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Ramo de Flores

FLORES DO CAMPO

Reading edition

DE

João de Deus

É indispensavel crêr na poesia como se crê no Evangelho, como se acredita em Deus. No perpassar d'esta via dolorosa, cortada a todo o passo de agrestes sinuosidades, a poesia luzindo de quando em quando ao viageiro extenuado como um iris de bonança, significa a mais completa redempção da materia pelo espirito.

Aguia sobranceira que elevando-se até perder de vista o lodo em que se immergem tantos e tantos seres, vae roçar com a fimbria da aza a crista das nuvens, confundindo os seus arrulhos mysteriosos com as melodias dos seraphins!

Creou Deus a poesia para que a primavera com os seus canticos e perfumes, com a sua opulenta vegetação, encontrasse quem a comprehendesse, quem a cantasse: creou Deus a poesia para escarmento ao vicio, distanceando-nos do finito que é o começo do scepticismo, para o infinito que é Deus! Surgiu a poesia para que nas trevas de um mundo que ri de tudo como Democrito, que tudo amesquinha, brilhasse uma luz que só de vêl-a a alma se purificasse e o espirito adejasse para o ideal.

Não chamem á poesia trivialidade.

Estudem os seculos; contemplem as nações e digam se a poesia teve ou não extraordinaria influencia nos grandes acontecimentos sociaes.

Quem, senão Roger de l'Isle, ergueu palpitante toda a França com umas quantas estrophes, a Marseillaise?

Não foram os versos de Shakespeare, de Milton, de Pope, que poderosamente concorreram a immortalisar a Inglaterra?

Portugal não deve a fama da sua gloria aos Lusiadas de Camões?

Consintam os homens de algarismos, os materialistas que antepõem a carne ao espirito, que fazem d'ella o seu credo, que os poetas, os sonhadores de chimeras deixem devanear a imaginação por esses horisontes de anil; deixem que reclinados á proa do baixel da vida namorem o azul das aguas depois de terem contemplado o dos céos.

Ai da humanidade, se o poeta deixar pender a fronte desalentada ao partirem-se-lhe as cordas da lyra! a prosa invadirá o sanctuario dos mais nobres estimulos, e o sceptico exultará ao soltar a sua risada infernal como a dos condemnados do Dante.

Não sei quantas vezes temos lido as Flores do Campo, exhaurindo sempre novos e exquisitos perfumes.

Tem isso a originalidade, que é o distinctivo d'este poeta. Costumamos dizer com referencia a qualquer notavel escriptor nosso: aquelle talento tem a suavidade de Lamartine, o sentimento de A. de Musset, o mysticismo de Chateaubriand, a ironia de Byron, a energia apaixonada de Victor Hugo.

Porque não havemos de dizer que João de Deus tem o cunho original da poesia portugueza na sua mais genuina expressão?! Quem se compraz em parodiar constantemente os usos e idiomas dos de fóra, deve uma vez por outra, ufanar-se do que tem de seu original e portuguez de lei, como o é João de Deus em todos os seus escriptos.

Atravez dos versos do mimoso poeta contemplam-se as noites estrelladas de Portugal, o Tejo com as risonhas margens, Coimbra com a sua Fonte das Lagrimas, o clima emfim e a vegetação esplendida d'este pequeno eden.

Vê-se que este poeta é portuguez de feição, e comprehende-se quanto na patria de Camões e Garrett a poesia se manifesta espontanea e esplendida na fórma e ideia!

Começa o livro com a poesia Camões e Byron, e termina com o Cantico dos Canticos: abre pois com chave de prata para fechar com chave de ouro.

Ha estrophes de uma suavidade tão nimiamente infantil, tão peculiarmente despretenciosa, que a ninguem senão a João de Deus poderiam attribuir-se, quando mesmo o seu nome não estivesse engrinaldando luxuosamente o adito d'este livro.

Citaremos, entre muitas, estas:

Maria! vêr-te á porta a fazer meia Olhando para mim de vez em quando, É o que n'esta vida me recreia. .................................. Esses olhos azues... que olhar! Receio E desejo estar sempre a contemplal-o; Não ha mais doce e mais custoso enleio. .................................. Bem poderas, Maria andar tapada Só com o teu cabello, á similhança Do sol em nuvem de manhã doirada. ................................... A bôca é tão vermelha que, em te rindo, Lembra-me uma romã aberta ao meio, Quando já de madura está caindo.

Na poesia Innocencia revela o poeta, a par de uma finura de sentimento e extrema sensibilidade, um preito á virtude, que toda a mulher que a lêr deve necessariamente sentir-se attrahida por um sentimento de gratidão para quem a escreveu:

Casta innocencia, de Deus filha e bella Entre as mais bellas! virginal aroma! Rosa ineffavel, que se á luz assoma, Haste e raiz apodreceu com ella!

Percebemos tambem que João de Deus pertence ao numero dos crentes, ainda tão mal limitado; prova-o exuberantemente as suas poesias Luz da Fé, Fragmento, e varias outras.

Deus era inda meu pae. E em quanto pude Li o seu nome em tudo quanto existe; No campo em flor; na praia arida e triste, No céo, no mar, na terra e... na virtude!

Como o poeta adora a poesia e o quanto tem d'ella feito o seu credo, dil-o eloquentemente esta quadra:

Oh! poesia, poesia altissima Como o fecho do impyreo! eu me ajoelho E beijo a tua base, harpa celeste! O coração—a corda que nos deste.

Na alma d'este homem que tem na fronte uma estrella de fogo e talvez um martyrio no coração, suspiram ternuras indiziveis que a sua lyra traduz em canticos suavissimos:

É do sangue e das mães que eu fallo, e certo, Que ha na vida mais sancto? O sangue é vida; E as mães fontes de vida: eu nunca esperto Esta lampada d'alma, suspendida Na abobada eterna e que tão perto Parece ter a origem.............. ....................senão quando Vejo essa cara imagem suspirando.

Querem dizer, e talvez com razão, que João de Deus abusa da rima deixando-a por vezes defeituosa.

A meu vêr esta pecha está na razão das manchas que o sol contém, mas que os nossos olhos não descobrem sem o auxilio do telescopio, o que não obsta a que o sol seja o astro do dia.

«Marcar balisas á poesia, é impossivel, diz um illustre poeta e critico, a poesia é livre como o pensamento, e grande como a immensidade.»

Eis-ahi está o segredo da culpa, e feliz culpa!

Se João de Deus pertencesse a um certo numero de poetas que esgravatam na areia e folheiam livros alheios primeiro que possam rabiscar algumas insulsas linhas, talvez a rima lhe saísse menos incorrecta segundo a arte, mas acanhada e rachitica segundo o pensamento.

A verdadeira poesia, como diz C. de Figueiredo, surge livre como a natureza; irrompe, inunda de luz de fogo, sem muitas vezes poder sujeitar-se aos acanhados moldes da arte.

Apparece-nos o poeta, namorado como Bernardim Ribeiro, n'estas dulcissimas estrophes:

Não ha existencia alguma Que não tenha amor, nenhuma; Porque o amor, é, em summa, Essencia de todo o ser. Ha sempre quem nos attraia, Mil vezes que a onda caia, Ha uma rocha, uma praia Aonde a onda vae ter.

Seria um nunca acabar se fossemos a exarar aqui todas as preciosissimas joias d'esta corôa opulenta que veio enriquecer a nossa litteratura.

Apartamo-nos do livro com extrema saudade, recommendando á leitora, que por acaso ainda o não possue, a prompta acquisiçao d'elle para collocal-o ao lado das rosas, jasmins e violetas com que, durante a formosa estação que se avisinha, ha de perfumar o seu boudoir.9

D. Guiomar D. Torrezão.

9 Voz Feminina (1869) n.º 60.

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