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Yayá Garcia

MACHADO DE ASSIS (continued 3)

Reading edition

—O senhor naturalmente conhece-a e sabe que obra de contradicção é aquella mocinha, disse elle. Ha occasiões em que sua familiaridade commigo chega quasi á seducção. Talvez exagéro; mas que heide de pensar de uma moça que me pede instantemente que vá lá, em certo dia, com um modo grave e cheio de promessas? digo-lhe sim; vou, recebe-me com um epigramma, ri-se de mim, abusa da complacencia e não sei se do amor, porque, comquanto não lhe haja dito nada, acho natural que ella o tenha descoberto nos meus olhos. Se fico despeitado e resolvido a não voltar lá, ella torna-se mansa, como uma pomba, carinhosa, macia, e o meu despeito evapora-se, e eu continuo a minha viagem interminavel.

—Nunca lhe deu a entender nada, ao menos por allusão?

—Nunca; receio que não me deixasse acabar.

—Não creia; eu supponho que ella gosta do senhor.

—Sabe disse?

—Não; mas é o que concluo do que me contou. As mulheres têm ás vezes caprichos; e demais ha naquella uns restos de creança, que a faz ainda mais caprichosa. Meu raciocinio é este: se ella percebeu, e não o repelle absolutamente, é porque o senhor ainda pode ter esperanças...

Procopio Dias não pode exprimir a alegria que estas palavras de Jorge lhe entornaram na alma; seus olhos brilharam da uma luz extranha, depois fecharam-se, emquanto a cabeça pendeu para traz, de um geito languido. Durante essa pausa de alguns minutos, Jorge pode analysar as feições de Procopio Dias, pouco proprias a fascinar uns olhos de dezeseis annos, e achou natural que Yayá não se sentisse tomada de cego enthusiasmo. Comtudo, não era impossivel corresponder-lhe de algum modo, se a razão tomasse as redeas ao coração. Jorge suppunha até que houvesse em Yayá uma semente de sympathia, que bastava fazer germinar.

Entrando no quarto que lhe fora destinado, Procopio Dias estava longe de ter somno; a excitação trazia-o esperto. Entrou, abriu a janella e olhou ao largo. O aroma vivo das plantas da chacara ainda mais lhe apurou o systema. Não era homem de contemplar estrellas nem de fazer philosophias acerca da solidão nocturna e do somno das cousas; limitou-se a pensar no que acabava de ouvir.

—Gosta da Estella, murmurou elle; antes de jurar podia ser duvidoso; depois do juramento é positivo, se ella não gosta delle faz mal; é um rapaz de espavento.

Depois, abriu as azas ao pensamento e foi direito a Yayá, galgando o espaço e derrubando paredes: foi e contemplou o seu somno de virgem, que elle suppunha ser quieto e puro, mas que a essa mesma hora, era turbado e já complicado das ideias do mal. Procopio Dias deixou-se ir ao sabor da paixão, que era viva e sincera, uma conspiração surda e mysteriosa de todas as forças sensuaes.

A figura terna e virginal de Yayá apparecera-lhe um dia, subitamente, como uma visão não sonhada. Se elle a visse em algum salão aristocratico pensaria nelle uma noite, talvez uma semana, até esquecel-a ou substituil-a. Mas o que o prendeu a Yayá Garcia foi justamente a mediocridade do nascimento. Possuil-a era fazer-lhe um favor. Quantas outras lhe não levaram os olhos de satyro, ao descer de uma carruagem, ou ao resvalar indolentamente o seu talhe na contradança de bom tom? Elle via-as passar ou estar, com os hombros nus ou cingidos da cachemira elegante, risonhas umas, outras sérias, todas altivas e compassadas, e sentia que os annos, feições e maneiras o distanceavam dellas; não era difficil apagal-as de memoria.

Yayá teria antes de agradecer a escolha; era a sua convicção, e foi o que mais o ligou á filha de Luiz Garcia.

Quando a moça reflectisse que acharia no marido a satisfação de todas as velleidades do luxo, o gozo das cousas superfinas, elegantes e raras, devia ceder por força e preferil-o a quem lhe désse apenas coração, trabalho e necessidades. Uma vez brotada a ideia, cresceu e tomou-lhe o cerebro todo. Yayá era então a figura presente a seus olhos, ora divina e casta, ora ardente e lubrica,—lubrica, porque elle em sua imaginação conspurcava-a, antes mesmo de a possuir.

No dia seguinte acordaram tarde e almoçaram juntos, sem tomar no assumpto da vespera. No fim do almoço, Procopio Dias referiu-se a elle, dizendo que fora excessivo na noite anterior, e pedindo a Jorge que o não levasse a mal; porquanto era tudo filho de um sentimento que não pécca por moderado na suspeita, nem equitativo na apreciação.

—Não podia attribuir-lhe outro motivo, redarguiu Jorge sorrindo.

—Não ficou mal commigo?

—Mal? A prova é que se dependesse de mim casal-o, casava-o amanhã mesmo.

Procopio Dias agradeceu-lhe a sympathia e o obsequio, e saiu. Jorge foi dalli vestir-se para ir passar alguns minutos no escriptorio. Emquanto se vestia, pensava na situação do ex-fornecedor do exercito. Não eram amigos, mas o caso de Procopio Dias interessava-o; era sympathico a seus olhos. Não indagou se essa sympathia brotava do medo; persuadia-se ingenuamente do contrario. Um marido apaixonado e opulento! Duas vantagens que uma moça nas condições de Yayá, devia acceitar com ambas as mãos. Talvez Procopio Dias não fosse mal acceito ao coração da moça; sómente, havia nesta uns vestigios de creança, que o tempo devia apagar.

—Naquella edade um pretendente é uma especie de boneca, dizia Jorge atando a gravata; o que é preciso, a todo trance, é fazer da boneca um esposo.

Chegando ao escriptorio, ao meio dia, Jorge encontrou o Sr. Antunes consternado. Tinha dormido até onze horas, chegara tarde á casa em que trabalhava, o patrão convidara-o a fazer as contas. Era uma pequena casa de commercio, onde o Sr. Antunes, que entendia de escripturação mercantil, trabalhava desde algum tempo, graças ao obsequio de Jorge:

—Mas já foi despedido? perguntou este.

—Devo fazer as minhas contas e retirar-me no fim do mez.

Jorge escreveu duas linhas ao patrão do Sr. Antunes. De tarde, foi este a Santa Thereza. Jorge ia sentar-se á mesa do jantar; o Sr. Antunes já tinha jantado, mas acompanhou-o.

—Venha, venha, disse o moço; preciso ralhar-lhe.

Vexado e timido, o Sr. Antunes sentou-se defronte de Jorge, que não lhe disse nada durante os primeiros minutos. Jorge falou emfim, reprehendendo-o amigavelmente; disse-lhe que as exigencias do commerciante não eram exageradas, e em todo caso não havia meio de oppôr-se a ellas, salvo se quizesse deixar a casa.

—Isso mesmo, disse o pae de Estella.

—Não faça isso; não se ganha nada em andar de emprego em emprego. Demais, francamente, não vejo que entrar antes das dez horas seja cousa difficil. Seu genro faz isso ha muitos annos.

—Meu genro!... meu genro!... disse o Sr. Antunes sacudindo a cabeça com um gesto de enfado.

Jorge fingiu não attender ao gesto e ao tom do pae de Estella, e tratou de o converter á pontualidade, obra que começava a ser difficil, porque o Sr. Antunes entrava já nas consequencias logicas e naturaes de uma longa dependencia; preferia o favor ao trabalho, e os annos contribuiam para esse amor da inercia e do beneficio gratuito. A maior ambição que o animou, se a fortuna a houvera realisado, dar-lhe-hia todos os meios de envelhecer tranquillo. Agora tinha encanecido, e o corpo, embora lesto, começava a suspirar pela inacção.

Jorge deixou o assumpto para não vexar o antigo protegido do pae, e acabou o jantar alegremente. No fim recebeu um bilhetinho de Procopio Dias. «Não imagina, dizia este, que dia tenho passado, depois da nossa conversa de hontem. Teimo em dizer que fui excessivo, e ainda uma vez lhe peço me releve a falta. Poderia o senhor castigar um doido? O amor não tem imputação. Queime este bilhete; em todo caso não o revele a ninguem, sobretudo á pessoa de que se trata.» Jorge sorriu e releu o bilhete; depois fechou-o na secretaria e escreveu esta simples resposta: «Ainda uma vez, não ha que perdoar. O senhor foi apenas desconfiado, como todos os ciumentos; mas, como não inventou o ciume, não lhe faço carga disso.» Entregue a resposta, Jorge olhou para o Sr. Antunes, que fumava discretamente um charuto do bacharel.

—Ouvi dizer hoje uma cousa, disse Jorge com ar indifferente; ouvi dizer que Yayá vae casar.

—Casar? repetiu o Sr. Antunes com um sobresalto. E depois de um instante:—É possivel; naquella casa o ultimo que sabe das cousas sou eu.

—Talvez não passe de balella. Nem me disseram com quem. Provavelmente ha algum namorado ou apparencia disso, e então os novelleiros vão logo ao fim. Mas haverá deveras algum pretendente ou namoro?...

—Que eu saiba, nada, asseverou o Sr. Antunes. E até, deixe-me dizer-lhe o que penso, duvido que ella cuide por ora de semelhante cousa. Aquella menina não tem cabeça.

—Oh! exclamou Jorge rindo.

—Não tem, digo-lhe eu. Está alli, está no hospicio. Não se póde dizer que seja travessura, porque não está em edade disso; é pancada. Se soubesse as cousas que ella faz ás vezes!

—Não me parece; quando a vejo, é sempre com um modo comedido, e muitas vezes serio...

—Lá isso. é porque ella não gosta do senhor.

—Não gosta de mim? perguntou Jorge admirado.

—Não digo que absolutamente não goste, obtemperou o pae da Estella; não lhe tem muita sympathia, é o que é.

—Como sabe você disso?

—Ouvi uma vez o pae reprehendel-a, por que de proposito voltara as costas ao senhor; e então ella levantou os hombros, assim com um ar de pouco caso. O pae tornou a dizer que aquillo não era bonito, mas perdeu o tempo; Yayá pregou os olhos nas unhas, com a testa franzida, e eu sai porque já não podia aturar nem um nem outro.

Jorge ficou alguns instantes pensativo. Era certo que Yayá o tratara sempre com muito resguardo e frieza; mas, supposto que isso não significasse sympathia, e até lhe sentisse alguma hostilidade, estava longe de attribuir-lhe declarada aversão. Do gesto a que o Sr. Antunes alludira, não se lembrava absolutamente, mas era possivel. Demais, pensou elle, o Sr. Antunes não o inventaria na occasião; não era callumniador; faltava-lhe essa ferocidade. Mas, porque motivo não gostaria delle a filha de Luiz Garcia? Era a segunda vez que Jorge fazia essa pergunta, sem lhe achar resposta plausivel. Em seguida, recordou-se da noite anterior, e observou ao pae de Estella que Yayá o tratara na vespera com alguma cordialidade.

—Milagre de anno bom! explicou o Sr. Antunes. Tambem lhe digo que não perde nada se ella não gostar do senhor; é uma fortuna. Porque ella, quando gosta de uma pessoa, é de fazer-lhe perder a paciencia.

—Mas parece ter bom coração, e creio que gosta muito do pae.

—Tambem Estella gosta de mim.

Jorge fechou neste ponto a conversação. Seu pensamento voltou á revelação inopinada do Sr. Antunes. Por mais indifferente que Yayá lhe fosse, Jorge sentia-se molestado com a certeza de que a moça não gostava delle. Porque seria? Simples antipathia ou outra cousa?

A preoccupação desvaneceu-se na tarde do dia seguinte, quando Jorge appareceu em casa de Luiz Garcia. Foi a propria Yayá quem veiu abrir-lhe a porta do jardim dizendo, alegremente:—Entre, Sr. doutor, que já se fazia esperado. Jorge não pode esconder o assombro que lhe produzira aquella recepção; nem o assombro nem a alegria. Entrou e estendeu-lhe a mão.

—Não posso, tornou a moça mostrando a sua, fechada; só se adivinhar o que está aqui dentro.

—Não é uma estrella.

—Não, senhor; é um cavallo.

No fundo do jardim estava Luiz Garcia, com o taboleiro do xadrez: acabava de dar uma licção á filha, que lh'a pedira desde antes do jantar. Yayá levou até lá o filho de Valeria. Pela primeira vez sentou-se ao pé dos dous para vel-os jogar; fincou os cotovellos na mesa e encostou o queixo nas mãos; queria aprender, dizia ella, em tres semanas.

—Tres semanas! repetiu o pae a sorrir e a olhar para Jorge.

Das qualidades necessarias ao xadrez, Yayá possuia as duas essenciaes: vista prompta e paciencia benedictina; qualidades preciosas na vida, que tambem é um xadrez, com seus problemas e partidas, umas ganhas, outras perdidas, outras nullas.

XII

Quinze dias depois, Procopio Dias appareceu em casa de Jorge com o luto no vestuario e no rosto. De Buenos-Ayres chegara-lhe na vespera, á tarde, a noticia da morte de um irmão, seu ultimo parente, noticia que o obrigava a embarcar no dia seguinte e demorar-se no Rio da Prata cinco a seis semanas. Não se pode dizer que elle estivesse triste; estava serio,—serio e preoccupado. A viagem a Buenos-Ayres não tinha por fim o cadaver do irmão, mas a herança, que posto não fosse grande, valia alguma cousa.

Procopio Dias offereceu seus serviços ao filho de Valeria, que de sua parte prometteu-lhe algumas cartas de apresentação, se precisasse. Procopio Dias acceitou uma. Jorge levou-lh'a no dia seguinte. Elle recebeu-a com demonstrações de agradecido e quasi terno. E depois de um momento de silencio:

—Já agora entrego-lhe pessoalmente esta carta, que devia ser levada amanhã por um portador.

Jorge quiz abrir:—Não, acudiu o outro; prometta-me que só a abrirá amanhã.

—Porque não hoje de noite?

—Podia ser hoje de noite; mas é bom que entre a impressão da despedida e a leitura desse papel decorra o espaço da noite e o somno. Talvez seu juizo seja differente.

Jorge prometteu. Procopio Dias partiu. No dia seguinte abriu a carta e leu estas poucas palavras: «Seja o meu anjo de guarda durante a minha ausencia.»

—Porque não? disse elle comsigo.

De tarde, saiu a cavallo, costeando o aqueducto segundo costumava, e ia pensando seriamente na conveniencia de casar os dous. Naquellas duas semanas tivera tempo de apreciar um pouco as qualidades da moça, que lhe pareceram boas, com quanto lhe achasse tambem alguma cousa original, mysteriosa ou romanesca, muito acima da comprehensão ou do sentimento de Procopio Dias. Jorge não se illudia acerca da paixão do pretendente; suppunha-a sincera, mas não lhe attribuia a virgindade das primeiras ou das segundas commoções: era uma paixão da ultima hora, um occaso ardente e abraseado entre o dia que lá ia, e a noite que não tardava a sombrear tudo. Ainda assim a alliança lhe parecia conveniente. Yayá possuia de certo a força necessaria para dominar desde logo o marido; e o titão encadeado teria ao pé de si, em vez de um abutre a picar-lhe o figado, uma formosa rôla destinada a prolongar-lhe as illusões da juventude.

Se eram boas as impressões que Yayá lhe deixara nos ultimos dias, não eram ainda assim isentas de algum enfado, aliás passageiro. Uma ou duas vezes, Yayá lhe pareceu singularmente aspera, e sem motivo nem duração. Esses assomos porém, eram logo compensados por uma afabilidade, que parecia mais viva, mais ruidosa, talvez um pouco importuna. Occasião houve em que Estella disse á enteada, com um sorriso de reprehensão:—Não amofines o Sr. doutor Jorge. Não comprehendeu Jorge porque motivo essa palavra simples, dita em tom brando, deu ao rosto de Yayá uma expressão indignada; lembrava-se porém que a expressão foi passageira, e que ella passou do singular amúo á habitual alegria:—Bem vê, replicou Estella, bem vê que é uma creança.

Jorge ia assim a reflectir, e já de volta, quando ouviu uma voz que dizia o seu nome. Era Yayá que descia da casa da velha ama. Jorge parou o cavallo.

—Em que vae pensando? disse ella.

—Na senhora, respondeu o moço affoutamente, depois de verificar que ninguem os podia ouvir.

Yayá caminhou até á rua, acompanhada de um homem velho, o irmão de Maria das Dores.

—Que anda fazendo aqui? continuou Jorge inclinando o busto sobre o pescoço do cavallo.

—Vim visitar a Maria das Dores. Coitada! esta tão abatida!

—Bem; eu logo lhe direi o que é; vá ver a doente.

—Já a vi; volto agora para casa. O Sr. João vae acompanhar-me.

Jorge apeou-se.

—Deixa-me acompanhal-a tambem? perguntou.

—Deixo; mas é só por ser curiosa. Quero saber o que ia pensando a meu respeito. Vamos, Sr. João?

Jorge enfiou a redea no braço e collocou-se ao lado della; Yayá tomou-lhe affoutamente o outro braço.

—Vá, conte-me tudo.

—O Procopio Dias embarcou hoje.

Yayá, que já havia dado os primeiros passos, estacou.

—Para onde? disse.

—Para o Rio da Prata; morreu-lhe um irmão em Buenos-Ayres.

—Mas sem se despedir de nós!

—Naturalmente, custava-lhe fazel-o, e quiz poupar-se á dor da separação. Esteve porém commigo, e prometteu-me que a demora seria curta. Vi-o muito afflicto com a viagem, tão afflicto que não sei se lhe diga que era... era, decerto, era maior a dor da viagem do que a da morte do irmão. Talvez lhe faça injuria nisto, mas parecia.

—Porque? perguntou a moça erguendo os olhos para elle.

—Não sei se lhe deva dizer porque, acudiu Jorge. E dahi, não se tratando de nenhuma cousa do outro mundo... É verdade que as moças bonitas como a senhora, costumam ser crueis... Não sei... Ha situações um pouco...

—Ridiculas, concluiu Yayá.

—Como ridiculas?

—Por exemplo, a sua.

Jorge enfiou um pouco; mas a um homem de sociedade, Yayá não parecia de força a fazer perder o equilibrio. Sorriu levemente, e retorquiu sem azedume.

—Não é ridiculo ser affectuoso; eu cuidava responder á linguagem de seu coração.

—Suppunha que a ausencia de Procopio Dias me deixava saudades...

—Suppunha.

—Que tem o senhor com isso?

A resposta de Jorge foi um simples gesto negativo. Comtudo, não pode zangar-se, porque sentia tremer o braço da moça, e olhando de esguelha para ella via-a pallida e com os olhos no chão. Se a pallidez e o tremor eram de colera não chegou a sabel-o; mas provavelmente não era outra cousa porque ao cabo de tres a quatro minutos, Yayá ergueu os olhos e estendeu-lhe a mão, dizendo:

—Façamos as pazes.

—Nunca estivemos em guerra, acho eu.

—Talvez em vespera da guerra.

—Não por culpa minha...

—Nem minha, acudiu a moça. E erguendo o chapellinho do sol para o ceu. Talvez por culpa daquelle, disse ella suspirando.

Após o suspiro, veiu uma risadinha secca e forçada, mas longa ainda assim como o som de um golpe no crystal. Tinham andado poucos minutos e esses poucos eram já de sobra para espertar a curiosidade de Jorge, e para lhe dar direito a pedir uma explicação. Jorge pediu-lh'a em termos affectuosos, perguntando por que razão era o ceu culpado em uma guerra que devia romper entre ambos, e sobretudo qual seria o pretexto dessa guerra. Yayá reflectiu um instante, e começou a falar com os olhos baixos.

—O motivo é o senhor mesmo, disse ella.

—Eu?

—O senhor, que é meu inimigo, que me detesta. Não me dirá que mal lhe fiz eu? continuou ella erguendo subitamente os olhos. Escusa fazer esse gesto de espanto; sei que o senhor me detesta, e por mais que pergunte a mim mesma—não sei, não me recordo... Diga, fale com franqueza.

—Tanto melhor! exclamou Jorge. Vejo que havia entre nós um equivoco e é chegada a occasião de o desfazer. Quer que lhe fale com franqueza? O inimigo não sou eu, é a senhora; é a senhora, ou antes, era ou parecia ser. Agora comprehendo; retribuia-me a aversão que suppunha haver em mim. Tanto melhor! Façamos as pazes de uma vez.

Yayá apertou a mão que elle lhe offereceu e chegaram alegremente a casa. Jorge quiz retirar-se logo, mas a moça ordenou a Raymundo que conduzisse o cavallo, e Jorge foi compellido a entrar por alguns minutos. Luiz Garcia não estava em casa. Estava o Sr. Antunes. Yayá mal deu tempo aos primeiros comprimentos.—Ande jogar commigo, disse ella.

—Em boa paz?

—Em boa paz.

Yayá preparou o xadrez, no gabinete contiguo á sala; Jorge sentou-se pacientemente deante da adversaria, rectificou a posição de duas peças, excluiu as que lhe dava de pardido e adiantou o primeiro pião.

—Vá, disse; é a sua vez.

Yayá não obedeceu ao convite. Olhava para elle, com ar inquieto.

—Dá-me sua palavra de honra de que me não negará o que lhe vou perguntar? disse ella ao cabo de alguns instantes de silencio.

Jorge hesitou um pouco.

—Conforme.

—Exijo.

—Que me pedirá ella que lhe não possa affirmar? pensou Jorge. E em voz alta respondeu:

—Dou.

—Foi elle quem lhe encommendou...

—O sermão? interrompeu Jorge sorrindo. Serei franco; foi elle mesmo.

Yayá baixou os olhos ao taboleiro, cavalgou a torre com o bispo, como distrahida, e em voz ainda mais baixa do que lhe falara, perguntou:

—O senhor é homem de segredo!

—Sou, redarguiu afoutamente Jorge.

—Pois bem, continuou Yayá, eu gosto delle, gosto muito, mas não desejo que elle saiba.

—Deveras? não está gracejando?

—Não estou.

Jorge estendeu-lhe a mão:—Magnifico, disse elle alegre; não é preciso mais. Uma vez que se amam, virão naturalmente a...

Não pode acabar, porque a moça, erguendo-se de subito, affastou-se da mesa, com um arremeço, e dirigiu-se á janella, que dava para o jardim. Jorge ficou espantado. Não entendia o que estava vendo. Inclinou-se sobre o taboleiro e começou a mover as peças, sósinho, sem plano, machinalmente. Assim jogando, ouvia o som do tacão de Yayá que feria o ladrilho do chão, com um movimento precipitado e nervoso. Durou isto cinco minutos. Yayá voltou-se para dentro, saiu da janella e approximou-se da mesa. Jorge ergueu então a cabeça para ella e sorriu.

—Não me dirá que lhe fiz eu, para ficar tão zangada commigo? perguntou com benevolencia.

—Nada; eu é que fui estouvada e não sei se mais alguma cousa.

Jorge protestou que não.—Foi rispida sómente disse elle; e se o foi sem querer, não foi sem motivo. Não me dirá que motivo é esse? Parece-me que não a tratei mal...

—Não.

—Nesse caso, o motivo está na senhora mesma; e se eu não tivesse medo de que se zangasse outra vez commigo, atrevia-me a pedir-lhe que me dissesse tudo—ou pelo menos alguma cousa.

—Para que? Vamos jogar.

—Está escurecendo.

—Mando vir luzes.

Vieram luzes; começaram a jogar. Entre elles o xadrez não podia offerecer interesse, mas dado que pudesse, não seria naquella occasião. Um e outro estavam distrahidos e preoccupados. A primeira partida foi concluida, em pouco tempo, quasi sem calculo.

—Outra? perguntou Yayá.

—Vamos.

Antes de começar, disse ella collocando as peças, e sem olhar para Jorge, quero dizer que tem um meio seguro de nunca brigar commigo.

—Qual é?

—É ser meu confidente.

—Senhor de seus segredos?

—Todos.

—O meio é facil; só eu ganho na troca.

—Nisso dou prova de grande coração.

Já não era a menina rispida de alguns instantes; dissera as ultimas palavras com muita graça e placidez. Ao mesmo tempo, continuava a arranjar methodicamente as peças. Acabou e reclinou-se no dorso da cadeira.

—Não me declarou ainda se acceitava, disse ella.

Jorge hesitou um instante. Era gracejo ou proposta séria? A um gracejo responde-se com outro, a uma proposta responde-se com seriedade. Jorge hesitava em tomar sobre os hombros uma parte de responsabilidade dos sentimentos da moça. Quaes seriam elles? que projectos despertariam naquelle cerebro provavelmente indomavel? Não podiam ser outros senão os de casamento com Procopio Dias, visto que ella confessava amal-o. Esta reflexão fel-o declarar affoutamente que acceitava a confidencia.

—Sabe o que acceita? perguntou Yayá.

—Farejo.

—Toque! disse ella estendendo-lhe a mão.

Jorge deu-lhe a sua.

—Não se trata em todo caso de nenhum assassinato? perguntou rindo.

—Não.

A segunda partida foi mais animada, mas só por parte de Yayá. A moça ria ás vezes, mas a maior parte do tempo fazia convergir toda a sua attenção para o jogo. Quando falava, era moderada e docil. Essa alternativa e contraste de maneiras interessava naquelle momento o espirito de Jorge. Que especie de mulher fosse, imperiosa como uma matrona, travessa como uma creança, incoherente e enigmatica, era cousa que elle não podia em tão pouco tempo descobrir; mas o enigma aguçava-lhe attenção. Em quanto ella tinha os olhos no taboleiro, Jorge buscava ler-lhe a alma na fronte lisa e candida; mas não via a alma, via só uns fiapos castanhos do cabello, que lhe caíam sobre a testa e esvoaçavam levemente ao sopro da aragem que entrava pela janella, e lhe davam um ar de puericia. A boca fina e pensativa corrigia aquella expressão da cabeça; era a primeira vez que elle lhe descobria um forte indicio de energia e tenacidade.

Quando era a vez de Jorge, Yayá affastava o busto, reclinava-se no espaldar de cadeira e ficava a olhar para elle, como elle havia olhado para ella. Mas nesse olhar não scintillava curiosidade; era uma luz velada e baça, como alheia ao mundo exterior. Encontravam-se assim os olhos de um e de outro, e a partida continuava, até chegar ao fim sem novo incidente.

Prestes a acabar, Estella entrou no gabinete, sem os interromper. Sentou-se caladamente a um canto da janella. O jogo cessou no momento em que entrou Luiz Garcia.—Perdi duas partidas, papae, disse a moça; mas por um triz não ganhei a segunda. Jorge quiz sair logo depois; foi obrigado a demorar-se, porque Yayá lembrou-se de ir tocar piano. Era a primeira vez que Jorge conseguia ouvil-a. A moça escolheu uma pagina de Meyerbeer; Jorge confessara uma vez que era esse o autor de sua predilecção.

No dia seguinte a impressão deste era um tanto complexa e perplexa. Aquella mistura de franqueza e reticencia, de aggressão e meiguice, dava á filha de Luiz Garcia uma physionomia propria, fazia della uma personalidade; mas a physionomia era ainda confusa e a personalidade vaga. Jorge sentia-se empuxado e retido, ao mesmo tempo, por dous sentimentos contrarios; tinha curiosidade e repugnancia de penetrar o caracter da moça, e conhecer e distinguir os elementos que o compunham. O que lhe parecia claro e definitivo era que as primeiras palavras de Yayá, tão duras e tão seccas, não passavam de uma expressão de despeito, por suppôr da parte delle a aversão que não existia; e se as palavras em si o magoavam, a explicação lisongeava-lhe o amor-proprio. O resto era inexplicavel. Jorge resolveu, entretanto, não lhe falar mais de Procopio Dias, apezar da confissão aliás contrastada ou diminuida pelo gesto que se lhe seguiu.

Yayá pareceu perder a disposição aggressiva; á força de affabilidade apagou inteiramente os vestigios da antiga rispidez. A alma não se lhe tornou mais transparente, nem o caracter menos complexo; mas a exquisita urbanidade dos modos fazia supportaveis os saltos mortaes do espirito, e augmentava o interesse do que havia nella obscuro ou irregular; finalmente, era um correctivo á tenacidade com que a moça confiscava litteralmente o filho de Valeria. Jorge estimou, sobre todas, esta circumstancia, porque lhe tornou mais facil a frequencia da casa. Elle pertencia ao pae ou á filha—muitas vezes aos dous. Yayá atirou-se ao xadrez com um ardor incomprehensivel, e dizendo-lhe Jorge que era preciso ler alguns tratados, ella pediu-lhe um, e porque elle só os tivesse em inglez, Yayá pediu que lhe ensinasse inglez.

—Mas eu sou um mestre muito rispido, observou elle.

—A discipula é muito peor.

Estella assistia algumas vezes ás lições do idioma e do jogo;—duas cousas que lhe pareciam incompativeis com o espirito da enteada. Verdade é que Yayá mudara tanto naquellas ultimas semanas! Não lhe suppuzera nunca tão longa paciencia, nem tão repousada attenção. Yayá gastava uma a duas horas por dia a decorar os verbos e os substantivos da nova lingua, e essa paixão recente tinha o condão singular de irritar a madrasta. Jorge, pelo contrario, sentia em si os jubilos do pedagogo. O professor é o pae intellectual do discipulo; Jorge contemplava paternalmente aquella intelligencia fina, paciente e tenaz servida por dous olhos de pomba e duas mãos de archanjo.

No meado de Fevereiro tornaram a falar de Procopio Dias, a proposito de uma carta que Luiz Garcia recebera.

—Veja lá, disse a moça; elle escreveu a papae e nem uma palavra especial para mim. «Lembranças a D. Estella e a Yayá.» Nada mais. Elle escreveu-lhe?

—Até agora, não.

—Não ha nada como a ausencia para fazer esquecer tudo—isto é, esquecer os que ficam. Talvez já não pense em casar commigo. Foi um capricho que passou, como todos os caprichos; foi como a chuva de hontem, que deu apenas alguns salpicos de nada. E com tudo parecia que vinha abaixo o ceu. Não é? a paixão delle não é como a trovoada? ameaçou no Rio de Janeiro e foi cair em Buenos-Ayres. Aposto que vem de lá casado. Verá que não é outra cousa. Que me diz a isso? Vamos; diga alguma cousa.

—Não posso, redarguiu Jorge. A senhora deu-me o cargo de confidente e não de conselheiro; limito-me a ouvil-a. Verdade é que o tal cargo até agora parece simples sinecura.

—Que é sinecura?

Jorge sorriu e definiu-lhe a palavra.

—Não é sinecura, acudiu Yayá; pelo contrario, é um cargo muito espinhoso.

—Não creio. A confidencia unica até hoje não me pareceu sincera. A senhora não ama o Procopio Dias.

Yayá franziu a testa.

—Porque me diz isso?

—Porque, se o amasse, falaria de outro modo, e sobretudo não falaria tanto. O amor, nessa edade, vive de reticencias, não de phrases e menos ainda de phrases tão compostas.

—Cale-se! interrompeu ella batendo-lhe com a grammatica na ponta dos dedos. E depois de uma pausa:—Se elle lhe escrever, mostra-me a carta!

Como Jorge lhe dissesse que sim, Yayá fez um movimento para rasgar o volume em dous pedaços. Jorge perguntou-lhe o que tinha.—Nervoso! respondeu a moça sacudindo os hombros com um calefrio. Depois, como a amparar-se, lançou-lhe a mão a um dos pulsos. Jorge sentiu a pressão de uns dedos de ferro; e parece que outros dedos invisiveis tambem comprimiam as faces da moça, vermelhas como se vertessem sangue.

XIII

Jorge achou em casa, nessa mesma noite, uma carta de Buenos-Ayres. Procopio Dias narrava-lhe a viagem e os primeiros passos, e dizia ter toda a esperança de se demorar pouco tempo. Tudo isso era a terça parte da carta. As duas outras terças partes eram saudades, protestos, expressões de sentimento, e um nome no fim, um nome unico, e que era a chave do escripto. Jorge leu attentamente essas confidencias, e na mesma noite esboçou uma resposta. Não era facil combinar a discrição que quizera conservar em suas relações com Procopio Dias e a necessidade de lhe mandar algumas esperanças. Embora com esforço, redigiu a resposta conveniente, contando-lhe as boas impressões que tinha; só as boas, não lhe disse as duvidosas; sobretudo não desceu a nenhuma realidade, a nenhum nome proprio; nada mais que uma extensa serie de locuções egualmente animadoras e vagas.

No dia seguinte não foi á casa de Luiz Garcia; choveu torrencialmente. Mas no outro dia foi, logo depois do jantar. Achou reunida a familia.

—Good evening, my dear mestre! bradou Yayá logo que o viu entrar na sala.

—Faltava mais uma lingua a esta tagarella, disse Luiz Garcia rindo; daqui a pouco tempo ninguem a poderá aturar.

Jorge não esperava, de certo, encontrar na moça a mesma expressão que lhe deixára na antevespera, quando de um gesto nervoso lhe comprimira o pulso. Tinham passado quarenta e oito horas, e para que ella se restabelecesse bastariam apenas quarenta e oito minutos. Contava com a mudança; não obstante procurou ler-lh'a nos olhos, e achou-os tão alegres como o tom em que ella o saudara. A licção isolou-os, e foi tambem o pretexto mais favoravel para lhe mostrar a carta de Procopio Dias. Yayá viu-a sellada e comprehendeu tudo; arrebatou-a ás mãos de Jorge.

—Ah! disse este, seu gesto vale um discurso.

—Posso ler?

—Pode.

Yayá desdobrou a carta e leu-a para si, Emquanto lia, Jorge fitava-a. Não lhe via nenhuma confusão, alvoroço ou alegria; os olhos seguiam lentamente de uma linha a outra, e a mão firme voltava a pagina. No fim, quando leu o proprio nome, teve um movimento de tedio, e inconscientemente amarrotou o papel; mas emendou-se logo, alisou a carta com a mão e restituiu-a silenciosamente. Durante alguns segundos occupou-se em traçar com um lapis alguns circulos na margen da folha aberta da grammatica; ergueu emfim os olhos e perguntou sem rir:

—Acredita no que diz essa carta?

—Acredito; tudo o que está ahi escripto, já o ouvi de viva voz, e com a mesma sinceridade e calor. Quem sabe? pode ser que seja o primeiro amor desse homem.

—O primeiro... o primeiro... repetiu ella entre dentes.

—Talvez o primeiro, insistiu Jorge; e para uma moça, acho que deve ter algum encanto ser amada por um homem, considerado superior ás paixões. A vida de Procopio Dias teve sempre outra ordem de interesses...

—Conhece-o ha muitos annos?

—Ha muitos, não; conheço-o desde o Paraguay.

—Acha que eu fazia bem em me casar com elle?

—Bem ou mal, conforme o amor que lhe tiver. Esse é o ponto necessario, e em meu conceito, o ponto duvidoso. Receio que a senhora o não ame deveras; já tive occasião de o dizer.

—Preciso de alguns esclarecimentos. O senhor amou de certo alguma vez...

—Nunca.

—Nunca? Nunca teve um amor, um só que fosse? Não creio. Um coronel! Nada; não creio; só se me jurasse; era capaz de jurar?

—Juro.

—Em nome de sua mãe? concluiu ella fitando-lhe uns olhos cuja expressão imperativa contrastava com o tom submisso da palavra.

Jorge hesitou um instante. Tinha scepticismo bastante para proferir uma formula vaga de juramento; mas recuou deante da formula positiva. Hesitou e ladeou a pergunta.

—Esse nome resume justamente o meu unico amor, disse elle; amei a minha mãe.

Yayá sorriu com ar de duvida; depois olhou para elle commovida.—Eu amo meu pae, redarguiu ella; nossos corações podem entender-se.

A esta palavra não havia que replicar; pareceu-lhe a condemnação do pretendente. Apertou a mão que a moça lhe estendeu, e sentiu-a fria. Após uma curta pausa, abanou a cabeça, murmurando:

—Assim pois, nenhuma sombra de esperança...

—Faça o que entender, disse a moça no fim de outra pausa. Em todo o caso desejo ler a resposta que lhe der.

Jorge abriu a carteira, e tirou de lá o rascunho da carta que pretendia mandar a Procopio Dias.

—A resposta, disse elle, já está escripta. Não querendo matal-o, puz aqui algumas gottas de esperança; não ousaria comtudo mandar o remedio, sem ouvil-a.

Yayá recebeu o papel dobrado, olhou um instante para elle, outro para Jorge.—Leia, disse este. Yayá não obedeceu: pegou do lapis, e sobre a folha do papel dobrado começou a lançar os traços de um desenho. Posto que a luz batesse em chão no papel, Jorge não pode ver desde logo o que era; mas esperava, em frente da moça, que ella rematasse o capricho. Nessa occasião, Estella foi ter com elles.

—Já acabou a licção? perguntou.

—Agora é uma licção de desenho, ao que parece, disse Jorge.

Estella poz a mão no hombro da enteada.—É o Procopio Dias! disse ella olhando para o desenho. Era, mas o desenho frisava com a caricatura; a fealdade de Procopio Dias excedia as proporções verdadeiras, o nariz era enormemente triangular, as rugas da testa grossas e infinitas: um monstro comico. Estella sorriu da travessura, mas reprehendeu-a.

—Deixe ver, disse Jorge quando ella acabou.

—Para que? retorquiu Yayá com indifferença.

E levando o papel á chamma, queimou-o. Jorge interrogou-o com os olhos; ella encarou-o sem se perturbar. Depois folheou a grammatica lentamente.

—Continuemos a licção, disse ella. I love. Vá; onde estavamos? Aqui, era aqui.

Estella assistiu á licção toda, com a paciencia da curiosidade. Não olhava nunca para o mestre, dividia a attenção entre a discipula e o livro. A licção foi longa, mais longa do que era necessario, porque o proprio mestre não acompanhava pontualmente o texto e a leitura. Yayá tinha deante de si dous juizes, cada um dos quaes buscava decifrar-lhe na fronte a inscripção que lá lhe teria posto o seu destino. Percebia-o, e não se enfadava. Ia de um tempo a outro, e do indicativo ao imperativo, voltando ao começo logo que chegava ao fim, fitando os dous inquisidores com um olhar em que pareciam dormir todas as ignorancias da terra.

A tranquillidade era apparente. Nessa noite, recolhida aos aposentos, a moça deu largas a dous sentimentos oppostos. Entrou alli prostrada.—Que estou eu fazendo? disse ella apertando a cabeça entre os punhos. Abriu a veneziana da janella e interrogou o ceu. O ceu não lhe respondeu nada; esse immenso taciturno tem olhos para ver, mas não tem ouvidos para ouvir. A noite era clara e serena; os milhões de estrellas que scintillavam pareciam rir dos milhões de angustias da terra. Duas dellas despegaram-se e mergulharam na escuridão, como os figos verdes do Apocalipse. Yayá teve a superstição de crer que tambem ella mergulharia alli dentro e cedo. Então, fechou os olhos ao grande mudo, e alçou o pensamento ao grande misericordioso, ao ceu que se não vê, mas de que ha uma parcella ou um raio no coração dos simplices. Esse ouviu-a e confortou-a; alli achou ella apoio e fortaleza. Uma voz parecia dizer-lhe:—Prosegue a tua obra; sacrifica-te; salva a paz domestica. Restaurada a alma, ergueu-se do primeiro abatimento. Quando abriu de novo os olhos, não foi para interrogar, mas para affirmar,—para dizer á noite que naquelle corpo franzino e tenro havia uma alma capaz de encravar a roda do destino.

Tarde conciliou o somno. Já dia claro, sonhou que ia calcando a beira de um abysmo, e que uma figura de mulher lhe lançava as mãos á cinta e a levantava ao ar como uma pluma. Pallida, com o olhar desvairado, a boca ironica, essa mulher sorria, de um sorriso triumphante e mau; murmurava algumas phrases truncadas que ella não entendia. Yayá bradou-lhe em alta voz:—Dize-me que não amas e eu te amarei como te amava! Mas a mulher sacudindo a cabeça com um gesto tragico, e collando-lhe os labios nos labios, soprou alli um beijo convulso e frio como a morte. Yayá sentiu-se desfallecer e rolou ao abysmo. Accordou agitada e deu com a madrasta, a contemplal-a, ao pé da cama. No primeiro instante, fechou os olhos e recuou até a parede; mas logo depois voltou a si.

—Tive um pesadelo horrível, disse ella respirando largamente; rolei no fundo de um abysmo, empurrada por duas mãos de ferro. Ainda estou fria. Veja as minhas mãos. Tenho o peito opprimido. Felizmente passou. Está aqui ha muito tempo? Eu agitei-me muito?

—Falaste em voz bem alta.

—Que foi?

—«Dize-me que não amas e eu te amarei como te amava,» Não sei que estas palavra se possam dizer no fundo de um abysmo. Tu confundes os sonhos...

—Talvez; não me lembra outra cousa. Só me lembro do abysmo, que felizmente não passou da minha imaginação. É muito tarde, não é?

—Nove horas.

—Nove horas!

Estella foi a janella, e, abrindo a veneziana, mostrou-lhe o sol. Depois encostou-se alli a olhar para fóra. Entrara alguns minutos antes, admirada do prolongado somno da enteada, e ia pousar-lhe a mão no hombro, quando ouviu aquella palavra balbuciada no meio de grande agitação; palavra mysteriosa e vaga, mas que se lhe embebeu no coração como um espinho. De sua parte, Yayá não estava menos inquieta. Receiava que houvesse dito alguma cousa mais,—um nome ou uma circumstancia precisa;—em todo caso, era bastante o que ouvira a madrasta, para imaginar que o sonho lhe escancarara as portas da consciencia. Uma e outra espreitavam-se desconfiadas e medrosas. A madrasta deixou a janella e foi sentar-se na beira da cama. Ambas sorriam com esforço e nenhuma conseguia falar primeiro. Correram assim tres longos minutos de acanhamento e observação reciproca. Estella foi a primeira que rompeu o silencio.

—O teu pesadelo foi um castigo, disse ella; foi o castigo da caricatura que hontem fizeste. Aquillo não é bonito. Todos sabem que o Procopio Dias é bem recebido em nossa casa. Que se hade pensar de nós, quando virem que se tratam assim as pessoas ausentes?

Yayá reflectiu um instante.—Era preciso, disse ella; era uma maneira de desenganar de uma vez as pretenções desse senhor.

—Mas quem te falou nellas?

—O Dr. Jorge, que parece protegel-o. Não é possivel que haja ninguem mais feliz do que aquelle homem. Bastou gostar de mim, para que todos se empenhem em approval-o e aconselhar-me que não devo tomar outro marido. Parece-lhe que eu...

—A que proposito te falou nisso o Dr. Jorge?

—A proposito de cousa nenhuma; falou porque é amigo delle. Não lhe disse eu uma vez que um dia, se todos teimarem, serei obrigada a casar com o Procopio Dias? Receio muito que assim aconteça.

—Não, disse Estella vivamente; não hade acontecer assim, primeiramente por que eu não o consentirei nunca; depois, por que tu amas a outro...

—Eu?

—O teu amor de collegio, aos doze annos e meio...

—Ah! disse Yayá. E depois de alguns instantes continuou, com um gesto de grande vergonha:—Fiz mal em lhe dizer aquillo; peço-lhe que não repita a ninguem.

Estella não ouviu as ultimas palavras. Erguera-se outra vez para dissimular a commoção, que parecia crescer. Entretanto, Yayá enfiou um roupão e enterrou o pé na chinellinha matinal. Quando, cinco minutos depois, encontrou os olhos de Estella, achou-os sombrios, como os da figura do pesadelo, e insensivelmente buscou ver se teria um abysmo ao pé de si.

—Yayá, disse Estella em tom secco, tu amas, tu confessas que amas a alguem; quero que me digas o nome desse homem, ouves? Exijo sabel-o para avaliar o que te convem. Sabes que tenho autoridade de mãe.

Yayá sentiu ferver-lhe o sangue nas veias.

—Minha mãe morreu, redarguiu com egual sequidão; estou prompta a obedecer a meu pae.

Estella apenas disfarçou a sensação interior; após alguns instantes de silencio, saiu.

Longe da enteada, a madrasta deu inteira expansão aos sentimentos que a combaliam. Fechou-se no gabinete do marido; depois evocou o passado, como uma força contra o presente, porque era o presente que ameaçava tragal-a. Um instante abalada pela leitura da carta de 1867, buscou recobrar a antiga quietação, mas a interferencia de Yayá perturbou essa obra de sinceridade. O procedimento da enteada, a subita conversão ás attenções de Jorge, toda aquella intimidade visivel e recente, accordara no coração de Estella um sentimento, que nem aos orgulhosos poupa. Ciume ou não, revolvera a cinza morna e achou lá dentro uma braza. Suspeitou a rivalidade da outra, e não foi preciso mais para que o grito de rebellião fizesse estremecer aquella alma solitaria e virgem. O pensamento perdeu a habitual placidez. O coração começou de bater com a celeridade e a violencia das grandes febres.

Eram as energias latentes de um amor comprimido, mas intenso, como uma cratera que acaso fechasse uma abobada de gelo; peor que tudo, tinha a fatalidade de um longo constrangimento, a luta de duas forças egualmente pujantes, indomaveis e cegas. O orgulho vencera uma vez; agora era o amor, que, durante os annos de jugo e compressão, criara musculos a saía a combater de novo. A Victoria seria uma catastrophe, porque Estella não dispunha da arte de combinar a paixão espuria com a tranquillidade domestica; teria as lutas e as primeiras dissimulações; uma vez subjugada, iria direito ao mal.

Ora no meio desse duello, já doloroso, embora ainda curto, ouviu Estella a ultima palavra da enteada, commentario da que lhe escapara na agitação do pesadelo. Saiu dalli atterrada, tacteando as sombras, e desviando os olhos quando algum clarão de realidade se lhe accendia ao longe. Não podia crer na rivalidade consciente e declarada de Yayá; era inverosimil, seria a sua propria vergonha e condemnação. Mas as palavras retiniam-lhe ao ouvido, e o gesto frio e duro da enteada parecia clarear o que havia obscuro nellas.

Não podia durar muitas horas a situação em que a fatalidade das circumstancias havia posto as duas mulheres. Yayá era a mais ductil, e, outrosim, a mais interessada. Logo que Estella a deixou só, caiu em si e comprehendeu que, além de ferir cruelmente a mulher que lhe servia de mãe, levantara uma ponta do veu em que trazia envolto o pensamento; ao demais, a injuria produzira a reacção do amor,—do amor que lhe tinha e não perdera de todo, apezar dos acontecimentos ultimos. Na seguinte manhã foi ter com a madrasta.

—Confesso que fui excessiva e desobediente, disse ella; não o devia ser, mas a senhora falou com um modo tão secco! tão duro! Pareceu-me que duvidava de mim; fosse o que fosse, não era o seu modo do costume. Sempre a respectei como minha mãe; não nego, não poderia negar nunca os seus direitos, assim como não desconheço a sua amizade; mas a senhora mesma tem um bocadinho de culpa; sempre me tratou antes como irmã do que como filha. Dahi veiu alguma confiança, alguma liberdade, e foi por isso que hontem cheguei a esquecer quem eramos, para a tratar como não devia. Foi isso sómente; foi um excesso, uma leviandade, nada mais. Consulte o seu proprio coração e elle lhe responderá que não foi mais do que isso. Vá; pergunte-lhe, elle me conhece.

Estella escutou-a silenciosamente, sem vergar a altivez da fronte, mas tambem sem nenhuma expressão de despeito ou desafio. Luzia-lhe nos olhos alguma cousa que espreitava a alma da outra por baixo das palpebras descidas. Yayá falara de um jacto, mas não de um só tom; simplicidade, timidez, faceirice,—havia de tudo na maneira porque se exprimiu durante aquelles poucos segundos. A explicação era a um tempo sincera e habil, mas de tal modo se confundiam os dous caracteres, que a propria habilidade não tinha consciencia de si: era antes um instincto do que um calculo.

—Que me pedes tu? disse Estella no fim de alguns instantes. Que te perdoe? Que esqueça a tua imprudencia? Uma cousa é mais facil do que a outra. Estás absolvida; faze agora com que eu esqueça.

—Porque não? eu consegui fazer com que me amasse, quando a senhora não sabia ainda se eu era má ou boa.

—Era facil. Tua mãe era tua mãe; mas não te amou mais do que eu. Se alguma vez o reconheceste, não foi hontem; hontem cedeste a um mau preconceito contra as madrastas, e levantaste entre mim e ti um espectro, que se podesse falar seria para te condemnar tambem. Não me queixo; nunca me queixei de cousa nenhuma: quando estimo alguem, perdôo; quando não estimo, esqueço. Perdoar e esquecer é raro, mas não é impossivel; está nas tuas mãos.

Subjugada pelo tom com que a madrasta falara, simples, severo e levemente repassado de tristeza, Yayá cedeu a um nobre impulso de submissão. Pegou-lhe nas mãos e beijou-as. A madrasta sentiu nellas uma lagrima. Não recusou esse testemunho do coração, e tel-a-hia apertado ao seio se lh'o permittisse a inflexibilidade do espirito. Limitou-se a contemplal-a com os olhos amoraveis de outro tempo.

Quando se separaram dahi a alguns minutos, alguma cousa dizia á consciencia de ambas que não vinham de fundar a paz, mas simples tregoas. Essa persuasão cresceu nos demais dias, porque uma e outra sentiam-se mutuamente observadas. Como houvesse entre ellas um accordo tacito para não turbar a paz domestica, Luiz Garcia não percebeu essa situação nova; Jorge ainda menos do que elle. Yayá não alterou os habitos dos ultimos dias, comquanto usasse mais alguma cautella; as relações dos dous eram, aliás tão frequentes e familiares como d'antes. Uma vez, como a ausencia de Jorge se houvesse prolongado além do costume, Yayá mostrou-se-lhe um pouco retrahida: e, perguntando-lhe elle o que tinha, respondeu affoutamente, que a ausencia a magoara muito.

—Quatro dias apenas, observou elle.

No primeiro domingo de Março, Jorge foi alli ás onze horas da manhã, e só achou Luiz Garcia e Estella. Yayá tinha ido á casa de Maria das Dores. Quando a moça voltou, Jorge e Estella estavam no jardim, ao pé da porta da sala; entre ambos havia uma cadeira vaga,—a de Luiz Garcia, que fora dentro alguns minutos antes. Nenhum dos dous falava nessa occasião; Estella estalava as unhas, Jorge batia na testa com o castão da bengala. Era constrangimento? Era dissimulação? Yayá não soube decidir; mas o aspecto dos dous deixou-a sem pinga de sangue.

No dia seguinte voltou á casa de Maria das Dores; sabia do passeio usual de Jorge; queria vel-o, falar-lhe. A doente não contava com a visita tão proxima da outra. Yayá esteve com ella apenas alguns minutos, e saiu fóra, a pretexto de que fazia calor e queria ver a tarde. A tarde era bella; o ceu tinha todos os tons, desde o escarlate até o opala; ao nascente, algumas nuvens, raras e finas, manchavam de branco o fundo azul.

A casa ficava n'uma pequena elevação; Yayá sentou-se numa pedra lisa, que servia de banco, e d'ali circulou um olhar pelo horizonte; depois desceu os olhos á cidade e ao mar, e esse espectaculo, tão sahido delles, levou-a aos tempos, não mui remotos, em que entre ella e o pae nenhum coração viera interpôr-se. No meio das reflexões, viu parar um homem, ao longe; era Jorge; vinha a pé, em attitude de quem medita. Passaria elle sem a ver? Ergueu-se; viu-o approximar se, parar de novo e olhar na direcção da casa. Cortejou-o de longe e fez-lhe signal para que subisse. Jorge obedeceu sem difficuldade.

Maria das Dores, doente de uma paralysia, ficou estupefacta quando viu entrar um desconhecido pela mão de Yayá. Interrogou a moça com os olhos, e Yayá, depois de um instante de acanhado silencio, respondeu com desgarre:

—É meu noivo, que vem vel-a. Quero que o conheça e não diga nada a ninguem, ouviu?

Dizendo isto, approximou-o mais da paralytica. A boa velha contemplou-o alguns instantes, disse-lhe algumas palavras de conselho, pediu-lhe que fizesse feliz a sua filha de creação, e não obteve delle uma palavra ou um gesto de assentimento. Suppol-o commovido; mas elle estava simplesmente attonito.

Saindo fora da casa, assentaram-se á porta, na mesma pedra, assaz larga e extensa para dous.

—Foi preciso dizer-lhe aquillo, explicou Yayá, porque eu desejo conversar com o senhor, e os noivos conversam mais á vontade. Demais, ella não é só paralytica; tem a vista fraca; amanhã posso substituil-o, sem que ella dê pela mudança. Agora falemos de nós e daquella carta... E antes da carta, diga-me, sabia que eu estava aqui?

—Não; mas não vim até estes lados sem esperança de a encontrar. Já que fala na carta, deixe-me dar-lhe uma explicação; se a não dei até hoje, é porque não quizera voltar a um assumpto, aborrecido para a senhora e para mim.

—Para o senhor?

—Para mim.

Yayá apertou-lhe a mão com força.—Vá, disse; tambem tenho de lhe dizer alguma cousa grave; mas ouçamos primeiro a sua explicação.

—Oh! custa pouco, acudiu Jorge. Escrevi o esboço da carta por me parecer que podia ser-lhe agradavel. Lembra-se que uma vez me havia falado naquelle sentido? Duvidei mais tarde, e disse-lh'o. Comtudo, havia tanta incerteza e contradicção entre suas palavras e acções, que não era difficil suppôr alguma cousa; ha paixões que começam assim caprichosamente. A carta era um meio de dizer ao pretendente que seus suspiros podiam não ser inuteis. Era isso; só isso. Confesso que adoptei o papel mais passivo, desinteressado, e não sei até se... creio que a senhora já o qualificou de ridiculo. A forma podia não ser grave, mas a intenção era affectuosa, e se merecia um riso, tambem merecia um aperto de mão. Esboçada a carta, não a mandaria sem mostral-a; foi o que fiz; mas sua reprovação foi tão eloquente, que me fez cair em mim e reconhecer que a carta era de mais.

—Era de menos.

—Queria então que fosse eu proprio a Buenos-Ayres? perguntou Jorge sorrindo.

—Queria, se ao chegar lhe dissesse:—Pense em outra cousa; Yayá não o ama.

—Para isso, basta que lhe não diga nada.

—Não o ama, repetiu a moça; não o ama, não o ama.

—Desta vez é serio e definitivo?

—Que admira? replicou a moça com gravidade. Não lhe parece a cousa mais natural do mundo que uma moça não ame o Procopio Dias? Não sei o que são os outros homens; poucos tenho visto; nossa vida é tão retirada! Mas, emfim, não me parece que o Procopio Dias seja homem de se ficar morrendo por elle. E comtudo elle morre por mim. Meu coração perdoa-lhe; é o mais que pode fazer. Acceital-o seria impossivel. Já reparou nos olhos delle? Tem ás vezes uma expressão exquisita, que não vejo nos olhos de papae nem nos seus. Não gosto delle; não poderia gostar nunca.

Desta vez foi Jorge que lhe apertou a mão.

—Tem razão, disse elle; se o não ama deveras está tudo acabado. Não lhe digo que elle fosse um noivo perfeito; não podia ser; mas acceitavel era. Hoje percebo que entre a senhora e elle ha alguns contrastes; mas o que é que não concilia o tempo? Esqueça o que lhe disse a tal respeito; e assentemos não falar mais de semelhante assumpto. Provavelmente não escreverei nada; é duro dizer a um homem que todas as suas esperanças são vans.

—A paz do meu espirito não valerá esse sacrificio?

—Vale mais; posso fazel-o.

Yayá reflectiu.

—Não, não é preciso; não lhe diga nada; elle ha de entender tudo.

Como fizessem uma pausa longa, viram duas ou tres pessoas, que passavam em baixo, olharem para cima com certo ar curioso e indiscreto. Jorge ergueu-se.

—Estamos dando na vista, disse elle; hão de suppôr que somos dous namorados...

—Sente-se, disse Yayá em tom intimativo. E continuou:—Que perde o senhor com isso? Dirão que não tem mau gosto em amar uma moça bonita.

—Se dissessem que eramos dous namorados, erravam de certo, por que eu sei... eu suspeito que a senhora ama a outro. Uso dos meus direitos de confidente, exigindo que me diga a verdade.

—Toda, respondeu Yayá, e era esse o ponto grave de que lhe queria falar. Ainda uma vez, o senhor estima-me? tem-me amizade sincera?

—Pois duvida?

—Eu duvido de tudo e de todos; até de mim. Mas em fim, preciso de alguem que me ouça, a quem eu conte o que penso e o que sinto, e até o que receio, porque tambem receio, e ha horas em que tremo sem saber de que. É verdade, ha occasiões em que me parece que uma grande infelicidade vae cair sobre mim, e dahi a nada penso justamente o contrario; penso que vou receber maior felicidade do mundo, e fico alegre como um passarinho. Cousas de criança, não é?

—Não, cousas de moça. É certo que ama? a quem?

Yayá olhou para elle algum tempo, satisfeita da impaciencia que parecia ler-lhe na fronte.

—Respondo que sim e que não, disse ella. Se me pergunta a quem amo, digo-lhe que não sei, não amo ninguem; mas sinto alguma cousa mysteriosa e exquisita, e não sei... desconfio... não sei que seja. Porque é que as mesmas cousas, que me eram indifferentes, agora me parecem interessantes, e até chego a suppôr que me falam? Ainda ha pouco, antes de o ver, estava a olhar embebida para o ceu, quasi sem pensar, mas ainda assim curiosa ou anciosa; olhava para o ceu e para o mar; o coração apertou-se-me; depois alargou-se-me como se quizesse devorar tudo. Ha dias em que me levanto alegre e viva, como uma creança; papae diz que são os meus dias azues. Ha outros em que tenho vontade de quebrar tudo, e não digo mais de duas palavras em cada hora; são os meus dias negros. Ouço ás vezes uma voz que me fala; penso que é alguem e reconheço que a voz é a da minha propria imaginação. Tudo será imaginação, creio; mas é tão novo e tão bom! Em todo caso, parece-me extraordinario, e se não é loucura... É verdade, ás vezes penso que vou ficar douda, e nessas occasiões tenho medo. Será isso?

—Não, acudiu Jorge, não é loucura, é sabedoria, é a grande sabedoria da natureza. Isso que sente, não será amor; mas é a necessidade de amar; é o rebate que lhe dá o coração. Alguem virá um dia, e a voz anonyma que a senhora costuma ouvir, lhe falará então pela boca do homem que o coração lhe apontar.

Yayá escutava-o como encantada, mas sem olhar para elle. Quando Jorge acabou, fez-se entre ambos uma longa pausa. A moça tinha os olhos no horizonte onde as cores da tarde desmaiavam rapidamente. Jorge contemplava-a tomado de interesse e até de inveja; comprehendia os primeiros sobresaltos desse coração em flôr, e dizia a si mesmo que ha sensações que o tempo leva para não restituir mais.

Yayá accordou de suas reflexões.

—Francamente, disse ella; o senhor não se ri de mim?

—Rir? A senhora não me conhece. Não ha que rir de sentimentos sinceros; e seria praga muito mal a confiança de que me dá prova. Não me julgue um espirito vulgar...

—Papae faz-lhe muitos elogios.

—Hade saber, ou fica sabendo que minha natureza sympathisa com o que está acima do commum. A senhora vale muito; posso dizer que ha dous mezes eu ainda a não conhecia...

—Não tente a minha vaidade, interrompeu Yayá; prefiro que me dê um bom conselho.

—Dou-lhe um, disse Jorge depois de curta pausa; resista um pouco a essas sensações, cujo excesso pode perturbar-lhe a existencia. Não é só o coração que lhe fala, é tambem a imaginação, e a imaginação, se é boa amiga, tem seus dias de infidelidade. Dê um pouco de poesia á vida, mas não cáia no romanesco; o romanesco é perfido. Eu, que lhe falo, lastimo não ter já essa ordem de sentimentos em flôr, e comtudo não sei se ganharia com elles.

—Que! não seria capaz de amar?

—Meu coração não envelheceu ainda.

—Entendo; amaria hoje de outro modo...

—De outro modo, e tão sinceramente como d'antes; um amor de olhos abertos.

—Penso que o amor verdadeiro, ou ao menos o melhor, é o que não vê nada em volta de si, e caminha direito, resoluto e feliz aonde o leva o coração. Para que servem os olhos abertos?

—A senhora quer saber muita cousa, disse Jorge sorrindo. Não basta que o coração lhe diga: ame a este; é preciso que os olhos approvem a escolha do coração. Admira-se? Ouça-me até o fim; eu desejo preserval-a de alguma escolha má. Eleja um marido digno, um espirito que a entenda, que a admire, um homem que a possa honrar; não se deixe levar dos primeiros olhos que pareçam responder aos seus...

Yayá abaixou a cabeça.

—Não acharei nenhuns, disse ella; eu creio que este amor morrerá commigo...

Como essa ideia parecesse entristecel-a, Jorge sentiu-se tomado de compaixão, ao ver que persistia naquella aurora pura uma sombra de superstição romanesca. Pegou-lhe na mão, viu-a estremecer, recusar-lh'a e cruzar os braços.

—Tem medo de mim? disse elle ao cabo de um instante.

—Tenho.

Jorge calou-se. Com a bengala entrou a reproduzir no chão umas reminiscencias de geometria. Sentia-se atalhado, curioso, e tanto desejava como lhe custava sair d'alli. Não chegava a entendel-a claramente; a verdade, quando ia a tocal-a, parecia inverosimil. Entretanto, Yayá não rompia o silencio; tinha a fronte pendida e meditava. Talvez meditava na palavra que acabava de proferir, fructo da situação violenta em que ella propria ou os acontecimentos a haviam collocado. Era a rebellião do pudor. De quando em quando, sacudia a fronte como a expellir uma ideia enfadonha ou cruel. N'uma dessas vezes, Jorge disse com brandura:

—Para que negal-o? a senhora padece; não sei se com razão ou sem ella, mas parece padecer muito?

—Oh! muito!

E dessa vez a palavra era tão angustiosa, tão sincera, tão vinda do coração, que elle cedeu antes a um impulso de generosidade do que á conveniencia de não ser repellido segunda vez Pegou-lhe nas mãos e pediu-lhe que fosse até o fim da confiança, dizendo-lhe a causa de seus males. Talvez elle pudesse removel-os.

Yayá inclinou o rosto sobre as mãos de Jorge. Este sentiu nellas algumas lagrimas, vertidas sem soluços. Não passava ninguem: mas elle nem teve tempo de reflectir na possibilidade de um extranho. Inclinou-se tambem e perguntou-lhe affectuosamente o que tinha. Yayá ergueu a cabeça, e enxugou os olhos, mas não respondeu nada.

—A senhora não tem confiança em mim, disse Jorge.

—Ha cousas que se não fazem, outras que se não dizem; algumas ficarão entre mim e Deus, retorquiu ella como se fizesse uma reflexão para si. Depois fitou-o e pediu-lhe a promessa de que não diria nada do que acabava de ver e ouvir.

—Essa promessa não se faz; está feita por si. Quanto ao seu segredo, não quero violental-o, mas tenho esperança de que a senhora mesma o hade dizer um dia; eu saberei obter-lhe esse resto de confiança que ainda me nega.

—Já! exclamou a moça vendo Jorge levantar-se.

—Repare que a noite vem caindo; não posso ficar nem mais um minuto. Um confidente tem limites. Olhe; não peço muita cousa, mas desejo alguma cousa mais. Confidente é pouco; mestre é ainda menos. Dê-me outro titulo ou cargo; deixe-me ser seu... seu que? seu... seu irmão. Sim?

—Não! disse ella energicamente.

Jorge empallideceu, como se acabasse de ver o fundo da alma da moça. A negativa era alguma cousa mais do que um capricho. Não retorquiu; estendeu-lhe a mão.

—Até quando? disse ella.

—Até amanhã.

Tres minutos depois, Jorge estava na rua. A noite descia rapidamente. Elle não olhou para traz; se olhasse viria a figura de Yayá envolta já na meia sombra do crepusculo. Veria mais; vel-a-hia reflectir um pouco e espalmar a mão no ar, como uma ameaça, na direcção em que elle ia.

Yayá entrou na casa da doente.

—Seu noivo? disse esta.

—Já foi.

—Quando é o casamento?

—O dia não sei. E depois de uma pausa:—

Mas que se hade fazer é certo. Ou eu não sou quem sou.

XIV

Guiando para casa, Jorge ia agitado e inquieto; recapitulava a conversação que escabava de ter com a filha de Luiz Garcia. O acaso propuzera-lhe um enigma; o tempo dava-lhe a decifração. Seria a decifração? O espirito do moço recuava, não dava credito á realidade, pelo menos á realidade apparente; mas esta impunha-se-lhe de quando em quando, e Jorge recompunha todas as circumstancias daquellas ultimas semanas e ainda dos mezes anteriores. Que era a esquivança, a rispidez, a hostilidade de Yayá, senão a mascara de um sentimento contrario, a vingança de um coração atordoado pelo supposto desdem de outro? Esta reflexão vinha tão de molde com os factos dos ultimos tempos, que era difficil achar mais ajustada explicação. Logo depois, considerava que seria absurdo attribuir á moça uma ligeireza e um desgarre inconciliaveis com a prudencia que reconhecia nella, a despeito dos assomos de travessura intermittente.

—Impossivel! disse elle sacudindo o hombro.

Mas esse impossivel tornava a descer ás regiões da probabilidade, até galgar os limites da certeza. A observação lhe mostrava que Yayá tinha a audacia no sangue, e a razão lhe dizia que um amor sem freio possue todas as imprudencias e vertigens; que umas naturezas são stoicas, outras rebeldes; finalmente, que ha situações moraes incomportaveis, e que a uma candura de dezesete annos é licito não distinguir entre o sentimento que fala e a conveniencia que restringe. Esta era a interpretação benevola; depois vinha a interpretação pessimista. Podia ser que todos aquelles atrevimentos encobrissem um calculo,—o calculo da ambição, que intentasse trocar a belleza pelo beneficio de uma posição ostensiva e superior. Quando essa suspeita lhe brotou no espirito, Jorge não sentiu diminuir a admiração nem a estima; porquanto, a ambição, se ambição havia, parecia ser de boa raça. Mas era impossivel combinar o calculo com as lagrimas daquella tarde, e e elle as sentira quentes, silenciosas, e não podia crer que uma vida quasi adolescente possuisse já a arte da hypocrisia.

Não ha vida tão physica ou tão alheia ao sentimento da personalidade, que em tal situação não padecesse, ao menos, trinta minutos de insomnia. A insomnia de Jorge durou mais algum tempo. De envolta com as conjecturas havia um pouco de satisfação pessoal. A certeza ou a probabilidade de que, sem nenhuma acção propria, iniciara nos mysterios do amor, uma alma ainda nova e ingenua, dava ao coração delle alguma cousa da volupia do egoismo; sensação que, aliás, diminuiu quando lhe occorreu que talvez esse amor obscuro lhe houvesse já custado lagrimas e desesperos. Elle tinha razão quando dizia não ser espirito vulgar. Afrouxara-se-lhe o ardor dos primeiros tempos, a imaginação tinha o vôo mais curto; mas a generosidade juvenil ficara intacta, e com ella a faculdade de resentir as dores alheias.

—Pobre menina! dizia comsigo.

No dia seguinte, Jorge examinou detidamente se lhe convinha tornar á casa de Luiz Garcia, ao menos com a assiduidade do costume. A situação moral de Yayá tendia a aggravar-se com a presença continua d'elle; em taes casos, a ausencia, era um acto de criterio e até de misericordia. Misericordia foi o que elle disse comsigo, e sorriu logo depois, com um sorriso de modestia envergonhada. A verdade é que Jorge anciava por lá voltar; tinha curiosidade de contemplar a sua obra, agora que a descobria ou presumia havel-a descoberto; senão é que a noite lhe trouxera uma sombra de duvida, e elle queria verificar definitivamente a realidade.

De noite foi. Luiz Garcia estava um pouco andado e abatido.—Venha, doutor! disse elle quando viu entrar o filho de Valeria; este coração é o meu importuno. A mulher procurava animal-o; a filha tinha o terror nos olhos. Jorge auxiliou a familia no trabalho de o confortar; tres quartos de hora depois a molestia cedia, e tornava ao trabalho surdo da destruição. Luiz Garcia era outro, logo que passava uma dessas crises; tornava-se garrulo e risonho, com o fim de reanimar elle proprio a familia, e communicar-lhe a esperança que lhe começava a faltar. Jorge não se deixou contaminar da illusão; recordou a sentença do medico e sentiu a proxima extincção daquelle homem. Yayá não conhecia a sentença do medico; mas o espectaculo da afflicção do pae tinha-a prostrado muito. Apparentemente não se lembrava da entrevista da vespera; podia até suppôr-se que, de quando em quando, não se lembrava da presença de Jorge.

Jorge achou-a nos subsequentes dias, tal qual era nos outros, menos travessa, porém, e muito mais senhora. Ao cabo de uma semana, trazia todos os elementos de convicção:—Ama-me! pensava elle ao sair d'alli uma noite. A convicção, por mais que a suspeita a houvesse prevenido, atordoou o espirito de Jorge, que nessa mesma noite resolveu não voltar lá; resolução varonil, que durou quarenta e oito horas.

Alguns dias, tres semanas, decorreram assim na mais aprazivel familiaridade. Jorge, se não obtivera o titulo, exercia realmente as funcções de irmão mais velho; era um guia, um conselheiro, uma autoridade. Escutava-a com interesse; recebia a confidencia dos sentimentos da moça, e as ambições de um coração cuja sêde parecia contentar-se da agua que pudesse conter a propria mão, no primeiro arroio do caminho. Ao mesmo tempo, buscava temperar-lhe o romanesco com uma forte dose de realidade.

Durante esse tempo, nenhuma phrase egual ás daquella tarde veiu sacudir o espirito de Jorge; nenhuma lagrima lhe caiu nas mãos. Mas, se a palavra não vinha, a voz era insinuante e commovida, ás vezes; se os olhos não choravam, luziam ou quebravam-se de um modo pouco commum. Jorge fingia não comprehender; mais do que isso, forcejou por se persuadir a si proprio que não comprehendia: resultado util, que lhe dava a vantagem de saborear em silencio o gozo de se saber amado, sem perder o de contemplar uma natureza original, moralmente exhuberante e forte, que, além de tudo, tinha para elle a fascinação do mysterio.

No fim daquellas tres semanas encontraram-se em casa da paralytica. Não houve accordo, mas nada foi casual.—Vou amanhã á casa de Maria das Dores, disse Yayá uma noite, prestes a despedir-se delle. E no outro dia de tarde, Jorge, que havia rareado os passeios daquelles ultimos tempos, acertou de caminhar para alli, e com tão boa fortuna, que achou a moça sentada no mesmo banco de pedra em que lhe falára da primeira vez.

Outra vez, quando Yayá alli voltou, já encontrou Jorge, ao pé da enferma. Maria das Dores estava ainda mais contente com a honra da visita do que com a esmola que elle dissimuladamente lhe levara envolvida em um lenço de ramagens. Jorge animava-a, dizia-lhe que ainda iriam á Penha naquelle anno. Yayá parou á porta, espantada e contente.

—Venha, disse a enferma, ande ver como seu noivo está caçoando com a velha.

—Agradeço-lhe, disse Yayá; creia que ella merece todas as consolações.

Na noite desse dia, quando Jorge entrou em casa, um pouco inebriado da entrevista, achou uma carta de Procopio Dias, que o encheu de contentamento. Procopio Dias tinha necessidade de se demorar ainda uns dous mezes. Dous mezes! Era a eternidade. Jorge sentiu-se confortado com a noticia de tão longa ausencia. Que importava a presença, se ella o não amava? Essa reflexão não a fez Jorge, mas a filha de Luiz Garcia, quando elle lhe deu a noticia da carta:

—Que tenho eu que elle esteja ausente ou presente? elle ou um extranho é a mesma cousa.

A eternidade foi um minuto; os dous mezes voaram como um tufão. Um dia, no ultimo desses dous mezes, Yayá disse ao filho de Valeria que achara emfim um marido.

—Um marido? repetiu Jorge empallidecendo.

—Parece que um marido. Não me approva?

—Se ainda o não conheço.

—Não sei se é um marido, continuou Yayá depois de um instante; mas achei o homem a quem amo.

—É a mesma cousa.

—Ou quasi.

Houve entre ambos uma longa pausa, durante a qual Yayá tinha os olhos fitos no moço, emquanto este não tinha os seus em parte nenhuma; vagavam de um ponto a outro. Yayá repetiu que achara um marido.

—É a segunda vez que me diz isso, redarguiu Jorge com a voz tremula e irritada; se o achou, tanto melhor; casará com elle.

—Não me disse uma vez que não me deixasse ir com os primeiros olhos que parecessem responder aos meus? não me disse que era conveniente escolher um homem...

—O que eu disse foram palavras sem sentido, tornou Jorge; não se dão conselhos ao coração que ama. O casamento vem talhado do ceu, segundo diz o povo; outros dirão que vem do acaso; ou é o destino de cada um, ou é uma loteria. A senhora não me pede certamente que lhe diga o numero em que ha de sair a sorte grande? Compre bilhete e deixe correr a roda. Alguns dias de paciencia e nada mais...

A excitação de Jorge era extraordinaria, mas não foi longa. Alguns instantes de silencio bastaram a applacal-a ou diminuil-a; pelo menos o gesto não trahiu a agitação interior. Pallido, sim, estava pallido; mas a voz, se não era firme, perdera a aspereza do primeiro instante.

—Reflecti depois da nossa conversa, disse elle e não desejo tomar nenhuma responsabilidade em um acto de que depende a felicidade de sua vida.

—Então, não me estima, é o que é, disse Yayá em voz queixosa.

Jorge respondeu com um olhar, e a resposta que elle quizera fosse um simples protesto, transgrediu esse limite: foi um protesto, uma queixa e acaso uma interrogação. Yayá abaixou os olhos; uma onda de sangue lhe avermelhou a face; Jorge viu-a offegante e acanhada durante alguns segundos. Não indagou o motivo; ergueu-se para sair. Yayá retevo-o pela aba do fraque.

—Nega-me então todo o auxilio? disse ella. Depois de alguns mezes de uma vida em que me acostumei a ouvir seus conselhos, o senhor recusa-me este. Que lhe fiz eu?

—Nada.

Jorge saiu.—Que tenho eu que ella ame, que se case ou não se case? Sou eu sou pae? seu tutor? Quando assim falava, sentia dentro de si uma resposta; a consciencia desvendava-lhe a realidade. Sim, tu amas, dizia-lhe ella, tu não fazes outra cousa ha dous mezes; deixaste-te envolver nos fios invisiveis; não sentiste que essa intimidade de todos os dias era a gotta d'agua que te cavava o coração. Ah! tu querias saciar a curiosidade e sair dalli sem deixar alguma cousa, sem receber tambem alguma outra cousa? Não se brinca com um inimigo; e ella o era, e continuará a sel-o, por que tu estás definitivamente atado.

A esta voz importuna e verdadeira, Jorge erguia os hombros. Tentou refugiar-se no somno. O somno rejeitou-o de si. Então fumou, desceu á chacara, fatigou o corpo para melhor adormecer o espirito; mas a lua que batia no repucho mostrava-lhe, ora um casebre de Santa Thereza, ora uma varanda da Tijuca, como se fossem o verso e o anverso da medalha de seu coração, toda a historia da vida que elle vivera até alli. A differença entre uma e outra dessas duas phases é que presentemente o desengano não o levaria á guerra, nem lhe daria os desesperos do primeiro dia. Não; Jorge levantou-sa na manhã seguinte um pouco atordoado, mas não inteiramente abatido. Sentia alguma oppressão moral, um desejo de saber quem era o adversário preferido. Merecel-a-hia? Que a merecesse, embora; elle tinha um direito anterior e superior; desde que a amava, excluía todos os outros.

A força de pensar naquillo, chegou a entrever a realidade; perguntou a si mesmo se a declaração da moça não seria antes um estratagema. Podia ser; tinha-a visto corar, inclinar o collo, ficar por algum tempo acanhada e commovida. Essa conjectura desabafou-lhe um pouco o espirito, e, por isso que era a conjectura da esperança, não tardou em transferir-se a evidencia. Relembrou todas as acções de Yayá, suas palavras, as circumstancias e os termos de reconciliação, as lagrimas sem motivo, a paciencia, o interesse, o gosto de o conversar; finalmente, esse quê mysterioso que divulga a uma alma a preferencia de outra. Quando pouco a pouco lhe penetrou no coração essa ideia, Jorge reconheceu que havia sido precipitado. Queria escrever-lhe e recuou; queria lá voltar, mas resolveu o contrario.

—Se é um estratagema, pensou elle, ella terá nisto o seu castigo; se verdadeiramente ama a outro, que vou lá fazer agora?

Pensou isto; pensou mais; só não pensou em Estella.

Yayá não se pode conter. Ao cabo de sete dias de ausencia determinou ir ao logar onde mais de uma vez encontrara o filho de Valeria.

—Vae chover, disse Luiz Garcia; guarda a visita para amanhã.

Yayá teimou na resolução.—É uma nuvem que passa, disse ella; em saindo a lua verá como o tempo fica limpo.

Estava inquieta, preoccupada, tinha estremecimentos nervosos; não attendeu á segunda observação do pae. O pae dizia-lhe que não havia necessidade de desobedecer para realisar um capricho. Como repetisse a expressão, Yayá ficou pallida e não ousou responder; mas Estella, que assistia callada aos conselhos de um e á resistencia de outro, disse sorrindo á enteada:

—Vá; seu pae deixa-a ir.

Yayá ia agradecer a intervenção; mas, quando os olhos das duas mulheres se encontraram, detiveram-se por um instante longo. Poucos minutos depois chegava a moça á casa de Maria das Dores. Despediu Raymundo; a porta estava aberta; entrou. Da sala, onde se deteve, ouviu n'outra sala interior a voz de Jorge.

—Não se esqueça; hade entregar-lhe isto, quando ella vier; não mande lá á casa; é um livro.

Yayá entrou.

—Não contava commigo? disse ella.

—Não; por isso deixava-lhe este livro, respondeu Jorge tirando o embrulho á doente e entregando-o á moça; é um romance, creio que lhe falei nelle uma vez.

Yayá tomou-lhe o livro, abriu-o, folheou-o com soffreguidão, como certa de achar uma pagina marcada. Estava marcada uma pagina, e a marca era um bilhete. Abriu-o; dizia assim: «A senhora deu-me uma vez um titulo que eu esperei viesse a ser verdadeiro. Diga se me enganei, se o ceu lhe destinou outro noivo, ou se meu coração pode ter ainda uma esperança. Não lhe custará muito; não custa muito uma simples palavra.»

Emquanto ella lia rapidamente estas linhas, e tornava-as a ler, Jorge affastou-se até á sala da frente. A carta era das que não permittem a presença do autor; precisam do prestigio da ausencia; são, para assim dizer, expressões truncadas que a imaginação perfaz e amplia. Jorge ia a sair, quando ouviu o rumor dos passos de Yayá; deteve-se a esperar a resposta. A moça parou deante delle, e entre ambos houve um momento de silencio e hesitação.

—Cego! disse emfim Yayá estendendo-lhe as mãos com um ar de simplicidade e confiança.

Jorge recebeu-as nas suas, e a linguagem que a alma não quiz confiar do labio do homem, elles a disseram com os olhos, durante alguns minutos largos. Jorge perguntou finalmente:—É certo? ama-me?—Yayá cingiu-lhe o pescoço com os braços, e inclinou a cabeça com um gesto de submissão. Jorge inclinou-se tambem, e nos cabellos,—nos fios de cabello, que lhe pendiam na testa, pousou o mais puro e fugitivo dos beijos. Ao contacto daquelle labio, Yayá enrubeceu e estremeceu toda; mas não fugiu, não retirou os braços; deixou-se ficar subjugada e feliz.

Homero conta que Venus, descendo ao campo da batalha entre gregos e troyanos, saiu d'alli ferida e ensanguentada. Yayá teve a sorte da diva homerica; interpondo-se entre Jorge e Estella trouxe d'alli ferido o coração. Naquelle espaço de alguns mezes, obra de paciencia e luta, de violencia e simulação, para o qual fizera convergir todas as forças moraes, não suspeitou que, vencendo ao outro, podia vencer-se a si mesma. Queria ser uma barreira entre o passado e o presente, sem cogitar na difficuldade do plano, nem nas consequencias possiveis delle. Sobretudo, não pensou na moralidade da acção. Que podia ella saber d'isto? A suspeita ia até admittir a persistencia do amor no coração da madrasta, mas não lhe attribuia mais do que uma aspiração ou saudade silenciosa; não sabia mais. Para combater esse inimigo inerte, é que poz em campo a porção de astucia que a natureza lhe dera, as graças do rosto e a, rara penetração de espirito.

Yayá transpoz a soleira e saiu; precisava de ar, de espaço, de luz; a alma cobiçava um immenso banho de azul e ouro, e a tarde esperava-a trajada de suas purpuras mais bellas. Jorge acompanhou-a; a commoção delle era sincera e forte, mas menos intensa, menos desvairada que a de Yayá, cujos olhos pareciam dizer a tudo o que a rodeava, desde o sol poente até ao ultimo grelo de capim:—olhae, vede as bodas do meu coração; este é o meu amado. Perto da noite, Raymundo veiu buscal-a; Jorge acompanhou-a. Yayá lembrou-se de traçar com um grampo, no musgo que reveste o aqueducto, o nome de Jorge e a data; instando com elle, Jorge escreveu tambem o nome d'ella. Raymundo sorria entre dentes. Em caminho falaram do presente e do futuro; e, n'um intervallo, tocaram levemente no passado.

—Sabe que eu tinha um desgotosinho? disse Yayá. Jorge interrogou-a com os olhos. É verdade, um capricho, continuou ella. Quizera que o senhor nunca tivesse gostado de outra pessoa, e é bem possivel que não seja este o primeiro amor de seu coração.

—Não é, respondeu Jorge depois de um instante de reflexão. Amei uma vez, ha muito tempo; mas todo esse passado acabou.

—Está certo de que acabou?

—Creança! Que noiva receiou nunca de um amor antigo, começado e acabado, antes d'ella ser amada tambem? Que o novo amor seja sincero e fiel, eis o que se deve pedir e exigir. Quanto ao passado, é como os defuntos; reza-se por elle, quando se reza.

—Tenho medo de almas do outro mundo, tornou Yayá sorrindo.

Yayá mostrou-se tão expansiva n'aquella noite e nos seguintes dias, derramou de tal modo a vida que a enchia que Estella comprehendeu tudo o que se passava entre a enteada e Jorge. Ha uns amores, aliás verdadeiros, a que precedem muitas contrafacções; primeiro que a alma os sinta, tem despendido a virgindade em sensações intimas. Yayá ignorava tudo; não soletrara o amor, aprendera-o de um lance. Trazia o coração intacto. Seu accordar foi uma aurora subita, mas rutilante e limpida. No meio da embriaguez que lhe dava o novo sentimento, não cogitou nas possiveis consequencias d'elle; não perguntou a si propria se era verdade que no coração da madrasta havia uma saudade ou uma esperança silenciosa, e se isso podia ser a raiz de largos odios e dissenções domesticas. Não interrogou o futuro. Phenomeno curioso! A lembrança do pae foi por um instante esquecida; o egoismo do amor devorou-a.

XV

A fronte de Estella não tinha a tristeza dos vencidos. O amor persistia no coração, como um mau hospede; e o espectaculo daquelles ultimos mezes não fizera mais do que irrital-o. Mas a força moral de Estella subjugou-o. A luta fora longa, violenta e cruel; a consciencia do dever e o respeito de si propria acabaram vencendo. Talvez não fosse difficil perceber, por baixo da serenidade do rosto, o cançasso que deixam as grandes tempestades moraes. A tempestade ninguem lh'a viu.

Não obstante, no dia em que a paixão dos dous lhe pareceu evidente, Estella sentiu rugir-lhe no coração um vento de colera; vento forte e instantaneo. Dessa vez, o olhar penetrante de Yayá não pode ler no fundo da alma da madrasta; e por ventura lhe diminuiu a suspeita, quando a viu contemplar sem irritação nem abatimento a situação nascida de seu esforço unico.

Entretanto, a molestia, que solapava a existencia de Luiz Garcia, aggravou-se por aquelle tempo, e o enfermo foi compellido a pedir alguns mezes de licença. Chamado a vel-o, o medico reconheceu que a enfermidade tocava ao desenlace, e com a enfermidade a vida. Não o disse á familia, mas não o escondeu de Jorge, quando este directamente lh'o perguntou.

—Está condemnado á morte, disse elle; a molestia devorou-o lentamente, mas com segurança. Pode viver dous a tres mezes.

Jorge ficou atterrado, Os acontecimentos tinham tomado tal feição, que elle já pedia a vida de Luiz Garcia. Quem lh'o dissera alguns annos antes? Não sómente padeceria com a morte do enfermo, mas teria de ver padecer Yayá, de cuja adoração filial era testemunha, e chegava a receiar que o golpe lhe fosse fatal. Nada disse; affectou tranquillidade e indifferença, mas entendeu que os successos o designavam a proteger a familia e dispunha-se a assumir esse papel, quando fosse occasião.

Estella não receiou menos do que na molestia anterior; mas dessa vez não interrogou Jorge, com quanto o visse falar ao medico. Nos ultimos tempos, o seu silencio era mais continuo e habitual. Parecia desinteressada de tudo, menos do marido. Suspeitou da gravidade da molestia, interrogou o medico, e ouviu deste palavras de esperança:

—Não lhe peço esperanças illusorias, disse Estella; peço-lhe que me diga toda a verdade.

—A verdade é cruel de dizer.

—Perdido? disse ella com voz surda.

O silencio do medico foi a confirmação d'aquella palavra. Estella sentiu fugir-lhe todo o sangue; mas não soltou uma lagrima. Pode reflectir no perigo de ser vista essa denuncia do mal, e dominou-se. Quando se achou só comsigo, deu livre campo ás angustias; encarou a catastrophe e pensou nas consequencias da morte e no incerto futuro que a aguardava dentro de poucos dias. O futuro trouxe-a ao presente, o presente levou-a ao passado. A vida só lhe dera alegrias medias e dores maximas. Não foi a paixão que a levou ao casamento, mas sómente a conveniencia e o raciocinio. No casamento achara os sentimentos de apreço, a mutua consideração, a brandura das relações domesticas; esse fogo, porém, cuja intensidade não dura, mas que é o férvido sol dos primeiros dias, precursor necessario da tarde repousada e da noite tranquilla, esse fogo, essa fusão de duas existencias, esse ardor expansivo, condição de sua natureza moral, não os conheceu Estella. Ou o destino ou o orgulho privou-a de achar no casamento a paixão sanctificada. Pois bem, se alguma cousa podia compensar-lhe a falta, era a longa duração de uma felicidade segura, embora tibia; era envelhecer sob a monotonia de um horizonte sem sol nem tempestade. O destino negava-lhe a compensação.

Não tinha Estella ao pé de si com quem repartisse as tristezas. O pae seria o ultimo de todos. A viuvez deixal-a-hia sem familia. Esta ideia trouxe outra,—a de apressar o casamento da enteada, de modo que nenhum vinculo moral lhe sobrevivesse ao marido. Uma noite, tendo Luiz Garcia adormecido, Estella deu a perceber á enteada que o estado do pae era grave. Yayá empallideceu. Jorge fez um gesto de reprovação.

—A molestia não é leve de certo, disse este; nas não se segue dahi que se deva...

—Tudo se deve prever, tornou Estella. Pela minha parte, entendo que prevenir um caso fatal não é fazer com que elle se dê. Yayá sabe o amor que lhe tem seu pae; seria para elle uma fortuna poder abençoal-a. Vamos lá, continuou ella, pegando nas mãos de um e de outro, por que é que se não casam?

Momentaneamente acanhados, nenhum delles assentiu nem recusou. Yayá olhava espantada para a madrasta.

—O silencio é uma maneira de responder, continuou esta; querem dizer que concordam commigo, não é? Nesse caso, seremos tres para fazer a cousa mais simples do mundo, que é casar duas creaturas, que se amam... Porque não a pede o senhor amanhã? O casamento pode ser feito dentro de poucos dias, á capucha, cousa simples...

Yayá tinha emfim sahido do primeiro instante de estupefacção.—Mas, papae, está mal? disse ella.

—Todos nós estamos mal, apezar de termos saude, respondeu Estella; n'um dia cae a casa. A doença delle é grave, é coração...

—Tem razão, interveiu Jorge; podemos concluir tudo em poucos dias, duas semanas, quando muito, ou tres.

Jorge não ficou pouco impressionado da intervenção de Estella. Conhecendo os sentimentos que a distinguiam, admirava essa impassibilidade moral que esquecia ou fingia esquecer. Depois examinou-se a si proprio; sentiu que o amor que o dominava agora, posto fosse profundo, não era violento, não lhe queimava o coração. Comparou-se ao que tinha sido, e esse cotejo, no primeiro instante, não foi importuno; foi antes licção e philosophia. Mentalmente sorriu. Era elle o mesmo homem? Outrora caminhara resoluto ás soluções tragicas; agora, com egual sinceridade, entregava o coração a outra mulher. Na fronte desta mal ousara roçar um osculo medroso e casto, elle, que fizera a scena da Tijuca. O homem não era o mesmo. Embora a isenção presente, Jorge experimentou um pouco da nostalgia do passado; sorria sem amargura, mas com um travo de melancolia.

—Aquelle orgulho é ainda maior do que eu pensava, dizia elle.

No dia seguinte, Procopio Dias veiu accordal-o em casa.

—Quando chegou? perguntou Jorge.

—Hontem de tarde, a primeira visita que faço é esta. Demorei-me mais do que queria; mas emfim cá estou,—cá estou, e mais magro. O senhor é que me parece mais gordo.

Procopio Dias falou compridamente da politica argentina e da magistratura de Buenos-Ayres; falou tambem um pouco das mulheres platinas. De quando em quando, abria um claro, como para deixar que o outro intercalasse alguma cousa menos extrangeira; Jorge, porém, falava pouco e sem appetite; o constrangimento delle foi visivel quando Procopio Dias o interrogou, acerca da familia de Luiz Garcia; respondeu-lhe sem interesse. Procopio Dias fitou-o durante alguns segundos; as rugas da testa engrossaram-se-lhe extraordinariamente.

—E Yayá! disse elle; parece-lhe então que nenhuma esperança...

Fez uma pausa; Jorge preencheu-a com um sorriso descorado, mas assaz explicativo. Procopio Dias começou a farejar a realidade, mas nenhuma das linhas do rosto denunciou a impressão que esta lhe causara. Após um silencio largo, entrou a rir de bom humor.

—Quer que lhe diga uma cousa? perguntou elle. Saiba que volto curado. Quando penso na molestia tenho vergonha; é verdade, tenho vergonha da figura que fiz. Já sou muito maduro para cavallarias altas. A doença ainda me durou algum tempo; sarei com a mudança de clima; o amor, ao menos na minha edade, é uma especie de beri-beri... Hade ter-se rido de mim; é justo, porque eu não faço hoje outra cousa.

Jorge contestou com um simples gesto; mas Procopio Dias falava com tanta naturalidade, ria com tamanha franqueza, que a explicação deu á conserva a vida que ella tendia a perder. Jorge foi mais expansivo, mais alegre; não lhe confiou a nova situação, mas o segredo parecia debruçar-se-lhe das palpebras e dos cantos da boca. Essa alegria era um respiro da consciencia, que se sentia um pouco vexada em presença daquelle homem, cuja confiança fora a origem de seu recente amor; era tambem a satisfação de não ter conseguido ligal-o á filha de Luiz Garcia; consorcio repugnante, hybrido, cujo resultado seria dar á moça uma longa amargura sem certeza de resgate.

Quando Procopio Dias saiu d'alli ia suspeitoso da realidade.—Mas a outra? dizia elle comsigo. Sacudiu os hombros, e não ficou mais tranquillo. Levava já no peito um pouco de impaciencia e irritação; tinha a fronte obscurecida por uma nuvem. Mais tarde allumiou-a um clarão subito, ainda que frouxo, era um reflexo de esperança. Talvez houvesse julgado com precipitação: era possivel attribuir a reserva de Jorge, não á competencia pessoal, mas a uma maneira de entender as maximas do decoro. Quem sabe? Elle podia ter-se arrependido de haver permettido tanto. Essa reflexão arejou um pouco o espirito, sem lhe tirar de lá o miasma corruptor. Era força conhecer a verdade. Nesse mesmo dia, foi elle a Santa Thereza.

Luiz Garcia concedera n'aquella manhã a mão da filha. Na occasião em que Procopio Dias alli entrou, tinha-a elle ao pé de si, e contemplava-a com amor e saude,—duas vezes saudade, porque tambem a morte os viria desunir. Entre si recordava os tempos em que elle e ella eram, um para o outro, toda a terra e todo o ceu; e perguntava á natureza se era justo sobrepor ao primeiro vinculo outro vinculo extranho, e a natureza lhe respondia que não sómente era justo, mas até necessario. Então o pae sentia-se feliz com a felicidade da filha, cujo egoismo lhe ensinava a abnegação. Se ella devia amar a outrem, que faria elle mais do que ceder? Quanto ao noivo eleito, merecia-lhe todas as approvações; era o unico extranho que lhe penetrara um pouco mais na intimidade; amante, bemquisto e opulento, podia dar á moça, além da felicidade do coração, todas as vantagens sociaes, ainda as mais solidas, ainda as mais frivolas:—e esse homem obscuro, enfastiado e sceptico, saboreava a ventura que a filha iria achar no turbilhão das cousas, que elle não cobiçara nunca.

Uma noite bastou a Procopio Dias para conhecer a situação. Não obstante as declarações do pretendente, que acceitou como sinceras, Jorge buscou dissimulal-a. Se Procopio Dias não tornasse a ver a moça, é possivel que o tempo lhe abafasse a paixão. Mas viu-a, e viu-a mais bella do que a deixara.

—E a outra? dizia elle.

Dessa vez a pergunta não passou vagamente; trouxe uma ideia comsigo, deante da qual Procopio Dias chegou a recuar. Esse ideia era envenenar na propria origem a affeição recente; nada menos que denunciar a madrasta á enteada. Se alguma cousa pudesse attenuar a perversidade de semelhante recurso, era a persuasão que elle tinha de que diria a verdade. Cria deveras no amor secreto dos dous; com algum esforço poderia fazer suppôr que o casamento da filha de Luiz Garcia era uma suggestão da madrasta. Elle proprio achava essa combinação verosimil, conveniente, reparadora.

—Maganão! a duas amarras! dizia o pretendente em tom surdo.

A occasião veiu. Um pouco irritada com a assiduidade de Procopio Dias e a confiança que parecia renascer nelle, Yayá assentou de lhe dizer francamente que estava prestes a casar. Procopio Dias empallideceu. Suppunha apenas provavel o que era já definitivo. Olhou longamente para ella; a extincção da esperança não implicava a extincção do desejo; pela contrario, vinha pungil-o e açulal-o. Seus olhos mostraram então duas expressões diversas; a primeira involuntaria, a mesma com que os dous velhos de Israel espreitavam a filha de Helcias, um olhar terreno e mau; a segunda voluntaria, não de queixa, não de supplica, mas de lastima. A ideia ruim tornava a arder-lhe no cerebro.

—Não sabia, disse elle, depois de curta pausa. Com quem?

—Com o Dr. Jorge.

—Ah!

Procopio Dias riu com a testa, e tornou a deitar-lhe um olhar de lastima.—Pobre moça! murmurou elle entre dentes. Yayá fitou-o severamente; depois, sorriu e perguntou com alguma ironia:

—Não approva a escolha?

—A escolha é excellente, disse elle; mas ha circumstancias que fazem do optimo pessimo. Ouça-me; a senhora sabe que eu a amei; suppõe talvez que já não a amo e engana-se; amo-a como no primeiro dia. Tive ideia de casar com a senhora; perdi a ideia, mas guardei o sentimento. Talvez isso lhe diminua a sinceridade das minhas palavras; mas eu cedo á voz da consciencia, sem calcular com a sua approvação...

Fez uma pausa.

—Acabe, disse a moça.

—Ha cousas que um coração inexperiente não pode entender; cousas que talvez se lhe não devam referir. Quer um conselho? não acceite o casamento; desfaça-o, não para casar commigo, mas desfaça-o.

Yayá fez-se pallida. Procopio Dias, pasmado do proprio arrojo, comprehendeu que havia ido muito longe naquellas poucas palavras; mas já não havia meio de as explicar de modo verosimil. Como se fizesse um monologo interior, abanava a cabeça ou levantava a ponta do labio, emquanto os olhos, perdidos no ar, tinham o aspecto vitreo das fortes concentrações. Yayá olhou para elle atonita e confusa: não sabia o que pensasse, não podia ou não queria entender. Afinal, collingido todas as forças, perguntou audazmente porque motivo lhe cumpria desfazer o casamento.

—Qualquer que seja o motivo, disse elle, não lhe aconselho que o acceite logo como decisivo. Reflicta antes de resolver; a responsabilidade será sua, do mesmo modo que o beneficio ha de ser seu. Meu conselho é que o desfaça.

—Porque muitas vezes o casamento é... é uma mascara, uma... Seu noivo ama a outra pessoa... Que tem?

Yayá fizera-se livida. Terror, indignação, abatimento, sua alma passou por todos esses estados, padeceu-os até simultaneamente, sem que a boca achasse uma só palavra de resposta ou de protesto. A delação fulminara-a; nunca Procopio Dias chegou a comprehender o motivo de tamanho e tão subito effeito. O effeito aterrou-o em parte, e em parte o consternou; alguma fibra lhe ficara intacta, no meio da decomposição moral de todo o seu ser, essa bastou a resentir o golpe que elle mesmo vibrara.

—Outra... Que outra? balbuciou Yayá segurando-lhe um dos braços.

Procopio Dias abanou a cabeça solemnemnte, como a dizer que não podia ir mais longe. A esse gesto seguiu-se um silencio largo, durante o qual a moça pode vencer a primeira commoção e reflectir sobre o que lhe convinha entender.

—Ama a outra? disse ella. Quem quer que seja essa rival, já agora o noivo é meu; e é natural que me ame mais do que a ella, visto que prefere casar commigo...

Não obstante a firmeza que procurava dar á palavra, a palavra era difficil e a voz parecia morrer-lhe na garganta. Procopio Dias comprehendeu que a commoção estava apenas dominada, e que o veneno penetrara abaixo da epiderme. Era a primeira vez que lhe via esse aspecto dolorido; antes de embarcar, conhecia-a menina caprichosa; depois do regresso, achou-a senhora reflectida; naquella occasião, a dor, occulta embora, como que lhe dava um encanto mais. Effectivamente o rosto de Yayá trahia o estado do coração; os olhos não correspondiam ao esforço que ella fazia para os fixar.

—Se lhe parece, esqueça o meu conselho, disse elle, e não me leve a mal se lhe preguei um susto. Talvez o susto haja passado. Não importa; creia que ha casamentos impossiveis; casamentos destinados a... não sei a que... pode ser que a cousa nenhuma... ou a cousa muito grave, muito grave.

—Cale-se! rugiu surdamente a moça.

Procopio Dias continuou:

—Uma só palavra, disse elle. Hade attribuir ao despeito o aviso que lhe dei. É verdade; ha uma grande porção de despeito em mim. Porque lhe falaria eu, se não tivesse um motivo pessoal? Esse homem trahiu-me; eu tinha-lhe confiado o deposito do meu amor; elle abusou da confiança: fez-se amado em meu logar. Não me queixo da senhora. A senhora não me devia nada;—um pouco de sympathia, talvez;—no futuro, pode ser que me deva tambem um pouco de gratidão.

Procopio Dias saiu logo depois destas palavras. Estava satisfeito; desde que pode formular em um ou dous raciocinios o sentimento occulto que o fazia agir, achou nelle a legitimidade de tudo o que acabava de dizer. Era um duello; recebera um golpe na espadua, respondia com outro no coração, mais certeiro e provavelmente mortal; e se não era duello, era emboscada por emboscada; direito de represalia.

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