XIII O SEU NOME
Reading edition
I
Ella não sabe a luz suave e pura Que derrama n'uma alma acostumada A não vêr nunca a luz da madrugada Vir raiando senão com amargura! Não sabe a avidez com que a procura Ver esta vista, de chorar cançada, A ella... unica nuvem prateada, Unica estrella d'esta noite escura! E mil annos que leve a Providencia A dar-me este degredo por cumprido, Por acabada já tão longa ausencia, Ainda n'esse instante appetecido Será meu pensamento essa existencia... E o seu nome, o meu ultimo gemido
II
Oh! o seu nome Como eu o digo E me consola! Nem uma esmola Dada ao mendigo Morto de fome! N'um mar de dôres A mãe que afaga Fiel retrato De amante ingrato, Unica paga Dos seus amores... Que rota e nua, Tremulos passos, Só mostra á gente A innocente Que traz nos braços De rua em rua; Visto que o laço Que a prende á vida E só aquella Candida estrella Que achou cahida No seu regaço; (Não que lhe importe A ella nada... Que tudo escusa; E até accusa De descuidada Comsigo a morte!) Mão bemfazeja Se por ventura Encontra um dia, Com que alegria, Com que ternura, Ella a não beija!... Mas com mais quanto Amor te escrevo, Soletro e leio Nome de enleio! Nome de enlevo! Nome de encanto!
III
Como a agua d'um lago—toda um nivel, Vae de circulo em circulo ondeando, Se a andorinha a roça ao ir voando Atraz d'algum insecto imperceptivel; E quebrado esse espelho em mil pedaços (Que a imagem do céo desapparece) Em circulos concentricos parece Tornarem-se a formar novos espaços... Ou como d'entre as notas ineffaveis Dos canticos do céo—todo harmonia— Mal sôa o dôce nome de Maria, Pasmam as multidões innumeraveis; E de onda em onda cada vez mais larga, De brisa em brisa cada vez mais pura, O nome d'essa excelsa creatura Por todo aquelle immenso mar se alarga; E tudo quanto cerca o trono eterno Áquella dôce voz desprende o canto, Formando um côro universal, em quanto Reina silencio no profundo inferno... Assim, n'esta paixão que me devora, Se aos labios essas syllabas me assomam, As negras sombras da minha alma tomam Gradualmente o explendor da aurora! Toda a idéa má recua um passo, Aplanam-se os dominios do futuro, E do crystal mais transparente e puro Se me arqueia a abobada do espaço! Desdobra-se o passado á luz do dia, Em valle ameno, aos olhos da memoria; E eu acho não ser perfida, illusoria, A fé que eu punha em certa luz que eu via... Vejo que aquelle informe e negro monte, Que me tapava a mim o fim da vida, Não era mais que a natural subida Para se dominar vasto horizonte!... Esse horizonte és tu, pombinha brava! Tu, cujo peito que aliás encerra O que ha de bello e grande em céo e terra, Só com duas conchinhas se tapava... Mas em quanto não chego áquella altura D'onde se avista a terra promettida, Irei cantando, distrahindo a vida Com essa invocação suave e pura... Invocação de nome tão suave Como esse olhar!... que eu, só de vêr, suspiro! Mas... que invoco em silencio... como admiro A luz da lua, e o olhar da ave!...
IV
E se algum dia Deres abrigo Ao desgraçado Pobre mendigo Expatriado, Morto de fome, Dize comtigo: «Mais consolado Se elle sentia Lendo o meu nome!»