I—ROMANCES COMMUNS AOS POVOS DO MEIO DIA DA EUROPA
Reading edition
1 Romances da Dona Infanta
(Versão da Beira-Baixa)
Andando a Dona Infanta No seu jardim passeava; Deitou os olhos ao mar, Viu vir uma grande armada: «Dizei-me, oh meu capitão, Dizei-me por vossa alma, Marido que Deos me deu Se ahi vem na vossa armada? —Diga-me minha senhora Que signaes é que levava? «Levava cavallo branco, Cavallo branco levava, Levava cella amarella, Por cima sobredourada; E adiante de si levava A cruz de Christo pregada. —Eu o lá vi, oh senhora, Elle na guerra ficava, Com tres chagas bem abertas E todas eram mortaes. Por uma se via o sol, Por outra o bello luar; Por outra tambem se via Rica bola de jogar. «Ai triste de mim viuva, Ai triste do mim coitada! Ir-me-hei por esse mundo Chamando-me desgraçada. Ai triste da só viuva, De mim que nemja de si. —Quanto dereis vós senhora A quem o trouxera aqui? «Dera-lhe ouro e prata, Fôra mais rico que mim. —O vosso ouro e a vossa prata Não me servem para mim. Eu sou soldado de el-rei, E não posso estar aqui; Mas quanto davas, senhora, A quem o trouxera aqui? «Tres laranjaes que tenho Todos tres os dera assim. —Não quero os seus laranjaes Não me servem para mim; Que sou soldado de el-rei E não posso estar aqui. «Os tres moinhos que tenho Todos tres os dera a si; Um que móe pau de canella, Outro móe pau do Brazil; Outro móe rica farinha Que el-rei me manda pedir. —Eu não quero os seus moinhos, Não me servem para mim; O que dereis vós, senhora, A quem o trouxera aqui? «Essas tres filhas que tenho, Todas tres quizera dar, Uma para vos vestir, Outra para vos calçar, A mais linda d’ellas todas Para comsigo casar. —Eu não quero as vossas filhas, Não me servem para mim. O que dereis mais, senhora A quem o trouxera aqui? «Não tenho mais que lhe dar, Nem você mais que pedir. —Inda tem mais que me dar, E eu tambem que lhe pedir: Esse corpo delicado Para commigo dormir. «Merece ser arrastado O maroto que tal diz Ao rabo do meu cavallo, Á roda do meu jardim. —Não se amofine, senhora, Que eu consigo já dormi. O anel de cinco pedras Que eu comvosco reparti. Que é da vossa metade, Pois a minha eil-a aqui? «Pois a minha ametade Esqueceu-me no jardim. Vão-me já chamar meus manos, Que o venham conhecer; Se elle o meu marido for Eu o quero receber; E se algum maroto fôr Veja como se hade haver.»
2 Dona Catherina
(Variante da Beira-Baixa)
’Stando Dona Catherina No seu jardim assentada, Com um pente de ouro na mão Seu cabello penteava. Deitou os olhos ao largo Viu vir uma grande armada; Capitão que ’nella vinha Trazia-a mui bem guiada. —Catherina, Catherina, Catherina de Menezes, Sabbado vou para França, Catherina que quereis? «Saúdai-me o meu marido, Que por lá o achareis. —Diga-me minha senhora Que signaes levava elle? «Levava cavallo branco, E espada de Marquez; Capote de camellão Forrado de setim verde. —Pelos signaes que me daes Não o vi senão uma vez; Vi-o morrer em França, Enterral-o em Santa Inez. Já Catherina chorava Lagrimas de tres a tres. —Calai-vos oh Catherina, Casae commigo outra vez. «Senhoras da minha laia Não casam mais que uma vez. —Quanto déreis vós, senhora, A quem vol-o traga, aqui? «Dera-lhe armas e cavallos, Que cresceram de Dom Luiz. —Suas armas, seus cavallos Não me servem para mim; Que eu sou capitão da armada, Já me vou para o Brazil. Quanto déreis mais, senhora, A quem vol-o traga aqui? «Dera ouro, dera prata, Fôra mais rico que mim. —O seu ouro e sua prata Não me servem para mim; Eu sou capitão da armada Já me vou para o Brazil. Quanto déreis mais, senhora, A quem vol-o traga aqui? «As tres azenhas que tenho Todas tres te dera a ti; Uma móe cravo e canella, A outra móe serzelim, Outra móe rica farinha Para el-rei, mais para mim. —Vossas azenhas, senhora, Não me servem para mim, Sou capitão das armadas, Já me vou para o Brazil. Quanto dereis mais, senhora, A quem vol-o traga aqui? «Uma pereira que eu tenho No meio do meu jardim, Pois quando ella dá pêras O rei m’as manda pedir. —Eu sou capitão da armada, Já me vou para o Brazil; Quanto déreis mais, senhora, A quem vol-o traga aqui? «Essas tres filhas que eu tenho Todas tres te dera a ti, Uma para te calçar, Outra para te vestir, A mais linda d’ellas todas Para comtigo dormir. —As suas filhas, senhora. Não me servem para mim, Sou capitão das armadas Já me vou para o Brazil. Quanto dereis mais, senhora, A quem vol-o traga aqui? «Não tenho mais que vos dar, Nem vós mais que me pedir. —Ainda não me offereceu Esse seu corpo gentil. «Cavalleiro que tal fala, Cavalleiro que tal diz, Merece a lingua arrancada, Cortada pelo nariz. Levantai-vos meus criados, Vinde-lh’o fazer assim, Ao rabo do meu cavallo, Ao redor do meu jardim. —Os criados que a servem Já me serviram a mim, As suas filhas, senhora, Tambem são filhas de mim. Suas azenhas, senhora, Tambem pertencem a mim; Sua pereira, senhora, Tambem me pertence a mim. Suas armas e cavallos Tambem pertencem a mim; Seu ouro e a sua prata Tambem pertencem a mim. O anel que vos eu dei Quando eu d’aquí sahi, Mostrai-me a vossa metade, Pois a minha eil-a aqui! O anel que vos eu dei Que se nos partiu no chão, Mostrai-me a vossa metade, Aqui está o meu quinhão.
3 Romances de D. Martinho de Avizado
(Versão da Beira-Baixa)
—Grandes guerras ’stão armadas Entre França e Aragão! Mal o hajas tu mulher, Mais a tua criação; Sete filhas que tiveste Sem nenhuma ser varão! Respondeu logo a mais velha Com todo o seu coração: «Dê-me armas e cavallo Que eu irei por capitão. —Tendes o cabello louro, Filha, conhecer-vos-hão! «Dê-me cá uma thezoura, Verei-o cahir no chão. —Tendes os olhos fagueiros, Filha, conhecer-vos-hão. «Quando passar pelos hombres Eu os ferrarei no chão. —Tendes os peitos crescidos, Filha, conhecer-vos-hão. «Mande fazer um justilho Que me aperte o coração. —Tendes as mãos mui mimosas, Filha, conhecer-vos-hão. «Lá virá vento e chuva, Que ellas se callejarão. —Tendes o pé pequenino, Filha, conhecer-vos-hão. «Dê-me cá as suas botas Encherei-as de algodão. —Tendes o passo miudo, Filha, conhecer-vos-hão. «Quando passar pelos hombres Farei passo de ganhão. —Filha, se fores á guerra Como te lá chamarão? «Dom Martinho do Avizado, Filho do Rei Dom João.» —Ai minha mãi que me morro, Morro-me do coração; Os olhos de Dom Martinho, Mi madre, matar-me-hão, O corpo tiene de hombre, Os olhos de mulher são. —«Convidai-o vós, meu filho, Que vá comvosco jantar, Se então elle fôr mulher Em baixo se hade assentar. Dom Martinho de Avizado Cadeira mandou chegar, Com o seu capote em cima Para mais alto ficar. —Ai minha mãi que me morro, Morro-me do coração, Os olhos de Dom Martinho, Madre minha, matar-me-hão. O corpo tenia de hombre, Os olhos de mulher são. —«Convidai-o vós, meu filho, Que vá comvosco enfeirar, Elle então se for mulher Ás fitas se hade pegar. «Oh que espadas finas estas Para hombre guerrear! Oh que fitas para damas, Quem lh’as pudera mandar. —Ai minha mãi, que me morro, Morro-me do coração, Os olhos de Dom Martinho, Madre minha, matar-me-hão! O corpo tenia de hombre, Os olhos de mulher são. —«Convidai-o vós, meu filho, Que vá comvosco dormir, Que se elle for mulher Não se hade querer despir. «Tenho feito juramento, Espero de o cumprir, De emquanto eu andar na guerra As ceroulas não despir. —«Convidai-o vós, meu filho, Que vá comvosco nadar; Que se elle for mulher Certo, se hade acovardar. Dom Martinho de Avizado Primeiro o mandou entrar: «Ide vós mais adiante Para me ires ensinar! Cartas me vêm da terra, Cartas de muito pezar; Meu pai que já é morto, Minha mãi está a acabar. Tenho seis irmãs mais novas, Quero-as ir amparar; Venha a casa de meu pai Se commigo quer casar. Sete annos andei na guerra, Sete annos por capitão, Sem ninguem me conhecer Se eu era mulher ou não.
4 Dom Martinho
(Variante da Beira-Baixa)
—Oh que guerras vão armadas Entre França e Aragão! Ai de mim, que já estou velho, Não as posso vencer, não. De sete filhas que tenho Sem nenhuma ser varão! Respondeu-lhe uma mais nova, Respondeu-lhe com rasão: «Venha uma espada e cavallo, Eu serei já capitão. —Tendes os olhos grandes, Filha, conhecer-vos-hão. «Quando passar pelos homens, Abatel-os-hei ao chão. —Tendes o cabello longo, Filha, conhecer-vos-hão. «Venha uma thezoura d’oiro, Vel-o-heis cahir ao chão. —Tendes as mãos muito brancas, Filha, conhecer-vos-hão. «Virão calmas e geadas, Que ellas negras se farão. —Tendes o pé pequenino, Filha, conhecer-vos-hão. «Venham uns sapatos grandes, Que os pés n’elles crescerão. —Tendes o passo miudo, Filha, conhecer-vos-hão. «Quando passar pelos homens Darei passo de malhão.» —Os olhos de Dom Martinho, Minha mãi, matar-me-hão. Elle o corpo será de homem, Os olhos de mulher são. —«Convida-o tu, meu filho, Um dia para o pomar, Que se elle mulher fôr Ao agro se hade apegar. Dom Martinho de avisado Ao doce se foi lançar. —Os olhos de Dom Martinho, Minha mãi, me hãode matar! —«Convida-o tu, meu filho, Um dia para o jantar, Que se elle mulher for Aos bancos se hade assentar. Dom Martinho de avisado Cadeira mandou chegar: «Oh que cadeira tam baixa Para um homem se assentar. —«Convida-o tu, meu filho, Um dia para feirar, Que se elle mulher for Ás fitas se hade apegar. Dom Martinho de avisado Ás espadas se foi lançar: «Oh que espadas tam pezadas Para um homem guerrear; Oh que fitas para damas, Quem lh’as pudera levar. —Os olhos de Dom Martinho, Minha mãi, me hão de matar. —«Convida-o tu, meu filho, Um dia para dormir, Que se elle mulher for Não se hade querer despir. Dom Martinho de avisado Se foi logo descalçar: «Tenho feito juramento, Espero de o não quebrar, Em quanto eu andar na guerra As ceroulas não tirar. Tenho feito juramento Protesto de o cumprir, Em quanto eu andar na guerra A camisa não despir; E a espada de meu pae Entre nós hade dormir. —Os olhos de Dom Martinho, Minha mãi, me hãode matar! —«Convida-o, tu, meu filho. Um dia para nadar, Que se elle mulher for Logo se hade acovardar. Dom Martinho de avisado Se foi logo descalçar: «Entre, entre o cavalleiro, Já o vou acompanhar; Os sinos da minha terra Aqui os ouço tocar! A minha mãi já morreu, Meu pai se está a finar; De sete manas que tenho Aqui as ouço gritar. «Abra-me as portas, meu pai, De todo o seu coração; Sete annos andei na guerra Sem me conhecer varão; Mas só no fim dos sete annos Conheceu-me o capitão, Conheceu-me pelo riso, Que por outra cousa não.»
5 Dom Barão
(Variante da Foz)
Já se começam as guerras No campo de Dom Barão: —Triste de mim que sou velho As guerras me acabarão! «Dê-me armas e cavallo Serei seu filho varão. —Tendes o cabello loiro, Filha, conhecer-vos-hão. «Dae-me cá uma thesoura, Que eu já o deito ao chão. —Tendes as mãos pequeninas, Filha, conhecer-vos-hão. «Metel-as-hei n’umas luvas, Nunca d’ellas sairão. —Tendes o pé pequenino, Filha, conhecer-vos-hão. «Metel-os-hei n’umas botas, Nunca d’ellas sairão. Dae-me armas e cavallo, Serei seu filho varão. —Tendes os peitos mui altos, Filha, conhecer-vos-hão. «Incolherei os meus peitos Dentro do meu coração.» O capitão dos soldados Um grande amor lhe tomou; Dom Barão como discreto De nada se receiou. —Oh mi padre, oh mi madre, Grande dor do coração, Os olhos do soldadinho São de mulher, de homem não. —«Convida-o tu, meu filho, Que comtigo vá cear, Porque no partir do pão Se virá a delatar, Que se elle o partir ao peito Por mulher se hade mostrar. Dom Barão como discreto De nada se receiou; Pegou na faca de ponta, Pão e queijo estransinhou. —«Bota-lhe cadeiras altas, Cadeiras baixas a par; Porque elle se mulher for Nas baixas se hade assentar. A donzella por discreta Na mais alta quiz estar. —Minha mãi, minha mãesinha, Eu morro do coração; Os olhos do soldadinho São de mulher, de homem não. —«Convidae-o vós, meu filho, Que comvosco vá feirar, Que se elle mulher fôr, Ás fitas se hade apegar. Dom Barão como discreto Foi uma espada apreçar: «Oh que bellas fitas estas Para damas adornar. —«Convida-o tu meu filho Que comtigo vá dormir; Que se elle mulher fôr Então se hade descobrir. Dom Barão como discreto De nada se receiou; Vestiu camisa e ceroulas E com elle se deitou. —Oh mi padre, oh mi madre, Grande dor do coração; Os olhos de Dom Barão São de mulher, de homem não. —«Convida-o tu, oh meu filho, Que comtigo vá nadar; Que se elle mulher fôr Desculpa vos hade dar. Dom Barão como discreto De nada se receiou; Chamou pelo seu creado Uma carta lhe entregou: «Novas me chegam agora, Novas de negro pezar; E os sinos da minha terra Já ouço repinicar, Ou meu pae que já é morto, Ou está para enterrar. —Montae-vos oh Dom Barão, Que eu vos vou acompanhar. Lá chegando á sua terra Viu seu pae a passear. —Que foi isso Dom Barão, Quem vos vem acompanhar? «Um genro de vocemecê Se o quizer acceitar.
6 Romance de Gerinaldo
(Versão de Traz-os-Montes)
«Gerinaldo, Gerinaldo, Pagem de el-rei mais querido, Queres tu oh Gerinaldo Tomar amores commigo? —Vós como sois ama minha Senhora zombais commigo? «Eu não mango Gerinaldo, Que eu bem deveras t’o digo. —Diga-me minha senhora Quando heide ir no promettido? «Lá da uma para as duas, Que meu pae esteja dormindo. Inda bem não era a uma Gerinaldo ao postigo, Descalço de pé e perna Para não fazer trupido. «Oh quem bate á minha porta, Oh quem é o atrevido? —É Gerinaldo, senhora, Que aqui vem ao promettido, Descalço de pé e perna Para não fazer trupido. «Pousa ahi as tuas armas, E deita-te aqui commigo. El-rei sonhava um sonho Que bem certo lhe sabia: Ou deshonram a Infanta, Ou me roubam o castillo. Levantou-se el-rei da cama Com desgraçado sentido, Pegou em a sua espada E foi dar volta ao castillo; Achou-os ambos na cama Como mulher e marido: —«Eu se mato a Gerinaldo Criei-o de pequechinho! Eu se mato a dona Infanta Fica o reinado perdido. Meto-lhe a espada no meio Para que sirva de aviso. Acordou o Gerinaldo, Ficou mais morto que vivo. «Não te assustes Gerinaldo Que meu pai o tem sabido, Se nos quizera matar Poder estava comsigo. Não te assustes Gerinaldo Vem ter com o rei ao castillo. —«D’onde vens oh Gerinaldo, D’onde vens espulverido? — Venho de matar caça, Senhor, da borda do rio. —«Não me mintas Gerinaldo, Que nunca me tens mentido. — Venho de regar as flores Que ellas o estavam pedindo! —«Pois toma-a por tua mulher, E ella, a ti por marido.
7 Romance da Noiva roubada
(Versão de Almeida)
—Deos vos salve minha tia, Na vossa roca a fiar! «Venha embora o cavalleiro Tam cortez no seu falar. —Má hora se elle foi, tia, Ma hora torna a voltar! Que já ninguem o conhece De mudado que hade estar. Por lá o matassem mouros, Se assim tinha de tornar. «Ai sobrinho de minha alma, Que és tu pelo teu falar! Não vês estes olhos, filho, Que cegaram de chorar? —E meu pai e minha mãi, Tia que os quero abraçar? «Teu pai é morto, sobrinho, Tua mãi foi a enterrar. —Que é da minha armada, tia, Que eu aqui mandei estar? «A tua armada, sobrinho, Mandou-a o fronteiro ao mar. —Que é do meu cavallo, tia, Que eu aqui deixei ficar? «O teu cavallo, sobrinho, El-rei o mandou tomar! —Que é da minha dama, tia, Que aqui ficou a chorar? «Tua dama faz hoje a boda, Amanhã se vae casar. —Dizei-me onde é minha tia, Que me quero lá chegar. «Sobrinho não digo, não, Que te podem lá matar. —Não me matam, minha tia, Cortezia eu sei uzar. E onde faltar cortezia Esta espada hade chegar. —Salve Deos, oh la da boda, Em bem seja o seu folgar! —«Venha embora o cavalleiro, E que se chegue ao jantar. —Eu não pertendo da boda, Nem tam pouco do jantar; Pretendo falar á noiva, Que é minha prima carnal. Vindo ella lá de dentro Toda lavada em chorar, Mal que viu o cavalleiro, Quiz morrer, quiz desmaiar. —Se tu choras por me veres, Já me quero retirar; Se é os teus gastos que choras, Aqui estou para os pagar. «—Pagar devia com a vida Quem me queria enganar, Quando te deram por morto Nessas terras d’alem-mar. Mas que fiquem com a boda, E bem lhes preste o jantar, Que os meus primeiros amores Ninguem m’os hade quitar. —Venha juiz de Castella, Alcaide de Portugal; Que, se aqui não ha justiça Co’ esta espada a heide tomar.
8 Romance do Alferes matador
(Versão da Covilhã)
—Indo eu por quelha abaixo, Topando por quelha acima, Olhei para uma janella, Onde vi ’star trez donzillas. Aquella de azul claro É linda em demasia, Tenho de a ir buscar Inda que me custe a vida. As dez horas eram dadas E elle á porta batia. «Quem bate á minha porta Deshoras á porta minha? —É um grande cavalleiro Que vem buscar sua filha, «Minha filha não ’stá em casa, Foi para a de sua tia, Que a mandou cá buscar Para uma função que havia. Deitou os hombros á porta, Não uzou mais cortezia; Entrou pela casa dentro Com toda a sua ousadia, E foi direito a um quarto Aonde a filha dormia. «Oh filha faz, pela honra Antes que te custe a vida; Honra as barbas a teu pae, Que brancas na cara as tinha. Pegou-lhe pelos cabellos Foi-a arrastar pela villa, E depois de a ver morta A sua mãi a trazia. —Aqui tendes oh D. Anna, Oh Dona Anna vossa filha, Honrada e virtuosa, Mas porem custou-lhe a vida. «Antes a quero ver morta Que a sua honra perdida, Justiça venha do céo Que na terra não a havia, E caia sobre um Alferes, Matador da minha filha.
9 Romance da Romeirinha
(Versão de Traz-os-Montes)
Por aquelles montes verdes Uma romeira descia; Tão honesta e formosinha Não vae outra á romaria. Sua saia leva baixa, Que nas hervas lhe prendia; Seu chapellinho cahido Que os lindos olhos cobria. Cavalleiro vae traz d’ella, Alcançal-a não podia; Alcançou-a descançando Debaixo da verde oliva, Á sombra da arvore benta. Que está no adro da ermida: «Eu te rogo, cavalleiro, Por Deos e Santa Maria, Que me deixes ir honrada Para a santa romaria. Cavalleiro de malvado De amores a accomettia; Pegaram de braço a braço, Qual de baixo, qual de cima. A romeira por mais fraca Logo debaixo cahia. No cahir lhe viu á cinta Um punhal que elle trazia, Com toda a força o arranca, No coração lh’o mettia. —Da vingança que tomaste Eu te peço romeirinha, Que o não digas em tua terra, Nem te vás gabar á minha. «Heide dizel-o em tua terra, Heide-me ir gabar á minha Da vingança que tomei Da affronta que me fazias; Que matei um vil cobarde Com as armas que elle trazia. Tocou a campa da ermida A campa que retinia: «Eu te peço, ermitão, Por Deos e Santa Maria, Que enterres esse traidor Lá na tua santa ermida.
10 Romances da Infanta de França
(Versão da Covilhã)
Dom João foi para caça, Foi á caça á porfia, Anoiteceu-lhe n’um bosque, Era o que elle mais temia; Seus cavallos por ferrar, Era o que elle mais sentia! Lá pela noite adiante Um lindo cantar ouvia, Deitem os olhos ao largo Viu lá estar uma donzilla, Penteando o seu cabello Em um tanque de agua fria. —Que fazeis aqui, senhora, Que fazeis aqui donzilla? «Sete fadas me fadaram No collo de madre minha, Fadaram-me por sete annos, Por sete annos e um dia. Hoje se acabam os annos, Á manhã por noute o dia; Bem podera o cavalleiro Levar-me na companhia. —Desde, já minha senhora, Eu tudo isso lhe faria; Dizei-me, oh minha senhora, Se ides de anca ou de silha? «Eu vou de anca, oh cavalleiro Que isso é da honra minha. Lá pelo caminho adiante Ella se pôz a sorrir. —Do que vos rides, senhora, Do que rides vós donzilla? «Eu rio-me do cavalleiro E da sua cobardia, Achar donzilla no campo E guardar-lhe cortezia. —Tornemos atraz senhora, Tornemos a traz donzilla, Que deixei a minha espora No tanque da agua fria. «Adiante, oh cavalleiro, Eu atraz não tornaria, Se a espóra era de prata Meu pai de ouro lh’a daria. —Dizei-me, oh minha senhora, De quem é que vós sois filha? «Sou filha do rei de França, Neta do rei de Castilla. —Pelos signaes que me daes Vós sois uma mana minha! Mal hajam todos os homens, E quem em mulheres se fia; Cuidando que levo esposa Levo a uma irmã minha! Abram-se esses palacios, Venha toda a fidalguia, Trago aqui uma mana Ha sete annos que a não viram. Venha cá, senhora mãi, Ande vêr a sua filha, Cuidei trazer nóra sua E trago uma mana minha. Levantou-se a sua mãi Da cadeira aonde estava: —«Se tu és a minha filha Anda cá para os meus braços, Se tu és a minha nóra Ai tens os teus palacios.
11 A Encantada
(Variante da Foz)
Indo um cavalleiro á caça Á caça de altanaria, Lá chegando ao alvoredo Viu estar uma donzilla. —Que fazeis ahi senhora? Que fazeis aqui donzilla? «Sete fadas me fadaram No ventre d’uma mãi minha: De eu aqui estar sete annos, Sete annos e mais um dia. Sete annos são acabados Hoje se acaba o dia; Se quereis oh cavalleiro Levai-me por companhia, Não me leveis por senhora, Não me leveis por donzilla; Levai-me por estrangeira Que achaes na terra perdida. —Montai-vos aqui, senhora, Montai-vos aqui, donzilla, Ou nas ancas ou na sella, Onde fôr mais honra minha. Montou-se logo a donzella Foi seguindo o seu caminho, Lá chegando á estrada De risos o accommettia: —De que se ri oh menina? De que se ri oh donzilla? «Rio-me do cavalleiro E da sua cobardia, De achar menina na serra E lhe guardar cortezia. —Deixai-me agora chorar Olhae a minha mofina! Oh quem perdeu o que eu perco Grande pena merecia.