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A architectura religiosa na Edade Média

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Os votos dos dois poderosos senhores foram entre nós origem de duas construcções ogivaes. O espirito religioso da Edade Media produziu estes resultados em muitos pontos. Foi, como dissemos, uma das causas da grande dispersão do Estylo Ogival por todo o orbe christão no periodo do feudalismo, que aliás em rigor não existiu entre nós.

O rei cumpriu o voto, edificando perto dos campos de Aljubarrota o Mosteiro de Santa Maria da Victoria, o condestavel elevando em Lisboa o templo do convento, onde em vida mystica passou os ultimos annos da sua existencia. Esta egreja, destruida pelo terramoto de 1755, é conhecida pelo nome de Ruinas do Carmo.

A data do começo dos trabalhos do Mosteiro da Batalha não é facil de fixar. Os archivos do convento, como aconteceu com os de muitos outros, foram dispersos e roubados, principalmente depois da revolução constitucional. Existem, todavia, documentos, pelos quaes se póde definir com muita probabilidade esta data e o periodo da construcção.

Na carta regia de 4 de abril de 1388, el-rei D. João I fez doação do convento á Ordem de S. Domingos. É, pois, natural que n'esta data os trabalhos estivessem começados e parte do convento, pelo menos, em estado de receber os frades. O cardeal patriarcha de Lisboa, D. Francisco de S. Luiz, auctor de uma memoria valiosa sobre o Mosteiro da Batalha, homem instruido que viveu durante alguns annos no convento e pôde ainda consultar os archivos mais ou menos completos, manifesta a opinião de que o edificio teria sido iniciado em 1387, ou quando mais cedo no anno precedente.

A necessidade de fazer projectos e de reunir mestres e operarios habeis, principalmente para obra de estylo grandioso e rico pouco cultivado entre nós, exclue, a nosso ver, o curto espaço de um anno entre o voto e o começo da construcção. Além d'isso, frei Luiz de Sousa, o chronista do Mosteiro, cuja descripção constitue um primor de estylo e linguagem do tempo, frade no proprio convento, na sua

Historia da Ordem de S. Domingos

escreve estas phrases: «com as armas ás costas—D. João I—revia traças, consultava architectos, buscava officiaes e, ganhando por uma parte logares rebeldes que lhe resistiam, ia por outra edificando paredes sagradas. E foi assim que já havia tres annos que a obra do Mosteiro corria, quando, estando de cerco sobre o castello de Melgaço, assentou de o dar á ordem de S. Domingos».

Esta citação demonstra a vida agitada do monarcha e o seu cuidado em buscar architectos e artifices para a realisação do voto, mas em parte está evidentemente incorrecta, porque, datando a doação do convento de 1388, não podia a respectiva construcção ter já n'essa epocha tres annos, visto que tambem tres annos antes se ferira a batalha de Aljubarrota.

Por estas rasões, corroboradas por outras que exporemos em logar competente, somos levados a fixar o começo dos trabalhos em 1387 e com grande probabilidade a suppor, em harmonia com o espirito peculiar dos votos, que foi escolhido para este acto o dia do anniversario da victoria sobre os castelhanos, 14 de agosto.

Periodo da construcção.

—O conjunto do Mosteiro, como existiu outr'ora porque depois parte do convento foi arrasada para desaffrontar o monumento, deve ter sido construido em tres epochas differentes.

A primeira epocha abrange os edificios principaes, como a egreja, a capella do fundador, o claustro, a sacristia, o refeitorio e a casa do capitulo. Estes elementos, os de maior valor, constituem uma parte monumental do Mosteiro e são do melhor e mais puro Estylo Ogival, embora em pontos muito secundarios offereçam vestigios da renascença manuelina.

A segunda epocha comprehende um outro claustro, denominado de D. Affonso V e os antigos annexos do convento.

A terceira epocha envolve as

capellas imperfeitas

e o respectivo vestibulo.

Occupar-nos-emos, agora, só dos edificios da primeira epocha, porque os da segunda e os da terceira serão succintamente apreciados em um dos seguintes capitulos.

Uma das impressões profundas, que á simples vista produzem logo os edificios ogivaes da primeira epocha, é a sua perfeita harmonia e unidade, tão completas que no nosso espirito se radica a opinião de que o conjunto teve planos estudados e realisados por um só architecto. Esta impressão é manifestada por todos os homens versados no assumpto. Citaremos dois.

Murphy, architecto inglez, que em 1793 viajou em Portugal e visitou o Mosteiro da Batalha, onde fez estudos desenvolvidos, publicou dois livros conhecidos, um sobre as viagens, outro sobre o Mosteiro, acompanhado de magnificas gravuras. Ora, este architecto escreve ácerca dos edificios, agora considerados: «no todo vêem-se tal correcção e regularidade que apparentemente parece ter sido o resultado de bem concebido plano original e, ao mesmo tempo, é evidente que este plano foi seguido e executado em progressão regular, sem as alterações e as interrupções a que estão, em geral, sujeitas estas grandes construcções».

Um grande engenheiro portuguez, Luiz Mousinho de Albuquerque, que durante longo tempo dirigiu as primeiras obras de restauração do Mosteiro, distinguindo-se nas dos vitraes, observa, em memoria que corre impressa, terem todos os edificios da primeira epocha paredes communs e directas communicações. Esta observação indica que a construcção não podia deixar de ser simultanea e de obedecer a um plano geral definitivo, organisado sob as vistas harmonicas em concepção e estylo de um architecto, ou pelo menos de poucos animados do mesmo espirito.

Além d'isso, demonstra que os edificios deviam ter sido construidos em curto praso. Com effeito, vimos que nas grandes cathedraes do periodo ogival faltam em regra a unidade e a harmonia, porque nos longos periodos de construcção, ás vezes abrangendo seculos, muitos architectos se seguiram na direcção das obras e, durante tão largos espaços, o

meio

social e o gosto artistico tiveram tempo de se transformar sensivelmente, influindo sobre a unidade e a harmonia dos monumentos. Nos edificios considerados do Mosteiro da Batalha não se deve ter dado este facto. Eis o que resulta da simples observação; ora, os documentos e as presumpções positivas demonstram esta verdade, por fórma irrefutavel.

No testamento de D. João I, feito em 1426, lêem-se em relação ao estado do edificio as seguintes phrases: «que o Mosteiro se acabe de Crasta, casarias, e de todolos outros edificios, que a bom comprimento do dito Mosteiro forem necessarios». Anteriormente, no mesmo documento, El-rei designa para sua sepultura a

capella-mór

, onde jazia a rainha D. Filippa, sua mulher, ou

na outra que Nós ora mandamos fazer, depois que for acabada

. Cotejando estas duas citações devemos concluir que a egreja estava quasi acabada em 1415, anno da morte de D. Filippa, porque o respectivo epitaphio refere a trasladação do corpo da rainha para o Mosteiro da Batalha, em 15 de outubro de 1416.

Assim, comparadas estas datas, é ponto incontroverso que em 1416 a egreja se achava terminada e estavam em adeantada construcção o claustro principal e a capella do fundador; portanto, tambem o deviam estar a casa do capitulo, o refeitorio e a sacristia, como corpos annexos e por necessidade do proprio desenvolvimento das obras.

D. João I morreu em agosto de 1433. Seu filho, D. Duarte, continuou os edificios, já muito proximos do fim. O cardeal D. Francisco de S. Luiz transcreve uma carta d'este ultimo rei, escripta de Setubal, em 10 de maio de 1436, a Fernão Rodrigues,

védor

das obras—sublinhamos propositadamente o cargo—dizendo-lhe: «vimos a carta que nos escreveste pelo Ruy Fernandes, vosso filho, sobre certas obras que dizeis que eram ordenadas por El-Rei, nosso Senhor que Deus haja, que se fizessem logo n'esse Mosteiro e que quereis saber o que n'este caso havemos por bem que se fizesse, convem a saber: em vir a agua da fonte dos valles, ou da jardoeira, ou da calvaria para o lavatorio do dito Mosteiro».

As expressões d'esta carta provam que em 1436 a construcção tocava o fim, porque o lavatorio, a que evidentemente se refere D. Duarte, é a bella fonte de excellente estylo, abrigada no pequeno pavilhão, construido n'um dos angulos do claustro principal e fazendo parte integrante da respectiva construcção.

A exposição das opiniões de ordem technica e a comparação dos documentos historicos, que acabamos de fazer, auctorisam e fundamentam a hypothese de que todos os edificios da primeira epocha foram construidos e terminados, pelo menos nos seus elementos principaes, de 1387 a 1433, isto é, no periodo de quarenta e seis annos.

Contra esta hypothese podem apenas suscitar-se duvidas de caracter muito secundario e facilmente explicaveis, por exemplo: a cruz de Christo e a esphera armillar, emblemas manuelinos, existentes nos tecidos rendilhados dos tympanos de alguns arcos do claustro principal. É evidente que estes elementos podem ter sido feitos posteriormente, porque não eram indispensaveis para os usos do Mosteiro; alem d'isso, é muito possivel que provenham de restaurações, visto que a pedra empregada nos edificios é branda em excesso e, nas peças finas e rendilhadas principalmente, mostra-se muito sensivel á acção corrosiva do tempo.

CAPITULO SEGUNDO

O ESTYLO ARCHITECTONICO DO MOSTEIRO

Quando tratámos dos Estylos Romanico e Ogival, expozemos as rasões pelas quaes os nomes dos architectos d'esses periodos eram pouco conhecidos. Tambem o do Mosteiro da Batalha segue esta regra quasi geral; todavia, é assumpto muito interessante esta investigação, que, ao mesmo tempo, nos esclarecerá, sobre varios pontos historicos e technicos do nosso primeiro monumento ogival. Ouçamos os documentos; depois virão as deducções geraes e os argumentos de ordem technica. Veremos se é possivel lançar alguma luz n'estas densas trevas.

«D. João I chamou de

longes terras

, escreve frei Luiz de Sousa, os mais celebres architectos que se sabiam, convocou de todos os pontos officiaes de cantaria destros e sabios; convidou uns com honras, a outros com grandes partidos, obrigou a outros com tudo junto. Á voz da grandeza da obra acudiu de

todo o mundo

numero infinito de peonagem a servir e trabalhar e ganhar jornaes—que este bem têem as grandes obras, manter muitos pobres».—E n'outro ponto faz notar que os religiosos não eram chamados a dar voto, nem traça, nem ordem nas obras, «unicamente dirigidas por officiaes reaes».

Estas affirmações na bocca de um escriptor grave, eminentemente nacional, que devia ter ao seu alcance os archivos e conhecer as tradições oraes monasticas do Mosteiro da Batalha, offerecem decisiva auctoridade. Frei Luiz de Sousa viveu por largos annos no convento; attesta-o a magnifica descripção que d'elle fez na sua grande obra, escripta no principio do seculo XVII, isto é, cerca de duzentos annos apenas depois da construção do Mosteiro. Se os archivos do convento já não existiam, havia a tradição oral, admissivel em tão curto espaço de tempo, principalmente n'uma associação monastica. Frei Luiz de Sousa não cita o nome do architecto; mas escreve expressamente que foram chamados de

longes terras

os mais celebres architectos; ora, n'este caso, a expressão designa nações estrangeiras. Esta interpretação não póde soffrer duvida, porque o mesmo auctor mais abaixo explica que o pessoal acudiu de

todo o mundo

. A declaração é expressa.

Por outro lado, José Soares da Silva, nas

Memorias de D. João I

, affirma que n'outra memoria do dominicano Antonio de Madureira se dizia ter sido o primeiro architecto do Mosteiro da Batalha um irlandez chamado David Aquete, que então vivia em Vianna do Castello. Debalde procurámos encontrar esta ultima memoria, ou determinar a data em que existiu este frade dominicano, o que poderia constituir valioso subsidio para a resolução do problema; todavia, parece-nos dever concluir d'estas citações que, entre os frades dominicanos, passava por averiguado ter sido estrangeiro o primeiro architecto da Batalha.

O patriotismo dos nossos escriptores antigos, por vezes exagerado, não teria por certo deixado escapar a occasião de enaltecer o nome nacional com a gloria da creação de monumento, que em todos os tempos foi profunda e geralmente admirado.

Esta furia patriotica offerece um eloquente exemplo. Murphy, fundando-se na asserção de Soares da Silva, anteriormente citada, traduziu Aquete—fórma portugueza—pelo nome inglez, que sonicamente lhe corresponde, escrevendo Hakett, appellido irlandez por signal. D. Francisco de S. Luiz critica este procedimento do architecto inglez, que aliás teve tambem outros motivos technicos importantes para acceitar a origem ingleza do creador do plano do Mosteiro, e declara-o exagerado. E como se não bastasse este triste argumento, accrescenta, com incrivel arrojo, que n'esse tempo da construcção do Mosteiro eramos a nação mais adeantada em architectura e nas outras artes, exceptuando apenas a Italia!

Ora, n'este ponto, o Cardeal, aliás erudito e grave, demonstrou pequenos conhecimentos, porque não só no ogival a Italia nunca teve a primazia, mas n'essa epoca já a França, a Allemanha, a Inglaterra e os Paizes Baixos estavam cobertos de monumentos dos mais puros estylos, não falando nas outras artes.

Em contraposição a estes indicios, cujo valor é incontestavel, temos a opinião de frei Manuel dos Santos, que diz chamar-se o mestre da obra Affonso Domingues, natural de Lisboa, morador na freguezia da Magdalena, homem digno de eterna memoria pela capacissima idéa, com que delineou a fabrica. Devemos observar que este chronista do seculo XVIII, pela sua posição official, não nos deve infundir grande confiança em questões patrioticas. Além d'isso, estudou tão mal a questão que, linhas abaixo, escreve haver-se executado a construcção do Mosteiro de 1385 a 1388, o que era em absoluto impossivel no curto espaço de tres annos, confundindo assim a data da doação do convento, feita por D. João I, com a do fim dos trabalhos.

D. Francisco de S. Luiz, como é logico, acceita esta versão e dá-lhe certa plausibilidade. O futuro Cardeal Patriarcha de Lisboa estivera por muito tempo no Mosteiro da Batalha, onde estudou o monumento e consultou os archivos, existentes no principio do seculo passado, colhendo preciosas informações sobre os seus successivos architectos, pintores e vidraceiros, nomes que hoje estariam perdidos, se não fossem o zêlo e a curiosidade do illustre prelado. Ora, entre os documentos do archivo, este escriptor viu um de 1402, que se referia a Affonso Domingues e já o dava por fallecido n'esta data. Como os trabalhos haviam começado em 1387, segundo a nossa opinião, este architecto, se o foi, podia bem ter sido o primeiro, ou um dos primeiros do Mosteiro da Batalha; não se devendo concluir d'aqui, comtudo, que fosse o unico, ou o auctor do plano primitivo, que bem poderia ter vindo de

longes terras

. Em todo o caso a observação tem valor.

Affonso Domingues seria architecto? Eis a duvida. Um grande architecto não se forma isoladamente. No gabinete estuda-se a arte, que se pratica depois. A imaginação, a sciencia da construcção, a firmeza do estylo, emfim, as grandes qualidades de um architecto, se dependem do proprio genio, desenvolvem-se pela pratica e, sobretudo, pela influencia do

meio

.

O que existia em Lisboa n'esse tempo tendo verdadeiro valor architectonico, a não ser do Estylo Romanico e d'esse bem pobre e pouco? O que estava em construcção, onde se aquecesse e formasse o seu genio?

Porque produzir no gabinete e realisal-o depois, sem a experiencia e a influencia de grandes obras existentes ou em construcção, plano como o do Mosteiro da Batalha, seria um rasgo genial, quasi superior ao de Pascal, que, sendo novo, pelo unico esforço do proprio genio deduziu os trinta e seis primeiros theoremas de Euclides. Mas entre a mathematica e a architectura, as differenças são profundas: na primeira, as verdades absolutas existem e concatenam-se no raciocinio; na segunda, a intelligencia não póde supprir os factos numerosos, que constituem a arte e a sciencia do constructor.

É verdade que no seu tempo, em meiados do seculo XIV, acabára a construcção em Lisboa de uma pequena capella do Estylo Ogival, n'este momento em via de restauração, encostada á velha Sé; mas o exemplar, simples e modesto, é do ogival francez do segundo periodo, como o attestam os seus caracteres architectonicos e a assignatura do seu auctor n'uma pilastra principal, conforme era de uso ás vezes, segundo já dissemos: uma flor de lyz bem definida, que, se occulta o nome, define a nacionalidade.

Finalmente, para citarmos uma opinião inesperada e singular, o auctor da collecção de memorias relativas aos pintores, esculptores, architectos e gravadores estrangeiros, que estiveram em Portugal, cita o nome de Benjamin Comte. Esta citação não envolve valor algum, porque estas memorias, impressas em 1827, manifestam grosseiras inadvertencias. O nome parece francez; todavia, cumpre notar que depois da conquista dos normandos foram introduzidos em Inglaterra muitos nomes de origem franceza. Esta supposição podia tomar vulto, se o segundo mestre, ou architecto do Mosteiro da Batalha, que apparece no documento citado de 1402, como testemunha e já era fallecido em 1450, Mestre Ouguet, Huet, ou Huguet, não fosse, como é provavel, a fórma sonica portuguesa do nome bem inglez Hewett.

D. Francisco de S. Luiz, para reforçar a hypothese de que Affonso Domingues foi o architecto do Mosteiro, diz que bem póde ser este mestre Ouguet o Aquete, nomeado por Soares da Silva segundo a memoria do dominicano Antonio de Madureira.

Bem avaliados os documentos e as citações apresentadas, o nosso espirito fica perplexo. Sem duvida, Affonso Domingues existiu e teve importante ingerencia nas obras do Mosteiro da Batalha; mas isto não significa que, se dirigiu as obras, fosse d'elle o plano primitivo do Mosteiro. Em primeiro logar, poderia apenas tel-o executado; depois—parece-nos esta observação importante—a situação de Affonso Domingues tambem podia ser a de simples fiscal da obra, contractada com uma corporação

franco-maçonica

, que a teria projectado e realisado, como tudo nos leva a crer e explicaremos mais adeante.

Esta ultima asserção nossa é corroborada pela carta de El-Rei D. Duarte, anteriormente citada e escripta de Setubal a Fernão Rodrigues,

védor

das obras, do Mosteiro da Batalha, em 1436. N'este anno, vivia ainda o architecto Hewett, que se suppõe ter sido o segundo mestre das respectivas obras, porque D. Duarte lhe fez doação em 1436 de umas casas, que elle Hewett habitava junto das obras; ora, este principe morreu em 1438, reinando apenas cinco annos. N'este periodo de tres annos de 1433 a 1436, ou pelo menos em parte d'elle, o architecto inglez teve, como

védor

ou fiscal, Fernão Rodrigues, delegado regio.

Se este devia ser logicamente o systema, como o é na actualidade nas grandes empreitadas do Estado, nada repugna ao espirito que o mesmo facto se desse em epocha anterior com o architecto David Hacket e o

védor

Affonso Domingues. Assim, ficaria explicado o apparecimento do nome do segundo no documento de 1402, que infelizmente, ainda visto por D. Francisco de S. Luiz, já hoje não existe.

Esta investigação é assás difficil e uma conclusão, mais ou menos segura, carece de ser fundada em argumentos e provas de outras ordens, que em seguida procuraremos adduzir. Por emquanto, a nosso ver, a mais provavel supposição reduz-se a estas proposições: que o plano do Mosteiro da Batalha é de origem estrangeira, ingleza provavelmente, e que o primeiro architecto, que delineou e começou a realisar este plano, não era nacional, mas tambem, segundo as maiores probabilidades, de nação ingleza.

Se os argumentos de ordem historica nos levam a estas conclusões, vejamos agora onde nos conduzem outros argumentos e outras inducções de natureza architectonica.

As construcções ogivaes, obedecendo á influencia do

meio

particular das nações, entre as quaes se desenvolveram, tomaram feições proprias em cada uma, muito embora subordinadas ás leis e aos caracteres geraes do estylo. O mesmo facto succedeu com o Estylo Romanico. Assim, as feições especiaes, diriamos talvez mais nitidamente, as physionomias do ogival allemão, francez e inglez são por tal fórma definidas, que os grandes entendedores da arte as distinguem com facilidade. A evolução e a decadencia do estylo não se manifestaram, tambem, em identicos periodos; por exemplo, a Inglaterra conservou mais puro e duradouro o bom estylo, não offerecendo quasi o periodo de decadencia. Eis o que escrevemos a proposito do Estylo Ogival e agora por applicavel repetimos.

No fim do seculo XIV, quando começou a construcção do Mosteiro da Batalha, manifestava-se já certa decadencia na arte ogival do continente, emquanto a ingleza era, ainda, pura e florescente. É certo que, pelas suas condições geographicas e particulares, Portugal recebia o influxo das artes um pouco em atrazo; devemos, pois, entrar em linha de conta com este facto.

O estylo architectonico do Mosteiro da Batalha é de um ogival purissimo, de perfeita unidade e harmonia nas linhas geraes, elegantissimo, sobrio na ornamentação aliás fina e distincta; em summa, traduz os melhores caracteres da arte na mais florescente edade. Esta impressão resalta do conjunto do monumento e do estudo das suas differentes partes.

Faremos notar, por exemplo, a extraordinaria e formosa visão architectonica, permitta-se-nos a phrase, que, mais talvez do que em nenhum outro ponto, o monumento produz, visto do canto do claustro principal, no terrado junto ao pequeno pavilhão da fonte. Jámais outros grandes monumentos, dos que vimos, nos provocaram tão profunda sensação e sempre repetida; a não ser, talvez, a grande charola da Cathedral de Milão.

A construcção do Mosteiro da Batalha começou, pois, quando no continente o Estylo Ogival resvalava para a decadencia; pelo mesmo tempo, erguiam-se em Sevilha e Milão duas enormes cathedraes de estylo bem menos puro. Esta coincidencia da pureza architectonica do Mosteiro da Batalha com a da arte ingleza parece-nos assás caracteristica; outras rasões ha, porém, que ainda mais apertam estas relações.

Em assumpto tão delicado procuremos a opinião de um mestre inglez, bem conhecido historiador da arte. «Nós não encontramos, tambem, em Inglaterra, diz Hope, esses porticos profundos, cheios de estatuas e encimados de grande rosaceas, que se vêem nas Cathedraes de Strasburgo, Reims, París, Chartres, Amiens e outros pontos. Apenas podemos formar idéa d'isto pela rosacea, relativamente insignificante, da egreja de Exester. Por toda a parte—em Inglaterra—o portal e a rosacea são substituidos por uma porta e uma janela sem proporção alguma entre si, a porta sendo muito pequena e a janela muito grande.»

Não multiplicamos as citações para evitar longa exposição e porque esta nos parece caracteristica.

Olhando a fachada principal e a do sul do Mosteiro, porque a egreja está orientada, como era costume, voltando a capella-mór para o oriente, encontraremos realisada a regra do historiador inglez, principalmente na ultima. Outras similhanças se manifestam nos caracteres do coroamento e da ornamentação, que seria prolixo descrever. Além d'isso, em todo o edificio predominam as grandes janelas com maior ou menor numero de maineis; só duas insignificantes rosaceas existem na casa do capitulo e essas talvez não sejam primitivas.

Uma observação fizemos logo n'uma das nossas primeiras visitas ao Mosteiro da Batalha, guiado, de certo, pelas presumpções e pelos factos historicos, a que nos havemos mais tarde de referir; pareceu-nos que a feição, a physionomia artistica do Mosteiro offerecia grandes analogias com a da Cathedral de York, apesar das profundas differenças nas respectivas linhas geraes.

Assim, foi com alguma surpreza e contentamento que se nos deparou, depois, a seguinte opinião de Raczynski, cuja obra sobre as Artes em Portugal é bem conhecida: «logo que eu conheci, diz este sabio, a soberba Egreja da Batalha pelas gravuras de Murphy, achei-lhe tal analogia com a Cathedral de York, que não me restou duvida sobre a origem commum d'estes edificios».

Ora, deve notar-se que este grande critico da arte não podia ter presumpções fundadas, nem perfeito conhecimento dos factos historicos portuguezes, que o levassem, como a nós, a ser bem guiado ou enganado por elles. O testemunho é, pois, valioso e insuspeito.

É tambem verdade que Murphy, o architecto inglez de quem já falámos e a quem Raczynski se refere, no seu livro

Viagens em Portugal

, diz que Falkenstein bibliothecario em Dresde, lhe escreveu: «ser fóra de duvida que a maior parte das cathedraes ogivaes eram obra da inspiração de architectos, ou pedreiros livres—

franco-maçons

. Havendo, tambem, acrescenta Murphy, recebido informações de empregados dos archivos de Lisboa, que lhe affirmaram ter sido um architecto inglez, chamado Stephen Stephenson, o constructor do Mosteiro da Batalha.

«Foi a Rainha D. Filippa, continúa Murphy, filha do duque João de Lencastre e neta de Eduardo III, de Inglaterra, quem deve ter tido maior acção na escolha do architecto. É fóra de duvida que Stephen Stephenson fazia parte dos

free and accepted masons

, cujo centro em Inglaterra era York—

grand-loge of free masons at York

.» Esta observação valiosissima podia ter guiado Raczynski; mas não seria sufficiente para lhe formar a opinião das parecenças, visto que lhe faltavam outros elementos.

A affirmação de Murphy póde ser contestada; d'ella se conclue, porém, embora implicitamente, que o architecto inglez encontrára os caracteres do Estylo Ogival da sua nação no Mosteiro da Batalha, aliás não acceitaria nem exporia as hypotheses apresentadas.

Por todas estas rasões, parece-nos demonstrado que o estylo do Mosteiro é do ogival inglez. Vejamos ainda se os factos historicos e as respectivas datas, bem como outros argumentos, corroboram esta conclusão.

Em primeiro logar, a construcção da Cathedral de York, levada a effeito pelos

franco-maçons

da loja-mestra d'aquella cidade, começou cêrca do anno de 1245 e tinha terminados os principaes elementos, naves, transepto, etc., etc., de 1291 a 1360. As obras do mosteiro da Batalha, havendo sido iniciadas em 1387, permittem as datas não só a influencia directa da Cathedral de York sobre o monumento portuguez, mas explicam até esta influencia pela possibilidade de ter sido feito o plano respectivo por architectos inglezes da loja-mestra dos

franco-maçons

d'aquella cidade, chamados depois a Portugal por D. João I para o executarem.

Um facto muito secundario na apparencia parece-nos avigorar esta presumpção. Alguns nomes portuguezes dos elementos architectonicos ogivaes são perfeitas adulterações das palavras correspondentes inglezas, por exemplo: o

maynel

, ou pinazio das janelas, traduzido por

mainel

, o

butress

transformado em

botareos

, a

gargoil

em

gargula

. Estes termos, pelo menos, são de origem ingleza.

Assim tambem, nos tempos modernos, os operarios inglezes, que primeiro trabalharam no caminho de ferro entre Lisboa e Porto, deixaram, entre outros termos especiaes, os

rails

, carris, traduzidos pelo portuguez popular em

ralhes

e as

sleepers

, travessas, transformadas em

chulipas

. A analogia tem aqui grande importancia e demonstra, a nosso ver, que na primitiva construcção do Mosteiro da Batalha trabalharam operarios inglezes; ora, sendo inglezes, a logica leva-nos a suppor que deviam ser de York, pertencentes á grande corporação

franco-maçonica

, que levantou a grande cathedral d'esta cidade.

Os factos da historia do tempo mais corroboram ainda esta fundada presumpção. É impossivel fazer n'este ponto um quadro completo d'essa phase historica nacional; por isso, citaremos apenas, apreciando-os e comparando-os, alguns factos culminantes, que mais directamente interessam o presente assumpto.

As nossas relações com a Inglaterra eram então muito intimas. N'esse tempo, em que não existia representação dip As nossas relações com a Inglaterra eram então muito intimas. N'esse tempo, em que não existia representação diplomatica permanente, Portugal tinha n'aquella nação dois embaixadores, cujos nomes a historia conservou: D. Fernando Affonso de Albuquerque e Lourenço Annes Fogaça.

Eduardo III, o pae do celebre

Principe Negro

, acabava de crear condados para dois dos seus filhos, dando-lhes soberania quasi independente: o de Leicester, para João de Gaunt, e o de York, para Eduardo de Langley. Os condados eram limitrophes e no segundo approximava-se do fim a construcção da grande cathedral, que passa por ser a melhor da Inglaterra e uma das melhores do mundo.

Sem entrarmos em outros pormenores, digamos que em começos de 1386 chegaram a Portugal emissarios de João de Gaunt, duque de Leicester, annunciando a sua chegada e pedindo navios. De facto, o duque desembarcou na Corunha, em 25 de junho do mesmo anno. Em novembro seguinte, n'uma conferencia realisada no Porto, ficou ajustado o casamento de D. João I com D. Filippa de Lencaster, filha do duque inglez. Assim, em fevereiro de 1387 realisou-se no Porto o casamento.

A fórma, pela qual os factos se precipitam em tempos, em que as communicações eram difficeis, demonstra as relações intimas e constantes das duas côrtes. É, pois, natural que D. João I, informado pelo duque de Leicester das magnificencias da Cathedral de York, cuja fama corria já por toda a Inglaterra, lhe pedisse esses

celebres architectos e officiaes de cantaria de longes terras

, de que fala Frei Luiz de Sousa.

Esta presumpção é logica e humana. Seria absolutamente impossivel suppor que D. João I não falasse ao duque, seu futuro genro e auxiliar na guerra, na batalha de Aljubarrota e no cumprimento do voto; como impossivel é, tambem, que a tal respeito o interlocutor não se referisse á Cathedral de York. É muito provavel, portanto, haverem sido encommendados os planos para Inglaterra, ou pedidos os architectos para os fazer em Portugal, dirigindo depois a respectiva construcção. A proxima vinda para Portugal de Filippa de Lencaster facilitava esta resolução.

De certo, estes raciocinios só por si poderiam representar simples coincidencias de datas; mas ponderados e cotejados com os restantes, já desenvolvidos, assumem um caracter de plausibilidade de incontestavel valor.

Ora, não existe duvida alguma em que architectos e operarios da loja-mestra

franco-maçonica

de York foram os constructores da grande cathedral; portanto, é rigorosamente logico e muito natural que a essa corporação se fossem buscar os elementos para a construcção do Mosteiro da Batalha. A prova da cathedral ingleza, quando outra não houvesse, daria nome e fama universal aos seus habeis constructores.

É, além d'isso, muito provavel que as associações

franco-maconicas

fossem empreiteiras, como existem sociedades modernas. Em qualquer tempo, a eguaes necessidades sociaes correspondem instituições similhantes, ou pelo menos equivalentes. Se assim não aconteceu, manifesta-se ainda provavel que estas associações

franco-maçonicas

, creadas tambem para defeza dos respectivos operarios de todas as ordens, se garantissem por meio de contratos de trabalho. Qualquer d'estes factos, ambos naturaes e logicos, explica a existencia do

védor

, ou fiscal das obras, Fernão Rodrigues, que vivia no tempo de D. Duarte. Assim, ficaria egualmente fundamentada a nossa hypothese: Affonso Domingues poderia muito bem ter sido o primeiro

védor

real das obras do Mosteiro da Batalha.

De todos estes raciocinios e factos, expostos e comparados, resulta, segundo pensamos, a plena convicção de que o Mosteiro da Batalha, sendo do Estylo Ogival inglez, foi planeado e construido por architectos e operarios inglezes, que faziam parte da associação

franco-maçonica

da grande-loja de York.

LEGENDA primeira epocha 1 egreja. 2 capela do fundador. 3 sacristia. 4 thesouro. 5 claustro principal. 6 casa do capitulo. 7 ponte ou lavabo. 8 refeitorio. 9 cozinha. 10 adega e dispensa. 11 portaria. segunda epocha 12 claustro de d. affonso v. terceira epocha 13 vestibulo. 14 capellas imperfeitas.

CONVENTO DA BATALHA—Planta geral.
CONVENTO DA BATALHA—Planta geral.

CONVENTO DA BATALHA—Planta geral.

CAPITULO TERCEIRO

AS EPOCHAS DA CONSTRUCÇÃO DO MOSTEIRO

Como dissemos em anterior capitulo, os edificios, constituindo o antigo Convento da Ordem de S. Domingos, na Batalha, foram construidos em epochas differentes. Depois da extincção das ordens religiosas, esteve o Mosteiro completamente abandonado durante longos annos, caindo em ruinas parte d'elle e soffrendo graves prejuizos a parte monumental, exposta á acção do tempo e ás grosseiras depredações, praticadas pela ignorancia popular.

Mais tarde, quando começaram com algum methodo e continuidade as obras de conservação e restauração dos edificios, uns foram arrasados como inuteis, porque formavam as arruinadas pertenças do convento, e outros para desaffrontar a parte monumental do Mosteiro. A planta geral, que apresentamos, traduz o estado actual e definitivo d'estes edificios.

Em tres epochas muito proximas, quasi successivas, foram elles construidos. Na planta procurámos distinguir estas epochas, dando tons diversos ás construcções respectivas existentes. Assim, temos:

1.ª Epocha. Envolve, bem nitidamente definidos pelas intimas ligações, a capella sepulcral do fundador, a egreja, a sacristia, o claustro principal, a casa do capitulo, a portaria, a adega, a cozinha e o refeitorio.

2.ª Epocha. Comprehende actualmente o claustro de D. Affonso V e alguns dos antigos annexos.

3.ª Epocha. Abrange, apenas, as chamadas

capellas imperfeitas

, que mais rigorosamente se deveriam denominar

incompletas

, porque o nome lhes vem de estarem ainda em grande parte por acabar, e o respectivo vestibulo.

Da historia dos edificios da primeira epocha já nos occupámos nos anteriores capitulos, por serem do monumento os que pertencem ao Estylo Ogival. Não será, todavia, longa e escusada digressão, determo-nos um pouco na apreciação dos edificios das outras epochas.

Os edificios da segunda epocha eram assás vulgares; apenas o claustro chamado de D. Affonso V, cujo reinado durou de 1438 a 1481, offerece algum valor architectonico. É do Estylo Ogival, muito espaçoso e simples, não manifestando ornamentação alguma, nem até nos proprios capiteis das columnas prismaticas dos porticos. Apesar d'isso, as suas linhas geraes são agradaveis, embora tenha de luctar com a proximidade do bello claustro monumental. Sem duvida, foi construido para servir de centro ás pertenças do convento, que principalmente para elle abriam.

O Cardeal D. Francisco de S. Luiz admitte que a construcção d'este claustro se deve attribuir aos mestres Martin Vasques e Fernão de Evora. O primeiro d'estes mestres, segundo o mesmo auctor, dirigiu as obras de 1438 a 1448. Como este claustro era o centro das pertenças conventuaes, a respectiva construcção deve ter acompanhado de perto a dos edificios da primeira epocha.

Os edificios da terceira epocha reduzem-se ás

capellas imperfeitas

e ao respectivo vestibulo, que são peças de elevado valor architectonico, onde a primeira physionomia do Estylo da Renascença se desenha com excessiva nitidez e se accentua, á medida que a ornamentação se manifesta nas partes superiores do edificio, parecendo marcar-lhe varios e successivos periodos de construcção.

Julgamos indiscutivel que este conjunto é obra do reinado de D. Manuel, que durou de 1495 a 1521. Assim, logo no interior do vestibulo, por baixo das lindas janelas que o illuminam, uma ao norte outra ao sul, vê-se em logar superior o caracteristico

E

, letra do nome d'este rei, Emmanuel, cercada de uns lavores, que por signal têem dado tratos á imaginação dos archeologos pacientes, e por baixo as seguintes legendas em caracteres romanos:

perfectum fuit anno domini 1509

. Ora, é mais do que natural que as paredes do vestibulo crescessem simultanea e parallelamente com a elevação das paredes das capellas.

O Cardeal D. Francisco de S. Luiz, que estudou o monumento, infere, não sabemos com que criterio, que esta data corresponde á suspensão das obras. Julgamos infundado este asserto. Não é natural nem logico suppor que a suspensão se désse n'esse anno, quando D. Manuel no seu testamento, feito em 1517, recommenda com a maior instancia ao seu successor que as mande acabar.

N'este documento, com effeito, lêem-se textualmente os seguintes periodos: «item, rogo muito e encomendo que se mandem acabar as Capellas da Batalha naquella maneira que milhor parecer, que seja conforme á outra obra e asy lhe dem entrada para a Igreja do Mosteiro da milhor maneira que parecer, e mandem mudar para ellas, sendo primeiro de todo acabadas, e asy seus Altares, e todas as outras cousas necessarias: El-Rei Duarte, que foy o primeiro principiador dellas, e assy El-Rey D. Affonso meu thio, e El-Rey D. João, que Deus aja, e o Principe D. Affonso, meu sobrinho».

As phrases terminantes d'esta parte do testamento parece indicarem D. Duarte como iniciador das obras, quer este principe tivesse apenas o pensamento de construir um pantheon de familia, que D. Manuel depois adoptou, quer lhe lançasse os fundamentos, sobre os quaes depois, e muito mais tarde, começaram a crescer os edificios. Em nossa opinião só a tanto se poderia ter alargado a iniciativa de D. Duarte, não só porque o reinado d'este principe, de 1433 a 1438, foi curtissimo; mas ainda porque em principios do seculo XV seria impossivel em qualquer parte, principalmente em Portugal, o emprego do estylo d'estas capellas.

N'este tempo reinava o Estylo Ogival no seu estado de pureza, e a evolução da arte não manifestára ainda os primeiros symptomas da renascença. Além d'isso, a carta, anteriormente citada, de D. Duarte a Fernão Rodrigues, védor das obras do Mosteiro da Batalha, corrobora esta presumpção. O principe não teria deixado de referir-se ás obras das capellas, sendo natural ter maior interesse pelas da sua propria iniciativa. A construcção devia, pois, estar parada e ter ainda pequena importancia no principio do reinado de D. Manuel, se na realidade passou de simples plano.

Todas estas presumpções são fortalecidas por outras rasões, que seguidamente vamos adduzir, muito embora não pretendamos alongar esta exposição e fazer detida descripção d'esta parte do Mosteiro.

A grande porta das

capellas imperfeitas

é uma das melhores, das mais ricas e bellas, se não a melhor que temos visto até hoje, fóra e dentro do paiz. Deve ser considerada incontestavelmente um primor de elegancia, de ornamentação e de execução; mas um architecto ogival não a poderia ter creado, por maior genio e sciencia que possuisse. A potente concepção do artista, fosse elle quem fosse, já estava fortemente aquecida pela renascença e enthusiasmada pelas glorias das viagens portuguezas ao Oriente. Sente-se, vê-se isto n'aquellas pedras, quasi cinzeladas.

Sem a pretensão de descrever, o que é indescriptivel sem o auxilio de planos e desenhos minuciosos, diremos, apenas, que na face voltada para o vestibulo, a de ornamentação mais sobria e pura, as molduras da porta estão, de cima até abaixo, absolutamente cobertas de pequenos anneis encadeados, em cujos espaços circulares se lêem caracteristicas legendas. No alto da porta, em dois grandes anneis similhantes, que a fraca claridade do vestibulo mal deixa perceber, lêem-se em caracteres gothicos as palavras gregas:

pante taray

. Nos anneis mais pequenos repete-se sempre outra legenda, tambem em grego:

tanyas erey

.

Sem falarmos nos erros orthographicos, que provêem de se empregar muitas vezes n'esse tempo o

y

por

i

, estas legendas completam-se na symbolica e imperativa phrase:

depressa por toda a parte descobre regiões

. É o grito da alma portugueza dos seculos XV e XVI que o architecto deixou gravado na pedra do formoso monumento!

Na face voltada para o recinto das capellas, o estylo parece mudar de physionomia. Os rendilhados assumem proporções phantasticas. A pedra parece trabalhada por joalheiros. A nossa memoria occorrem essas filigranas delicadissimas, que a India e a China nos enviam, abertas em sandalo e marfim!

Se é licito, deante de tal primor, lembrar defeitos, talvez seja esta ornamentação, levada ao ultimo excesso de finura e riqueza, aquelle que impressiona o nosso espirito, principalmente quando passamos abruptamente do grande estylo, simples, puro e ideal dos edificios da primeira epocha para os das

capellas imperfeitas

. Que nos perdoe o poderoso e genial creador d'esta maravilha architectonica!

Ora, se é possivel duvidar de que as paredes do vestibulo crescessem simultaneamente com as do recinto das

capellas imperfeitas

, duvida que aliás para nós não existe, seria um absurdo insustentavel fazer egual supposição ácerca da porta monumental, que dá entrada

unica

para este recinto.

Devia ter um genio prophetico o architecto ogival, que em começos do seculo XV, durante o reinado de D. Duarte, projectasse esta porta monumental de accentuada renascença, com indiscutiveis influencias orientaes na ornamentação e nas legendas, excepcionalmente escriptas em lingua grega!

No interior do recinto das capellas a physionomia do estylo muda sensivelmente. Até á altura das janelas em começo, a influencia ogival ainda é profunda; embacia-se mais, depois, accentuando-se os caracteres da renascença. Por cima da magnifica porta, que acabamos de indicar, uma bella janela accusa já fortemente a renascença italiana, que aliás se manifesta na ornamentação geral d'esta parte superior do edificio. Aos espiritos um pouco versados na historia e nos caracteres dos estylos occorre que algum tempo deve ter separado estas duas construcções sobrepostas, realisadas por architectos differentes

[9]

.

De facto, parece que depois da interrupção da construcção das

capellas imperfeitas

, ainda no tempo de D. Manuel, as obras tiveram andamento. Assim, D. Sebastião, para continuação dos trabalhos, mandou dar em 1574, pela Casa da India, 400$000 réis annuaes, impostos sobre o contrato da pimenta. Já n'este tempo tinhamos addicionaes! Segundo consta, este imposto pouco ou nada produziu; mas isto não prova que o mesmo rei não concedesse outros fundos para esta construcção, que lhe mereceu as attenções. Depois, em 1591, Filippe I—o celebre

demonio do meio dia

—mandou fazer o orçamento, como se diria hoje, para terminação das

capellas imperfeitas

; mas o dinheiro nunca chegou de Hespanha, onde mal dava para a grandiosa obra da construcção do Mosteiro de S. Lourenço, no Escurial.

Seja como for, a parte superior das

capellas imperfeitas

pela feição especial do seu estylo parece-nos de construcção posterior á outra parte, devendo datar dos meiados do seculo XVI.

Apesar do seu incontestavel valor architectonico, a elevação d'este edificio, na situação onde se encontra, foi um grave e irremediavel erro, que se tornaria monstruoso se a construcção tivesse sido finalisada e posto em directa communicação o pantheon dynastico com a egreja primitiva, como D. Manuel indicava no seu testamento. Por esta fórma, as absides do templo ogival ficariam quasi sem luz e as communicações directas só podiam ser rasgadas, ou na abside central, a capella-mór, ou nas duas absidiolas lateraes adjacentes, estragando completamente a bella egreja ogival.

Ainda no estado actual as

capellas imperfeitas

prejudicam muito a luz das janelas inferiores das cinco absides do templo, principalmente das tres comprehendidas no vestibulo, tirando-lhes os bellos effeitos dos vitraes, atravessados pelos primeiros raios do sol nascente, tão procurados pelos architectos da edade media.

Pensar em demolir as

capellas imperfeitas

, dado o seu grande valor historico e architectonico, constituiria um crime de lesa-arte; mas o que poderia fazer-se com vantagem para ambos os monumentos, um ganhando luz para as respectivas absides, outro para a soberba porta acima descripta, seria demolir a abobada do vestibulo, deixando-lhe apenas as paredes lateraes, onde existem, como dissemos, duas bellas janelas, que devem ser respeitadas.

Eis em rapidos traços a summaria enumeração das construcções da terceira epocha. Se excede os quadros d'este livro, exige-a a descripção do Mosteiro, que não ficaria completa, se a este trabalho por inopportuno nos houvessemos poupado.

MOSTEIRO DA BATALHA—Córte longitudinal segundo o eixo da Egreja

MOSTEIRO DA BATALHA—Córte longitudinal segundo o eixo da Egreja
MOSTEIRO DA BATALHA—Córte longitudinal segundo o eixo da Egreja

CAPITULO QUARTO

DESCRIPÇÃO GERAL DOS EDIFICIOS DA PRIMEIRA EPOCHA

—Estylo Ogival—

Por ordem logica, deveriamos, talvez, começar pela descripção exterior das fachadas do Mosteiro, porque estes elementos se apresentam primeiro á nossa observação; todavia, alteramos esta ordem, visto ser impossivel bem avaliar e estudar uma construcção, sem previamente haver formado clara idéa das disposições geraes da respectiva planta.

I Plano geral dos edificios ogivaes

Egreja

. Está orientada, como era costume, na direcção leste-oeste, correspondendo a porta da fachada principal ao poente e abrindo as bellas janelas das cinco absides sobre o oriente, d'onde o templo devia receber a primeira luz radiante da madrugada, atravez dos vitraes polychromicos. A absurda escolha do local para a construcção das

capellas imperfeitas

inutilisa, em grande parte e sem remedio, este effeito poetico, procurado em quasi todas as cathedraes romanicas e ogivaes.

A egreja tem tres naves, apenas; a do centro, mais larga e elevada do que as outras, termina pela abside principal, tambem de maior altura e comprimento do que as quatro absidiolas, duas de cada lado, correspondendo as confinantes com a nave central ás naves lateraes, e as extremas vencendo o excesso de comprimento do transepto sobre a largura das tres naves. Dada esta disposição, não existe charola. Assim, a nave central, prolongada pela respectiva abside e cortada pelo transepto, desenha uma elegante cruz latina. No extremo sul do transepto abre-se outra porta para a egreja; esta porta, e a da fachada principal, são as unicas que de fóra a servem. Em poucas palavras eis a descripção da elegantissima planta do templo.

A egreja é pequena, já o dissemos; mas tão pura de estylo que a pequenez não lhe sacrifica a majestade. Para formar idea das suas dimensões, apresentamol-as comparadas com as das Cathedraes de Milão e de Sevilha, colossos de cinco grandes naves do Estylo Ogival.

Milão Sevilha Batalha

m m m

Comprimento da porta ao fim da abside 148 140 81,18

Largura de todas as naves 57 77 21,97

Comprimento do transepto 87 77 36,12

Largura do transepto 19 16 9,48

Nave central { Altura 46 40 27,73

{ Largura 19 16 9,48

MOSTEIRO DA BATALHA—Córte transversal da Egreja segundo o eixo do transepte

MOSTEIRO DA BATALHA—Córte transversal da Egreja segundo o eixo do transepte
MOSTEIRO DA BATALHA—Córte transversal da Egreja segundo o eixo do transepte

N'estas dimensões devemos observar a relação da largura para a altura das naves centraes. Na Egreja da Batalha esta relação é representada por 1:2,9, emquanto na Cathedral de Milão attinge apenas 1:2,4 e 1:2,50 na de Sevilha. Differenças similhantes se devem dar nas naves lateraes; por isso, a expressão de elegancia do edificio portuguez é bem superior ás dos monumentos italiano e hespanhol.

As naves lateraes são illuminadas por sete janelas, das quaes duas na do sul mais pequenas, porque ficam em parte inutilisadas pela capella do fundador. São elegantissimas e correspondem aos vãos interiores das arcadas da egreja. A nave principal recebe, tambem, luz de cada lado, por sete janelas do

clerestory

, verdadeiras reducções das anteriores, abrindo sobre os terraços das naves lateraes, entre os arcobotantes que amparam o corpo mais elevado do centro.

Estas disposições serão facilmente comprehensiveis estudando e comparando as pequenas gravuras correspondentes ao corte longitudinal, segundo o eixo da egreja, ao transversal, segundo o eixo do transepto e finalmente ao do claustro principal

[10]

.

Por cima da porta principal, uma grande janela maior do que o vão d'esta porta, fechada por finissimos rendilhados de pedra, derrama luz suave e multicolor ao longo da nave central. O transepto recebe luz de quatro janelas, rasgadas sobre as absidiolas e ainda de outra sobre a porta do extremo sul do mesmo transepto; janela enorme, de dimensões bem superiores ás da porta, com tympano de quadrifolios sustentado por dois maineis, entre os quaes existe um tecido de pedra aberto em lozangos. Em geral, na ornamentação dos tympanos das janelas predominam os quadrifolios. Insistimos na descripção para darmos idéa da feição caracteristica do ogival inglez, que se manifesta por toda a parte na Egreja da Batalha

[11]

.

MOSTEIRO DA BATALHA—Córte do Claustro principal

MOSTEIRO DA BATALHA—Córte do Claustro principal
MOSTEIRO DA BATALHA—Córte do Claustro principal

Capella do fundador.

Seguindo a planta, ao entrar na egreja á direita, depara-se-nos esta capella de fórma quadrada, tendo 20

m

,1 de lado, juxtaposta á nave do sul, de que inutilisa parte de duas janelas. O conjunto d'este pequeno edificio é de um encanto grandioso, apesar das dimensões. O recinto é illuminado profusamente por tres janelas em cada uma das paredes livres, a do centro magnifica, com sete maineis sustentando um grande tympano, as lateraes de tres maineis. Arcocelios de puro estylo, encostados ao lado sul da capella, cobrem os sarcophagos dos infantes filhos de D. João I e de D. Filippa, cujos restos foram tambem recolhidos n'outro grande e bello sarcophago, isolado no meio da capella entre os arcos de um elevado zimborio, ou torre.

Levanta-se esta construcção sobre oito arcos, formando um octogono de 5

m

de lado. Estas arcadas sobem e sobre ellas e as paredes lateraes assentam as abobadas da parte rectangular da capella; depois, as respectivas paredes crescem, formando exteriormente uma torre octogona, amparada por arcobotantes, tendo em cada uma das faces uma janela. É admiravel o effeito d'este mausoleo, quer no interior, quer no exterior, verdadeira obra prima no genero. Constitue uma creação esthetica tão feliz no exito, que, ainda visto muitas vezes, causa sempre agradavel impressão.

Sacristia.

Da absidiola do norte passa-se para este recinto, tendo 11

m

,95 por 9

m

,47, que nada envolve importante a não ser as duas respectivas janelas conjugadas, viradas ao nascente. Para a sacristia abre a pequena casa do

thesouro

.

Claustro principal.

Encosta-se á nave lateral do norte; mas os porticos não lhe mascaram as janelas, que abrem sobre os terraços d'este claustro. Os porticos são, pois, baixos e não affrontam o corpo da egreja; pelo contrario, completam-n'o, dando-lhe o realce de varios planos. Este magnifico claustro, tendo 55

m

,3 de lado, é formado de grandes arcos, encastrados entre fortes botareos, com tympanos rendilhados repousando sobre cinco finos columnellos; produz um effeito deslumbrante. Sob um pavilhão, tendo paredes communs com o claustro, no angulo sudoeste, existe o lavabo, ou a fonte, a que indubitavelmente se refere a carta citada de D. Duarte. N'este ponto gosa-se de um dos mais bellos golpes de vista, que offerece o Mosteiro.

Casa do capitulo.

No portico oriental do claustro depara-se com a entrada d'este edificio, uma grande porta, ladeada por janelas, uma de cada lado, manifestando tudo extraordinaria belleza nas linhas geraes e na ornamentação. A sala forma um quadrado perfeito de 19

m

,95 de lado. É coberta por um só vão de abobada de extrema elegancia, ricamente artezonada e com enorme bocete. Esta abobada, cuja geração é um pouco complexa, constitue uma especie de cupula, dando em projecção horisontal uma estrella de seis raios. Nos cantos da sala os artezões nascem de misulas; nas paredes, firmam-se em columnellos, que descem ao pavimento. Em verdade, é uma das abobadas mais bellas e bem lançadas que temos visto. Além d'isso, distingue-se pela admiravel perfeição do trabalho; observação que devemos em rigor applicar a todas as obras ogivaes do Mosteiro da Batalha.

MOSTEIRO DA BATALHA—Portico sul do Claustro principal

MOSTEIRO DA BATALHA—Portico sul do Claustro principal
MOSTEIRO DA BATALHA—Portico sul do Claustro principal

Ácerca da construcção d'esta abobada, considerada muito difficil, correm varias lendas. É certo que a abobada é bastante abatida; não nos parece, porém, que a difficuldade extrema da construcção seja o caracter que mais a recommenda. Bem mais difficil julgamos ser a construcção de uma abobada unica, como a que por exemplo cobre o extenso transepto da Egreja do Mosteiro dos Jeronymos, em Belem.

Em frente da porta da entrada d'esta sala, uma grande janela com vitraes, talvez os mais antigos e melhores do Mosteiro, dá luz ao recinto. Tambem se vêem por cima das janelas, que ladeiam a porta, duas pequenas rosaceas. São as unicas, aliás bem insignificantes, que se encontram em todo o Mosteiro, onde reinam exclusivamente as janelas de formas elegantissimas, algumas vezes simples, em geral divididas por maineis.

Refeitorio.

Communica com o portico occidental do claustro real. Nada tem notavel; é apenas uma grande sala de 27

m

,3 por 9

m

,7, abobadada, bastante feia e abaixo do valor architectonico do resto do edificio.

Cosinha.

Em communicação directa com o refeitorio existe a cosinha, tendo 10

m

,17 por 9

m

,34, que por cousa alguma se recommenda.

Adega, e dispensa.

Este edificio abobadado, tendo 37

m

,36 por 9

m

,34, corre ao longo do portico norte do claustro principal, para onde abre apenas por tres frestas.

Portaria.

É uma grande sala, tendo 12

m

,08 por 9

m

,34. Servia de aula para as lições, que os frades davam a estudantes seculares.

Eis a succinta descripção do plano geral do Mosteiro, na parte que se refere aos edificios da primeira epoca, os ogivaes. Quizemos dar uma idéa do conjunto e das disposições relativas, para acompanhar a planta geral e as gravuras, que, segundo pensamos, muito esclarecem e completam a descripção.

II Descripção das fachadas

Descrevamos agora succintamente o exterior do edificio, limitando-nos ás linhas mais geraes. A fachada principal, que olha para o occidente, é formada por tres corpos diversos: o da egreja, ladeado ao sul pelo da capella do fundador e ao norte pelo do refeitorio. Os dois primeiros estão no mesmo alinhamento, o terceiro avança sobre este alinhamento a respectiva largura.

Fachada principal.

Não é ornada de torres. Pertence á categoria das construcções, de que são exemplo as Cathedraes de Sevilha e de Milão. Assim, tambem n'esta fachada se notam, perfeitamente marcadas por botareos encimados de pinaculos, tres divisões verticaes: a do centro correspondendo á nave principal, e as lateraes ás naves secundarias.

MOSTEIRO DA BATALHA—Fachada principal

MOSTEIRO DA BATALHA—Fachada principal
MOSTEIRO DA BATALHA—Fachada principal

A divisão central, de cerca de 30 metros de altura, excede n'um terço approximadamente as divisões lateraes. Comprehende o unico portal, sobrepujado por uma grande janela coroada por elegante platibanda. As divisões lateraes apenas teem as janelas, que illuminam as respectivas naves. Assim, nas linhas geraes, a fachada define com nitidez as dimensões e as disposições internas da egreja.

Na divisão central, o portal pouco profundo, de molduras ogivaes embocetadas e decrescentes, repousando sobre columnellos eguaes, termina no vão da porta, ornada de tympano de pedra. A parede d'esta divisão da fachada cresce sobre o portal e quasi a dois terços da altura cessa, deixando estreita passagem, resguardada por uma platibanda, em frente da grande janela, que dá luz á nave principal. Esta passagem liga entre si os terraços das naves lateraes. O corpo medio da egreja, mais elevado do que os colateraes, é amparado por arcobotantes, dos quaes os mais proximos da fachada são mais rendilhados e leves.

A ornamentação é de extrema sobriedade. Por cima do portal e da janela, altas e estreitas arcaturas—melhor lhe chamariamos talvez caixilhos ou almofadas—cujo lavor pouco sobresae da silharia da parede, parece sustentarem uma faixa de galões tecidos em losangos. As platibandas do edificio offerecem fórmas quadrilobadas, repousando sobre cornijas sustentadas por pequenos modilhões ogivaes. Os botareos centraes da fachada são ornados de caixilhos ou almofadas, a partir de certa altura.

A simplicidade da ornamentação, despretenciosa e pura, é encantadora e traduz no emprego geral das arcaturas principalmente e dos caixilhos, bem como na relação das portas e das janelas e na ausencia de rosaceas, os caracteres do ogival inglez, apontados por Hope, na citação anteriormente feita

[12]

.

Fachada da capella do fundador.

É ainda de maior simplicidade. A parte quadrada inferior está dividida por quatro botareos, em cujos vãos se rasgam tres janelas. Dos botareos centraes partem arcobotantes, que terminam proximo das cabeças de outros oito botareos, revestindo os angulos da torre octogonal; a cada intervallo corresponde uma das oito respectivas janelas. A ornamentação, muito sobria e do caracter da anterior fachada, resume-se nas platibandas, desacompanhadas de arcaturas. A torre central foi coroada por um grande corucheo. Pena é que a restauração do Mosteiro não abrangesse até hoje este importante complemento, que tanto engrandeceria a fachada principal.

MOSTEIRO DA BATALHA—Portal do sul

MOSTEIRO DA BATALHA—Portal do sul
MOSTEIRO DA BATALHA—Portal do sul

Fachada do refeitorio.

Por um muro curto e liso, apenas encimado pela platibanda já descripta, muro que corresponde a uma pequena extensão do claustro principal, liga-se a fachada simplicissima do refeitorio e da cozinha com a da egreja. É um edificio longo, dividido por nove botareos, entre os quaes se abrem janelas ou frestas, seis do refeitorio e duas da cozinha. São de verga inteira, sem ornamentação alguma. Platibanda similhante á do resto do edificio corôa tambem esta construcção.

Como se vê, o conjunto das fachadas, offerecendo original simplicidade, é muito sobrio nas linhas geraes e mais ainda na ornamentação, em nada parecida com as disposições complicadas de outras construcções ogivaes, principalmente de caracter francez e allemão. Seria isto ainda um indicio, se necessario fosse, da origem do estylo do Mosteiro da Batalha.

Fachada sul.

Desenham-se as duas naves, a lateral com as janelas sobre parede lisa: as duas primeiras mascaradas em parte pela capella do fundador. A nave central vê-se por cima, guarnecida de botareos, sustentados por arcobotantes, encastrando as respectivas janelas do

clerestory

.

Na parte correspondente ao transepto, outro portal, mais simples do que o primeiro, constitue a segunda entrada da egreja, tendo por cima a grande janela que anteriormente descrevemos. Na desproporção dos respectivos vãos mais se accentua, ainda, a observação de Hope sobre o ogival inglez. Seguem-se as absides com estreitas janelas e, encostada ao fundo d'essas absides, a construcção das

capellas imperfeitas

.

Fachada norte.

A este lado da egreja está encostado o claustro. A disposição d'esta fachada é em tudo similhante á precedente, salvo a elegante torre do relogio, coroada de fina e rendilhada agulha.

O córte do edificio pelo claustro, gravura anteriormente apresentada, completa a descripção das mais importantes fachadas, porque as restantes se acham, em parte ou no todo, mascaradas pelas

capellas imperfeitas

e pelos edificios do antigo convento, ainda hoje existentes.

III A ornamentação architectonica do Mosteiro

A grande arte traduz-se nas linhas geraes, que a ornamentação deve acompanhar, realçando-as apenas, sem lhes prejudicar a pureza e as elevadas qualidades essenciaes. O excesso de ornatos constitue, em geral, grave symptoma de decadencia na arte ou falta de genio nos artistas.

Assim, uma das fórmas fundamentaes da belleza é incontestavelmente o corpo humano; ora, a suprema expressão d'esta unidade esthetica consiste em o representar em completa nudez. A grande difficuldade está incontestavelmente em realisal-o.

Os artistas gregos, os geniaes creadores da mais perfeita esculptura do corpo humano, em que até hoje não tiveram senão bem raros competidores, descobriram esta lei do bello e enunciaram-n'a em milhares de creações, algumas das quaes, que resistiram á acção destruidora do tempo e dos homens, são ainda hoje causa de sincera e profunda admiração. Eis por que elles representavam quasi sempre Venus e Apollo, symbolos da belleza humana, em perfeito estado de nudez; e quando excepcionalmente lhes envolveram os corpos em leves estofos, a ornamentação contribuia para avigorar e realçar a perfeição das fórmas e das carnes nuas.

Uma das mais formosas estatuas classicas, semi-vestidas, ainda existente, a Venus Callipygia do Museu de Napoles, arregaça com a mão esquerda a fina e leve tunica, deixando ver as linhas mais puras e suaves do corpo humano, traduzidas admiravelmente no antigo marmore de Paros, a que os seculos deram quasi o tom avelludado e quente de uma carnadura viva e palpitante. A casta Diana, a sabia e guerreira Minerva não fogem a esta regra. Uma das melhores estatuas da Galeria Chiaramonti no Vaticano, Diana contemplando Eudymion adormecido, veste o

peplum

tão cingido, que por baixo d'elle se desenha o bello torso; a tunica roçagante é tão fina e sedosa, que atravez do estofo transparente se vêem as fórmas delicadas e perfeitas da casta deusa.

Assim, na esculptura como na architectura, o genio grego demonstrou que nas linhas geraes reside a suprema belleza, não sendo a ornamentação mais do que um accessorio, que, longe de as abafar e deturpar, deve pelo contrario contribuir para as engrandecer e realçar. A simplicidade, a pureza e a harmonia da ornamentação são, pois, qualidades indispensaveis dos grandes estylos da arte

[13]

.

Os primitivos architectos ogivaes do Mosteiro da Batalha executaram esta lei esthetica com verdadeiros rasgos de genio. Assim, em edificio algum do mesmo estylo, dos muitos que temos visto, a harmonia e a pureza das linhas geraes tocam o grau da perfeição, attingido no monumento portuguez; nem é possivel encontrar segundo, entre os de correspondente importancia, tão sobrio e puro na ornamentação. Estas qualidades excepcionaes são exactamente as que originam o seu incontestavel e elevado valor artistico. A harmonia architectonica entre as linhas geraes e a ornamentação é tão intima e perfeita, que, ao primeiro golpe de vista, o monumento portuguez produz a impressão profunda de uma unidade esthetica.

É muito difficil, se não impossivel, com simples palavras definir impressões. Certos movimentos do espirito são comprehensiveis, porque, nascendo da propria essencia da alma, todos os possuimos e os sentimos em maior ou menor escala. A não ser isto, tornar-se-iam muitas vezes enigmaticos, visto que a linguagem humana, perfeita para a enunciação de idéas, é um instrumento incompleto, quando pretende definir a intima e profunda natureza das sensações e dos sentimentos. Assim, esta expressão

unidade esthetica

poderá parecer obscura aos que não tenham larga cultura intellectual, ou pelo menos não possuam poderosas faculdades artisticas.

A nossa experiencia tem-nos demonstrado que em taes casos uma simples comparação vale mais do que longas e didacticas dissertações. Evoquemos do passado de vinte e cinco seculos uma mulher d'essa belleza singular, que serviu de modelo aos maiores esculptores da Grecia; vistamol-a, depois, de qualquer fórma. Ficará sempre uma mulher formosa. Mas o penteado elegante e alto, o

peplum

afivelado nos hombros nús, caindo sobre a tunica leve e roçagante, emfim, esse vestuario que o genio grego creou para as linhas geraes da belleza jonica, fará da mulher formosa uma

unidade esthetica

.

Assim, o Mosteiro da Batalha produz-nos a impressão encantadora das mulheres virgens, honestas e formosas, ornadas com essa extrema e elegante simplicidade, que é o reflexo exterior e harmonico de um puro estado da alma.

Já falámos das fachadas do Mosteiro; bem longe estamos d'esses enormes porticos profundos de caprichosa ornamentação, coroados de grandes rosaceas, e ladeados de torres immensas, cujas agulhas finas e rendilhadas parece tocarem as mais altas nuvens. O Mosteiro da Batalha não offerece esta rica ornamentação. Nem torres, com flechas arrojadas, nem profundos porticos guarnecidos de grandes esculpturas de phantasticas e mysticas personagens, possue o modesto e singelo monumento!

A Cathedral de Milão é povoada por 6:000 estatuas de todas as grandezas, dispersas pela vasta construcção em nichos de ricos e variadas fórmas. O Mosteiro da Batalha tem apenas as doze estatuetas do portico; em mais parte alguma se vê outra estatua, ou um nicho deserto espera ainda a obra do esculptor!

O interior da egreja é, tambem, de absoluta simplicidade. A ornamentação limita-se aos pontos, onde era indispensavel: aos capiteis das columnas, aos tecidos das janelas e, por excepção, aos lambrequins de pedra que guarnecem o intradorso dos arcos das absides.

Os feixes de columnellos, de extrema elegancia e delicadeza, que revestem os pilares das naves, sobem a grande altura e ramificam-se nas abobadas, abrindo-se em simples rede de nervuras singelas. A Cathedral de Sevilha, no vastissimo cruzeiro e nos primeiros vãos das naves, a de Milão, em toda a extensão da grande nave, offerecem as abobadas recamadas de

verdadeiras

rendas de pedra, entre os meandros de complicadas nervuras.

As paredes nuas do templo, emolduradas pelos arcos e pelos columnellos, crescem de baixo até acima sem o mais simples ornamento, sem a mais ligeira moldura; n'essas superficies immensas brilham, apenas, as janelas de excellentes proporções, como refulgem os grandes diamantes, encastoados em velha prata oxidada. A Egreja da Batalha possue a belleza ideal das suas linhas geraes, a perfeição innegavel da construcção e a côr de velho marfim, que os seculos deram á antiga pedra. Mais nada.

Em todo o Mosteiro reina egual simplicidade. Na capella do fundador, cujas disposições elegantissimas já tentámos descrever, a ornamentação é um pouco mais rica nos lambrequins dos arcos da cupula interna. Não falaremos no tumulo de D. João I e D. Filippa e nos bellos arcocelios dos tumulos dos infantes seus filhos, porque na realidade não constituem verdadeiros elementos de ornamentação architectonica.

MOSTEIRO DA BATALHA—Janela do Claustro principal

MOSTEIRO DA BATALHA—Janela do Claustro principal
MOSTEIRO DA BATALHA—Janela do Claustro principal

No claustro principal póde dizer-se que toda a ornamentação se concentra tambem nos pontos onde era indispensavel: nos grandes tecidos dos arcos dos porticos, na porta e nas janelas da casa do capitulo e no pequeno pavilhão do lavabo, que existe proximo do refeitorio.

Os tympanos dos arcos do claustro, sustentados por finos columnellos, são em geral magnificos. Apresentamos a gravura de dois arcos: um servindo de porta, outro de janela. Em ambos, principalmente, no segundo, ha vestigios e caracteres evidentes de renascença manuelina.

A porta e as janelas da casa do capitulo são excellentes. Na gravura do portico oriental do claustro podem distinguir-se com certa nitidez estes elementos. Do interior d'esta bella sala já falámos precedentemente.

O pequeno pavilhão da fonte, ou lavabo, é talvez o ponto do Mosteiro onde os architectos empregaram mais rica ornamentação, cujo caracter melhor se comprehende pela inspecção da respectiva gravura, o que não conseguiriamos em larga descripção.

Se da ornamentação das fachadas e do interior dos edificios passamos para a dos coroamentos, a lei da simplicidade e da harmonia não soffre excepção.

Parecem guarnecidos de renda ingleza

, disse-nos um dia alguem, expressando perfeitamente a impressão, que elles produzem, pela figura que melhor se adequava ás tendencias e aos habitos do proprio sexo.

De facto, os coroamentos dos edificios, formando grandes linhas horisontaes em diversos planos, são contornados por largas fachas rendilhadas, verdadeiras platibandas, em geral de espaço em espaço

Illustration from A architectura religiosa na Edade Média

divididas por pilastras lisas, encimadas de pequenos pinaculos. Damos o desenho de um motivo assás frequente. O parapeito é guarnecido de um bello entrelaçado, onde predomina a flor de lyz; o corpo da platibanda, de evidentes quadrilobulos, assenta sobre uma cornija, sustentada por modilhões arqueados.

Este desenho póde considerar-se o

leit-motiv

da bella symphonia ornamental dos coroamentos dos edificios. Por toda a parte foi o fio conductor, que dirigiu e deu unidade á inspiração do architecto. As fórmas variam, de certo, um pouco; mas, quasi sem excepção, ha sempre em todas a acção e a reminiscencia do trecho inicial.

Além d'esta ornamentação nada mais têem hoje os edificios senão dois pinaculos mais elevados e a agulha, se tal nome merece o elegante e rendilhado corucheo da pequena torre do relogio. N'outro tempo, a capella do fundador foi, tambem, coberta por outro corucheo mais consideravel, ignorando nós as rasões do seu desapparecimento. Julgamos que este importante elemento architectonico deve ser reconstruido, como o exige a linha geral da fachada do Mosteiro, que assim ficaria muito mais completa e

majestosa

[14]

.

MOSTEIRO DA BATALHA—Porta do Claustro principal

MOSTEIRO DA BATALHA—Porta do Claustro principal
MOSTEIRO DA BATALHA—Porta do Claustro principal

As tendencias horisontaes dos coroamentos, dispostos em planos não muito differentes, a ausencia quasi completa dos elementos verticaes de grande altura dão ao conjunto do Mosteiro uma fórma acastellada, muito caracteristica do ogival inglez, que manifesta fortemente, por exemplo, a Cathedral de York.

Este facto seria ainda mais um indicio, se necessario fosse, da origem architectonica do monumento portuguez. A impressão é, sobretudo, bem definida vendo ao longe o desenho das suas grandes linhas em noite clara de estrellas, ou de pouco luar; ora, este effeito cresceria de intensidade, se o edificio ogival fosse construido em logar elevado, em vez de occupar um pequeno e fundo valle.

Não se supponha que esta impressão possa provir da elevação do monumento sobre as edificações proximas, ou do tom escuro da grande molle desenhando-se mysteriosa e solemnemente nas semi-trevas da noute. Bem maior e mais alta é a Cathedral de Sevilha, tambem desprovida de grandes e numerosos elementos verticaes, e o seu enorme contorno não produz egual impressão. Emquanto á Cathedral de Milão o effeito nocturno é surprehendente; mas de natureza bem diversa, diremos mais, perfeitamente caracteristica e propria d'aquelle admiravel colosso.

Sempre que nos foi possivel, não deixámos de ver os grandes monumentos nas semi-trevas da noite, ou á luz do luar. Não procuramos só o effeito poetico, ainda que esse é um dos fins das artes plasticas. A physionomia dos antigos monumentos toma na penumbra da noite uma grandeza especial; fala mais ao sentimento, que tambem é origem de idéas e excellente mnemonica.

Assim, a impressão sentimental do Mosteiro da Batalha, principalmente do claustro, á luz de um luar claro, não se oblitera da memoria; como jámais esquece o effeito d'esse gigante ogival de Milão, visto de longe á claridade suave do incomparavel luar de Italia.

Milão estende-se sobre vasta planicie d'esse fertil terreno de alluvião, de que é formada quasi toda a Lombardia. Do coração da cidade irrompe a grande molle da Cathedral, dominando tudo em volta de si, elevando-se, montanha de marmore branco, com as fórmas phantasticas e caprichosas de um enorme

iceberg

dos mares septentrionaes. Pelo silencio da noite o monumento parece velar o somno da cidade, protege-a e fala-lhe quando o enorme sino do relogio, collocado no alto da grande torre, marca solemnemente as horas com graves sons, fortes, avelludados e severos, que parece encherem o espaço entre os Alpes e os Apenninos.

MOSTEIRO DA BATALHA—Portico oriental do Claustro principal

MOSTEIRO DA BATALHA—Portico oriental do Claustro principal
MOSTEIRO DA BATALHA—Portico oriental do Claustro principal

Tornando ao Mosteiro da Batalha, devemos concluir dizendo que o pobre monumento portuguez não possue ricos vitraes, essa ornamentação tão bella e caracteristica dos tempos medievaes. É certo que Mousinho de Albuquerque, a quem já nos referimos, começou a restauração methodica dos antigos vitraes, que na maior parte encontrou partidos. Este trabalho tem sido continuado com algum exito; mas bem merecia o monumento obra mais completa e perfeita.

Da ornamentação subsidiaria dos grandes monumentos religiosos, nada existe; nem um simples orgão, que daria á bella egreja esse mystico encanto da musica religiosa.

Assim, temos descripto o Mosteiro da Batalha não com a intenção de lhe fazer completa monographia, porque esse trabalho exigiria proporções na descripção, nos planos e nas gravuras bem superiores á do presente livro, mas com o simples fim de darmos, quanto nos foi possivel, exemplos nacionaes dos estylos architectonicos.

Quizemos escrever um livro portuguez, feito exclusiva e completamente em Portugal; tel-o-emos conseguido?...

MOSTEIRO DA BATALHA—Fonte

MOSTEIRO DA BATALHA—Fonte
MOSTEIRO DA BATALHA—Fonte

CAPITULO QUINTO

RELAÇÃO DOS ARCHITECTOS E MESTRES

Ainda julgamos ser util dar noticia dos nomes dos mestres e architectos, que em differentes epocas dirigiram as obras do Mosteiro da Batalha; nomes citados em documentos, dos quaes hoje muitos se devem considerar perdidos. Esta simples e incompleta enumeração poderá talvez servir para guiar futuras investigações sobre o Mosteiro da Batalha.

Affonso Domingues.

Apparecia em documento de 1402, que o dava já por fallecido. Como a construcção começou em 1387, é muito provavel que fosse um dos primeiros architectos do Mosteiro, se foi architecto. Segundo a nossa opinião, expendida n'um dos anteriores capitulos, Affonso Domingues foi o primeiro

vedor

real das construcções.

Mestre Ouguet

,

Huet

ou

Huguet

. Apparecia como testemunha, no citado documento de 1402. Depois, documentos de 1450 e 1451 davam-n'o já como fallecido. D. Francisco de S. Luiz affirma que bem póde ser este mestre o Aquete, de que falla a tradição. Raczynski concorda com esta opinião. Emquanto a nós, parece-nos que esta hypothese é forçada, porque o nome inglez sonicamente correspondente é Hewett e não Hacket. D. Duarte em 1433 fez doação a este mestre de umas casas, que ficavam perto do Mosteiro; portanto elle vivia ainda pelo menos n'este anno. Talvez a casa doada fosse uma destruida ha poucos annos, sendo vendida por baixo preço a ultima e bella janela antiga.

Martin Vasques.

Apparecia em documentos de 1450 e 1451, dando-o já como fallecido. D. Francisco de S. Luiz colloca-o entre os successivos mestres do Mosteiro, desde 1438 a 1448, anno em que morreu, suppondo, ignoramos com que fundamento, que este mestre e o seguinte foram os constructores do segundo claustro, denominado de D. Affonso V.

Fernão de Evora.

Era sobrinho do precedente mestre. Vinha mencionado em documentos de 1448 a 1473.

Mestre Guilherme.

Por morte de Fernão d'Evora, foi nomeado mestre do Mosteiro por D. Affonso V em 21 de outubro de 1477. (Sousa Viterbo,

Diccionario

).

Matheus Fernandes.

Era mestre do Mosteiro, quando em 1480 D. Affonso V lhe tirou o cargo para o dar a João Rodrigues, cuja competencia declara superior.

O Sr. Sousa Viterbo pergunta se será outro Matheus Fernandes, alem dos dois seguintes, ou se o architecto, caído em desgraça, se rehabilitou depois? Parece-nos mais provavel a primeira hypothese.

João Rodrigues.

Nomeado em 1480 mestre do Mosteiro por destituição do antecedente. Deve notar-se que já em 1490 era mestre do Mosteiro o seguinte Matheus Fernandes. (Sousa Viterbo,

Diccionario

).

João da Arruda.

Em 1485, sendo mestre do Mosteiro, foi mandado a Beja por D. João II para avaliar certas propriedades. (Sousa Viterbo,

Diccionario

).

Matheus Fernandes.

Um documento de 1503 falava d'este mestre, dizendo: «o muito honrado Matheus Fernandes, vassalo de El-rei, juiz ordinario na villa do Mosteiro de Santa Maria da Victoria e mestre de obras do dito Mosteiro, por El-rei Nosso Senhor.» Em documento de 1497 falava-se em Margarida Fernandes, sua filha, o que leva a crer que o pae já era mestre de obras do Mosteiro n'esse anno. Á entrada da egreja da Batalha, descendo os degraus da porta principal pode lêr-se ainda o seguinte epitaphio: «Aqui jaz Matheus Fernandes, mestre que foi d'estas obras, e sua mulher Izabel Guilhelme e levou-o Nosso Senhor aos 10 dias de abril de 1515, ella levou-a...» A ultima data não foi gravada.

D'aqui se póde concluir que Matheus Fernandes foi mestre de obras do Mosteiro, desde o principio do reinado de D. Manuel até 1515; ora, como n'esse periodo a construcção das capellas imperfeitas foi muito activa, póde, com bastante plausibilidade, attribuir-se-lhe o respectivo plano. Sua mulher Isabel Guilhelme é provavelmente irmã ou filha de Guilhelme Belles, ou Belen, mestre vidraceiro que vivia de 1448 a 1473, ou do precedente mestre Guilhelme, architecto.

Matheus Fernandes

(filho). Succedeu ao pae em 1516. Em documento de 1525, apparecia o nome d'este mestre, dando-o vivo; logo não podia ser o precedente, devendo ser naturalmente seu filho. O nome d'este mestre não se encontrava em mais documento algum; d'onde D. Francisco de S. Luiz conclue que foi afastado para outra obra.

Boutaca

ou

Boytaca

. Apparecia em documento de 1509, como cavalleiro fidalgo da casa de El-rei; era tambem citado em documentos de 1512, 1514 e 1519. D. Francisco de S. Luiz dá-o como fallecido em 1528. Raczynski, sem citar auctoridades, affirma que este mestre italiano foi o constructor do Mosteiro dos Jeronymos em Belem. Varnhagen, em artigo publicado no «Panorama», de 9 de dezembro de 1843, diz que em documentos existentes na Torre do Tombo, descobriu que este mestre italiano Potassi foi o constructor do Mosteiro dos Jeronymos, bem como provavelmente o da Egreja da Conceição Velha de Lisboa.

Em 1490 apparece um certo Diogo Boytaca, como auctor do plano do Convento de Jesus, em Setubal, cuja construcção começou n'esse anno. A este mesmo architecto concedeu D. Manuel, em 1498, a tença de 8$000 réis annuaes, a vencer depois do seu casamento.

Sabe-se que depois, em 1512, um Boutaca, residente, ou pelo menos tendo propriedades, proximo do Mosteiro da Batalha, era casado com Isabel Amriques. Assim, foi rasoavel suppor que estes dois Butacas eram um só individuo. Aconteceu, porém, que ha poucos annos se procedeu a obras de restauração na pequena Egreja de Santa Maria da Victoria, que durante algum tempo serviu de freguezia á villa nascente; ora, subterradas no solo d'esta egreja, foram encontradas duas lapides tumulares, que veem lançar grande confusão nos trabalhos dos archeologos.

A primeira lapide tem o seguinte epitaphio:

Sepultura, de mestre Boutac, cavalleiro da caza d'El-Rei nosso Senhor e mestre das obras do reino. Faleceu a 6 de Dezembro de 157

...

O ultimo algarismo da data é illegivel.

Na outra lapide, encontrada junto á primeira, lê-se:

Sepultura de Isabel Amriques, mulher de mestre Boutac. Falleceu em 23 d'Abril de 1522

.

Assim, á primeira vista parece que este Boutac e sua mulher são os individuos, anteriormente citados. Mas para que isto seja possivel é necessario admittir que Boutac morreu com 100 annos, pelo menos. De facto, se elle foi o auctor do plano do Convento de Jesus, em Setubal em 1490 e morreu em 1570, hypothese mais favoravel, entre estas datas medeiam 80 annos. Ora, qual seria a edade do architecto, aliás estrangeiro, quando projectou tão grande obra?

Concedamos 20 annos a Boutac, se é o mesmo; viveu, pois,

pelo menos

, 100 annos. Como isto não é nada provavel, resta a hypothese de Boutac pae e filho; mas, n'este caso deviam existir logo duas mulheres do mesmo nome Isabel Amriques, morrendo a a segunda 48 annos antes do marido!

O que nos parece singular, tambem, é a orthographia tumular do nome, duas vezes escripto. Se o

c

final foi cedilhado, o som é bem proximo de Potassi.

D. Francisco de S. Luiz classifica Boutaca, entre os mestres de artes ou officios desconhecidos; ora, é indiscutivel que foi architecto e tão importante que chegou—elle ou o filho?—a ser

mestre de obras do reino

.

João de Castilho.

Varnhagen, no seu opusculo sobre o Mosteiro dos Jeronymos, em Belem, diz que João de Castilho foi nomeado para as obras do Mosteiro da Batalha em 4 de julho de 1528, por morte de Matheus Fernandes, filho, o que não nos parece exacto.

Miguel da Arruda.

Em 25 de junho de 1533 foi nomeado por D. João III mestre do Mosteiro, pela renuncia d'este cargo dada por João de Castilho. (Sousa Viterbo,

Diccionario

).

Dyonisio da Arruda.

Sobrinho do precedente, a quem substituiu por sua morte. Foi nomeado por D. João III em 25 de outubro de 1563. (Sousa Viterbo,

Diccionario

).

Antonio Gomes.

Apparecia como mestre n'um documento de 1548; n'outro documento de 1551 era, apenas, mencionado como pedreiro. D. Francisco de S. Luiz conclue d'este facto, com boa critica, que as obras do Mosteiro eram muito pouco importantes n'esse tempo.

Antonio Mendes.

Figurava em documento de 1578, como cavalleiro fidalgo da casa de El-rei, Nosso Senhor; na certidão da ciza, junta a este documento, lia-se: «Antonio Mendes, mestre das obras de El-rei Nosso Senhor». D. Francisco de S. Luiz crê que era um simples titulo honorifico, dando apenas direito ao vencimento de mestre de obras.

Guilhelme Bellés

ou

Bellen

. Apparecia em documentos de 1448, 1463 e 1473, como mestre vidraceiro. Este nome é estrangeiro, parecendo-nos de origem franceza. Deve notar-se que a Cathedral de Bruges foi sempre celebre pelos seus vitraes.

Mestre João.

Apparecia como vidraceiro em documentos de 1489 e de 1528, tendo fallecido n'este anno ou no precedente.

Antonio Faca.

Apparecia em varios documentos, como mestre vidraceiro, sendo o primeiro de 1532. Era já fallecido em 1543.

Antonio Faca

(filho). Documentos de 1535 e 1538, demonstravam que o mestre precedente tinha um filho do mesmo nome, designado pelo

moço

. Como este nome apparecia em documentos de 1543, quando o anterior era já fallecido, devemos concluir que o filho succedeu ao pae como mestre vidraceiro. Era já fallecido em 1596.

Antonio Faca

(neto). Apparecia em documentos de 1608, o que deixa presumir o parentesco apontado, Este appellido parece-nos ser estrangeiro, talvez italiano ou hespanhol.

Mestres de artes ou officios desconhecidos

Conjati.

Documentos de 1428, 1431 e 1443.

Miguel.

Documento de 1440.

Estaço

, 1463. Contemporaneo de Fernão d'Evora.

Conrate

, 1428.

Officiaes de algumas artes e officios

Estevam Gomes

, pedreiro, mestre d'obras do Infante D. Pedro, 1428.

João Affonso

, apparelhador, 1450.

Gil Eannes

, imaginador, documentos de 1465.

Affonso Lopes

, imaginador, documentos de 1534, 1544 e 1555.

Duarte Mendes

, entalhador, documento de 1535.

Henrique Francez

, entalhador, documento de 1535.

Pero Faca

, entalhador, documentos de 1549 e 1561.

Francisco Faca

, pintor, documentos de 1566.

Alvaro Morato

, pintor, documentos de 1592.

Muitos d'estes dados são extrahidos da Memoria de D. Francisco de S. Luiz sobre o Mosteiro da Batalha. Os documentos foram, pois, compulsados por este escriptor, cuja auctoridade é incontestavel. Alguns provéem do

Diccionario dos Architectos, Engenheiros e Constructores Portuguezes

, do Sr. Sousa Viterbo.

COLLOCAÇÃO DAS PHOTO-GRAVURAS

Entre pag.

1.ª Schema do uma basilica romana 48-49

2.ª Roma. Basilica de S. Paulo, fachada principal 54-55

3.ª Roma. Basilica de S. Paulo, fachada lateral 56-57

4.ª Roma. Basilica de S. Paulo, interior 58-59

5.ª Roma. Basilica de S. Lourenço, fachada 60-61

6.ª Roma. Basilica de S. Lourenço, interior 62-63

7.ª Constantinopla. Egreja de Santa Sophia, exterior 68-69

8.ª Constantinopla. Egreja de Santa Sophia, interior 72-73

9.ª Sé de Lisboa. Planta geral 148-149

10.ª Sé de Lisboa. Ruinas do terramoto de 1755 150-151

11.ª Sé de Lisboa. Fachada principal restaurada 152-153

12.ª Sé de Lisboa. Fachada lateral restaurada 164-165

13.ª Convento de Thomar. Fachada da egreja 202-203

14.ª Convento de Alcobaça. Fachada da egreja 212-213

15.ª Convento da Batalha. Vista geral 222-223

16.ª Convento da Batalha. Planta geral 248-249

17.ª Convento da Batalha. Córte longitudinal da egreja 258-259

18.ª Convento da Batalha. Córte transversal da egreja 260-261

19.ª Convento da Batalha. Córte do claustro principal 262-263

20.ª Convento da Batalha. Portico sul do claustro 264-265

21.ª Convento da Batalha. Fachada principal da egreja 266-267

22.ª Convento da Batalha. Portal do sul da egreja 268-269

23.ª Convento da Batalha. Janela do claustro principal 274-275

24.ª Convento da Batalha. Porta do claustro principal 276-277

25.ª Convento da Batalha. Portico oriental do claustro 278-279

26.ª Convento da Batalha. Fonte no claustro principal 280-281

Estas gravuras, excepto a do n.º 12—

Fachada lateral da Sé de Lisboa, restaurada

—são das officinas do Sr. Thomaz Bordallo. A do n.º 12, aliás uma das mais difficeis, é das officinas do Sr. Marinho. São, pois, todas nacionaes.

INDICE

Introducção VII

PARTE PRIMEIRA

Origens da architectura christã

Capitulo 1.º A lucta entre o paganismo e o christianismo 3

Capitulo 2.º Os tres primeiros seculos do christianismo 17

Capitulo 3.º As invasões dos barbaros 33

PARTE SEGUNDA

Os estylos christãos primitivos

V seculo ao X seculo

Capitulo 1.º Espirito e caracteres do Estylo-Latino 45

Capitulo 2.º Espirito e caracteres do Estylo-Byzantino 63

Capitulo 3.º Acção reciproca dos dois estylos christãos primitivos 81

PARTE TERCEIRA

Os estylos christãos definitivos

X seculo ao XV seculo

Capitulo 1.º Synthese social dos seculos XI e XII 101

Capitulo 2.º Espirito e caracteres do Estylo-Romanico 119

Capitulo 3.º A Sé Patriarchal de Lisboa e a sua restauração 141

Capitulo 4.º Synthese social do seculo XIII 167

Capitulo 5.º Espirito e caracteres do Estylo Ogival 181

Capitulo 6.º O Estylo Ogival entre nós 201

PARTE QUARTA

O Mosteiro de Santa Maria da Victoria

Capitulo 1.º Origens e construcção do mosteiro 223

Capitulo 2.º O estylo architectonico do mosteiro 233

Capitulo 3.º As epochas da construcção do mosteiro 249

Capitulo 4.º Descripção do mosteiro 259

Capitulo 5.º Relação dos architectos e dos mestres 281

Collocação das photo-gravuras 289

Notas:

[1]

O seguinte curioso facto demonstra a lenta formação dos estylos architectonicos. Em 1870, quando a cidade de Lyão esteve ameaçada pelos exercitos allemães, o Arcebispo Genouilhae fez a promessa de reedificar a pequena capella de Nossa Senhora de Fourvière, existente n'uma montanha que domina a grandiosa cidade, se ella fosse poupada pela guerra. O

milagre

deu-se e o voto cumpriu-se; sendo elevada uma sumptuosa egreja n'esse ponto, onde por signal se disfructa um dos mais bellos e extensos panoramas do mundo.

Os architectos Bossan e depois Perrin, amhos de incontestavel valor,

sonharam

a formação de um novo estylo, em que o genio da arte classica se alliasse ao mysticismo dos estylos christãos n'uma unidade comprehensivel pelo espirito moderno. Aos constructores não faltava talento e sciencia para a tentativa, nem lhes escassearam recursos, porque na egreja, aliás não muito grande, se dispenderam, segundo informações recebidas que não julgamos exageradas, mais de 9:000 contos. Pois a tentativa falhou por completo!

É extraordinario o effeito singular, até desagradavel, que produziu no nosso espirito aquella formidavel

mistura

de elementos heterogeneos, constituindo, sem a menor duvida, um

montão

de fabulosas riquezas e de preciosos e admiraveis pormenores architectonicos!

Se nos fosse permittida a expressão, diriamos que julgámos assistir a uma

mascarada

de estylos, porque, havendo quasi todos, uns tomam as feições dos outros, conservando algumas das respectivas linhas e qualidades fundamentaes. Ha de tudo, até o boi Apis ornamentando uma porta interior em Estylo Egypcio!

Todavia, considerados isoladamente, quasi todos os elementos são admiraveis de concepção e de execução. O caso é analysal-os separados uns dos outros. Na fachada, por exemplo, tres lindissimos arcos de fórma ogival repousam sobre elevadas columnas de linha classica, onde todas as proporções e modulos foram desprezados. Por cima d'esta arcada rasga-se uma galeria de caryatides classicas; mas... as estatuas são oito anjos em posições mysticas, perfeitamente eguaes e com solemnidade byzantina. O edificio é coroado por frontão tambem de contorno classico, cujo tympano é preenchido por altos relevos de caracter byzantino. Esta fachada é ladeada por duas torres, que têem

ares

de romanicas, não sendo afinal cousa alguma!

No interior reina egual confusão de estylos, e, para de tudo haver, grandes superficies das paredes são revestidas por pannos tecidos ornamentaes.

Eis ao que se chegou pretendendo crear um estylo!

Descendo a montanha, a curta distancia, encontra-se a bella Cathedral de S. João, um primor ogival como é regra em quasi todas as magnificas egrejas de Lyão. E todavia o Estylo Ogival fez-se com elementos de variados e successivos estylos!

A differença está em que a acção dos seculos em lenta evolução combinou os elementos d'esses estylos, adoçou-lhes as antinomias e esbateu-lhe as linhas rudes dos caracteres; emfim, penetrou-os intimamente n'um producto harmonico, como a fusão liga metaes differentes n'uma constituição physica, onde todos contribuem para um composto homogeneo. Assim, no seio de uma mulher se produz um novo ser, que se parece com os antecessores, mantendo a propria originalidade.

Os novos estylos precisam de incubação no seio dos seculos.

Este exemplo da Egreja de Fourvière deve ser citado e apreciado na Philosophia e na Historia da Arte.

[2]

Durante os trabalhos de restauração da porta lateral foram descobertas umas galerias subterraneas, evidentemente anteriores á construcção do edificio, porque estão cortadas pelos alicerces d'elle. Estas galerias têem cêrca de 1

m

,5 de altura por 0

m

,80 de largura, sendo revestidas de silharia e abobadadas em arco circular com pedras regulares. As que percorremos parece virem do lado do Castello de S. Jorge, atravessam a Rua do Limoeiro seguindo por baixo dos edificios annexos á fachada lateral-norte, até ao liminar da porta lateral da egreja. Ahi a galeria bifurca-se, lançando em curva um ramo para dentro da egreja e outro seguindo ao longo da parede do edificio, onde se encosta a Capella de Bartholomeu Joannes. O primeiro ramo está cortado pelo carneiro, onde jazem os restos do Cardeal Patriarcha de Lisboa D. Rodrigo da Cunha, o segundo pelos alicerces da capella ou da torre; mas ambos continuam manifestamente para alem d'estes pontos.

Será facil encontrar esta galeria fazendo no solo do edificio annexo, que fica á esquerda do vestibulo da porta lateral, um corte parallelo á face interna da parede occidental; a pequena altura encontrar-se-á a galeria, se um dia houver curiosidade de o fazer.

Segundo pensamos, esta galeria, que nunca foi cano de esgoto ou aqueducto, é de construcção romana e póde ser um caminho secreto, que ligava o velho castello romano com qualquer outro ponto da cidade, junto ás margens do Tejo.

Parece-nos muito provavel que os tão falados subterraneos da Sé de Lisboa se reduzam a esta galeria, que manifestamente percorre o subsolo da egreja e porventura se ramifica no interior d'ella.

[3]

As principaes dimensões da egreja são as seguintes:

metros

Comprimento da porta ao fim da capella-mór 59,20

Comprimento do transepto 35,00

Largura total das tres naves 21,90

{ Altura 18,70

Nave central {

{ Largura 9,60

{ Altura 9,20

Nave lateral (duas eguaes) {

{ Largura 6,25

{ Altura 18,70

Transepto {

{ Largura 7,80

{ Comprimento 17,80

Capella-mór { Altura 15,65

{ Largura 11,40

Os comprimentos e as larguras referem-se ás superficies interiores das paredes e aos eixos dos pilares; as alturas aos fechos das abobadas.

[4]

Este famoso arrendamento, feito pelo Ministerio das Obras Publicas, produz 10$000 réis annuaes ao Thesouro!

[5]

O convento tem servido de moradia a algumas familias, cujos fogões de cozinha foram alimentados por taboas arrancadas dos tectos e naturalmente pelas portas

inuteis

. É provavel que o

uso

continue com os effeitos previstos.

[6]

É versão geral por 40$000 réis.

[7]

A Suissa em outros tempos foi tambem victima da pilhagem de objectos nacionaes, artisticos e historicos; pois hoje não só a administração publica os defende, como os repatria, comprando-os quando é possivel. As gerações actuaes emendam a ignorancia e os erros das gerações passadas.

[8]

Observaremos n'este ponto que julgamos muito provavel o esquecimento de alguns monumentos dignos de menção. Não os conhecemos todos, e dos que conhecemos, muitos vimol-os sem detido estudo. Assim, haja desculpa para lacunas e erros, excepto n'aquelles de que damos maia larga informação.

Temos percorrido, apenas, uma parte do paiz; ora, um trabalho completo e seguro d'esta natureza nem seria este o livro para o fazer, nem o poderiamos tentar com algumas probabilidades de exito sem percorrer todo o paiz, estudando a distribuição dos seus monumentos e o valor architectonico de cada um. A nossa vida, sempre um pouco trabalhosa, não nos permittiu em tempo proprio a realisação d'este desejo, se além d'isso não existissem outras difficuldades obvias.

[9]

Varnhagen attribue esta janela a João de Castilho e affirma ter visto a data de 1533 gravada em qualquer pedra. O illustre engenheiro condemna-lhe a esthetica com certa violencia, no que não tem rasão alguma. Esta

loggia

, como muito bem lhe chama Murphy, é um bello trecho da renascença italiana, ornamentada com espheras armillares e a cruz de Christo; embora, talvez, um pouco em desharmonia com a porta descripta, que lhe fica inferior. Foi esta discordancia que feriu em excesso o talentoso e mallogrado redactor do antigo

Panorama

.

[10]

Todos estes cortes são reproducções reduzidas dos do livro de Murphy sobre a Batalha, publicado em Londres em 1795. Estão sensivelmente exactos e apesar da sua antiguidade são os

unicos

que até hoje se fizeram do nosso primeiro monumento ogival!

[11]

Principaes dimensões da Egreja da Batalha:

Metros

{ Comprimento total com a capella-mór 81,18

Corpo da egreja { Largura das tres naves 21,97

{ Altura 27,73

{ Comprimento 36,12

Transepto { Largura 9,48

{ Altura 27,73

{ Comprimento 15,11

Capella-mór { Largura 8,10

{ Altura 26,90

{ Comprimento 56,59

Nave Central { Largura 9,48

{ Altura 27,73

{ Comprimento 56,59

Naves Lateraes { Largura 6,24

Duas eguaes { Altura 19,40

{ Comprimento 11,95

Absides lateraes { Largura 5,63

Quatro eguaes { Altura 12,80

Todas as medições se referem á face interior das paredes e aos eixos das arcadas.

[12]

A gravura d'esta fachada é reproducção da que apresenta Murphy no citado livro, mas devidamente emendada, porque o original inglez tem erros importantes. A da porta lateral é egualmente de Murphy. Adoptamol-as, porque para a descripção offerecem mais nitidez de que as photographias, visto que as fachadas do monumento não foram tambem ainda rigorosamente desenhadas. As restantes gravuras são reducções de algumas da obra sobre a Batalha, do Sr. Visconde de Condeixa.

[13]

Citaremos um facto curioso. Os artistas da Exposição Universal de 1900, pretendendo fugir a estas leis fundamentaes, representaram a cidade de París por uma estatua vestida no estylo moderno. O bom senso popular deu-lhe o nome: fizeram uma

cocotte

.

[14]

Este corucheo, que indubitavelmente faria parte do projecto primitivo, para nós, pelos vestigios que encontramos nos traços da capella, não padece duvida haver existido.

Além d'isso, Murphy desenhou-o e com tal minuciosidade, que o restaurador actual terá apenas o trabalho do córte e assentamento das pedras, não sendo importante a despeza.

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