← Table of contents
Scenas do século XVIII em Portugal

CAPÍTULO II (continued 2)

Reading edition

Leonor de Almeida percebia tudo isto. A sua inteligência mais vigorosa do que feminilmente delicada, não lhe deixava a respeito da sua classe em Portugal qualquer ilusão consoladora.

É por isso que tão ardentemente busca distanciar-se do meio em que nasceu e em que pensa terá de viver, é por isso que estuda infatigávelmente, protestando por êste modo contra a ignorância que a invade como uma maré lodosa e turva.

Duas vezes, durante o cativeiro de Leonor de Almeida, tiveram seus pais o projecto de a casar, como naquele tempo se casava por conveniência de família, por alto interêsse de raça.

Um dos noivos que para ela desejaram foi D. João de Bragança, o futuro duque de Lafões, de quem falaremos mais tarde, já velho áquele tempo, e que então, receoso da tirania política de Pombal, andava casquilhando e brilhando pelas côrtes de Viena e de Versailles.

A êste projecto um tanto fantasioso, e que parece não ter tido sólidos alicerces, pôs ponto o bom senso incontestável de Leonor e do marquês.

O outro noivo que quiseram dar-lhe, e com êste se adiantaram bastante as negociações, que felizmente Leonor de Almeida conseguiu malograr a final, era D. Brás da Silveira, filho primogénito de D. Nuno de Távora, o qual, por ser irmão segundo do marquês de Távora, estava na prisão da Junqueira juntamente com o marquês de Alorna. Uma filha de D. Nuno de Távora casara com o conde da Redinha, e êste enlace de uma sua parenta próxima com o filho do perseguidor da sua família inteira, desgostava profundamente D. Leonor de Almeida. A sua principal objecção ao casamento preconizado por seus pais, era ficar em virtude dêle cunhada do conde da Redinha. Isto é que o ânimo cavalheiroso e tão ultrajado de Leonor não podia aceitar livremente.

A propósito dêstes seus parentes Silveiras fêz Leonor nas cartas ao pai um espirituoso e expressivo retrato que não deve ficar eternamente inédito, porque representa mais que uma individualidade, a final de contas obscura, representa a figura típica do fidalgo português, enfatuado, ignorante e ridículo. O retratado é D. Bernardo da Silveira, irmão daquele que os marqueses de Alorna desejavam para noivo de sua filha.

Ouçamos, pois, esta num dos seus raros momentos de verve endiabrada e natural.

«O carácter da família dos Silveiras é coisa muito célebre. Parecem-me fidalgos de província. O primo Bernardo é um daqueles que se pintam, e eu o pintara se v. ex.ᵃ me desse licença para dar quatro gargalhadas à custa do meu futuro cunhado, sem que isso ofendesse as minhas obrigações, mas falar com meu pai é pensar alto, e vou dizendo:

«É um mocetão pela figura do mano, mas de cara muito peor, contudo, persuadido da sua gentileza, crê piamente que andam nos seus ferros tôdas as belezas do mundo e toma um ar de satisfação muito célebre que faz rir.

«Com o desembaraço de colegial julga-se sábio, e zomba das belas letras de que não entende nada, celebrando sempre a profundidade dos autores de direito canónico, e os toiros, qualquer destas coisas muito interessante em uma companhia de senhoras.

«Não crê na aplicação das mulheres, e trata-nos sempre com ar de superioridade e de ignorantes, fatigando-se com explicações e pequenas histórias bastantemente impertinentes.

«Como a tia Maria tem assoprado muito a vaidade dêste e abusado da paciência, moleza e bondade do outro, observa-se uma certa altivez que vistos ambos, parece o primo Bernardo um sogro, que me faz obséquios, porque intenta casar seu filho comigo, e o outro um enteado, sem confiança com o padrasto. Eu e a mana, defronte dêstes dois indivíduos, tambêm nos podiam pintar, e se acaso se vê na minha cara a variedade de coisas que me passam pela cabeça, tambêm haveria de que rir. A tia Maria, em ar de Sybilla Comea, trata-me com o maior carinho, e eu correspondo como devo, mas estou muito costumada a reflectir para não distinguir o que é, do que parece. Do primo Brás (o futuro noivo) dará minha mãe notícias, mas eu não posso fiar de ninguêm esta anedota.

«Para agradar à sua noiva, que é aplicada, começa agora os seus estudos, por um jardim botânico e umas estufas.»

Quando o pai teima em apresentar a Leonor de Almeida as vantagens sociais do casamento com D. Brás da Silveira, ela responde-lhe com melancolia impressionadora:

«Estou nas fatais circunstâncias de ter que decidir-me, com um susto inexplicável e com o mais vivo desejo de acertar e de ser útil aos interesses de v. ex.ᵃˢ. Se me pertence a glória de ir com as minhas ansiosas diligências libertá-los, pereçam todos os sistemas em que eu tinha fundado a minha felicidade própria, e será uma sorte assás digna de satisfazer-me aquela em que eu puder servir o meu querido pai, e procurar o inteiro restabelecimento de minha mãe. Nada mais me pode obrigar ao sacrifício da minha liberdade, e a tomar o trabalhoso encargo de mãe de família. O coração e o pensamento todo ocupado das minhas perdas e das minhas aquisições apresenta-me como um desastre o sair dos braços da minha mãe, da casa de v. ex.ᵃ, para outra desconhecida, onde me não leva nenhum princípio dos que a natureza nestes laços poderia apresentar. O rapaz é um homem sem estudos; que julgará dos meus? Tem uma irmã aliada com o algoz que abomino. Como poderei eu ver de perto similhante gente? Mas representa meus avós (é filho de um tio direito da marquesa de Alorna); trabalha na liberdade de minha mãe, anuncia vagamente a de v. ex.ᵃ! Se me conseguir... oh! meu querido pai, tomara antes de separar-me desta casa, abraçar nela a v. ex.ᵃ, tomara que v. ex.ᵃ viesse aqui ensinar-me qual é o meu dever. V. ex.ᵃˢ ambos é que melhor do que eu poderiam remediar tantas perplexidades. Eu não sei o que digo, não sei o que faço, vivo em uma escuridade impenetrável... Deus me socorra, e me faça atinar com o que for melhor...»

Felizmente para a nossa biografada, o pai não teimou em dar-lhe para marido um homem que Leonor não respeitava nem amava, e a sonâmbula gentil do cláustro de Chelas continuou a ler, a sonhar, a instruir-se, a reflectir na plena liberdade do seu indisciplinado e ardente espírito.

Pena é que não tenhamos outras revelações do que ela então pensava e sentia, alêm das que encontramos nas suas cartas ao pai. Por muita confiança que aos vinte e vinte e quatro anos se tenha nos pais, nunca é a êles que uma alma juvenil se confessa inteiramente.

Os versos de Leonor feitos em Chelas e publicados no primeiro volume das suas obras, são ainda menos reveladores do que as suas cartas.

Pelo modo de versejar, Leonor pertence inteiramente nesta primeira fase da sua vida à escola pseudo-clássica do século XVIII, no que ela tem de mais falso e de pior.

Uma interminologia enfadonha, uma quantidade incontável de nomes e de alusões mitológicas—não da bela mitologia grega tão naturalista, tão profunda nos seus símbolos, tão ladina nas suas encarnações humanas,—mas de uma falsa mitologia, dentro da qual se não lobrigava uma idea única, e que abonando em favor da erudição de Leonor, diz muito pouco do seu coração e da sua sensibilidade.

O que, porêm, temos das suas belas cartas, de sobejo nos deixa perceber quantos sonhos se abrigariam naquela ardente imaginação de rapariga.

Tancredo—o infeliz filho do duque de Aveiro, a que estava reservado um destino tão negro—era o príncipe azul de Maria de Almeida. Leonor havia de fantasiar mil vezes o seu. Não sabia donde êle tinha de surgir um dia, mas estava certa de que viria na hora própria e de que não seria parecido com nenhum daqueles que os interesses da família por mais de uma vez tinham tentado impor-lhe.

Para êle cuidava com esmero da sua formosura singular em que tantas vezes ingénuamente se revê, com adorável garridice; para êle adorna o seu espírito de tôdas as graças, de tôdas as riquezas, de todos os encantos... Será bravo como um herói; há nela a paixão corneliana de tôdas as grandezas épicas; mas será tambêm cultivado como um sábio, eloqùente como um poeta, e profundo como um filósofo.

Bayard e Voltaire encarnados num só homem. Conversará com discreta graça dos mil assuntos que a preocupam; terá as aspirações que ilustram o seu tempo, pressentirá tôdas as grandes innovações de que ela antevê com secreto enlêvo a próxima alvorada.

Nos cláustros húmidos e melancólicos do seu mosteiro escondido, Leonor evoca essa figura maravilhosa, que não encontrará de certo jámais, e nessa evocação mágica se consola de tôdas as lutuosas tristezas da realidade.

Os que nunca viveram pela imaginação não podem conceber o que seja êste dom milagroso com que ela enriquece os seus eleitos. Não sabem que na pobreza, na solidão, na clausura, é possível ser-se feliz quando se possue a chave de oiro dêsse país das quimeras a que sobem os que teem asas!

E dêsse vago sonambulismo de poetisa, de erudita e de fantasista adorável despertou um dia de súbito Leonor de Almeida ao sentir dobrar fúnebremente todos os sinos de Lisboa, anunciando a morte de um rei, a morte do rei que esmagara todos os seus.

NOTAS DE RODAPÉ:

Explore with AITake your curiosity a little further.

Reading settings