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Quatro Novelas

DIARIO DUMA CRIANÇA (continued 2)

Reading edition

Estava só; a D. Emilia fôra dentro chamada pelo marido, quasi sempre de cama desde que se dera o grande desastre para o seu coração de pai que na unica filha poséra todo o seu aféto e esperança.{166}

—«Que trabalhadeira estás!—disse-me o Chico, sorrindo, porque ao entrar eu nem sequer erguera os olhos, que dantes o fitavam confiantes e fraternais.

É que as palavras impudicas da estrangeira acudiam-me á memoria e tinham maculado para sempre a inocencia do meu aféto por elle.

Sorri á sua graça, mas com um sorriso tão maguado, que o Chico, vibratil e bondoso como é, logo percebeu que não estava bem. E, muito carinhoso, quiz saber se estava doente, se me doía alguma coisa.—Não, não,—respondi nervosa e sacudida—doença não tinha... mas lembrava-me o que tinham dito de ambos, e isso incomodava-me fortemente.

E elle quiz saber o que me dissera a tia, o que dera causa á grande cêna, de que ainda ria, só em pensar nella.

Cuidava que era ainda a pequena e ingenua Raquel que elle e a Mariquinhas quasi amavam como filha, e que o meu áto revoltoso fôra apenas um capricho de criança endemoninhada e voluntariosa. Mal supunha que uma alma de mulher, de subito despertada, sofria e palpitava dentro em mim.

Subitamente as lagrimas vieram-me aos olhos e começaram a correr, sem que eu as podesse{167} estancar no lenço encharcado, que mordia em desespero.

Passara, sem transição, da insensibilidade quasi completa de quatro anos á mais disparatada pieguice.

Por nada as lagrimas me vinham aos olhos e corriam sem cessar. Desesperava-me contra mim mesma; queria vencer-me, e não podia!

O Chico, muito comovido, abraçava-me e beijava-me para me socegar, como fazia sempre, com a simplicidade carinhosa dum irmão mais velho, sem suspeitar a confusão em que eu me debatia.

Aproveitando um momento de mais calma para os meus nervos, disse-lhe para mudar de conversa:

—«O Chico vai-se ámanhã embora e nunca mais se lembrará de mim; eu tambem vou para tão longe!

—«Que tolice, nem que em Portugal haja longes!...—respondeu a rir, emquanto eu me afastava um pouco, porque as suas caricias me sobresaltavam e faziam mal.

—«Pois sim, Coimbra não é muito longe, mas os estudantes que lá andam não pensam a sério em coisa nenhuma e tudo esquecem quando lá chegam.

—«Quem te disse tal?{168}

—«As raparigas da minha aldeia, quando cantavam:

«O amôr dum estudante «Não dura mais de uma hora «Tóca a cabra vão para a aula «Vêm as férias vão-se embora.

Quando isto é o amôr, o que fará a amizade!?

As lagrimas tinham-se transformado em riso—ria agora convulsamente.

—«Isso são cantigas! Não penses isso de mim, Raquel. Ha rapazes loucos, mas tambem os ha sérios, como eu...

—«Não acredito! O Chico vai esquecer-se de mim, e quando fôr para a aldeia nunca mais o verei nem saberei de si! Antes queria morrer!...—tornava a chorar, visionando-me só, sem vontade nem gosto para viver.

—«Ó Raquelsinha, não diga isso, não a esquecerei nunca,—que tolice! Os amigos de infancia nunca se esquecem, creia. Nem tão pouco esquecerei a Mariquinhas.

—«A essa,—solucei, num sentimento de magua mortificado com uma pontinha de inconsciente ciume—a essa não a esquecerá o Chico, não!...

—«Mas porque menos a ella do que a si?{169}

—«Então o Chico não era namorado da Mariquinhas?!—perguntei numa ansiedade de dúvida que se deseja não vêr confirmar.

—«Ó Raquel, não diga isso! Quem lhe meteu na cabeça uma loucura dessas?!—perguntou indignado.—Então não eramos como três irmãos, três companheiros de brincadeira?!...

—«Ninguem me disse nada. Eu hôje é que pensei, depois do que ouvi lá em casa, que podia sêr que o que se lembravam comigo fôsse com ella... Ás vezes a Mariquinhas parecia que me tinha raiva, e porfim já não queria que brincassemos juntos... lembra-se?

—«Sim, é verdade. Não tinha pensado nisso. Até pediu para a não visitar quando estivesse a Raquel, porque a sua alegria a incomodava...

Pobre Mariquinhas! A sua figura esbelta e linda levantava-se a nosso lado reclamando a sua parte de aféto, mas o seu rosto pacificado pela morte já não exprimia o vago ciume com que tanto nos mortificara. A sua recordação unia-nos numa afetuosidade e numa saudade igual.

—«Mas então—disse o Chico, surpreso—a Mariquinhas supunha que nós eramos namorados?! Pobre amiga! Uma criança como a Raquel era...{170}

—«Eu não percebi nada—respondi ingenua—nem supunha que era tão sua amiga... Nem que esta amizade era diferente... Hontem é que compreendi tudo!...

—«Mas hontem, porquê? Disseram-lhe mal de mim?!...—perguntou assomado, numa daquellas fogosas cóleras que ensombram rapidamente o rosto do meu amigo.

—«De si, não!... Foi de mim. A estrangeira... disse-me coisas, coisas... que só pensar nellas me faz mal!

Córei e baixei os olhos numa confusão, vendo-o sorrir, já desanuviado.

Curvando-se para mim, perguntou-me baixinho, numa caricia que estava toda na doçura da voz:

—«Disse-lhe que era minha namorada, não foi?...

Abaixei ainda mais a cabeça sobre o bordado, não querendo responder uma afirmativa que me confundia.

—«E não o quer sêr, de verdade, Raquel?... Será a minha noiva emquanto andar a estudar, e a minha mulher, a minha companheira, quando eu já ganhar dinheiro para os dois...

Sorria embevecida, olhava-o cheia de desejo de lhe dizer que sim e saltar-lhe ao pescoço, numa alegria louca; mas ficava-me calada,{171} perturbada, sem saber verdadeiramente distinguir até onde me seria permitido mostrar o meu entusiasmo segundo as praxes que a tia, dizia, eu ha muito tinha desprezado impudentemente.

O Chico compreendeu; e, não precisando ouvir mais, pegou-me dôcemente na mão que conservou entre as suas emquanto conversavamos a meia voz, sorrindo enlevados, contando coisas, recordando factos, que reconhecemos nesse momento sêrem significativos daquelle desenlace.

Ha muito tempo que eu era a sua mulhersinha—recordou o Chico sorrindo—nas brincadeiras em que a Mariquinhas, já mais consciente, reservava para si sempre os papeis de rainha ou fada, que iam tão bem á sua gentil figurinha de estatueta.

Foi nessa tarde deliciosa de fim de inverno, com o testemunho das camelias brancas, que a Mariquinhas adorava, e na vespera delle ir para Coimbra e eu recolher á velha casa paterna, que nós ligámos para sempre as nossas existencias, que dissemos essas mil palavras banais que nada dizem para os outros e são, num momento unico da vida humana, as verdadeiras palavras sacramentais que{172} ligam duas almas numa comum e deliciosa aspiração.

Foi nessa tarde, que remiu para o meu coração anos de sofrimento, que traçámos a azul e oiro o futuro ridente que hôje estamos desfrutando.

Com a vinda de meus pais, trocadas explicações e desculpas entre elles e os tios, sem que eu fôsse obrigada a vêr mais a minha façanhuda inimiga, a tranquilidade e a alegria voltaram de novo ao meu espirito, que em breve se refez e normalisou na serenidade da vida aldeã.

O Miguel, que já então era um estudante muito cuidadoso, tornou-se em breve o amigo inseparavel do Chico, que teve sempre meio de repartir as férias entre a antiga familia, que o adorava, e a nova, onde não era menos querido.

Até o Padre Zé discutia com elle pontos graves de historia romana e ficava boquiaberto com a sabedoria dos rapazes de hôje... e da qual nos riamos a valer, indo depois ás escondidas folhear o Larousse onde procuravamos citações e factos para confundir o santo velho.

A Maria Augusta, essa só pedia a Deus que a deixasse viver até vêr na capela da{173} casa, abençoado por Deus e pelos homens, um par que era tanto do seu agrado.

E agora, realisado esse ideal,—que reuniu á mesma mêsa duas familias que ficaram sendo só uma, naquelle grande jantar de nupcias a que assistiu toda a parentela dos arredores—ella espera ansiosa porque lhe seja permitido apresentar ao Padre Zé, de capa de asperges e estola rica, um menino que hade vir breve de Paris numa condessinha de flôres, e para o enxoval do qual trabalhamos dia e noite com a mais rútila e alvoroçada alegria.

—Com o vestido de antiga seda côr de rosa e grandes ramos prateados, coberto com o véo de tule bordado, que a mamã guarda na grande arca dos enxovais, eu verei como irá lindo!...—É o que me assegura a Maria Augusta, que recorda outros batisados celebres na familia, e o meu principalmente, que, crescidinha já, por doença do padrinho, me desesperei iconoclastamente com o sal da sapiencia e arranhei a cara ao padre!

Não se esqueceu de recomendar ao Chico, uma vez que elle foi a Lisbôa, que deixasse feita a encomenda dos bolos para a festa e de confeitos para a rapaziada, que assim encherá de bençãos o batisado...{174}

Isto emquanto a bôa mamã dá volta ao bragal, desmancha lençóes e finas bretanhas, e manda ao sotão buscar o lindo bercinho em que nos criou a todos, e que já espera, forrado e engomado de fresco, pelo pequenino dôno...—ou dôna?!...

E, seja o que fôr, bem vindo será ao nosso lar e... já o jurámos: só nós o educaremos e guiaremos nos seus estudos, porque, sahindo, como poderá ser, á mãe, não será facil meter-lhe grandes sabedorias na cabeça.

Esquecia-me dizer que o meu pobre tio está emfim descansado, livre da mulher que tão amarga lhe fez a existencia, bem encafuado num mausoleu de marmore, onde ella o vai vêr a miude, naturalmente para lhe dar conselhos o reprimendas. Dizem-me que na sua opinião eu sou o mais execravel dos animais ferozes, e ainda treme de raiva só em pensar na minha negra ingratidão. A filha prepara-se para casar confecionando o enxoval e aprendendo a sêr uma admiravel dôna de casa, capaz até de ser professora numa escola de ménagères, mas os noivos é que, como sempre assustados com o merecimento da mulher, já lhe vão tardando um pouco.{175}

O pai da Mariquinhas morreu, e a D. Emilia resigna-se a viver para chorar todas as lagrimas da sua bela alma pelo marido e pelos filhos, sempre vivos na sua lembrança.

Sente por nós um dôce carinho, que nos enche de reconhecimento, e todos nos juntamos na saudade da querida morta, a linda Mariquinhas, que tão íntimos e indissoluveis tornou os nossos afétos.{176} {177}

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