MACHADO DE ASSIS (continued 2)
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CAPITULO XLVI
O rumor das vozes e dos vehiculos acordou um mendigo que dormia nos degráos da egreja. O pobre diabo sentou-se, viu o que era, depois tomou a deitar-se, mas accordado, de barriga para o ar, com os olhos fitos no ceu. O ceu fitava-o tambem, impassivel como elle, mas sem as rugas do mendigo, nem os sapatos rotos, nem os andrajos, um ceu claro, estrellado, socegado, olympico, tal qual presidiu ás bodas de Jacob e ao suicidio de Lucrecia. Olhavam-se n'uma especie de jogo do sizo, com certo ar de majestades rivaes e tranquillas, sem arrogancia, nem baixeza, como se o mendigo dissesse ao ceu:
—Afinal, não me hasde cair em cima.
E o ceu:
—Nem tu me hasde escalar.
CAPITULO XLVII
Rubião não era philosopho; a comparação que alli fez entre os seus cuidados e os do maltrapilho apenas lhe trouxe á alma uma sombra de inveja. Aquelle malandro não pensa em nada, disse elle comsigo; d'aqui a pouco está dormindo, emquanto eu...
—Meu amo, entre que o animal é bom. Vamos lá em quinze minutos.
Os outros dois cocheiros diziam-lhe a mesma cousa, quasi por eguaes palavras:
—Meu amo, venha aqui e verá...
—Olhe o meu cavallinho...
—Faça favor; são treze minutos de viagem. Em treze minutos está em casa.
Rubião, depois de hesitar ainda, deu consigo dentro do tilbury que lhe ficava á mão, e mandou tocar para Botafogo. Então lembrou-se de um velho episodio esquecido, ou foi o episodio que lhe deu inconscientemente a solução. Uma ou outra cousa, Rubião guiou o pensamento, com o fim de escapar ás sensações daquella noite.
La iam longos annos. Elle era então muito rapaz, e pobre. Um dia, ás oito horas da manhã, sahiu de casa, que era na rua do Cano (Sete do Setembro), entrou no largo do S. Francisco do Paula; d'alli desceu pela rua do Ouvidor. Ia com alguns cuidados; morava em casa de um amigo, que começava a tratal-o como hospede de tres dias, e elle ja o era de quatro semanas. Dizem que os de trez dias cheiram mal; muito antes d'isso cheiram mal os defuntos, ao menos nestes climas quentes... Certo é que o nosso Rubião, singelo como um bom mineiro, mas desconfiado como um paulista, ia cheio de cuidados, pensando em retirar-se quanto antes. Póde crer-se que desde que sahiu de casa, entrou no largo de S. Francisco, e desceu a rua do Ouvidor até a dos Ourives, não viu nem ouviu cousa nenhuma.
Na esquina da rua dos Ourives deteve-o um ajuntamento de pessoas, e um prestito singular. Um homem, judicialmente trajado, lia em voz alta um papel, a sentença. Havia mais o juiz, um padre, soldados, curiosos. Mas, as principaes figuras eram dous pretos. Um delles, mediano, magro, tinha as mãos atadas, os olhos baixos, a côr fula, e levava uma corda enlaçada no pescoço; as pontas do baraço iam nas mãos de outro preto. Este outro olhava para a frente e tinha a cor fixa e retinta. Sustentava com galhardia a curiosidade publica. Lido o papel, o prestito seguiu pela rua dos Ourives adeante; vinha do aljube e ia para o largo do Moura.
Rubião naturalmente ficou impressionado. Durante alguns segundos esteve como agora á escolha de um tilbury. Forças intimas offereciam-lhe o seu cavallo, umas que voltasse para traz ou descesse para ir aos seus negocios,—outras que fosse ver enforcar o preto. Era tão raro ver um enforcado! Senhor, em vinte minutos está tudo findo!—Senhor, vamos tratar de outras cousas! E o nosso homem fechou os olhos, e deixou-se ir ao acaso. O acaso, em vez de leval-o pela rua do Ouvidor abaixo até á da Quitanda, torceu-lhe o caminho pela dos Ourives, atraz do prestito. Não iria ver a execução, pensou elle; era só ver a marcha do réo, a cara do carrasco, as cerimonias... Não queria ver a execução. De quando em quando, parava tudo, chegava gente ás portas e janellas, e o porteiro dos auditorios relia a sentença. Depois, o prestito continuava a andar com a mesma solemnidade. Os curiosos iam narrando o crime,—um assassinato em Mata-porcos. O assassino era dado como homem frio e feroz. A noticia dessas qualidades fez bem a Rubião; deu-lhe força para encarar o réo, sem deliquios de piedade. Não era já a cara do crime; o terror dissimulava a perversidade. Sem reparar, deu consigo no largo da execução. Já alli havia bastante gente. Com a que vinha formou-se multidão compacta.
—Voltemos, disse elle consigo.
Verdade é que o réo ainda não subira a forca; não o matariam de relance; sempre era tempo de fugir. E, dado que ficasse, porque não fecharia os olhos, como fez certo Alypio deante do expectaculo das feras? Note-se bem que Rubião nada sabia desse tal rapaz antigo; ignorava, não só que fechára os olhos, mas tambem que os abrira logo depois, devagarinho e curioso...
Eis o réo que sobe a forca. Passou pela turba um fremito. O carrasco pôz mãos á obra. Foi aqui que o pé direito de Rubião descreveu uma curva na direcção exterior, obedecendo a um sentimento de regresso; mas o esquerdo, tomado de sentimento contrario, deixou-se estar; lutaram alguns instantes... Olhe o meu cavallo!—Veja, é um rico animal!—Não seja máo!—Não seja medroso! Rubião esteve assim alguns segundos, os que bastaram para que chegasse o momento fatal. Todos os olhos fixaram-se no mesmo ponto, como os delle. Rubião não podia entender que bicho era que lhe mordia as entranhas, nem que mãos de ferro lhe pegavam da alma e a retinham alli. O instante fatal foi realmente um instante; o réo esperneou, contrahiu-se, o algoz cavalgou-o de um modo airoso e destro; passou pela multidão um rumor grande, Rubião deu um grito, e não viu mais nada.
CAPITULO XLVIII
Vossa Senhoria hade ter visto que o cavallinho é bom...
Rubião abriu os olhos, meio fechados, e deu com o cocheiro que sacudia ao de leve a pontinha do chicote para espertar o animal. Interiormente zangou-se com o homem, que o veiu tirar de recordações antigas. Não eram bellas, mas eram antigas,—antigas e enfermeiras, porque lhe davam a beber um elixir que de todo parecia cural-o do presente. E vae o cocheiro empurra-o e accorda-o. Iam subindo a rua da Lapa; o cavallo, em verdade, comia o espaço como se fosse a descer.
—Este cavallo tem-me uma amizade, continuou o cocheiro, que se não acredita. Podia contar cousas extraordinarias. Ha pessoas que até dizem que é mentira minha; mas, não, senhor, não é. Quem não sabe que cavallo e cachorro são os animaes que mais gostam da gente? Cachorro parece que inda gosta mais...
Cachorro trouxe á memoria de Rubião o Quincas Borba, que lá devia estar em casa, á espera delle, ancioso. Rubião não esquecia a condição do testamento; jurava cumpril-a á risca. Convem dizer que, de envolta com o receio de vel-o fugir, entrava o de vir a perder os bens. Não valiam affirmações do advogado; não ha, dizia-lhe este, não ha no testamento clausula reversivel para outrem, no caso de fuga do cachorro; os bens não podiam sair-lhe das mãos. Que lhe importava a fuga, se era até melhor, um cuidado menos? Rubião aceitava apparentemente a explicação, mas lá ficava a duvida, o exemplo de longas demandas, a variedade das opiniões juridicas sobre uma só materia, a acção de algum invejoso ou inimigo, e, o que resumia tudo, o terror de ficar sem nada. Dahi os rigores da reclusão; dahi tambem o remorso de ter passado a tarde e a noute sem pensar uma só vez no Quincas Borba.
—Sou um ingrato! disse comsigo.
Emendou-se logo; mais ingrato era não ter pensado no outro Quincas Borba, que lhe deixou tudo. Vae se não quando, teve uma ideia extraordinaria, a de serem os dous Quincas Borbas a mesma creatura, por effeito da entrada da alma do defunto no corpo do cachorro, menos a purgar os seus peccados que a vigiar o dono. Foi uma preta de S. João d'El-rei que lhe metteu, em creança, essa ideia de transmigração. Dizia ella que a alma cheia de peccados ia para o corpo de um bruto; chegou a jurar que conhecera um escrivão que acabou feito gambá...
—Vossa Senhoria, não se esqueça de dizer onde é a casa, disse-lhe repentinamente o cocheiro.
—Pare. Já passámos, é aquella.
O tilbury deu volta e foi parar á porta; Rubião pagou e desceu.
CAPITULO XLIX
O cão ladrou de dentro; mas, logo que Rubião entrou, recebeu-o com grande alegria; e por mais importuno que fosse, Rubião desfez-se em caricias. A idéa de poder estar alli o testador dava-lhe arrepios. Subiram juntos a escada de pedra; alli ficaram por alguns instantes, á luz do lampeão que Rubião mandára deixar acceso. Rubião era mais credulo que crente; não tinha razões para atacar nem para defender nada:—terra eternamente virgem para se lhe plantar qualquer cousa. A vida da côrte deu-lhe até uma particularidade; entre incredulos, chegava a ser incredulo...
Olhou para o cão, emquanto esperava que lhe abrissem a porta. O cão olhava para elle, de tal geito que parecia estar alli dentro o proprio e defuncto Quincas Borba; era o mesmo olhar meditativo do philosopho, quando examinava as cousas humanas... Novo arrepio; mas o medo, que era grande, não era tão grande que lhe atasse as mãos. Rubião estendeu-as sobre a cabeça do animal, coçando-lhe as orelhas e a nuca.
—Pobre Quincas Borba! Gosta de seu senhor, não gosta? Rubião é muito amigo de Quincas Borba...
E o cão movia devagar a cabeça, para a esquerda e para a direita, ajudando a distribuição das caricias ás duas orelhas pendentes; depois levantava o queixo, para que lhe coçasse em baixo, e o dono obedecia; mas então os olhos do cão, meio fechados de gosto, tinham um ar dos olhos do philosopho, na cama, contando-lhe cousas de que elle entendia pouco ou nada... Rubião fechava os seus. Abriram-lhe a porta; despediu-se do cão, mas com taes carinhos, que era o mesmo que pedir-lhe que entrasse. O creado hespanhol incumbiu-se de o levar para baixo.
—Não lhe dê pancadas, recommendou Rubião.
Não lhe deu pancadas; mas só a descida era dolorosa, e o cão amigo gemeu por muito tempo no jardim. Rubião entrou, despiu-se e deitou-se. Ah! tinha vivido um dia cheio de sensações diversas e contrarias, desde as recordações da manhã, e o almoço aos dous amigos, até aquella ultima ideia de metempsycose, passando pela lembrança do enforcado, e por uma declaração de amor não aceita, mal repellida, parece que adivinhada por outros... Misturava tudo; o espirito ia de um para outro lado como bola de borracha entre mãos de creanças. Comtudo, a sensação maior era a do amor. Rubião estava admirado de si mesmo, e arrependia-se; mas o arrependimento era obra da consciencia, ao passo que a imaginação não soltava por nenhum preço a figura da bella Sophia... Uma, duas, tres horas... Sophia ao longe, os latidos do cão embaixo... O somno esquivo... Onde iam já as tres horas? Tres e meia... Emfim, depois de muito cuidar, appareceu-lhe o somno, espremeu os classicas papoulas, o foi um instante; Rubião dormiu antes das quatro.
CAPITULO L
Não, senhora minha, ainda não acabou este dia tão comprido; não sabemos o que se passou entre Sophia e o Palha, depois que todos se foram embora. Póde ser até que acheis aqui melhor sabor que no caso do enforcado.
Tende paciencia; é vir agora outra vez a Santa Thereza. A sala está ainda alumiada, mas por um bico de gaz; apagaram-se os outros, e ia apagar-se o ultimo, quando o Palha mandou que o creado esperasse um pouco la dentro. A mulher ia a sair, o marido deteve-a, ella estremeceu.
—A nossa festa esteve bem bonita, disse elle.
—Esteve.
—O Siqueira é um cacete, mas paciencia; é alegre. A filha não estava mal arranjada. Viste o Ramos como devorava tudo o que se lhe poz no prato? Tu verás que elle um dia engole a mulher.
—A mulher? disse Sophia, sorrindo.
—É gorda, concordo; mas a primeira era muito mais gorda, e creio que não morreu, elle enguliu-a, com certeza.
Sophia reclinada no canapé, ria das graças do marido. Criticaram ainda alguns episodios da tarde e da noite; depois, Sophia, acariciando os cabellos do marido, disse-lhe de repente:
—E você ainda não sabe do melhor episodio da noite.
—Que foi?
—Adivinhe.
Palha ficou algum tempo calado, olhando para a mulher, a ver se adivinhava qual tinha sido o melhor episodio da noite. Não podia acertar; acudia-lhe isto ou aquillo, nada; Sophia abanava a cabeça.
—Mas então que foi?
—Não sei; adivinha.
—Não posso. Dize logo.
—Com uma condição, accudiu ella; não quero zangas nem barulhos.
Palha foi ficando mais serio. Zangas? barulhos? Que diabo podia ser? pensava elle. Já se não ria; tinha só um resto de sorriso forçado e resignado. Olhou bem para ella, e perguntou-lhe o que era.
—Você promette o que lhe disse?
—Vá lá. Que foi?
—Pois saiba que ouvi nada menos que uma declaração de amor.
Palha empallideceu. Não promettera deixar de empallidecer. Gostava da mulher, como sabemos, até o ponto singular de publical-a; não podia ouvir a frio a noticia. Sophia viu a pallidez, e gostou da má impressão causada; para saboreal-a mais, inclinou o busto, soltou o cabello atraz, que a incommodava um pouco, recolheu os grampos em um lenço, depois sacudiu a cabeça, respirou largo, e pegou nas mãos do marido, que ficara de pé.
—É verdade, meu velho, namoraram-te a mulher.
—Mas quem foi o patife? disse elle impaciente.
—Mau, se vamos assim, não digo nada. Quem foi? Quer saber quem foi? Hade ouvir quietinho. Foi o Rubião.
—O Rubião?
—Nunca imaginei tanto. Parecia-me acanhado e respeitoso; fica sabendo que não é o habito que faz o monge. De tantos homens que aqui vêm, e até rapazes solteiros, não ouvi nunca a menor cousa. Olhava para mim; naturalmente, porque não sou feia... Para que estás andando assim de um lado para outro? Pára, que não quero levantar a voz... Bem, assim... Vamos ao caso. Não me fez declaração positiva...
—Ah! não? accudiu vivamente o marido.
—Não, mas vem a dar na mesma.
E depois de contar o que se passara no jardim, desde que alli chegaram os dous, até que o major appareceu:
—Foi só isso, concluiu; mas é bastante para ver que se elle não disse amor é porque não lhe chegou a lingua, mas chegou-lhe a mão, que me apertou os dedos... Só isso, e é demais. Ainda bem que te não zangas; mas é preciso trancar-lhe a porta,—ou de uma vez ou aos poucos; eu preferia logo, mas estou por tudo. Como achas melhor?
Mordendo o beiço inferior, Palha ficou a olhar para ella a modo de estupido. Sentou-se no canapé, mas não fallou logo. Considerava o negocio. Achava natural que as gentilezas da esposa chegassem a captivar um homem,—e Rubião podia ser esse homem; mas confiava tanto no Rubião, que o bilhete que Sophia mandara a este, acompanhando os morangos, foi redigido por elle mesmo; a mulher limitou-se a copial-o, assignal-o e mandal-o. Nunca, entretanto, lhe passou pela cabeça que o amigo chegasse a declarar amor a alguem, menos ainda a Sophia, se é que era amor deveras; podia ser gracejo de intimidade. Rubião olhava para ella muita vez, é certo; parece tambem que Sophia, em algumas occasiões, pagava os olhares com outros... Concessões de moça bonita! Mas, emfim, contanto que lhe ficassem os olhos, podiam ir alguns raios delles. Não havia de ter ciumes do nervo optico, ia pensando o marido. Sophia levantou-se, foi pôr o lenço com os grampos em cima do piano, e deu uma olhada ao espelho para ver-se com a tranca cahida. Quando voltou ao canapé, o marido pegou-lhe na mão, rindo:
—Parece-me que te amofinaste mais do que o caso merecia. Comparar os olhos de uma moça ás estrellas, e as estrellas aos olhos, afinal de contas é cousa que até se póde fazer á vista de todos, em familia, e em prosa ou verso para o publico. A culpa é de quem tem olhos bonitos. Demais, apesar do que me contas, sabes que elle é ainda matuto...
—Então o diabo tambem é matuto, porque elle pareceu-me nada menos que o diabo. E pedir-me que a certa hora olhasse para o Cruzeiro, afim de que as nossas almas se encontrassem?
—Isso, sim, isso já cheira a namoro, concordou Palha; mas bem vês que é um pedido de alma candida. É assim que as moças fallam aos quinze annos; é assim que fallam os tolos em todos os tempos, e os poetas tambem; mas elle nem é moça nem poeta.
—Creio que não; mas segurar-me nas mãos para reter-me no jardim?
Palha teve um calefrio; a ideia do contacto das mãos e da força empregada para reter a mulher é que o mortificava mais. Francamente, se pudesse, era capaz de ir ter com elle, e deitar-lhe as mãos ao gasnate. Outras ideias, porém, acudiram e dissiparam o effeito da primeira; de modo que, cuidando Sophia havel-o irritado, viu-o dar de hombros com desprezo, e responder-lhe que effectivamente era um acto de grosseria.
—E depois, Sophia, que ideia foi essa de convidal-o a ir ver a lua, não me dirás?
—Chamei D. Tonica para ir comnosco.
—Mas uma vez que D. Tonica recusou, devias ter achado meios e modos de não ir ao jardim. São cousas que acodem logo. Tu é que déste occasião...
Sophia olhou para elle, contrahindo as grossas sobrancelhas; ia responder, mas calou-se. Palha continuou a desenvolver a mesma ordem de ideias; a culpa era della, não devia ter dado occasião...
—Mas você mesmo não me tem dito que devemos tratal-o com attenções particulares? Seguramente, que eu não iria ao jardim, se pudesse imaginar o que se passou. Mas nunca esperei que um homem tão pacato, tão não sei como, se tirasse dos seus cuidados para rir dizer-me cousas esquisitas...
—Pois daqui em diante evita a lua e o jardim, disse o marido, procurando sorrir.
—Mas, Christiano, como queres tu que lhe falle a primeira vez que elle cá vier? Não tenho cara para tanto; olha, o melhor de tudo é acabar com as relações.
Palha atravessou uma perna sobre a outra e começou a rufar no sapato. Durante alguns segundos ficaram calados; cada um delles pensava em alguma cousa. Palha cuidava na proposta de acabar com as relações, não que quizesse acceital-a, mas não sabia como responder á mulher, que mostrava tanto resentimento, e se portava com tal dignidade. Era preciso nem desapproval-a, nem aceitar a proposta, e não lhe acendia nada. Levantou-se, metteu as mãos nas algibeiras das calças, e depois de alguns passos, parou defronte de Sophia.
—Talvez nos estejamos a incommodar com um simples effeito de vinhos. Olha que elle não mandou o seu quinhão ao vigario; cabeça fraca, um pouco de abalo, e entornou o que tinha dentro... Sim, eu não nego que lhe possas ter causado certa impressão, como tantas outras senhoras. Ha dias foi a um baile no Cattete, e fallou-me depois encantado das senhoras que lá vira, de uma principalmente, a viuva Mendes...
Sophia interrompeu-o:
—Porque é que não convidou essa belleza a ver o Cruzeiro?
—Não jantou lá, naturalmente, e não havia jardim nem lua. O que eu quero dizer é que o nosso amigo não estaria em si. Talvez se ache a agora arrependido do que fez, envergonhado, sem saber como se hade explicar, ou se não explicará nada... É muito possível até que se ausente...
—Era melhor.
—...Se o não chamarmos, concluiu Palha.
—Mas para que chamal-o?
—Sophia, disse-lhe o marido, sentando-se ao pé della. Não quero entrar em minudencias; digo só que não permitto que alguem te falte ao respeito...
Houve uma pequena pausa; Sophia olhava para elle, esperando.
—Não permitto, e ai d'aquelle que o fizesse, assim como ai de ti se o consentires; sabes que sou de ferro, a este respeito, e que a certeza da tua amizade,—ou, vá logo tudo,—do amor que me tens é que me tranquillisa. Pois bem, nada me abala relativamente ao Rubião. Crê que o Rubião é nosso amigo, devo-lhe obrigações...
—Alguns presentes, algumas joias, camarotes no theatro, não são motivos para que eu fite o Cruzeiro com elle.
—Prouvera a Deus que fosse só isso! suspirou o zangão.
—Que ha mais?
—Não entremos em minudencias... Ha outras cousas... Fallaremos depois... Mas fica certa que nada me faria recuar, se visse no que contaste alguma gravidade. Não ha nenhuma. O homem é um simplorio.
—Não.
—Não?
Sophia levantou-se; tambem não queria entrar em minudencias. O marido pegou-lhe na mão, ella ficou de pé e calada. Palha, com a cabeça reclinada nas costas do sophá, olhava sorrindo, sem achar que dizer. Ao cabo de alguns minutos, ponderou a mulher que era tarde, que ia mandar apagar tudo.
—Bem, tornou o Palha depois de breve silencio; escrevo-lhe amanhã que não ponha aqui os pés.
Olhou para a mulher esperando alguma recusa. Sophia coçava as sobrancelhas, e não respondeu nada. Palha repetiu a solução; e póde ser que desta vez com sinceridade. A mulher então com ar de tedio:
—Ora, Christiano... Quem é que te pede cartas? Já estou arrependida de haver fallado nisto. Contei-te um acto de desrespeito, e disse que era melhor cortar as relações,—aos poucos ou de uma vez.
—Mas como se hão de cortar as relações de uma vez?
—Fechar-lhe a porta, mas não digo tanto; basta, se queres, aos poucos...
Era uma concessão; Palha aceitou-a; mas immediatamente ficou sombrio, soltou a mão da mulher, com um gesto de desespero. Depois, agarrando-a pela cintura, disse em voz mais alta do que até então:
—Mas, meu amor, eu devo-lhe muito dinheiro.
Sophia tapou-lhe a boca e olhou assustada para o corredor.
—Está bom, disse, não fallemos mais nisto. Verei como elle se comporta, e tratarei de ser mais fria... Nesse caso, tu é que não deves mudar, para que não pareça que sabes alguma cousa. Verei o que posso fazer.
—Você sabe, cousas do negocio, algumas perdas... é preciso tapar um buraco daqui, outro dalli... o diabo! É por isso que... Mas riamos, meu bem; não vale nada. Sabes que confio em ti...
—Vamos, que é tarde.
—Vamos, repetiu o Palha dando-lhe um beijo na face.
—Estou com muita dor de cabeça, murmurou ella. Creio que foi do sereno, ou desta historia... Estou com muita dor de cabeça...
CAPITULO LI
Banhado, barbeado, meio vestido, Palha lia os jornaes, á espera do almoço, quando viu entrar a mulher no gabinete, um tanto pallida.
—Estás peior?
Sophia respondeu com um gesto dos labios, que tanto negava como affirmava. Palha acreditou que, pelo dia adeante, passaria o incommodo; a agitação da vespera, o jantar tarde... Depois, pediu que lhe deixasse acabar de ler um artigo relativo a certo negocio da praça. Era uma briga entre dous commerciantes, a proposito de uns saques; na vespera escrevêra um delles, hoje vinha a resposta do outro. Resposta completa, disse elle acabando a leitura; e explicou longamente á mulher a questão dos saques, o mecanismo da cousa, a situação dos dous adversarios, os boatos da praça, tudo com o vocabulario technico. Sophia ouvia e suspirava; mas para o despotismo da profissão não ha suspiros de mulher, nem cortezia de homem. Felizmente, o almoço estava na mesa.
Ficando só, a nossa amiga, que apenas tomou um caldo, lá para as duas horas, foi sentar-se á porta de casa, no jardim. Naturalmente, voltou a pensar no lance da vespera. Não estava bem em si nem fóra de si, nem com Deus nem com o diabo. Arrependia-se de haver contado o episodio ao marido, e ao mesmo tempo irritava-se com as tentativas de explicação que este lhe deu. No meio das reflexões, ouviu distinctamente as palavras do major: «Olá! estão apreciando a lua?» como se as folhas as tivessem guardado, e repetido agora que a aragem começava a movel-as. Sophia teve um calefrio. Sequeira era indiscreto,—indiscreto em farejar e indagar das cousas alheias; sel-o-hia ao ponto de publical-as? Sophia considerava-se já objecto de suspeita ou de calumnia... Formava planos. Não visitaria ninguem; ou iria para fóra, para Nova Friburgo ou mais longe. A exigencia do marido em receber o Rubião, como d'antes, era excessiva; maiormente pela causa dada. Não querendo obedecer nem desobedecer, cuidava em deixar a cidade, pretextando o que quer que fosse.
—A culpa foi minha! suspirou ella comsigo.
A culpa eram as attenções especiaes com o homem, carinhos, lembranças, obsequios familiares, e, na vespera, aquelles olhos tão longamente pregados nelle... Se não fosse isso... Ia-se assim perdendo em reflexões multiplicadas. Tudo a aborrecia, plantas, moveis, uma cigarra que cantava, um rumor de vozes, na rua, outro de pratos, em casa, o andar das escravas, e até um pobre preto velho que, em frente á casa della, trepava com dificuldade um pedaço de morro. As cautellas do preto boliam-lhe com os nervos.
CAPITULO LII
Nisto passou um rapaz alto, que a cortejou sorrindo e vagarosamente. Sophia cortejou-o tambem, um pouco espantada da pessoa e da acção.
—Quem é este sujeito? pensou ella.
E entrou a cogitar donde é que o conhecia, porque, em verdade, a cara não lhe era extranha, nem as maneiras, nem os olhos placidos e grandes. Onde é que o teria visto? Percorreu varias casas, sem acertar com a verdadeira; afinal pensou em certo baile,—no mez anterior,—em casa de um advogado que fazia annos. Era isso; viu-o lá, dansaram uma quadrilha, por simples condescendencia delle, que não dansava nunca; lembrava-se de lhe ter ouvido muitas cousas agradaveis, relativamente á belleza da mulher, que, dizia elle, consistia principalmente nos olhos e nos hombros. Os della, como sabemos, eram magnificos. E quasi não tratou de outra cousa,—os hombros e os olhos;—a proposito de uns e outros contou varias anecdotas succedidas com elle, algumas sem interesse, mas fallava tão bem! e o assumpto era tão della! É verdade; lembrava-se agora que, apenas elle a deixou, Palha veiu ter com ella, sentou-se na cadeira, ao lado, e disse-lhe o nome do rapaz, porque ella não ouvira bem á pessoa que lh'o apresentara era Carlos Maria,—o proprio do almoço do nosso Rubião.
—É a primeira figura do salão, disse-lhe o marido com orgulho de vêr que se occupára tanto tempo com ella.
—Entre os homens, explicou Sophia.
—Entre as senhoras és tu, acudiu elle mirando-se no collo da mulher, e circulando depois os olhos pela sala, com uma expressão de posse e dominio, que a mulher já conhecia e que lhe fazia bem.
Quando acabou de recordar tudo, já iria longe o rapaz; ao menos, foi uma interrupção na serie de tedios que lhe tomavam a alma. Tinha uma dor nas costas, que se calára por instantes. Voltou logo, teimosa, aborrecida; Sophia reclinou-se na cadeira e fechou os olhos. Quiz ver se passava pelo somno, mas não pôde. Os pensamentos eram tão teimosos como a dor, e ainda mais ruins que ella. De quando em quando um bater de azas, rapido, quebrava o silencio: eram as pombas de uma casa visinha que tornavam ao pombal. Sophia a principio abriu os olhos, umas duas vezes; depois, acostumou-se ao rumor, e deixou-os fechados, a ver se dormia. Passado algum tempo, ouviu passos na rua, e levantou a cabeça, suppondo que era Carlos Maria que regressava; era um carteiro que lhe trazia uma carta da roça. Entregou-lh'a em mão. Ao sair do jardim, tropeçou o carteiro no pé de um banco e caiu de bruços, espalhando as cartas no chão. Sophia não pôde conter o riso.
CAPITULO LIII
Perdoem-lhe esse riso. Bem sei que o desassocego, a noite mal passada, o terror da opinião, tudo contrasta com esse riso inopportuno. Mas, leitora amada, talvez a senhora nunca visse cair um carteiro. Os deuses de Homero,—e mais eram deuses,—debatiam uma vez no Olympo, gravemente, e até furiosamente. A orgulhosa Juno, ciosa dos colloquios de Thetis e Jupiter em favor de Achilles, interrompe o filho de Saturno. Jupiter troveja e ameaça; a esposa treme de colera. Os outros gemem e suspiram. Mas quando Vulcano pega da urna de nectar, e vae coxeando servir a todos, rompe no Olympo uma enorme gargalhada inextinguivel. Porque? Senhora minha, com certeza nunca viu cair um carteiro.
Ás vezes, nem é preciso que elle caia; outras vezes nem é sequer preciso que exista. Basta imaginal-o ou recordal-o. A sombra da sombra de uma lembrança grotesca projecta-se no meio da paixão mais aborrecivel, e o sorriso vem ás vezes á tona da cara, leve que seja,—um nada. Deixemol-a rir, e ler a sua carta da roça.
CAPITULO LIV
Quinze dias depois, estando Rubião em casa, appareceu-lhe o marido de Sophia. Vinha perguntar-lhe o que era feito delle? onde se tinha mettido que não apparecia? estivera doente? ou já não cuidava dos pobres? Rubião mastigava as palavras, sem acabar de compor uma phrase unica. No meio disto, Palha viu que havia na sala um homem mirando os quadros, e abafou a voz.
—Desculpe, não vi que estava com visitas, disse elle.
—Desculpar o que? é um amigo, como o senhor. Doutor, aqui está o meu amigo Christiano de Almeida e Palha. Creio que já lhe fallei delle. Este é o meu amigo Dr. Camacho,—João de Souza Camacho.
Camacho fez um signal de cabeça, disse uma ou duas cousas, e quiz sair; mas Rubião acudiu, que não, senhor, que ficasse. Eram ambos amigos; e depois a lua não tardava a illuminar a bella enseada de Botafogo.
A lua,—outra vez a lua,—e esta phrase: Creio que já lhe fallei delle, atordoaram de tal geito o recem-chegado, que não lhe foi possivel proferir uma palavra durante algum tempo. Bom é accrescentar que o dono da casa tambem não sabia que dissesse. Estavam os tres sentados, Rubião no canapé, Palha e Camacho em cadeiras defronte um do outro. Camacho, que conservára a bengala na mão, pol-a verticalmente nos joelhos, batendo no nariz e olhando para o tecto. Fóra, rumor de carros, tropel de cavallos, e algumas vozes. Eram sete horas e meia da noite, ou mais, perto de oito. O silencio foi mais longo do que era licito na occasião; nem Rubião nem Palha davam por elle. Camacho é que, aborrecido, foi á janella, e exclamou dalli para os dous:
—Lá vem o luar entrando!
Rubião fez um gesto, Palha outro; mas quão differentes! Rubião era para transportar-se á janella; Palha ia a agarral-o pela gola. Cedia menos á divulgação possivel da aventura do que á lembrança da violencia com que elle pegára nas mãos da mulher para attrahil-a a si. Um e outro contiveram-se; logo depois, Rubião, cruzando a perna esquerda sobre a direita, voltou-se para o Palha, e perguntou-lhe:
—Sabe que vou deixal-os?
CAPITULO LV
Tudo esperava o outro, menos isto. Dahi o espanto em que se dissolveu a colera; dahi tambem uma sombrinha de pezar, que é o que o leitor menos espera. Deixal-os? Naturalmente ia-se embora do Rio de Janeiro; era o castigo que a si mesmo impunha, pela acção ruim que praticára, em Santa Thereza; logo, vexára-se, arrependera-se... Não tinha cara de apparecer á esposa do amigo... Tal foi a primeira conclusão do Palha; mas vieram outras hypotheses... Por exemplo, a paixão podia persistir, e a sahida delle era um modo de affastar-se da pessoa amada... tambem podia acontecer que entrasse ahi algum plano de casamento.
A ultima hypothese trouxe á physionomia do Palha um elemento novo, que não sei como chame. Desappontamento? Já o elegante Garrett não achava outro termo para taes sensações, e nem por ser inglez o desprezava. Vá desappontamento. Misturem-lhe o espanto da noticia de separação, e a sombrinha de pezar; não se esqueçam da colera que primeiro trovejou surdamente, e não faltará quem ache que a alma deste homem é uma colxa de retalhos.
Póde ser; mas as colxas inteiriças são tão raras! O principal é que as cores se não desmintam umas ás outras,—quando não possam obedecer á symetria e regularidade. Era o caso do nosso homem. Tinha o aspecto baralhado á primeira vista; mas attentando bem, por mais oppostos que fossem os matizes, lá se achava a unidade moral da pessoa.
CAPITULO LVI
Mas, porque é que Rubião ia deixal-os? Que razão? Que negocio?
No dia seguinte ao do caso de Santa Thereza, acordou oppresso. Almoçou mal. Não cuidou de nada; calçou as chinellas africanas sem interesse, não cuidou das cousas bellas, ou simplesmente ricas, que lhe enchiam a casa. Não pôde supportar as caricias do cão mais de dous minutos; tão depressa o recebeu na sala, como o mandou embora. Elle é que enganou os criados e tornou ao amo; mas, tal foi o tabefe que recebeu na orelha, que não repetiu os affagos: estirou-se no chão com os olhos no amigo.
Rubião estava arrependido, irritado, envergonhado. No cap. X deste livro ficou escripto que os remorsos deste homem eram faceis, mas de pouca dura; faltou explicar a natureza das acções que os podiam fazer curtos ou compridos. Lá tratava-se daquella carta escripta pelo finado Quincas Borba, tão expressiva do estado mental do autor, e que elle occultou do medico, podendo ser util á sciencia ou á justiça. Se entrega a carta, não teria remorsos, nem talvez legado,—o pequeno legado que então esperava do enfermo. No caso presente, era uma tentativa de adulterio. Certo que elle suspirava ha muito, e tinha impetos interiores; mas foi só a animação indiscreta da moça, e a propria excitação do momento que o levou a fazer a declaração repellida. Passados os vapores da noite, não era só vexame que sentia, mas tambem remorsos. A moral é uma, os peccados são differentes.
Saltemos por cima de tudo o que elle sentiu e pensou durante os primeiros dias. Chegou a esperar alguma cousa no domingo, um bilhete como o do anterior,—com morangos ou sem elles. Na segunda feira estava determinado a ir a Minas passar uns dous mezes; tinha necessidade de restaurar a alma aos ventos de Barbacena. Não contava com o Dr. Camacho.
—Deixar-nos? perguntou finalmente o Palha.
—Creio que sim; vou a Minas.
Camacho, voltando da janella, sentou-se na cadeira em que estivera antes.
—Que Minas? disse elle sorrindo.—Deixe-se de Minas por ora; lá irá quando fôr preciso, e não se demorará muito que o seja.
Palha não ficou menos admirado das palavras deste que das do outro. Donde surgira semelhante homem, com ar de dominar o Rubião? Olhou para elle; era pessôa de estatura media, rosto estreito, pouca barba, queixo comprido, orelhas de pavilhão largo e aberto. Foi tudo o que pôde observar rapidamente. Viu tambem que a roupa era fina, sem luxo, e que os pés não estavam mal calçados. Não examinou os olhos, nem o sorriso, nem as maneiras; não chegou a reparar no principio de calva, nem nas mãos magras e cabelludas.
CAPITULO LVII
Camacho era homem politico. Formado em direito em 1844, pela faculdade do Recife, voltara para a provincia natal, onde começou a advogar; mas a advocacia era um pretexto. Já na academia, escrevera um jornal politico, sem partido definido, mas com muitas ideias colhidas aqui e alli, e expostas em estylo meio magro e meio inchado. Pessoa que recolheu esses primeiros fructos de Camacho fez um indice dos seus principios e aspirações:—ordem pela liberdade, liberdade pela ordem;—a autoridade não pode abusar da lei, sem esbofetear-se a si propria;—a vida dos principios é a necessidade moral das nações novas como das nações velhas;—dai-me boas finanças, dar-vos-hei boa politica (Barão Louis);—mergulhemos no Jordão constitucional;—dai passagem aos valentes, homem do poder; elles serão os vossos sustentaculos, etc, etc.
Na provincia natal, essa ordem de ideias teve de ceder a outras; e o mesmo se pode dizer do estylo. Fundou alli um jornal; mas, sendo a politica local menos abstracta, Camacho aparou as azas e desceu dos intermundios de Epicuro ás nomeações de delegados, ás obras provinciaes, ás gratificações, á luta com a folha adversa, e aos nomes proprios e improprios. A adjectivação exigiu grande apuro. Nefasto, esbanjador, vergonhoso, perverso, foram os termos obrigados, emquanto atacou o governo; mas, logo que, por uma mudança de presidente, passou a defendel-o, as qualificações mudaram tambem: energico, illustrado, justiceiro, fiel aos principios, verdadeira gloria da administração, etc., etc. Esse tiroteio durou tres annos. No fim delles, a paixão politica dominava a alma do joven bacharel.
Membro da assemblea provincial, logo depois da camara dos deputados, presidente de uma provincia de segunda ordem, onde, por natural mudança do destino, leu nas folhas da opposição todos os nomes que escrevera outr'ora, nefasto, esbanjador, vergonhoso, perverso, Camacho teve dias grandes e pequenos, andou fóra e dentro da camara, fallou, escreveu, lutou constantemente. Acabou por vir morar na capital do imperio. Deputado da conciliação dos partidos, viu governar o marquez de Paraná, e instou por algumas nomeações, em que foi attendido; mas, se é certo que o marquez lhe pedia conselhos, e usava confiar-lhe os planos que trazia, ninguem podia affirmal-o, porque elle, em se tratando da propria consideração, mentia sem difficuldade.
O que se pode crer é que queria ser ministro, e trabalhou por obtel-o. Aggregou-se a varios grupos, segundo lhe parecia acertado; na camara discorria largamente sobre materias de administração, accumulava algarismos, artigos de legislação, pedaços de relatorio, trechos de autores francezes, embora mal traduzidos. Mas, entre a espiga e a mão, está o muro de que falla o poeta; e por mais que o nosso homem estendesse a mão do seu desejo para colhel-a, a espiga la ficava do lado opposto, d'onde a arrancavam outras mãos, mais ou menos soffregas, ou até descuidadas.
Ha solteirões na politica. Camacho ia entrando nessa categoria melancolica, em que todos os sonhos nupciaes se evaporam com o tempo; mas não tinha a superioridade de abandonal-a. Ninguem que organisasse um gabinete se atrevia, ainda que o desejasse, a dar-lhe uma pasta. Camacho ia-se sentindo cair; para simular influencia, tratava familiarmente os poderosos do dia, contava em voz alta as visitas aos ministros e a outras dignidades do Estado; mas nem por isso dava um passo adeante.
Não lhe faltava que comer. A familia era pequena; mulher, uma filha, que ia nos dezoito annos, um afilhado de nove, e para isso dava a advocacia. Mas trazia a politica no sangue; não lia, quasi não fallava de outra cousa. De litteratura, sciencias naturaes, historia, philosophia, artes, não se preoccupava absolutamente nada. Tambem não conhecia grandes cousas de direito; guardava algum do que lhe dera a academia, e mais a legislação posterior e as praticas forenses. Com isso ia arrazoando e ganhando.
CAPITULO LVIII
Dias antes, indo passar a noite em casa de um conselheiro, viu alli Rubião. Fallava-se da chamada dos conservadores ao poder, e da dissolução da camara. Rubião assistira á sessão em que o ministerio Itaborahy pediu os orçamentos. Tremia ainda ao contar as suas impressões, descrevia a camara, tribunas, galerias cheias que não cabia um alfinete, o discurso de José Bonifacio, a moção, a votação... Toda essa narrativa nascia de uma alma simples; era claro. A desordem dos gestos, o calor da palavra tinham a eloquencia da sinceridade. Camacho escutava-o attento. Teve modo de o levar a um canto da janella, e fazer-lhe considerações graves sobre a situação. Rubião opinava de cabeça, ou por palavras soltas e approbatorias.
—Os conservadores não se demoram no poder, disse-lhe finalmente Camacho.
—Não?
—Não; elles não querem a guerra, e tem de cahir por força. Veja como andei bem no programma da folha.
—Que folha?
—Conversaremos depois.
No dia seguinte, almoçaram no Hotel de la Bourse, a convite de Camacho. Este referiu ao outro que fundára, mezes antes, uma folha com o unico programma de continuar a guerra a todo o transe... Andava muito accesa a dissenção entre liberaes; pareceu-lhe que o melhor modo de servir ao proprio partido era dar-lhe um terreno neutro e nacional.
—E isto agora serve-nos, concluiu elle, porque o governo inclina-se á paz. Já amanhã sae um artigo meu, furibundo.
Rubião ouvia tudo, quasi sem tirar os olhos do outro, comendo rapidamente, nos intervallos em que o proprio Camacho inclinava a cabeça ao prato. Folgava de vêr-se confidente politico; e, para dizer tudo, a ideia de entrar em luta para colher alguma cousa depois, um logar na camara, por exemplo, espanejou as azas de ouro no cerebro do nosso amigo. Camacho não lhe fallou em mais nada; procurou-o no dia seguinte, e não o achou. Agora, pouco depois de entrar, vinha o Palha interrompel-os.
CAPITULO LIX
—Sim, mas eu preciso ir a Minas, teimou Rubião.
—Para que? perguntou Camacho.
E o Palha fez-lhe egual pergunta. Para que iria a Minas, salvo se era negocio de pouco tempo. Ou já estava aborrecido da Corte?
—Não, aborrecido não estou; ao contrario...
Ao contrario, gostava muito della; mas a terra natal—por menos bonita que seja,—um logarejo,—dá saudades á gente;—ainda mais quando a pessoa veiu de lá homem. Queria ver Barbacena. E Barbacena era a primeira terra do mundo. Durante alguns minutos, Rubião pode subtrahir-se á acção dos outros. Tinha a terra natal em si mesmo: ambições, vaidades da rua, prazeres ephemeros, tudo cedia ao mineiro saudoso da provincia. Se a alma delle foi alguma vez dissimulada, e escutou a voz do interesse, agora era a simples alma de um homem arrependido do goso, e mal accommodado na propria riqueza.
Palha e Camacho olharam um para o outro... Oh! esse olhar foi como um bilhete de visita trocado entre as duas consciencias. Nenhuma disse o seu segredo, mas viram os nomes no cartão, e comprimentaram-se. Sim, era preciso impedir que o Rubião sahisse; Minas podia retel-o. Concordaram que lá fosse, mas depois,—alguns mezes depois;—e talvez o Palha fosse tambem. Nunca vira Minas; seria excellente occasião.
—O senhor? perguntou Rubião.
—Sim, eu; ha muito que desejo ir a Minas e a S. Paulo. Olhe, ha mais de anno que estivemos vae não vae... Sophia é companheira para estas cousas. Lembra-se quando nos encontrámos no trem da estrada de ferro?... Vinhamos de Vassouras; mas esta ideia de Minas nunca nos deixou. Iremos os tres.
Rubião agarrou-se ás eleições proximas; mas aqui interveiu Camacho, affirmando que não era preciso, que a serpente devia ser esmagada cá mesmo na capital; não faltaria tempo depois para ir matar saudades e receber a recompensa... Rubião agitou-se no canapé. A recompensa era, com certeza, o diploma de deputado. Visão magnifica, ambição que nunca teve, quando era um pobre diabo... Eil-a que o toma, que lhe aguça todos os appetites de grandeza e gloria... Entretanto, ainda insistiu por poucos dias de viagem, e, para ser exacto, devo jurar que o fez sem desejo de que lhe aceitassem a a proposta.
A lua estava então brilhante; a enseada, vista pelas janellas, apresentava aquelle aspecto seductor que nenhum carioca póde crêr que exista em outra parte do mundo. A figura de Sophia passou ao longe, na encosta do morro, e diluiu-se no luar; a ultima sessão da camara, tumultuosa, resoou aos ouvidos do Rubião... Camacho foi até á janella e voltou logo.
—Mas quantos dias? perguntou elle.
—Isso é que não sei, mas poucos.
—Em todo o caso, amanhã fallaremos.
Camacho despediu-se. Palha ficou ainda alguns instantes, para dizer-lhe que seria exquisito voltar a Minas, sem que elles liquidassem as contas... Rubião interrompeu-o. Contas? Quem lhe fallava em contas?
—Bem se vê que o senhor não é homem de comercio, redarguiu Christiano.
Não sou, é verdade; mas as contas pagam-se quando se podem. Entre nós, tem sido isto. Ou, quem sabe? Seja franco; precisa de algum dinheiro?
Não, não preciso. Obrigado. Tenho que propor um negocio, mas hade ser mais demoradamente. Vim vel-o para não botar annuncios nos jornaes: «Desappareceu um amigo, por nome Rubião, que tem um cachorro...»
Rubião gostou da facecia. Palha saiu e elle foi accompanhal-o até a esquina da rua marquez de Abrantes. Ao despedir-se prometteu visital-o em Santa Thereza, antes de ir a Minas.
CAPITULO LX
Pobre Minas! Rubião voltou para casa, sosinho, a passo lento, pensando no modo de lá não ir agora. E as palavras dos dous andavam-lhe no cerebro, como peixinhos de ouro em globo de vidro, abaixo, acima, rutilantes: «aqui é que se deve esmagar a cabeça da cobra;»—«Sophia é companheira para estas cousas.» Pobre Minas!
No dia seguinte recebeu um jornal que nunca vira antes, a Atalaia. O artigo editorial desancava o ministerio; a conclusão, porém estendia-se a todos os partidos e á nação inteira:—Mergulhemos no Jordão constitucional. Rubião achou-o excellente; tratou de ver onde se imprimia a folha para assignal-a. Era na rua da Ajuda; lá foi, logo que saiu de casa; lá soube que o redactor era o Dr. Camacho. Correu ao escriptorio delle.
Mas, em caminho na mesma rua:
—Deolindo! Deolindo! bradou angustiadamente uma voz de mulher á porta de uma colchoaria.
Rubião ouviu o grito, voltou-se, viu o que era. Era um carro que descia e uma creança de tres ou quatro annos que atravessava a rua. Os cavallos vinham quasi em cima della, por mais que o cocheiro os sofreasse. Rubião atirou-se aos cavallos e arrancou o menino ao perigo. A mãe, quando o recebeu das mãos do Rubião, não podia fallar; estava pallida, tremula, e chorava. Algumas pessoas puzeram-se a altercar com o cocheiro, mas um homem calvo, que vinha dentro, ordenou-lhe que fosse andando. O cocheiro obedeceu. Assim, quando o pai, que estava no interior da colchoaria, veiu fóra, já o carro dobrava a esquina de S. José.
—Ia quasi morrendo, disse a mãe. Se não fosse este senhor, não sei o que seria do meu pobre filho.
Era uma novidade no quarteirão. Visinhos entravam a vêr o que succedêra ao pequeno; na rua, creanças e moleques, espiavam pasmados. A creança tinha apenas um arranhão no hombro esquerdo, produzido pela queda.
—Não foi nada, disse Rubião; em todo caso, não deixem o menino sair á rua; é muito pequenino.
—Obrigado, acudiu o pae; mas onde está o seu chapéo?
Rubião advertiu então que perdêra o chapéo. Um rapazinho esfarrapado, que o apanhára, estava á porta da colchoaria, aguardando a occasião de restituil-o. Rubião deu-lhe uns cobres em recompensa, cousa em que o rapazinho não cuidára, ao ir apanhar o chapéo. Não o apanhou senão para ter uma parte na gloria e nos serviços. Entretanto, aceitou os cobres com prazer; foi talvez a primeira ideia que lhe deram da venalidade das acções.
—Mas, espere, tornou o colchoeiro, o senhor feriu-se?
Com effeito, a mão do nosso amigo tinha sangue; havia um ferimento na palma, cousa pequena, e que elle não podia saber se era obra do dente do cavallo, se de algum ferrão das correias. A verdade é que só agora começou a sentil-o. A mãe do pequeno correu a buscar uma bacia e uma toalha, apezar de dizer o Rubião que não era nada, que não valia a pena. Veiu a agua; emquanto elle lavava a mão, o colchoeiro correu á pharmacia proxima, e trouxe um pouco de arnica. Rubião curou-se, atou o lenço na mão; a mulher do colchoeiro escovou-lhe o chapéo; e, quando elle sahiu, um e outro agradeceram-lhe muito o beneficio da salvação do filho. A outra gente, que estava á porta e na calçada, fez-lhe alas.
CAPITULO LXI
—Que é que tem ahi na mão? inquiriu Camacho, logo que Rubião entrou no escriptorio.
Rubião narrou o incidente da rua da Ajuda. O advogado fez-lhe muitas perguntas sobre a creança, os paes, o numero da casa; mas, o proprio Rubião pôz termo ás respostas.
—Não sabe, ao menos, o nome do pequeno?
—Ouvi chamar Deolindo. Vamos ao que importa. Venho assignar a sua folha; recebi um numero, e quero contribuir para...
Camacho acudiu que não precisava de assignaturas. Em assignaturas, a folha ia bem. O que ella precisava era de material typographico e desenvolvimento no texto; ampliar a materia, pôr-lhe mais noticiario, variedades, traducção de algum romance para o folhetim, movimento do porto, da praça, etc. Tinha annuncios, como viu.
—Sim, senhor.
—Estou com o capital quasi subscripto. Bastam dez pessoas, e já somos oito; eu e mais sete. Faltam dous. Com mais duas pessoas está completo o capital.
—Quanto será? pensou Rubião.
Camacho batia com um canivete na beira da escrevaninha, calado, olhando ás furtadellas para o outro. Rubião passou uma vista á sala, poucos moveis, alguns autos sobre um tamborete ao pé do advogado, estante com livros, Lobão, Pereira e Souza, Dalloz, Ordenações do reino, um retrato na parede, deante da escrevaninha.
—Conhece? disse Camacho apontando para o retrato.
—Não, senhor.
—Veja se conhece.
—Não posso saber. Nunes Machado?
—Não, acudiu o ex-deputado dando á cara um ar pesaroso. Não pude obter um bom retrato delle. Vendem-se ahi umas lithographias que me não parecem boas. Não; aquelle é o marquez.
—De Barbacena?
—Não, de Paraná; é o grande marquez, meu particular amigo. Tentou conciliar os partidos, e foi por isso que me achei com elle. Morreu cedo; a obra não pôde ir adeante. Hoje, se elle a quizesse, ter-me-hia contra si. Não! nada de conciliações; guerra de morte. Havemos de destruil-os; leia a Atalaia, meu bom companheiro de lutas; recebel-a-ha em casa...
—Não, senhor.
—Porque não?
Rubião baixou os olhos deante do nariz interrogativo do Camacho.
—Não, senhor; sou firme, desejo ajudar os amigos. Receber a folha de graça...
—Mas, se já lhe disse que de assignaturas vamos bem, retorquiu Camacho.
—Sim, senhor, mas não disse tambem que faltam duas pessoas para o capital?
—Duas, sim; temos oito...
—Quanto é o capital?
—O capital é de cincoenta contos; cinco por pessoa.
—Pois entro com cinco.
Camacho agradeceu-lh'o em nome das ideias. Tinha intenção de convidal-o para entrar com elles; era um direito adquirido pela convicção, pela fidelidade, pelo amor aos negocios publicos do seu recente amigo. Uma vez que espontaneamente se alistou, pedia-lhe que o desculpasse... Mostrou-lhe a lista dos outros; Camacho era o primeiro; entrava com a folha, o material existente, as assignaturas, e o trabalho herculeo... Ia a emendar-se, mas repetiu corajosamente: trabalho herculeo. Podia dizer que o era, sem deslustre, nem mentira; esganou cobras, em creança. Já agora era um vicio; gostava da luta, morreria nella, envolvido na bandeira...
CAPITULO LXII
Rubião despediu-se. No corredor passou por elle uma senhora alta, vestida de preto, com um arruido de seda e vidrilhos. Indo a descer a escada, ouviu a voz do Camacho, mais alta do que até então:—Oh! senhora baroneza!
No primeiro degráo parou. A voz argentina da senhora começou a dizer as primeiras palavras; era uma demanda... Baroneza! E o nosso Rubião ia descendo a custo, de manso, para não parecer que ficára ouvindo. O ar mettia-lhe pelo nariz acima um aroma fino e raro, cousa de tontear, o aroma deixado por ella. Baroneza! Chegou á porta da rua; viu parado um coupê; o lacaio, em pé, na calçada, o cocheiro na almofada, olhando; fardados ambos... Que novidade podia haver em tudo isso? Nenhuma. Uma senhora titular, cheirosa e rica, talvez demandista para matar o tedio. Mas o caso particular é que elle, Rubião, sem saber porque, e apezar do seu proprio luxo, sentia-se o mesmo antigo professor de Barbacena...
CAPITULO LXIII
Na rua, encontrou Sophia com uma senhora edosa e outra moça. Não teve olhos para ver bem as feições desta; todo elle foi pouco para Sophia. Fallaram-se acanhadamente, dous minutos apenas, e seguiram o seu caminho. Rubião parou adeante, e olhou para traz; mas as tres senhoras iam andando sem voltar a cabeça. Depois do jantar, comsigo:
—Irei lá hoje?
Reflexionou muito sem adeantar nada. Ora que sim, ora que não. Achara-lhe um modo exquisito; mas lembrava-se que sorriu,—pouco, mas sorriu. Poz o caso á sorte. Se o primeiro carro que passasse viesse da direita, iria; se viesse da esquerda, não. E deixou-se estar na sala, no pouf central, olhando. Veiu logo um tilbury da esquerda. Estava dito; não ia a Santa Thereza. Mas aqui a consciencia reagiu; queria os proprios termos da proposta: um carro. Tilbury não era carro. Devia ser o que vulgarmente se chama carro, uma caleça inteira ou meia, ou ainda uma victoria... D'ahi a pouco vieram chegando da direita muitas caleças, que voltavam de um enterro. Foi.
CAPITULO LXIV
Sophia deu-lhe a mão gentilmente, sem sombra de rancor. As duas senhoras do passeio estavam com ella, em trajes caseiros; apresentou-as. A moça era prima, a velha era tia,—aquella tia da roça, autora da carta que Sophia recebeu no jardim das mãos do carteiro, que logo depois deu uma queda. A tia chamava-se D. Maria Augusta; tinha uma fazendola, alguns escravos e dividas, que lhe deixára o marido, alem das saudades. A filha era Maria Benedicta,—nome que a vexava, por ser de velha, dizia ella; mas a mãe retorquia-lhe que as velhas foram algum dia moças e meninas, e que os nomes adequados ás pessoas eram cousas de poetas e contadores de historias. Maria Benedicta era o nome da avó della, afilhada de Luiz de Vasconcellos, o vice-rei. Que queria mais?
Contaram isto ao Rubião, sem que ella se vexasse. Sophia, ou por attenuar o caso, ou por outro motivo, accrescentou que os mais feios nomes eram lindos, segundo a pessoa. Maria Benedicta era lindissimo.
—Não lhe parece? concluiu voltando-se para Rubião.
—Deixa de caçoada, prima! acudiu Maria Benedicta, rindo.
Podemos crer que a velha nem Rubião entenderam o dito,—a velha, porque começava a cochilar,—Rubião porque affagava um cãosinho que tinham dado a Sophia, pequeno, delgado, leve, boliçoso, olhos negros, com um guizo ao pescoço. Mas, insistindo a dona da casa, elle respondeu que sim, sem saber o que era. Maria Benedicta deu um muchocho. Em verdade, não era bonita; não lhe pedissem olhos que fascinam, nem d'essas boccas que segredam alguma cousa, ainda caladas. Altinha, mãos grandes, grandes olhos attonitos quando escutavam somente, mas que sabiam fallar, se a bocca fallava tambem,—ahi fica o principal das feições da moça. Era natural, sem acanho de roceira; e tinha um donaire particular, que corrigia as incoherencias do vestido.
Nascera na roça e gostava da roça. A roça era perto, Iguassú. De longe em longe vinha á cidade, passar alguns dias; mas, ao cabo dos dous primeiros, já estava anciosa por tornar a casa. A educação foi summaria: ler, escrever, doutrina e algumas obras de agulha. Nos ultimos tempos (ia em dezenove annos), Sophia apertou com ella para apprender piano; a tia consentiu; Maria Benedicta veiu para a casa da prima, e alli esteve uns dezoito dias. Não pôde mais; doeram-lhe as saudades da mãe e voltou para a roça, deixando consternado o professor, que annunciou n'ella, desde os primeiros dias, um grande talento musical.
—Oh! sem duvida, um grande talento!
Maria Benedicta riu-se quando a prima lhe contou isto, e nunca mais pode ver a serio o homem. Ás vezes, no meio de uma licção, deitava a rir; Sophia contrahia as sobrancelhas, a modo de ralho, e o pobre homem perguntava o que era, e de si mesmo explicava que havia de ser alguma lembrança de moça, e continuava a licção. Nem piano nem francez,—outra lacuna, que Sophia mal podia desculpar. D. Maria Augusta não comprehendia a consternação da sobrinha. Para que francez? A sobrinha dizia-lhe que era indispensavel para conversar, para ir ás lojas, para ler um romance...
—Sempre fui feliz sem francez, respondia a velha; e os meia-linguas da roça são a mesma cousa: não vivem peior que os creoulos.
Um dia accrescentou:
—Nem por isso lhe hão de faltar noivos. Póde casar, já lhe disse que póde casar quando quizer, que eu tambem casei; e até deixar-me na roça, sosinha, morrer como uma besta velha...
—Mamãe!
—Não tenha pena; é só apparecer o noivo. Em apparecendo, vá com elle, e deixe-me ficar. Olha Maria José o que fez commigo? Vive lá pelo Ceará...
—Mas se o marido é juiz de direito, ponderava Sophia.
—Torto que seja! Para mim é a mesma cousa. Cá fica o frangalho da velha. Casa, Maria Benedicta, casa depressa; eu morrerei com Deus... Não terei filhos, mas terei Nossa Senhora, que é mãe de todos. Casa, anda, casa!
Toda essa rabugem era calculo; tinha em mira arredar a filha do matrimonio, excitando-lhe o terror e a piedade. Quando menos, retardar-lh'o. Não creio que revelasse esse peccado ao confessor, nem que chegasse a entendel-o: era obra de um egoismo edoso e melindroso. D . Maria Augusta fora longamente querida; a mãe era douda por ella, o marido amou-a até o ultimo dia com a mesma intensidade. Mortos ambos, todas as suas saudades filiaes e matrimoniaes foram postas na cabeça das duas filhas. Uma fugira-lhe, casando. Ameaçada da solidão, se a outra casasse tambem, D. Maria Augusta fazia tudo o que podia por evitar o desastre.
CAPITULO LXV
Curta foi a visita de Rubião. As nove horas levantou-se elle discretamente, esperando qualquer palavra de Sophia, um pedido para que ficasse ainda algum tempo, que esperasse o marido que já vinha, um espanto que fosse: Já! mas nem isso. Sophia estendeu-lhe a mão, em que elle mal pôde tocar. Comtudo, a moça, durante a visita, mostrou-se tão natural, tão sem azedume... Não teve seguramente os olhos longos e loquazes, como d'antes; parecia até que não houvera nada, nem bem nem mal, nem morangos, nem lua. Rubião tremia, não achava palavras; ella achava todas as que queria, e, se era preciso olhar para elle, fazia-o direitamente, tranquillamente...
—Lembranças ao nosso Palha, murmurou elle de chapéo e bengala na mão.
—Obrigada! Foi fazer uma visita; parece que ouço passos; hade ser elle.
Não era elle; era Carlos Maria. Rubião ficou espantado de o ver alli, mas achou logo que a presença da fazendeira e da filha explicaria tudo; podia ser até que fossem aparentados.
—Ia saindo, quando o senhor entrou, disse-lhe Rubião depois de o ver sentado ao pé de D. Maria Augusta.
—Ah! respondeu o outro, olhando para o retrato de Sophia.
Sophia foi até á porta despedir-se do Rubião; disse-lhe que o marido ficaria com pena de não estar em casa; mas que a visita era imperiosa. Negocios... Iria pedir-lhe desculpa.
—Que desculpa? acudiu Rubião.
Parece que quiz dizer ainda alguma cousa; mas o aperto de mão de Sophia e a reverencia que esta lhe fez, deram-lhe o signal de despedida. Rubião inclinou-se, atravessou o jardim, ouvindo a voz de Carlos Maria, na sala:
—Vou denunciar seu marido, minha senhora; é homem de muito mau gosto, e le mauvais goût mène au crime...
Rubião parou.
—Porque? disse Sophia.
—Tem este seu retrato na sala, continuou Carlos Maria; a senhora é muito mais bella, infinitamente mais bella que a pintura... Comparem, minhas senhoras.
CAPITULO LXVI
—Como elle diz aquellas cousas tão naturalmente! pensou Rubião, em casa, relembrando as palavras de Carlos Maria. Desfazer no retrato só para elogiar a pessoa! Note-se que o retrato é muito parecido...
CAPITULO LXVII
De manhã, na cama, teve um sobresalto. O primeiro jornal que abriu foi a Atalaia. Leu o artigo editorial, uma correspondencia, e algumas noticias. De repente, deu com o seu nome.
—Que é isto?
Era o seu proprio nome impresso, rutilante, multiplicado, nada menos que uma noticia do caso da rua da Ajuda. Depois do sobresalto, aborrecimento. Que diacho de ideia aquella de imprimir uma cousa particular, contada em confiança? Não quiz ler nada; desde que percebeu o que era, deitou a folha ao chão, e pegou em outra. Infelizmente, perdera a serenidade, lia por alto, pulava algumas cousas, não entendia outras, ou dava por si no fim de vinte linhas sem saber como viera escorregando até alli...
Ao levantar-se, sentou-se na poltrona, ao pé da cama, e pegou da Atalaia. Lançou os olhos pela noticia: era mais de uma columna. Columna e tanto para cousa tão diminuta! pensou comsigo. E afim de ver como é que Camacho enchera o papel, leu tudo, um pouco ás pressas, vexado dos adjectivos e da descripção dramatica do caso.
—Foi bem feito! disse em voz alta. Quem me mandou ser linguarudo?
Passou ao banho, vestiu-se, penteou-se, sem esquecer a bisbilhotice da folha, acanhado com a publicação de um negocio, que elle reputava minimo, e ainda mais pelo encarecimento que lhe dera o escriptor, como se se tratasse de dizer bem ou mal em politica. Ao café, pegou novamente na folha, para ler outras cousas, nomeações do governo, um assassinato em Garanhuns, meteorologia, até que a vista desastrada foi cair na noticia, e leu-a então com pausa. Aqui confessou Rubião que bem podia crer na sinceridade do escriptor. O enthusiasmo da linguagem explicava-se pela impressão que lhe ficou do facto; tal foi ella que lhe não permittiu ser mais sobrio. Naturalmente é o que foi. Rubião recordou a sua entrada no escriptorio do Camacho, o modo porque fallou; e dahi tornou atraz, ao proprio acto. Estirado no gabinete, evocou a scena: o menino, o carro, os cavallos, o grito, o salto que deu, levado de um impeto, irresistivel:—Agora mesmo não podia explicar o negocio; foi como se lhe tivesse passado uma cousa pelos olhos... Atirou-se á creança, e aos cavallos, cego e surdo, sem attender ao proprio risco... E podia ficar alli, embaixo dos animaes, esmagado pelas rodas, morto ou ferido; ferido que fosse... Podia ou não podia? Era impossivel negar que a situação foi grave... A prova é que os paes e a visinhança...
Rubião interrompeu as reflexões para ler ainda a noticia. Que era bem escripta, era. Trechos havia que releu com muita satisfação. O diabo do homem parecia ter assistido á scena. Que narração! que viveza de estylo! Alguns pontos estavam accrescentados,—confusão de memoria,—mas o accrescimo não ficava mal. E certo orgulho que lhe notou ao repetir-lhe o nome? «O nosso amigo, o nosso distinctissimo amigo, o nosso valente amigo...»
Ao almoço, riu-se de si mesmo; achou-se mortificado em demasia. Afinal, que tinha que o outro désse aos seus leitores uma cousa que era verdadeira, que era interessante, dramatica,—e, seguramente,—não vulgar? Sahindo, recebeu alguns comprimentos; Freitas chamou-lhe S. Vicente de Paula. E o nosso amigo sorria, agradecia, diminuia-se, não era nada...
—Nada? replicou alguem. Dê-me muitos desses nadas... Salvar uma creança com risco da propria vida...
Rubião ia concordando, ouvindo, sorrindo; contava a scena a alguns curiosos, que a queriam da propria bocca do autor. Certos ouvintes respondiam com proezas suas,—um que salvara uma vez um homem, outro uma menina, prestes a afogar-se no boqueirão do Passeio, estando a tomar banho. Vinham tambem suicidios malogrados, por intervenção do ouvinte, que tomou a pistola ao infeliz, e fel-o jurar... Cada gloriasinha occulta picava o ovo, e punha a cabeça de fóra, olho aberto, sem pennas, em volta da gloria maxima do Rubião. Tambem teve invejosos, alguns que nem o conheciam, só por ouvil-o louvar em voz alta. Rubião foi agradecer a noticia ao Camacho, não sem alguma censura pelo abuso de confiança, mas uma censura molle, ao canto da bocca... D'alli foi comprar uns tantos exemplares da folha para os amigos de Barbacena. Nenhuma outra transcreveu a noticia; elle, a conselho do Freitas, fel-a reimprimir nos a pedidos do Jornal do Commercio, interlinhada.
CAPITULO LXVIII
Maria Benedicta consentiu finalmente em apprender francez e piano. Durante quatro dias a prima teimou com ella, a todas as horas, de tal arte e maneira, que a mãe da moça resolveu appressar a volta á fazenda, para evitar que ella acabasse aceitando. A filha resistiu muito; respondia que eram cousas superfluas, que moça de roça não precisa de prendas da cidade. Uma noite, porém, estando alli Carlos Maria, pediu-lhe este que tocasse alguma cousa; Maria Benedicta fez-se vermelha. Sophia acudiu com uma mentira:
—Não lhe peça isso; ainda não tocou depois que veiu. Diz que agora só toca para os roceiros.
—Pois faça de conta que somos roceiros, insistiu o moço.
Felizmente, fallou logo de outra cousa, do baile da baroneza do Piauhy (casualmente, a mesma que o nosso amigo Rubião encontrou no escriptorio do Camacho), um baile esplendido, oh! esplendido! A baroneza presava-o muito. No dia seguinte, Maria Benedicta declarou á prima que estava prompta a apprender piano e francez, rabeca e até russo, se quizesse. A difficuldade era vencer a mãe. Esta, quando soube da resolução da filha, poz as mãos na cabeça. Que francez? que piano? Bradou que não, ou então que deixasse de ser sua filha; podia ficar, tocar, cantar, fallar cabinda ou a lingua do diabo que os levasse a todos. Palha é que a persuadiu finalmente; disse-lhe que, por mais superfluas que lhe parecessem aquellas prendas, eram o minimo dos adornos de uma educação de sala...
—Mas eu criei minha filha na roça e para a roça, interrompeu a tia.
—Para a roça? Quem sabe lá para que cria os filhos? Meu pae destinara-me a padre; é por isso que arranho algum latim. A senhora não hade viver sempre; os seus negocios andam atrapalhados. Pode acontecer que Maria Benedicta fique ao desamparo... Ao desamparo, não digo; emquanto vivermos somos todos uma só pessoa. Mas não é melhor prevenir? Podia ser até que, se lhe faltassemos todos, ella vivesse á larga, só com ensinar francez e piano... Basta que os saiba para estar em condições melhores. É bonita, como a senhora foi no seu tempo; e possue raras qualidades moraes. Pode achar marido rico... Sabe a senhora se já tenho alguem em vista, pessoa séria?
—Sim? Então ella vae apprender francez, piano e namoro?
—Que namoro? Fallo-lhe de pensamentos intimos, de um plano que me parece adequado á felicidade della e de sua mãe. Pois eu havia... Ora, tia Augusta!
Palha mostrou-se tão mortificado, que a tia deixou o tom aspero pelo tom secco. Resistiu ainda; mas a noite deu-lhe bons conselhos O estado dos seus negocios, e a possibilidade de um genro abastado fizeram mais que outras razões. Os melhores genros da roça alliavam-se a outras fazendas, a familias de representação e riqueza segura. Dous dias depois acharam um modus vivendi: Maria Benedicta ficaria com a prima; iriam de quando em quando á roça, e a tia tambem viria á capital, para vel-os. Palha chegou a dizer que, logo que o estado da praça o permittisse, arranjaria meio de liquidar-lhe os negocios e transportal-a para aqui. Mas a isto a boa senhora abanou a cabeça.
Não se pense que tudo isso foi tão facil como ahi fica escripto. Na pratica, vieram os obices, amofinações, saudades, rebelliões de Maria Benedicta. Dezoito dias depois da volta da mãe á fazenda, quiz ir visital-a, e a prima acompanhou-a; estiveram lá uma semana. A mãe, dous mezes depois, veiu passar uns dias aqui. Sophia acostumava habilmente a prima ás distracções da cidade; theatros, visitas, passeios, reuniões em casa, vestidos novos, chapéos lindos, joias. Maria Benedicta era mulher, posto que mulher exquisita; gostou de taes cousas, mas tinha para si que, logo que quizesse, podia arrebentar todos esses liames, e andar para a roça. A roça vinha ter com ella, ás vezes, em sonho ou simples devaneio. Depois dos primeiros saráos, quando voltava para casa, não eram as sensações da noite que lhe enchiam a alma, eram as saudades de Iguassú. Cresciam-lhe mais a certas horas do dia, quando a quietação da casa e da rua era completa. Então batia as azas para a varanda da velha casa, onde bebia café, ao pé da mãe; pensava na escravaria, nos moveis antigos, nas bonitas chinellas que lhe mandara o padrinho, um fazendeiro rico de S. João d'El-rey,—e que lá ficaram em casa. Sophia não consentiu que ella as trouxesse.
Os mestres de francez e piano eram homens sabedores do officio. Sophia teve modo de dizer-lhes em particular que a prima vexava-se de apprender tão tarde, e pediu-lhes que não fallassem nunca de tal discipula. Prometteram que sim; o de piano apenas referiu o pedido a alguns collegas d'arte, que lhe acharam graça, e contaram outras anedoctas da clientela. O certo é que Maria Benedicta apprendia com singular facilidade, estudava com afinco, quasi todas as horas, a tal ponto que a mesma prima julgava acertado interrompel-a.
—Descança, filha de Deus!
—Deixa recobrar o tempo perdido, respondia ella rindo.
Então Sophia inventava passeios, á toa, para fazel-a descançar. Ora um bairro, ora outro. Em certas ruas, Maria Benedicta não perdia tempo: lia as taboletas francezas, e perguntava pelos substantivos novos, que a prima, algumas vezes, não sabia dizer o que eram, tão estrictamente adequado era o seu vocabulario ás cousas do vestido, da sala e do galanteio.
Mas não era só nessas disciplinas que Maria Benedicta fazia progressos rapidos. A pessoa ajustára-se ao meio, mais depressa do que fariam crer o gosto natural e a vida da roça. Já competia com a outra, embora houvesse nesta um desgarre, e não sei que expressão particular que, para assim dizer, dava côr a todas as linhas e gestos da figura. Não obstante essa differença, é certo que a outra era vista e notada ao pé della, de tal geito que Sophia, que começára por louval-a em toda a parte, não a deslouvava agora, mas ouvia calada as admirações. Fallava bem;—mas, quando calava, era por muito tempo; dizia que eram os seus «calundús». Contradansava sem vida, que é a perfeição desse genero de recreio; gostava muito de ver polkar e valsar. Sophia, imaginando que era por medo que a prima não valsava nem polkava, quiz dar-lhe algumas lições em casa, sosinhas, com o marido ao piano; mas a prima recusava sempre.
—Isso é ainda um bocadinho de casca da roça, disse-lhe uma vez Sophia.
Maria Benedicta sorriu de um modo tão particular, que a outra não insistiu. Não foi riso de vexame, nem de despeito, nem de desdem. Desdem, porque? Comtudo, é certo que o riso parecia vir de cima. Não menos o é que Sophia polkava e valsava com ardor, e ninguem se pendurava melhor do hombro do parceiro; Carlos Maria, que era raro dansar, só valsava com Sophia,—dous ou tres giros, dizia elle;—Maria Benedicta contou uma noite quinze minutos.
CAPITULO LXIX
Os quinze minutos foram contados no relogio do Rubião, que estava ao pé da Maria Benedicta, e a quem ella perguntou duas vezes que horas eram, no principio e no fim da valsa. A propria moça inclinou-se para ver bem o ponteiro dos minutos.
—Está com somno? perguntou Rubião.
Maria Benedicta olhou para elle de soslaio. Viu-lhe o rosto placido, sem intenção nem riso.
—Não, respondeu; digo-lhe até que estou com medo que prima Sophia se lembre de ir cedo para casa.
—Não vae cedo. Já acabou a desculpa de Santa Thereza, por causa da subida. A casa fica perto daqui.
De facto, as duas moravam agora na praia do Flamengo, e o baile era na rua dos Arcos.
É de saber que tinham decorrido oito mezes desde o principio do capitulo anterior, e muita cousa estava mudada. Rubião é socio do marido de Sophia, em uma casa de importação, á rua da Alfandega, sob a firma Palha & Comp. Era o negocio que este ia propor-lhe, naquella noite, em que achou o Dr. Camacho na casa de Botafogo. Apezar de facil, Rubião, recuou algum tempo. Pediam-lhe uns bons pares de contos de réis, não entendia de commercio, não lhe tinha inclinação. Demais, os gastos particulares eram já grandes; o capital precisava do regimen do bom juro e alguma poupança, a ver se recobrava as cores e as carnes primitivas. O regimen que lhe indicavam não era claro; Rubião não podia comprehender os algarismos do Palha, calculos de lucros, tabellas de preço, direitos da alfandega, nada; mas, a linguagem fallada suppria a escripta. Palha dizia cousas extraordinarias, aconselhava ao amigo que aproveitasse a occasião para pôr o dinheiro a caminho, multiplical-o. Se tinha medo, era outra cousa; elle, Palha, faria o negocio com John Roberts socio que foi da casa Wilkinson, fundada em 1844, cujo chefe voltou para a Inglaterra, e era agora membro do parlamento.
Rubião não cedeu logo, pediu prazo, cinco dias. Consigo era mais livre; mas desta vez a liberdade só servia para atordoal-o. Computou os dinheiros despendidos, avaliou os rombos feitos no cabedal, que lhe deixára o philosopho. Quincas Borba, que estava com elle no gabinete, deitado, levantou casualmente a cabeça e fitou-o, Rubião estremeceu; a idéa de que naquelle Quincas Borba podia estar a alma do outro nunca se lhe varreu inteiramente do cerebro. Desta vez chegou a ver-lhe um tom de censura nos olhos; riu-se, era tolice; cachorro não podia ser homem. Insensivelmente, porém, abaixou a mão e coçou as orelhas ao animal, para captal-o.
Atraz dos motivos de recusa, vieram outros contrarios. E se o negocio rendesse? Se realmente lhe multiplicasse o que tinha? Accrescia que a posição era respeitavel, e podia trazer-lhe vantagens na eleição, quando houvesse de propor-se ao parlamento, como o velho chefe da casa Wilkinson. Outra razão mais forte ainda era o receio de magoar o Palha, de parecer que lhe não confiava dinheiros, quando era certo que, dias antes, recebera parte da divida antiga, e a outra parte restante devia ser-lhe restituida dentro de dous mezes.
Nenhum desses motivos era pretexto de outro; vinham de si mesmos. Sophia só appareceu no fim, sem deixar de estar nelle, desde o principio, ideia latente, inconsciente, uma das causas ultimas do acto, e a unica dissimulada. Rubião abanou a cabeça para expellil-a, e levantou-se. Sophia (dona astuta!) recolheu-se á inconsciencia do homem, respeitosa da liberdade moral, e deixou-o resolver por si mesmo que entraria de socio com o marido, mediante certas clausulas de segurança. Foi assim que se fez a sociedade commercial; assim é que Rubião legalisou a assiduidade das suas visitas.
—Senhor Rubião, disse Maria Benedicta depois de alguns segundos de silencio, não lhe parece que minha prima é bem bonita?
—Não desfazendo na senhora, acho.
—Bonita e bem feita.
Rubião aceitou o complemento. Um e outro acompanharam com os olhos o par de valsistas, que passeava ao longo do salão. Sophia estava magnifica. Trajava de azul escuro, mui decotada,—pelas razões ditas no cap. XXXVIII, os braços nús, cheios, com uns tons de ouro claro, ajustavam-se ás espaduas e aos seios, tão acostumados ao gaz do salão. Diadema de perolas feitiças, tão bem acabadas, que iam de par com as duas perolas naturaes, que lhe ornavam as orelhas, e que Rubião lhe dera um dia...
Ao lado della, Carlos Maria não ficava mal. Era um rapaz galhardo, como sabemos, e trazia os mesmos olhos placidos do almoço do Rubião. Não tinha as maneiras subditas, nem as curvas reverentes dos outros rapazes; fallava com a graça de um rei benevolo. Entretanto, se, á primeira vista, parecia fazer apenas um obsequio áquella senhora, não é menos certo que ia desvanecido, por trazer ao lado a mais esbelta mulher da noite. Os dous sentimentos não se contradiziam; fundiam-se ambos na adoração que este moço tinha de si mesmo. Assim, o contacto de Sophia era para elle como a prosternação de uma devota. Não se admirava de nada. Se um dia accordasse imperador, só se admiraria da demora do ministerio em vir comprimental-o.
—Vou descançar um pouco, disse Sophia.
—Está cançada ou... aborrecida? perguntou-lhe o braceiro.
—Oh! cançada apenas!
Carlos Maria, arrependido de haver supposto a outra hypothese, deu-se pressa em climinal-a.
—Sim, creio; porque é que estaria aborrecida? Mas eu affirmo que é capaz de fazer me o sacrificio de passear ainda algum tempo. Cinco minutos?
—Cinco minutos.
—Nem mais um que seja? Pela minha parte, passearia a eternidade.
Sophia abaixou a cabeça.
—Com a senhora, note bem.
Sophia deixou-se ir com os olhos no chão, sem contestar, sem concordar, sem agradecer, ao menos. Podia não ser mais que uma galanteria, e as galanterias é de uso que se agradeçam. Já lhe tinha ouvido outr'ora palavras analogas, dando-lhe a primazia entre as mulheres deste mundo. Deixou de as ouvir durante seis mezes,—quatro que elle gastou em Petropolis,—dous em que lhe não appareceu. Ultimamente é que tornou a frequentar a casa, a dizer-lhe finezas daquellas, ora em particular, ora á vista de toda a gente. Deixou-se ir; e ambos foram andando calados, calados, calados,—até que elle rompeu o silencio, notando-lhe que o mar defronte da casa della, batia com muita força, na noite anterior.
—Passou lá? perguntou Sophia.
—Estive lá; ia pelo Cattete, já tarde, e lembrou-me descer á praia do Flamengo. A noite era clara; fiquei cerca de uma hora, entre o mar e a sua casa. A senhora aposto que nem sonhava commigo? Entretanto, eu quasi que ouvia a sua respiração...
Sophia tentou sorrir; elle continuou:
—O mar batia com força, é verdade, mas o meu coração não batia menos rijamente;—com esta differença que o mar é estupido, bate sem saber porquê, e o meu coração sabe que batia pela senhora.
—Oh! murmurou Sophia.
Com espanto? Com indignação? Com medo? São muitas perguntas a um tempo. Estou que a propria dama não poderia responder exactamente, tal foi o abalo que lhe trouxe a declaração do moço. Em todo caso, não foi com incredulidade. Não posso dizer mais senão que a exclamação saiu tão frouxa, tão abafada que elle mal pode ouvil-a. Pela sua parte, Carlos Maria disfarçou bem, ante os olhos de toda a sala; nem antes, nem durante, nem depois das palavras, mostrou no rosto a menor commoção; tinha até umas sombras de riso caustico, um riso de seu uso, quando mofava de alguem; parecia ter dito um epigramma. Comtudo, mais de um olho de mulher espreitava a alma de Sophia, estudava o gesto da moça, tal ou qual acanhado, e as palpebras teimosamente cahidas.
—A senhora está perturbada, disse elle; disfarce com o leque.
Sophia machinalmente entrou a abanar-se e levantou os olhos. Viu que muitos outros a fitavam, e empallideceu. Os minutos iam correndo, com a mesma brevidade dos annos; os primeiros cinco e os segundos iam longe; estavam no decimo terceiro, atraz deste iam apontando as azas de outro, e mais outro. Sophia disse ao braceiro que queria sentar-se.
—Vou deixal-a e retiro-me.
—Não, disse ella precipitadamente.
Depois, emendou-se:
—O baile está bonito.
—E tá, mas eu quero levar commigo a melhor recordação da noite. Qualquer outra palavra que ouça agora será como o coaxar das rãs, depois do canto de um lindo passaro, um dos seus passaros lá de casa. Onde quer que a deixe?
—Ao lado de minha prima.
CAPITULO LXX
Rubião cedeu a cadeira, e acompanhou Carlos Maria, que atravessou a sala, e foi até o gabinete da entrada, onde estavam os sobretudos e uns dez homens conversando. Antes que o rapaz entrasse no gabinete, Rubião pegou-lhe do braço, familiarmente, para lhe perguntar alguma cousa,—fosse o que fosse,—mas, em verdade, para retel-o comsigo, e procurar sondal-o. Começava a crer possivel ou real uma ideia que o atormentava desde muitos dias. Agora, a conversação dilatada, os modos della...
Carlos Maria não tinha noticia da longa paixão do mineiro, guardada, mortificada, não se podendo confessar a ninguem,—esperando os beneficios do acaso,—contentando-se de pouco, da simples vista da pessoa, dormindo mal as noites, dando dinheiro para as operações mercantis... Que elle não tinha ciumes do marido. Nunca a intimidade do casal lhe excitara os odios contra o legitimo senhor. E lá iam mezes e mezes, sem alteração do sentimento, nem morte da esperança... Mas a possibilidade de um rival de fóra veiu atordoal-o; aqui é que o ciume trouxe ao nosso amigo uma dentada de sangue.
—Que é? disse Carlos Maria voltando-se.
Ao mesmo tempo entrou no gabinete, onde os dez homens tratavam de politica, porque este baile,—ia-me esquecendo dizel-o,—era dado em casa de Camacho, a proposito dos annos da mulher. Quando os dous alli entraram, a conversação era geral, o assumpto o mesmo, e todos fallavam para todos,—um turbilhão de ditos, de pareceres, de affirmações diversas... Um, que era doutrinario, conseguiu dominar os outros, que se calaram por instantes, fumando.
—Podem fazer tudo, disse o doutrinario, mas a punição moral é certa. As dividas dos partidos pagam-se com juros até o ultimo real e até a ultima geração. Principios não morrem; os partidos que o esquecem expiram no lodo e na ignominia.
Outro, meio calvo, não acreditava na punição moral, e dizia porquê; mas um terceiro, fallou da demisão de uns collectores, e os espiritos, meio tontos com a doutrina, tomaram pé. Os collectores não tinham outra culpa, alem da opinião; e nem ao menos se podia defender o acto com o merecimento dos substitutos. Um destes trazia ás costas um desfalque; outro era cunhado de um tal Marques que dera um tiro de garrucha no delegado, em S. José dos Campos... E os novos tenentes-coroneis? Verdadeiros réos de policia...
—Já se vae embora? perguntou Rubião ao moço, quando o viu tirar o sobretudo d'entre os outros.
—Já; estou com somno. Ajude-me a enfiar esta manga. Estou com somno.
—Mas ainda é cedo; fique. O nosso Camacho não deseja que os rapazes saiam; quem é que hade dansar com a moças?
Carlos Maria replicou sorrindo que era pouco dado a dansas. Valsára com D. Sophia, por ser mestra no officio; senão, nem isso. Estava com somno; preferia a cama á orchestra. E estendeu-lhe a mão com benignidade; Rubião apertou-lh'a, meio incerto.
Não sabia que pensasse. O facto de sair, de a deixar no baile, em vez de esperar para acompanhal-a á carroagem, como de outras vezes... Podia ser engano delle... E pensava, recordava a noite de Santa Thereza, quando elle ousou declarar á moça, o que sentia, pegando-lhe na bella mão delicada... O major interrompera-os; mas porque não insistiu elle mais tarde? Nem ella o maltratou, nem o marido percebera cousa nenhuma... Aqui voltava a ideia do possivel rival; é certo que se retirára com somno, mas os modos della... Rubião ia á porta do salão, para ver Sophia, depois chegava-se a um canto ou á meza do voltarete, inquieto, aborrecido.
CAPITULO LXXI
Em casa, ao despentear-se, Sophia fallou daquelle saráo como de uma cousa enfadonha. Bocejava, doiam-lhe as pernas. Palha discordava; era má disposição della. Se lhe doiam as pernas é porque dançára muito. Ao que retorquiu a mulher que, se não dançasse, teria morrido de tedio. E ia tirando os grampos, deitando-os a um vaso de crystal; os cabellos cahiam-lhe aos poucos sobre os hombros, mal cobertos pela camisola de cambraia. Palha, por traz della, disse-lhe que o Carlos Maria valsava muito bem. Sophia estremeceu; fitou-o no espelho, o rosto era placido. Concordou que não valsava mal.
—Não, senhora, valsa muito hem.
—Você louva os outros porque sabe que ninguem é capaz de o desbancar. Anda, meu vaidoso, já te conheço.
Palha, estendendo a mão e pegando-lhe no queixo, obrigou-a a olhar para elle. Vaidoso, porque? porque é que elle era vaidoso?
—Ai, gemeu Sophia; não me machuques.
Palha beijou-lhe a espadua; ella sorriu, sem tedio, sem dor de cabeça, ao contrario daquella noite de Santa Theresa, em que relatou ao marido os atrevimentos do Rubião. É que os morros serão doentios, e as praias saudaveis...
No dia seguinte, Sophia acordou cedo, ao som dos trillos da passarada de casa, que parecia dar-lhe um recado de alguem. Deixou-se estar na cama, e fechou os olhos para ver melhor.
Ver melhor o que? Não, seguramente, os morros doentios. A praia era outra cousa. Posta á janella, dalli a meia hora, Sophia contemplava as ondas que vinham morrer defronte, e, ao longe, as que se levantavam e desfaziam á entrada da barra. A imaginosa dama perguntava a si mesma se aquillo era a valsa das aguas, e deixava-se ir por essa torrente de ideias abaixo, sem velas nem remos. Deu comsigo olhando para a rua, ao pé do mar, como procurando os signaes do homem que alli estivera, na ante-vespera, alta noite... Não juro, mas cuido que achou os signaes. Ao menos, é certo que cotejou o achado com o texto da conversação:
«A noite era clara; fiquei cerca de uma hora, entre o mar e a sua casa. A senhora aposto que nem sonhava commigo? Entretanto, eu quasi que ouvia a sua respiração... O mar batia com força, é verdade, mas o meu coração não batia menos rijamente; com esta differença que o mar é estupido, bate sem saber porque, e o meu coração sabe que batia pela senhora...»
Sophia teve um calefrio, procurou esquecer o texto, mas o texto ia-se repetindo: «A noite era clara...»
CAPITULO LXXII
Entre duas phrases, sentiu que alguem lhe punha a mão no hombro; era o marido, que acabava de tomar café e ia para a cidade. Despediram-se affectuosamente; Christiano recommendou-lhe Maria Benedicta, que acordara muito aborrecida.
—Já de pé! exclamou Sophia.
—Quando eu desci, já a achei na sala de jantar. Accordou com ideias de ir para a roça; teve um sonho... não sei que...
—Calundús! concluiu Sophia.
E com os dedos habeis e leves concertou a gravata ao marido, puxou-lhe a gola do fraque para deante, e despediram-se outra vez. Palha desceu e sahiu; Sophia deixou-se estar á janella. Antes de dobrar a esquina, elle voltou a cabeça, e, na fórma do costume, disseram adeus com a mão.
CAPITULO LXXIII
«A noite era clara; fiquei cerca de uma hora entre o mar e a sua casa. A senhora aposto que...»
Quando Sophia pôde arrancar-se de todo á janella, o relogio de baixo batia nove horas. Zangada, arrependida, jurou a si mesma, pela alma da mãe, não pensar mais em semelhante episodio. Considerou que não valia nada; o erro foi deixar que o rapaz chegasse ao fim dos seus atrevimentos. Verdade é que, procedendo assim, evitou algum grande escandalo, porque elle era capaz de a acompanhar até a cadeira e dizer-lhe o resto ao pé de outras pessoas. E o resto repetia-se ainda uma vez na memoria della, como um trecho musical teimoso, as mesmas palavras, e a mesma voz: «A noite era clara; fiquei cerca de uma hora...»
CAPITULO LXXIV
Emquanto ella repetia a declaração da vespera, Carlos Maria abria os olhos, estirava os membros, e, antes de ir para o banho, vestir-se e dar um passeio a cavallo, reconstruiu a vespera. Tinha esse costume; achava sempre nos successos do dia anterior algum facto, algum dito, alguma cousa que lhe fazia bem. Ahi é que o espirito se demorava; ahi eram as estalagens do caminho, onde elle descavalgava o corpo, para beber vagarosamente um golpe d'agua fresca. Se não havia successo nenhum desses,—ou se os havia só contrarios, nem por isso as sensações eram desconfortativas; bastava-lhe o sabor de alguma palavra que elle mesmo houvesse dito,—de algum gesto que fizesse, a contemplação subjectiva, o gosto de se ter sentido viver,—para que a vespera não fosse um dia perdido.
Na vespera figurava Sophia. Parece até que foi o principal da reconstrucção, a fachada do edificio, larga e magnifica. Carlos Maria saboreou de memoria toda a conversação da noite, mas, quando se lembrou da confissão de amor, sentiu-se bem e mal. Era um compromisso, um estorvo, uma obrigação; e, posto que o beneficio corrigisse o tedio, o rapaz ficou entre uma e outra sensação, sem plano. Ao recordar-se da noticia que lhe deu de haver ido á praia do Flamengo, na outra noite, não pôde suster o riso, porque não era verdade. Nascera-lhe a ideia da propria conversação; mas nem lá foi nem pensara nisso. Afinal susteve o riso, e até arrependeu-se delle; o facto de haver mentido trouxe-lhe uma sensação de inferioridade, que o abateu. Chegou a pensar em rectificar o que dissera, logo que estivesse com Sophia, mas reconheceu que a emenda era peor que o soneto, e que ha bonitos sonetos mentirosos.
Depressa ergueu a alma. Viu de memoria a sala, os homens, as mulheres, os leques impacientes, os bigodes despeitados, e estirou-se todo n'um banho de inveja e admiração. De inveja alheia, note-se bem; elle carecia desse sentimento ruim. A inveja e a admiração dos outros é que lhe davam ainda agora uma delicia intima. A princeza do baile entregava-se-lhe. Definia assim a superioridade de Sophia, posto lhe conhecesse um defeito capital,—a educação. Achava que as maneiras polidas da moça vinham da imitação adulta, após o casamento, ou pouco antes, e ainda assim não subiam muito do meio em que vivia.
CAPITULO LXXV
Outras mulheres vieram ali,—as que o preferiam aos demais homens no trato e na contemplação da pessoa. Se as requestava ou requestára todas? Não se sabe. Algumas, vá: é certo, porém, que se deleitava com todas ellas. Taes havia de provada honestidade que folgavam de o trazer ao pé de si, para gostar o contacto de um bello homem, sem a realidade nem o perigo da culpa,—como o expectador que se regala das paixões de Othello, e sae do theatro com as mãos limpas da morte de Desdemona.
Vinham todas rodear o leito de Carlos Maria, tecendo-lhe a mesma grinalda. Nem todas seriam moças em flor; mas a distincção suppria a juvenilidade. Carlos Maria recebia-as, como um deus antigo devia receber, quieto no marmore, as lindas devotas e suas offerendas. No borborinho geral distinguia as vozes de todas,—não todas a um tempo,—mas ás tres e ás quatro.
A derradeira dellas foi a da recente Sophia; escutou-a ainda namorado, mas sem o alvoroço do principio, porque a lembrança das outras donas, pessoas de qualidade, diminuia agora a importancia desta. Comtudo, não podia negar que era mui attractiva e que valsava perfeitamente. Chegaria a amar com força? Nisto appareceu-lhe outra vez a mentira da praia. Levantou-se aborrecido da cama.
—Quem diabo me mandou dizer semelhante cousa?
Tornou a encarar a ideia de restabelecer a verdade; e desta vez mais seriamente que da outra. Mentir, pensava elle, era para os lacaios e seus congeneres.
D'ahi a meia hora, trepava ao cavallo e sahia de casa, que era na rua dos Invalidos. Cattete adeante, veiu-lhe á ideia que a casa de Sophia era na praia do Flamengo; nada mais natural que torcer a redea, descer uma das ruas perpendiculares ao mar, e passar pela porta da valsista. Achal-a-hia, talvez á janella; vel-a-hia córar, comprimental-o. Tudo isto passou pela cabeça ao rapaz, em poucos segundos; chegou a dar um geito á redea, mas a alma,—não o cavallo,—a alma empinou—; era ir muito depressa atraz della. Deu outro geito á redea, e continuou o passeio.
CAPITULO LXXVI
Montava bem. Toda a gente que passava, ou estava ás portas não se fartava de mirar a postura do moço, o garbo, a tranquilidade régia com que se deixava ir. Carlos Maria,—e este era o ponto em que cedia á multidão,—recolhia as admirações todas, por infimas que fossem. Para adoral-o, todos os homens faziam parte da humanidade.
CAPITULO LXXVII
—Já de pé! repetiu Sophia, ao ver a prima lendo os jornaes.
Maria Benedicta teve um sobresalto, mas aquietou-se logo; dormira mal, e accordou cedo. Não estava para aquellas folias até tão tarde, disse ella, mas a outra replicou logo que era preciso acostumar-se, a vida do Rio de Janeiro não era a mesma da roça, dormir com as galinhas e accordar com os gallos. E depois perguntou-lhe que impressões trouxera do baile; Maria Benedicta levantou os hombros com indifferença, mas verbalmente respondeu que boas. Custava-lhe fallar, as palavras sahiam-lhe poucas e molles. Sophia, entretanto, ponderou-lhe que dansara muito, salvo polkas e valsas. E porque não havia de polkar e valsar tambem? A prima lançou-lhe uns olhos máos.
—Não gosto.
—Qual não gosta! É medo.
—Medo?
—Falta de costume, explicou Sophia.
A outra teve uma ideia, e quiz retel-a; mas a ideia escapou-lhe, a despeito do exforço:
—Não gosto que um homem me aperte o corpo ao seu corpo, e ande commigo, assim, á vista dos outros. Tenho vexame.
Sophia tornou-se séria; não se defendeu nem continuou, fallou-lhe da roça, perguntou-lhe se era certo o que lhe dissera Christiano, que ella queria ir para casa. Então a prima, que folheava os jornaes, á toa, respondeu animadamente que sim; não podia viver sem a mãe.
—Mas porque? Você não estava tão contente comnosco?
Maria Benedicta não disse nada; passeou os olhos em um dos jornaes, como se procurasse alguma cousa, trincando o beiço, tremula, inquieta. Sophia teimou em querer saber a causa daquella mudança repentina; pegou-lhe nas mãos, achou-as frias.
—Você precisa casar, disse finalmente. Tenho já um noivo.
Era Rubião; o Palha queria acabar por ahi, casando o socio com a prima; tudo ficava em casa, dizia elle á mulher. Esta tomou a si guiar o negocio. Accudia-lhe agora a promessa; tinha um noivo prompto, era só fallar.
—Quem? perguntou Maria Benedicta.
—Uma pessoa.
Crel-o-heis, posteros? Sophia não pôde soltar o nome de Rubião. Já uma vez, dissera ao marido haver fallado nelle, e era mentira. Agora, indo a fallar deveras, o nome não lhe sahiu da boca. Ciumes? Seria singular que esta mulher, que não tinha amor áquelle homem, não quizesse dal-o de noivo á prima, mas a natureza é capaz de tudo, amigo e senhor. Inventou o ciume de Othello e o do cavalleiro Desgrieux, podia inventar este outro de uma pessoa que não quer ceder o que não quer possuir.
—Mas quem? repetiu Maria Benedicta.
—Direi depois, deixe-me arranjar as cousas, respondeu Sophia, e mudou de conversa.
Maria Benedicta trocou de rosto; a boca encheu-se-lhe de riso, um riso de alegria e de esperança. Os olhos agradeceram a promessa e o trabalho, e disseram palavras que ninguem podia ouvir nem entender, palavras curiosas e obscuras:
—Gosta de valsar; é o que é.
Gosta de valsar quem? Provavelmente a outra. Tinha valsado tanto na vespera, com o mesmo Carlos Maria, que bem se poderia achar na dansa um pretexto; Maria Benedicta concluia agora que era o proprio e unico motivo. Conversaram muito nos intervallos, é certo, mas naturalmente era della que fallavam, uma vez que a prima tinha a peito casal-a, e só lhe pedia que deixasse arranjar as cousas. Talvez elle a achasse feia, ou sem graça. Uma vez, porém, que a prima queria arranjar as cousas... Tudo isso diziam os olhos gaios da menina.
CAPITULO LXXVIII
Rubião é que não perdeu a suspeita assim tão facilmente. Teve ideia de fallar a Carlos Maria, interrogal-o, e chegou a ir á rua dos Invalidos, no dia seguinte, tres vezes; não o encontrando, mudou de parecer. Encerrou-se por alguns dias; o major Siqueira arrancou-o á solidão. Ia participar-lhe que se mudara para a rua Dous de Dezembro. Gostou muito da casa do nosso amigo, das alfaias, do luxo, de todas as minucias, ouros e bambinellas. Sobre este assumpto fallou longamente, relembrando alguns moveis antigos. Como só elle fallasse, parou de repente, para dizer que o achava aborrecido; era natural, faltava-lhe alli um complemento.
—O senhor é feliz, mas falta-lhe aqui uma cousa; falta-lhe mulher. O senhor precisa casar. Case-se, e diga que eu o engano.
Rubião lembrou-se de Santa Thereza,—daquella famosa noite da conversação com Sophia,—e sentiu correr-lhe um frio pelas costas; mas a voz do major não tinha nenhum sarcasmo. Tambem não lhe fallava por interesse. A filha estava ainda qual a deixámos no capitulo XLXIII, com a differença que os quarenta annos vieram. Quarentona, solteirona. Gemeu-os comsigo, logo de manhã, no dia em que os completou; não poz fita nem rosa no cabello. Nenhuma festa; tão sómente um discurso do pae, ao almoço, lembrando-lhe cousas de criança, anecdotas da mãe e da avó, um dominó de baile de mascaras, um baptisado de 1848, a solitaria de um coronel Clodomiro, varias cousas assim de mistura, para entreter as horas. D. Tonica mal podia ouvil-o; mettida em si mesma, ia roendo o pão da solitude moral, ao passo que se arrependia dos ultimos exforços empregados na busca de um marido. Quarenta annos; era tempo de parar.
Nada disso lembrava agora ao major. Fallou sinceramente; achou que a casa de Rubião não tinha alma. E repetiu, ao despedir-se:
—Case-se, e diga que eu o engano.
CAPITULO LXXIX
—E por que não? perguntou uma voz, depois que o major sahiu.
Rubião, apavorado, olhou em volta de si; viu apenas o cachorro, parado, olhando para elle. Era tão absurdo crer que a pergunta viria do proprio Quincas Borba,—ou antes do outro Quincas Borba, cujo espirito estivesse no corpo deste, que o nosso amigo sorriu com desdem; mas, ao mesmo tempo, executando o gesto do capitulo XLIX, estendeu a mão, e coçou amorosamente as orelhas e a nuca do cachorro,—acto proprio a dar satisfação ao possivel espirito do finado.
Era assim que o nosso amigo se desdobrava, sem publico, deante de si mesmo.