deve merecer attentos trabalhos de reconstrucção e de restauração, visto que representa a primeira egreja do paiz na ordem da hierarchia ecclesiastica e é a cathedral de uma importante cidade da Europa.

Sobre o solo de Lisboa, atravez dos longos seculos da sua existencia historica, têem-se succedido muitas invasões de povos de differentes raças e religiões. Sem falarmos, pois, em celtas, phenicios e carthaginezes, que mais ou menos se perdem na noute mythica dos tempos, occuparam-n'a os romanos em primeiro logar, vencidos depois pelos barbaros, alanos, suevos e visigodos, que a seu turno foram dominados pelos arabes, sendo, emfim, estes ultimos expulsos de Lisboa por D. Affonso Henriques, primeiro rei de Portugal. É evidente que n'esta longa serie de seculos, Lisboa atravessou vicissitudes e condições diversas. Foi pagã e polytheista com os romanos, christã ariana com os visigodos, professou o Islamismo com os arabes e o Christianismo orthodoxo, quando assumiu a posição de metropole do pequeno reino de Portugal.

Apesar d'estes estados diversos e duradouros, Lisboa nunca foi uma cidade importante. Os romanos não eram navegadores e o seu commercio, quasi exclusivamente terrestre e oriental, não podia valorisar o excellente estuario do Tejo. Os barbaros constituiam nações rudes ainda, essencialmente guerreiras, embora já penetradas pela civilisação romana e pelos ideaes christãos. Os arabes, finalmente, mais puros e civilisados, haviam-se concentrado no sul da Hespanha, na Andaluzia e em volta de Cordova, a capital do grande Khalifado do Occidente, abandonando as regiões mais occidentaes da peninsula iberica a raças e tribus mais guerreiras e illetradas.

Assim se explica a pobreza quasi absoluta de monumentos arabes na zona de Portugal, que foi habitada por esta raça, emquanto a Andaluzia está cheia de ricas construcções do Estylo do Khalifado, algumas ainda assás completas, como a mesquita de Cordova, o Alcaçar de Sevilha e o Alhambra de Granada, sem falarmos de edificios de menor importancia e de trechos e vestigios, que attestam o grau da elevada civilisação dos arabes, que povoaram aquella parte da Hespanha.

A importancia da cidade de Lisboa nos periodos romano, visigodo e arabe foi sempre secundaria. A sua transformação profunda em verdadeiro emporio commercial proveiu de dois factos posteriores na Historia da Humanidade: a irradiação, para outros pontos do globo, da civilisação dos povos e das nações, dispostas ao longo das costas do Mediterraneo, onde ella se conservou durante os tempos classicos; e a descoberta do caminho maritimo da India e dos vastos continentes da America, que annullou os emporios de Marselha, Genova e Veneza, deslocando os antigos caminhos commerciaes. A grandeza um pouco ephemera de Lisboa manifesta-se nos ultimos quarteis do seculo XV e nos dois primeiros do seculo XVI.

Não admira, pois, que a capital portuguesa fosse sempre tão pobre de monumentos primitivos; quando, alem d'isso, a sua precaria situação na zona dos terremotos não tendesse a destruir os poucos, que o trabalho de longos seculos penosamente accumulou na sua antiga área.

Por muito secundaria que fosse, todavia, a importancia de Lisboa, romanos, godos e arabes n'ella edificaram templos, de que hoje não restam os menores vestigios, a não ser em vagas tradições, colhidas em antigos escriptos. Assim, a antiga Sé de Lisboa teria sido edificada nas proximidades, se não no proprio local, de um templo classico, substituido depois por um templo godo, a seu turno transformado em mesquita no tempo do dominio arabe. Esta tradição é mais do que plausivel, se attendermos á tendencia das religiões victoriosas em se apossarem dos templos das religiões vencidas, facto de que existem numerosos e incontestaveis exemplos em differentes epocas e em diversas nações. A este ponto interessante da Historia da Arte e das Religiões nos referimos n'outro capitulo d'este livro.

A tradição, que affiança haver sido a actual Sé uma antiga mesquita arabe, é evidentemente absurda. Não só o estylo do templo é accentuadamente romanico; mas, se elle houvesse sido construido nos curtos periodos, durante os quaes os christãos occuparam Lisboa depois da conquista dos arabes, estes, voltando a dominar na cidade, teriam apropriado a egreja ao seu culto, caracterisando-a com construcções e ornamentos especiaes, de que não se encontram os menores vestigios.

Seria, porém, o actual edificio da Sé de Lisboa levantado no local de uma mesquita arabe?

Esta tradição parece-nos muito fundada; não suppomos, todavia, que a construcção arabe podesse ser de grande importancia. As mesquitas de Lisboa não deviam soffrer comparação com as de Toledo, Cordova, Granada e Sevilha, centros da civilisação arabe. A Cathedral de Sevilha, por exemplo, repousa sobre o local de uma grandiosa mesquita, da qual se conservam ainda hoje, junto á mesma cathedral, o espaçoso pateo, que precedia as mais consideraveis mesquitas, e a magnifica torre, um primor do Estylo do Khalifado, bem conhecida pelo nome de Giralda.

Seja qual fôr o valor d'estas presumpções, a melhor opinião, fundada em argumentos de ordem historica e architectonica, consiste, segundo pensamos, em que o edificio actual se deve attribuir a D. Affonso Henriques e foi levado a effeito logo depois da conquista de Lisboa aos arabes, em outubro de 1147.

Devia ser rapida a construcção. A simplicidade architectonica e a pobreza de ornamentação, que manifesta a parte primitiva do edificio, não exigiram, de certo, planos muito estudados e completos, nem a propria construcção foi muito cuidada quer na escolha, quer na disposição dos materiaes. Forçoso é confessal-o, embora destôe um pouco dos louvores hyperbolicos de alguns escriptores nacionaes: o edificio da Sé de Lisboa é de acanhadas proporções, de muito pobre estylo e de construcção bastante ordinaria.

Sendo muito provavel que as obras começassem logo após a conquista, não é facil determinar a respectiva duração. O conego Vieira da Silva, em memoria annotada por D. Francisco de S. Luiz, Cardeal Patriarcha em meiados do seculo XIX, deduz, de varios documentos e de investigações proprias, que a primeira constituição do Cabido da Sé de Lisboa data do anno de 1150.

Estaria o primitivo templo acabado n'esse anno, ou pelo menos achar-se-ia já muito adeantado e proximo do seu fim?

Não custa a acredital-o. Em tres annos não seria grande difficuldade elevar edificio d'esta natureza; principalmente se tivermos em attenção que a silharia n'elle empregada foi, sem duvida, explorada em pedreiras muito proximas das respectivas obras.

Uma observação interessante devemos fazer n'esta altura: o primeiro bispo de Lisboa, capital de Portugal, foi o inglez Gilberto. Ora, em Inglaterra floresceu o Estylo Romanico, a que pertence a parte primitiva da Sé Patriarchal.

Depois da sua fundação, o primitivo edificio soffreu muitas reconstrucções, restaurações e alargamentos, dos quaes alguns motivados pelas necessidades do culto e outros provenientes da falta de alojamentos internos para o numeroso pessoal, que exigem a guarda e os serviços religiosos de uma cathedral. As barbaridades artisticas e de construcção, que por estas razões se praticaram, seriam inacreditaveis, se grande parte d'ellas não fossem directamente observadas pelo auctor d'este livro e algumas não existissem ainda, attestando o mau gosto, a ignorancia e o desprezo pelos monumentos e pelas tradições, que ás vezes caracterisa o espirito nacional desde os tempos mais remotos até aos nossos dias.

Explore with AITake your curiosity a little further.

Reading settings