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Yayá Garcia

MACHADO DE ASSIS (continued 2)

Reading edition

—Isso.

—Tens razão até certo ponto. De todas as aves raras a mais rara é um bom marido; mas o que é raro não é impossivel. Metteu-se-me em cabeça que heide descobrir uma joia. Se eu a encontrar, que farás-tu?

—Acceito, disse a moça depois de um instante.

—Assim, não; não quero que a acceites sem vontade; has-de acceital-a com amor... porque eu não creio que não tenhas coração; é faceirice de moça bonita. Deixa ver,—continuou a viuva collocando-lhe a mão no peito;—tens, oh! tens um coração que parece querer despedaçar-te o peito. Estella, tu estás doente!

—Que ideia! exclamou a moça rindo. Se eu vendo saude! Não estou doente, estou commovida. Tratemos do noivo. Não me peça que o ame apaixonadamente, porque eu não nasci para isso. Minha natureza é fria. Mas um pouco de estima, certo interesse...

—Justo: a semente do amor. O tempo se encarregará de fazer a arvore.

Durante tres mezes não falaram do assumpto. No fim desse tempo,—tendo Valeria descido de Santa Thereza, Estella foi passar algumas semanas na rua dos Invalidos.—Ainda nada? perguntou a viuva logo que a viu.—Cousa nenhuma, foi a resposta. Dada a situação de uma e outra, não era facil a Valeria encontrar-lhe o noivo desejado a menos de o designar a propria noiva, e essa era a mais improvavel de todas as hypotheses.

Entretanto, a convivencia fez renascer entre ambas alguns dos habitos antigos. Valeria tornou a sentir a necessidade de a ter comsigo, de a conversar, de depositar nella suas ideias e enxaquecas. Estella offerecia todas as vantagens de uma velha amiga, com a circumstancia de ser moça, e ainda mais, a de ser bonita, qualidade sympathica á viuva, que fora uma das bellas mulheres de seu tempo. Nada lhes impedia restaurar inteiramente a situação anterior, a não ser a memoria do passado recente. Era isso que ainda estabelecia entre ambas tal ou qual cautella, tal ou qual separação, que o Sr. Antunes chegava a suspeitar ás vezes, sem poder comprehender nunca. Não falavam de Jorge, nem da guerra, nem de cousa que podesse reviver a lembrança do passado.

Começado o verão de 1867, Valeria transportou-se a Santa Thereza, onde Estella foi algumas vezes. N'uma dessas vezes encontrou alli a filha de Luiz Garcia, que caminhava para os treze annos, e concluia os estudos de collegio. Houve um instante de hesitação entre as duas; Yayá, que era ainda a mesma creatura travessa e lepida, sentiu-se acanhada deante da gravidade de Estella, mas esse instante foi curto e a affeição immediata. Acabado o verão, a viuva resolveu não descer á rua dos Invalidos; e, com o pretexto ou o motivo de que em Santa Thereza ficava mais só, alcançou que Estella fosse lá estar algum tempo. Estella subiu em Março.

Já então Yayá entrara na intimidade da casa, menos ainda pelo que podia haver, e—havia,—sympathico e attrahente em sua pessoa, do que pelo esforço proprio. A sagacidade da menina era a sua qualidade mestra: assim viu depressa o que era menos agradavel, para evital-o, e o que o era mais, para cumpril-o. Essa qualidade ensinava-lhe a syntaxe da vida, quando outras ainda não passam do abecedario, onde morrem muita vez. Obtida a chave do caracter de Valeria, Yayá abriu a porta sem grande esforço.

Ia lá quasi todos os domingos, ás tardes, e algumas vezes de manhã, com tal ou qual repugnancia do pae, para quem os domingos eram os dias de ouro, e só o eram com a condição de exclusivismo. Luiz Garcia cedeu, não por causa da viuva, mas para satisfazer a filha, que parecia ter prazer em frequentar a casa.—É ainda creança pensou elle; convem dar-lhe festas. Quando Yayá jantava em casa de Valeria, Luiz Garcia, ou tambem jantava, ou ia buscal-a á noite, e trazia-a depois de uma hora de conversa. A presença de Estella tornou ainda mais apraziveis á mocinha aquellas visitas, e dentro de pouco tempo, era a affeição de Estella que mais lhe occupava o coração.

A lei dos contrastes tinha ligado essas duas creaturas, porque tão petulante e juvenil era a filha de Luiz Garcia, como reflectida e placida a filha do Sr. Antunes. Uma ia para o futuro, em quanto a outra vinha já do Passado; e se Estella tinha necessidade de temperar a sua atmosphera moral com um raio da adolescência da outra, Yayá sentia instinctivamente que havia em Estella alguma cousa que sarar ou consolar.

Um dia, Yayá foi encontrar Estella ao pé de uma mesa, com um album de retratos aberto deante de si. A moça estava tão embebida, que só deu pela presença de Yayá, quando esta parou do outro lado da mesa, e inclinou os olhos para o album. Estella teve um pequeno sobresalto, mas dominou-se logo.

—Seu pae tem uma physionomia de bom coração, disse ella.

—Não é verdade? retorquiu a menina com enthusiasmo.

Effectivamente, uma das paginas do album continha o retrato de Luiz Garcia; mas na outra pagina estava o retrato de Jorge, um dos tres ou quatro que a viuva possuia na collecção. Yayá, que adorava o pae, achou que a observação de Estella era a mais natural do mundo, e não olhou sequer para a outra photographia. Estella fechou depressa o album com a mão tremula, e mal pode sorrir á insistencia com que Yayá voltou áquelle assumpto. Tinha o seio offegante e o olhar vago, remoto, esvaido nas campanhas do sul. O coração batia-lhe violentamente. Mas essa commoção não durou mais de tres a quatro minutos.

—A senhora podia casar-se com papae, disse a menina depois de olhar algum tempo para a outra.

Estella teve novo sobresalto, mas dessa vez era só espanto. Como Yayá a abraçasse pela cintura, ella inclinou o rosto sobre o rosto da menina, e perguntou sorrindo:

—Tinhas muita vontade de ser minha enteada?

—Tinha.

Estella abanou a cabeça, com um gesto, não de negativa, mas de incredulidade. Já conhecia alguma cousa do caracter de Luiz Garcia; rigorosamente era um esposo acceitavel. Via nelle um homem de affeições placidas, mediocres, mas sinceras. Via-o respeitoso sem abatimento, polido sem affectação, falando pouco, mas com alguma ideia, em todo o caso com muita opportunidade, vivendo emfim para si e para a filha. De tudo o que observara concluia que a sobriedade era a lei moral desse homem, e que á taça da vida não pedia mais do que alguns goles, poucos. Que importa? A vida conjugal é tão sómente uma chronica; basta-lhe fidelidade e algum estylo. Com quanto houvesse algumas semelhanças entre ambos, havia tambem differenças, mas Estella podia fiar do tempo, que ajusta os contrastes. E, não obstante, se o marido era acceitavel, não lhe parecia que fosse possivel. A gravidade exterior como que o rodeava de uma atmosphera impenetravel.

Yayá não insistiu; mas dous ou tres domingos depois, estando todos na chacara, interrompeu a conversa geral para perguntar a Estella se deveras lhe tinha affeição.

—Ja disse que sim, acudiu Estella.

—Mas gosta muito de mim?

—Muito, repetiu Estella prolongando a primeira syllaba.

—Porque não vem morar commigo?

Riram-se os outros; Estella beijou-a na testa. Ficando sós, a viuva e Estella jogaram uma partida de cartas, mas jogaram sem attenção; depois tomaram chá, mas sem appetite; finalmente dormiram, mas sem somno. Talvez a mesma ideia as preoccupava. No dia seguinte, Estella perguntou sorrindo á viuva:

—Se eu lhe disser que já achei um projecto de marido?

—Quem?

—O Luiz Garcia.

Valeria apertou-lhe as mãos.

—Excellente homem, disse ella; marido digno e capaz. Conheço-o ha muitos annos; nunca desmereceu da nossa estima. E... amam-se?

—Isso agora é mais complicado, replicou Estella; não posso dizer que o amo; com tudo, desejaria ser sua mulher. Talvez elle não deseje ser meu marido, mas é por isso mesmo que a consulto e lhe peço que me diga, uma vez que approva a escolha, se posso esperar reciprocidade e se devo...

—Não deves fazer nada; imcumbo-me de tudo.

Valeria não occultou o contentamento. Não lhe tinha occorido nunca a ideia de os casar; Yayá fel-a nascer, Estella abriu-a em flôr; só faltava o fructo, e era justamente a parte difficil, porque a indole de Luiz Garcia affigurava-se-lhe inteiramente avessa ao desejo de contrahir segundas nupcias. Mas Valeria não desanimou. Não se pode dizer que elle seja o ideial de todas as noivas, pensava ella; não tem a expansão nem o verdor da primeira edade; mas deve ser um excellente marido. Luiz Garcia tinha agora melhor posição. Obtivera uma promoção de emprego, e mediante isso, e alguns trabalhos extraordinarios que lhe eram confiados, pode ficar inteiramente acoberto das intempéries da vida. Estabelecera o futuro da filha e restaurara as alfaias da casa, não por si, mas com a intenção de ser mais agradavel a Yayá.

Estella, entretanto, impunha uma condição.

—Não desejo parecer que me offereço, disse ella; seria desairoso para um e para outro, e não seria a realidade.

—Que te offereces, não; mas quem me pode impedir de ter adivinhado que o amas? disse a viuva maliciosamente.

—Ou que o aprecio, emendou Estella. Para um bom casamento não é preciso mais.

Luiz Garcia não ficou pouco admirado quando Valeria dahi a dias lhe perguntou se não tinha vontade de passar a segundas nupcias. Sorriu e ergueu os hombros; mas, insistindo a viuva, respondeu que a ideia de casar era já serodea para elle.

—Não diga isso, tornou Valeria. Yayá está quasi moça, vai deixar o collegio. O senhor vive só, e tendo de dar companhia a sua filha, é melhor que lhe dê uma madrasta.

Luiz Garcia abanou resolutamente a cabeça.

—Não tenho vocação para o casamento, disse elle depois de uma pausa; minha verdadeira vocação é o celibato.

—Foi por isso que enviuvou?

—Casei-me uma vez, é verdade, mas não foi por amor; além de que, era rapaz.

—Quando teimo em alguma cousa, é difficil que não vença, disse a viuva depois de alguns instantes. Ha duas pessoas de quem gosto muito, ella e o senhor, ambas dignas uma da outra; e eu entendi que as devia casar, e hei-de casal-as. Por que está a sorrir com esse ar incredulo?

Como Luiz Garcia não respondesse e continuasse a sorrir, Valeria ergueu-se e foi até a varanda, donde se olhava para a chacara; depois voltou-se para dentro:

—Ande ver sua noiva, disse ella.

Luiz Garcia foi até á varanda; a viuva apontou-lhe para o grupo de Estella e Yayá.

Na chacara havia um canteiro circular, plantado de gramma, no centro do qual jorrava a agua de um repucho. A bacia deste era orlada de plantas, cujas folhas largas, rajadas umas de escarlate, outras de branco, interrompiam a monotonia da relva. Dessas folhas colhera Estella algumas, entretecera os talos formando uma capella, a pedido de Yayá. Quando Luiz Garcia chegou á janella, a moça concluia o difficil trabalho. Uma vez prompto, Yayá que olhava para ella, infantilmente anciosa, inclinou a cabeça, e Estella cingiu-a com a grinalda rustica; depois recuou alguns passos, approximou-se outra vez, concertou-a melhor. As folhas caiam-lhe sobre os hombros irregularmente, ou erguiam-se sobre a cabeça, e o todo daria ideia de uma nayade casquilha. Estella mirou-a alguns instantes; inclinou-se para ella e beijou-a repetidas vezes. Yayá quiz pagar-lhe o trabalho e a caricia devolvendo-lhe a grinalda, e collocando-lh'a ella mesma na cabeça. Estella recusou, mas como a menina insistisse, batendo impacientemente o pé, cedeu ao desejo infantil. Inclinou-se; Yayá, que trepara a um banco, cingiu-lhe a cabeça, como a outra lhe fizera, e, satisfeito o seu capricho, saltou do banco ao chão.

Nesse momento, como Valeria falava a Luiz Garcia, não viram estes dous que a menina, saltando precipitadamente e mal, caíra na areia; só deram pelo desastre ouvindo um pequeno grito angustioso de Estella. A moça correra á menina para a fazer levantar.

A quéda fora pequena; Yayá procurava sorrir, mas um seixo que havia no chão, e sobre o qual caíra o rosto, fizera-lhe uma leve escoriação na face.

—Não foi nada, dizia ella

—Nada! Você feriu-se... Ora, isto! Papae que ha de dizer... Anda cá.

Estella levou a menina pela mão até o repucho; molhou o lenço na agua; lavou-lhe o sangue da face, inclinada sobre ella, que sorria voluntariamente. Nesse momento, Luiz Garcia, que havia descido logo, chegou ao grupo das duas.

—Não foi nada, papae, disse Yayá lendo no rosto do pae o motivo que o trouxera; fui pular do banco e caí. Foi bem feito; é para eu não ser travessa.

Luiz Garcia estendera a mão direita sobre a cabeça da filha e examinava-lhe a escoriação, que era pouco mais de nada. Tranquillisou-se e reprehendeu-a levemente, Estella, que interrompera a operação, concluiu-a dizendo que o caso era de pouca monta, mas podia ter sido mais grave. Luiz Garcia agradeceu-lhe o cuidado e o obsequio.

—Demais, a culpada fui eu, disse Estella, e sem desculpa, porque não sou creança. Vamos? continuou ella pegando na mão da menina.

—Então? perguntou a viuva a Luiz Garcia logo que este voltou a ter com ella.

—Não falemos nisso, ou faça-me um milagre, disse elle seccamente.

Não obstante a commoção que lhe ficou do procedimento affectuoso de Estella, em relação a Yayá, Luiz Garcia riu no dia seguinte, ao lembrar-lhe a proposta de casamento. Quando lá voltou, não ouviu falar mais em semelhante assumpto, nem Estella lhe deu a entender a menor pretenção. Pareceu-lhe que Valeria consultara apenas o seu desejo particular.

Tratando a moça de perto, Luiz Garcia havia já observado duas cousas: primeiro, o resguardo com que ella procedia, sem ostentar a intimidade de Valeria, nem cair nos ademanes daservilidade; depois um ar de tristeza, que era a sua feição habitual. Concluiu que Estella devia padecer ou ter padecido alguma vez. Apreciou, além disso, algumas de suas qualidades moraes. Suppôl-as verdadeiras, mas suppôl-as tambem caducas, como as graças do rosto ou como a flor do campo; com a differença, dizia elle,—que ha um prazo fatal para que as graças percam o primitivo frescor, e a flôr expire o seu ultimo cheiro,—ao passo que a natureza social tem a decrepitude precoce, e um principio de corrupção, que destroe em breve termo todas as florescencias do primeiro sol.

Estella não desistira da ideia e cogitava um meio de chegar á execução, não obstante a confiança da viuva, que lhe dizia:—Descança; a rede está lançada. Era justamente essa ideia de rede, que repugnava ao espirito directo e simples de Estella. Entretanto, cada dia que passava vinha confirmar a eleição da moça.

O resto foi obra de Yayá, obra dividida em duas partes, uma voluntaria, outra inconsciente. Voluntaria, porque tambem a menina, no silencio laborioso de seu cerebro, construira o projecto de os unir, e o dissera mais de uma vez a um e a outro. Inconsciente, porque o amor que a ligava a Estella, foi a mais poderosa força que modificou o pae. Era uma affeição intensa a dessas duas creaturas; ao passo que Yayá dava a Estella uma porção de ternura de filha, Estella achava no amor da menina uma antecipação dos prazeres da maternidade. Luiz Garcia testemunhou esse movimento reciproco e, por assim dizer, fatal. Se Yayá devesse ter madrasta, onde a acharia mais completa? Discreta, moderada, superior a seus annos, Estella tinha as condições necessarias para esse delicado papel. A primeira insinuação da viuva foi a causa primordial; mas o tempo, a convivencia, a affeição das duas, a necessidade de dar segunda mãe á menina, e antes legitima que mercenaria, finalmente, a certeza de que a Estella não repugnava a solução, taes foram os primeiros elementos da decisão de Luiz Garcia.

Faltava só o milagre, e o milagre veiu. Yayá adoeceu um dia em casa de Valeria, e a doença, posto que não grave nem longa, deu occasião a que Estella manifestasse de modo inequivoco toda a ternura de seu coração. Luiz Garcia foi testemunha da dedicação silenciosa e continua com que Estella tratou da doente. Esse ultimo espectaculo desarmou-o de todo. Entre elles, o casamento não era a mesma cousa que costuma ser para outros; nada tinha das alegrias ineffaveis ou das illusões juvenis. Era um acto simples e grave. E foi o que Estella lhe disse a elle, no dia em que trocaram reciprocamente as primeiras promessas.

—Creio que nenhuma paixão nos cega, e se nos casamos é por nos julgarmos friamente dignos um do outro.

—Uma paixão de sua parte, em relação á minha pessoa, seria inverosimil, confessou Luiz Garcia; não lh'a attribuo. Pelo que me toca, era egualmente inverosimil um sentimento dessa natureza, não porque a senhora o não podesse inspirar, mas porque eu já o não poderia ter.

—Tanto melhor, concluiu Estella; estamos na mesma situação e vamos começar uma viagem com os olhos abertos e o coração tranquillo. Parece que em geral os casamentos começam pelo amor e acabam pela estima; nós começamos pela estima; é muito mais seguro.

O casamento foi approvado pelo Sr. Antunes, com a mesma alma com que um reu sanccionaria a propria execução. Não sómente se lhe iam embora esperanças muito menos modestas, como lhe repugnava o caracter do genro. Não cedeu sem hesitação e luta; hesitação perante a viuva, luta em relação á filha; mas cedeu, porque elle nascera para não resistir. Habil, no emtamto, em espremer algum lucro dos males inevitaveis, uma vez perdida a confiança na efficacia da recusa, acceitou o accordo, não sómente com apparencia cordial, mas ainda enthusiasta.

—O dote faz-lhe foscas, gemia elle philosophicamente.

A viuva serviu de madrinha a Estella. Sua alegria era sincera, e tanto ou quanto desinteressada. Quasi se não lembrava já do perigo que, dous annos antes, lhe atordoara o espirito. As cartas de Jorge eram tão livres de qualquer oppressão, tão exclusivamente militares! Além disso, a consciencia ficava satisfeita de um desenlace que de certo modo, compensava a perda, se alguma perda havia causado a Estella. Finalmente, a satisfação com que a viu acceitar casamento, aliás suggerido por ella propria, e a felicidade de que foi testemunha durante os primeiros tempos, deram-lhe a convicção de que a moça estava já inteiramente isenta, em relação ao filho. Não obstante a paixão deste, tinha fé que o tempo fizera a sua obra.

VII

Tres mezes depois da chegada ao Rio de Janeiro, tinha Jorge liquidado todos os negocios de familia. Os haveres herdados podiam dispensal-o de advogar ou de seguir qualquer outra profissão, uma vez que não fosse ambicioso e regesse com criterio o uso de suas rendas. Tinha as qualidades precisas para isso, umas naturaes, outras obtidas com o tempo. Os quatro annos de guerra, de mãos dadas com os successos immediatamente anteriores, fizeram-lhe perder certas preoccupações que eram em 1866, as unicas de seu espirito. A vida á redea solta, o desperdicio elegante, todas as seduções juvenis, eram inteiramente passadas.

O espectaculo da guerra, que não raro engendra o orgulho, produziu em Jorge uma acção contraria, porque elle viu, ao lado da justa gloria de seu paiz, o irremediavel conflicto das cousas humanas. Pela primeira vez meditou; admirou-se de achar em si uma fonte de ideias e sensações, que unica lhe deram os receios de outro tempo. Comtudo, não se pode dizer que viera philosopho. Era um homem, apenas, cuja consciencia recta e candida sobrevivera ás preoccupações da primeira quadra, cujo espirito, temperado pela vida intensa de uma longa campanha, começa de penetrar um pouco abaixo da superficie das cousas.

Querendo adoptar um plano de vida nova, renegou a principio todos os habitos anteriores, disposto a dar á sociedade tão sómente a stricta polidez. Teve primeiro ideia de ir estabelecer-se em algum recanto silencioso e escuso no interior; mas desistiu logo, cedendo á necessidade de ficar mais á mão de uma viagem transatlantica, ideia a que aliás nunca deu principio de execução.

O primeiros tres mezes passaram depressa; foram empregados em liquidar o inventario. Poucos legados deixara a viuva. Um delles interessa-nos, porque recaiu em favor de Yayá Garcia. A viuva beneficiava assim, indirectamente, o marido de Estella. Jorge approvou cordialmente o acto de sua mãe. Não approvou menos o dote de Estella, mas o sentimento do vexame que experimentou, logo que delle teve noticia, honrava a delicadeza de seu coração.

Luiz Garcia dera-se pressa em visitar o filho de Valeria. A entrevista desses dous homens, que o curso dos successos collocara em tão delicada situação, foi cordial, mas não expansiva. Jorge não achou Luiz Garcia mais velho; era o mesmo. Não o achou tambem menos reservado que antes. A conversa, em começo não foi além dos factos geraes; falaram da guerra e das victorias. Jorge referiu alguns episodios, que o outro ouviu com interesse; e, como parecesse olvidar seus proprios feitos:

—Vejo que é modesto, observou Luiz Garcia; felizmente lemos as folhas e as partes officiaes.

—Fiz o que pude, respondeu Jorge; era preciso vencer ou ser vencido. Que é feito de tanta gente que ainda não vi? continuou elle para desviar o assumpto.

—Cada qual segue o seu destino. Meu sogro creio que já o visitou...

—Já.

—A proposito, deixe-me agradecer os beneficios que devo a sua mãe...

Jorge quiz interrompel-o com o gesto.

—Perdão; e meu dever, continuou Luiz Garcia gravemente. A Sra. D. Valeria quiz mostrar ainda á ultima hora a sympathia que sempre lhe mereci. Duas vezes o fez, além de outras. Primeiramente, resolveu-me a casar outra vez, cousa que estava longe de meus calculos. Foi ella a primeira autora dessa transformação de minha vida, e em boa hora o foi, porque não me podia fazer maior obsequio. Requintou o obsequio, occultando até a ultima hora a prova de ternura que desde alguns mezes antes dera a minha mulher; tinha-a dotado, como deve saber...

Jorge fez um gesto affirmativo.

—Achou que não era bastante e deixou, a minha filha um legado, que será o seu dote... Gostava muito della. Não podendo agradecel-o á bemfeitora, permitta que o agradeço ao...

—Desta vez hade obedecer-me, interrompeu Jorge com brandura; falemos de outra cousa.

—Sim; falemos de minha mulher. Saiba que rematou dignamente a obra de sua mãe; e mais uma vez me fez comprehender o beneficio do casamento. Logo depois de casado, propoz-me acceitar, em favor de minha filha, a parte com que a Sra. D. Valeria lhe manifestara sua affeição. Gostei de a ouvir, por que era signal de desinteresse, mas recusei, e recusei sem efficacia. Cedi, emfim; e não podia ser de outro modo. Folgo de lhe dizer essas cousas porque são raras...

Jorge fechou o rosto ao ouvir essas palavras de Luiz Garcia. Adivinhara a causa do desinteresse de Estella.—Eterno orgulho! pensou elle. Depois reflectiu no caso e perguntou a si mesmo se a moça teria confiado ao marido alguma cousa do que se passara entre elles. Era difficil percebel-o, mas não era acertado suppôl-o. Nenhuma mulher o faria nunca, Estella menos que nenhuma outra. Interrogou o rosto de Luiz Garcia; achou-a placido e immovel. Após alguns segundos de silencio, estendeu-lhe a mão.

—Permitte-me então que o felicite? disse elle.

—De coração, acudiu Luiz Garcia. E depois de erguer-se:—Se eu tivesse o sestro de dar conselhos, dir-lhe-hia que se casasse.

—Póde ser.

—Não lhe pergunto pela outra paixão; creio que a esqueceu de todo.

—De todo.

Luiz Garcia apertou-lhe cordialmente a mão e saiu, depois de lhe offerecer a casa. Jorge ficou alguns instantes pensativo. A noticia do dote de Estella causara-lhe certo vexame; a noticia da doação feita pela moça em favor da enteada, produzia-lhe agora um sentimento mesclado de admiração e despeito. Ella sentia arder no mais fundo do coração da moça um residuo de odio, e em seu proprio coração não podia deixar de approvar o acto.

Sendo forçosa pagar a visita a Luiz Garcia, Jorge demorou o cumprimento desse dever emquanto lhe foi possivel fazel-o sem reparo. Um dia, emfim, sabendo por intermedio do Sr. Antunes que a familia não estava em casa, foi a Santa Thereza e deixou lá um bilhete de visita.

A vida de Jorge foi então dividida entre o estudo e a sociedade, á qual cabia sómente uma parte minima. Estudava muito e projectava ainda mais. Delineou varias obras durante algumas semanas. A primeira foi uma historia da guerra, que deixou por mão, desde que encarou de frente o monte de documentos que teria de compulsar, e as numerosas datas que seria obrigado a colligir. Veiu depois um opusculo sobre questões juridicas e logo duas biographias de generaes. Tão depressa escrevia o titulo da obra como a punha de lado. O espirito soffrego colhia só as primicias da ideia, que aliás entrevia apenas. Uma vez, uma só vez, lembrou-se de escrever um romance, que era nada menos que o seu proprio; ao cabo de algumas paginas, reconheceu que a execução não correspondia ao pensamento, e que não saía das effusões lyricas e das proporções da anedocta.

Quando mais disposto se achava a compor essa autobiographia, occorreu vagar a casa da Tijuca, a mesma aonde fora uma vez com sua mãe e Estella, ponto de partida dos successos que lhe transformaram a existencia. Quiz vel-a novamente; talvez alli achasse uma fonte de inspiração. Foi; achou-a quasi no mesmo estado. Entrou curioso e tranquillo. Pouco a pouco sentiu que o passado começava a reviver; a resurreição foi completa, quando penetrou na varanda, em que da primeira vez achara o casal de pombos, solitario e esquecido. Já lá não estavam as pobres aves! Tinham voado ou morrido, como as esperanças delle, e tão discretamente que a ninguem revelaram o desastrado episodio. Mas as paredes eram as mesmas; eram os mesmos o parapeito e o ladrilho do chão. Jorge encostou-se ao parapeito, onde estivera Estella, com os pombos ao collo, diante delle, naquella fatal manhã. O que sentia nesse outro tempo, posto frisasse o amor, tinha ainda um pouco de estouvamento juvenil. Comtudo, a vista das paredes nuas e frias da varanda abria-lhe na alma a fonte das sensações austeras, e elle tornou a ver os olhos férvidos e o rosto pallido da moça; pareceu até escutar-lhe o som da voz. Viu tambem a sua propria violencia; e, como em meio de tantas vicissitudes, trazia ainda a consciencia integra, a recordação fel-o estremecer e abater. Jorge fincou os braços no parapeito e fechou a cabeça nas mãos.

—Olá, senhor dorminhoco! São horas de almoçar.

Jorge ergueu vivamente a cabeça e olhou para a chacara, donde lhe pareceu que saíra a voz. Na chacara, a vinte passos de distancia, estava um homem, que sorria para elle, com as mãos nas costas, seguras a uma grossa bengala. Jorge sentiu um calefrio, como se lhe descobrissem o segredo do passado. Só depois de desfeita a primeira sensação, respondeu sorrindo:

—Não durmo; estou pensando nos alugueis.

—Muda-se para aqui?

—Não.

—A casa é sua?

—É. Suba cá.

O homem galgou os seis degraos da escada de tijolo e entrou na varanda, onde Jorge assumira exclusivamente o papel de proprietario, olhando attentamente para as paredes do edificio.

—Que faz por aqui, Sr. Procopio Dias, ás dez horas da manhã? disse Jorge logo que o outro appareceu.

—Passei a noite na Tijuca; soube que esta casa vagara, vim vel-a; não sabia que era sua. Está um pouco estragada.

—Muito.

—Muito?

—Parece.

Procopio Dias abanou a cabeça com um gesto de lastima.

Não é assim que deve responder um proprietario, disse elle. Meu interesse é achal-a arruinada; o seu é dizer que apenas precisa de algum concerto. A realidade é que a casa está entre a minha e a sua opinião. Olhe, se está disposto a concordar sempre com os inquilinos, é melhor vender as casas todas que possue.—Ou fica perdido... Com que então esta casa é sua? A apparencia não é feia; ha alguma cousa que pode ser concertada e ficará então excellente. Não é casa moderna; mas é solida. Eu já a vi quasi toda; desci á chacara, e estava a examinal-a, quando o senhor appareceu na varanda.

—Quer ficar com ella?

—Ingenuo! respondeu Procopio Dias batendo-lhe alegremente no hombro. Se eu confesso que ella não está muito estragada é porque não a quero para mim. É grande de mais; e depois, fica muito longe da cidade. Se fosse mais para baixo...

—Mas no caso de que haja por ahi algum namoro? ponderou Jorge sorrindo.

—Falemos de outra cousa, acudiu o outro faiscando-lhe os olhos.

Os olhos de Procopio Dias eram cor de chumbo, com uma expressão reflectida e sonsa. Tinha cincoenta annos esse homem, uns cincoenta annos ainda verdes e prosperos. Era mediano de carnes e de estatura, e não horrivelmente feio; a porção de fealdade que lhe coubera, elle a disfarçava, quanto podia, por meio de qualidades que adquirira com o tempo e o trato social. Fazia ás vezes um movimento que lhe descrevia na testa cinco rugas horizontaes. Era uma das suas maneiras de rir. Além dessa particularidade, havia o feitio do nariz, que representava um triangulo de lados eguaes, ou quasi: nariz a um tempo sarcastico e inquisidor. Não obstante a expressão dos olhos, Procopio Dias tinha a particularidade de parecer simplorio, sempre que lhe convinha; nessas occasiões é que ria com a testa. Não usava barba; elle proprio a fazia com o maior esmero. Via-se que era homem abastado. As roupas, graves no corte e nas cores, eram da melhor fazenda e do mais perfeito acabado. Naquella manhã trazia uma longa sobrecasaca abotoada até metade do peito, deixando ver meio palmo de camisa, infinitamente bordada. Entre o ultimo botão da sobrecasaca e o unico do collarinho, fulgia um brilhante vasto, ostensivo, escandaloso. Um dos dedos da mão esquerda ornava-se com uma soberba granada. A bengala tinha o castão de ouro lavrado, com as iniciaes delle por cima,—de forma gothica.

Jorge conheceu Procopio Dias no Paraguay, onde este fora negociar e triplicar os capitaes, o que lhe permittiu collocar-se acima das viravoltas da fortuna. Travaram relações, não intimas, mas frequentes e agradaveis, e até certo ponto uteis a Procopio Dias, que obteve de Jorge mais de uma recommendação. Não obstante a frequencia das relações, estavam longe da amizade estreita; e isso, não por esforço de Procopio Dias, cujas maneiras faceis assediaram por muito tempo a inexperiencia de Jorge. O motivo de Procopio Dias cessou com a guerra, desde que com a guerra cessara tambem o interesse mercantil. Jorge não tinha motivo contra elle; quando o conhecera estava no periodo melancholico.

—Ainda não respondeu á minha suspeita, disse Jorge dando o braço a Procopio Dias.

—O namoro?

—Sim.

—Nem sombras disso, meu caro! Ou antes.... creio que vou entrar para um convento: é a minha ultima ambição.

Procopio Dias tinha dous credos. Era um delles o lucro. Mediante alguns annos de trabalho assiduo e finuras encobertas, viu engrossarem-lhe os cabedaes. Em 1864, por um instincto verdadeiramente miraculoso, farejou a crise e o descalabro dos bancos, e retirou a tempo os fundos que tinha em um delles. Sobrevindo a guerra, atirou-se a toda a sorte de meios que pudessem tresdobrar-lhe as rendas, cousa que effectivamente alcançou no fim de 1869.

A não ser o segundo credo, é provavel que Procopio Dias só liquidasse com a morte. Tendo chegado a uma posição solida, aos cincoenta annos, achou-se deante de outra riqueza, não inferior áquella, que era o tempo. Ora o segundo credo era o gozo. Para elle, a vida physica era todo o destino da especie humana. Nunca fora sordido; desde as primeiras phases da vida, reservou para si a porção de gozo compativel com os meios da occasião. Sua philosophia tinha dous paes: Lucullo e Salomão,—não o Lucullo general, nem o Salomão piedoso, mas só a parte sensual desses dous homens, porque o eterno feminino não o dominava menos que o eterno estomago. Entre os collegas de negocio foi sempre tido como um feliz vencedor de corações francos. E, ao envez de outros, não punha nisso a menor vaidade ou gloriola; preferia a cautella e a obscuridade, não em attenção ao pudor publico, mas porque era mais commodo. Nenhuma diva mundana teria jamais a audacia de cortejal-o na rua ou sorrir-lhe simplesmente; perdia o tempo e o sacerdote. Gozava para si, que é a perfeição sensual.

Não conhecia Jorge nem a vida nem o caracter do outro. Procopio Dias tinha o peor merito que pode caber a um homem sem moral: era insinuante, affavel, conversado; tinha certa viveza e graça. Era bom parceiro de rapazes e senhoras. Para os primeiros, quando elles o pediam, tinha a anedocta crespa e o estylo vil; se lhes repugnava isso, usava de atavios differentes. Com senhoras era o mais paciente dos homens, o mais serviçal, o mais boliçoso,—uma joia.

—Ninguem o vê, dizia elle d'ahi a duas horas, á mesa do almoço de Jorge, na casa da rua dos Invalidos. Não conheço os seus amigos de outro tempo, mas devo crer que todos lhe censuram essa vida de bicho do matto.—Nos theatros.... nunca vae aos theatros?

—Quasi nunca.

—Vamos hoje?

—Corruptor? disse Jorge sorrindo.

De noite foram ao theatro. Procopio Dias estava de veia; a palestra, a scena, o proprio tempo, tudo conspirou para dissipar as sombras de melancholia que a manhã accumulara na fronte de Jorge.—Não se deixe apodrecer na obscuridade, que é a mais fria das sepulturas, dizia Procopio Dias, á mesa de um hotel, onde fora ceiar. Jorge não comeu nada. Mau grado o prazer que achava em estar com elle, não quiz acceitar-lhe o obsequio da ceia, apezar de lhe ter feito o do almoço. Procopio Dias percebeu isso mesmo, mas não se molestou; abaixou a cabeça, deixou passar essa onda de desconfiança, e surgiu fóra, a rir. Sairam dalli uma hora depois. A evocação da Tijuca tinha-se esvaido.

Jorge deixou-se persuadir dos conselhos do outro. Abriu mão do ultimo livro planeado, contentando-se com tel-o vivido. Demais o tempo ia minando a antiga sensação, e a vida social tornava a prendel-o em suas malhas.

Entre as pessoas que tornou a ver, figurava a mesma Eulalia, com quem a mãe quizera casal-o, alguns annos antes. Eulalia não ficara solteira; estava na lua de mel, uma lua de mel que durava mais de um anno. O casamento fora a vara mosaica, mediante a qual se lhe abrira no coração uma fontesinha de ternura. Encontraram-se n'um baile. Nenhum delles sentiu acanhamento; como nunca chegaram a tratar dos projectos de Valeria, poderam falar com a mesma isenção de 1866. A differença é que Eulalia, que era feliz, exagerava a felicidade para melhor mostral-a a Jorge e convencel-o de que antes ganhara do que perdera com a recusa delle.

—Vá lá á rua de Olinda, disse a moça; quero mostrar-lhe meu filho.

Jorge foi. Eulalia mostrou-lhe o filho, creança que valia por duas, tão gorda e vigorosa era. Jorge chegou a pegar nelle, mas não sabia haver-se com as rendas, os babados, as fitas. Eulalia que possuia já toda a destreza materna, tomou-lh'o das mãos.—O senhor não entende disto, disse ella. E depois de concertar a touca da creança, beijou-a muitas vezes, riu-se para ella, fez-lhe um monologo, tudo com uma graça e poesia, que Jorge estava longe de lhe suppôr cinco annos antes. Elle contemplava essa joven mãe, elegante e natural, e sentia-se tomado de inveja e cobiça.

—A felicidade é isto mesmo, pensou elle.

Voltou lá algumas vezes, fez-se intimo da casa. Começou a receber tambem. Viu entre os frequentadores de sua casa o pae de Estella, que achou nelle a benevolencia do desembargador. O Sr. Antunes era conviva certo ao almoço dos domingos; dava-lhe noticias do genro e da filha. Elle pranteava ainda a chimera esvaida, e achava não sei que dolorido prazer em falar de Estella ao genro de suas ambições. Demais, era um como desforço do outro, a respeito de quem aventurou mais de uma queixa. Jorge, porém, ouvia-o sem lhe responder nada.

No meado do anno de 1871, fez Jorge uma excursão a Minas-Geraes, com o fim de ajoelhar-se á sepultura de sua mãe, cujos ossos transportaria opportunamente para um dos cemiterios do Rio de Janeiro. A excursão durou seis semanas. Jorge visitou alguns parentes, e regressou nos principios de Agosto.

Um incidente transtornou-lhe os planos.

VIII

Chegando ao Rio, Jorge teve noticia de que Luiz Garcia estava enfermo. Não contava com o incidente, que o poz em grande perplexidade. Não queria visital-o, e mal poderia deixar de o fazer. Luiz Garcia fora prezado de seus paes; elle proprio lhe tinha estima e consideração: motivos bastantes a aconselhar o desempenho de um dever de cortezia. Mas, por outro lado, ir a Santa Thereza era arriscar-se á suspeita de Estella. Jorge vacillou durante dous longos dias. Certo, elle sentiu algum alvoroço, com a ideia de a ver; ideia que, se buscou rejeitar ao espirito, lá ficou latente e dissimulada. Mas a razão que confessava a si proprio era a da conveniencia.

Venceu a hesitação e foi a Santa Thereza, na tarde do terceiro dia. A casa não era já a mesma; tinha dimensões um pouco maiores que a outra. Era nova, ladeada de verdura, com as telhas ainda da primeira cor. Havia duas entradas, uma para a sala, ficando a porta entre quatro janellas, outra para o jardim, e era uma porta de grade de ferro, aberta no centro de um pequeno muro, por cima do qual vinha debruçar-se a verdura de uma trepadeira. Ahi achou Raymundo, mais velho do que o deixara, mas não menos forte. Raymundo conheceu-o, apezar de queimado do sol. Abriu-lhe a porta; acompanhou-o alegremente ao fundo do jardim.

—Meu senhor vae ficar muito contente, dizia elle fazendo-o entrar.

—Está melhor?

—Está, sim senhor. Olhe, está alli.

Raymundo apontou para um grupo de pequenas arvores, atravez de cuja ramagem se descobriam vestidos de mulher. Jorge sentiu coar-lhe pelas veias uma onda de frio. Mas passou depressa; e deu o primeiro passo tão firme, como deante das legiões de Lopez.

—Quem é, Raymundo? cantou uma voz desconhecida, no meio das arvores.

Jorge viu apparecer uma moça, que representava ter dezoito annos e não contava mais de dezeseis; reconheceu a filha de Luiz Garcia. Ella não o reconheceu logo; os trabalhos da guerra tinham-n'o mudado. Demais, nas poucas vezes que o vira não lhe havia prestado muita attenção. Jorge foi conduzido até a cadeira onde se achava estirado Luiz Garcia, entre duas outras, uma com um trabalho de agulha em cima, outras com um livro aberto. Luiz Garcia recebeu-o com satisfação e cordialidade; Jorge explicou a demora da visita pelo facto de estar ausente. A explicação era uma cortezia nova; Luiz Garcia agradeceu-lh'a.

—Estive muito prostrado, disse elle; não sei mesmo se cheguei ás portas da morte. Agora estou quasi bom.

Jorge sentara-se a um lado do convalescente, emquanto Yayá, do outro lado, brincava com os cabellos do pae ou lhe apertava uma das mãos. Luiz Garcia contou as peripecias da doença e exaltou a dedicação da familia; Jorge falou pouco, já por evitar trahir a commoção que sentia ao penetrar naquella casa, já por não prolongar a visita e podel-a terminar no primeiro intervallo de silencio. No fim de quinze minutos levantou-se.

—Espere um pouco, disse o convalescente. Yayá, vae chamar tua madrasta.

Yayá levantou-se para obececer á ordem do pae; mas no momento em que ia pousar nos joelhos deste o livro que tinha no regaço, ouviu-se um passo na areia e logo depois esta subita palavra:

—Prompto!

Era Estella. O sobresalto de Jorge, por mais imperceptivel que fosse, não escapou a Yayá, e fel-a sorrir á socapa; attribuiu-o ao susto. Estella appareceu; mas, porque já sabia da presença de Jorge, pode encaral-o sem nenhuma apparente commoção. Houve certa hesitação entre um e outro, mas foi curta. A moça inclinou-se levemente e estendeu-lhe a mão. Jorge apertou-lh'a.

—Ainda não tinha tido a satisfação de a ver depois de minha volta do Paraguay, disse elle.

É verdade, respondeu a moça; vivemos muito retirados.

Estella chegou-se ao marido, affastando-se Jorge para deixal-a passar.—Prompto, repetiu ella. Trazia-lhe um copo de geléa. Em quanto Luiz Garcia tomava a refeição de convalescente, Estella ficou de pé, ao lado delle; depois sentou-se e dirigiu a palavra ao filho de Valeria. Naturalmente falou-lhe da campanha. Elle respondeu sem affectação, e com tranquillidade.

—Ja tive occasião de lhe dizer que foi um dos heroes, interveiu Luiz Garcia olhando para a mulher; mas o Dr. Jorge teima em escurecer os seus proprios serviços. Yayá não é a mesma cousa.

—Sim? perguntou Jorge.

É verdade; durante toda a campanha matou pelo menos metade do exercito paraguayo.

Yayá lançou ao pae um olhar de graciosa censura.

—Não precisa corar, disse Jorge; era uma maneira de ser patriota; mas creia que havia menos perigo em matar o inimigo cá de longe.

—O senhor matou algum! perguntou Yayá no fim de um instante.

—Provavelmente. Na guerra é preciso matar ou morrer. Não me importava morrer; mas ha occasiões em que o mais indifferente é um heroe. Eu fiz o que pude.

Como a tarde começasse a escurecer, Estella disse ao marido que era tempo de recolher-se a casa. Ergueu-se para lhe o dar o braço; Jorge porém apressou-se a substituil-a. Estella foi adeante, e quando Jorge entrou na sala com o convalescente, ella preparava a cadeira em que este devia sentar-se, uma larga e extensa cadeira de vime. Luiz Garcia esperou alguns instantes, em quanto a mulher collocava as almofadas, resvalando serenamente de um lado para outro.

Durante essa curta espera, Jorge olhava para a moça, e era a primeira vez que o fazia mais detidamente. Pouca era differença entre a Estella de 1867 e a de 1871. Tinha o mesmo rosto pallido e os mesmos olhos severos. As feições não haviam mudado; o busto conservava a graça antiga; estava só um pouco mais cheio, differença que não destoava da estatura, que era alta. Esta era a pessoa physica. Moralmente devia ser a mesma; mas que contraste na situação! Assim,—a mulher que o levara a servir por quatro annos uma campanha ardua e porfiosa, e cuja imagem não esquecera no centro do perigo, essa mulher estava alli, deante delle, ao pé de outro, feliz, serena, dedicada, como uma esposa biblica. A comparação doeu-lhe; mas o coração começava a repetir-lhe juvenilmente as mesmas horas que já havia batido. Para refreal-o, Jorge despediu-se dez minutos depois.

—Já! exclamou Luiz Garcia. Foi visita de medico. Agradeço-lhe, entretanto, a attenção. Esta casa é sua; sabe que todos nós o estimamos.

Jorge seguiu para casa, contente e arrependido da visita que acabava de fazer. Gastou as primeiras horas da noite a folhear dez ou doze tomos, lendo a troncos duas ou tres paginas de cada um, quando os olhos estavam mais attentos na pagina aberta, o espirito saía pé ante pé e deitava a correr pela infinita campanha dos sonhos vagos. Voltava de quando em quando; e os olhos que haviam chegado mecanicamente ao fim da pagina tornavam ao principio, a reatar o fio da attenção. Como se a culpa fosse do livro, trocava-o por outro, e ia da philosophia á historia, da critica á poesia, saltando de uma lingua a outra, e de um seculo a outro seculo, sem outra lei mais que o acaso.

O clarão da seguinte manhã dissipou uma parte dos cuidados da noite. O primeiro alvoroço tinha passado. Jorge disse a si mesmo que bastava ser homem, esquecer o incidente da vespera, e arredar para sempre a possibilidade de outros. Não repetiria a visita a Luiz Garcia; e provavelmente não os veria nunca mais. Na rua do Ouvidor encontrou Procopio Dias, que lhe disse á queima-roupa:

—Entrei meia hora depois do senhor sair.

—Onde?

—Em Santa Thereza. Se se demora meia hora mais, encontrava-o e poderiamos ter descido juntos. Conhece ha muito tempo o Luiz Garcia?

—Desde muito moço.

—Tambem eu; mas não o via ha dez annos. Está o mesmo homem; está melhor, porque casou com uma mulher bonita. Que gente é aquella?

—A mulher foi educada por minha mãe.

—Vê-se que sim. Oh! falámos muito do senhor.

—Sim? perguntou vivamente Jorge.

Procopio Dias olhou fixamente um instante; depois riu com a testa.

—Muito, repetiu elle; eu e o Luiz Garcia travamos um duello de louvores, e se não ha nisto vaidade creio que o venci; naturalmente por que sou mais expansivo do que elle. Na verdade, elle é secco, mas o pouco que disse, disse-o com sinceridade. Parece estimar-se muito aquella familia.

Procopio Dias tornou a falar-lhe de Santa Thereza, na noite do dia seguinte, em uma casa onde jantaram juntos. Falou-lhe primeiramente em particular, depois deante de outros. A dona da casa, que era uma Diana caçadora de boatos e novidades, farejou algum mysterio entre as rugas da testa de Procopio Dias, e dobrando as pontas do arco disparou subtilmente uma flecha que ninguem viu, mas foi enterrar-se no coração de Jorge. Este fez boa cara ao tiro, mas lá dentro sangrou um pouco de irritação e medo. Sentia no fundo da consciencia o calor de um sentimento honesto, e comtudo a opinião tendia a apoderar-se delle e a devassar-lhe as cinzas do passado; cinzas frias ou mornas, é o que elle não podia ainda discernir. Confiado em si mesmo, Jorge tremia deante da opinião,—a opinião do epigramma e da anedocta, que começava a sacudir o seu riso escarninho e cru.

Inquieto e aborrecido, saiu dalli pouco depois de jantar. O gracejo da dona da casa continuava a zumbir-lhe ao ouvido, ao mesmo tempo que a figura de Estella lhe surgia aos olhos, com o seu aspecto do costume. Já entrado na rua dos Invalidos, Jorge desandou o caminho e foi direito a um theatro, com o fim de aturdir-se e esquecer mais depressa. Eram nove horas e meia; assistiu a um resto de drama, que lhe pareceu jovial, e a uma comedia inteira, que lhe pareceu lugubre. Não obstante, arejou o espirito dos cuidados da noite, e caminhou para casa mais leve e desassombrado. Era uma hora quando chegou; o creado entregou-lhe uma carta.

—A pessoa que trouxe esta carta disse que era urgente.

Jorge reeebeu-a, sem conhecer a lettra do sobrescripto. Era lettra de mulher. Abriu-a sem pressa, mas não sem curiosidade. Não era longa; dizia simplesmente isto:—«Illm. Sr. doutor. Papae está muito mal; pede-lhe o favor de vir a nossa casa.—Lina Garcia.»

—A que horas veiu esta carta? perguntou elle ao creado.

—Ás sete.

Jorge fez um gesto de enfado e mandou buscar um tilbury. Dahi a uma hora parava á porta de Luiz Garcia. Era tudo silencio. Jorge deteve-se alguns instantes, incerto sobre o que convinha fazer. O perigo, se perigo houve, podia ter passado, e toda a familia estaria em repouso. Espreitou pela porta do jardim, e viu uma claridade frouxa, atravez de uma veneziana. Logo depois ouviu passos na areia. Era o Sr. Antunes que sentira parar o tilbury.

—Meu genro está mal, disse o pae de Estella; teve esta manhã uma recahida e perto das oito horas cuidamos perdel-o.

Jorge entrou.

Luiz Garcia estava prostrado; a febre ardia-lhe sinistramente nos olhos. De um lado e de outro do leito, viam-se a mulher e a filha, apparentemente quietas, mas gastando toda a força moral em suster a angustia que ameaçava fazer-se em lagrimas.

—Que tem? perguntou Jorge approximando-se do enfermo.

—Uma febrinha importuna, respondeu este.

A um signal, Estella e Yayá retiraram-se da alcova, onde só ficou Jorge.

Mandando chamar o moço, Luiz Garcia punha em execução um pensamento que lhe brotara no calor da febre. Ouviu do medico algumas palavras que lhe fizeram suppôr a probabilidade da morte; e, não tendo amigos nem parentes, e não querendo confiar a mulher e a filha ao sogro, lançou mão da pessoa que lhe pareceu ter a sisudez bastante e a influencia necessaria para as dirigir e proteger.

—Seu pae foi amigo de meu pae, disse elle; eu fui amigo de sua familia; devo-lhe obsequios apreciaveis. Se eu morrer, minha mulher e minha filha ficam amparadas da fortuna, por que o dote de uma servirá para ambas, que se estimam muito; mas ficam sem mim. É verdade que meu sogro, mas... mas, meu sogro tem outras occupações, está velho, pode faltar-lhes de repente. Quizera pedir-lhe que as protegesse e guiasse; que fosse um como tutor moral das duas. Não é que lhes falte juizo; mas duas senhoras sósinhas precisam de conselhos... e eu... desculpe-me se sou indiscreto. Promette?

Jorge prometteu tudo, com o fim de o tranquillisar, porque Luiz Garcia parecia excessivamente afflicto com a ideia daquella eterna separação. O pedido affigurou-se-lhe singular; attribuiu-o á exaltação febril do doente. Soube depois que a vida de Luiz Garcia dependia da primeira crise que fizesse a enfermidade, segundo havia declarado o medico.

Eram quasi quatro horas quando Jorge de lá saiu. Voltou ás nove e achou o medico. A crise era esperada na tarde desse dia, e só então se poderia dizer se a vida do enfermo estava perdida ou salva. Foi o que o medico lhe repetiu, á porta do jardim, aonde Jorge o foi acompanhar.

—Não obstante, concluiu o medico, elle tem outra doença que o deve matar dentro de alguns mezes, um anno ou anno e meio.

—Coração?

—Justamente.

Este noticia impressionou o moço.—Não será illusão da medicina? perguntou elle. O medico abanou a cabeça, e saiu. Jorge encaminhou-se para casa, mas teria dado apenas tres passos, quando viu Estella que vinha ao seu encontro. A moça parou deante delle.

—Que lhe disse o medico? perguntou.

—Tem esperanças; logo de tarde poderá affiançar mais alguma cousa.

—Só isso?

—Só.

—Não o desenganou?

—Não.

Estella reflectiu um instante.

—Dê-me sua palavra, disse ella.

Jorge estendeu-lhe a mão, sobre a qual Estella deixou cair a sua, não menos fria que pallida.

—Sou amigo de seu marido, disse Jorge depois de alguns instantes; creia que elle pode contar com toda a minha dedicação.

Estella pareceu accordar do momentaneo torpor; attentou no moço, retirou a mão e respondeu com um simples gesto de assentimento. A alma subjugada tornara á natural attitude. Jorge viu-a entrar em casa e ficou só alguns minutos, a recordar a revelação do medico, e a sentir que, ao pé da tristeza que o pungia, havia alguma cousa semelhante a um sentimento egoista e cruel.

Entre a esperança e receio gotejaram algumas horas longas, até que a crise veiu e passou, sem levar comsigo a vida ameaçada. Na manhã seguinte a alegria foi tamanha em redor do enfermo, que elle viu claramente o perigo e a salvação. Nem a filha nem a mulher pareciam alquebradas do trabalho e da vigilia; estavam frescas, risonhas, ageis, partindo entre si o pio da alegria, como haviam partido irmãmente o pão da angustia.

Durante a molestia e a convalescencia, Jorge visitou-os uma vez por dia; e força é dizer que, se por um instante houve em seu coração um impulso egoista, tal impulso não se lhe repetiu depois; serviu ao doente com desinteresse e lealdade. A familia deste mostrou-se-lhe agradecida. Luiz Garcia recordou ao moço o pedido que lhe fizera na noite em que o mandara chamar, e recordou-lh'o, não só para lhe agradecer a acquiescencia como para explical-o. Mas a explicação era difficil, porque elle cedera principalmente á aversão que lhe inspirava o sogro, em quem não tinha a minima confiança; não obstante as meias palavras de que usou, Jorge entendeu tudo.

A frequencia trouxe a necessidade. Levado pelas circumstancias, Jorge acostumou-se ás visitas, e amiudou-as. No mez de Septembro, a pretexto de calor, que ainda não fazia, transferiu a residencia para a casa que tinha em Santa Thereza, e que não ficava a longa distancia da de Luiz Garcia. Não havia que reparar no caso; sua mãe tinha o costume de passar alli tres a quatro mezes no anno. Demais nas ultimas semanas, elle começara a fazer-se menos visto e menos frequentado. Podia facilmente passar a outra vida mais reclusa.

Entretanto, como essa mudança antecipada para Santa Thereza podia não ter em si mesma toda a explicação razoavel, Jorge buscou enganar-se a si proprio reunindo os elementos e lançando ao papel as primeiras linhas de um trabalho, que jamais devia acabar, mas que, em todo caso legitimava a necessidade de repouso. Nos intervallos deste é que visitava a casa de Luiz Garcia, uma ou duas vezes por semana. Aos domingos, tinha sempre a jantar o Sr. Antunes, com quem jogava uma partida de bilhar. Tentou ensinar-lhe o xadrez, mas desanimou ao fim de cinco licções.

—Ah! mas nem todos têm o seu talento! exclamou triumphalmente o pae de Estella.

Luiz Garcia jogava o xadrez. Era o recreio usual entre elle e Jorge; outras vezes saiam a passeio até curta distancia. Luiz Garcia acceitava de boa sombra essas distracções, que não eram turbulentas nem cançativas, mas brandas e pausadas, como elle. Demais nem sempre eram distracções sem fructo. Jorge apreciava agora melhor as conversações que não eram puros nadas, e os dous trocavam ideias e observações. Luiz Garcia era homem de escassa cultura, sobretudo irregular; mas tinha os dons naturaes e a longa solidão dera-lhe o habito de reflectir. Tambem elle ia á casa de Jorge, cujos livros lia de emprestimo. Era tarde; já não estava moço; faltava-lhe tempo e sobrava-lhe fome; atirou-se soffrego, sem grande methodo nem escrupulosa eleição; tinha vontade de colher a flor ao menos de cada cousa. E por que era leitor de boa casta, dos que casam a reflexão á impressão, quando acabava a leitura, recompunha o livro, incrustava-o por assim dizer, no cerebro; embora sem rigoroso methodo, essa leitura rectificou-lhe algumas ideias e lhe completou outras, que só tinha por intuição.

A necessidade intellectual de Luiz Garcia contribuiu assim para tornar mais intima a convivencia, unica excepção na vida reclusa que elle continuava a ter, ainda depois de casado. Jorge pela sua parte não desmentia até alli o bom conceito que o outro formava de suas qualidades; e a familia viu lentamente estabelecer-se a intimidade e a estima entre os dous homens. Uma noite, saindo Jorge da casa de Luiz Garcia, este e a mulher ficaram no jardim algum tempo. Luiz Garcia disse algumas palavras a respeito do filho de Valeria.

—Pode ser que eu me engane, concluiu o sceptico; mas persuado-me que é um bom rapaz.

Estella não respondeu nada; cravou os olhos n'uma nuvem negra, que manchava a brancura do luar. Mas Yayá que chegara alguns momentos antes, ergueu os hombros com um movimento nervoso.

Pode ser, disse ella; mas eu acho-o insupportavel.

IX

A nova ordem de cousas perturbou profundamente o animo de Estella. O procedimento de Jorge, por occasião da molestia do marido não lhe pareceu esconder nenhuma intenção particular; mas durante a convalescença, e sobretudo depois della, afigurou-se-lhe que a ideia do moço era insinuar-se na familia. Para que? Estella suppunha que o amor de Jorge, ao fim de tão longo periodo, estaria acabado de todo, como producto da primeira estação. Não lhe negou um pouco de gratidão, quando viu os obsequios que prestara ao marido enfermo, com tanta solicitude, discrição e dignidade. Agora, porém, ao ver a frequencia e a convivencia, suppoz alguma cousa mais do que a simples affeição tradiccional. Que encanto podia offerecer a casa de uma familia retirada e obscura a um homem creado em mais apparente plana social? Seu meio era outro; tendencias de espirito ou ambições de futuro o deviam levar a outra esphera. Esta consideração lhe pareceu decisiva. Concluiu que a paixão, vencida ou comprimida, soltava outra vez o brado da revolta; e se assim era, Jorge devia estar peor que em 1866, porque então os sentimentos rompiam com violencia e sinceridade, ao passo que agora o seu principal aspecto era a dissimulação. O amor, se amor havia, trazia já os olhos abertos e dispunha da razão; de estouvado, tornava-se cautelloso e subtil.

—Que ideia faz elle de mim? perguntou Estella a si mesma.

Quando esta palavra lhe soou no espirito, Estella sentiu-se diminuida e humilhada aos olhos de Jorge. Cumpria pôr termo a uma vida de reticencias e dubiedade. Estella cogitou no meio de fazer cessar a intimidade dos dous homens; quando menos, a frequencia de Jorge naquella casa. Pensou em pedil-o directamente a Jorge; mas rejeitou desde logo a ideia, aliás incompativel com sua indole; depois, pensou em dizer tudo ao marido.

Uma noite, na primeira semana de Novembro, Estella assentou definitivamente revelar ao marido a unica pagina de seu passado. Estava sósinha, no jardim, e vira desmaiar o crepusculo da tarde—uma tarde cinzenta e amortecida. De quando em quando o espirito volvia ao passado, e toda ella estremecia com uma sensação extranha, mysteriosa e insupportavel. A noite caiu de todo, e a alma de Estella mergulharia tambem na vaga e perfida escuridão do futuro, se a rude voz do escravo não a viesse acordar.

—Nhanhã está apanhando sereno, disse Raymundo.

Estella ergueu-se e foi dalli ao gabinete do marido. Luiz Garcia trabalhava, á claridade de um lampeão, que toda convergia para elle e os papeis que tinha deante de si, graças ao effeito de um abat-jour. O resto do aposento ficava na meia obscuridade.

—Que é? perguntou Luiz Garcia sem levantar a cabeça.

Estella parou do outro lado da secretaria; Luiz Garcia ergueu então a cabeça e olhou para ella, sem lhe poder ver o transtorno das feições.

—Que é? repetiu.

Vendo-o entregue ao trabalho, por amor della e da filha, Estella hesitou; pareceu-lhe crueldade dar-lhe, em troca da protecção e do affecto, um desengano e uma afflicção. Hesitou um instante, e passou da hesitação á renuncia. Conteve-se e saiu. Escolheu o silencio.

Mas o silencio só por si não melhorava nada; tarde ou cedo, o marido viria a ler em seu rosto o constrangimento, em relação a Jorge, constrangimento inexplicavel, que elle podia interpretar contra ella. Foi então que a serpente lhe ensinou a dissimulação. A necessidade deu-lhe a intuição machiavelica; isto é, a occasião não consentia um rosto franco, sinceramente hostil, mas um ar ameno, uma cordialidade de superficie, friamente cortez, mas cortez. Desse modo, salvava-se a paz domestica, e era o essencial. Ao mesmo tempo mostraria a destemidez de seu coração, capaz de affrontar todo o artificio do outro.

Com o tempo, verificou Estella que o procedimento de Jorge, se alguma intenção escondia, não a deixava sequer suspeitar; não lhe parecia já dissimulação, mas abstenção. Elle proprio a evitava; fugia ás conversas longas, sobretudo ás conversas solitarias. Era respeitoso e frio.

Com effeito, Jorge não havia cedido a nenhum plano preconcebido; ia á feição do tempo; mettia-se por um atalho, sem saber se iria dar á estrada recta ou a um abysmo. Nenhuma preoccupação lhe ensombrava a fronte risonha e placida. Dir-se-hia que, após longa e trabalhosa jornada, vingara o cume das delicias humanas.

A verdade é que o amor de Jorge tinha como que despido a qualidade de sentimento para constituir-se ideia fixa. Nascido de uma primeira explosão de juventude, curtiu alguns annos de ausencia. A ausencia disciplinou os primeiros ardores, quebrou os impetos, afrouxou o alento; o amor atou aos hombros as azas de um mysticismo quieto. Não parou nessa evolução. Do coração em que pousava tomou impulso e alou-se ao cerebro, onde assumiu a fixidez das resoluções definitivas. Não era já uma paixão, mas uma convicção, isto é, outra cousa. Pensava muitas vezes na consequencia de herdar em breve prazo a esposa de Luiz Garcia, resolução que lhe parecia necessaria; era o que elle dizia a si mesmo. E esse casamento tinha dous resultados: era uma reparação e uma desforra: reparação do mal que elle fizera, desforra do tratamento que ella lhe deu. Ambos tinham que reprochar um ao outro. O casamento absolvia-os. Talvez na balança commum não fossem eguaes as dividas, mas Jorge tinha certo fundo de equidade, e entendia que, se padecera muito e longo, não excedeu o padecimento á injuria, que, a seus olhos, fora grave.

Os ralhos da consciencia eram agora menos frequentes e menos rispidos: é o effeito natural dessa ordem de situações violentas. Os mais rigidos podem chegar assim ás complacencias inexplicaveis, e o que é hoje nobre repugnancia, é amanhã hesitação pueril. Jorge não ficou extranho a essa lei do costume. De si para si julgava-se innocente, porque era impassivel, esquecendo a lettra do decalogo que não defende sómente a acção, mas a propria intenção.

Duas circumstancias perturbaram, entretanto, o espirito de Jorge, antes do fim daquelle anno.

A primeira foi a assiduidade de Procopio Dias, que lhe pareceu pouco explicavel. Procopio Dias era recebido com agazalho mais cordial do que elle. Em relação a Jorge, o procedimento de Estella era cautelloso e apenas affavel; o de Yayá era de algum modo medroso ou hostil; uma e outra pareciam alegrar-se quando Procopio Dias assomava á porta. Era uma expressão differente. Este acompanhava-as ás vezes nos passeios, ou conversava-as largo tempo, fazendo-as rir com uma espontaneidade, que não tinham a falar com Jorge. Obedecia aos desejos da madrasta e aos caprichos da enteada, quaesquer que fossem, com tamanha tolerancia e bom humor, que fazia despeitar o outro, sem o saber. Jorge attentou nos dictos e acções do intruso, e com o tempo veiu a tranquillisar-se.

—É um celibatario necessitado da companhia de mulheres, disse comsigo.

Procopio Dias não parecia outra cousa; a atmosphera feminina era para elle uma necessidade; o ruge-ruge das saias a melhor musica a seus ouvidos. Graças á edade, Yayá era mais familiar do que Estella; ás vezes chegava a «judiar» com elle, excesso que o pae ou a madrasta reprimia, e reprimia sem necessidade. Procopio Dias não manifestava nem sentia o menor despeito; achava-lhe graça e chegava a fazer coro com ella.

A segunda circumstancia que projectou alguma sombra no espirito de Jorge, foi justamente a hostilidade de Yayá Garcia.

—Que diabo fiz eu a esta menina? perguntava Jorge a si mesmo.

Durante a molestia e a convalescença do pae, Yayá tratara Jorge com muita gratidão e cordialidade. Algum tempo depois, começou a diminuir essa apparencia, até que cessou de todo e se converteu n'outra cousa, que visivelmente era repugnancia, com uma pontasinha de hostilidade. Luiz Garcia viu logo a differença, tanto mais facil de notar quanto que Estella, se não era já tão expansiva como nos primeiros dias, tratava ainda assim o filho de Valeria com uma affabilidade, que salvava as apparencias; a unica excepção era a filha. Não deixou de a advertir; ponderou-lhe que Jorge era filho de uma pessoa a quem elles deviam estima, e de quem ella mesma houvera uma recordação posthuma; que essa circumstancia devia atenuar a antipathia, se Jorge lhe era antipathico. Yayá ouvia e calava-se; emendava-se n'um dia, para reincidir toda a semana.

—És uma extranhona, disse uma vez o pae depois de lhe repetir a advertencia.

Podia ser estranhice. A vida que Yayá tivera durante largo tempo dera-lhe o amor exclusivo da solidão e da familia. Mas no caso presente parecia ser alguma cousa mais do que isso. O rosto com que recebia Jorge não era o mesmo com que via outras pessoas. Jorge ás vezes chegava quando ella estava ao piano; Yayá interrompia-se habilmente, fazia gottejar dos dedos umas tres ou quatro notas soltas e divergentes e erguia-se. Se elle ia conversar com ella e a madrasta, Yayá tomava a parte minima do dialogo e esquivava-se cautelosamente. Não sorria nunca se elle dizia uma cousa graciosa ou fazia cumprimento; não animava nunca a adopção de qualquer projecto que viesse delle; não lia os romances que elle lhe emprestava. Se era convidada a dizer o que pensava de um ou outro desses livros, fazia descair os cantos da boca commum gesto de indifferença. Não falava nunca de Jorge; apparecia-lhe o menos que podia. Este procedimento constante, não affrontoso, porque ella o disfarçava, impressionou o espirito do moço, que não lhe pode descobrir a causa verdadeira, ou pelo menos verosimil.

A verdadeira causa era nada menos que um sentimento de ciume filial. Yayá adorava o pae sobre todas as cousas; era o principal mandamento de seu cathecismo. Instigara o casamento, com o fim de lhe tornar a vida menos solitaria, e porque amava Estella. O casamento trouxe para casa uma companheira e uma affeição; não lhe diminuiu nada do seu quinhão de filha.

Yayá viu, entretanto, a mudança que houve nos habitos do pae, pouco depois de convalescido, e sobretudo desde os fins de Setembro. Esse homem sêcco para todos, expansivo sómente na familia, abrira uma excepção em favor de Jorge; sem mostrar maneiras ruidosas, aliás incompativeis com elle, era menos reservado, de mais facil e continuado accesso. Não foi porém esse primeiro reparo que produziu em Yayá a notada mudança; foi outro. Luiz Garcia deu a Jorge algumas demonstrações de confiança pessoal, e no dia em que a filha viu a primeira, recordou-se da carta que escrevera ao moço na noite em que a molestia do pae se aggravara, e da confidencia dos dois, cujo assumpto nunca lhe chegara aos ouvidos. Neste instante sentiu borbulhar no coração uma primeira gotta de fel. Imaginou que Jorge viera roubar-lhe alguma cousa. Não cogitou se haveria assumpto que dous homens devessem tratar exclusivamente entre si; suppoz-se despojada de uma parte da confiança do pae, e porque amava o pae sobre todas as cousas, seu amor tinha os ciumes, as coleras, os arrebatamentos do outro amor, e consequentemente os mesmos odios e lastimas.

Conhecia o pae toda a intensidade da affeição filial da moça, e não era menor a do seu amor; mas elle dizia comsigo philosophicamente, e não sem pezar, que a natureza se encarregaria de lhe ensinar outro sentimento, menos grave, mas não menos intenso e imperioso. Quando elle assim reflectia, contemplava a filha com um olhar já humido das primeiras saudades.

Yayá estava então em toda a limpidez de uma aurora sem nuvens. Era leve, agil, subita—com um pouco de destimidez; ás vezes aspera, mas dotada de um espirito ondulante, esguio e não incapaz de reflexão e tenacidade. Nisto podia ficar o retrato da menina, se não conviesse falar tambem dos olhos, que, se eram limpidos como os de Eva antes do peccado, se eram de rôla, como os da Sulamites, tinham como os desta alguma cousa escondida dentro, que não era de certo a mesma cousa. Quando ella olhava de certo modo, ameaçava ou penetrava os refolhos da consciencia alheia. Mas eram raras essas occasiões. A expressão usual era outra, meiga ou indifferente, e mais de infancia que de juventude. Talvez a boca fosse um pouco grande; mas os labios eram finos e energicos. Em resumo, as feições dos onze annos estavam alli desenvolvidas e mais accentuadas.

Uma tarde Luiz Garcia recebeu ordem de ir immediatamente á casa do ministro. Saiu, deixando a mulher e a filha, anciosas pelo resultado. Jorge appareceu pouco depois. A demora de Luiz Garcia foi longa, e Jorge ter-se-hia retirado, se não fora a chegada do Sr. Antunes, que deu um sopro de vida á conversa que expirava. Nove horas, dez horas, onze horas bateram sem que Luiz Garcia voltasse. Yayá estava impaciente; receiava alguma doença subita do pae, um desastre qualquer. Eram onze horas e um quarto quando este entrou offegante, porque viera depressa, tendo encontrado Raymundo, que, ouvindo as ancias da moça, saíra a encontral-o e a dizer-lh'as.

Yayá atirou-se-lhe aos braços.

—Medrosa! disse Luiz Garcia abrangendo-lhe a cabeça com as mãos.

Sentou-se um instante para repousar; com a mão esquerda comprimia o coração. Logo depois ergueu-se, chamou Jorge e foi até uma das janellas. Conversaram em voz baixa dez minutos. Disse-lhe que talvez fosse obrigado a sair no fim daquella semana; tratava-se de uma necessidade de serviço; salvo uma hypothese, a viagem era inevitavel.

Yayá não tirava os olhos de um e de outro; despediu-se de Jorge dando lhe as pontas dos dedos. Foi no dia seguinte que Estella lhe disse que talvez fossem obrigadas a sair por algum tempo. Ouvindo a noticia, Yayá comprehendeu a confidencia da vespera, e ficou consternada. Ella era a ultima que a recebia, e o primeiro fora um extranho, um intruso,—esteve quasi a dizer um inimigo. Nenhuma palavra do pae; nenhuma communicação directa.

—A ultima!

Esse resentimento exagerado era o proprio effeito da organização da moça, e, outrosim, de sua educação quasi solitaria. Para affastal-a de Jorge não foi preciso mais; o despeito apoderou-se inteiramente della. Se até ali pouco lhe havia falado, esse pouco diminuiu ainda com o tempo; fez-se quasi nada.

E essas duas forças, uma de impulsão, outra de repulsão, tendiam a esbarrar-se, no caminho de seus destinos.

X

Ora, quatro ou cinco dias depois, Luiz Garcia que, na previsão de viagem, começara a arranjar alguns papeis esparsos e antigos, dispoz-se a concluir esse trabalho, não obstante haver sido dispensada a commissão. Era dia de anno bom,—uma bella manhã, fresca, limpida, azul. Tinham ido á missa na capella do convento; almoçaram em familia, com a presença do Sr. Antunes, que inaugurara uma sobrecasaca, e trazia nessa manhã um aspecto, não sómente venerador, mas até veneravel.

Yayá accordara extremamente alegre e boliçosa. O Sr. Antunes levara-lhe um ramalhete de cravos, dizendo que era para que ella recebesse outros ramalhetes durante todo o anno, e a menina, depois de o receber e agradecer com uma mesura, foi pol-o n'um vaso, sobre o parapeito da janella da alcova. O Sr. Antunes despediu-se della, meia hora depois de almoçado.

—Já vae?

—Vou jogar uma partida de bilhar com o Jorge, disse familiarmente o pae de Estella. Viremos cedo.

—Elle vem jantar?

—Quero ver se o trago.

—Mas... papae não está prevenido, objectou Yayá.

—Está; foi elle proprio que me autorisou a trazel-o. Verdade é que fui eu que o pedi. Devemos muito áquelle moço, e ao defunto pae e á mãe, a Sra. D. Valeria, que Deus tenha. Até logo.

Yayá ficou só, e um instante pensativa; mas, logo depois ergueu os hombros, pegou de um trabalho de agulha, inventado para matar o tempo, e caminhou para o gabinete do pae, onde o foi achar com Estella.

—Virgem Nossa Senhora! disse a moça parando á porta.

Ao pé da secretaria estava uma vasta cesta, transbordando de papeis; sobre a secretaria papeis; papeis na mão de Luiz Garcia; outros na mão de Estella; alguns esparsos no chão. Era uma liquidação de seis annos. Luiz Garcia tinha o costume de guardar tudo, cartas, exemplares de jornaes em que havia alguma cousa de interesse, apontamentos, simples copias. De longe em longe inventariava e liquidava o passado. Havia já alguns annos que não fazia a costumada operação. Começara quando suppunha ter de deixar o Rio; agora tratava de concluir. Estella tinha entrado pouco antes da enteada; sentara-se em uma cadeira rasa, e entretinha-se a receber ou apanhar algum pedaço de jornal velho, e a ler algum trecho em que os olhos acertavam de cair.

—Que é? disse Luiz Garcia logo que a filha soltara a exclamação.

—Papae vae ficar afogado em papel, disse a moça.

Luiz Garcia não respondeu; voltara os olhos para uma carta que tinha na mão, e que sem duvida, lhe trazia alguma recordação amarga, porque elle sorria tristemente. Leu-a toda; releu alguns trechos; depois fez um gesto de desdem, rasgou-a e deitou os pedaços á cesta.

Yayá foi sentar-se do outro lado, a poucos passos do pae.

Na secretaria, ao pé deste, havia um maço de cousas que serviam, um maço pequeno; a grande maioria era a dos destroços inuteis. Não é isso mesmo a imagem do passado? Luiz Garcia desdobrava ás vezes um jornal, avaramente guardado havia annos; duas cruzes ou alguns traços indicavam o trecho que nesse tempo lhe chamara a attenção. Relia-o agora; buscava o motivo da reserva e sorria. A impressão que communicara algum interesse ao escripto desapparecera de todo; o escripto era um esqueleto. Tambem as cartas eram assim. Raras escapavam á destruição; as mais dellas eram dilaceradas, umas em dous pedaços,—as infimas,—outras em trinta, as que podiam ter alguma gravidade. Estella, que o ajudava, pegou casualmente em uma carta, cuja lettra do sobrescripto lhe não pareceu extranha.

—Eu conheço esta lettra, disse ella.

—Deixa ver.

Estella deu-lhe a carta.

—É do Dr. Jorge, disse o marido.

Abriu-a, e depois de ler algumas linhas, sorriu. Leu-a depois até o fim. Quando acabou, dobrou-a e ficou a olhar para a mulher; tornou a desdobral-a machinalmente.

—Vou restituil-a, disse elle depois de curta pausa; talvez se envergonhe de haver escripto estas cousas...

E dirigiu os olhos á carta, com uma insistencia de aguçar o mais embotado appetite. Depois, volveu a cabeça um pouco para traz, onde ficava a filha, a distancia, de olhos baixos; abafou a voz e disse a Estella:

—Nunca soubeste do verdadeiro motivo que o levou á guerra?

Estella ficou ainda mais pallida do que era; o sangue todo refluiu-lhe ao coração, donde lhe não saiu uma só palavra; foi com um gesto negativo que ella respondeu. E se não podia empallidecer mais, podia corar e corou de vergonha. Luiz Garcia não viu nem a primeira, nem a segunda impressão de suas palavras. Enrolava e desenrolava com os dedos um dos cantos da carta. Naturalmente relembrava os successos daquelles cinco annos, as confidencias da mãe e do filho.

—Quem diria que depois de tamanho sacrificio.... O que são rapazes! O que são paixões! Elle gostava de uma moça; não sei quem era, mas supponho.... A mãe fez quando pode para domal-o; quando desesperou, lembrou-se de o mandar para o sul; elle acceitou. Fui confidente de um e de outro. Tempos depois de embarcar.... espera.... a data hade estar aqui.... 67.... Ainda em 67 durava a tal paixão; afinal pareceu que só esperava o fim da guerra para acabar tambem. Morreu-lhe a paixão e elle engorda. Nunca suspeitaste nada?

—Não, murmurou Estella.

Luiz Garcia deu a carta á mulher, que a recebeu tremula e fria.

—Lê, que é interessante, disse elle.

Estella olhou para o papel e para o marido, vacilante, sem saber o que faria e o que pensasse.

—Lê; é curioso, disse este, que voltara aos demais papeis, abrindo uns, separando outros, tranquillo e indifferente.

Estella, sem levantar a cabeça, olhou ainda de esguelha para elle, como a procurar-lhe na fronte a intenção escondida, se por ventura havia alguma, e esse gesto era tão travado de receio e hesitação, era sobretudo tão dissimulado, que ella propria o sentiu e arrependeu-se. Cravou depois os olhos no papel, sem ler, sem fitar nenhuma linha, uma palavra unica. Não via as lettras; via, ao longe, dous pombos que voavam e a candura de seus labios embaciada por uns labios de homem; nada mais. A mão tremia; ella firmou-a sobre a borda da secretaria; mas o tremor, ainda que pouco perceptivel, não cessou.

—Leste? perguntou Luiz Garcia dobrando um jornal que acabava de passar pelos olhos.

Estella fez um gesto para que esperasse um instante. Não reparava que havia decorrido tempo sufficiente para haver lido a carta duas vezes. Fez um esforço; voltou a pagina; duas ou tres phrases lhe feriram os olhos: «Meu amor não sabe o que seja impaciencia ou ciume ou exclusivismo; é uma fé religiosa que pode viver inteira em muitos corações»—«O essencial é saber que amo a mais nobre creatura do mundo»—«A paixão veiu commigo, e se não cresceu é porque não podia crescer; mas transformou-se. De creança que era, fez-se homem de juizo.» Chegou ao fim da carta ou pareceu ter chegado; dobrou-a, e não se atreveu a dizer nada; depois tornou a abril-a.

—Que poesia, hem? disse Luiz Garcia sorrindo.

E o sorriso era tão natural, tão despreoccupado, tão honesto, que Estella ficou tranquilla. Tinha em grande conta a dignidade e a sinceridade do marido; não podia suppôr-lhe tanta hypocrisia nem tamanha indifferença. Sorriu tambem, mas um sorriso de acquiescencia, sem convicção nem espontaneidade. Luiz Garcia inclinou-se para ella; falou-lhe com a mesma voz abafada de pouco antes; referiu-lhe o amor que Valeria tinha ao filho e a estrategia usada para o fim de o arredar do Rio de Janeiro.

—Naquelle tempo, disse elle, não sei se cheguei a arrepender-me de a ter apoiado; hoje não. O filho ficou são e salvo de seus amores, com um posto e honras de sobra.

—É verdade, murmurou Estella, que o escutara com a attenção dispersa e impaciente.

Logo depois ergueu-se e foi á janella. Alli sacudiu a cabeça com um gesto energico. Talvez lutavam nella forças contrarias; ou era o seu passado que emergia da sombra do tempo, com todas as cores vivas ou escuras, com as delicias occultas e nunca revelladas, e ao mesmo tempo com as amarguras e resistencias. Era isso; era o coração que mordia impaciente o freio da necessidade e do orgulho, e vinha pedir ainda uma vez o seu quinhão de vida, e pedia-o em nome daquella carta, expressão remota de um amor desenganado e impassivel. Estella suffocava esses impetos, mas elles vinham. Após alguns minutos, deixou a janella, tornou á cadeira onde estava. Luiz Garcia lia então um retalho de jornal. Não chegou a levantar os olhos.

Defronte, Yayá tinha os olhos cravados na madrasta. Ouvira a principio o nome de Jorge e não lhe prestara muita attenção; mas uma ou duas palavras soltas do pae haviam-lhe despertado a curiosidade. Yayá ergueu a cabeça, inclinou-a depois, ouviu a confidencia do pae, não obstante ser feita em voz baixa, e emfim não retirou mais os olhos de Estella. Viu-a receber a carta, com a mão tremula; viu-a empallidecer ainda mais; viu-lhe a confusão e o enleio. Porque o enleio e a confusão? Um amor extincto de Jorge, uma paixão que o levara á guerra, que tinha ella, que tinham elles tres com isso?

Yayá olhou a principio com curiosidade, depois com espanto, até que os olhos luziram de sagacidade e penetração. O estylete que elles escondiam desdobrou a ponta aguda e fina, e estendeu-a até ir ao fundo da consciencia de Estella. Era um olhar intenso, aquilino, profundo, que palpava o coração da outra, ouvia o sangue correr-lhe nas veias e penetrava no cerebro salteado de pensamentos vagos, turvos, sem ligação. Yayá adivinhou o passado de Estella; mas adivinhou de mais. Galgou a realidade até cair no possivel. Suppoz um vinculo anterior ao casamento, roto contra a vontade de ambos, talvez persistente, mau grado aos tempos e ás cousas. Tudo isso viu uma simples innocencia de dezesete annos. Seu pensamento cristalino e virginal, nunca embaciado pela experiencia, ignorava até as primeiras scismas de donzella. Não tinha ideia do mal; não conhecia as vicissitudes do coração. Jardim fechado, como a esposa do Cantico, viu subitamente rasgar-se-lhe uma porta, e esses dez minutos foram a sua puberdade moral. A creança acabara: principiava a mulher.

A impressão foi tão profunda, que apezar da força de resistencia que havia em sua organização, Yayá não pode ter-se alli mais tempo. Saiu e refugiou-se na alcova. Certo, aquelle amor intruso, se o havia, era para affligir e prostrar um coração de filha, amassado de ternura, para o qual a forma superior e exclusiva do sentimento era a paixão que a prendia a seu pae, como um vinculo indestructivel. Depois vinha o affecto que votava á madrasta, sua mãe electiva, affecto não menos sincero e real, e que já agora podia diminuir, quem sabe até se morrer todo?

Sentada na beira da cama, com os pés juntos, as mãos fechadas entre os joelhos, os olhos cravados no espelho que lhe ficava defronte, Yayá trabalhava mentalmente na sua descoberta. Confrontava o que acabava de ver com os factos anteriores, de todos os dias, isto é, a frieza, a indifferença, a stricta polidez dos dous, e mal podia combinar uma e outra cousa; mas ao mesmo tempo advertia que nem sempre estava presente quando Jorge alli ia, ou fugia-lhe muita vez, e podia ser que a indifferença não passasse de uma mascara. Demais, a commoção da madrasta era significativa. Estendeu o espirito pelo tempo atraz, até o dia da primeira visita de Jorge, e lembrou-se que elle estremecera ouvindo a voz de Estella, circumstancia que lhe pareceu então indifferente. Agora via que não.

Uma hora inteira gastou nesse cogitar solitario, a sós com a suspeita e o remorso. Tambem remorso, por que de quando em quando atterrada com a vista do caminho andado, a alma recuava e estremecia; tinha horror de si mesma. Mas a figura pallida da madrasta surgia ao pé della, com a expressão que lhe vira pouco antes, e a consciencia fazia as pazes com a malicia.

Vede a consequencia. Estella não era culpada; um incidente do passado é que projectava tamanha sombra na vida presente; mas bastou o espectaculo da commoção para turbar o espirito da enteada e lançar lá dentro os primeiros germens da sciencia do mal. Que seria se fosse culpada? Talvez o mais lastimoso effeito dos desvios domesticos é essa corrupção dos corações ingenuos, impassiveis testemunhas do que ignoram um dia, do que suspeitam, percebem e sabem na seguinte manhã: primeira violação da virgindade.

Yayá agitava-se na alcova, de um para outro lado, desejosa e receiosa ao mesmo tempo de ir ter com Estella. Duas vezes chegou á porta e recuou. Uma das vezes, voltando para dentro, deu com os olhos no retrato do pae que pendia junto á cabeceira,—uma simples photographia. Tirou-o dalli, contemplou longamente a fronte austera e pura. Que! Haveria na terra quem o amasse uma vez e não sentisse que o amor lhe dominaria a vida inteira? Tão affectuoso! tão bom! vivendo exclusivamente para os seus, sem nada invejar ao resto dos homens. Isto lhe dizia o coração, emquanto ella ia beijando o retrato com respeito, com amor, afinal com delirio. Grossas lagrimas e quentes lhe romperam dos olhos; Yayá deixou-as cair: sorveu-as com seus proprios beijos. Quando essa primeira explosão acabou, acabou para se não repetir mais. Enxutos os olhos Yayá pode friamente reflectir, e a reflexão dominou a angustia.

O que se passou naquelle cerebro ainda verde, mas já robusto, foi uma resolução sem plano. Deslindar o vinculo espurio era o essencial e urgente, não cogitou no modo. Sua innocencia, assim como lhe dissimulava toda extensão possivel do mal, assim tambem lhe encobria as asperezas e os obices da execução. Era o coração que lhe designava esse papel de anjo guardador. Natureza simples e intacta, ia direito ao fim sem o temor que dá a experiencia e a contemplação da vida. Quem sabe? Não conhecia a hypocrisia, mas acabava de suspeital-a; começava talvez a apprendel-a.

Tinha-se demorado muito e era preciso sair do quarto; mas, como houvesse chorado, podiam ler-lhe os vestigios da dor. Yayá foi ao lavatorio deitou agua na bacia e começou a banhar os olhos e o rosto. O rumor da agua impediu-lhe ouvir que alguem abria a porta. Estella appareceu-lhe repentinamente.

—Que faz você aqui ha tanto tempo? disse a madrasta, parando á porta.

Yayá não se atreveu a olhar de rosto para ella; mastigou uma resposta esquiva e continuou o que estava fazendo.

—Que tens? perguntou Estella pegando-lhe dos braços e fazendo-a voltar para si. Você chorou? ... Chorou, sim; tem os olhos vermelhos. Que foi? Yayá, fala; que é?

—Não é nada, acudiu a outra procurando sorrir.

—Não minta, Yayá.

A enteada olhou de relance para o espelho; viu que era inutil mentir.

—Foi uma tolice, disse ella.

—Alguma travessura?

—Antes fosse!

Yayá pegou do retrato que puzera na borda do marmore de lavatorio, e olhou alguns instantes para elle. Estella quiz conchegal-a a si, mas a enteada fugiu-lhe com o corpo.

—Trata-se... de teu pae? perguntou a madrasta.

Yayá fitou-a e respondeu:

—Sim, mamãesinha; estava a sacudir a poeira do retrato de papae, e comecei a pensar... foi uma loucura... se elle... morresse?

Estella reprehendeu-a com uma interjeição; Yayá quiz continuar, mas a outra interrompeu-a impetuosamente:

—Cala-te, disse; não penses em tolices. Dá cá o retrato.

—Não é verdade que elle é o melhor dos homens? perguntou Yayá, em quanto Estella pendurava o retrato.

A unica resposta da madrasta foi caminhar para ella e dizer-lhe que nunca mais pensasse em semelhante cousa.

—Não sou senhora dos meus pensamentos, respondeu a moça, erguendo os hombros.

Após alguns segundos de silencio, Estella percebeu que alguma cousa preoccupava a enteada, e disse-lh'o. Yayá respondeu negativamente. Mas Estella insistiu:

—Não tens o teu ar do costume, e esses olhos andam vagamente de um lado para outro. Talvez... quem sabe...

—Não é isso que a senhora pensa, interrompeu Yayá seccamente.

Depois sentou-se, a olhar para o jardim, a morder o labio, que lhe tremia, e a comprimir os seios com a mão. Estella ficou um instante calada; emfim sacudiu benevolamente a cabeça e approximou-se da menina.

—Tu não tens confiança em mim, Yayá, disse ella pousando-lhe a mão no hombro. Se tivesses, dizias-me em que é que pensas, porque é de certo em alguma cousa. Não é difficil deixar de pensar no Procopio Dias; acho até que é a cousa mais facil; mas não será algum pensamento da mesma natureza? Anda; sê franca; sou apenas tua madrasta, e pouco mais velha que tu; posso ouvir tuas confidencias e aconselhar-te. Onde acharás melhor amiga do que eu?

Yayá tinha applacado a primeira sensação; afivellou de todo a mascara da tranquillidade, emquanto não a substituia por outra. Ergueu-se e disse com affouteza:

—Pois bem, vou confiar-lhe uma cousa... não... supponha... é melhor suppôr... tenho vergonha de dizer a verdade. Supponha que tive um amor de collegio...

—Tu? Aos treze annos!

—Aos doze e meio.

—Bonito! Não foi começar tarde. Esse amor naturalmente expirou nos braços da ultima boneca.

—Supponha que não, disse Yayá em tom serio. Ora, se eu tiver de casar com o Procopio Dias...

—Quem te fala em casar com elle?

—Por ora é um gracejo; mas, se elle teimar, é possivel que nem a senhora nem papae o desemparem, e ainda mais possivel que eu me deixe vencer para contentar a todos. Mas é este o ponto de minha confidencia; é uma ideia que me persegue ha dias. Devo eu casar com um homem amando a outro? posso fazel-o? devo fazel-o?

Estella estremeceu levemente, sob o olhar impassivel e puro da enteada, e não respondeu logo. Yayá parecia folgar com esse enleio de um minuto; mas ao mesmo tempo o coração lhe sangrava, porque o enleio era a confirmação de suas recentes supposições. A madrasta não tinha a penetração da enteada; além disso, como suppôr nella o conhecimento de um facto remoto e não divulgado? Estella nem cogitou nisso. Escoou-se o minuto, e ella respondeu com tranquillidade:

—Não deves casar, se o amor pode ser satisfeito sem obstaculo. No caso contrario, o casamento é uma simples escolha da razão: sacrifica-te.

Yayá, que tinha uma das mãos da madrasta entre as suas, largou-a subitamente. Estella riu, e bateu-lhe na testa com a ponta do dedo.

—Esta cabecinha! disse ella. Ha aqui dentro muita cousa que é preciso capinar...

No primeiro instante, Yayá empallideceu. Ao ultimo gesto de Estella, respondeu com um sorriso forçado e sem cor. Logo que esta saiu, deixou-se cair na cadeira e fechou o rosto nas mãos. Quando dalli saiu, meia hora depois, não trazia nenhum signal de lagrimas, ou sequer de tristeza. Não vinha alegre, de certo; serena, sim, daquella serenidade com que o caçador do sertão se dispõe a encarar a onça.

Jorge foi jantar, e sobre a tarde appareceu Procopio Dias. Durante o jantar e a noite, Yayá fez impressão na familia e nos extranhos, pela singular alteração de seus modos. Estava um pouco pallida, mas a viva luz dos olhos parecia communicar ao rosto uma porção do colorido ausente. Mostrou-se expansiva, e não golhofeira. Suas phrases eram longas, deduzidas, iam até o fim do pensamento, sem as interrupções e saltos do costume. De costume, parecia que a moça pensava aos fragmentos, porque era quasi impossivel ter com ella uma conversa inteiriça e ordenada com a sua variedade propria. Naquelle dia era o contrario. Como que a alma despira a roupa de bailarina, para enfiar um roupão caseiro, simples, apertado, subido até o pescoço. Era melhor assim? era peor? Nem uma nem outra cousa; era uma apparencia nova.

Mais do que ninguem, Jorge estimou essa alteração, porque em relação a elle a moça tambem havia mudado alguma cousa. Yayá sentira nesse dia mais repugnancia do que nunca ao ver o filho de Valeria, e chegou a recuar instinctivamente a mão. Cedeu, porém, e o sorriso com que corrigiu a recusa foi o primeiro que Jorge recebeu directamente della. Nesse dia a moça respondeu-lhe sem custo, e talvez lhe dirigiu a palavra alguma vez; o que tudo viu Luiz Garcia e attribuiu a effeito de suas admoestações.

Nem Luiz Garcia nem Jorge poderiam suppôr que sobre a cabeça da madrasta e da enteada a carta de 1867 agitava as suas lettras de fogo. Essa carta importuna, poupada da destruição immediata, era a scentelha subitamente lançada no amor adormecido de uma e no odio nascente de outra; Jorge estava longe de o ler no rosto affavel de Yayá, e no olhar fugidio de Estella.

Pouco depois das dez horas dispersou-se a reunião. O Sr. Antunes aposentou-se por essa noite em casa do genro. Jorge e Procopio Dias sairam juntos.

—Vae para a cidade a esta hora? perguntou Jorge.

—Repare que ainda me não offereceu cama, disse rindo o outro.

—Mas offereço-lhe agora.

—Acceito. Precisava justamente falar-lhe: negocio grave.

—Não é de certo algum fornecimento?

—Nem só de pão vive o homem, acudiu Procopio Dias.

—Que negocio é?

—Uma explicação.

—Sobre...

—Hade ser lá em casa; a noite é escura e os quintaes são traçoeiros.

XI

Entrados em casa, Procopio Dias não se apressou a dar ou pedir a explicação. Ceou primeiro, porque confessou haver adquerido esse costume, e Jorge não se demorou em obsequial-o. A ceia improvisada, composta de viandas frias e dous ou tres calices de vinho puro, deixou-o em paz com a natureza. Satisfeita esta, era a hora da explicação.

Não veiu ella com facilidade. Indolentemente reclinado n'uma ottomana, Procopio Dias fumava com volupia e falava com precaução, usando a voz pausada e avara de um homem para quem o digerir, é meditar. Se alguma ideia lhe avoaçava lá dentro, era difficil percebel-o atravez do olhar exhausto e morbido. Entretanto, a curiosidade de Jorge não lhe permittiu mais longa dilação e Procopio Dias foi compellido a salisfazel-a, quando o moço, parando deante delle, fracamente lh'o pediu.

—Parecia-me mais facil do que é, disse elle, sobretudo porque apezar de nos conhecermos ha algum tempo, não estou certo da opinião que o senhor forma de mim. Boa?

—Boa.

—Dê-me sua mão. Promette-me ser franco?

—Prometto:

—Qual das duas o leva á casa de Luiz Garcia?

Sobresaltado, Jorge retirou vivamente a mão.

—Bem vê, tornou Procopio Dias; é uma dellas.

Passada a primeira impressão, Jorge sentou-se tranquillamente, menos comtudo do que affectava estar.

—Na verdade, a sua pergunta é das mais exquisitas que eu esperava ouvir. Ignora as relações de amizade que me prendem áquella casa, relações que herdei de minha familia, e que eu apenas continuo? Qual das duas! Não ha alli duas; ha uma, uma sómente, uma... e...

—Não é essa? não é Yayá?

Jorge fez um gesto negativo.

—Acredite que me restitue a tranquillidade ao coração, disse Procopio Dias sentando-se de todo. Não é meu rival? não tem nenhuma ideia?... nenhuma ideia vaga?... É isso o que precise saber... é só isso, e é tudo.

—O senhor gosta de Yayá?

Procopio Dias fez primeiro um gesto affirmativo; depois balbuciou a confissão plena de seus sentimentos, mas com um ar de envergonhado, meio sincero e meio fingido, e tão a ponto e natural, que era difficil saber onde acabava a sinceridade e onde começava a simulação. Animou-se a pouco e pouco, e não lhe escondeu nada. Confessou que a filha de Luiz Garcia lhe transtornara de todo o espirito e que elle estava resoluto aos maiores sacrificios para obter-lhe a mão.

—Ás vezes suppunha que o senhor andava nas minhas fronteiras, concluiu elle, ideia que me affligia, porque o senhor tem sobre mim vantagens incontestaveis. A suspeita desvanecia-se e eu tranquillisava-me. Hoje, porém, confesso-lhe que a suspeita reappareceu e entrou a devorar-me o coração; e ainda assim, tinha intervallos, porque ora me parecia que o seu objecto era Yayá, ora que era a outra...

—Perdão, interrompeu Jorge; eu já lhe disse o que devia, e não posso consentir que voltemos ao mesmo ponto. Uma de suas suspeitas é injurias para mim.

—Tem razão; eu devia tel-o pensado, assentiu Procopio Dias. Mas que quer? Nada se deve imputar aos dementes e aos namorados. Perdoa-me? Em todo caso, pode crer que a minha indole não é tão tolerante com o vicio que me fizesse desejar haver dado em balda certa. Não sou rigoroso; sei que as paixões governam os homens, e que a força de as reger não é vulgar. Por isso mesmo é que se estima a virtude. No dia em que a natureza se fizer communista e distribuir egualmente as boas qualidades moraes, a virtude deixa de ser uma riqueza; fica sendo cousa nenhuma.

—Deixe-me falar-lhe com franqueza, disse Jorge, rindo; eu desconfio que o senhor é ainda menos rigoroso do que diz. Parece-me que se a sua suspeita, em relação á outra, tivesse fundamento, o senhor não me ouviria com indignação.

—Talvez estimasse.

Jorge não disse nada; olhou sómente para o interlocutor, com um ar de estupefacção, a que o outro sorriu benevolamente. Fez-se uma curta pausa. Procopio Dias rompeu emfim o silencio:

—Talvez estimasse, sem deixar de indignar-me depois; isto é, a indignação no momento seria abafada pelo interesse. Attenda-me, doutor; sejamos justos com o natureza humana. Virtudes inteiriças são invenções de poetas. Não me fazia bom cabello que a senhor gostasse da outra, e menos ainda que ella lhe correspondesse, porque, em summa; ambicionando entrar na familia, não desejaria que a familia tivesse a menor macula. Esta é a realidade. Mas, eu amo, doutor; e por mais ridicula que pareça esta confissão, por mais grosseira que seja a minha casca, a verdade é que amo a enteada apaixonadamente: é o meu pensamento de todos os dias. Ora, dado que o senhor amasse a outra, qual era o primeiro movimento do meu coração? Ligal-os ao meu interesse. Desde que entre os dous houvesse um segredo, e que esse segredo fosse descoberto ou suspeitado por mim, o senhor e ella eram os meus melhores alliados, e a resistencia daquella menina, e a vontade do pae, tudo cedia em meu favor.

Procopio Dias proferiu estas palavras com simplicidade e convicção. Seus olhos plumbeos pareciam duas portas abertas sobre a consciencia. A expressão do rosto era a de um cynismo candido. Jorge contemplou-o alguns instantes sem dizer palavra, ao parecer subjugado pelo raciocinio. Ouvira-o pasmado e satisfeito. Tanta franqueza não mostrava que Procopio Dias já não suspeitava nada? Jorge sorriu e replicou:

—O que o senhor acaba de dizer não será animador, mas persuado-me que é a realidade pura. Admira-me sómente que tenha tanta penetração e superioridade para ver e confessar os vicios da natureza humana...

—Sou pratico, tornou o outro sorrindo. Raras vezes me irrito, comquanto lastime sempre o que é fraqueza ou perversão. Assim, por exemplo, eu não lhe ficaria querendo mal se o senhor me houvesse illudido agora acerca de seus sentimentos, porque o seu interesse e o seu dever é negal-os.

—Perdão; já lhe dei minha palavra...

—Não deu, nem eu lh'a pedi, nem pediria, porque a palavra de honra não obriga a consciencia, quando é dada para salvar uma questão de honra. O senhor poderia dal-a sem sinceridade nem remorso. Já não é a mesma cousa se me jurasse, por que o juramento, invocando o testemunho de um ente superior, esse obriga a consciencia que não está pervertida.

—Não exige de mim que jure, espero eu? disse Jorge.

—Ha ainda uma raiz de duvida, em meu coração, replicou Procopio Dias sorrindo.

—Pois juro-lhe...

Procopio Dias levantou-se de subito.

—Não precisa mais, exclamou elle apertando-lhe as mãos. Agora creio; creio de todo. Não é meu rival, nem corrompe a familia a que pretendo unir-me. Se soubesse o prazer que me deu com a sua ultima palavra! Obrigado! Agora creio. Ria-se de mim, ria-se; eu creio que esta expansão pode ter um lado grotesco,—hade ter de certo. O que lhe affianço é que se minha felicidade não é completa depende sómente da fortuna não dos homens...

Sentou-se depois destas palavras, proferidas quasi sem respirar. Jorge acompanhou-o nessa expansão de felicidade. Pareciam satisfeitos um do outro. Procopio Dias confessou que era a primeira pessoa a quem falava de seus sentimentos, e não se vexava de dizer que, ao cabo de alguns mezes, nada podia saber do coração da moça. Ás vezes suppunha ser acceito; outras, e eram as mais numerosas, tinha a persuasão contraria.

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