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Poesias Eroticas, Burlescas, e Satyricas de M.M. de Barbosa du Bocage

MISCELANEA.

Reading edition

DECIMAS.

A UM TABELLIÃO VELHO, QUE CASOU COM MOÇA NOVA.

I

Um tabellião caduco, Com mulher moça casado, Vai portar no seu estado Por fé o signal de cuco: Como já não deita succo Por mais que puche os atilhos, Não lhe hão de faltar casquilhos Para a moça amantes novos, Que lhe vão galando os ovos, E elle vá creando os filhos.

II

Elle diz que assim o quer; Mas de raiva dará pulos, Vendo que são actos nullos Os actos que elle fizer: Sem ter direito á mulher Que será d'este demonio? Logo então qualquer bolonio Lhe desmancha o casamento, Porque não tem instrumento Com que prove o matrimonio.

III

Tenha embhora muita renda, Seja lavrador morgado, Mas para homem casado Sempre tem pouca fazenda. É provavel se arrependa A pobre da rapariga, Que se agatanhe e maldiga, Quando na noute da boda Correr a ceara toda, E não encontrar espiga.

IV

Inda que não tome a mona Por ter fibra já cansada, Mal pode assistir á entrada De Carlos em Barcelona: Que o leve ao porto de Ancona Não terá vento ponteiro, E andando sempre em cruzeiro Que fará este homem raro? Ser como os cães, que teem faro; Conhecel-o pelo cheiro.

V

Por mais que á moça infeliz Faça protestos de amor, Sempre se quer fiador D'homem sem bens de raiz; Só crerá no que elle diz Se escriptura lhe fizer; E elle pode-lhe fazer Uma duzia, e uma centena; Mas nunca molhando a penna No tinteiro da mulher.

VI

São tristes da moça os fados, Pois lhe não consentem que ella Avance pela Arreitella Té Pica de Regalados: Logo entre estes dous casados Se trava renhido pleito, Mas se por aggravo o feito Elle leva á Relação, Lá ninguem lhe dá razão, Sem que mostre o direito.

O inferno do Ciume.

MOTTE.

O inferno do Ciume.

Glosas.

I

Esse abysmo, esse Orco eterno Não é filho da razão; Os pavores da illusão É que pariram o inferno: Pelo sizo me governo, Que louco e falso o presume; Mas, se não creio esse lume, Nem esse invento maldicto, Por exp'riencia acredito O inferno do Ciume.

II

Em vão prégador rançoso Lá do pulpito vozêa, Quando a triste imagem fêa Traça do inferno horroroso: É systema fabuloso, Que á razão embota o gume; Não, não ha Tartareo lume, Que devore a humanidade: Sabeis vós o que é verdade? O inferno do Ciume.

Venha cá, sô Boticario

Venha cá, sô Boticario, Vossê sabe em que se mette, De tão rafado cadete Sendo terceiro, está vario? Advirta que é necessario Reportar acções insanas; Estude em fazer tisanas, Algum purgante ligeiro, Mas não seja alcoviteiro Muito menos de sacanas.

P'ra que viva a cosinheira

P'ra que viva a cosinheira, Que tão boas papas fez! Confesso por esta vez Que bem me sabe, e me cheira: O Papa em sua cadeira Vestido de estola e capa, Não faz cousa tão guapa: A cosinheira faz mais; O Papa faz Cardeaes, A cosinheira faz papas.

Dialogo entre o Poeta, e o Tejo.

Poeta.

Tejo, que tens, estás quedo? Não banhas hoje esta praia? De que o teu valor desmaia?

Tejo.

Eu t'o digo, mas segredo: Confesso que tenho medo Do teu ranchinho infernal.

Poeta.

O teu susto é natural, Parecem tres furiasinhas; Mas comtudo são mansinhas, Não mordem, nem fazem mal.

São uns cornos mui bem feitos

São uns cornos mui bem feitos, Uns cornos mui delicados, São cornos, que torneados Se podem trazer aos peitos: Cornos que sobem direitos, Pela sua varonia, E sem mais chronologia Tem gravados na armadura Os timbres da fidalguia.

IMPROVISO.

Á meia noute Saíu de um cano Cheio de merda Crispiniano. Eis que da ronda Tropel insano Divisa ao longe Crispiniano. Capuz o cobre; «És franciscano?» — Sou (lhe responde) «Crispiniano.» Chega o Alcaide, Dá-lhe um abano; Sáe da gravata Crispiniano..

ELEGIA. Á MORTE DE UMA FAMOSA ALCOVITEIRA.

Genio só dado a sordidas torpezas, Que usas comprar na immunda Cotovia Chochos agrados de venaes bellezas: Solto o cabello, as carnes arripia Na morte d'esta illustre recoveira, E inspira-me tristissima elegia. Honrada, e a mais sabida alcoviteira, A ti consagro este cypreste umbroso, Com que te enramo a esqualida caveira; Em quanto pelo rio pantanoso A ouvir te leva o pallido Charonte Severas leis de Minos rigoroso. Alçando para o ar a crespa fronte Os ouvidos estende ás vozes minhas, Quando no mundo os teus louvores conte. Vós, moças do Bairro-Alto e Fontainhas, Vós testemunhas sois da grande falta Que chorando contais entre as visinhas. Ai! Que ha de ser de vós, gente de malta! Eu vejo em vossas faces o desgosto, E a dor, que os corações vos sobresalta! Morreu a vossa mãe, o vosso encosto, Que vos ganhava o pão honradamente, Inda que com suor do vosso rosto! Não mais vereis entre a mundana gente D'aquella honrada bôca o grato riso, Que descubria um solitario dente! Morreu a discrição, foi-se o juizo, Vós o sabeis: melhor que esta viuva Ninguem fez um recado de improviso. Embrulhada na capa ao vento, á chuva, Ella comprar-vos ia caridosa As ginjas, os melões, a pêra, a uva: Vendo qualquer de vós triste e chorosa, Ella desassocega, ella trabalha Por livrar-vos da pena lamentosa: Conhecia os tafues já pela malha, Ella vos apartava dos sovinas, Para aquelles que dão maior medalha: Chupista de dinheiro e de tolinas, Por todas repartindo esta pendanga, Ella era o vosso bem, e as vossas minas. C'os homens depravados tinha zanga, Gostava da modestia, e da virtude Dos que dão a beijar cordão e manga. Se a mandavam beber, era um almude, E ás vezes não parava até que a bôca Se lhe punha mais grossa do que grude. A que a buscava, e que não era louca, A recolhia em casa, e pela mamma Apenas lhe levava cousa pouca. Sempre de todas dava boa fama, De freguezes lhe armava quantidade, Té as pôr sobre si com casa e cama. Nos ganhos não levou nunca metade; Qualquer cousa aceitava, porque pensa Que o mais era faltar á charidade. Dotada foi de charidade immensa; Sempre ao lado se achou da sua amiga No tempo da saude, e da doença. Aquella moça gordalhuda o diga; Ella pode pintar mais vivos quadros D'esta estimavel, d'esta amante liga. No tempo em que ella andou vagando os adros Mil vezes lhe curou c'os seus inventos Crueis camadas de piolhos ladros. Ella mesma c'os dedos fedorentos Cheia de amor, de charidade cheia, Lhe ministrava os fetidos unguentos. Á frouxa luz da tremula candêa, Que tem no chammejar seus intervalos, As chagas cura, a porquidade aceia: De alvissima pomada untando os callos, As partes amacîa, que mordêra O dente de ardentissimos cavallos. Jámais no seu trajar luxo tivera, Nem na sua cabeça houve polvilhos, Depois que seu marido lhe morrêra. Foi a primeira em dar ensino aos filhos; Procurai este trilho verdadeiro Vós, oh paes, que seguis diff'rentes trilhos. Uma filha, que Deus lhe deu primeiro, Arrimada a deixou com loja aberta; Teve um filho, que foi alcoviteiro. Eia, paes de familias, olho álerta; Se quereis vossos filhos empregados, Tendes seculo bom, e é móca certa. Dispoz da sua terça, que tirados Os gastos funeraes, que lhe fariam Os devotos irmãos, gatos-pingados, Os seus testamenteiros comprariam C'o resto uma barraca, em que decente Uma casa d'alcouce erigiriam: Que haveriam noviças e regente; Proveu logo este cargo na Coveira, Por ser mais respeitosa, e mais prudente: A Santarena fica thesoureira; Chamou para escrivan a Ignacia China, Felicia de Chaté madre rodeira. Ninguem melhor os seus vintens destina, Porque para solteiras e casadas Vejam que seminario de doctrina! Entre as ultimas vozes já truncadas, Chamando a filha com afago, e rogo Ficaram entre os braços enlaçadas. «A mecha (lhe diz ella) junto ao fogo «É facil de pegar…» Ia adiante, Porém não disse mais, que morreu logo. De pallidez cobriu-se-lhe o semblante, Ouviram-se ao redor gritos immensos Da turba feminil, pouco constante. Ternos suspiros pelos ares densos Vão abraçar o seu cadaver frio, Cobrem-se os olhos de engomados lenços. Cortou a Parca d'esta vida o fio, O esp'rito nú, da carne desatado, Lá vai cruzando o lutulento rio. Oh dia com razão amargurado! Em quanto nos lembrar tão triste imagem, Sempre serás dos bons tafues chorado. Cobrir tu viste com pesada lagem Aquella que nos fez o beneficio De nos dar uma casa d'estalagem. Ninguem soube melhor do seu officio; Nem se achára tão destra alcoviteira Sómente com trinta annos d'exercicio. E vós, mulheres, que gostais d'asneira, Honrai as suas cinzas, os seus ossos, E respeitai-lhe a funebre caveira. A morte dá nos velhos e nos moços; Ninguem se escapa da carranca feia Depois de preso em seus calabres grossos. Conservai pois esta fatal idéa, E rodeando o corpo desditoso, Accendei cada qual uma candêa, E fazei-lhe um sepulchro apparatoso.

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