MACHADO DE ASSIS (continued 4)
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—Seja qual fôr o mysterio, pensou um dia D. Fernanda, acho que o melhor é casal-a com o Carlos Maria; a Sonora que espere.
—Você precisa casar, Maria Benedicta, disse-lhe dalli a dous dias, da manhã, na chacara, em Matta-cavallos; Maria Benedicta tinha ido ao theatro com ella, e passára lá a noite.—Não quero estremecimentos; precisa casar e hade casar... Desde antehontem que estou para lhe dizer isto, mas estas cousas falladas em sala ou na rua, não tem força. Aqui na chacara é differente. E se você tem animo de trepar commigo um pedaço do morro, então é que ficaremos hem. Vamos?
—Está fazendo calor...
—É mais poetico, menina. Ah! carioca sem sangue! Vocês só tem agua nas veias. Pois fiquemos aqui neste banco. Sente-se; assim, eu fico aqui ao pé, armada, para tudo. Casa ou morre. Não me replique. Você não é feliz,—continuou mudando o tom; por mais que faça, eu vejo que você passa a vida sem gosto. Venha cá, diga-me com franqueza, tem inclinação a alguem? Se tem, confesse, que eu mando procurar a pessoa.
—Não tenho.
—Não? Pois é justamente o que nos serve. Não precisa pôr escriptos no coração; conheço um bom inquilino.
Maria Benedicta voltou-se de todo para ella, com os labios entreabertos e os olhos escancarados. Parecia receiar da proposta ou anciar por ella. D. Fernanda, não atinando com o verdadeiro estado da amiga, pegou-lhe na mão primeiro, e pediu que lhe dissesse tudo. De força que amava a alguem, era claro, via-se-lhe nos olhos, cumpria confessal-o, instava, rogava,—intimaria, se preciso fosse. A mão de Maria Benedicta esfriara, os olhos cavavam o chão, e, por alguns instantes, nenhuma dellas disse nada.
—Vamos, falle, repetiu D. Fernanda.
—Não tenho que dizer.
D. Fernanda fazia gestos de incredulidade; apertava-a cada vez mais, passou-lhe a mão pela cintura, e ligou-a muito a si; disse-lhe baixinho, dentro do ouvido, que era como se fosse sua propria mãe. E beijava-a na face, na orelha, na nuca, encostava-lhe a cabeça ao hombro, acarinhava-a com a outra mão. Tudo, tudo, queria saber tudo. Se o namorado estava na lua, mandaria buscal-o á lua,—fosse onde fosse,—excepto no cemiterio; mas, se estivesse no cemiterio, dar-lhe-hia outro muito melhor, que faria esquecer o primeiro em poucos dias. Maria Benedicta ouvia agitada, palpitante, não sabendo por onde escapasse,—prestes a fallar, e calando a tempo, como se defendesse o seu pudor. Não negava, não confessava,—mas, como tambem não sorria, e tremia de commoção, era facil adivinhar meia verdade, ao menos.
—Mas então não sou sua amiga, não tem confiança em mim? Faça de conta que sou sua mãe.
Maria Benedicta pouco mais resistiu; gastára as forças e sentia a necessidade de revellar alguma cousa. D. Fernanda escutou-a commovida. O sol vinha já lambendo as cercanias do banco, não tardou que lhes trepasse aos sapatos, á barra dos vestidos e aos joelhos; mas nenhuma deu por elle. O amor as absorvia; a exposição de uma tinha para a outra um enlevo raro. Era uma paixão não sabida, não compartida, não adivinhada; paixão que ia perdendo de indole e de especie para se converter em adoração pura. A principio, quando ella via a pessoa amada, passava por dous estados mui diversos,—um que não podia definir, alvoroço, tonteira, pancadas no coração, quasi um desmaio; o segundo era de contemplação. Agora era quasi que só este. Tinha chorado muito, comsigo, perdera noites e noites de saudades; pagou caro a ambição das suas esperanças. Mas não perderia nunca a certeza de que elle era superior a todos os demais homens, um ente divino, que, ainda não fazendo caso della, mereceria sempre ser adorado.
—Bem, disse D. Fernanda, quando a amiga se calou de todo. Vamos ao essencial, que é não ficar penando á tôa. Não, queridinha, isto de adorar a um homem que não faz caso da gente, é poesia. Deixe-se de poesia. Olhe que só você perde no negocio, por que elle casa com outra, os annos passam, a paixão monta na garupa delles, e um dia, quando você menos pensar, accorda sem amor nem marido. E quem é esse barbaro?
—Isso não digo, respondeu Maria Benedicta, levantando-se do banco.
—Pois não diga, acudiu D. Fernanda, pegando-lhe nos pulsos e fazendo-a sentar nos seus joelhos. A questão principal é casar;—não podendo ser com esse, será com outro.
—Não, não caso.
—Só com elle?
—Nem sei se com elle, respondeu Maria Benedicta, depois de alguns instantes. Gósto delle, como gósto de Deus, que está no ceu.
—Virgem Santissima! Que blasphemia! Duas blasphemias, menina; a primeira é que não se deve amar a ninguem como a Deus,—a segunda é que um marido, ainda sendo máo, sempre é melhor que o melhor dos sonhos.
CAPITULO CXIX
«Um marido, ainda máo, é sempre melhor que o melhor dos sonhos.»
A maxima não era idealista; Maria Benedicta protestou contra ella. Pois não era melhor sonhar que chorar? Os sonhos acabam ou alteram-se, emquanto que os máos maridos podem viver muito.—«A senhora falla assim, concluiu Maria Benedicta, porque Deus lhe destinou um anjo... Olhe, lá vem elle.»
—Deixe estar que hade ter tambem o seu anjo; conheço um magnifico para você; todos os anjos me procuram.
Theophilo, marido de D. Fernanda, que as vira a distancia, veiu ter com ellas; trazia na mão um diario amarrotado. Não saudou a hospede; foi direito á mulher.
—Você quer saber o que me fizeram, Nannan? disse elle com os dentes cerrados. Sahiu hoje o meu discurso do dia 5. Veja esta phrase; eu tinha dito: Na duvida abstem-te, é o conselho do sabio. E puzeram: Na divida obstem-te... É insuportavel! Nota que tratava-se justamente de um credito do ministerio da marinha, allegando-se no debate que muitas despezas estavam feitas. De modo que pode parecer chulice da minha parte; é como se aconselhasse o calote. Em todo caso, é disparate.
—Mas você não leu as provas?
—Li, mas o autor é o menos apto para as ler bem. Na divida abstem-te, continuou elle com os olhos na folha. E bufando:—Isto só com...
Estava consternado. Era homem de talento, de gravidade e de trabalho; mas, naquelle instante, todas as grandes obras, os mais temerosos problemas, as batalhas mais decisivas, as revoluções mais profundas, o sol e a lua, e todas as constellações, e todas as alimarias, e todas as gerações humanas, valiam menos que a troca de um u por um i. Maria Benedicta olhava para elle sem entendel-o. Cuidava padecer a maior tristura; mas alli estava outra tão grande como a sua, e muito mais afflictiva. Assim, a melancolia roaz de uma pobre creatura era tanto como um erro typographico. Theophilo, que só então deu por ella, estendeu-lhe a mão; estava fria. Ninguem finge as mãos frias; devia padecer deveras. Instantes depois, atirou a folha ao chão, com um gesto violento, e foi-se embora.
—Mas, Theophilo, emenda-se amanhã, disse-lhe D. Fernanda, levantando-se.
Theophilo, sem voltar atraz, deu de hombros, desesperado. A mulher correu a elle; a amiga seguiu-a espantada. Ficou só o banco, já agora livre dellas, recebendo em cheio os raios do sol, que não ama nem faz discursos. D. Fernanda levou o marido para um gabinete, e, á força de beijos, consolou-o daquelle golpe. Ao almoço, já elle sorria, ainda que de um sorriso pallido; a mulher, para desvial-o da preoccupação, fallou do plano de casar Maria Benedicta, e havia de ser com um deputado, se existisse na camara algum solteiro, qualquer que fosse a opinião. Podia ser governista, opposicionista, ambas as cousas, ou nada,—contanto que fosse marido. Sobre este thema fez algumas reflexões, vivas, lepidas, que encheram o tempo e destinavam-se a matar a lembrança da troca de lettras. Pia creatura! Theophilo, entendendo a mulher, ia-se fazendo alegre, e fallava tambem da conveniencia de casar Maria Benedicta.
—O peor, acudiu a mulher olhando para a amiga, é que ella ama a alguem, cujo nome não quer dizer.
—Nem é preciso, atalhou o marido enxugando os beiços; vê-se bem que ella gósta de teu primo.
CAPITULO CXX
No domingo seguinte, D. Fernanda foi á egreja de Santo Antonio dos Pobres. Acabada a missa, viu surgir do movimento dos fieis que se comprimentavam entre si, ou saudavam o altar, nada menos que o primo, erecto, risonho, gravemente trajado, estendendo-lhe a mão.
—Veiu tambem á missa? perguntou espantada.
—Vim.
—Vem sempre?
—Nem sempre, muitas vezes.
—Francamente, não esperava tanta devoção em você. Os homens são, em geral, uns impios. Theophilo não pisa na egreja, a não ser para baptisar os filhos. Você então é religioso?
—Não posso responder com certeza; mas tenho horror á banalidade, que é dizer mal da religião. E basta; vim á missa, não vim confessar-me; agora vou conduzil-a á casa, e, se me offerecer almoço, almoçarei com vocês. Salvo se quizerem vir almoçar commigo; é nesta rua, como sabe.
—Iria eu só, se pudesse ser, para lhe dar uma noticia muito comprida.
—Vamos então devagar, disse Carlos Maria á porta da egreja, offerecendo-lhe o braço. E dous passos adeante:—Noticia importante?
—Importante e deliciosa.
—Querem ver que Deus, sempre misericordioso, vae levar para si o nosso querido Theophilo, deixando aqui ao desamparo a mais gentil de todas as viuvas... Não precisa fazer essa cara, prima; deixe estar o braço. Vamos á noticia. Chegou a moça de Pelotas, aposto?
—Não direi o que é, se você me não jurar ouvir seriamente.
—Seriamente.
D. Fernanda confessou-lhe que hesitava em casal-o com a patricia de Pelotas; não queria remorsos; descobrira aqui alguem que tinha ao primo um immenso amor. Carlos Maria sorriu, iniciou um gracejo, mas a noticia esporeou-lhe o espirito. Immenso amor? Immenso amor, paixão violenta, confirmou a prima, accrescentando que talvez a definição já não coubesse bem ao actual sentimento da pessoa, Agora era uma adoração quieta e calada. Tinha chorado por elle noites e noites, emquanto as esperanças lhe duraram... E D. Fernanda foi assim repetindo a confidencia de Maria Benedicta. Restava só o nome; Carlos Maria quiz sabel-o, ella negou-lh'o. Não podia revellal-o. Para que dar-lhe o gosto de saber quem era que o adorava, se não corria ao encontro da alma della? Melhor era deixal-a no mysterio. Já não chorava agora; modesta e desambiciosa, perdera as esperanças de ser amada, e, com o tempo ficou apenas uma devota, mas uma devota sem par, que nem sequer esperava ser ouvida ou agraciada um dia por um olhar benevolo do seu deus querido.
—Prima, você...
—Eu que?...
Carlos Maria concluiu dizendo que a advogada era digna da causa. Realmente, se essa moça o adorava a tal ponto, era justo e natural que a prima se interessasse por ella com tanto calor. Mas porque não dizer o nome?
—Agora não digo; pode ser que algum dia... Mas, você comprehende que me custaria muito casal-o com a minha patricia, sabendo que outra pessoa o ama tanto. E dahi bem pode ser que esta de cá não padeça muito, se o vir casado. Sim, senhor, parece absurdo, mas é preciso conhecel-a; digo que, uma vez que você seja feliz, é capaz de abençoar a bella rival.
—Já não é romantismo, é mysticismo, redarguiu Carlos Maria depois de alguns passos, com os olhos no chão. Não está nas cordas do nosso tempo. Tem alguma prova de semelhante estado da alma?
—Tenho... A sua casa é aquella, não? perguntou D. Fernanda parando.
—É.
—Bonito predio, e solido.
—Muito solido.
Uma, duas, tres, quatro... Sete janellas. O salao vae de ponta a ponta? Bem bom para um baile.
E andando:
—Eu, se tivesse aqui uma casa maior que a minha, daria um grande baile, antes de voltar para o Rio Grande. Gosto de festas. Os meus dous filhos não me dão grande trabalho. A proposito, ando com ideia de metter o Lopo no collegio; onde acharei um bom collegio?
Carlos Maria pensava na devota incognita. Estava longe, muito longe do ensino e seus estabelecimentos. Que bom que era sentir-se um deus adorado, e adorado á maneira evangelica, mettida a devota no aposento, fechada a porta, em secreto, não nas synagogas, á vista de todos. «E teu pae que vê o que se passa em secreto te dará a paga.» (S. MATHEUS, VI, 6). Oh! elle daria a paga, se soubesse quem era. Casada, sería? Não, não podia ser, não iria confessal-o a ninguem; viuva ou solteira, antes solteira. Cheirava-lhe a solteira. Em que aposento se fechava para resar, para evocal-o, choral-o e abençoal-o? Já nem teimava pelo nome; mas o aposento, ao menos.
—Onde acharei um bom collegio? repetiu D. Fernanda.
—Collegio? Não sei; estou pensando na desconhecida. Comprehende bem que uma pessoa que me adora, em silencio, sem esperanças, é objecto de alguma attenção. Alta ou baixa?
—Maria Benedicta.
Carlos Maria estacou o passo.
—Aquella moça...? Não é possivel. Tenho-lhe fallado muitas vezes, e nunca descobri nada. Achei-a sempre fria. Hade ser engano. Ouviu-lhe o meu nome?
—Não, por mais que lhe pedisse. Confessou o milagre, sem nomear o santo, mas que milagre! Gabe-se de ser adorado como ninguem... De quem é aquella casa?
—Você costuma exagerar as cousas, prima; póde não ser tanto. Adorado como ninguem? E de que modo soube que era eu?
—Theophilo foi o primeiro que descobriu; ella, dizendo-se-lhe isto, ficou como uma pitanga. Negou-o ainda depois, commigo; e desde esse dia não voltou lá a casa.
Tal foi o inicio dos amores. Carlos Maria folgou de se ver assim amado em silencio, e toda a prevenção se converteu em sympathia. Começou a vel-a, saboreou a confusão da moça, os medos, a alegria, a modestia, as attitudes quasi implorativas, um composto de actos e sentimentos que eram a apotheose do homem amado. Tal foi o inicio, tal o desfecho. Assim os vimos, naquella noite dos annos de D. Sophia, a quem elle dissera antes cousas tão doces. São assim os homens; as aguas que passam, e os ventos que rugem não são outra cousa.
CAPITULO CXXI
—Bem, vae casar, tanto melhor! pensou Rubião.
Entre aquella noite e o dia do casamento, Rubião apanhou no ar algumas olhadas de Sophia, suspeitas de tentação; Carlos Maria, se lhe correspondeu, foi antes por polidez que outra cousa. Rubião concluiu que o caso era fortuito; lembrava-se ainda da lagrima de Sophia, na noite dos annos, quando lhe explicou a historia da carta.
Oh! boa lagrima inesperada! Tu, que bastaste a persuadir um homem, podes não ser explicavel a outros, e assim vae o mundo. Que importa que os olhos não fossem costumados ao choro, nem que a noite parecesse exaltar sentimentos mui diversos da melancolia? Rubião a viu cair; ainda agora a vê de memoria. Mas a confiança de Rubião não vinha só da lagrima, vinha tambem da presente Sophia, que nunca fora tão solicita nem tão dada com elle. Parecia arrependida de todo o mal causado, prestes a sanal-o, ou por affeição tardia, ou pelo proprio malogro da primeira aventura. Ha delictos virtuaes, que dormem. Ha operas remissas na cabeça de um maestro, que só esperam os primeiros compassos da inspiração.
CAPITULO CXXII
—Ainda bem que se casa! repetiu o Rubião.
Não se demorou o casamento: tres semanas. Na manhã do dia aprazado, Carlos Maria abriu os olhos com algum espanto. Era elle mesmo que ia casar? Não havia duvida; mirou-se ao espelho, era elle. Relembrou os ultimos dias, a marcha rapida dos successos, a realidade da affeição que tinha á noiva, e, emfim, a felicidade pura que lhe ia dar. Esta derradeira ideia enchia-o de grande e rara satisfação. Ia-as ruminando ainda, a cavallo, no passeio habitual da manhã; desta vez escolhera o bairro do Engenho Velho.
Posto se achasse costumado aos olhos admirativos, via agora em toda a gente um aspecto parecido com a noticia de que elle ia casar. As casuarinas de uma chacara, quietas antes que elle passasse por ellas, disseram-lhe cousas mui particulares, que os levianos attribuiriam á aragem que passava tambem, mas que os sapientes reconheceriam ser nada menos que a linguagem nupcial das casuarinas. Passaros saltavam de um lado para outro, pipilando um madrigal. Um casal de borboletas,—que os japões têm por symbolo da fidelidade, por observarem que, se pousam de flor em flor, andam quasi sempre aos pares,—um casal dellas acompanhou por muito tempo o passo do cavallo, indo pela cerca de uma chacara que beirava o caminho, volteando aqui e alli, lepidas e amarellas. De envolta com isto, um ar fresco, ceu azul, caras alegres de homens montados em burros, pescoços estendidos pela janella fóra das diligencias, para vel-o e ao seu garbo de noivo. Certo, era difficil crer que todos aquelles gestos e attitudes da gente, dos bichos e das arvores, exprimissem outro sentimento que não fosse a homenagem nupcial da natureza.
As borboletas perderam-se em uma das moitas mais densas da cêrca. Seguiu-se outra chacara, despida de arvores, portão aberto, e ao fundo, fronteando com o portão, uma casa velha, que encarquilhava os olhos sob a forma de cinco janellas de peitoril, cançadas de perder moradores. Tambem ellas tinham visto bodas e festins; o seculo ja as achou verdes de novidade e de esperança.
Não cuideis que esse aspecto contristou a alma do cavalleiro. Ao contrario, elle possuia o dom particular de remoçar as ruinas e viver da vida primitiva das cousas. Gostou até de ver a casa velhusca, desbotada, em contraste com as borboletas tão vivas de ha pouco. Parou o cavallo; evocou as mulheres que por alli entraram, outras galas, outros rostos, outras maneiras. Porventura as proprias sombras das pessoas felizes e extinctas vinham agora cumprimental-o tambem, dizendo-lhe pela bocca invisivel todos os nomes sublimes que pensavam delle. Chegou a ouvil-as e sorrir. Mas uma voz estridula veiu mesclar-se ao concerto;—um papagaio, em gaiola pendente da parede externa da casa: «Papagaio real, para Portugal; quem passa? Currupá, papá. Grrrr... Grrrrr...» As sombras fugiram, o cavallo foi andando. Carlos Maria aborrecia o papagaio, como aborrecia o macaco, duas contrafacções da pessoa humana, dizia elle.
—A felicidade que eu lhe der será assim tambem interrompida? reflexionou andando.
Cambaxirras voaram de um para outro lado da rua, e pousaram cantando a sua falla propria; foi uma reparação. Essa lingua sem palavras era intelligivel, dizia uma porção de cousas claras e bellas. Carlos Maria chegou a ver naquillo um symbolo de si mesmo. Quando a mulher, aturdida dos papagaios do mundo, viesse caindo de fastio, elle a faria erguer aos trillos da passarada divina, que trazia em si, ideias de ouro, ditas por uma voz de ouro. Oh! como a tornaria feliz! Já a antevia ajoelhada, com os braços postos nos seus joelhos, a cabeça nas mãos e os olhos nelle, gratos, devotos, amorosos, toda implorativa, toda nada.
CAPITULO CXXIII
Ora bem, aquelle quadro, na mesma hora em que apparecia aos olhos da imaginação do noivo, reproduzia-se no espirito da noiva, tal qual. Maria Benedicta, posta á janella, fitando as ondas que se quebravam ao longe e na praia, via-se a si mesma, ajoelhada aos pés do marido, quieta, contricta, como á mesa da communhão para receber a hostia da felicidade. E dizia comsigo: «Oh! como elle me fará feliz!» Phrase e pensamento eram outros, mas a attitude e a hora eram as mesmas.
CAPITULO CXXIV
Casaram-se; tres mezes depois foram para a Europa. Ao despedir-se delles, D. Fernanda estava tão alegre como se viesse recebel-os de volta; não chorava. O prazer de os ver felizes era maior que o desgosto da separação.
—Você vae contente? perguntou a Maria Benedicta, pela ultima vez, junto á amurada do paquete.
—Oh! muito!
A alma de D. Fernanda debruçou-se-lhe dos olhos, fresca, ingenua,cantando um trecho italiano,—porque a suberba guasca preferia a musica italiana,—talvez esta aria da Lucia: O' bell'alma innamorata. Ou este pedaço do Barbeiro:
Ecco ridente in cielo Già spunta la bella aurora.
CAPITULO CXXV
Sophia não foi a bordo, adoeceu e mandou o marido. Não vão crer que era pezar nem dor; por occasião do casamento, houve-se com grande discrição, cuidou do enxoval da noiva e despediu-se della com muitos beijos chorados. Mas ir a bordo pareceu-lhe vergonha. Adoeceu; e, para não desmentir do pretexto, deixou-se estar no quarto. Pegou de um romance recente; fora-lhe dado pelo Rubião. Outras cousas alli lhe lembravam o mesmo homem, teteias de toda a sorte, sem contar joias guardadas. Finalmente, uma singular palavra que lhe ouvira, na noite do casamento da prima, até essa veiu alli para o inventario das recordações do nosso amigo.
—A senhora é já a rainha de todas, disse-lhe elle em voz baixa; espere que ainda a farei imperatriz.
Sophia não pode entender esta phrase enigmatica. Quiz suppor que era uma alliciação de grandeza para tornal-a sua amante; mas a vaidade que essa ideia trazia fel-a excluir desde logo. Rubião, posto não fosse agora o mesmo homem encolhido e timido de outros tempos, não se mostrava tão cheio de si que lhe pudesse attribuir tão alta presumpção. Mas que era então a phrase? Talvez um modo figurado de dizer que a amaria ainda mais. Sophia acreditava possivel tudo. Não lhe faltavam galanteios; chegou a ouvir aquella declaração de Carlos Maria, provavelmente ouvira outras, a que deu somente a attenção da vaidade. E todas passaram; Rubião é que persistia. Tinha pausas, filhas de suspeitas; mas as suspeitas iam como vinham.
«Il mérite d'être aimé», leu Sophia na pagina aberta do romance, quando ia continuar a leitura; fechou o livro, fechou os olhos, e perdeu-se em si mesma. A escrava que entrou d'ahi a pouco, trazendo-lhe um caldo, suppoz que a senhora dormia e retirou-se pé ante pé.
CAPITULO CXXVI
Entretanto, Rubião e Palha desciam do paquete para a lancha e tornavam ao cáes Pharoux. Vinham cuidosos e calados. Palha foi o primeiro que abriu a bocca:
—Ando ha tempos para dizer-lhe uma cousa importante, Rubião.
CAPITULO CXXVII
Rubião accordou. Era a primeira vez que ia a um paquete. Voltava com a alma cheia dos rumores de bordo, a lufa-lufa das gentes que entravam e sahiam, nacionaes, estrangeiros, estes de varia casta, francezes, inglezes, allemães, argentinos, italianos, uma confusão de linguas, um capharnaum de chapéos, de malas, cordoalha, sophás, binoculos a tiracollo, homens que desciam ou subiam por escadas para dentro do navio, mulheres chorosas, outras curiosas, outras cheias de riso, e muitas que traziam de terra flores ou frutas,—tudo aspectos novos. Ao longe, a barra por onde tinha de ir o paquete. Para lá da barra, o mar immenso, o céo fechado e a solidão. Rubião renovou os sonhos do mundo antigo, creou uma Atlantida, sem nada saber da tradicção. Não tendo noções de geographia, formava uma idéa confusa dos outros paizes, e a imaginação rodeava-os de um nimbo mysterioso. Como não lhe custava viajar assim, navegou de cór algum tempo, n'aquelle vapor alto e comprido, sem enjôo, sem vagas, sem ventos, sem nuvens.
CAPITULO CXXVIII
—A mim? perguntou Rubião depois de alguns segundos.
—A você, confirmou o Palha. Devia tel-a dito ha mais tempo, mas estas historias de casamento, de commissão das Alagoas, etc., atrapalharam-me, e não tive occasião; agora, porém, antes do almoço... Você almoça commigo.
—Sim, mas que é?
—Uma cousa importante.
Dizendo isto, tirou um cigarro, abriu-o, desfiou o fumo com os dedos, enrolou a palha outra vez, e riscou um phosphoro, mas o vento apagou o phosphoro. Então pediu ao Rubião que lhe fizesse o favor de segurar o chapéo, para poder accender outro. Rubião obedeceu impaciente. Bem póde ser que o socio, esticando a espera, quizesse justamente fazer-lhe crer que se tratava de um terremoto; a realidade viria a ser um beneficio. Puxadas duas fumaças:
—Estou com meu plano de liquidar o negocio; fallaram-me ahi para uma casa bancaria, logar de director, e creio que acceito.
Rubião respirou.
—Pois sim; liquidar já?
—Não, lá para o fim do anno que vem.
—E é preciso liquidar?
—Cá para mim, é. Se a historia do banco não fosse segura, não me animaria a perder o certo pelo duvidoso; mas é segurissima.
—Então no fim do anno que vem soltamos os laços que nos prendem...
Palha tossiu.
—Não, antes, no fim deste anno.
Rubião não entendeu; mas o socio explicou-lhe que era util desligarem já a sociedade, afim de que elle sósinho liquidasse a casa. O banco podia organizar-se mais cedo ou mais tarde; e para que sujeitar o outro ás exigencias da occasião? Demais, o Dr. Camacho affirmava que, em breve, Rubião estaria na camara, e que a queda do Itaborahy era certa.
—Seja o que fôr, concluiu; é sempre melhor desligarmos a sociedade com tempo. Você não vive do commercio; entrou com o capital necessario ao negocio,—como podia dal-o a outro ou guardal-o.
—Pois sim, não tenho duvida, concordou o Rubião.
E depois de alguns instantes:
—Mas diga-me uma cousa, essa proposta traz algum motivo occulto? é rompimento de pessoas, de amizade... Seja franco, diga tudo...
—Que caraminhola é essa? redarguiu o Palha. Separação de amizade, de pessoas... Mas você está tonto. Isto é do balanço do mar. Pois eu, que tenho trabalhado tanto por você, eu que o faço amigo dos meus amigos, que o trato como um parente, como um irmão, havia de brigar á toa? Aquelle mesmo casamento de Maria Benedicta com o Carlos Maria devia ser com você, bem sabe, se não fosse a sua recusa. A gente póde romper um laço sem romper os outros. O contrario seria desproposito. Então todos os amigos de sociedade ou de familia são socios de commercio? E os que não forem commerciantes?
Rubião achou excellente a razão, e quiz abraçar o Palha. Este apertou-lhe a mão satisfeitissimo; ia vêr-se livre de um socio, cuja prodigalidade crescente podia trazer-lhe algum perigo. A casa estava solida; era facil entregar ao Rubião a parte que lhe pertencesse, menos as dividas pessoaes e anteriores. Restavam ainda algumas daquellas que o Palha confessou á mulher, na noite de Santa Thereza, cap. L. Pouco tinha pago; geralmente era o Rubião que abanava as orelhas ao assumpto. Um dia, o Palha, querendo dar-lhe á força algum dinheiro, repetiu o velho proverbio: «Paga o que deves, vê o que te fica». Mas o Rubião, gracejando:
—Pois não pagues, e vê se te não fica ainda mais.
—É boa! redarguiu o Palha rindo e guardando o dinheiro no bolso.
CAPITULO CXXIX
Não havia banco, nem logar de director, nem liquidação; mas, como justificaria o Palha a proposta de separação, dizendo a pura verdade? Dahi a invenção, tanto mais prompta, quanto o Palha tinha amor aos bancos, e morria por um. A carreira daquelle homem era cada vez mais prospera e vistosa. O negocio corria-lhe largo; um dos motivos da separação era justamente não ter que dividir com outro os lucros futuros. Palha, além do mais, possuia acções de toda a parte, apolices de ouro do emprestimo Itaborahy, e fizera uns dous fornecimentos para a guerra, de sociedade com um poderoso, nos quaes ganhou muito. Já trazia apalavrado um architecto para lhe construir um palacete. Vagamente pensava em baronia.
CAPITULO CXXX
—Quem diria que a gente do Palha nos trataria deste modo? Já não valemos nada. Excusa de os defender...
—Não defendo, estou explicando; ha de ter havido confusão.
—Fazer annos, casar a prima, e nem um triste convite ao major, ao grande major, ao impagavel major, ao velho amigo major. Eram os nomes que me davam; eu era impagavel, amigo velho, grande e outros nomes. Agora, nada, nem um triste convite, um recado de boca, ao menos, por um moleque: «Nhanhã faz annos, ou casa a prima, diz que a casa esta ás suas ordens, e que vão com luxo.» Não iriamos; luxo não é para nós. Mas era alguma cousa, era recado, um moleque, ao impagavel major...
—Papae!
Rubião, vendo a intervenção de D. Tonica, animou-se a defender longamente a familia Palha. Era em casa da major, não já na rua Dous de Dezembro, mas na dos Barbonos, modesto sobradinho. Rubião passava, elle estava á janella, e chamou-o. D. Tonica não teve tempo de sair da sala, para dar, ao menos, uma vista d'olhos ao espelho; mal pôde passar a mão pelo cabello, compôr o laço de fita ao pescoço e descer o vestido para cobrir os sapatos, que não eram novos.
—Digo-lhe que póde ter havido confusão, insistiu Rubião; tudo anda por lá muito atrapalhado com esta commissão das Alagoas.
—Lembra bem, interrompeu o major Siqueira; porque não metteram minha filha na commissão das Alagoas? Qual! Ha já muito que reparo nisto; antigamente não se fazia festa sem nós. Nós éramos a alma de tudo. De certo tempo para cá começou a mudança; entraram a receber-nos friamente, e o marido, se pode esquivar-se, não me falla na rua. Isto começou ha tempos; mas antes disso sem nós é que não se fazia nada. Que está o senhor a fallar de confusão? Pois se na vespera dos annos della, já desconfiando que não nos convidariam, fui ter com elle ao armazem. Poucas palavras, por mais que lhe fallasse em D. Sophia; disfarçava. Afinal disse-lhe assim: «Hontem, lá em casa, eu e Tonica estivemos discutindo sobre a data dos annos de D. Sophia; ella dizia que tinha passado, eu disse que não, que era hoje ou amanhã.» Não me respondeu, fingiu que estava absorvido em uma conta, chamou o guarda-livros, e pediu explicações. Eu entendi o bicho, e repeti a historia; fez a mesma cousa. Sahi. Ora o Palha, um pé-rapado! Já o envergonho. Antigamente: major, um brinde. Eu fazia muitos brindes, tinha certo desembaraço. Jogavamos o voltarete. Agora está nas grandezas; anda com gente fina. Ah! vaidades deste mundo! Pois não vi outro dia a mulher delle, n'um coupé, com outra? A Sophia de coupé! Fingiu que me não via, mas arranjou os olhos de modo que percebesse se eu a via, se a admirava. Vaidades desta vida! Quem nunca comeu azeite, quando come se lambusa.
—Perdão, mas os trabalhos da commissão exigem certo apparato.
—Sim, acudiu Siqueira, é por isso que minha filha não entrou na commissão; é para não estragar as carruagens...
—Demais, o coupé podia ser da outra senhora, que ia com ella.
O major deu dous passos, com as mãos atraz, e parou deante de Rubião.
—Da outra... ou do padre Mendes. Como vae o padre? Boa vida, naturalmente.
—Mas, papae, póde não haver nada, interrompeu D. Tonica. Ella sempre me trata bem, e quando estive doente no mez passado, mandou saber pelo moleque, duas vezes...
—Pelo moleque! bradou o pae. Pelo moleque! Grande favor! «Moleque, vae alli á casa daquelle reformado e pergunta lhe se a filha tem passado melhor; não vou, porque estou lustrando as unhas!» Grande favor! Tu não lustras as unhas! tu trabalhas! tu és digna filha minha! pobre, mas honesta!
Aqui o major chorou, mas suspendeu de repente as lagrimas. A filha, commovida, sentiu-se tambem vexada. Certo, a casa dizia a pobreza da familia, poucas cadeiras, uma meza redonda velha, um canapé gasto; nas paredes duas lithographias encaixilhadas em pinho pintado de preto, um era o retrato do major em 1857, a outra representava o Veronez em Veneza, comprado na rua do Senhor dos Passos. Mas o trabalho da filha transparecia em tudo; os moveis reluziam de asseio, a meza tinha um panno de crivo, feito por ella, o canapé uma almofada. E era falso que D. Tonica não lustrasse as unhas; não teria o pó nem a camurça, mas acudia-lhes com um retalho de panno todas as manhãs.
CAPITULO CXXXI
Rubião tratou-os com sympathia. Não continuou a defender a gente Palha, para não desesperar o major, e fallou do exercito. Pouco depois, despediu-se, promettendo, sem convite, que lá iria jantar «um dia destes».
—Jantar de pobre, acudiu o major; se puder avisar, avise.
—Não quero banquetes; virei quando me der na cabeça.
Despediu-se. D. Tonica, depois de ir até o patamar, sem chegar á frente por causa dos sapatos, foi á janella para vel-o sair.
CAPITULO CXXXII
Logo que Rubião dobrou a esquina da rua das Mangueiras, D. Tonica entrou e foi ao pae, que se estendera no canapé, para reler o velho Saint-Clair das ilhas ou os desterrados da ilha da Barra. Foi o primeiro romance que conheceu; o exemplar tinha mais de vinte annos; era toda a bibliotheca do pae e da filha. Siqueira abriu o primeiro volume, e deitou os olhos ao começo do cap. II, que já trazia de cór. Achava-lhe agora um sabor particular, por motivo dos seus recentes desgostos: «Enchei bem os vossos copos, exclamou Saint-Clair, e bebamos de uma vez; eis o brinde que vos proponho. Á saude dos bons e valentes opprimidos, e ao castigo dos seus oppressores. Todos acompanharam Saint-Clair, e foi de roda a saude.»
—Sabe de uma cousa, papae? Papae compra amanhã latas de conserva, petit-pois, peixe, etc. e ficam guardadas. No dia em que elle apparecer para jantar, põe-se no fogo, é só aquecer, e daremos um jantarzinho melhor.
—Mas eu só tenho o dinheiro do teu vestido.
—O meu vestido? Compra-se no mez que vem, ou no outro. Eu espero.
—Mas não ficou ajustado?
—Desajusta-se; eu espero.
—E se não houver outro do mesmo preço?
—Hade haver; eu espero, papae.
CAPITULO CXXXIII
Ainda não disse,—porque os capitulos atropellam-se debaixo da penna,—mas aqui está um para dizer que, por aquelle tempo, as relações de Rubião tinham crescido em numero. Camacho puzera-o em contacto com muitos homens politicos, a commissão das Alagoas com varias senhoras, os bancos e companhias com pessoas do commercio e da praça, os theatros com alguns frequentadores e a rua do Ouvidor com toda a gente. Já então era um nome repetido. Conhecia-se o homem. Quando appareciam as barbas e o par de bigodes longos, uma sobre-casaca bem justa, um peito largo, bengala de unicornio, e um andar firme e senhor, dizia-se logo que era o Rubião,—um ricaço de Minas.
Tinham-lhe feito uma lenda. Diziam-n'o discipulo de um grande philosopho, que lhe legára immensos bens,—um, tres, cinco mil contos. Extranhavam alguns que elle não fallasse nunca de philosophia, mas a lenda explicava esse silencio pelo proprio methodo philosophico do mestre, que consistia em ensinar sómente aos homens de boa vontade. Onde estavam esses discipulos? Iam á casa delle, todos os dias,—alguns duas vezes, de manhã e de tarde; e assim ficavam definidos os comensaes. Não seriam discipulos, mas eram de boa vontade. Roiam fome, á espera, e ouviam calados e risonhos os discursos do amphytrião. Entre os antigos e os novos, houve tal ou qual rivalidade, que os primeiros accentuaram bem, mostrando maior intimidade, dando ordens aos criados, pedindo charutos, indo ao interior, assobiando, etc. Mas o costume os fez supportaveis entre si, e todos acabaram na doce e commum confissão das qualidades do dono da casa. Ao cabo de algum tempo, tambem os novos lhe deviam dinheiro, ou em especie,—ou em fiança no alfaiate, ou endosso de lettras, que elle pagava ás escondidas, para não vexar os devedores.
Quincas Borba andava ao collo de todos. Davam estalinhos, para vel-o saltar, alguns chegavam a beijar-lhe a testa; um delles, mais habil, achou modo de o ter á mesa, ao jantar ou almoço, sobre as pernas, para lhe dar migalhas de pão.
—Ah! isso não! protestou Rubião á primeira vez.
—Que tem? retorquiu o comensal. Não ha pessoas extranhas.
Rubião reflectiu um instante.
—Verdade é que está ahi dentro um grande homem, disse elle.
—O philosopho, o outro Quincas Borba, continuou o conviva, circulando o olhar pelos novatos, para mostrar a intimidade das relações entre elle e Rubião; mas, não logrou sosinho a vantagem, por que os outros amigos da mesma éra, repetiram, em coro:
—É verdade, o philosopho.
E Rubião explicou aos novatos a allusão ao philosopho, e a razão do nome do cão, que todos lhe attribuiam. Quincas Borba (o defuncto) foi descripto e narrado como um dos maiores homens do tempo,—superior aos seus patricios. Grande philosopho, grande alma, grande amigo. E no fim, depois de algum silencio, batendo com os dedos na borda da mesa, Rubião exclamou:
—Eu o faria ministro de Estado!
Um dos convivas exclamou, sem convicção, por simples officio:
—Oh! sem duvida!
Nenhum daquelles homens sabia, entretanto, o sacrificio que lhes fazia o Rubião. Recusava jantares, passeios, interrompia conversações apraziveis, só para correr a casa e jantar com elles. Um dia achou meio de conciliar tudo. Não estando elle em casa ás seis horas em ponto, os criados deviam pôr o jantar para os amigos. Houve protestos; não, senhor, esperariam até sete ou oito horas. Um jantar sem elle não tinha graça.
—Mas é que posso não vir, explicou Rubião.
Assim se cumpriu. Os convivas ajustaram bem os relogios pelos da casa de Botafogo. Davam seis horas, todos á mesa. Nos dous primeiros dias houve tal ou qual hesitação; mas os criados tinham ordens severas. Ás vezes, Rubião chegava pouco depois. Eram então risos, ditos, intrigas alegres. Um queria esperar, mas os outros... Os outros desmentiam o o primeiro; ao contrario, foi este que os arrastou, tal fome trazia,—a ponto que, se alguma cousa restava, eram os pratos. E Rubião ria com todos.
CAPITULO CXXXIV
Fazer um capitulo só para dizer que, a principio, os convivas, ausente o Rubião, fumavam os proprios charutos, depois do jantar,—parecerá frivolo aos frivolos; mas os considerados dirão que algum interesse haverá nesta circumstancia em apparencia minima.
De facto, uma noite, um dos mais antigos lembrou-se de ir ao gabinete de Rubião; lá fôra algumas vezes, alli se guardavam as caixas de charutos, não quatro nem cinco, mas vinte e trinta de varias fabricas e tamanhos, muitas abertas. Um criado (o hespanhol) accendeu o gaz. Os outros convivas seguiram o primeiro, escolheram charutos e os que ainda não conheciam o gabinete admiraram os moveis bem feitos e bem dispostos. A secretária captou as admirações geraes; era de ebano, um primor de talha, obra severa e forte. Uma novidade os esperava: dous bustos de marmore, postos sobre ella, os dous Napoleões, o primeiro e o terceiro.
—Quando veiu isto?
—Hoje ao meio dia, respondeu o criado.
Dous bustos magnificos. Ao pé do olhar aquilino do tio, perdia-se no vago o olhar scismatico do sobrinho. Contou o criado que o amo, apenas recebidos e collocados os bustos, deixara-se estar grande espaço em admiração, tão deslembrado do mais, que elle pode miral-os tambem, sem admiral-os.—No me dicen nada estos dos pícaros, concluiu o criado fazendo um gesto largo e nobre.
CAPITULO CXXXV
Rubião protegia largamente as lettras. Livros que lhe eram dedicados, entravam para o prelo com a garantia de duzentos e trezentos exemplares. Tinha diplomas e diplomas de sociedades litterarias, coreographicas, pias, e era juntamente socio de uma Congregação Catholica e de um Gremio Protestante, não se tendo lembrado de um quando lhe fallaram do outro; o que fazia era pagar regularmente as mensalidades de ambos. Assignava jornaes sem os ler. Um dia, ao pagar o semestre de um, que lhe haviam mandado, é que soube, pelo cobrador, que era do partido do governo; mandou o cobrador ao diabo.
CAPITULO CXXXVI
O cobrador não foi ao diabo; recebeu o preço do semestre, e, como possuia a observação natural dos cobradores, resmungou na rua:
—Ora aqui está um homem que detesta a folha e paga. Quantos a adoram e não pagam!
CAPITULO CXXXVII
Mas—ó lance da fortuna! ó equidade da natureza!—os desperdicios do nosso amigo, se não tinham remedio, tinham compensação. Já o tempo não passava por elle como por um vadio sem ideias. Rubião, á falta de ideias, tinha agora imaginação. Outr'ora vivia mais dos outros que de si, não achava equilibrio interior, e o ocio esticava as horas, que não acabavam mais. Tudo ia mudando; agora a imaginação, que, a relampagos, lhe apparecia ultimamente, tendia a pousar um pouco. Sentado na loja do Bernardo, gastava toda uma manhã, sem que o tempo lhe trouxesse fadiga, nem a estreiteza da rua do Ouvidor lhe tapasse o espaço. Repetiam-se as visões deliciosas, como a das bodas (Cap. LXXXI) em termos a que a grandeza não tirava a graça. Houve quem o visse, mais de uma vez, saltar da cadeira e ir até á porta ver bem pelas costas alguma pessoa que passava. Conhecel-a-hia? Ou seria alguem que, casualmente, tinha as feições da creatura imaginaria que elle estivera mirando? São perguntas de mais para um só capitulo; basta dizer que uma dessas vezes nem passou ninguem, elle proprio reconheceu a illusão, voltou para dentro, comprou uma teteia de bronze para dar á filha do Camacho, que fazia annos, e ia casar em breve, e saiu.
CAPITULO CXXXVIII
E Sophia? interroga impaciente a leitora, tal qual Orgon: Et Tartuffe? Ai, amiga minha, a resposta é naturalmente a mesma,—tambem ella comia bem, dormia largo e fofo,—cousas que, aliás, não impedem que uma pessoa ame, quando quer amar. Se esta ultima reflexão é o motivo secreto da vossa pergunta, deixai que vos diga que sois muito indiscreta, e que eu não me quero senão com dissimulados.
Repito, comia bem, dormia largo e fofo. Chegára ao fim da commissão das Alagoas, com elogios da imprensa; a Atalaia chamou-lhe «o anjo da consolação». E não se pense que este nome a alegrou, posto que a lisongeasse; ao contrario, resumindo em Sophia toda a acção da caridade, podia mortificar as novas amigas, e fazer-lhe perder em um dia o trabalho de longos mezes. Assim se explica o artigo que a mesma folha trouxe no numero seguinte, nomeando, particularisando e glorificando as outras commissarias—-«estrellas de primeira grandeza».
Nem todas as relações subsistiram, mas a maior parte dellas estavam atadas, e não faltam á nossa dona o talento de as tornar definitivas. O marido é que peccava por turbulento, excessivo, derramado, dando bem a ver que o cumulavam de favores, que recebia finezas inesperadas e quasi immerecidas. Sophia, para emendal-o, vexava-o com censuras e conselhos, rindo:
—«Você esteve hoje insupportavel; parecia um criado».
—«Christiano, fique mais senhor de si, quando tivermos gente de fóra, não se ponha com os olhos fóra da cara, saltando de um lado para outro, assim com ar de criança que recebe doce...»
Elle negava, explicava ou justificava-se; afinal, concluia que sim, que era preciso não parecer estar abaixo dos obsequios; cortezia, affabilidade, mais nada...
Justo, mas não vás cahir no extremo opposto, acudiu Sophia; não vás ficar casmurro...
Palha era então as duas cousas; casmurro, a principio, frio, quasi desdenhoso, fallando pouco, apenas respondendo. Mas, ou a reflexão, ou o impulso inconsciente, restituia ao nosso homem a animação habitual, e com ella, segundo o momento, a demasia e o estrepito. Sophia é que, em verdade, corrigia tudo. Observava, imitava. Necessidade e vocação fizeram-lhe adquirir, aos poucos, o que não trouxera do nascimento nem da fortuna. Ao demais, estava naquella edade média em que as mulheres inspiram egual confiança ás sinhásinhas de vinte e ás sinhás de quarenta. Algumas morriam por ella; muitas a cumulavam de louvores.
Foi assim que a nossa amiga, pouco a pouco, espanou a atmosphera. Cortou as relações antigas, familiares, algumas tão intimas que difficilmente se poderiam dissolver; mas a arte de receber sem calor, ouvir sem interese e despedir-se sem saudade, não era das suas menores prendas; e uma por uma, se foram indo as pobres creaturas modestas, sem maneiras, nem vestidos, amizades de pequena monta, de pagodes caseiros, de habitos singelos e sem elevação. Com os homens fazia exactamente o que o major contara, quando elles a viam passar de carruagem,—que era sua,—entre parenthesis. A differença é que já nem os espreitava para saber se a viam. Acabara a lua de mel da grandeza; agora torcia os olhos duramente para outro lado, conjurando, de um gesto definitivo, o perigo de alguma hesitação. Punha assim os velhos amigos na obrigação de lhe não tirarem o chapéo. Como eram poucos, foi breve a empreza.
CAPITULO CXXXIX
Rubião ainda quiz valer ao major, mas o ar de fastio com que Sophia o interrompeu foi tal, que o nosso amigo preferiu perguntar-lhe se, não chovendo na seguinte manhã, iriam sempre passear á Tijuca.
—Já fallei a Christiano; disse-me que tem um negocio, que fique para domingo que vem.
Rubião, depois de um instante:
Vamos nós dous. Sahimos cedo, passeamos, almoçamos lá; ás tres ou quatro horas estamos de volta...
Sophia olhou para elle, com tamanha vontade de acceitar o convite, que Rubião não esperou resposta verbal.
—Está assentado, vamos, disse elle.
—Não.
—Como não?
E repetiu a pergunta, porque Sophia não lhe quiz explicar a negativa, aliás, tão obvia. Obrigada a fazel-o, ponderou que o marido ficaria com inveja, e era capaz de adiar o negocio só para ir tambem. Não queria atrapalhar os negocios delle, e podiam esperar oito dias. O olhar de Sophia acompanhava essa explicação, como um clarim acompanharia um padre-nosso. Vontade tinha, oh! se tinha vontade de ir na manhã seguinte, com Rubião, estrada acima, bem posta no cavallo, não scismando á toa, nem poetica, mas valente, fogo na cara, toda deste mundo, galopando, trotando, parando. Lá no alto, desmontaria algum tempo; tudo só, a cidade ao longe e o ceu por cima. Encostada ao cavallo, penteando-lhe as crinas com os dedos, ouviria Rubião louvar-lhe a affouteza e o garbo... Chegou a sentir um beijo na nuca...
CAPITULO CXL
Pois que se trata de cavallos, não fica mal dizer que a imaginação de Sophia era agora um corsel brioso e petulante, capaz de galgar morros e desbaratar mattos. Outra seria a comparação, se a occasião fosse differente; mas corsel é o que vae melhor. Traz a ideia do impeto, do sangue, da disparada, ao mesmo tempo que a da serenidade com que torna ao caminho recto, e por fim á cavallariça.
CAPITULO CXLI
—Está dito, vamos amanhã, repetiu Rubião, que espreitava o rosto acceso de Sophia.
Mas o corsel viera fatigado da carreira, e deixou-se estar somnolento na cavallariça. Sophia era já outra; passara a vertigem da empreza, o ardor sonhado, o gosto de subir com elle a estrada da Tijuca. Dizendo-lhe Rubião que fallaria ao marido para que a deixasse ir ao passeio, redarguiu sem alma:
—Está tonto! Fica para o domingo que vem!
E fixou os olhos no trabalho de linha que fazia,—frioleira é o nome,—emquanto Rubião voltava os seus para um trechosinho de jardim mofino, ao pé da saleta de trabalho onde estavam. Sophia, sentada no angulo da janella, ia meneando os dedos. Rubião viu em duas rosas vulgares uma festa imperial, e esqueceu a sala, a mulher e a si. Não se póde dizer, ao certo, que tempo estiveram assim calados, alheios e remotos um do outro. Foi uma criada que os accordou, trazendo-lhes café. Bebido o café, Rubião concertou as barbas, tirou o relogio e despediu-se. Sophia, que espreitava a sabida, ficou satisfeita, mas encobriu o gosto com o espanto.
—Já!
—Preciso de fallar a um sujeito antes das quatro horas, explicou Rubião. Estamos entendidos; passeio de amanhã gorado. Vou mandar desavisar os cavallos. Mas será certo no domingo que vem?
—Certo, certo, não posso affirmar; mas resolvendo-se em tempo o Christiano, creio que sim. Sabe que meu marido é o homem dos impedimentos.
Sophia acompanhou-o até á porta, estendeu-lhe a mão indifferente, respondeu sorrindo alguma cousa chocha, tornou á salinha em que estivera,—ao mesmo angulo,—da mesma janella. Não continuou logo o trabalho, poz uma perna sobre outra, fazendo descer, por habito, a saia do vestido, e lançou uma olhada ao jardim, onde as duas rosas tinham dado ao nosso amigo uma visão imperial. Sophia não viu mais que duas flores mudas. Fitou-as, não obstante, algum tempo; em seguida, pegou da frioleira, trabalhou um pouco, deteve-se outro pouco, deixando as mãos no regaço; e voltou á obra, outra vez, para tornar a deixal-a. De repente, levantou-se e atirou as linhas e a navette á cestinha de junco, onde guardava os seus pretextos de trabalho. A cesta era ainda uma lembrança de Rubião!
—Que homem aborrecido!
Dalli foi encostar-se á janella, que dava para o jardim mofino, onde iam murchando as duas rosas vulgares. Rosas, quando recentes, importam-se pouco ou nada com as coleras dos outros; mas, se definham, tudo lhes serve para vexar a alma humana. Quero crer que este costume nasce da brevidade da vida. «Para as rosas, escreveu Fontenelle, o jardineiro é eterno.» E que melhor maneira de ferir o eterno que mofar das suas iras? Eu passo, tu ficas; mas eu não fiz mais que florir e aromar, servi a donas e a donzellas, fui lettra de amor, ornei a botoeira dos homens, ou expiro no proprio arbusto, e todas as mãos e todos os olhos me trataram e me viram com admiração e affecto. Tu não, ó eterno; tu zangas-te, tu padeces, tu choras, tu affliges-te! a tua eternidade não vale um só dos meus minutos.
Assim, quando Sophia chegou á janella que dava para o jardim, ambas as rosas riram-se a petalas despregadas. Uma dellas disse que era bem feito! bem feito! bem feito!
—Tens razão em te zangares, formosa creatura, acrescentou, mas hade ser comtigo, não com elle. Elle que vale? Um triste homem sem encantos, póde ser que bom amigo, e talvez generoso, mas repugnante, não? E tu, requestada de outros, que demonio te leva a dar ouvidos a esse intruso da vida? Humilha-te, ó suberba creatura, porque és tu mesma a causa do teu mal. Tu juras esquecel-o, e não o esqueces. E é preciso esquecel-o? Não te basta fital-o, escutal-o, para desprezal-o? Esse homem não diz cousa nenhuma, ó singular creatura, e tu...
—Não é tanto assim, interrompeu a outra rosa, com a voz ironica e descançada; elle diz alguma cousa, e dil-a desde muito, sem desapprendel-a, nem trocal-a; é firme, esquece a dor, crê na esperança. Toda a sua vida amorosa é como o passeio á Tijuca, de que vocês fallavam ha pouco: «Fica para o domingo que vem!» Eia, piedade ao menos; sê piedosa, ó bonissima Sophia! Se hasde amar a alguem, fóra do matrimonio, ama-o a elle, que te ama e é discreto. Anda, arrepende-te do gesto de ha pouco. Que mal te fez elle, e que culpa lhe cabe se és bonita? E quando haja culpa, a cesta é que a não tem, só porque elle a comprou, e menos ainda as linhas e a navette que tu mesma mandaste comprar pela criada. Tu és má, Sophia, és injusta...
CAPITULO CXLII
Sophia deixou-se estar ouvindo, ouvindo... Interrogou outras plantas, e não lhe disseram cousa diferente. Ha desses acertos maravilhosos. Quem conhece o solo e o sub-solo da vida, sabe muito bem que um trecho de muro, um banco, um tapete, um guarda-chuva, são ricos de ideias ou de sentimentos, quando nós tambem o somos, e que as reflexões de parceria entre os homens e as cousas compõem um dos mais interessantes phenomenos da terra. A expressão: «Conversar com os seus botões», parecendo simples metaphora, é phrase de sentido real e directo. Os botões operam synchronicamente comnosco; formam uma especie de senado, commodo e barato, que vota sempre as nossas moções.
CAPITULO CXLIII
Fez-se o passeio á Tijuca, sem outro incidente mais que uma queda do cavallo, ao descerem. Não foi Rubião que cahiu, nem o Palha, mas a senhora deste, que vinha pensando em não sei quê, e chicoteou o animal com raiva; elle espantou-se e deitou-a em terra. Sophia cahiu com graça. Estava singularmente esbelta, vestida de amazona, corpinho tentador de justeza. Othello exclamaria, se a visse: «Oh! minha bella guerreira!» Rubião limitara-se a isto, ao começar o passeio: «A senhora é um anjo!».
CAPITULO CXLIV
—Fiquei com o joelho dorido, disse ella entrando em casa e coxeando.
—Deixa ver.
No quarto de vestir, Sophia levantou o pé sobre um banquinho e mostrou ao marido o joelho pisado; inchára um pouco, muito pouco, mas tocando-lhe, fazia-a gemer. Palha, não querendo machucal-a, chegou-lhe a pontinha dos beiços apenas.
—Fiquei descomposta quando cahi?
—Não. Pois com um vestido tão comprido... Mal se pôde ver o bico do pé. Não houve nada, acredita.
—Jura que não?
—Que desconfiada que você é, Sophia! Juro por tudo o que ha mais sagrado, pela luz que me allumia, por Deus Nosso Senhor. Estás satisfeita?
Sophia ia cobrindo o joelho.
—Deixa ver outra vez. Creio que não será nada de maior; bota um pouco de qualquer cousa. Manda perguntar á botica.
—Está bom, deixa-me ir despir, disse ella forcejando por descer o vestido.
Mas o Palha baixara os olhos do joelho até ao resto da perna, onde pegava com o cano da bota. De feito, era um bello trecho da natureza. A meia de seda dava ideia clara da perfeição do contorno. Palha, por graça, ia perguntando á mulher se se machucára aqui, e mais aqui, e mais aqui, indicando os logares com a mão que ia descendo. Se apparecesse um pedacinho desta obra-prima, o céo e as arvores ficariam assombrados, concluiu elle em quanto a mulher descia o vestido e tirava o pé do banco.
—Póde ser, mas não havia só o céo e as arvores, disse ella; havia tambem os olhos do Rubião.
—Ora, o Rubião! É verdade; elle nunca mais teve aquellas ideias de Santa Thereza?
—Nunca; mas, emfim, não me agradaria... Jura de verdade, Christiano?
—O que você quer é que eu vá subindo de sagrado em sagrado, até á cousa mais sagrada. Jurei por Deus; não bastou. Juro por você; está satisfeita?
Pieguices de lascivo. Sahiu finalmente do quarto da mulher e foi para o seu. Aquelle pudor medroso e incredulo de Sophia fazia-lhe bem. Mostrava que ella era sua, totalmente sua; mas, por isso mesmo que elle a possuia, considerava que era de grande senhor não se affligir com a vista casual e instantanea de um pedaço occulto do seu reino. E lastimava que o casual tivesse parado na ponta da bota. Era apenas a fronteira; as primeiras villas do territorio, antes da cidade machucada pela queda, dariam ideia de uma civilisação sublime e perfeita. E ensaboando-se, esfregando a cara, o collo e a cabeça na vasta bacia de prata, escovando-se, enxugando-se, aromando-se, Palha imaginava o pasmo e a inveja da unica testemunha do desastre, se este fosse menos incompleto.
CAPITULO CXLV
Foi por esse tempo que Rubião poz em espanto a todos os seus amigos. Na terça-feira seguinte ao domingo do passeio (era então Janeiro de 1870) avisou a um barbeiro e cabelleireiro da rua do Ouvidor que o mandasse barbear a casa, no outro dia, ás nove horas da manhã. Lá foi um official francez,—chamado Lucien, creio eu,—que entrou para o gabinete de Rubião, segundo as ordens dadas ao criado.
—Uhm!... rosnou Quincas Borba, de cima dos joelhos do Rubião.
Lucien parou á porta do gabinete, e comprimemtou o dono da casa; este, porem, não viu a cortezia, como não ouvira o signal do Quincas Borba. Estava em uma longa cadeira de extensão, ermo do espirito, que rompera o tecto e se perdera no ar. A quantas leguas iria? Nem condor nem aguia o poderia dizer. Em marcha para a lua,—não via cá em baixo mais que as felicidades perennes, chovidas sobre elle, desde o berço, onde o embalaram fadas, até á praia de Botafogo, aonde ellas o trouxeram, por um chão de rosas e bogaris. Nenhum revez, nenhum mallogro, nenhuma pobreza;—vida placida, cosida de goso, com rendas de superfluo. Em marcha para a lua!
Lucien relanceou os olhos pelo gabinete, onde fazia principal figura a secretária, e sobre ella os dous bustos de Napoleão e Luiz Napoleão. Relativamente a este ultimo, havia ainda, pendentes da parede, uma gravura ou lithographia representando a Batalha de Solferino, e um retrato da imperatriz Eugenia.
Rubião tinha nos pés um par de chinellas de damasco, bordadas a ouro; na cabeça, um gorro com borla de seda preta. Na bocca, um riso azul claro.
CAPITULO CXLVI
—Monsieur...
—Uhm! repetiu Quincas Borba, de pé nos joelhos do senhor.
Rubião voltou a si e deu com o barbeiro. Conhecia-o por tel-o visto ultimamente na loja; ergueu-se da cadeira, Quincas Borba latia, como a defendel-o contra o intruso.
—Socega! cala a boca! disse-lhe Rubião; e o cachorro foi, de orelha baixa, metter-se por traz da cesta de papeis. Durante esse tempo, Lucien desembrulhava os seus apparelhos.
—Monsieur veut se faire raser, n'est-ce pas? Pourquoi donc a-t-il laisser croître cette belle barbe? Apparemment que c'est un voeu d'amour? J'en connais qui ont fait de pareils sacrifices; j'ai même été confident de quelques personnes aimables...
—Justamente! interrompeu Rubião.
Não entendera nada; posto soubesse algum francez, mal o comprehendia lido—como sabemos,—e não o entendia fallado. Mas, phenomeno curioso, não respondeu por impostura; ouviu as palavras, como se fossem comprimento ou acclamação; e, ainda mais curioso phenomeno, respondendo-lhe em portuguez, cuidava fallar francez.
—Justamente! repetiu. Quero restituir a cara ao typo anterior; é aquelle.
E, como apontasse para o busto de Napoleão III, respondeu-lhe o barbeiro pela nossa lingua:
—Ah! o imperador! Bonito busto, em verdade. Obra fina. O senhor comprou isto aqui ou mandou vir de Paris? São magnificos. Lá está o primeiro, o grande; este era um genio. Se não fosse a traição, oh! os traidores, vê o senhor? os traidores são peiores que as bombas de Orsini.
—Orsini! um coitado!
—Pagou caro.
—Pagou o que devia. Mas não ha bombas nem Orsini contra o destino de um grande homem, continuou Rubião. Quando a fortuna de uma nação põe na cabeça de um grande homem a coroa imperial, não ha maldades que valham... Orsini! um bobo!
Em poucos minutos, começou o barbeiro a deitar abaixo as barbas do Rubião, para lhe deixar somente a pera e os bigodes de Napoleão III; encarecia-lhe o trabalho; affirmava que era difficil compor exactamente uma cousa como a outra, E á medida que lhe cortava as barbas, ia-as gabando.—Que lindos fios! Era um grande e honesto sacrificio que fazia, em verdade...
—Seu barbeiro, você é pernostico, interrompeu Rubião. Já lhe disse o que quero; ponha-me a cara como estava. Alli tem o busto para guial-o.
—Sim, senhor, cumprirei as suas ordens, e verá que semelhança vae sair.
E zás, zás, deu os ultimos golpes ás barbas de Rubião, e começou a rapar-lhe as faces e os queixos. Durou longo tempo a operação; o barbeiro ia tranquillamente rapando, comparando, dividindo os olhos entre o busto e o homem. Ás vezes, para melhor cotejal-os, recuava dous passos, olhava-os alternadamente, inclinava-se, pedia ao homem que se virasse de um lado ou de outro, e ia ver o lado correspondente do busto.
—Vae bem? perguntava Rubião.
Lucien pedia-lhe com um gesto que se calasse, e proseguia. Recortou a pera, deixou os bigodes, e escanhoou á vontade, lentamente, amigamente, aborrecidamente, adivinhando com os dedos alguma pontinha imperceptivel de cabello no queixo ou na face, para não o consentir, nem por suspeita. Ás vezes Rubião, cançado de estar a olhar para o tecto, emquanto o outro lhe aperfeiçoava os queixos, pedia para descançar. Descançando, apalpava o rosto e sentia pelo tacto a mudança.
—Os bigodes é que não estão muito compridos, observava.
—Falta arranjar-lhe as guias; aqui trago os ferrinhos para encurval-os bem sobre o labio, e depois faremos as guias. Ah! eu prefiro compor dez trabalhos originaes a uma só copia.
Volveram ainda dez minutos, antes que os bigodes e a pera fossem bem retocados. Emfim, prompto. Rubião deu um salto, correu ao espelho, no quarto, que ficava ao pé; era o outro, eram ambos, era elle mesmo, em summa.
—Justamente! exclamou tornando ao gabinete, onde o barbeiro, tendo arrecadado os apparelhos, fazia festas ao Quincas Borba.
E indo á secretária, abriu uma gaveta, tirou uma nota de vinte mil réis, e deu-lh'a.
—Não tenho troco, disse o outro.
—Não precisa dar troco, acudiu Rubião com um gesto soberano; tire o que houver de pagar á casa, e o resto é seu.
CAPITULO CXLVII
Ficando só, Rubião atirou-se a uma poltrona, e viu passar muitas cousas sumptuosas. Estava em Biarritz ou Compiègne, não se sabe bem; Compiègne, parece. Governou um grande Estado, ouviu ministros e embaixadores, dansou, jantou,—e assim outras acções narradas em correspondencias de jornaes, que elle lera e lhe ficaram de memoria. Nem os ganidos de Quincas Borba logravam espertal-o. Estava longe e alto. Compiègne era no caminho da lua. Em marcha para a lua!
CAPITULO CXLVIII
Quando desceu da lua, ouviu os ganidos do cachorro e sentiu frio nos queixos. Correu ao espelho e verificou que a differença entre a cara barbada e a cara lisa era grande mas que, assim lisa, não lhe afiava, mal. Os comensaes chegaram á mesma conclusão.
—Está perfeitamente bem! Ha muito que devia ter feito isso. Não é que as barbas grandes lhe tirassem a nobreza do rosto; mas, assim como está agora, tem o que tinha, e mais um tom moderno...
—Moderno, repetiu o amphytrião.
Fóra, egual espanto. Todos achavam sinceramente que este outro aspecto lhe ia melhor que o anterior. Uma só pessoa, o Dr. Camacho, posto julgasse que os bigodes e a pera ficavam muito bem no amigo, ponderou que era de bom aviso não alterar o rosto, verdadeiro espelho da alma, cuja firmeza e constancia devia reproduzir.
—Não é por lhe fallar de mim, concluiu; mas, nunca me hade ver a cara de outro modo. É uma necessidade moral da minha pessoa. Minha vida, sacrificada aos principios,—porque eu nunca tentei conciliar principios, mas homens,—minha vida, digo, é uma imagem fiel da minha cara, e vice-versa.
Rubião ouvia com seriedade, e acenava de cabeça que sim, que devia ser assim por força. Sentia-se então imperador dos francezes, incognito, de passeio; descendo á rua, voltou ao que era. Dante, que viu tantas cousas extraordinarias, affirma ter assistido no inferno ao castigo de um espirito florentino, que uma serpente de seis pés abraçou de tal modo, e tão confundidos ficaram, que afinal já se não podia distinguir bem se era um ente unico, se dous. Rubião era ainda dous. Não se misturavam nelle a propria pessoa com o imperador dos francezes. Revesavam-se; chegavam a esquecer-se um do outro. Quando era só Rubião, não passava do homem do costume. Quando subia a imperador, era só imperador. Equilibravam-se, um sem outro, ambos integraes.
CAPITULO CXLIX
—Que mudança é essa? perguntou Sophia, quando elle lhe appareceu no fim da semana.
—Vim saber do seu joelho; está bom?
—Obrigada.
Eram duas horas da tarde. Sophia acabava de vestir-se para sair, quando a criada lhe fora dizer que estava alli Rubião,—tão mudado de cara que parecia outro. Desceu a vel-o curiosa; achara-o na sala, de pé, lendo os cartões de visita.
—Mas que mudança é essa? repetiu ella. Rubião, sem nenhuma ideia imperial, respondeu que suppunha ficarem-lhe melhor os bigodes e a pera.
—Ou estou mais feio? concluiu.
—Está melhor, muito melhor.
E Sophia disse comsigo que talvez fosse ella a causa da mudança. Sentou-se no sophá, e começou a enfiar os dedos nas luvas.
—Vae sahir?
—Vou, mas o carro ainda não veiu.
Cahiu-lhe uma das luvas. Rubião inclinou-se para apanhal-a, ella fez a mesma cousa, ambos pegaram na luva, e teimando em levantal-a, succedeu que as caras encontraram-se no ar, e bateram uma na outra. Pangloss, se tem assistido ao episodio, emendaria a sua theoria dos narizes, que, segundo elle, foram feitos para uso dos oculos, quando a verdade é que foram destinados a impedir o encontro casual e involuntario das bocas de um e de outro sexo. Assim succedeu aqui. O nariz della bateu no delle, e as boccas ficaram intactas para rir, como riram.
—Machuquei-a?
—Não! eu é que lhe pergunto...
E riram outra vez. Sophia calçou a luva, Rubião fitou-lhe um pé que se mexia disfarçadamente, até que o criado veiu dizer que a carruagem chegára. Ergueram-se, e ainda uma vez riram.
CAPITULO CL
Teso, descoberto, o lacaio abriu a portinhola do coupé, quando Sophia assomou á porta. Rubião offereceu a mão para ajudal-a a entrar, ella acceitou o obsequio e entrou.
—Agora, até...
Não pôde acabar a phrase; Rubião entrára após ella e sentára-se-lhe ao lado; o lacaio fechou a portinhola, trepou á almofada, e o carro partiu.
CAPITULO CLI
Tão rápido foi tudo, que Sophia perdeu a voz e o movimento; mas, ao cabo de alguns segundos:
—Que é isto?... Senhor Rubião, mande parar o carro.
—Parar? Mas a senhora não me disse que ia sair e esperava por elle?
—Não ia sair com o senhor... Não vê que... Mande parar...
Desatinada, quiz ordenar ao cocheiro que parasse; mas a ideia de um possivel escandalo fel-a deter-se a meio caminho. O coupé entrara na rua Bella da Princeza. Sophia novamente pediu a Rubião que advertisse na inconveniencia de irem assim, á vista de Deus e de todo mundo, Rubião respeitou o escrupulo, e propoz que descessem as cortinas.
—Eu acho que não faz mal que nos vejam, explicou Rubião; mas, fechando as cortinas, ninguem nos vê. Se quer?
Sem aguardar resposta, desceu as cortinas de um e outro lado, e ficaram os dous a sós, porque, se de dentro podiam ver uma ou outra pessoa que passasse, de fóra ninguem os via. Sós, completamente sós, como naquelle dia em que ás mesmas duas horas da tarde, em casa d'ella, Rubião lhe lançou em rosto os seus desesperos. Lá, ao menos, a moça, estava livre; aqui dentro do carro fechado, não podia calcular as consequencias.
Rubião, entretanto, accommodára as pernas e não dizia nada.
CAPITULO CLII
Sophia encolhera-se muito ao canto. Podia ser extranheza da situação, podia ser medo; mas era principalmente repugnancia. Nunca esse homem lhe fez sentir tanta aversão, asco, ou outra cousa menos dura, se querem, mas que se reduzia á incompatibilidade,—como direi que não aggrave os ouvidos?—á incompatibilidade da epiderme. Onde iam os sonhos de ha poucos dias? Ao simples convite de um passeio, a sós, á Tijuca, subiu com elle a montanha, a galope, desmontou, ouviu palavras de adoração, e sentiu um beijo na nuca. Onde iam essas imaginações? Onde iam os olhos fixos e grandes, as mãos amigas e longas, os pés inquietos, as palavras meigas e os ouvidos cheios de misericordia? Tudo esqueceu, tudo desappareceu, agora que ambos se achavam deveras sós, insulados pelo carro e pelo escandalo.
E os cavallos continuavam a andar, sacudindo as patas, arrastando lentamente o carro, pelas pedras da rua Bella da Princeza. Que faria ella chegando ao Cattete? iria á cidade com elle? Pensou em seguir para a casa de alguma amiga deixal-o-hia dentro, diria ao cocheiro que se fosse embora. Contaria tudo ao marido. No meio daquella agonia, atravessaram-lhe o cerebro algumas memorias banaes, ou extranhas á situação, como a noticia de um roubo de joias lida de manhã nos jornaes, a ventania da vespera, um chapéo. Afinal fixou-se em um só cuidado. Que lhe ia dizer o Rubião? Viu que elle continuava a olhar para a frente, calado, com o castão da bengala no queixo. Não lhe ficava mal a attitude, tranquilla, séria, quasi indifferente; mas então para que se metteu no carro? Sophia quiz romper o silencio; por duas vezes moveu nervosamente as mãos; quasi que a irritou a quietação do homem, cuja acção só podia ser explicada pela paixão antiga e violenta. Depois, imaginou que elle proprio estaria arrependido, e disse-lh'o em bons termos.
—Não vejo que me possa arrepender de cousa nenhuma, acudiu elle, voltando-se. Quando a senhora disse que era máu irmos assim, á vista do publico, abaixei as cortinas. Não concordei, mas obedeci.
—Chegamos ao Cattete, atalhou ella; quer que o leve a casa? Não podemos ir juntos para a cidade.
—Podemos andar á tôa.
—Como?
—Á tôa, os cavallos vão andando e nós vamos conversando, sem que nos ouçam nem adivinhem...
—Pelo amor de Deus! não me falle assim, deixe-me, saia do carro, ou eu saio aqui mesmo, e o senhor toma conta d'elle. Que é que quer dizer? Bastam poucos minutos... Olhe, já dobramos para o lado da cidade; mande ir para Botafogo, vou deixal-o a porta de casa...
—Mas eu sahi ha pouco de casa, vou para a cidade. Que mal ha em levar-me até lá? Se é para que não nos vejam, como foi com as cortinas, apeio-me, em qualquer logar,—na praia de Santa Luzia, por exemplo,—do lado do mar...
—O melhor é descer aqui mesmo.
—Mas porque não iremos até a cidade?
—Não, não póde ser. Peço-lhe por tudo que lhe for mais sagrado! Não faça escandalo; vamos, diga-me o que é preciso para obter uma cousa tão simples? Quer que me ajoelhe aqui mesmo?
Apezar da estreiteza do espaço, ia dobrando os joelhos; mas Rubião deu-se pressa em fazel-a sentar-se outra vez.
—Não é preciso que se ajoelhe, disse com brandura.
—Obrigada; peço-lhe então por Deus, por sua mãe, que está no ceu...
—Deve estar no ceu, confirmou Rubião. Era uma santa senhora! As mães são sempre boas; mas daquella, ninguem que a conheceu poderá dizer outra cousa senão que era uma santa. E prendada, como poucas. Que dona de casa! Hospedes, para ella, tanto fazia cinco como cincoenta, era a mesma cousa, cuidava de tudo a tempo e a hora, e criou fama. Os escravos davam-lhe o nome de Sinhá Mãe, porque era, realmente, mãe para todos. Deve estar no céu!
—Bem, bem, atalhou Sophia. Pois faça-me isto por amor de sua mãe; faz?
—Isto que?
—Apeiar-se aqui mesmo?
—E ir a pé para a cidade? Não posso. É scisma sua; ninguem nos vê. E depois estes seus cavallos são magnificos. Já reparou como atiram as patas, lentamente, plás... plás... plás... plás...
Cançada de pedir, Sophia calou-se, cruzou os braços e coseu-se ainda mais, se era possivel, ao cantinho do carro.
—Agora me lembro, pensou ella; mando parar á porta do armazem do Christiano; digo-lhe o modo por que este homem se introduziu no coupé, os pedidos que lhe fiz o as respostas que me deu. Antes isso que fazel-o apear mysteriosamente em qualquer rua.
Entretanto, Rubião estava quieto. De vez em quando volvia no dedo o annel de brilhante,—um solitario explendido. Não olhava para ella, não lhe dizia nem pedia nada. Iam como um casal de aborrecidos. Sophia começava a não entender que razão o teria levado a entrar no carro. Necessidade de transporte não podia ser. Vaidade, tambem não; fechára as cortinas, á sua primeira queixa de publicidade. Nenhuma palavra amorosa,—uma allusão remota que fosse, a medo, cheia de veneração e supplica. Era um inexplicavel, um monstro.
CAPITULO CLIII
—Sophia... disse de repente Rubião; e continuou com pausa:—Sophia, os dias passam, mas nenhum homem esquece a mulher que verdadeiramente gostou delle, ou então não merece o nome de homem. Os nossos amores não serão esquecidos nunca,—por mim, está claro, e estou certo que nem por ti. Tudo me déste, Sophia; a tua propria vida correu perigo. Verdade é que eu te vingaria, minha bella. Se a vingança póde alegrar os mortos, terias o maior prazer possivel. Felizmente, o meu destino protegeu-nos, e pudemos amar sem peias nem sangue...
A moça olhava espantada.
—Não te espantes, continuou elle; não nos vamos separar; não, não te fallo de separação. Não me digas que morrerias; sei que havias de chorar muitas lagrymas. Eu não,—que não vim ao mundo para chorar,—mas nem por isso a minha dor seria menor; ao contrario, as dores guardadas no coração doem mais que as outras. Lagrymas são boas porque a pessoa desabafa. Querida amiga, fallo-te assim, porque é preciso termos cautella; a nossa insaciavel paixão póde esquecer esta necessidade. Temos facilitado muito, Sophia; como nascemos um para o outro, parece-nos que estamos casados, e facilitamos. Ouve, querida, ouve, alma da minha alma... A vida é bella! a vida é grande! a vida é sublime! Comtigo, porém, que nome haverá que lhe possa dar? Lembras-te da nossa primeira entrevista?
Rubião disse esta ultima palavra, querendo pegar-lhe na mão. Sophia recuou a tempo; estava desorientada, não entendia e tinha medo. A voz delle crescia, o cocheiro podia ouvir alguma cousa... E aqui uma ideia terrivel a abalou: talvez o intento de Rubião fosse justamente fazer-se ouvir, para obrigal-a pelo terror,—ou então para que a abocanhassem. Teve impeto de atirar-se a elle, gritar que lhe acudissem, e salvar-se pelo escandalo.
Elle, baixinho, depois de certa pausa:
—A mim lembra-me, como se fosse hontem. Tu chegaste de carro, não era este; era um carro de praça, uma caleça. Desceste medrosa, com o veu pela cara; tremias como varas verdes... Mas os meus braços te ampararam... O sol daquelle dia devia ter parado, como quando obedeceu a Josué... E comtudo, minha flor, aquellas horas foram compridas como diabo, não sei porque; a rigor, deviam ser curtas. Era talvez porque a nossa paixão não acabava mais,não acabou, nem hade acabar nunca... Em compensação, não vimos mais o sol; ia cahindo para o outro lado das montanhas, quando a minha Sophia, ainda medrosa, sahiu para a rua, e pegou de outra caleça. Outra ou a mesma? Creio que foi a mesma. Não imaginas como fiquei; parecia tonto, beijei tudo em que havias tocado; cheguei a beijar a soleira da porta. Creio que já te contei isto. A soleira da porta. E estive quasi, quasi a ir de rastos, beijar os degráos da escada... Não o fiz, recolhi-me, fechei-me para que se não perdesse o teu cheiro; violeta, se bem me recordo...
Não, não era possivel que o intuito de Rubião fosse fazer crer ao cocheiro uma aventura mentirosa. A voz era tão sumida que Sophia mal podia escutal-a; mas, se lhe custava a entender as palavras, não chegava a comprehender o sentido dellas. A que vinha aquella historia não succedida? Quem quer que a ouvisse, acceitaria tudo por verdade, tal era a nota sincera, a meiguice dos termos e a verosimilhança dos pormenores. E elle continuou suspirando as bellas reminiscencias...
—Mas que caçoada é essa? atalhou finalmente Sophia.
Não lhe respondeu o nosso amigo;—tinha a imagem deante dos olhos, não ouviu a pergunta, e foi andando. Citou-lhe um concerto de Gottschalk. O divino pianista melodiava ao piano; elles ouviam, mas o demonio da musica levou os olhos de um para outro, e ambos esqueceram o resto. Quando a musica cessou, as palmas romperam, e elles accordaram. Ai tristes! accordaram com o olhar do Palha em cima delles, um olho de onça brava. Nessa noite cuidou que elle a matasse.
—Senhor Rubião...
—Napoleão, não; chama-me Luiz. Sou o teu Luiz, não é verdade, galante creatura? Teu, teu... Chama-me teu;—o teu Luiz, o teu querido Luiz. Ai, se tu soubesses o gosto que me dás quando te ouço essas duas palavras: «Meu Luiz!» Tu és a minha Sophia,—a doce, a mimosa Sophia da minha alma. Não percamos estes momentos; vamos dizer nomes ternos; mas, baixo, baixinho, para que os malandros da almofada do carro não escutem. Para que hade haver cocheiros neste mundo? Se o carro andasse por si, a gente fallava á vontade, e iria ao fim da terra...
Já então iam costeando o Passeio Publico; Sophia não deu por isso. Olhava fixamente para Rubião; não podia ser calculo de perverso, nem lhe attribuia mofa... Delirio, sim, é o que era; tinha a sinceridade da palavra, como pessoa que vê ou viu realmente as cousas que relata.
—É preciso pol-o fóra daqui, pensou a moça. E, apparelhando-se de coragem:—Onde estaremos nós? perguntou-lhe. É occasião de separar-nos. Veja do lado de lá; onde estamos? Parece que é o convento; estamos no largo da Ajuda. Diga ao cocheiro que páre; ou, se quer, pode apear-se no largo da Carioca. Meu marido...
—Vou nomeal-o embaixador, disse Rubião. Ou senador, se quizer. Senador é melhor; ficam os dous aqui. Embaixador que fosse, não consentiria que tu o acompanhasses, e as más linguas... Tu sabes a opposição que soffro, as calumnias... Ah! ruim gente! Convento da Ajuda, disseste? Que tens tu com elle? Queres ser freira?
—Não; digo que já passamos o convento da Ajuda. Vou deixal-o no largo da Carioca, Ou vamos até o armazem de meu marido?
Sophia tornou a apegar-se ao segundo alvitre; não se faria suspeita ao cocheiro, provaria melhor a sua innocencia ao Palha, narrando-lhe tudo, desde a entrada inesperada no carro até o delirio. E que delirio era esse? Sophia pensou que o motivo podia ser ella propria, e esta ideia fel-a sorrir de piedade.
—Para que? disse Rubião. Vou apeiar-me aqui mesmo, é mais seguro. Para que hade elle desconfiar de nós e maltratar-te? Posso castigal-o, mas sempre me ficaria o remorso do mal que elle te causaria. Não, linda flor amiga; o vento que se atrevesse a tocar em tua pessoa, acredita que eu mandaria pôr fora do espaço, como um vento indigno. Tu ainda não conheces bem o meu poder, Sophia; anda, confessa.
Como Sophia não confessasse nada, Rubião chamou-lhe de bonita, e offereceu-lhe o solitario que tinha no dedo; ella, porém, comquanto amasse as joias e tivesse a intuição dos solitarios, recusou medrosamente a offerta.
—Comprehendo o escrupulo, disse elle; mas não perdes por isso, porque hasde receber outra pedra ainda mais bella, e pela mão de teu marido. Far-te-hei duqueza. Ouviste? O titulo é dado a elle, mas tu é que és a causa. Duque... Duque de que? Vou ver um titulo bonito; ou então escolhe tu mesma, porque é para ti, não é para elle, é para ti, minha mimosa. Não é preciso escolher já, vae para casa e pensa. Não te vexes; manda-me dizer o que achares mais bonito, e faço lavrar immediatamente o decreto. Tambem podes fazer outra cousa: escolhe, e diz-me no nosso primeiro encontro, no logar do costume. Quero ser o primeiro que te chame duqueza. Querida duqueza... O decreto virá depois. Duqueza da minha alma!
—Sim, sim, disse ella desvairamente, mas avisemos o cocheiro que nos leve até a casa de Christiano.
—Não, apeio-me aqui... Pára! pára!
Rubião ergueu as cortinas, e o lacaio veiu abrir a portinhola. Sophia, para tirar toda a suspeita a este, pediu novamente ao Rubião que fosse com ella á casa do marido; disse-lhe que este precisava fallar-lhe, com urgencia. Rubião olhou um pouco espantado para ella, para o lacaio e para a rua; e respondeu que não, que iria depois.
CAPITULO CLIV
Apenas separados, deu-se em ambos um contraste.
Rubião, na rua, voltou a cabeça para todos os lados, a realidade apossava-se delle e o delirio esvaia-se. Andava, estacava deante de uma loja, atravessava a rua, detinha um conhecido, pedia-lhe noticias e opiniões; exforço inconsciente para sacudir de si a personalidade emprestada.
Ao contrario, Sophia, passado o susto e o espanto, mergulhou no devaneio; todas as referencias e historias mentirosas de Rubião como que lhe davam saudades,—saudades de que?—-«saudades do ceu», que é o que dizia o padre Bernardes do sentimento de um bom christão. Nomes diversos relampejavam no azul daquella possibilidade. Quanto pormenor interessante! Sophia reconstruiu a caleça velha, onde entrou rapida, donde desceu tremula, para esgueirar-se pelo corredor dentro, subir a escada, e achar um homem,—que lhe disse os mimos mais appetitosos deste mundo, e os repetiu agora, ao pé della, no carro, mas não era, não podia ser o Rubião. Quem seria? Nomes diversos relampejavam no azul daquella possibilidade.
CAPITULO CLV
Espalhou-se a nova da mania de Rubião. Alguns, não o encontrando nas horas do delirio, faziam experiencias, a ver se era verdadeiro o boato; encaminhavam a conversação para os negocios de França e do imperador. Rubião resvalava ao abysmo, e convencia-os.
CAPITULO CLVI
Passaram-se alguns mezes, veiu a guerra franco-prussiana, e as crises de Rubião tornaram-se mais intensas e menos espaçadas. Quando as malas da Europa chegavam cedo, Rubião sahia de Botafogo, antes do almoço, e corria a esperar os jornaes; comprava a Correspondencia de Portugal, e ia lel-a no Carceler. Quaesquer que fossem as noticias, dava-lhes o sentido da victoria. Fazia a conta dos mortos e feridos, e achava sempre um grande saldo a seu favor. A quéda de Napoleão III foi para elle a captura do rei Guilherme, a revolução de 4 de Setembro um banquete de bonapartistas.
Em casa, os amigos do jantar não se mettiam a dissuadil-o. Tambem não confirmavam nada, por vergonha uns dos outros; sorriam e desconversavam. Todos, entretanto, tinham as suas patentes militares, o marechal Torres, o marechal Pio, o marechal Ribeiro, e acudiam pelo titulo. Rubião via-os fardados; ordenava um reconhecimento, um ataque, e não era necessario que elles sahissem a obedecer; o cerebro do amphytrião cumpria tudo. Quando Rubião deixava o campo de batalha para tornar á mesa, esta era outra. Já sem prataria, quasi sem porcellana nem crystaes, ainda assim apparecia aos olhos de Rubião régiamente esplendida. Pobres gallinhas magras eram graduadas em faisões; picados triviaes, assados de má morte traziam o sabor das mais finas iguarias do céo e da terra. Os comensaes faziam algum reparo, entre si,—ou ao cosinheiro,—mas Lucullo ceiava sempre com Lucullo. Toda a mais casa, gasta pelo tempo e pela incuria, tapetes desbotados, mobilias truncadas e descompostas, cortinas enxovalhadas, nada tinha o seu actual aspecto, mas outro, lustroso e magnifico. E a linguagem era tambem diversa, rotunda e copiosa, e assim os pensamentos, alguns extraordinarios, como os do finado amigo Quincas Borba,—theorias que elle não entendera, quando lh'as ouvira outr'ora, em Barbacena, e que ora repetia com lucidez, com alma,—ás vezes, empregando as mesmas phrases do philosopho. Como explicar essa repetição do obscuro, esse conhecimento do inextricavel, quando os pensamentos e as palavras pareciam ter ido com os ventos de outros dias? E porque todas essas reminiscencias desappareciam com a volta da razão?
CAPITULO CLVII
A compaixão de Sophia,—explicado o mal do Rubião pelo amor que elle lhe tinha,—era um sentimento medio, não sympathia pura nem egoismo ferrenho, mas participando de ambos. Uma vez que evitasse alguma situação identica á do coupé, tudo ia bem. Nas horas em que Rubião estava lucido, escutava-o e fallava-lhe com interesse,—até porque a doença, dando-lhe audacia nos momentos de crise, dobrava-lhe a timidez nas horas normaes. Não sorria, como o Palha, quando Rubião subia ao throno ou commandava um exercito. Crendo-se autora do mal, perdoava-lh'o; a idéa de ter sido amada até á loucura, sagrava-lhe o homem.
CAPITULO CLVIII
—Porque não o tratam? perguntou uma noite D. Fernanda, que alli o conhecera no anno anterior; póde ser que se cure.
—Parece que não é cousa grave, acudiu o Palha; tem desses accessos, mas assim mansos, como viu, ideias de grandeza, que passam logo; e repare que, fóra daquillo, conversa perfeitamente. Comtudo, póde ser... Que acha V. Ex.?
Theophilo, o marido de D. Fernanda, respondeu que sim, que era possivel.
—Que fazia elle, ou que faz agora? continuou o deputado.
—Nada, nem agora nem antes. Era rico,—mas gastador. Conhecemol-o quando veiu de Minas, e fomos, por assim dizer, o seu guia no Rio de Janeiro, aonde não voltara desde longos annos. Bom homem. Sempre com luxo, lembra-se? Mas, não ha riqueza inexgotavel, quando se entra pelo capital; foi o que elle fez. Hoje creio que tenha pouco...
—Podia salvar-lhe esse pouco, fazendo-se nomear curador, em quanto elle se trata. Não sou medico, mas póde ser que esse seu amigo fique bom.
—Não digo que não. Realmente, é pena... Dá-se com todos e presta seus serviços. Sabe que esteve para ser nosso parente? Pois não! quis casar com Maria Benedicta.
—A proposito de Maria Benedicta, interrompeu D. Fernanda, ia-me esquecendo que trago uma carta della para mostrar á senhora; recebi-a hontem. Já ha de saber que, em breve, estão de volta? Está aqui.
Entregou a carta a Sophia, que a abriu sem enthusiasmo, e a leu com tedio. Era mais que uma vulgar carta transatlantica, era um deposito moral, uma confissão intima e completa de pessoa feliz e agradecida. Contava os mais recentes episodios da viagem, desordenadamente, porque os viajantes eram sobrepostos a tudo, e as mais bellas obras do homem ou da natureza valiam menos que os olhos que as miravam. Ás vezes, um incidente de hospedaria ou de rua comia mais papel e trazia mais interesse que outros, pela razão de pôr em relevo as qualidades do marido. Maria Benedicta amava tanto ou ainda mais que no primeiro dia. No fim, a medo, em post-scriptum, pedindo que o não dissesse a ninguem, confessava que era mãe.
Sophia dobrou o papel, não já com tedio, senão com despeito, e por dous motivos que se contradizem; mas a contradicção é deste mundo. Cotejada aquella carta com as que recebera de Maria Benedicta, dir-se-hia que ella era apenas uma conhecida, sem outro laço de sangue ou de affecto; e, comtudo, não quereria ser confidente d'aquella felicidade cochichada do outro lado do oceano, cheia de minucias, de adjectivos, de exclamações, do nome de Carlos Maria, dos olhos de Carlos Maria, dos ditos de Carlos Maria, finalmente do filho de Carlos Maria. Parecia acinte, e quasi fazia crer na complicidade de D. Fernanda.
Habil, sabendo domar-se a tempo, Sophia dissimulou o despeito, e restituiu sorrindo a carta da prima. Quiz dizer que, pelo texto, a felicidade de Maria Benedicta devia estar intacta como a levara daqui, mas a voz não lhe passou da garganta. D. Fernanda é que se incumbiu da conclusão:
—Vê-se bem que é feliz!
—Parece que sim.
CAPITULO CLIX
Se a manhã seguinte não fosse chuvosa, outra seria a disposição de Sophia. O sol nem sempre é official de boas ideias; mas, ao menos, permitte sahir, e a troca do expectaculo muda as sensações. Quando Sophia acordou já a chuva cahia grossa e continua, e o céo e o mar era tudo um, tão baixas estavam as nuvens, tão espessa era a cerração.
Tedio por dentro e por fóra. Nada em que espraiasse a vista e descançasse a alma. Sophia metteu a alma em um caixão de cedro, encerrou a este no caixão de chumbo do dia, e deixou-se estar sinceramente defuncta. Não sabia que os defunctos pensam, que um enxame de noções novas vem substituir as velhas, e que elles saem criticando o mundo como os expectadores saem do theatro criticando a peça e os actores. A defuncta sentiu que algumas noções e sensações continuavam a vida. Vinham de mistura, mas tinham um ponto de partida commum,—a carta da vespera e as recordações que lhe trouxe de Carlos Maria.
Em verdade, cuidára ter arredado para longe essa figura aborrecida, e eil-a que reapparecia, que sorria, que a fitava, que lhe sussurrava ao ouvido as mesmas palavras do vadio egoista e enfatuado, que a convidou um dia á valsa do adulterio e a deixou sosinha no meio do salão. Á volta dessa vinham outras; Maria Benedicta, por exemplo, um caco de gente, que ella foi buscar á roça para lhe dar lustre de cidade, e que esqueceu todos os beneficios para só se lembrar das suas ambições. E D. Fernanda tambem, madrinha dos seus amores, que de caso pensado, trouxera na vespera a carta de Maria Benedicta com o post-scriptum confidencial. Não advertiu que o prazer da amiga bastava a explicar o esquecimento da parte reservada da carta; menos ainda indagou se a natureza moral de D. Fernanda comportava essa supposição. Vieram assim outras ideias e imagens, e tornaram as primeiras, e todas se iam ligando e desligando. Entre ellas, appareceu uma lembrança da vespera. O marido de D. Fernanda, envolvera Sophia em um grande olhar de admiração. Ella, em verdade, estava nos seus melhores dias; o vestido sublinhava admiravelmente a gentileza do busto, o estreito da cintura e o relevo delicado das cadeiras;—era foulard, côr de palha.
—Côr de palha, accentuou Sophia rindo, quando D. Fernanda o elogiou, pouco depois de entrar; côr de palha, como uma lembrança deste senhor.
Não é facil dissimular o prazer da lisonja; o marido sorriu cheio de vaidade, procurando ler nos olhos dos outros o effeito daquella prova minuciosa de amor. Theophilo elogiou tambem o vestido, mas era difficil miral-o sem mirar tambem o corpo da dona; d'alli os olhos compridos que lhe deitou, sem concupiscencia, é certo, e quasi sem reincidencia. Pois essa lembrança da vespera, um gesto sem convite, uma admiração sem desejo, veiu metter-se de permeio agora, quando Sophia cuidava na maldade da outra.
Carlos Maria, Theophilo... Outros nomes relampejavam no céo daquella possibilidade, como ficou expresso no cap. CLIV. E vieram todos agora, porque a chuva continuava a cair e o céo e o mar estavam ainda unidos pela mesma cerração. Vieram todos esses nomes, com os proprios sujeitos correspondentes, e até vieram sujeitos sem nomes,—os adventicios e ignorados,—que uma só vez passaram por ella, cantaram o hymno da admiração e receberam o obolo da boa vontade. Porque não reteve algum de tantos, para ouvil-o cantar e enriquecel-o? Não é que os obolos enriqueçam a ninguem, mas ha outras moedas de maior valia. Porque não reteve um de tantos nomes elegantes, e até egregios? Essa pergunta sem palavras correu-lhe assim pelas veias, pelos nervos, pelo cerebro, sem outra resposta mais que a agitação e a curiosidade.
CAPITULO CLX
Nisto, a chuva cessou um pouco, e um raio de sol logrou romper o nevoeiro,—um desses raios humidos que parecem vir de olhos que choraram. Sophia cuidou que ainda podia sair; estava inquieta por vêr, por andar, por sacudir aquelle torpor, e esperou que o sol varresse a chuva e tomasse conta do ceu e da terra; mas o grande astro percebeu que a intenção della era constituil-o lanterna de Diogenes, e disse ao raio humido: «Volta, volta ao meu seio, raio casto e virtuoso; não vás tu conduzil-a aonde o seu desejo a quer levar. Que ame, se lhe parece; que responda aos bilhetes namorados,—se os recebe e não queima,—não lhe sirvas tu de archote, luz do meu seio, filho das minhas entranhas, raio, irmão dos meus raios...»
E o raio obedeceu, recolhendo-se ao foco central, um pouco espantado do temor do sol, que tem visto tantas cousas ordinarias e extraordinarias. Então o veu de nuvens fez-se outra vez espesso, e mais escuro, e a chuva tornou a cahir em grandes bategas.
CAPITULO CLXI
Sophia resignou-se á reclusão. Já agora tinha a alma tão confusa e diffusa como o expectaculo exterior. Todas as imagens e nomes perdiam-se no mesmo desejo de amar. É justo dizer que ella, quando regressava desses estados de consciencia vagos e obscuros, tentava fugir-lhes e guiava o espirito para diverso assumpto; mas succedia-lhe como aos que têm somno e forcejam por velar: os olhos fecham-se de cada vez que espertam, e tornam a espertar para se fecharem outra vez. Afinal, deixou a vista da chuva e do nevoeiro; estava cançada, e para repousar, foi abrir as folhas do ultimo numero da Revista dos Dous Mundos. Um dia, no melhor dos trabalhos da commissão das Alagôas, perguntára-lhe uma das elegantes do tempo, casada com um senador:
Está lendo o romance de Feuillet, na Revista dos Dous Mundos?
—Estou, acudiu Sophia; é muito interessante, Não estava lendo, nem conhecia a Revista; mas, no dia seguinte, pediu ao marido que a assignasse; leu o romance, leu os que sahiram depois, e fallava de todos os que lêra ou ia lendo. Abertas as folhas daquelle numero, e acabada uma novella, Sophia recolheu-se ao quarto e atirou-se á cama. Passára mal a noute, não lhe custou pegar no somno,—profundo, largo e sem sonhos,—excepto para o fim, em que teve um pesadelo. Estava deante da mesma parede de cerração daquelle dia, mas no mar, á proa de uma lancha, deitada de bruços, escrevendo com o dedo na agua um nome—Carlos Maria. E as lettras ficavam gravadas, e para maior nitidez, tinham os sulcos de espuma. Até aqui nada havia que atordoasse, a não ser o mysterio; mas é sabido que os mysterios dos sonhos parecem factos naturaes. Eis que a parede da cerração se rasga, e nada menos que o proprio dono do nome apparece aos olhos de Sophia, caminha para ella, toma-a nos braços e diz-lhe muitas palavras de ternura, analogas ás que ella, alguns mezes antes, ouvira ao Rubião. E não a afligiram, como as d'este; ao contrario, escutou-as com prazer, meia cahida para trás, como se desmaiasse. Já não era lancha, mas carruagem, onde ella se ia com o primo, mãos presas, namorada de uma linguagem de ouro e sandalo. Tambem aqui não ha que atterre. O terror veiu quando a carruagem parou, muitos vultos mascarados a cercaram, mataram o cocheiro, arrancaram as portinholas, apunhalaram Carlos Maria e deitaram o cadaver ao chão. Depois, um delles, que parecia ser o cabo de todos, tomou o lugar do defuncto, tirou a mascara e disse a Sophia que se não assustasse, que elle a amava cem mil vezes mais que o outro. Logo em seguida, pegou-lhe nos pulsos e deu-lhe um beijo, mas um beijo humido de sangue, cheirando a sangue. Sophia soltou um grito de horror e acordou. Tinha ao pé do leito o marido.
—Que foi? perguntou elle.
—Ah! respirou Sophia. Gritei, não gritei?
Palha não respondeu nada; olhava á tôa, pensava em negocios. Então um receio assaltou a mulher, se haveria effectivamente fallado, murmurado alguma palavra, um nome qualquer,—o mesmo que escrevera na agua. E logo, espreguiçando os braços para o ar, fel-os cahir sobre os hombros do marido, cruzou as pontas dos dedos na nuca, e murmurou meia alegre, meia triste:
—Sonhei que estavam matando você.
Palha ficou enternecido. Havel-a feito padecer por elle, ainda que em sonhos, encheu-o de piedade, mas de uma piedade gostosa, um sentimento particular, intimo, profundo,—que o faria desejar outros pesadelos, para que o assasinassem aos olhos della, e para que ella gritasse augustiada, convulsa, cheia de dor e de pavor.
CAPITULO CLXII
No dia seguinte, o sol appareceu claro e quente, o ceu limpido, e o ar fresco. Sophia metteu-se no carro e saiu a visitas e a passeio para desforrar-se da reclusão. Já o proprio dia lhe fez bem. Vestiu-se cantarolando. O trato das senhoras que a receberam em sua casa,—e das que achou na rua do Ouvidor, a agitação externa, as noticias da sociedade, a boa feição de tanta gente fina e amiga, bastaram a espancar-lhe da alma os cuidados da vespera.
CAPITULO CLXIII
Assim, pois, o que parecia vontade imperiosa reduzia-se a velleidade pura, e, com algumas horas de intervallo, todos os maos pensamentos se recolheram ás suas alcovas. Se me perguntardes por algum remorso de Sophia, não sei que vos diga. Ha uma escala de resentimento e de reprovação. Não é só nas acções que a consciencia passa gradualmente da novidade ao costume, e do temor á indifferença. Os simples peccados de pensamento são sujeitos a essa mesma alteração, e o uso de cuidar nas cousas affeiçoa tanto a ellas,—que, afinal, o espirito não as estranha, nem as repelle. E nestes casos ha sempre um refugio moral na isenção exterior, que é, por outros termos mais explicativos, o corpo sem macula.
CAPITULO CLXIV
Um só incidente affligiu Sophia naquelle dia puro e brilhante,—foi um encontro com Rubião. Tinha entrado em uma livraria da rua do Ouvidor para comprar um romance; em quanto esperava o troco, viu entrar o amigo. Rapidamente voltou o rosto o percorreu com os olhos os livros da prateleira,—uns livros de anatomia e de estatistica;—recebeu o dinheiro, guardou-o, e, de cabeça baixa, rapida como uma flexa, saiu á rua, e enfiou para cima. O sangue só lhe socegou, quando a rua dos Ourives ficou para traz. Não podia adivinhar que Rubião a não tinha visto, sequer; nem podia saber que, não a vendo embora, não sahisse logo, não a conhecesse, não corresse a aggarral-a, a dizer-lhe algum desvario.
Dias depois, indo a entrar em casa de D. Fernanda, deu com elle no saguão. Cuidou que subisse, e dispoz-se a subir tambem, ainda que receiosa; mas Rubião descia, apertaram-se as mãos familiarmente, e despediram-se até á tarde.
—Elle vem aqui muitas vezes? perguntou Sophia a D. Fernanda, depois de lhe contar o encontro do saguão.
—Esta é a quarta vez, quarta ou quinta; mas só da segunda vez appareceu delirando. Das outras é como viu agora, socegado, e até conversador. Ha nelle sempre alguma cousa que mostra não estar completamente bem. Não reparou nos olhos, um pouco vagos? É isso; no mais, conversa bem. Creia, D. Sophia; aquelle homem pode sarar. Porque não faz com que seu marido tome isto a peito?
—Christiano tem projecto de o mandar examinar e tratar; mas, deixe estar que eu o apresso.
—Sim, falle-lhe. Elle parece ser muito amigo da senhora e do Sr. Palha.
—Ter-lhe-ha dito alguma inconveniencia no delirio, a meu respeito? pensou Sophia. Convirá revellar-lhe a verdade?
Concluiu que não; o proprio mal do Rubião explicaria as inconveniencias. Prometteu que apressaria o marido, e, nessa mesma tarde expoz o negocio ao Palha, approvando a ideia de tentar a cura. «Era uma grande amolação,» redarguiu este. E perguntou que interesse tinha D. Fernanda em tornar áquelle negocio. Que o tratasse ella mesma! Era uma atrapalhação ter de cuidar do outro, de o acompanhar, e, provavelmente, de recolher e gerir algum resto de dinheiro que ainda houvesse, fazendo-se curador, como dissera o Dr. Theophilo. Um aborrecimento de todos os diabos.