SACRIFICADA (continued 2)
Reading edition
Manoela, sorrisonha ás recordações da bôa vélhota, prometia fazer essa viagem—em vindo o bom tempo.
—«E o menino, quando nascerá?—perguntava a Ama.
—«Já tens pressa de o chamar teu, não é assim?...
E comparava, com um certo sorriso ironico a aflorar-lhe aos labios descórados, a ansiosa espera em que se andava pela vinda do primeiro filho de Christina e os transes porque ella passara para que a mãe chegasse a este mundo, onde era agora uma triunfadora. Recordava... e recordar era tornar a sofrer as horas de desânimo e desespero que por milagre a não tinham atirado para um hospital de doidos ou para o cemiterio.
Tornava a vêr a casa em ruinas, onde a criança nascera como um animal bravio, que{269} anda a monte, para não ofender com os seus gritos de filho ilegal as consciencias socegadas...
Como isso já ia longe e como tudo tinha mudado! Quem lhe diria então que Christina, a sua filha, essa vergonha viva, essa nodoa na familia fidalga de que descendia, anos volvidos seria a senhora morgada a quem todos adivinhavam os desejos e amaciavam o caminho para que désse sem precalço o novo herdeiro da casa?!...
E tão desemelhante destino só porque uma tinha um pai que legalmente reivindicava os seus direitos, emquanto a outra era filha dum homem, que na sua inconsciencia de bruto apenas cuidara do prazer material e passageiro, com tanta mais perfidia quanto era maior o seu conhecimento da indulgencia da sociedade para com as leviandades do homem transformadas em crimes para as mulheres.
E Manoela, meditando e revendo toda a sua existencia naquella hora de passageiro repouso, que a doença lhe dera, pensava com amargurado remorso no que chamava agora a sua covardia:
—«Sim, Christina, no impulso do seu egoismo e da sua ânsia de viver, é quem estava na verdade!{270}
«A transigencia, a covardia, a fraqueza, mesmo quando são filhas do sentimento, acarretam consigo o triste premio da sua inferioridade. E assim, pela covardia a que tinham dado o bonito nome de bondade, ella ali estava sem familia, sem amigos, sem uma alegria que a prendesse á vida que a ia abandonando como fardo inutil, que já não presta para nada.
«Não, não se deve transigir, não se deve esconder uma áção que em nossa consciencia não é um crime, embora a sociedade na sua hipocrisia a mostre, ferozmente, como tal!
«A sociedade acostuma-se a respeitar os fortes e só pede contas severas aos fracos, aos que transigem, aos que a ella se não adaptam ou a não dominam, as duas unicas fórmas de a vencer.
«Christina tivera razão: ella não fôra uma bôa mãe, não soubera desempenhar o seu nobre papel, ferindo implacavel porque fôra ferida, cobrindo com a sua revolta o destino da criança que chamara a uma vida que lhe não pedira. Não tinha desculpa. Fôra necessario que a filha, no seu bom-senso de bastarda, soubesse encontrar a desforra no sacrificio do proprio corpo procurando nesse casamento sem amôr o nome que ella lhe negara.{271}
«E valia muito o amôr?... Ah, ella sorria, com dó de si mesma, recordando como se entregara toda inteira a esse sentimento, o corpo palpitante, a alma fremente, sem uma reserva, sem um pensamento mesquinho de dúvida, com a pureza duma criança, cuja alma não fôra maculada pela desconfiança—e o que lhe deram em troca?!...
«Pois bem, ia reparar a sua falta.
E, chamando a Ama, que dava uma certa ordem ao quarto, respeitando a sua meditação, Manoela pediu a escrevaninha portatil que estava sobre a mêsa de cabeceira, pegou num papel e ia a escrever...
Depois suspendeu-se, sorriu com amargura, e pôs a penna de parte. O que ia fazer com essa declaração a juntar ao testamento?!
Christina já não precisava do seu nome, mais amplamente coberta com o do marido que a tomara como filha de pais incognitos, e a sua declaração extemporanea apenas lhe traria vergonha inutil e dissabores...
Não a fazia—era já tarde para isso.
Recostando-se ás almofadas que a Ama-Rita lhe ageitava na cadeira, sentiu-se agoniada, pediu agua, depois fechou os olhos, franziu frouxamente os labios descórados, e a cabeça tombou-lhe para o lado sem vida.{272}
—«Deixou de sofrer!—dizia a velha, soluçando alto, para a criada e para a mulher do quinteiro que chamara aflita na primeira impressão de inevitavel surpresa. E alisava-lhe os cabelos sobre a fronte, juntava-lhe as mãos numa atitude de prece. Deixou de sofrer, coitadinha! Toda, toda a vida—uma sacrificada!...{273}
INDICE
Pag.
A Vinha 7
A Feiticeira 37
Diario duma criança 81
Sacrificada 181
{274} {275}
OBRAS DA MESMA AUTORA
AMBIÇÕES (romance) 700
INFELIZES (historias vividas). Esgotado.
A BEM DA PATRIA: Bibliotéca de propaganda educativa e distribuição gratuita: 1.º As mães devem amamentar seus filhos. 2.º A educação da criança pela mulher.
BEM PRÉGA FREI THOMAZ (comedia) 300
TEATRO INFANTIL: A comedia da Lili 200 Um sermão do Snr. Cura 60
A GARRETT. No seu primeiro centenario.—De colaboração com Paulino de Oliveira 500
GARRETT NO PANTHEON.—De colaboração com Paulino de Oliveira 50
A NOSSA HOMENAGEM A BOCAGE 100
ÁS MULHERES PORTUGUÊSAS.—Livro feminista de critica e propaganda 600
A MINHA PATRIA.—Livro aprovado oficialmente para premios escolares. Encadernação de luxo, desenho de Roque Gameiro, 400 paginas em magnifico papel e inumeras ilustrações 1$000
PARA AS CRIANÇAS: Publicação mensal ilustrada fundada em 1897. Publicados 15 volumes com magnificas gravuras. Contos tradicionaes portuguêses, 10 volumes. Contos de Grimm, traduzidos do alemão. 1 volume. Alma infantil, original de Anna de Castro Osorio Animais, original de Anna de Castro Osorio Boas crianças, original de Anna de Castro Osorio Historias escolhidas (tradução diréta do alemão). Cada volume desta publicação avulso. 400
INSTRUÇÃO E EDUCAÇÃO (Festas infantis).—Folheto de critica pedagogica 100