I
Reading edition
Rolam fundas as águas nos caudais. Fundiu-se em torrente a neve que cobria de doce alvura a aspereza da montanha. Nuvens negras do sul que o vento apressa, jorraram o seu dilúvio sobre os campos. A inundação cobriu sebes e vales, e a seara, o prado e o burgo que agasalha o cavador, os jugos e as enxadas. De outeiro a outeiro, onde ontem perpassava o suave esplendor de mansas vidas,—em tímidas boninas, em rebanhos, pascendo repousados a abundância, e nesse fecundo arranco heróico e hercúleo dos servos da gleba generosa—a devastação das águas desapiedadas estende turvamente uma mortalha. E onde se ouvia murmurar a paz, o embalar dos berços carinhosos e estrídulos descantes de ceifeiras, felizes e esforçadas na sua faina, lançou a inundação roucos pregões de ameaça e terror, tumultuosa e lúgubre no ímpeto. Dia e noite, ou brilhe o sol vencendo{76} a tempestade ou a escuridão se cerre impenetrável, rugem no vale horrendos clamores de morte, de ruína e de crueza.
Ouviram-nos ao longe os povoados; os montes e as quebradas repetiram-nos. E, sentindo como um grito de aves fúnebres que dos céus nos mandassem seus agoiros, um sombrio pavor me subjuga. Seus lívidos espectros de desgraça escurecem-me em mágoa o pensamento, mostrando-me os infernos neste mundo entregue sem resgate às suas penas.