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Viagens na Minha Terra (Volume II)

VIAGENS NA MINHA TERRA. (continued 2)

Reading edition

feliz expressão do Sr. Conde de Raczinski bem applicada por elle ao estado de quasi todos os nossos monumentos, ésta de anachronismo.

Mas alli, na villa alta ou Marvilla, no Santarem propriamente ditto, ha os templos, os conventos, a cêrca das muralhas que todavia conservam a physionomia historica da terra; aqui nem isso ha.

Voltei completamente desappontado da Ribeira, isto é, da sua pedra e cal: gósto immenso da sua gente.

Outra surpreza de mui differente genero nos esperava á noite em Marvilla, no elegante salão da B. d'A. com quem fomos tomar cha.

Em meio das ruinas e desconfôrto d'aquelles desertos e mortos pardeiros circumstantes, ir incontrar uma casa em plena florescencia de civilização e de vida; ver a amabilidade e a elegancia fazendo graciosamente as honras d'ella―por mais que se devesse esperar―sempre espanta á primeira vista: parecia golpe de varinha de condão.

Em tam agradavel e joven companhia todas as ideas archeologicas se desvaneceram, apezar de dous ou tres fosseis que alli appareciam para se não perder detodo a côr local talvez.

Largamente se conversou, de Lisboa principalmente, dos nossos mutuos amigos, das festas do último hynverno, das probabilidades que se deviam esperar do futuro.

Ralhámos muito da sociedade portugueza; exaltámos París e Londres e não sei se Pekim e Nankim tambem, e concluimos que antes Timbokotuo do que a seccante capital do nosso pobre reino. E comtudo estavamos com saudades d'ella; e concessão d'aqui, concessão d'alli, viemos a que não era tam má terra como isso.

Admiravel condicção da natureza humana, que tudo nos parece melhor e menos feio quando visto de longe!

O baile público mais semsabor, detestavel de barulho e confusão, em que, para repousar os olhos n'um rosto conhecido e agradavel, foi preciso furar por entre centenas de cotovellos barbaros que se não sabe d'onde vieram, levar desalmadas pisadellas do dançante noviço, do deputado recemchegado, e das botas novas do novo director da Galocha―e, mais horrivel que tudo! ver as absurdas toiletes, os penteados fabulosos, as caras incriveis e as antidiluvianas figuras de tanta mulher feia e desastrada... pois esse mesmo baile, quando ja não é senão reminiscencia que acorda no meio do infado ronceiro de uma terra de provincia, parece outro. As luzes, as flores, a musica, toda aquella animação lembra com prazer, o mais esquece, e involuntariamente se descai um pobre homem a suspirar por elle.

A soirée mais massante, de piano obrigado, com dueto das manas, polka das primas e casino das tias velhas―recordada em eguaes circumstancias, tambem ja não accode á memoria senão como uma reunião escolhida e íntima, de facil e doce tracto... oh! o verdadeiro prazer da sociedade.

Pois o theatro... Que se lembre alguem, na provincia, dos martyrios que soffreu o ouvido com os berros da prima-dona, as desafinações do tenor, ou com o infadonho resonar d'aquella adormecida orchestra de San'Carlos!

A injoativa traducção de uma comedia da Rua-dos-condes, roída de incuravel syphilis, figura-se avelludada de todas as graças do stylo de Scribe.

E o destempêro original de um drama plusquam romantico, laureado das imarcessiveis palmas do Conservatorio para eterno abrimento das nossas bôccas! Lá de longe applaude-o a gente com furor, e esquece-se que fummou todo o primeiro acto ca fóra, que dormiu no segundo, e conversou nos outros, até á infallivel scena da xacara, do subterraneo, do cemiterio, ou quejanda, em que a dama, soltos os cabellos e em penteador branco, indoudece de rigor,―o gallan, passando a mão pela testa, tira do profundo thorax os tres

ahs!

do stylo, e promette matar seu proprio pae que lhe appareça―

o centro perde o centro de gravidade, o barbas arrepella as barbas... e maldicção, maldicção, inferno!... 'Ah mulher indigna, tu não sabes que n'este peito ha um coração, que d'este coração sahem umas arterias, d'estas arterias umas veias―e que n'estas veias corre sangue... sangue, sangue! Eu quero sangue, porque eu tenho sêde, e é de sangue... Ah! pois tu cuidavas? Ajoelha, mulher, que te quero matar... esquartejar, chacinar!'―E a mulher ajoelha, e não ha remedio senão applaudir...

E applaude-se sempre.

E não é de mim que fallo, que eu gósto d'isto: os outros é que se infastiam e cansam de tanta barafusta, sempre a mesma...

Mas emfim o que digo é que na provincia não ha tal fastio, que esquece a canceira, e que nem o sublime gallimathias do ridiculo d'alli se percebe.

Peço aos illustres puritanos que, á fôrça de sublimado quinhentista, tem conseguido levar a lingua á decrepitude para a curar de suas infermidades francezas, peço-lhes que me perdoem o

gallimathias

, porque elle é muito mais portuguez que outra coisa. A célebre oração

pro gallo Mathiae

deu origem a ésta bella e ex deu origem a ésta bella e expressiva palavra, que sim foi procreada em francez, mas hoje precisâmos ca muito mais d'ella que em parte nenhuma.

Volto ja da digressão philologica: tornemos á optica e á catoptrica.

Grande coisa é a distancia!

E dizem que saudades que matam! Saudades dão vida; são a salvação de muita coisa que, em seu pleno gôso e posse pacífica, pereceria de inanição ou morreria da oppressora molestia da saciedade.

Por isso eu não gósto de metter o scalpello no mais perfeito da construcção humana, nem de applicar a lente ao mais fino e delicado do seu funccionar...

Vamos usando d'estas palavras que herdámos, sem metter louvados na herança; não succeda descobrirmos que estamos mais pobres do que se cuidava... vamos repetindo éstas phrases que nos formularam nossos antepassados sem as analysar com muito rigor; não succeda vermos claro demais que temos passado a vida a mentir...

Detesto a philosophia, detesto a razão; e sinceramente creio que n'um mundo tam desconchavado como este, n'uma sociedade tam falsa, n'uma vida tam absurda como a que nos fazem as leis, os costumes, as instituições, as conveniencias d'ella, affectar nas palavras a exactidão, a logica, a rectidão que não ha nas coisas, é a maior e mais perniciosa de todas as incoherencias.

Não fallemos mais n'isto, que faz mal, e acabemos aqui este capítulo.

CAPITULO XXXIX.

Processo de scepticismo em que está o auctor.―Moralistas de requiem.―O maior sonho d'esta vida, a logica.―Differença do poeta ao philosopho.―O coração de Horacio.―O collegio de Santarem.―Jesuitas e templarios.―O alliado natural dos reis.―'Ficar na gazeta' phrase muito mais exacta hoje do que 'Ficar no tinteiro.'―San'Frei Gil e o Doutor Fausto.―De como o A. foi ao tumulo do sancto bruxo e o achou vazio.―Quem o roubaria?

O final do capítulo antecedente é, bem o sei, um terrivel documento para este processo de scepticismo em que me mandaram metter certos moralistas de

requiem

de quem tenho a audacia de me rir, d'elles e da sua querella e do seu processo, protestando não me aggravar nem appellar, nem por nenhum modo recorrer da mirifica sentença que suas excellentissimas hypocrisias se dignarem proferir contra mim.

Feita ésta declaração solemne, procedamos.

E quanto a ti, leitor benevolo, a quem so desejo dar satisfação, a ti, se ainda te cansas com essas chymeras, dou-te de conselho que voltes a pagina obnoxia, porque essas reflexões do último capítulo são tam deslocadas no meu livro como tudo o mais n'este mundo. Dorme pois, e não despertes do bello-ideal da tua logica.

É uma descuberta minha de que estou vaidoso e presumido, ésta de ser a logica e a exacção nas coisas da vida muito mais sonho e muito mais ideal do que o mais phantastico sonho e o mais requintado ideal da poesia.

É que os philosophos são muito mais loucos do que os poetas; e de mais a mais, tontos: o que est'outros não são.

Voltemos, voltemos a pagina comeffeito, que é melhor.

Amanheceu hoje um bello dia, puro e sublime. Dorme nas cavernas do padre Eolo aquelle vento sêcco e duro, flagello dos estios portuguezes. Suspira no ar uma viração branda e suave que regenera e dá vida. Mal impregado dia para o passar a ver ruinas! No seio da sempre joven natureza, sob a remoçada espessura das árvores, sôbre a alcatifa sempre renovada das grammas verdes e variegadas boninas, queria eu que me corresse este dia em ocio bemaventurado de corpo e d'alma, sentindo pulsar lento e compassado o coração livre e sôlto de todo impenho, o verdadeiro coração de Horacio,

Solutus omni foenore!

Tomára-me eu no valle outra vez, com a irman Francisca a dobar á porta, a nossa Joanninha a deslindar-lhe a meada; e embora venha o terrivel spectro de Fr. Diniz projectar sua funesta e tragica sombra no idilio d'este quadro suave, que não póde destruir-lhe toda a amenidade bucolica, por mais que faça.

Lá voltaremos ao nosso valle, amigo leitor, e lá concluiremos, como é de razão, a historia da menina dos rouxinoes. Por agora almocemos, que é tarde, e terminemos os nossos estudos archeologicos em Marvilla de Santarem.

Cá estamos no Collegio, edíficio grandioso, vasto, magnífico, propria habitação da companhia―rei que o mandou construir para educar os infantes seus filhos.

Creio que ésta e a de Coimbra eram as duas principaes casas que para isto tinham os Jesuitas em Portugal.

Foram os templarios dos seculos modernos, os Jesuitas. A potencia formidavel e quasi régia que aquelles levantaram com a espada, tinham estes fundado com a doutrina. Riquezas, podêr, influencia, uns e outros as tiveram com applauso e acquiescencia geral; uns e outros as perderam do mesmo modo.

Extinctas e perseguidas, ambas as ordens renasceram no mysterio, e se converteram em associações secretas para conspirarem; ambas tomaram diversos nomes e variadas máscaras para o fazerem mais seguramente.

Ambas em vão!

O predominio, crescente ha seculos, do elemento democratico annulla todas essas conspirações. Sos e sem elle, os reis tinham succumbido... É a alliada natural dos reis a democracia.

O edificio do Collegio é todo philippino, ja o disse: a egreja dos mais bellos specimens d'esse stylo, que em geral sêcco, duro e sem poesia, não deixa comtudo de ser grandioso.

Aqui esteve depois muitos annos o seminario patriarchal, cujas aulas frequentava a mocidade do districto. Hoje leem-se alli outras palestras da cathedra administrativa. É a séde do govêrno civil chamado: corrumper a moral do povo, sophismar o systema representativo é o thema das licções.

Todo outro insino se tirou de Santarem. Falla-se n'um liceu e não sei em que mais 'que ficou na gazetta:' phrase portugueza moderna que deve supprir a antiga e antiquada de―'ficou no tinteiro'―por muitas razões, até porque hoje não fica nada no tinteiro senão o senso commum, tudo o mais de lá sai, tudo. E muitas graças a Deus quando não passa ás ballas do impressor para dar a volta do mundo.

Santarem é das terras de Portugal a melhor situada e qualificada para um grande estabelecimento de instrucção e de educação pública. Porque não hade estar aqui o Collegio-militar ou a Casa-pia, ou outra grande eschola, seja qual for? Porque hade ser ésta centralização d'insino em Lisboa? Em que se funda um privilegio dado á capital em prejuizo e á custa das provincias?

Sahimos do Collegio, fomos direitos a San'Domingos, um dos mais antigos estabelecimentos monasticos do reino e que eu tanto desejava visitar. Não sei descrever o que senti quando a inferrujada chave deu a volta na porta da egreja e o velho templo se patenteiou aos nossos olhos. Acabára de servir, não imaginam de quê... de palheiro!

A derradeira camada de palha que apodrecêra, adheria ainda ao lagedo humido, e exhalava um forte vapor mephitico que nos suffocava. Mal podémos ver os tumulos dos Docems e tantos outros interessantes monumentos que abundam na parte superior do templo. A inferior, ou corpo da egreja como dizem, é de um miseravel e moderno anachronismo.

Respirando a custo aquelle ar infecto, todo o tempo que lhe pudesse resistir, quiz approveitá-lo em examinar a principal e mais interessante reliquia da profanada egreja―a capella e jazigo do grande bruxo e grande santo, San'Frei-Gil.

Algures lhe chamei ja o nosso Doutor Fausto: e é comeffeito. Não lhe falta senão o seu Goethe.

Vixere fortes ante Agamemnona multi.

Houve fortes homens antes de Agamemnão, e fortes bruxos antes e depois do Doutor Fausto. Mas sem Homero ou Goethe é que se não chega á reputação e fama que alcansaram aquelles senhores. Nós precisâmos de quem nos cante as admiraveis luctas―ora comicas, ora tremendas―do nosso Frei Gil de Santarem com o diabo. O que eu fiz na 'Dona Branca' é pouco e mal esboçado á pressa. O grande mago lusitano não apparece alli senão episodicamente; e é necessario que appareça como protagonista de uma grande acção, pintado em corpo inteiro, na primeira luz, em toda a luz do quadro.

Então o seu ardente e anciado desejo de saber, os seus vastos estudos, os reconditos mysterios da natureza que descobriu até penetrar no mundo invisivel―a sêde de oiro, de prazer e de podêr que o perseguia e o fez cahir nas garras do espirito maligno―o fastio e saciedade que o desincantaram depois―o seu arrependimento emfim, e a regeneração de sua alma pela penitencia, pela oração e pelo desprêzo da van sciencia humana―então essas variadas phases de uma

existencia

tam extraordinaria, tam poetica, devem mostrar-se como ainda não foram vistas, porque ainda não olhou para ellas ninguem com os olhos de grande moralista e de grande poeta que são precisos para as observar e intender.

Lembra-me que sempre entrevi isto desde pequeno, quando me faziam ler a historia de San'Domingos, tam rabujenta e semsabor ás vezes, apezar do incantado stylo do nosso melhor prosador; e que eu deixava os outros capitulos para ler e reler somente as aventuras do sancto feiticeiro que tanto me interessavam.

Com todas éstas reminiscencias que me reviviam n'alma, com os admiraveis versos do Fausto a acudir-me á memoria, e com uma infinidade de associações que essas ideas me traziam, caminhei direito á capella do sancto, cheio de alvorôço, e como tocado, para assim dizer, de sua magica vara de condão.

A capella―oh desappontamento! a cappella de San'Frei Gil é um mesquinho rifacimento moderno, do lado esquerdo da egreja, sem nenhum vestigio de antiguidade, nenhum ornato characteristico, pesada, grosseira―velha sem ser antiga―um verdadeiro non-descriptum de mau gôsto e semsaboria. Quem tal dissera?

O tumulo do sancto está elevado do altar n'uma especie de mau throno. Subi acima da degradada e profanada credencia para o examinar deperto.

É de pedra o jazigo; mas ultimamente ve-se que tinham pintado a pedra; não tem lavor algum.―E estava vazio, a loisa levantada e quebrada!..

Quem me roubou o meu sancto?

Quem foi o anathema que se atreveu a tal sacrilegio?..

CAPITULO XL.

As Claras.―Aventura nocturna.―Se as freiras mettem medo aos liberaes?―O Psalmo.―Tres frades.―Práctica do franciscano.―O corpo de San' Fr. Gil.―Que se hade fazer das freiras?―Mal do govêrno que deixar comer mais aos barões.

Èra de noite, reinava a confusão, a desordem, o susto e a anciedade nos muros de Santarem, tres homens chegavam, por horas mortas, ao antigo mosteiro das Claras, davam á portaria um signal surdo e mysterioso; respondiam-lhe de dentro com outro egual; e d'ahi a pouco, sem rumor e com as mais escrupulosas precauções se abria quietamente a porta da clausura.

Os tres homens entraram, a porta fechou-se sôbre elles do mesmo modo precatado.

Que será?

Os homens levavam uma especie de cofre que parecia conter preciosidades de grande valor: tal era o desvello com que o resguardavam.

Ha um mysterio que se figura criminoso n'esta aventura. Mas os tempos são para tudo.

Era no anno de 1834.

Entremos n'esse convento das pobres Claras, tam afflictas e desconsoladas agora que as ameaçam de dissolução como aos frades.

Não será assim: aquellas instituições não mettem medo aos verdadeiros liberaes, e os outros lá teem o espolio dos frades para devorar; estão entretidos: as freiras salvam-se porora.

Taes eram as esperanças dos tres homens que entravam a essas deshoras nos vedados precinctos do mosteiro. Sigamo-los porêm, que é tempo.

Chegavam elles a uma pequena capella do claustro das freiras, foram depor sôbre o altar o cofre que traziam, e ajoelharam devotamente deante d'elle. Logo se ouviu ao longe o psalmear baixo e sumido de vozes femininas; e d'ahi a pouco, toda a communidade das Claras, de tochas na mão, em duas alas, e a abbadessa com o seu baculo atraz, entravam processionalmente no claustro e se dirigiam á mesma capella.

O psalmo que cantavam era este:

[6]

'Meu Deus, vieram os barbaros ás tuas herdades, polluiram o teu sancto templo, pozeram Jerusalem como um grannel de fructos.

'Pozeram os cadaveres de teus filhos de cevo ás aves do ceo; as carnes dos teus sanctos ás alimarias da terra.

'O sangue d'elles derramaram-n'o como agua nos valles de Jerusalem; ja não havia quem sepultasse.

'Estamos feitos o oppróbrio dos nossos vizinhos; o escarneo e a zombaria dos que vivem por nossos arredores.

'Até aonde, ó Senhor, te hasde irar emfim; e se hade accender o teu zêlo como fogo?

'Vérte a tua íra sôbre as gentes que te não conheceram, contra os reinos que não invocaram o teu nome;

'Que devoraram a Jacob; e desolaram suas terras.

'Não te lembres de nossas iniquidades passadas, e depressa nos alcancem as tuas misericordias; ja que tam pobres de mais estamos.

'Ajuda-nos Deus, salvador nosso; e pela gloria do teu nome livra-nos, Senhor, amercea-te de nossos peccados por causa do teu nome.'

Cantavam assim as pobres das freiras, cantavam em latim que ellas mal intendiam; mas dizia-lhes o instincto do coração, dizia-lhes a tam excitavel imaginação feminina, que era chegada a hora de se cumprir a seus olhos, e sôbre ellas mesmas tambem, a tremenda prophecia do psalmo que intoavam.

Havia pois lagrymas n'aquellas vozes que assim cantavam, sahiam d'alma aquelles sons e n'alma vibravam tambem com profunda e solemne melancholia.

Chegadas juncto á capella aonde estava o cofre, as freiras pararam conservando as mesmas duas alas da procissão e continuando no accentuado mormúrio de seu psalmo.

Os tres vultos de homem permaneceram de joelhos e curvados deante do altar.

Findou o psalmo e seguiu-se breve intervallo de silencio. Depois, os tres homens levantaram-se, e cahindo-lhes para os lados as longas capas em que vinham involtos, viu-se que o do meio era um frade velho, magro, curvado e sêcco, trajando ainda, apezar da lei, o burel preto dos franciscanos e cingido com sua corda. Os outros dous eram dominicos e vestiam de preto e branco segundo as côres de seu tambem proscripto instituto.

O velho franciscano subiu com passo trémulo os degraus do altar, beijou o cofre que estava sôbre elle, e voltando-se para a communidade que o contemplava em religioso silencio, disse com uma voz cava que parecia vir do sepulchro mas accentuada e forte:

'Irmans, vimos intregar-vos este depósito precioso. Deus não quer que os cadaveres dos seus sanctos fiquem expostos ás aves do ceo e ás alimarias da terra. Este é o sancto corpo de um dos maiores sanctos que produziu ésta terra de Portugal quando era abençoada. Hoje é malditta e não devia conservar as suas reliquias. Os filhos de San'Domingos foram expulsos de sua casa, assim como nós fomos, nós os filhos de Francisco, incontrámo'nos sem tecto nem abrigo uns e outros, e junctámos as nossas miserias para as chorarmos como irmãos que somos, como filhos de paes que tanto se amaram e ajudaram. Perigrinaremos junctos por essas solidões da terra, e junctos iremos bater por essas portas que cerrou a impiedade e a indifferença, a pedir o pão de cada dia porque temos fome.

'Que importa! não professâmos nós, não nos honrâmos nós de ser mendigos? De que vivêmos nós sempre senão de esmolla?

'Não choreis irmans, não choreis sôbre nós. Deus que o permittiu bem sabe o que fez. Louvado seja elle sempre! Nós tinhamos peccados para mais! Ainda foi misericordioso comnosco o Senhor da justiça e do castigo.

'A nós tiraram-nos tudo, tudo! Até éstas mortalhas que tinhamos escolhido em vida e que nem a morte ousava roubar-nos.

'A furto e como quem se esconde para um acto criminoso, nós as vestimos ésta noite para commetter o que elles chamarão um furto, e que era uma obrigação sagrada nossa.

'Fomos á antiga casa de nossos irmãos e roubámos o corpo do bemaventurado San'Frei Gil.

'Aqui vo-lo intregâmos; guardae-o. Emquanto estes muros estiverem em pe, que o abriguem dos desacatos d'essa gente sem Deus nem lei. A vós não ousarão expulsar-vos d'aqui: talvez vos matem á fome... Não póde ser: Deus não hade permitti-lo.

'Mas qualquer que seja a sua vontade, resignae-vos a ella, minhas irmans. So elle sabe como nos ama e como nos castiga. Louvemo'-lo por tudo.'

Aqui foi um chorar e um supplicar fervente como so se ouve na hora da angústia.

As afflictas monjas, estavam prostradas nas lages humidas do claustro, sôbre as sepulturas de suas irmans, sôbre seus proprios jazigos que haviam de ser. O frade com os braços extendidos pronunciou as solemnes palavras de benção, descrevendo com a direita o augusto symbolo da redempção:

'Bemdiga-vos Deus omnipotente, Pae, Filho e Espirito-sancto!' 'Amen!' respondeu o côro; e os tres proscriptos se retiraram, deixando a salvo o seu thesoiro.

Assim desappareceu do tumulo o corpo de San'Frei Gil de Santarem.

Ninguem sabía d'elle: soube eu e guardei o segredo religiosamente.

Os tempos são outros hoje: os liberaes ja conhecem que devem ser tolerantes, e que precisam de ser religiosos. Não ha perigo em dizer-lhe onde elle está.

Quando houver em Portugal um govêrno que saiba ser govêrno, hade regular e consolidar a existencia das freiras, hade approveitá-la para as piedosas instituições do insino da mocidade, da cura dos infermos, e do amparo dos invalidos.

Os barões andam-lhe com o cheiro nos poucos bens que lhes restam ás pobres das freiras. Mal do govêrno que deixar comer mais aos barões!

CAPITULO XLI.

O roubador do corpo do sancto descuberto pela arguta perspicacia do leitor benevolo.―Grande lacuna na nossa historia.―Porque se não preenche?―Página preta na historia de Tristam Shandy.―Novellas e romances, livros insignificantes.―O adro de San'Francisco e as suas acacias.―Que será feito de Joanninha?―O peito da mulher do norte.―Vamos embora: ja me infada Santarem e as suas ruinas.―A corneta do soldado e a trombeta do juizo final.―Eheu, Portugal, eheu!

Porcerto, leitor amigo, no franciscano velho que vai de noite roubar os ossos do sancto ao seu tum Porcerto, leitor amigo, no franciscano velho que vai de noite roubar os ossos do sancto ao seu tumulo, e os vem esconder na clausura das freiras, porcerto, digo, reconheceu ja a tua natural perspicacia ao nosso Frei Diniz, o frade por excellencia―frade por teima e acinte.

Pois esse era, não ha dúvida.

Assim se passou aquella scena e assim m'a contaram. Do que mediára entre ella e o acontecido com o frade, Carlos, Joanninha, a avó e a ingleza, d'isso é que nada pude saber.

É uma grande lacuna na nossa historia; mas antes fique assim do que enchê-la de imaginação.

Oh! eu detesto a imaginação.

Onde a chronica se calla e a tradição não falla, antes quero uma pagina inteira de pontinhos, ou toda branca―ou toda preta, como na veneravel historia do nosso particular e respeitavel amigo Tristão Shandy, do que uma so linha da invenção do chroniqueiro.

Isso é bom para novellas e romances, livros insignificantes que todos leem todavia, ainda os mesmos que o negam.

Eu tambem me parece que os leio, mas vou sempre dizendo que não...

Emfim, tornemos ao frade, e tornemos ás minhas viagens.

Cheio d'elle e da sua memoria, palpitando com a recordação das tremendas scenas que, havia tam poucos annos, se tinham passado em seu antigo mosteiro, eu me approximei emfim do real convento de San'Francisco de Santarem.

Dei pouca attenção ao bello adro e á solemne vista que d'elle se descobre―e menos ainda ás doentias acacias que ahi vejetam infezadas e rachiticas, como plantadas de má mão e em má hora―porque môças são ellas, é visivel: poseram-n'as ahi depois de extincto o convento. São triste mas verdadeiro symbolo da apagada e facticia vida que se quiz dar ao que era morto.

Vamos dentro, e vejamos pelas baixas e aguçadas arcadas do claustro, pelas altas naves do templo se descubrimos algum vestigio do último guardião d'esta casa, e d'essa fadada familia cujo destino em hora aziaga tam estreitamente se ligou com o d'elle.

Ja me interessa isto mais, confesso, ai! muito mais, do que todos esses tumulos e inscripções que por ahi estão, e que tanto characterizam este um dos mais antigos e mais historicos edificios do reino.

Mas em vão interrogo pedra a pedra, lage a lage: o echo morto da solidão responde tristemente ás minhas perguntas, responde que nada sabe, que esqueceu tudo, que aqui reina a desolação e o abandôno, e que se apagaram todas as lembranças de outro estado...

Que foi feito de ti, Joanninha, e dos teus amores? Que será feito d'esse homem que ousou amar-te amando a outra? E essa outra onde está? Resignou-se ella devéras? Sepultou comeffeito, sob o gêlo apparente que veste de triplice mas falsa armadura o peito da mulher do norte, todo aquelle fogo intenso e íntimo que solapadamente lhe devora o coração?

Não tenho esperanças de saber nada d'isso aqui.

So pude descubrir que, no dia immediato á scena nocturna das Claras, Fr. Diniz sahiu de Santarem, não se sabe em que direcção―que n'esse mesmo dia Georgina sahíra tambem pela estrada de Lisboa, levando em sua carruagem a avó e a neta, ambas meias mortas e ambas meias loucas―que não houvera mais novas de Carlos―e que a sua última carta, aquella que escrevêra de juncto d'Evora, Joanninha a levava apertada nas mãos convulsas quando partíra.

Pois tambem eu me quero partir, me quero ir embora. Ja me infada Santarem, ja me cansam éstas perpétuas ruinas, estes pardeiros interminaveis, o aspecto desgracioso d'estes intulhos, a tristeza d'estas ruas desertas. Vou-me embora.

E comtudo San'Francisco é uma bella ruina, que merecia examinada de vagar, com outra paciencia que eu ja não tenho.

Se tudo me impacienta aqui!

Da bella egreja gothica, fizeram uma arrecadação milítar; andou a mão destruidora do soldado quebrando e abolando esses monumentos preciosos, riscando com a baioneta pelo verniz mais pulido e mais respeitado d'esses jazigos antiquissimos: os lavores mais delicados esmoucou-os, degradou-os. Levantaram as lages dos sepulchros; e ao som da corneta militar acordaram os mortos de seculos, cuidando ouvir a trombeta final...

Decididamente vou-me embora, não posso estar aqui, não quero ver isto. Não é horror que me faz, é náusea, é asco, é zanga.

Maldittas sejam as mãos que te profanaram, Santarem... que te deshonraram, Portugal... que te invilleceram e degradaram, nação que tudo perdeste, até os padrões da tua historia!..

Eheu, eheu, Portugal!

CAPITULO XLII.

Protesto do auctor.―Desaffinação dos nervos.―O que é preciso para que as ruinas sejam solemnes e sublimes.―Que Deus está no Colliseu assím como em San'Pedro.―Quer-se o auctor ir embora de Santarem.―Como, sem ver o tumulo d'elrei D. Fernando?―Em que estado se acha este.―Exemplar de stylo byzantino.―Coroa real sôbre a caveira.―O rei d'espadas e o symbolo do imperio.―Quem nunca viu o rei cuida que é de oiro.―Brutalidades da soldadesca n'um tumulo real.―O que se acha nas sepulturas dos reis.―A phrenologia.―Vindicta publica, tardia mas ultrajante.―Camões e Duarte Pacheco.―A sombra falsa da religião.―Regimen dos barões e da materia.―A prosa e a poesia do povo.―Synthese e analyse.―O senso íntimo.―Se o auctor é demagogo ou Jesuita?―Jesu Christo e os barões.

Não chamem exaggerado ao que vai escripto no fim do último capitulo; senti o que escrevi, senti muito mais do que escrevi. O que poderá haver é desacêrto nas palavras, porque em verdade não sei explicar a impressão que me faz uma ruina n'este estado. Desaffinam-me os nervos, vibram-me n'uma discordancia e dissonancia insupportavel. Queria ver antes estes altares expostos ás chuvas e aos ventos do ceo,―que o sol os queimasse de dia,―que á noite, á luz branca da lua, ou ao tibio reflexo das estrellas, piasse o mocho e sussurrasse a coruja sôbre seus arcos meio-cahidos.

Não me parecia profanado o templo assim, nem descahido de majestade o monumento. Podia ajoelhar-me no meio das pedras sôltas, entre as hervas humidas, e levantar o meu pensamento a Deus, o meu coração á glória, á grandeza, o meu espirito ás sublimes aspirações da idealidade. O material, o grosseiro, o pesado da vida não me vinham affligir ahi.

Deus, a idea grande do mundo―Deus, a Razão Eterna―Deus, o amor―Deus, a glória―Deus, a fôrça, a poesia e a nobreza d'alma―Deus está nas ruinas escalavradas do Colliseu, como nos zimborios de bronze e marmore de San'Pedro.

Mas aqui!.. nos pardeiros de um convento velho, concertado pelas Obras-públicas para servir de quartel de soldados―aqui não habita espirito nenhum.

Quero-me ir embora d'aqui!

E como? sem ver o tumulo d'elrei Fernando? Não póde ser, é verdade.

Onde está elle?

No côro alto.

Subamos ao côro alto.

Oh! que não sei de nôjo como o conte!

O bello jasigo do rei formoso e frivolo, tam dado ás delicias do prazer como foi seu pae ás austeridades da justiça, em que estado elle está!

Oh nação de barbaros! Oh malditto povo de iconoclastas que é este!

O tumulo do segundo marido de D. Leonor Telles é um sarcophago de pedra branca, fina e friavel, elegante e simplesmente cortada, com mais sobriedade de ornatos do que tem de ordinario os monumentos do seculo XIV, mas de uma acabada sculptura, casta e continente, como o não foi a vida do rei que ahi incerraram depois de morto.

Percebem-se ainda vestigios das vivas côres em que foram induzidos os relevos da pedra branca:―stylo byzantino de que não sei outro exemplar em Portugal. Este é―ou antes, era―precioso.

Era; porque a brutalidade da soldadesca o deturpou a um ponto incrivel. Imaginou a estupida cubiça d'estes Allanos modernos que devia de estar alli dentro algum grande haver de riquezas incantadas,―talvez cuidaram achar sôbre a caveira do rei a coroa real marchetada de perolas e rubis com que fosse interrado,―talvez pensaram incontrar appertado ainda entre as sêccas phalanges dos dedos myrhados, aquelle globo de oiro macisso que lhes figura o rei d'espadas do sujo baralho de sua tarimba, e que elles teem pela indisputavel e infallivel insignia do supremo imperio;―talvez supposeram que mesmo depois de morto, um rei devia de ser de oiro... Emfim quem sabe o que elles cuidaram e pensaram? O que se sabe, porque se ve, é que quizeram abrir e arrombar o tumulo. Tentaram, primeiro, levantar a campa; não poderam: tam solidamente está soldada a pedra decíma ao corpo ou caixão do jazigo, que o todo parece macisso e inconsutil. Mas n'este impenho quebraram e estallaram os lavores finos dos cantos, os caireis delicados das orlas; e a campa não cedeu: parece chumbada pelo anjo dos últimos julgamentos com o sêllo tremendo que so se hade quebrar no dia derradeiro do mundo.

A cubiça estolida dos soldados não se aterrou com a religião do sepulchro, nem lhe causou attrição, ao menos, ésta resistencia quasi sobrenatural das pedras do moimento. Ve-se que trabalhou alli, de alavanca e de ariete, algum possante e ponderoso pé-de-cabra; mas que trabalhou em vão muito tempo.

Desinganaram-se emfim com a tampa; e resolveram atacar, mais brutalmente mas com mais vantagem, as paredes do sarcophago, que justamente suspeitaram de menos espessos. Assim era; e conseguiram na parede da frente abrir um rombo grosseiro por onde entra facil um braço todo e póde explorar o interior do tumulo á vontade.

Assim o fiz eu, que metti o meu braço por essa abertura barbara, e achei terra, pó, alguns ossos de vertebras, e duas caveiras, uma de homem, outra de criança.

Não me lembra que haja memoria alguma de infante que ahi fosse sepultado tambem, segundo faziam os antigos muitas vezes que punham os cadaveres das crianças nos jazigos dos paes, dos parentes, até de meros amigos de suas familias.

Tive, confésso, uma especie de prazer maligno em imaginar a estupida compridez de cara com que deviam de ficar os brutaes profanadores, quando achassem no tumulo do rei o que so teem os tumulos―de reis ou de mendigos―ossos, terra, cinza, nada!

Por mim, estive tentado a furtar a caveira d'elrei D. Fernando. Se acreditasse na phrenologia, parece-me que não tinha resistido. Não creio na sciencia, felizmente―n'este caso―para a minha consciencia. Tambem não sei o que faria se a caveira fosse de outro homem. Mas o 'fraco rei' que fez 'fraca a forte gente' não são reliquias as suas que se guardem.

Oh! e quem sabe? Ésta profanação, este abandôno, este desacato do tumulo de um rei, alli na sua terra predilecta―D. Fernando era santareno de affeição―não será elle o juizo severo da posteridade, a vindicta pública dos seculos, que tardia mas ultrajante, cai emfim sôbre a memoria reprovada do mau principe, e lhe deshonra as cinzas como ja lhe deshonrára o nome?

Quero acreditar que tal não podia succceder aos tumulos de D. Diniz, de D. Pedro I, dos dois Joannes I e II, de...

Sim: e aonde está o de Camões? O de Duarte Pacheco aonde

esteve

? que ainda é mais vergonhosa pergunta ésta última.

Em Portugal não ha religião de nenhuma especie. Até a sua falsa sombra, que é a hypocrisia, desappareceu. Ficou o materialismo estupido, alvar, ignorante, devasso e desfaçado, a fazer gala de sua hedionda nudez cynica no meio das ruinas profanadas de tudo o que elevava o espirito...

Uma nação grande ainda poderá ir vivendo e esperar por melhor tempo, apezar d'esta paralysia que lhe pasma a vida d'alma na mais nobre parte de seu corpo. Mas uma nação piquena, é impossivel; hade morrer.

Mais dez annos de barões e de regimen da materia, e infallivelmente nos foge d'este corpo agonizante de Portugal o derradeiro suspiro do espirito.

Creio isto firmemente.

Mas ainda espero melhor todavia, porque o povo, o povo povo, está são: os corruptos somos nós os que cuidâmos saber e ignorâmos tudo.

Nós, que somos a prosa vil da nação, nós não intendemos a poesia do povo; nós, que so comprehendemos o tangivel dos sentidos, nós somos extranhos ás aspirações sublimes do senso-íntimo que despreza as nossas theorias presumpçosas, porque todas veem de uma acanhada anályse que procede curta e mesquinha dos dados materiaes, insignificantes e imperfeitos;―em quanto elle, aquelle senso-íntimo do povo, vem da Razão divina, e procede da synthese transcendente, superior, e inspirada pelas grandes e eternas verdades que se não demonstram porque se sentem.

E eu que escrevo isto serei eu demagogo? Não sou.

Serei fanatico, jesuita, hypocrita? Não sou.

Que sou eu então?

Quem não intender o que eu sou, não vale a pena que lh'o diga...

Perdoa-me, leitor amigo, uma reflexão última no fim d'este capítulo ja tam seccante, e prometto não reflectir nunca mais.

Jesu Christo, que foi o modêlo da paciencia, da tolerancia, o verdadeiro e unico fundador da liberdade e da egualdade entre os homens, Jesu Christo soffreu com resignação e humildade quantas injustiças, quantos insultos lhe fizeram a elle e á sua missão divina; perdoou ao matador, á adúltera, ao blasphêmo, ao impio. Mas quando viu os barões a agiotar dentro do templo, não se pôde conter, pegou n'um azorrague e zurziu-os sem dor.

CAPITULO XLIII.

Partida de Santarem.―Pinacotheca.―Impaciencia e saudades.―Sexta-feira.―Martyrio obscuro.―A figura do peccado.―Estamos no valle outra vez.―Evocação de incanto.―A irman Francisca e Fr. Diniz.―A teia de Penelope.―E Joanninha?―Joanninha está no ceo.―A mulher morta a dobar esperando que a interrem.―A esperança, virtude do christianismo.―Uma carta.

Estou devéras fatigado de Santarem; vou-me embora.

Despedimo'-nos saudosos d'aquella boa e leal familia que nos hospedára com tanto carinho, com toda a velha cordialidade portugueza; partimos.

Apenas comecei a respirar o ar fresco da manhan nos olivaes, senti desaffogar-se-me alma d'aquella constricção cansada que se experimenta na longa visita a um museu de antiguidades, a uma galeria de pinturas.

Perdoem-me que não diga 'pinacotheca': bem sei que é moda, e que a palavra é adoptavel segundo as mais strictas regras de Horacio, pois 'cai da fonte grega' direitamente e sem mistura: mas soa-me tam mal em portuguez que não posso com ella.

Santarem fatigou-me o espirito, como todas as coisas que fazem pensar muito. Deixo-a porêm com saudade, e não me heide esquecer nunca dos dias que aqui passei.

De quê e como sou eu feito, que não posso estar muito tempo n'um logar, e não posso sahir d'elle sem pena?

Ja me está custando ter deixado Santarem. Porque não haviamos de partir ámanhan, e ter ficado ainda hoje alli?

E hoje que é sexta-feira?... Mau dia para começar viagem!

Sexta-feira! Era o dia aziago do nosso valle, da pobre velha cega que ahi vivia sua triste vida de dores, de remorsos e desconfôrto, esperando porêm em Deus, conformada com seu martyrio: martyrio obscuro, mas tam insanguentado d'aquelle sangue que mana gotta a gotta e dolorosamente do coração rasgado, devorado em silencio pelo abutre invisivel de uma dor que se não revela, que não tem prantos nem ais.

Era na sexta-feira que o terrivel frade, o demonio vivo d'aquella mulher de angústias, lhe apparecia tremendo e espantoso deante de seus olhos cegos, elevado pela imaginação ás proporções descommunaes e gigantescas de um vingador sobrenatural.

Era a figura tangivel, e visivel á vista de sua alma, do enorme peccado que contra ella estava sempre.

Creio que escuso dizer que não tenho eu ésta superstição dos dias aziagos que tinha a desgraçada velha, que a sua Joanninha partilhava. Mas confesso que, recordando as fatalidades d'aquella familia e d'aquelle dia, não gostei de voltar n'elle ao valle de Santarem.

Estavamos porêm no valle; e ja eu via de longe aquellas árvores e aquella janella que tanto me impressionaram, quando éstas reflexões me acudiam ao espirito e m'o contristavam.

Affrouxei insensivelmente o passo, deixei tomar larga dianteira aos meus companheiros de viagem; e quando chegava perto da casa, tinha-os perdido de vista.

Involuntariamente parei defronte da janella; mordia-me um interêsse, uma curiosidade irresistivel... Nem viva alma por aquelles arredores; apeei-me e fui direito para a casa.

Apenas passei as árvores, um spectaculo inesperado, uma evocação como de incanto me veio ferir os olhos.

No mesmo sítio, do mesmo modo, com os mesmos trajos e na mesma attitude em que a descrevi nos primeiros capitulos d'esta historia, estava a nossa velha irman Francisca...

Ella era, e não podia ser outra; sentada na sua antiga cadeira, dobando, como Penelope tecia, a sua interminavel meada. Não havia outra differença agora senão que a dobadoira não parava, e que o fio seguia, seguia, inrollando-se, inrollando-se contínuo e compassado no novêllo; e que os braços da velha lidavam lentamente mas sem cessar no seu movimento de authomato que fazia mal ver.

Defronte d'ella, sentado n'uma pedra, a cabeça baixa, e os olhos fixos n'um grosso livro velho, que sustinha nos joelhos, estava um homem sêcco e magro, descarnado como um esqueleto, livido como um cadaver, immovel como uma estátua. Trajava um non-descriptum negro, que podia ser sotana de clerigo ou tunica de frade, mas descingida, sôlta, e pendente em grossas e largas pregas do extenuado pescosso do homem.

Tambem não podia ser senão Frei Diniz.

Cheguei juncto d'elles; não me sentiu nenhum dos dois; nem me viu elle, o que so via dos dois.

Sem mais reflexão, e continuando alto na serie de pensamentos que me vinha correndo pelo espirito, exclamei:

―'E Joanninha?'

―'Joanninha está no ceo':―respondeu sem sobresalto, sem erguer os olhos do seu livro, a sombra do frade―que outra coisa não parecia.

―'Joanninha, pobre Joanninha! Pois como foi, como acabou a infeliz?'

―'Joanninha não é infeliz: foi ser anjo na presença de Deus.'

―'E... e Carlos?' balbuciei eu hesitando, porque temia a susceptibilidade do frade.

―'Carlos!' respondeu elle erguendo emfim os olhos e cravando-os em mim...

E oh! que nunca vi olhos como aquelles, nem os heide ver!

―'Carlos!... E quem é que m'o pergunta? quem é que tanto sabe de mim e dos meus?.. Dos meus! Eu não tenho meus: sou so.'

―'So! Não está aqui, que eu vejo?..'

―'Ve essa mulher morta que ahi ficou, que a matei eu, e que aqui está á espera que dê a hora de a eu interrar, mais nada. Eu estou so e quero estar so. Morreu tudo. Que mais quer saber?'

―'Venho de Santarem...'

―'Santarem tambem morreu; e morreu Portugal. Aqui não, vive senão o meu peccado, que Deus não perdoou ainda, nem espero...'

―'A nossa religião fez uma virtude da esperança.'

―'Fez.'

―'E n'isso se distingue das outras todas.'

―'Pois ainda ha quem o saiba n'esta terra?'

―'Ha mais do que não houve nunca―pelo menos ha mais quem o saiba melhor.'

―'Póde ser: os juizos de Deus são incomprehensiveis.'

―'E infinita a sua misericordia.'

―'Mas a sua cholera implacavel, a sua justiça tremenda.'

―'A misericordia é maior.'

―'Quem lhe insinou tudo isso?'

―'O evangelho, o coração, e minha mãe que m'os explicou ambos.'

―'Sente-se aqui... aopé de mim.'

Sentei-me. O frade pegou-me na mão com as suas ambas, e pôs-me os olhos com uma expressão que nenhuma lingua póde dizer, nem nenhum pincel pintar.

Esteve assim algum tempo, como quem me observava. Vi-lhe apontar claramente uma lagryma, vi-lh'a retroceder, e ficarem-lhe inchutos os olhos. Senti-lhe estrangular um suspiro que lhe vinha á garganta; percebi distinctamente o estremeção que lhe correu o corpo; mas observei que todo se serenou depois.

Disse-me então com voz magoada mas placida e sem aspereza ja nenhuma:

―'Sabe a historia do valle?'

―'Sei tudo até á partida de Carlos para Evora.'

―'Aqui tem a carta que elle escreveu.'

Tirou do breviario um papel dobrado, amarello do tempo, e manchado, bem se via, de muitas lagrymas, algumas recentes ainda.

―'Leia.'

Li.

Ésta era a carta de Carlos.

CAPITULO XLIV.

Carta de Carlos a Joanninha.

Evora-monte... de maio de 1834.

É a ti que escrevo, Joanna, minha irman, minha prima, a ti so.

Com nenhum outro dos meus não posso nem ouso fallar.

Nem eu ja sei quem são os meus: confunde-se, perde-se-me ésta cabeça nos desvarios do coração. Errei com elle, perdeu-me elle... Oh! bem sei que estou perdido.

Perdido para todos, e para ti tambem. Não me digas que não; tens generosidade para o dizer, mas não o digas. Tens generosidade para o pensar, mas não pódes evitar de o sentir.

Eu estou perdido.

E sem remedio, Joanna, porque a minha natureza é incorrigivel. Tenho energia de mais, tenho podêres de mais no coração. Estes excessos d'elle me mataram... e me matam!

Tu não comprehendes isto, Joanninha, não me intendes decerto; e é difficil.

Es mulher, e as mulheres não intendem os homens. Sempre o entrevi, hoje sei-o perfeitamente. A mulher não póde nem deve comprehender o homem. Triste da que chega a sabê-lo!..

E d'ahi... quando se tem de morrer, antes saber a morte de que se morre, do que expirar na ignorancia do mal que nos matou.

Tu es joven e inexperiente, a tua alma está cheia de illusões doces; vou dissipar-t'as em quanto se não condensam, que te offusquem a razão e te deixem para sempre escrava cega do maior inimigo que temos, o coração.

Quero contar-te a minha historia: verás n'ella o que vale um homem.

Sabe que os não ha melhores que eu; e tam bons, poucos. Olha o que será o resto!

Tu não ignoras ja hoje o porque fugi da casa materna: sabía-a manchada de um grande peccado, e imaginei-a polluida de um enorme crime.

Esse homem que é meu pae, não o podia ver; hoje que sei o que me elle é... Deus me perdoe, que ainda o posso ver menos!

Minha avó, julguei-a cumplice no crime; ella so o era no peccado. Perdoe-lhe Deus; e bem póde e bem deve, ja que a fez tam fraca. Minha pobre mãe succumbiu por sua culpa, por sua irremissivel complacencia...

Deus póde e deve, repitto... mas eu, como lhe heide perdoar eu este rubor que sinto nas faces ao nomear minha mãe?

Tem padecido e soffrido muito... coitada! A sua penitencia é um martyrio, a sua velhice uma longa paixão, e esse homem que a perdeu um verdugo sem piedade. Mas tudo isso é com Deus, não é commigo.

Eu sou filho; minha mãe morreu sem perdoar―não posso perdoar eu.

E quem me hade perdoar a mim? Ninguem, nem quero.

Não serás tu, minha irman; não, que não deves. Porque eu amei-te com um coração que ja não era meu; acceitei o teu amor sem o merecer, sem o podêr possuir, trahi quando te amava, menti quando t'o disse, menti-te a ti, menti-me a mim, e não guardei verdade a ninguem.

Mas espera, ouve; deixa-me ver se posso atar o fio d'esta minha incrivel historia―incrivel para ti, bem simples para quem conheça o coração do homem.

Sahi de Portugal, e posso dizer que não tinha amado ainda. Inclinações de criança, galanteios de sociedade, ligações que nasceram da vaidade, ou que so os sentidos alimentam, não merecem o nome de amor.

Eu não tinha amado.

Ha tres especies de mulheres n'este mundo: a mulher que se admira, a mulher que se deseja, e a mulher que se ama.

A belleza, o espirito, a graça, os dotes d'alma e do corpo geram a admiração.

Certas fórmas, certo ar voluptuoso criam o desejo.

O que produz o amor não se sabe; é tudo isto ás vezes, é mais do que isto, não é nada d'isto.

Não sei o que é; mas sei que se póde admirar uma mulher sem a desejar, que se póde desejar sem a amar.

O amor não está definido, nem o póde ser nunca. O amor verdadeiro; que as outras coisas não são isso.

Eu vivi poucos mezes em Inglaterra; mas foram os primeiros que posso dizer que vivi. Levou-me o acaso, o destino―a minha estrella, porque eu ainda creio nas estrellas, e em pouco mais d'este mundo creio ja―levou-me ao interior de uma familia elegante, ricca de tudo o que póde dar distincção n'este mundo.

Extranhei aquelles habitos de alta civilização, que me agradavam comtudo; moldei-me facilmente por elles, affiz-me a vejetar docemente na branda atmosphera artificial d'aquella estufa sem perder a minha natureza de planta extrangeira. Agradei: e não o merecia. No fundo d'alma e de character eu não era aquillo por que me tomavam. Menti: o homem não faz outra coisa. Eu detesto a mentira, voluntariamente nunca o fiz, e todavia tenho levado a vida a mentir.

Menti pois, e agradei porque mentia. Sancto Deus! para que sahiria a verdade da tua bôcca, e para que a mandaste ao mundo, Senhor?

Havia tres meninas n'aquella familia. Dizer que eram as tres graças é uma vulgaridade cansada, e tam bannal que não dá idea de coisa alguma. Tres anjos seriam; tres anjos posso dizer com mais propriedade. E quando em nossos longos passeios solitarios, por aquelles campos sempre verdes, por aquellas collinas coroadas de arvoredo, tapessadas de relva macia, os seus vestidos brancos, singelos, simples, trajados sem arte, fluctuavam com a brisa da tarde... e os longos anneis de seus cabellos―os de uma eram loiros, os de outra castanhos, não ha nome para a indefinida côr dos da terceira―quando esses longos anneis descahiam de sua ondada spiral com o orvalho humido do crepusculo―e que a essa luz vaga e mysteriosa eu as contemplava todas tres com adoração e recolhimento devoto d'alma―sinceramente exclamava: 'São tres anjos celestes que é forçoso adorar!..'

E assim é que os adorava os tres anjos, todos tres, e não podia adorar um sem os outros.

Que me queriam ellas, é certo; que insensivelmente se habituaram á minha companhia e ja não podiam viver sem ella... ai! era preciso ser um monstro para o não confessar com lagrymas de gratidão e de remorso.

Os mais difficeis e delicados apices da perfeição de sua tam caprichosa e tam expressiva lingua, as bellezas mais sentidas de seus auctores queridos, o espirito e tom difficil de sua sociedade tam desdenhosa e fastienta, mas tam completa e tam calculada para sublimar a vida e a desmaterializar―isso tudo, e um indefinivel sentimento do

gentil

, que so com natural tacto se adquire, é verdade, mas que se não alcansa com elle so―isso tudo o apprendi alli das suaves licções que insensivelmente recebia a cada instante.

Se valho alguma coisa, tudo valho por ellas; se tenho merecido alguma consideração no mundo, toda lh'a devo.

Ves que confesso a dívida, verás como a paguei.

O tom perfeito da sociedade ingleza inventou uma palavra que não ha nem póde haver n'outras linguas emquanto a civilização as não aparar.

To flirt

é um verbo innocente que se conjuga alli entre os dois sexos, e não significa

namorar

―palavra grossa e absurda que eu detesto―não significa 'fazer a côrte'; é mais do que estar amavel, é menos do que galantear, não obriga a nada, não tem consequencias, começa-se, acaba-se, interrompe-se, addia-se, continúa-se ou descontinúa-se á vontade e sem compromettimento.

Eu

flartava

, nós

flartavamos

ellas

flartavam

...

E não ha mais doce nem mais suave intertenimento d'espirito do que o

flartar

com uma elegante e graciosa menina ingleza; com duas é prazer angelico, e com tres é divino.

Para quem nasceu n'aquillo, não é perigoso; para mim degenerou, breve, aquella placida sensação em mais profundo sentimento.

Veio a admiração primeiro.

E como as eu admirava todas tres as minhas gentis fascinadoras!

E ellas conheciam-n'o, riam, folgavam e estavam incantadas de me incantar.

Fizeram nascer os desejos!

Julguei-me perdido, e quiz fugir.

Não me deixaram e zombaram de mim, da ardencia do meu sangue hespanhol, da vehemencia das minhas sensações...

Em breve eu amava perdidamente uma d'ellas―queria muito ás outras duas; mas amar, amar devéras, d'alma cuidava eu, de coração ia jurá-lo, era a segunda―Laura, a mais gentil, mais nobre, mais elegante e radiosa figura de mulher que creio que Deus moldasse n'uma hora de verdadeiro amor de artista que se dignou tomar por esse pouco de greda que tinha nas mãos ao formá-la.

CAPITULO XLV.

Carta de Carlos a Joanninha: continúa.

Laura não era alta nem baixa, era forte sem ser gorda, e delicada sem magreza. Os olhos de um côr-de-avelan diaphano, puro, avelludado, grandes, vivos, cheios de tal majestade quando se iravam, de tal doçura quando se abrandavam, que é difficil dizer quando eram mais bellos. O cabello quasi da mesma côr tinha, demais, um reflexo dourado, vacillante, que ao sol resplandecia, ou antes, relampejava,―mas a espaços, não era sempre, nem em todas as posições da cabeça:―cabeça pequena, modelada no mais classico da statuaria antiga, poisada sôbre um collo de immensa nobreza, que harmonizava com a perfeição das linhas dos hombros.

A cintura breve e estreita, mas sem exaggeração, via-se que o era assim por natureza e sem a menor contrafeição d'arte. O pé não tinha as exiguidades fabulosas da nossa peninsula, era proporcionado como o da Venus de Medicis.

Tenho visto muita mulher mais bella, algumas mais adoraveis, nenhuma tam fascinante.

Fascinante é a palavra para ella.

O rosto oval e perfeitamente symetrico, pallido; so os beiços eram vermelhos como a rosa de côr mais viva.

A expressão de toda ésta figura é que se não descreve. A bôcca breve e fina surria pouco; mas quando surria, oh!..

Ve-la n'um baile, vestida e calçada de branco, cingida com um cinto de vidrilhos pretos―toilete inalteravel para ella desde certa epocha―sem mais ornato, sem mais flores, apenas um farto fio de perolas derramando-se-lhe pelo collo―era ver alguma coisa de superior, de mais sublime que uma simples mulher.

Tal era Laura, Laura que eu amei quanto podia e sabía amar. Era pouco, sei-o agora; entao parecia-me infinito.

Disse-lh'o a ella, disse-lh'o um dia que passeavamos sós, e depois de andarmos horas e horas esquecidas, sem trocar uma phrase. Pensavamos, eu n'ella, ella não sei em quê.

Sería em mim?

Sería mas não m'o confessou.

E ouviu-me sem dizer palavra, sem olhar para mim uma so vez, sem fugir com a mão que lhe eu appertava, que lhe beijava, e que sentia fria e humida nas minhas que escaldavam.

Era tarde, dirigimo'-nos para casa. Á porta disse-me: 'Não entre'; e vi-a banhada em lagrymas. Quiz segui-la, fez-me um gesto imperioso que me confundiu. Pela primeira vez, depois de tanto tempo, fui so, triste e melancholico para a minha pobre habitação, onde passei a noite.

Quando era madrugada quiz-me deitar. Não dormi.

No dia seguinte recebi uma carta de Julia: assim se chamava a mais velha, a mais sensivel e a mais carinhosa das tres irmans.

O bilhete parecia indifferente; não continha senão palavras usuaes, pedia-me que fosse almoçar com ella... não fallava nas irmans.

Senti que era chegada a minha hora, pareceu-me que ia ser expulso d'aquelle Eden de innocencia em que tinha vivido. A lettra de Julia, uma lettra linda, perfeita, natural, figurava-se-me um aggregado de signaes caballisticos terriveis que incerravam o mysterio da minha condemnação.

Vesti-me, fui, achei-me so com Julia no

parlour

elegante de seu exclusivo uso.

Era um pequeno gabinete de estudo, ornado somente de umas

etagères

com livros e musicas, uma harpa e um cavallete.

Sôbre o cavallete estava o meu retratto esboçado, na estante da harpa uma romança franceza a que eu tinha feito lettras portuguezas...

A urna asoviava sôbre a mesa, Julia fazia o cha e não parecia attender a mais nada.

É preciso que eu te descreva a piquena Julia―Julietta como nós lhe chamavamos―nós, as duas irmans e eu que rivalizavamos a qual lhe havia de querer mais...

Oh! que saudade e que remorso para toda a minha vida n'estas recordações de fraternal intimidade!

Julia era piquena, delicadissima, propriamente infantina no rosto, na figura, na expressão e no hábito de toda a sua incantadora e diminutiva pessoa.

Nenhuma ingleza, desde o tempo da rainha Bess, teve pé e

ancle

mais delicado. Nenhuma, desde o rei Alfredo, se occupou tam elegantemente dos elegantes cuidados de um interior britannico―gentil quadro 'de genero' como não ha outro.

Lady Julia R. era a mais piquena e a mais bonita subdita britannica que eu creio que tenha existido.

Vista á lua, no meio do seu parque, volteiando por entre os raros exoticos que no curto verão inglez se expoem ao ar livre, facilmente se tomava pela bella soberana das fadas realizando aquella preciosa visão de Shakspeare, o 'Midsumer night's dream.'

Seus olhos de azul celeste, sempre humidos e sempre doces, os cabellos de um claro e assedado castanho todos soltos em anneis á roda da cabeça e cahindo pelos hombros, espalhando-se pelo rosto, que era uma lida contínua para os tirar dos olhos, um corpo airoso, uma bôcca de beijar, os dentes miudos, alvissimos e apertados, a mão piquena estreita, e de cera―tudo isto fazia de Julia um typo ideal de bondade, de candura, de innocencia angelica.

E era um anjo... oh se era!

Contemplei-a muito tempo em silencio: ella surria-me tristemente de vez em quando, mas não fallava. Emfim almoçámos, levaram o trem.

Ella disse á sua aia:

―'Phebe, eu estou so com Carlos; e quero estar so. Em casa para ninguem.'

―'Sim, minha senhora.' Resposta obrigada do criado inglez a tudo.

E ficámos sos completamente.

CAPITULO XLVI.

Carta de Carlos a Joanninha: continúa.

Julia levantou finalmente para mim os seus olhos humidos, assombrados das mais longas e assedadas pestanas que ainda vi em olhos de mulher, e disse-me:

―'Carlos, eu estou triste. Devia consolar-me; diga-me alguma coisa que me console. Falle-me.'

―'Que heide eu dizer?..'

―'É um cavalheiro, Carlos: diga-me que o é, e desassombre-me d'este terror em que estou.'

―'Pois duvída, Julia?..'

―'Não duvido. Queremos-lhe todos muito aqui... muito demais... receio: como havemos de duvidar?'

―'Oh Julia, perdoe-me!' exclamei eu lançando-me a seus pés, tomando-lhe as mãos ambas nas minhas, e beijando-lh'as mil vezes n'um paroxysmo de verdadeira contricção. 'Perdoe-me, Julia: bem sei que fiz mal, e prometto...'

―'Não prometta nada, senão que hade ser cavalheiro. Isso sei eu e sinto que o póde cumprir.'

―'Juro por... por ella.'

―'Ella!.. Ella ama-o, Carlos. É melhor dizer a verdade de uma vez, e incarar todas as consequencias de uma posição difficil, do que illudir-se a gente sem as evitar. Laura ama-o, mas não deve nem póde amá-lo. Se fosse livre, não sei o que diria―não sei o que faria eu... Mas não se tratta de mim'―proseguiu com volubilidade febril―'não se tratta de mim, Carlos, tratta-se d'ella. Laura não o póde amar, está compromettida. Hade partir em tres mezes para a India.'

―'Para a India!'

―'Sim: é verdade: velo-ha. O seu noivo é capitão ao serviço da companhia, e parte em casando.'

Eu sentia-me morrer o coração dentro do peito: foi a primeira dor verdadeira d'alma que soffri... Aquelle era o primeiro amor sincero da minha vida, e aquella foi tambem a primeira excruciante pena d'amor por que passei.

Eu que de taes penas zombára sempre, que as desterrava da realidade para os romances, eu!.. Ai! que poeta ou que novellista soube nunca pintar um padecer como eu experimentei n'aquella hora?

Não sei o que fiz nem o que disse; não me recordo senão que senti as lagrymas de Julia cahirem-me sôbre a face e misturarem-se com as minhas que corriam em abundancia. Levantei os olhos para ella, e a expressão que vi nos seus... oh! como a heide esquecer nunca?

Quanto ha de piedade e compaixão no thesouro infinito de um coração feminino se derramava d'aquelles olhos celestes para me consolar. Lá não ficava senão uma tristeza profunda, desanimada e mortal...

Não sei que vago pensamento, que idea louca... ou antes, que presentimento indeterminado e confuso me atravessou pelo espirito―ou sería pelo coração?―n'aquelle momento...

Se Julia?..

Mas não póde ser.

―'Julia, Julia' bradei eu 'quero vê-la: heide vê-la uma vez ao menos. Não me negue este último favor. Sei que devo, que preciso, que é forçoso fugir d'ella. Mas antes heide dizer-lhe...'

―'O quê?..'

―'Que a amo como nunca amei, como nunca mais heide amar...'

―'Ai Carlos!'

―'Que para sempre, sempre...'

Julia levantou-se sem dizer palavra, e lançando sôbre mim um olhar de ineffavel compaixão, sahiu rapidamente do quarto.

Achei-me so, não sei o que pensei nem se pensei. Sentia-me aturdido da cabeça, exhausto do coração―n'uma depressão d'espirito que tocava na estupidez. Se me apontassem uma pistola aos peitos, não levantava o braço para a arredar... Ja não sentia pena nem desejo. Parecia-me que começava a morrer; e não achava que morrer custasse muito.

N'este estado fiquei não sei que tempo; muito não foi. Percebi que se abria a porta, não tive fôrça para levantar os olhos. Até que senti uma doce e querida mão na minha... era Julia... e era Laura tambem... sancto Deus! que estavam aopé de mim ambas.

Julia tinha a minha mão na sua; e Laura incostada ao hombro da irman, deixava cahir sôbre mim aquelles olhos em que a severidade habitual se tinha relaxado n'uma indulgencia tam doce, n'uma compaixão tam celeste que, juro por Deus, n'aquella hora acreditei firmemente que tinha deante de mim dous anjos seus, baixados nas azas da piedade divina para me trazer todo o perdão, toda a misericordia do ceo á minha alma.

Como te direi eu, Joanna, querida Joanninha, como te direi a ti que me amas, a ti que eu amo―porque te amo, e Deus me castigue que deve! porque te amo, cegamente te amo com este infame e abominavel coração que Elle me deu―como te heide eu dizer a ti, e para quê, as palavras que alli dissemos, os protestos que alli fiz, os juramentos que alli se deram, as promessas que alli foram trocadas?

Julia foi para a janella―indulgente chaperão que nos não via e fingia não nos ouvir. O dia passou-se assim, um longo dia de junho que tam curto e rapido nos pareceu. Era noite quando fomos jantar.

Á mesa Laura appareceu em trajos de viagem; partia n'aquella noite para o paiz de Galles onde tinha uma amiga, com quem ia estar até o dia terrivel, e preparar-se para elle, me disse, longe de mim, no seio da amizade.

Imagine-se aquelle jantar. Nem comer fingiamos. Ao sahir da mesa achámos á porta da casa a caleche posta, o cocheiro na almofada, e o criado á portinhola. Montámos, as tres irmans e eu.

Eram duas milhas d'alli á estalagem onde tocava a malla-posta e onde Laura devia incontrá-la. Fizemo-las sem proferir palavra nenhum dos quatro.

A lua ia grande e bella com sua luz triste e fria por um ceo sem nuvens. Era uma d'aquellas noites raras, mas admiraveis do breve estio britannico.

A areia que rangia com o attrito das rodas da carruagem nas lisas ruas do parque, os ramos descahidos das árvores por que roçavamos levemente ao passar, os veados mansos que se levantavam para nos ver―os phaesães que erguiam seu rasteiro voo de moita para moita ao sentir o estalido do chicote, com que o cocheiro mais moderava do que excitava os seus cavallos, tudo para mim eram impressões de nunca sentida e inexplicavel tristeza. Ficava-me a alma apoz tudo aquillo, sentia fugir-me a felicidade para sempre, e que era eu que a affugentava, e que me ia incontrar so, desamparado e proscripto no deserto da vida.

Não me sentia fôrça para blasphemar, para maldizer de Deus, senão tinha-o feito.

Tinha: e outras ancias mais angustiadas e mortaes me teem afflicto na vida; em nenhuma me senti tam capaz de renegar de Deus e descrer d'elle como n'esta.

Sería effeito de sua inexhaurivel piedade que talvez quiz acudir á minha alma antes que se perdesse, sería por certo―pois n'esse mesmo instante distinctamente me appareceu deante dos olhos d'alma a unica imagem que podia chamá-lo do abysmo: era a tua, Joanna! Era a minha Joanninha piquena, innocente, aquelle anginho de criança, tam viva, tam alegre, tam graciosa que eu tinha deixado a brincar no nosso valle: o nosso valle rustico, tam grosseiro e tam inculto! oh como as saudades d'elle me foram alcançar no meio d'aquellas allinhadas e perfeitas bellezas da cultura britannica! Os raios verdes de teus olhos, faiscantes como esmeraldas, atravessaram o espaço, e foram luzir no meio d'aquell'outros lumes que me cegavam. A esteva brava, o tojo aspero da nossa charneca mandavam-me ao longe as exhalações de seu perfume agreste, e matavam o suave cheiro do feno macio d'essas relvas sempre verdes que me rodeavam. As folhas crespas, sêccas, alvacentas das nossas oliveiras como que me luziam por entre a espessura cerrada da luxuriante vegetação do norte, promettendo-me paz ao coração, annunciando-me o fim de uma peleja em que m'o dilaceravam as paixões.

E tu, Joanna, tu, pobre innocente, e desvallida criancinha, tu apparecias-me no meio de tudo isso, extendendo para mim os teus bracinhos amantes como no dia que me despedira de ti n'esse fatal, n'esse querido, n'esse doce e amargo valle das minhas lagrymas e dos meus risos, onde so me tinham de correr os poucos minutos de felicidade verdadeira da minha vida, onde as verdadeiras dores da minha alma tinham de m'a cortar e destruir para sempre...

Oh! de quê e como é feito o homem, para quê e porque vive elle? Que vim eu, que vimos nós todos fazer a este mundo?

Eu sentado alli nas almofadas de seda d'aquella splendida e macia carruagem, rodeado de tres mulheres divinas que me queriam todas, que eu confundia n'uma adoração mysteriosa e mystica―cego, louco d'amores por uma d'ellas, no momento de lhe dizer adeus para sempre... eu tinha o pensamento fixo n'uma criança que ainda andava ao collo!―Revendo-me nos olhos pardos de Laura que eu adorava, eram os teus olhos verdes que eu tinha n'alma! Os sentidos todos embriagados d'aquelle perfume de luxo e civilização que me cercava,―era o nosso valle rustico e selvagem o que eu tinha no coração...

Oh! eu sou um monstro, um aleijão moral devéras, ou não sei o que sou.

Se todos os homens serão assim?

Talvez, e que o não digam.

Joanna, minha Joanna, minha Joanninha querida, anjo adorado da minha alma, tem compaixão de mim, não me maldigas. Não quero que me perdoes, nem tu nem ninguem, que o não mereço: mas que tenhas dó e lástima de mim.

Ai! que isso mereço eu, oh sim.

Deixa-me parar aqui. Falta-me o ânimo para me estar vendo a este terrivel espelho moral em que jurei mirar-me para meu castigo, d'onde estou copiando o horroroso retratto de minha alma que te desenho n'este papel.

Sabía que era monstro, não tinha examinado por partes toda a hediondez das feições que me reconheço agora.

Tenho espanto e horror de mim mesmo.

CAPITULO XLVII.

Carta de Carlos a Joanninha: continúa.

Chegámos ao Inn (estalagem), triste casa solitaria no meio dos campos á borda da estrada. A malla chegava ao mesmo tempo quasi.

Eu dei a mão a Laura para sahir da caleche e entrar no coche; e apenas tivemos tempo para um convulsivo shake-hands e para nos dizer adeus! adeus! com a affectada seccura que exige a lei das conveniencias britannicas.

A malla partiu ao grande trote... E dir-te-hei a verdade ou queres que minta? Não, heide dizer-te a verdade. Pois senti como um alívio desesperado, uma consolação cruel em a ver partir. Senti o que imagino que deve sentir um infêrmo depois da operação dolorosa em que lhe amputaram parte do corpo com que já não podia viver, e que era forçoso perder ou perder a vida.

Tambem deve de ser assim a morte: um descanço apathico e nullo depois de inexplicavel padecer.

Era como morto que eu estava; não soffria pois.

E ja não pensava em ti, ja te não via na minha alma: eu não existia, estava alli.

Voltámos ao parque; apeei silenciosamente as minhas duas gentis companheiras, e eu fui so, apé, com passo firme e resoluto para a minha habitação. Nenhuma d'ellas me procurou retter, nem me disse nada, nem tentou consolar-me. Paraquê?

L. William R. chegava, na manhan seguinte, de uma de suas habituaes excursões a Londres. Veio ver-me assim que chegou, e trazer-me cartas de Portugal que eu esperava ha muito.―Disse-me que partia no outro dia para Swansea, a terra de Galles para onde Laura fôra; e que me incarregava de fazer companhia ás duas filhas que ficavam sos.

A mim!..

Estive tres dias sem as ver: em todos tres não fiz mais do que escrever a Laura.

No quarto dia fui ao parque. Julia deu um grito de alegria quando me viu: raro exemplo de excepção ás formuladas regras que tyrannizam a vida ingleza, que prescrevem até a cara com que se hade morrer, e teem graduado o tom em que se deve exhalar o último suspiro.

Mas a natureza chega a triumphar ás vezes até da propria etiqueta britannica.

Julia cuidava que eu não queria voltar áquella casa, tinha-se resignado a não tornar a ver-me; não pôde reprimir a alegria que lhe causou a minha inexperada apparição.

Passámos todo o dia junctos e sos: quasi todo se nos foi passeando no parque, ou sentados á sombra de seus espessos arvoredos, ou mirando-nos nas crystallinas aguas de uma vasta represa povoada de aves aquaticas e rodeada d'aquelles immensos mantos de velludo verde de que perpetuamente se infeita a terra ingleza e que so desapparecem quando vem o hynverno extender-lhe porcima seus alvos lençoes de neve.

Quiz ver o que eu escrevia á irman; dei-lhe a carta, leu-a, meditou-a, restituiu-m'a sem dizer palavra.

Que horas passámos n'este silencio, n'esta eloquente mudez que não vem senão do muito de mais que a alma sente, do muito de mais que diria se fallasse!

Á despedida, essa noite, deu-me uma bolsa de rede que Laura tinha estado fazendo para mim e que lhe deixára para me intregar. Senti que tinha dentro o que quer que fosse a bolsa, não quiz examinar. Achei, quando voltei a casa, que era o

fadado cinto

de vidrilhos pretos que eu tanto tinha admirado em certo baile onde foramos junctos, e que Laura não deixára de pôr nunca mais em se vestindo de branco e que fizesse alguma toilette.

Ainda o conservo aquelle cinto precioso, Joanna; ainda a tenho, no meu thesoiro mais guardado, aquella joia, aquella reliquia. E amo-te, e amo-te a ti so como realmente nunca amei nem poderei tornar a amar. Mas aquelle cinto é uma sorte, um talisman, um amuleto em que está o meu destino.

Amei... isto é, amei... pois sim, amei, ja que não ha outra palavra n'estas estupidas linguas que fallam os homens; pois amei outras mulheres, e nos dias de maior enthusiasmo por ellas, não deixei nunca de beijar devotamente aquelle cinto, de o appertar sôbre o meu coração, de me incommendar a elle―como o salteador napolitano se incommenda ao escapulario da madona que traz ao peito, com as mãos insanguentadas de matar, ou carregado do roubo que acaba de fazer.

Ai, Joanna, não te digo eu que estou perdido, sem remedio, e que para mim não ha, não póde haver salvação nunca?

Vivi assim dois mezes. Laura não me escrevia: recebia as minhas cartas e respondia a Julia: por este modo nos correspondiamos. Julia era parte de nós, era uma porção do nosso amor, viviamos n'ella a nossa vida. E ja as confundia ambas por tal modo no meu coração que me surpreendia a não saber a qual queria mais. Julia parecia feliz d'este estado; eu era-o. Insensivelmente me habituei a elle, ja não tinha saudades do passado. E quando se approximou o casamento de Laura, que ella tinha de voltar de Galles, e que eu, fiel ao que promettêra, devia pretextar negócio urgentissimo em Londres que me obrigasse a ausentar-me até á sua partida para a India, eu tive uma pena, uma difficuldade em cumprir o que promettêra que me invergonhava.

Parti porêm; e alli me demorei um mez. Julia escrevia-me todos os dias e eu a ella. Na véspera do dia fatal em que Laura ia ser de outro homem, Julia escreveu-me éstas palavras sos:―'O nosso romance acabou; começa uma historia séria. Laura manda-lhe o seu último adeus.'

E nunca mais se escreveu nem se pronunciou o nome de Laura entre nós dous.

O galeão que me levava para o Oriente as ruinas de toda a minha esperança ha muito que navegava; entrava outubro e o hynverno inglez

com

suas mais asperas, e n'este anno tam precoces, severidades. Eu sentia-me morrer de tristeza e de isolamento no meio da populosa e turbulenta Londres, Julia percebeu-o, e mandou-me voltar a ――shire. Voltei.

CAPITULO XLVIII.

Carta de Carlos a Joanninha: continúa.

O que eu senti quando, apezar de tam desfigurados pelos tres-altos de neve que os cubriam, comecei a reconhecer aquelles sitios da vizinhança do parque, e a confrontar as árvores, os pastios, os casaes d'aquelles arredores!

Era outra a expressão de physionomia da paizagem, mas as queridas feições eram as mesmas, e uma a uma lh'as ia estremando.

Emfim o meu

stage

parou á entrada do parque, e eu tomei apé pela longa avenida. Eram nove horas da manhan, e a manhan brumosa, fria, mas o tempo macio, não estava

cru

, segundo a expressiva phrase do paiz.

Por entre a nevoa que me incubria a antiga mansão e involvia as árvores circumstantes n'um sudario cinzento e melancholico, fui caminhando, quasi pelo tacto, até meia alameda talvez.

Parei a reflectir na minha posição e no que eu ia ser n'aquella casa que de novo me abria suas portas hospitaleiras, quando, atravez da neblina brancacenta e onde ella era mais rara, descubri um vulto que vinha a mim de entre as árvores do parque.

O vulto era de mulher e parecia uma sombra, uma apparição phantastica em meio d'aquella scena mysteriosa, so, triste.

Na distancia figurava-se-me alto em demazia: Julia não era nem podia ser; Julia a mais diminutiva e delicada de quantas fadas bonitas e graciosas teem trazido varinha de condão. Laura... ai! Laura tam longe estava d'alli... Quem sería pois? So se fosse!.. Quem?

Aquella elegancia, aquelle cabello sôlto e annellado, aquelle ar gentil não podia ser senão d'ella...

D'ella, quem?

Ainda te não fallei, quasi, da última das tres bellas irmans que me incantavam, não t'a

descrevi

, não t'a nomeei pelo seu nome. Repugnava-me fazê-lo. Mas é preciso: custa-me, não ha remedio.

Era Georgina...

Georgina que tu conheces, Georgina que... era Georgina a que vinha a mim n'aquella―fatal ou feliz?―manhan; Georgina que de todas tres era a que menos me fallava, que eu verdadeiramente menos conhecia.

Este meu coração, á fôrça de ferido e de

mal curado

que tem sido, pressente e adivinha as mudanças de tempo com uma dor chronica que me dá. Pressenti não sei quê ao ver approximar-se Georgina...

―'Como foi bom em vir! Estou realmente feliz de o ver. E Julia, a pobre Julia, que alegria que vai ter, hade curá-la de todo.'

―'Pois quê! Julia está doente?'

―'Não o sabía!... Ai! não, bem sei que não: ella não lh'o quiz dizer. Julia está doente; mas não é de cuidado. Eu sempre quiz advirti-lo antes que a visse, por isso calculei as horas do coche e vim para aqui esperá-lo.'

Éstas palavras eram simples, não tinham nada que me devesse impressionar extraordinariamente, e todavia eu sentia-me agitado como nunca me sentira. Olhava para Georgina como se a visse a primeira vez, e pasmava de a ver tam bella, tam interessante.

É uma situação d'alma ésta que não sei que a descrevessem ainda poetas nem romancistas: desprezam-n'a talvez, ou não a conhecem. Está recebido que as subitas impressões causadas por um primeiro incôntro sejam as mais interessantes, as mais poeticas.

Eu não nego o effeito theatral d'essas primeiras e repentinas sensações; mas sustento que interessa mais ess'outra inesperada e extranha impressão que nos faz um objecto ja conhecido, que víramos com indifferença atéalli, e que derrepente se nos mostra tam outro do que sempre o tinhamos considerado...

Mas ésta mulher é bella realmente! E eu que nunca o vi! Mas aquelles olhos são divinos! Onde tinha eu os meus atégora? Mas este ar, mas ésta graça onde os tinha ella escondidos? etc. etc.

Vão-se gradualmente, vão-se pouco a pouco descobrindo perfeições, incantos; e o sentimento que resulta é mil vezes mais profundo, mais fundado, sôbretudo, que o das taes primeiras impressões tam cantadas e decantadas.

Que mais te direi depois d'isto? Entrámos em casa, vi Julia, fallámos de Laura muito e muito. Mas eu ja o não fiz com o enthusiasmo, com a admiração exclusiva com que d'antes o fazia...

Julia recobrou, breve, a saude, e com ella o equilibrio do espirito. Renovou-se toda a alegria, todo o incanto das nossas conversações íntimas, dos nossos longos passeios. Laura lembrava com saudade; mas suavizava-se, imbrandecia gradualmente aquella saudade.

Georgina, que atéalli parecia impenhar-se em se deixar eclipsar pela irman, agora, ausente ella, brilhava de toda a sua luz, em graça, em espirito, por um natural singelo e franco, por uma exquisita doçura de maneiras, de voz, de expressão, de tudo.

Julia revia-se n'ella, e eu acabei pela adorar. Vergonha eterna sôbre mim! mas é a verdade: quiz-lhe mais do que a Laura, ou pareceu-me querer-lhe mais... que tanto vale.

Eu sei?.. Não, não lhe queria tanto. Mas amei-a.

Amei, sim, e fui amado!

Tres mezes durou a minha felicidade. É o mais longo periodo de ventura que posso contar na vida. Falsa ventura, mas era.

A imperiosa lei da honra exigiu que nos separassemos, que partisse para os Açores. Fui. Ninguem sacrificou mais, ninguem deu tanto como eu para aquella expedição. A historia fallará de muitos serviços, de muitas dedicações. Quem saberá nunca d'esta?

A historia é uma tola.

Eu não posso abrir um livro de historia que me não ria. Sôbretudo as ponderações e adivinhações dos historiadores acho-as de um comico irresistivel. O que sabem elles das causas, dos motivos, do valor e importancia de quasi todos os factos que recontam?

Ainda não sei como parti, como cheguei, como vivi os primeiros tempos da minha estada n'aquelle escôlho no meio do mar, chamado a ilha Terceira, onde se tinham refugiado as pobres reliquias do partido constitucional.

Habituei-me porfim. A que se não affaz o homem?

Levaram-me uma tarde á grade de um convento de freiras que ahi havia. O meu ar triste, distrahido, indifferente excitou a piedade das boas monjas. Uma d'ellas, joven, ardente, apaixonada, quiz tomar a empresa de me consolar. Não o conseguiu, coitada! O meu coração estava em ――shire em Inglaterra, estava na India, estava no valle de Santarem,

Pelo mundo em pedaços repartido;

estava em toda a parte, menos alli, que nada d'elle estava nem podia estar.

Era Soledade que se chamava a freirinha, e com o seu nome ficou. Disseram o que quizeram os falladores que nunca faltam, mas mentiram como mentem quasi sempre, inganaram-se como se inganam sempre.

Eu não amei a Soledade.

E comtudo lembro-me d'ella com pena, com sympathia... Se eu sou feito assim, meu Deus, e assim heide morrer!

Viemos para Portugal; e o resto agora da minha historia sabes tu.

Cheguei porfim ao nosso valle, todo o passado me esqueceu assim que te vi. Amei-te... não, não é verdade assim. Conheci, mal que te vi entre aquellas árvores, á luz das estrellas, conheci que era a ti so que eu tinha amado sempre, que para ti nascêra, que teu so devia ser, se eu ainda tivera coração que te dar, se a minha alma fosse capaz, fosse digna de junctar-se com essa alma d'anjo que em ti habita.

Não é, Joanna; bem o ves, bem o sentes, como eu o sinto e o vejo.

Eu sim tinha nascido para gosar as doçuras da paz e da felicidade doméstica; fui creado, estou certo, para a glória tranquilla, para as delicias modestas de um bom pae de familias.

Mas não o quiz a minha estrella. Embriagou-se de poesia a minha imaginação e perdeu-se: não me recobro mais. A mulher que me amar hade ser infeliz por fôrça, a que me intregar o seu destino, hade vê-lo perdido.

Não quero, não posso, não devo amar a ninguem mais.

A desolação e o oppróbrio entraram no seio da nossa familia. Eu renuncio para sempre ao lar doméstico, a tudo quanto quiz, a tudo quanto posso querer. Deus que me castigue, se ousa fazer uma injustiça, porque eu não me fiz o que sou, não me talhei a minha sorte, e a fatalidade que me persegue não é obra minha.

Adeus Joanna, adeus prima querida, adeus irman da minha alma! Tu accompanha nossa avó, tu consola esse infeliz que é o auctor da sua e das nossas desgraças. Tu, sim, que podes; e esquece-me.

Eu, que nem morrer ja posso, que vejo terminar desgraçadamente ésta guerra no unico momento em que a podia abençoar, em que ella podia felicitar-me com uma balla que me mandasse aqui bem direita ao coração, eu que farei?

Creio que me vou fazer homem politico, fallar muito na patria com que me não importa, ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar dos meus serviços que nunca fiz por vontade; e quem sabe?.. talvez darei porfim em agiota, que é a unica vida de emoções para quem ja não póde ter outras.

Adeus minha Joanna, minha adorada Joanna, pela última vez, adeus!

CAPITULO XLIX.

De como Carlos se fez barão.―Fim da historia de Joanninha.―Georgina abbadessa.―Juizo de Fr. Diniz sôbre a questão dos frades e dos barões.―Que não póde tornar a ser o que foi, mas muito menos póde ser o que é. O que hade ser, Deus o sabe e proverá.―Vai o A. dormir ao Cartaxo.―Sonho que ahi tem.―Volta a Lisboa.―Caminhos de ferro e de papel.―Conclusão da viagem e d'este livro.

Acabei de ler a carta de Carlos, intreguei-a a Fr. Diniz em silencio. Elle tornou-me:

―'Leu?'

―'Li.'

―'Que mais quer saber? Sinto que lhe posso dizer tudo: não o conheço, mas...'

―'Mas deve conhecer-me por um homem que se interessa vivamente...'

―'Em quê? nas eleições, na agiotagem, nos bens nacionaes?'

―'Não senhor. Fui camarada de Carlos, não o vejo ha muitos annos e...'

―'Nem o conhecia se o visse agora: ingordou, inriqueceu, e é barão...'

―'Barão!'

―'É barão, e vai ser deputado qualquer dia.'

―'Que transformação! Como se fez isso, sancto Deus! E Joanninha e Georgina?'

―'Joanninha inlouqueceu e morreu. Georgina é abbadessa de um convento em Inglaterra.'

―'Abbadessa?'

―'Sim. Converteu-se á communhão catholica; era ricca, fundou um convento em ――shire e lá está servindo a Deus.'

―'E ésta pobre senhora, a avó de Joanninha?'

―'Ahi está como a ve, morta de alma para tudo. Não ve, não ouve, não falla, e não conhece ninguem. Joanninha veio morrer aqui n'esta fatal casa do valle, eu estava ausente, expirou nos braços d'ella e de Georgina. Desde esse instante a avó cahiu n'aquelle estado. Está morta, e não espero aqui senão a dissolução do corpo para o interrar, se eu não for primeiro, e Deus queira que não! quem hade tomar conta d'ella, ter charidade com a pobre da demente? Mas depois... oh! depois... espero no Senhor que se compadeça emfim de tanto soffrer e me leve para si.'

―'Mas Carlos?'

―'Carlos é barão: não lh'o disse ja?'

―'Mas por ser barão?..'

―'Não sabe o que é ser barão?'

―'Oh se sei! Tam poucos temos nós?'

―'Pois barão é o succedaneo dos...'

―'Dos frades... Ruim substituição!'

―'Vi um dos taes papeis liberaes em que isso vinha: e é a unica coisa que leio d'essas ha muitos annos. Mas fizeram-m'o ler.'

―'E que lhe pareceu?'

―'Bem escripto e com verdade. Tivemos culpa nós, é certo; mas os liberaes não tiveram menos.'

―'Errámos ambos.'

―'Errámos e sem remedio. A sociedade ja não é o que foi, não póde tornar a ser o que era;―mas muito menos ainda póde ser o que é. O que hade ser, não sei. Deus proverá.'

Ditto isto, o frade benzeu-se, pegou no seu breviario e poz-se a rezar. A velha dobava sempre, sempre. Eu levantei-me, contemplei-os ambos alguns segundos. Nenhum me deu mais attenção nem pareceu conscio da minha estada alli.

Sentia-me como na presença da morte e atterrei-me.

Fiz um esfôrço sôbre mim, fui deliberadamente ao meu cavallo, montei, piquei desesperado d'esporas, e não parei senão no Cartaxo.

Incontrei alli os meus companheiros; era tarde, fomos ficar fóra da villa á hospedeira casa do Sr. L. S.

Rimos e folgámos até alta noite: o resto dormimos a somno sôlto.

Mas eu sonhei com o frade, com a velha―e com uma enorme constellação de barões que luzia n'um ceu de papel, d'onde choviam, como farrapos de neve, n'uma noite pollar, notas azues, verdes, brancas, amarellas, de todas as côres e matizes possiveis. Eram milhões e milhões e milhões...

Nunca vi tanto milhão, nem ouvi fallar de tanta riqueza senão nas mil e uma noites.

Acordei no outro dia e não vi nada... so uns pobres que pediam esmola á porta.

Metti a mão na algibeira, e não achei senão notas... papeis!

Parti para Lisboa cheio de agoiros, de inguiços e de tristes presentimentos.

O vapor vinha quasi vazio, mas nem por isso andou mais depressa.

Eram boas cinco horas da tarde quando desimbarcámos no Terreiro-do-Paço.

Assim terminou a nossa viagem a Santarem: e assim termina este livro.

Tenho visto alguma coisa do mundo, e apontado alguma coisa do que vi. De todas quantas viagens porêm fiz, as que mais me interessaram sempre foram as viagens na minha terra.

Se assim o pensares, leitor benevolo, quem sabe? póde ser que eu tome outra vez o bordão de romeiro, e va perigrinando por esse Portugal fóra, em busca de historias para te contar.

Nos caminhos de ferro dos barões é que eu juro não andar.

Escusada é a jura porêm.

Se as estradas fossem de papel, fa-las-iam, não digo que não.

Mas de metal!

Que tenha o govêrno juizo, que as faça de pedra, que póde, e viajaremos com muito prazer e com muita utilidade e proveito na nossa boa terra.

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