III-ROMANCES QUE SE ENCONTRAM NAS COLLECÇÕES HESPANHOLAS
Reading edition
24 Romances do Conde prêso
(Versão de Trás-os-Montes)
Prêso vae o Conde, prêso, Prêso vae a bom recado; Não vae prêso por ladrão, Nem por home’ haver matado. Mas por violar a donzella Que vinha de Sanctiago. Não bastou dormir com ella, Se não dal-a ao seu criado! Accommetteu-a na serra, Mui longe do povoado; Por morta ali a deixára Sem mais dó, sem mais cuidado. Foi á presença do rei Onde o Conde era levado: «Eu te requeiro, bom rei, Pelo Apostolo sagrado, Que n’esta sua romeira O fôro seja guardado. Da lei divina é casar-se, Da humana ser degollado; Não ha fôro ou privilegio Onde Deos é o aggravado. Disse o rei aos do conselho, Com semblante carregado: —Sem mais detença este feito Quero já desembargado! —«Visto está o feito, visto, Julgado está, bem julgado; Ou hade casar com ella, Ou senão... ser degollado. —Pois que me praz, disse o rei, O algoz seja chamado; Ou já casar com a romeira, Ou aqui ser degollado. «—Venham algoz e cutello, (Respondeu o accusado) Antes morrerei mil vezes, Antes que ser deshonrado! Não me enterrem na egreja Nem tam pouco em sagrado: N’aquelle prado me enterrem Onde se faz o mercado. Cabeça me deixem fóra, O meu cabello entrançado; De cabeceira me ponham A pelle do meu cavallo, Que digam os passageiros: Triste de ti, desgraçado! Morreste de mal de amores, Que é um mal desesperado!
25 Dom Garfos
(Variante da Beira Baixa)
Lá abaixo vem o Conde, Prêso vem, arreatado, Não por furtos que haja feito, Nem por homens que ha matado; Foi por zombar da romeira Que vinha de Sanctiago. A romeira era nobre, A el-rei se ha queixado. Mando que case com ella, Ou que seja enforcado! Não heide casar com ella, Nem heide ser enforcado! Quem me dera aqui meus pretos, Ou meus velozes cavallos, Ou meu sobrinho Dom Garfos, Que eu me vira bem vingado. Palavras não eram ditas Dom Garfos era chegado: «Quem vos trouxe aqui, meu tio, Tão prêso e arreatado? Não por furto que haja feito, Nem por homens que ha matado? —Foi por zombar com a romeira Que vinha de Sanctiago; A romeira era nobre A el-rei se ha queixado. Manda que case com ella, Ou que seja enforcado. Vae tu falar com el-rei, A vêr se me ha perdoado. Entrou por palacio dentro: «Deos vos salve, meu bom rei! Mandae-me soltar meu tio, Se não eu o soltarei. —«Vae Dom Garfos para casa, Dorme um somno descançado; Das onze pr’a meia noite Teu tio será soltado. Lá pela noite adiante Acordou sobresaltado! Disse p’ra sua mulher Que um sonho tinha sonhado: «Lá no Terreiro do Passo Está meu tio enforcado. —Não digas isso zombando, Que esta noite ouvi um brado. Com uma mão veste a capa, Com outra sela o cavallo; A um pretinho que tinha Uma lança lhe ha dado. Foi-se ao Terreiro do Paço E viu seu tio enforcado! «Deos te perdôe, meu tio, Deos te tenha perdoado. Sete condes caminhavam A verem o enforcado; A um mata, outro degolla, Só um lhe ha escapado; E esse mesmo que escapou Foi a unha de cavallo. —«Oh Dom Garfos, oh Dom Garfos, Não sejas desatinado, Mataste-me já seis condes, Os melhores do meu reinado. «E a vós tambem proprio Rei, Se cá estivesses em baixo; Mas como estaes de ventana Palraes nem um papagaio! Mas n’uma filha que tendes Eu me verei bem vingado. Vae Dom Garfos para casa, Quatro facadas lhe ha dado: «Uma é á honra de tu padre, Outra á honra de tu madre; Outra por minha saúde Que te as haja mui bem dado! Outra por seres traidora, Que me não has acordado.
26 Justiça de Deos
(Variante da Beira-Alta)
Prêso vae o conde, preso, Prêso vae a bom recado; Não vae preso por ladrão, Nem por homem ter matado, Mas por violar a donzella Que vinha de Sanctiago: Não bastou dormir com ella, Senão dal-a ao seu criado. Accommetteu-a na serra, Mui longe do povoado: Por morta ali a deixara Sem mais dó, nem mais cuidado. Chorou tres dias, tres noites, E mais teria chorado, Senão que Deos sempre acode A amparar o desgraçado. Passou por ali um velho, Um pobre velho soldado, As barbas brancas de neve, Em sua espada abordoado. Vieiras traz na esclavina, O chapeo d’ellas cercado; Chegou-se á pobre romeira Com muito amor, muito agrado: —Não chores mais, filha minha, Filha, de mais tens chorado; Que esse villão cavalleiro Prêso vae a bom recado. Levou comsigo a donzella O bom velho do soldado, Vão á presença d’el-rei Onde o conde era levado. —Eu te requeiro, bom rei, Pelo Apostolo sagrado, Que n’esta tua romeira O fôro seja guardado. Da lei divina é casar-se, Da humana ser degollado: Que não valem fidalguias Onde Deos é o aggravado. Disse el-rei aos do conselho Com semblante carregado: —«Sem mais detença, este feito Quero já desembargado, «—Visto está o feito, visto, Julgado está, bem julgado: Ou hade casar com ella, Ou senão, ser degollado. —«Pois que me praz, disse o rei, O algoz que seja chamado; Ou já casar com a romeira, Ou aqui ser degollado. «Venham algoz e cutello, Respondeu o accusado: Mas antes morrer mil vezes Que viver envergonhado. Agora ouvireis o velho, O bom velho do soldado: —Fazeis, bom rei, má justiça, Mau feito tendes julgado; Primeiro casar com ella, E depois ser degollado. Lava-se a honra com sangue, Mas não se lava o peccado. Palavras não eram ditas A espada tinha arrojado; Despe o gaivão de romeiro, Despe as armas de soldado, Nos trajos de um santo Bispo Apparece transformado! Sua mitra de pedras finas, De ouro puro o seu cajado; Tomou a mão da romeira, A mão do conde ha tomado, Por palavras de presente Ali os tem desposado. Choravam todos que o viam, Chorava mais o culpado; Chorando, pedia a morte Por não ficar deshonrado. O santo Bispo o absolvia Contricto do seu peccado: D’ali o levam por morto, Que nem o algoz foi chamado; Justiça de Deos foi n’elle: Antes de uma hora é finado.
27 Romances do Conde Alberto
(Versão do Porto)
Indo Dona Silvaninha Pelo corredor acima, Tocando sua guitarra, Muito bem que a tangia; Acordou seu pae da cama Com o estrondo que fazia. —Que tendes, Dona Silvana, Que tendes, oh vida minha? «Raparigas do meu tempo São casadas, têm familia, Eu por ser a mais formosa Para o canto ficaria? —Não tenho com quem te case Neste reino, minha filha; Só se fôr o Conde Alberto, É casado e tem familia. «Mandai-o chamar, meu pae, Da sua parte e da minha, Que mate sua condessa, E case com vossa filha; Que traga a cabeça d’ella Nesta dourada bacia. Eis manda chamar o Conde Da sua parte e da filha; Matasse a sua condessa, Casasse com Silvaninha. Veio o Conde mui depressa, Mais depressa que podia: —Quero mates a condessa, Que cases com minha filha. —«Como matar a condessa Se ella a morte não merecia? —Mata, mata, Conde Alberto; Antes de uma Ave-maria Me traz a sua cabeça N’esta dourada bacia. Foi o Conde para casa, Muito triste que elle ia; Mandou fechar seus palacios, Cousa que nunca fazia. Mandou vestir seus criados De luto á maravilha; Mandou pôr a sua mesa Para fazer que comia. As lagrimas eram tantas Que pela mesa corria; Os suspiros eram tantos Que o palacio estremecia. Desceu a condessa abaixo A vêr o que o Conde tinha: »Que tens tu, oh Conde Alberto, Que tendes, oh vida minha? Conta-me as tuas tristezas Como contaes alegrias. —«Minhas tristezas são tantas Que contar-vos não queria, »Conta, conta, Conde Alberto, Conta, conta, vida minha. —«Manda-me el-rei que te mate, Que case com sua filha. »Cala-te lá, Conde Alberto, Que isso remedio teria: Meter-me-has n’um convento, Que não veja sol, nem dia; Deras-me o pão por onça, Agua por uma medida. —«Ai! como pode isso ser, Condessa da minha vida? Diz que te leve a cabeça Nesta maldita bacia. »Cala-te d’ahi, oh Conde, Que isso remedio teria: Matarias a donzella Que se parece commigo. —«Cala-te d’ahi, mulher, Que isso não é honra minha. »Vou para casa de meu pae Nunca mais apparecia. Palavras não eram ditas El-rei á porta batia: Se a condessa era morta, Senão elle a mataria. —«A Condessa não é morta, Anda n’essas agonias. »Deixa-me dar um passeio Da sala até á cosinha: Adeos moças, adeos aias Com quem eu me divertia, Adeos espelho real Onde me via e vestia; Que ámanhã por estas horas Já estarei na terra fria. Dá-me cá esse menino Que o quero pentear; Dá-me cá o outro mais novo, Quero-lhe dar de mammar: Mamma, mamma, meu menino, Este leite de paixão, Que ámanhã por estas horas Está tua mãe no caixão. Mamma, mamma, meu menino, Este leite de pesar, Que ámanhã por estas horas Vae tua mãe a enterrar. Mamma, mamma, meu menino, Este leite de amargura, Ámanhã por estas horas Está tua mãe na sepultura. Tocam sinos em palacio, Ai, Jesus, quem morreria? —Morreu a filha do rei Pela soberba que tinha, Descasar os bem casados Cousa que Deos não queria.
28 Conde Alves
(Variante da Beira Baixa)
Estando a princesa a chorar, Filha do rei de Castilla: Seu pae se foi ter com ella Ao estrondo que fazia: —O que é isso, oh Silvana, Que é isso, oh filha minha? «De tres manas que eu tenho São casadas tem família; Eu por ser a mais formosa Solteirinha ficaria? —Não tenho com quem te case Na mais alta senhoria; Só sendo com o Conde Alves, É casado e tem familia. «Com esse, meu pai, com esse, Com esse é que eu queria; Mande-o chamar, meu pae, Da sua parte e da minha! —Ála, ála, meus criados, O Conde Alves vão chamar. —«Ainda agora de lá venho, Já para lá heide tornar? Entrou pelo passo dentro Fazendo mil cortezias: —«Que me quer a Vossa Alteza, Vossa Alteza Senhoria? —Quero que mates a Condessa, E cases com minha filha! —«A Condessa não a mato, Que ella a morte não merecia. Mando-a deitar aos matos, Que os bichos a comeria. —Mata, mata, Conde Alves, Não me tornes demasia; A cabeça me ha de vir N’esta dourada bacia. Não m’a troques lá por outra, Que eu bem a conhecia; Que ao seu lado direito Um sinal preto teria. Foi-se d’ali o bom Conde, Cheio de melancholia; Mandou fechar suas portas, Cousa que nunca fazia! Mandou pôr a sua mesa, Nem um, nem outro comia; As lagrimas eram tantas, Que pela mesa corria. «—O que é isso, oh bom Conde, Que é essa melancholia? Conta-me as tuas tristezas, Que eu te conto alegrias! —«Se eu te contasse tristezas, Morta para trás cahirias: Mandou o rei que te mate, Que case com sua filha. «—Isso não, bom conde, não, Que eu a morte não merecia; Manda-me deitar aos mares, Que os peixes me comeria. —«Isso não, condessa, não, Que o rei logo o sabia, A cabeça te hade ir N’aquella negra bacia, Que te não troque por outra Que elle bem te conhecia; Que ao teu lado direito Um sinal preto teria. «—Deixa-me dar um passeio Da sala para o jardim: Adeos cravos, adeos rosas, Adeos flor do alecrim. Deixa-me dar um passeio Da sala para a cosinha; Deixa-me dar de mammar Ao filho que tanto queria. Mamma, filho, mamma, filho, Este leite amargurado, Ámanhã por estas horas Já teu pai está coroado. Mamma, filho, mamma, filho, Este leite de amargura; Ámanhã por estas horas Já estarei na sepultura. Anda cá, filho mais velho, Que te quero ensinar A tua mãe a rainha Como lhe haveis de chamar, Com o joelho no chão, O chapeosinho no ar. Estando n’estas razões El-rei á porta batia: A condessa já é morta, Senão elle a mataria. —«A condessa não é morta, Está n’essas agonias. Tocam os sinos na côrte, Ai, Jesus, quem morreria? Morreu, foi Dona Silvana, Por crimes que commettia; O pae morreu ás dez horas, E a filha ao meio dia. Apartar os bem casados Era o que Deos não queria.
29 Romances do Conde de Allemanha
(Versão da Beira-Baixa)
Já o sol nasce na serra, Já lá vem o claro dia, Inda o Conde de Allemanha Com a rainha dormia. Não o sabia o rei, Nem quantos na côrte havia, Sabia-o só o princesa Juliana sua filha. —Juliana, se o sabes, Não o queiras descubrir; Porque o Conde é muito rico De ouro te hade vestir. «Não quero seus fatos d’oiro, Já os tenho de damasco; Inda meu pae não é morto, Já me querem dar padrasto! As pregas d’esta camisa Eu não as chegue a fazer, Quando meu pae vier da missa Se eu lh’o não fôr dizer. As pregas d’esta camisa Não as chegue eu a acabar, Em meu pae vindo da missa Se lh’o eu não fôr contar. Estando n’estas rasões O pae á porta batia: —«Oh que razões serão essas Entre uma mãe e a filha? «Com bem venha, senhor pae, Com Deos seja a sua vinda; Tenho para lhe contar Um conto de maravilha: Estando eu no meu tear, Tecendo cambraia fina, Veio o Conde de Allemanha... —«Algum fio te quebraria? Não te zangues, minha filha, Nem me faças tu zangar, Porque o Conde é divertido, Talvez fosse por brincar. «Mal o hajam os seus brincos, Mais o seu negro brincar; Que me pegou por um braço E á cama me quiz levar. —«Accommoda-te pois, filha, Não me faças mais zangar, Ámanhã por estas horas Vae o Conde a degollar. «Levante-se, minha mãe, Venha vêr a bizarria! E o Conde da Allemanha Tambem vae na companhia, Com a cabeça n’um prato, E o sangue n’uma bacia. —Mal o hajas tu, oh filha, Fóra o leite que mammaste; Sendo o Conde tão bonito A morte que lhe causaste. «Accommode-se minha, mãe, Não me faça mais zangar, A morte, que o Conde leva Não lh’a faça eu levar. —Bem hajas, oh minha filha, Mais o leite que mammaste; Menina de doze annos Da morte que me livraste.
30 O Conde de Allemanha
(Variante de Trás-os-Montes)
Já o sol dava na côrte, E já era o claro dia, Inda o Conde de Allemanha Com a rainha dormia. Não no saberia el-rei, Nem quantos na côrte havia, Sabia-o a Dona Infanta Filha da mesma rainha. —«Infantinha, se o sabes, Não me queiras descobrir, Que o Conde é mui brioso, De ouro te hade vestir. «Não quero vestidos d’ouro, Que os tenho de damasco, Meu pae ainda é bem novo, Já me querem dar padrasto. As mangas d’esta camisa Não as chegue eu a romper, Se quando vier meu pae Eu lh’o não fôra dizer. Venha, venha, senhor, pae, Santa seja a sua vinda, Um conto quero contar, Um conto á maravilha. —Conta, conta, minha filha, Que eu gósto do te ouvir! «Estando eu na minha cella, Dobando seda amarella, Veio o Conde de Allemanha Tres fios me tirou d’ella, —Cala-te lá, oh filha, Vamos p’r’a mesa jantar, Que o Conde é rapaz novo, É menino quer brincar. «Mal hajam os seus brinquedos, Mal haja do seu brincar, Que pegou em mim nos braços, Á cama me foi lançar. —Dize pois, oh minha filha, Que castigo lhe heide dar? «Quero escadas dos seus ossos Para o jardim passear. —Cala-te lá, oh filha. Vamos para a mesa jantar, Que amanhã por estas horas Vae o Conde a degollar. —«Arrenego-te, Mariana, Mais o leite que mammaste, Oh que Conde tão bonito E a morte que lhe causaste, «Minha mãe, minha mãesinha, Venha á janella do canto, Venha ver o senhor Conde Todo vestido de branco. Venha vêr, oh minha mãe, Á janellinha do poço, Venha vêr o senhor Conde Com uma corda ao pescoço. Venha, venha, minha mãe, Venha p’r’a sala do meio, Vêr o Conde da Allemanha Feito n’um cravo vermelho. —«Mal o hajas tu, oh filha, Fóra o leite que mammaste, Sendo o Conde tão bonito A morte que lhe causaste. «Cale-se ahi, minha mãe, Ninguem a ouça falar; Que a morte que leva o conde Não a vá você levar.
31 Romances de Dom Carlos de Montealbar
(Versão do Porto e Beira-Alta)
Estando Dona Silvana, Mais Dom Carlos Montealbar, Debaixo de uma roseira, Debaixo de um rosal, Passou por ali um pagico, Que nunca elle passasse: —Pagico, do que has visto A el-rei não vás contar, Que eu te dou a minha chave, Quanto puderes levar; E da parte da senhora O que ella te quizer dar. «Não quero ouro, nem prata, Se ouro e prata me heis dar; Quero guardar lealdade A quem a devo guardar. Pagem, como ignorante, A el-rei o foi contar, Á casa dos estudantes Onde estava a estudar, «Deos vos salve, senhor rei, E a vossa corôa real; Lá deixei o conde Carlos Com a princesa a folgar, «—Se á puridade o dissesses Tença te havia de dar; Mas pois tam alto falaste, Alto hasde ir a enforcar. —«Ganhas-te, mexeriqueiro, Com o teu mexericar. «Ganhei a morte, senhora, E a vida me podeis dar. —«Se ella está na minha mão, A vida não te heide dar; Para outra não fazeres Já irás a degollar, E ao rabo do meu cavallo Te mandarei arrastar. Aos sette para outo mezes Seu pae que a estava a mirar; -«Que me mira, senhor pae, Que tanto me está a mirar? «—Eu miro-te, minha filha, Que me pareces pejada. —«Calle-se d’ahi, meu pae, Que é das saias mal talhadas. Mandou chamar dois obreiros A quem elle mais amava, Olharam um para o outro: »Estas saias não tem nada! «—Call’-te, call’-te, minha filha, Ámanhã serás queimada! —«Não se me dá que me queimem, Que me tornem a queimar; Da-se-me d’este meu ventre Que é de sangue real. Ai quem me dera um pagico Que me fôra bem mandado, Que me levara uma carta A Dom Carlos Montealbar. «Escreva, minha senhora, Em quanto eu vou jantar. —«Se elle estiver a dormir Façam-no logo acordar, Se elle estiver a comer Não o deixem acabar. «Aqui lhe trago, senhor, Novas de grande pesar, Que a sua bella menina Ámanhã vae a queimar. Jornada de trinta leguas Temol-a nós para andar. Era meia noite em ponto Dom Carlos a repousar; Chamou um dos seus criados O que lhe era mais leal, Lhe aparelhasse um cavallo Dos que tem melhor andar; Doze campainhas d’ouro Lhe puzesse ao peitoral. Onde vás tu, oh Dom Carlos, Sósinho por esse andar? Vestiu-se em trajos de frade Ao caminho foi esperar. —Cesse, cesse, senhor conde, Cesse se hade cessar, Que a menina que aí vae Inda está por confessar. «—Confesse-a, senhor padre, Em quanto eu vou jantar. —Diga-me, minha menina, Verdade me hade falar: Se algum dia teve amor A leigo, crelgo, ou a frade? —«Nunca tive amor a crelgo, Nem a leigo, nem a padre; Tive amores com Dom Carlos, Por isso vou a queimar. No primeiro mandamento O padre nada lhe disse; No meio da confissão Um beijinho lhe pediu. —«Cesse, cesse, senhor padre, Cesse se hade cessar, Onde Dom Carlos beijou Ninguem mais hade beijar. —Esse sou, minha senhora, Que a venho aqui buscar. Tomou-a logo nos braços, Puzeram-se a caminhar; Correm d’alem os criados E puzeram-se a gritar: «Senhor padre, deixe a moça, Que a manda seu pae queimar! —Pois vão dizer a seu pae, Que a venha d’aqui tirar.
32 Dona Lisarda
(Variante da Beira-Baixa)
—Oh Lisarda, oh Lisarda, Oh Lisarda meus amores, Quem dormira uma só noite Comvosco n’esses alvores. «Dormirieis uma ou duas Se não vos fôsses gabar. —Tenho feito juramento Na folhinha do Missal, Menina com quem dormir De eu a não ir diffamar. Ainda não era manhã Ao jogo se foi gabar: —Dormi esta noite com uma.... Não ha na corte uma egual! Puzeram-se uns para os outros: Quem seria? quem será? Aonde estava um irmão Á mãe o veio contar; A mãe assim que o soube Logo a mandou fechar. O pae perdeu confiança, Lenha lhe mandou cortar. «—Oh Lizarda, oh Lizarda, O pae te manda queimar. «Não se me dá que me queime, Nem que me mande queimar; Dá-se-me d’este meu ventre Que leva sangue real. Chegou a uma janella Mui triste do coração: «Haverá por’hi um pagem O qual queira do meu pão, Que esse levasse uma carta Ao conde de Montalvão? Appareceu-lhe um menino De sete annos e mais não: —«Eu lh’a levarei, senhora, Escripta no coração. «Se o achares a dormir Deixa-o primeiro acordar; Se o achares á janella, Cartas lhe vás entregar. Foi fortuna do menino Á janella o ir achar: —«Cartas lhe trago, senhor, Cartas de muito pesar; Menina com quem dormistes Ámanhã a vão queimar. Não se lhe dá que a queimem, Nem que a levem a queimar; Dá-se-lhe só do seu ventre Que leva sangue real. —Ala, ala, meus criados, Cavallos ide ferrar, Com ferraduras de bronze Que não se hajam de gastar. Jornada de outo dias Esta noite se hade andar. Vestiu-se em trajos de frade Começou a caminhar; Quando chegou ao pé d’ella Então já a iam queimar. —Quéde, quéde essa justiça, Se não a farei quedar, A menina que aí levam Ainda vae por confessar. —Confessae-a, senhor padre, Emquanto vamos jantar; A confissão é de um anno, Ella hade-se demorar. —Venha cá, minha menina, Faça confissão geral, No meio da confissão Um beijinho me hade dar. «Tenho feito juramento Na folhinha do Missal, Bocca que beijou o conde Frade não hade beijar. —Venha cá, minha menina, Que a quero confessar; No meio da confissão Um abraço me hade dar. «Não permitta Deos do céo Nem os santos do altar, Braços que o conde abraçaram Frades não hão de abraçar. Começa-se elle a sorrir No meio da confissão: «Pelo rir estás parecendo O Conde de Montalvão! —Esse sou, minha senhora, Criado para a salvar. Montou-a no seu cavallo, Foi á pressa a caminhar, Quando veio a justiça Não a puderam alcançar. —Digam agora a seus manos ’ Que a venham cá accusar; Digam agora a sua mãe Que a venha cá fechar; Digam também a seu pae Que a mande agora queimar! Vae na minha companhia Para com ella casar.
33 Dona Areria
(Variante de Coimbra)
A cidade de Coimbra Tem uma fonte de agua clara; As moças que bebem n’ella Logo se vêem pejadas. Dona Areria bebeu n’ella Logo se viu occupada Estando com seu pae á mesa Seu pae que muito a mirava: —Dona Areria, Dona Areria, Parece que estás pejada? «A culpa é dos alfaiates, Que talharam mal a saia. Chamaram-se os alfaiates Á sua salla fechada, Olharam uns para os outros: —Esta saia não tem nada. Ao cabo de nove mezes Ella será abaixada. Arrecolheu-se ao seu quarto Muito triste, desmaiada. —Dona Areria, Dona Areria, Ámanhã serás queimada. «Não se me dá que me queimem, Que me tornem a queimar; Dá-se-me d’este meu ventre Que é de mui nobre linhagem. Oh quem me dera um criado Que me comêra o meu pão; Que me levara uma carta Ao conde de Montalvão. —Escreva, menina, escreva, Escreva do coração, Que eu lhe levarei a carta Ao conde de Montalvão. —Aqui tem, oh senhor conde, Carta de muito pesar; Menina com quem dormiu Ella aí vem a queimar. —«Se tu me dizes devéras, Cavallos mando apromptar; A jornada de oito dias Ainda hoje se hade andar. —Lá ao fim de nove legoas Liteiras se hão de encontrar. Vestiu-se em trajos de frade Ao caminho a foi esperar; Em chegando ao pé d’ella Aos criados foi falar: —«Pára, pára, oh da liteira, Que eu te farei parar, A menina que vem dentro Ella vem por confessar: —«Diga-me, minha menina, Verdade me hade falar, Se teve amores com clerigos Ou com frades, mal pesar? «Não tive amores com clerigos, Nem frades de mal pesar; Tive amores com Dom Carlos, Por isso vou a queimar. —«Lá no meio da confissão Um beijinho me hade dar. «Onde o conde pôz a bocca Padre algum lhe hade tocar. —«Pois Dom Carlos sou eu mesmo E comtigo heide casar.
34 Romance do Passo de Roncesval (Versão de Trás-os-Montes)
—Quêdos, quêdos cavalleiros, Que el-rei os manda contar! Contaram e recontaram, Só um lhe vinha a faltar; Era esse Dom Beltrão, Tão forte no batalhar; Nunca o acharam de menos Senão n’aquelle contar, Senão ao passar do rio, Nos portos de mal passar. Deitam sortes á ventura A qual o ha de ir buscar. Que ao partir fizeram todos Preito, homenagem no altar, O que na guerra morresse Dentro em França se enterrar. Sete vezes deitam sortes A quem no hade ir buscar; Todas sete lhe cahiram Ao bom velho de seu pae. Volta redeas ao cavallo, Sem mais dizer, nem falar... Que lh’a sorte não cahira, Nunca elle havia ficar. Triste e só se vae andando Não cessava de chorar; De dia vae pelas montes. De noite vae pelo val; Aos pastores perguntando Se viram ali passar Cavalleiro de armas brancas, Seu cavallo tremedal? «Cavalleiro de armas brancas, Seu cavallo tremedal, Por esta ribeira fóra Ninguem não no viu passar. Vae andando, vae andando Sem nunca desanimar, Chega áquella mortandade D’onde fôra Roncesval: Os braços já tem cansados De tanto morto virar; Viu a todos os francezes, Dom Beltrão não pôde achar. Volta atrás o velho triste, Volta por um areal, Viu estar um perro mouro Em um adarve a velar: —Por Deos te peço, bom mouro, Me digas sem me enganar, Cavalleiro de armas brancas Se o viste por’qui passar? Hontem á noite seria, Horas do gallo cantar, Se entre vós está cativo A oiro o heide pezar. «Esse cavalleiro, amigo, Diz’-me tu que signaes traz? —Brancas são as suas armas, O cavallo tremedal, Na ponta da sua lança Levava um branco sendal, Que lh’o bordou sua dama Bordado a ponto real. «Esse cavalleiro, amigo, Morto está n’esse pragal, Com as pernas dentro d’agua, O corpo no areal. Sete feridas no peito A qual será mais mortal: Por uma lhe entra o sol, Por outra lhe entra o luar, Pela mais pequena d’ellas Um gavião a voar. —Não tórno a culpa a meu filho, Nem aos mouros de o matar: Tórno a culpa a seu cavallo De o não saber retirar. Milagre! quem tal diria, Quem tal poderá contar! O cavallo meio morto Ali se pôz a falar: —«Não me tornes essa culpa, Que m’a não podes tornar; Tres vezes o retirei, Tres vezes para o salvar; Tres me deu de espora e rédea, Co’a senha de pelejar. Tres vezes me apertou silhas, Me alargou o peitoral... Á terceira fui a terra D’esta ferida mortal.
VERGEL DE ROMANCES MOURISCOS, CONTOS DE CAPTIVOS, LENDAS PIEDOSAS E XACARAS