CARTAS DE OLINDA E ALZIRA.
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EPISTOLA I. OLINDA A ALZIRA.
Que extranha agitação não sinto n'alma Depois que te perdi, querida Alzira! De meus olhos fugiu, sumiu-se o fogo, Que a tua companhia incendiava! Por uma vez se foi minha alegria, Nem a mesma já sou, que outr'hora hei sido! Minhas vistas ao céo languidas se erguem, E a mim propria pergunto d'onde venha Tão novo sentimento assuberbar-me? Não se aquieta o coração no peito, Não cabe n'elle, e viva chamma no intimo Das entranhas ardente me devora, Sem que eu possa atinar a causa, a origem. Aquelles passatempos, que na infancia Tão do peito queria, em odio os tenho. Das mesmas sup'rioras a presença, Que d'antes para mim era indiff'rente, Se me torna hoje dura, intoleravel! Aonde, aonde irão estes impulsos Precipitar a malfadada Olinda? Será, querida Alzira, a tua ausencia, Que me faz derramar tão agro pranto? Debalde a largos passos solitaria Vago sem norte: ignoro o que procuro; Ah! minha chara! os males que tolero Expressal-os não posso, nem soffrel-os.
EPISTOLA II. ALZIRA A OLINDA.
Conheço de teus males a vehemencia, Prezada Olinda! Eu propria os hei soffrido, Quando da mesma edade que hoje contas Próvida a Natureza começava A preencher em mim seus fins sagrados. Marcha ella por graus em suas obras; Precede ao fructo a flor já matizada, Que fôra antes de flor botão mimoso. Assim a sabia mão da Natureza A passos insensiveis caminhando Maravilhas em nós produz, que assombram. Somos na infancia apenas um bosquejo Do que nos cumpre ser annos mais tarde. N'aquella edade a Natureza attenta Em conservar-nos só, não desenvolve Sentimentos, que então superfluos foram: Inactivas nos tem, e nos conserva, Bem como as plantas no gelado hynverno. Porém depois que o sol da primavera Fecundos raios sobre nós dardeja, Então de novas fórmas animado Pula nas vêas affogueado sangue, E sem perder da infancia os attractivos Da puberdade o lustre desfructamos. Então sentimos commoções insolitas, Que origem são dos males, que te opprimem; Do amor, que te domina, melancolico; Da forte agitação, que em ti presentes. Mas tem tudo remedio; eu hei de dar-t'o, Feliz serás, se o trilho me seguires.
EPISTOLA III. OLINDA A ALZIRA.
Quanto gratas me são as tuas letras Querida Alzira! Ao coração me falas! As tuas expressões meigas occultam Em si virtude tal, que apenas lidas D'ellas a alma se apossa sequiosa: Tu és, presada amiga, unico archivo Aonde os meus segredos mais occultos Eu vou depositar: em ti encontro O refrigerio a males, que tolero, Sem poder conhecer a sua origem. Se bem me lembro, outr'hora de ti mesma Ouvi eguaes queixumes, não sabendo Nem eu, nem tu, donde elles procediam. Uniu-te a sorte a Alcino, e venturosa Sempre te ouvi chamar desde esse tempo. Cessaram os teus males, eu os sinto… A edade é (dizes tu) a causa d'elles; Ah! Que extranha linguagem! Não concebo Porque falas assim; pois traz a edade Males, nos tenros annos não provados? Tres lustros conto apenas: tu tres lustros Antes de te esposar tambem contavas; Poz o consorcio a teus lamentos termo, Limitará os meus? Ah! dize, dize Tu, que desassocego egual soffreste, O seu motivo, e como o apaziguaste: Revela á tua amiga este mysterio D'onde sinto pender o meu repouso. Eu não exp'rimentava o que exp'rimento: Os meus sentidos todos alterados Uma viva emoção põe em desordem. Cala-me activo fogo nas entranhas: O coração no peito turbulento Pula, bate com ancia extranhamente: O sangue, pelas vêas abrasado Parece que me queima as carnes todas: A taes agitações languidez terna Succede, que a meus olhos pranto arranca, E o coração desassombrar parece Do peso da voraz melancholia. Té mesmo a natureza tem mudado A configuração, que eu d'antes tinha: Vão-se augmentando os peitos, e tomando Uma redonda fórma, como aquelles Que servem de nutrir-nos lá na infancia. D'outros signaes o corpo se matiza Antes desconhecidos: alvos membros, Lisos té'qui, macúla um brando pello, Como o buço ao mancebo, á ave a penugem. Sobresalta-me d'homens a presença, Elles, a quem té agora indifferente Tenho com affouteza sempre olhado! Ao vêl-os o rubor me sobe ao rosto, A voz me treme, e articular não posso Sons, que emperrada a lingua não exprime. Sinto desejos; que expressar me custa; Amor… E como a idéa tal me arrojo? Será talvez amor isto que eu sinto? Já tenho lido effeitos de seus damnos; Mas esses, que o seu jugo supportaram, Tinham com quem seu peso repartissem, Tinham a quem chamavam doce objecto, Quem a seu mal remedio suggerisse. Isto era amor; mas eu amor não sinto; A doce inclinação, que dous amantes Um ao outro consagram, desconheço. Sim; dos homens a vista lisonjeira É para mim; nenhum porém me prende; Não sei que chamma interna me affoguêa… Amor isto será? Alzira, fala, Fala com candidez á tua amiga; Ensina-me a curar a funda chaga, Que internamente lavra por mim toda: D'estas agitações, que me flagellam, Mostra-me a causa, mostra-me o remedio: Tu tiveste-as tambem, já não te avexam, Mostra-me por que modo as terminaste. Talvez do que te digo farás mofa… Ah! vê que por meus labios a innocencia Comtigo é quem se exprime; tem dó d'ella, E se os meus sentimentos são culpaveis, Dize-m'o, que abafados em meu peito Serei victima d'elles; se extinguil-os Os meus exforços todos não podérem, Comigo hão de morrer, findar comigo.
EPISTOLA IV. ALZIRA A OLINDA.
Com que satisfação, com que alegria Vejo da minha Olinda as ternas letras! Retrato da innocencia, me affiguras O que por mim passou, extranho effeito De um coração sensivel, não manchado Ainda pela mão da iniquidade. Fala, não temas exprimir-te, Olinda, Que se culpavel fores de outrem aos olhos, Aos meus és innocente, e assim te julgo. Da inviolavel lei da Natureza A que sujeita estás, bem como tudo, Nascem, querida amiga, os teus transportes: Só provém d'ella, é ella que t'os causa; Ella os mitigará em tempo breve, Dando-te próvida um remedio activo. A triste educação, que ambas tivemos, Mais desenvolve os ternos sentimentos Dos que amar só procuram, e não podem Na solidão senão atormentar-se. Do recato das filhas temerosos Pensam os rudes paes, que em sopeal-as Alcançam extinguir o voraz fogo Que sopra a Natureza, e que ella atêa. Nescios, de amor lhe formam attentados, Que o coração desmente, e que não pode Saber justificar a razão mesma. Benignas emoções chamam flagicios, Que infernaes penas castigar costumam; Sem que atinem o modo por que devam Tornal-as puras, e do crime alheias, Porque do crime o amor não diff'rencêam, Amor, e crime o mesmo lhes figuram. Ah! que de um pae o emprego não tolera Maximas impostoras, vís idéas Que religião não soffre, e que forcejam Para co'a religião auctorisal-as. Saiba-se pois té onde o culto, a honra De um Deus se estende, e quaes limites devem Marcar-se ás impressões da natureza: Em vez de afferrolhar as tristes filhas, Busquem mostrar-lhes da virtude a senda, Do vicio a estrada com desvelo attento. Pois que impureza, e amor um rumo seguem Consiste o mal ou o bem na escolha d'este. Sim, chara Olinda: como tu, eu propria Falta da sociedade, porque n'ella Viam meus paes o escolho da innocencia, As mesmas emoções senti outr'hora; Nos tenros annos teus então zombavas Do que nem mesmo decifrar podias. Quantas vezes meu coração ás claras Te descobri, querida; e quantas vezes O meu desassocego não provando, Rias dos sentimentos, que em minh'alma Entranhados estavam, sem que a causa D'elles jámais me fosse conhecida? Agora os exp'rimentas, crês agora O que falso julgaras, verdadeiro!… A Natureza em ti o germen lança, Que a ajudal-a te incita: Amor te inflamma, Porque sensivel és; e bem que hesites Sobre o objecto, que deve contentar-te, Ella t'o mostrará em tempo breve. Não te assustem do seu dominio as forças, Porque de jugo seu o peso é leve. Não mais soffres fervidos desejos, Que o coração te ancêam, e bem podem A languidez eterna victimar-te, Se de amor o remedio os não sacia. Attenta sobre mil louçãos mancebos, Cheios de encantos: olha-os indulgente, E d'entre elles escolhe um, cujo peito Tão docil como o teu seja formado. Olinda, ama; conhece que delicias Amor encerra, amor, alma de tudo; Amor, que tudo alenta, e que só causa Os gostos de uma vida abbreviada. Se contra amor dictames escutaste, Que seus effeitos pintam horrorosos, Não dês credito a maximas fingidas, Que a lingua exprime, e o coração reprova: Que mal provém aos homens, de que unidos Dois amantes se jurem fé, constancia? Que um ao outro se entreguem, e obedeçam Da Natureza ás impressões sagradas? Rouba a virtude acaso a paixão doce Que beijos mil só farta, e que só pode Nos braços de um amante saciar-se?… Não; amor a virtude fortifica: Mais a piedade sobre as desventuras Que os outros soffrem, mais a humanidade Em nós se augmenta, quando mais amamos. Se desde o berço em nós força indizivel Sentimentos de amor vai radicando; Se, mal balbuciamos, quanto vemos A falarmos de amor nos estimula; Se a edade vai crescendo, e a natureza Nossas feições altera; assignalando Com marcas bem sensiveis, que chegámos Ao prazo, em que é lei sua amar por força, Ou desnegar então nossa existencia: Se tudo a amar convida, e nos impelle, Quem ousa amor chamar crime execrando?.. Ah! deixa, Olinda, deixa que alardêem Virtude austera hypocritas infames: Sabe que, em quanto amor horrivel pintam, Em quanto aos olhos teus assim o afêam, De uma amante venal nos torpes braços Vão esconder transportes, que os devoram, E, por castigo seu, sómente gosam Emprestadas caricias, vís affagos. Mas quando assim os homens dissimulam, Para dissimulares te dão direito: Finge, como elles; ama, e lh'o disfarça; Que é mais um gosto amar ás escondidas. Affecta, embhora, affecta sisudeza Já que a affectar te obrigam, e em segredo De instantes enfadonhos te indemnisa: Zomba dos seus ardís, e estratagemas; Dize, entre os braços de um amante charo, Que mais credulos são, do que te julgam, Se crêem nos laços seus aprisionar-te. Se os deleites de amor são só delictos Quando sabidos são, com veo mui denso A perspicazes olhos os encobre: Vinga-te d'esses, que abafar procuram As doces emoções, que n'alma sentes. São estes os conselhos de uma amiga Que os bens te anhela, que ella saborêa. Sabe, por fim, que quanto mais retardas Tão ditosos momentos, sem gosal-os; Quanto mais tempo perdes ociosa Sem às vozes de amor ser resignada, Tanto mais tempo tens de lastimar-te, Por não têl-o em amar aproveitado.
EPISTOLA V. OLINDA A ALZIRA.
Alzira, sou feliz!.. Quanto te devo!… Das tuas instrucções é tal o fructo. Quanto encarava em torno era a meus olhos De lugubres idéas feio quadro: Tudo o que vejo agora alegres, vivas, Imagens prazenteiras, me suscita. Os ternos sentimentos, que provava, Mil vezes combinando com dictames Que desde a infancia sempre m'inspiraram; Mil vezes reflectia que dos homens, Ou de um tyranno Deus era ludibrio: Conceber não podia que existisse Para experimentar contínua lucta Entre impressões da propria natureza, E principios chamados da virtude. No pélago de embates tão terriveis Fluctuando implorei o teu auxilio; Meu coração te abri: tu leste n'elle O que eu nem mesma deslindar sabia. Tu me ensinaste a ver quanto fingidos Os homens são, nas vozes, e nos gestos: Rasgaste aos olhos meus mascara infame Com que têem de uso todos encobrir-se; Das bordas me salvaste de um abysmo, Onde a infeliz Olinda ia arrojar-se, Perdôa, Deus immenso! Eu blasphemava Contra a tua justiça; eu te suppunha Auctor do mal, que os homens machinavam; Cria-te inconsequente, e despiedado, Pois sentimentos me imprimiras n'alma Que ás tuas leis contrarios me pintavam!… Tu foste, Alzira, foste a que lançaste Um brilhante clarão ante os meus passos… Finalmente aprendi que a singeleza Do mundo era banida, e o seu imperio Os homens tinham dado á hypocrisia. Ruins!… Amor por crime affiguravam, E nem um só de amor vivia isempto!… Para elles não é crime um crime occulto, Porque a simulação reina em sua alma, Porque o remorso abafam em seu peito. Amor um crime!… Os gostos mais completos, E os mais puros deleites o acompanham: Se a ventura maior se une ao delicto, Quem ha que se não diga delinquente? D'entre as delicias, que gosei, querida, Com as tuas lições fugiu o crime. Eu não senti no coração bradar-me A voz d'esse pezar, sequaz da culpa: No meio dos prazeres, que gostava, Graças rendi a um Deus, que m'os concede: Se elle troveja sobre os criminosos, Nunca os seus raios menos me assustaram!… Um amante acabou o que encetaste; Elle, cujo olhar meigo me assegura As doces qualidades, que o adornam, Affastou-me do espirito receios, Que de mau grado combatia ainda. Reinava em seus discursos a franqueza, E o fogo, que brilhava nos seus olhos, Que o rosto lhe incendia, em seus transportes Que eram nascidos d'alma, me dizia: O labéo da impostura o não denigre; Não é como o dos outros seu character; Ingenuo, affavel, ah! prezada Alzira! Se tão amavel é o teu Alcino, Ninguem como eu e tu é tão ditoso!… Pouco preciso foi para vencer-me: Não teve que impugnar loucos caprichos, Com que ufanas amantes difficultam O mutuo galardão, que amor exige: Se amor ambos int'ressa, e ambos colhemos Seus mimosos favores, porque causa Havia de indiff'rença dar indicios, Quando o meu peito, ancioso, palpitava? Se eu o levava da ventura ao cume, Não me dava elle a mão para seguil-o? Sim; nos seus braços, me arrojei sem custo; E se o pudor as faces me tingia, Inda as chammas d'amor mais me abrasavam. Eu nadava em desejos indiziveis; E quantos beijos recebia, tantos Cheios de egual fervor lhe compensava: Seus labios inflammados ateavam As doces labaredas, em que ardia, E meus labios, aos labios seus unidos, Sensações recebiam deleitosas, Que me filtravam pelo corpo todo… Tão grandes emoções exp'rimentava, Que a tanto gosto eu mesma succumbia! Presa a voz na garganta, não sabendo Nem já podendo articular palavra, Respirando anciada, e com vehemencia, Os meus sentidos todos confundidos, Sem nada ouvir, nem ver, apenas dando Signaes de vida, de prazer morria. Excepto o meu amante, em taes momentos Longe da idéa tinha o mundo inteiro: O mundo inteiro então forças não tinha Para do meu amante desprender-me. Debalde ante meus passos furibundo Monstro espantoso vira: em vão lançara Do aberto seio a terra ondas de fogo; Em vão coriscos mil o céo vibrara; Dos braços do amante em taes momentos. Nada, nada podia arrebatar-me. Oh quem podéra, Alzira, descrever-te Que extasi divinal veiu pôr termo A taes instantes de suaves gostos!… Isto pode sentir-se, e não dizer-se… Agora, e só agora me parece Que começo a existir: reproduziu-se Uma total mudança na minha alma. O mundo para mim já tem encantos; Sob outras côres vejo mil objectos, Que a phantasia me pintou tristonhos: Propicio Amor abriu-me os seus thesouros, A Natureza seus thesouros me abre: Tudo te devo, amiga; em todo o tempo A teus doces conselhos serei grata: Oxalá ditas tantas saborêes Quantas por ti, querida, eu propria góso! Oxalá sintas com Alcino os gostos, Que eu exp'rimento, de um amante ao lado! Nem ventura maior posso augurar-te, Porque maior ventura haver não pode.
EPISTOLA VI. ALZIRA A OLINDA.
A temerosa Olinda é quem me escreve? É este o seu pudor, sua innocencia? Ah! Que as minhas lições tão bem acceitas, Dão-me a ver que a discipula inexperta Ha de em breve ensinar a propria mestra. Olinda não sabia o que excitava Dentro em seu coração ternos impulsos, Que tanto a angustiavam… Não sabia Qual d'extranha mudança em suas fórmas, Em seus membros gentís a causa fosse! A voluptuosa Olinda, devorada Do mais activo fogo, ingenuamente Consulta a sua amiga, e a um leve aceno Corre a engolphar-se na amorosa lida. Basta um momento a transtornal-a toda! E porque de tão prospero successo Pretendes, tu, querida, dar-me a gloria? Não, não fui eu; sómente a natureza Sabe fazer tão subitos prodigios: Como depressa ao mal, que te inquietava, Próvida suggeriu remedio activo! Como de uma boçal, incauta virgem Uma amante formou tão extremosa! A agradavel pintura, que bosquejas, Dos férvidos transportes, que sentiste Entre os braços do amante afortunado, Não é, querida Olinda, tão sincera, Como sincera foi a que traçaste De ignotas emoções a Amor sujeitas. Já não te exprimes com egual candura: Filha da reflexão nova linguagem, Por artificio mascarada em lettras, Vejo, que annunciar-me antes procura Apoz do que se ha feito o que se pensa, Do que por gradações d'acção o int'resse Pouco a pouco esmiuçar, dar-me a ver todo. Rasga o pudico véo, com que debalde Aos olhos de uma amiga esconder buscas Voluptuosas traças, que transluzem Nas tuas expressões; quando innocente Menos recato n'ellas inculcavas, Eu lia com prazer dentro em tua alma Os sentimentos, que a affectavam todos. Tenho direito agora a exigir-te A ingenua confissão d'esses momentos Preludios do prazer, em que te engolphas. Quero saber porque impensados lances D'um amante nos braços te arrojaste; Como o pudor fugiu, e o que sentiste Quando, abrasada em férvidos desejos Misturados com dôr indeffinivel, De amor colheste attonita as primicias, E provaste entre gostos, e agonias O que uma vez, não mais, pode provar-se; Tens um amante; eu sou a tua amiga; Elle te dá prazer, d'ella o confia: Gosta os momentos, que gosar não podes, Do goso em recordar puras delicias: Nem todo o tempo a amor pode ser dado. A mór ventura, que o mortal encontra, Seja embhora infeliz, ou desgraçado, É lembrar-se que foi já venturoso; E o não desesperar de sêl-o ainda, Um termo aos males seus põe muitas vezes. Alzira foi do teu prazer motora, A gratidão te obriga a dar-lhe a paga. É nobre o meu int'resse, e não mesquinho; Pago-me d'escutar as tuas ditas, E cedendo a meus rogos falso pejo, Saiba eu teus momentos deleitosos. Mas vê que o sacrificio, que te peço, Eu propria generosa abro primeiro: Primeiro eu quero timidos receios Calcar aos olhos teus; entra em mim mesma, Vê como reina Amor dentro em minh'alma! Como só elle faz meus gostos todos! Chamem embhora apathicos estoicos Ardores sensuaes os que me inflammam; Chamem-me torpe, chamem-me impudica; Taes vilipendios valem o que eu góso! Venha a rançosa, van theologia Crimes fingir, crear eternos fogos; Eu desafio os seus sequazes todos, Eu desafio o Deus, que elles trovejam! Nos mais puros deleitos embebida, Bem os posso arrostar, posso aterral-os! Não estremeças, não amada Olinda; Longe do Fanatismo a turma odiosa, Que infames leis, infames prejuizos, Quaes cabeças fataes d'hydra indomavel Para o mundo assolar tem rebentado: Não ha para os christãos um Deus diff'rente Do que os gentios têem, e os musulmanos: Dogmas de bonzos são condignos filhos Da fraude vil, da estupida ignorancia, Da oppressora politica productos. O que Razão desnega, não existe: Se existe um Deus, a Natureza o off'rece: Tudo o que é contra ella, é offendel-o. A solida moral não necessita De apoios vãos: seu throno assenta em bases, Que firmam a Razão, e a Natureza. Outra vez eu farei que estes dictames Com seguros principios sustentados, Destruam tua credula impericia; Abafando illusões, que desde a infancia Te lançaram na mente inculta, e frouxa, Que Furias tem, que tem Dragões, e Larvas Para os gostos da vida atassalhar-te, Para a remorsos vís dar existencia. Por ora segue o culto, que te apontam As emoções da propria Natureza: Sê religiosa e firme em pratical-as. O meu Alcino, a quem eu devo tudo, N'um momento desfez o que em tres lustros Nescios paes procuraram suggerir-me. Por habito adoptei de uns a doctrina, Por gosto d'outro as maximas sem custo Dentro em meu terno peito radicaram. Tu sabes, minha Olinda, quam perplexa Minha alma balançava entre os combates; Que a rude educação, que recebera, Dentro em mim mesma oppunha sentimentos Cujo extranho poder toda me enleava. Foi n'este estado de incerteza, e inercia, Que Alcino desposei: occulta força Me impellia a adoral-o; não sabendo De deleites que fonte inexhaurivel Se ia abrir para mim entre seus braços. Do dia nupcial todo o apparato Olhava com um sonho!.. É impossivel A estupidez, o pasmo em que me via Traçar aos olhos teus; lembra-me apenas A inquietação d'Alcino em todo o dia, E a avidez de prazer, em que enlevado, Terminado o festim, já n'alta noute Ao thoro nupcial foi conduzir-me. Ficámos sós: eu timida, agitada, Em sossobro cruel (qual branda pomba, Que ao tiro assustador vôa, e revôa, Aqui, e ali mal pousa, se levanta Sem guarida encontrar, que ao p'rigo a salve) Palpitava, tremia, e de meus olhos Corria em fio inespontaneo pranto. Eu sentia no rosto, e em todo o corpo Espalhar-se o rubor, que gera o sangue, Pelo fogo, que toda me abrasava. Não sei que meigos termos n'este tempo Soltava Alcino; eu nada percebia; Porém vi que a meus pés, banhado em gosto, Chorando de prazer, supplices votos, Ardentes expressões balbuciava: Pelo meio do corpo com seus braços Cingindo-me ancioso sobre o leito Me foi emfim lançar. Quando eu ardia Em chammas de pudor, o mesmo incendio Dava a Alcino soffregos transportes: Suas trementes mãos me despojavam Dos nupciaes ornatos; e seus beijos Convulsivos exforços, que lhe oppunha, Pagavam com furor; suas caricias Amiudando affouto, e temerario. Irosa quiz mostrar-me; mas os fogos Que o pejo tinha acceso, então tomando Mais activo calor, porém mais doce; Minhas repulsas, de ternura cheias, A maiores arrojos o excitaram; Menos timido, quanto eu mais irada, Meus olhos, minhas faces, e meu seio Beijava Alcino: eu languida fitando N'elle amorosas vistas, reclinei-me Sem resistir-lhe mais, sobre o seu collo: Importunos vestidos, que estorvavam Seus inflammados beiços de tocarem Occultos attractivos… longe arroja. Então aos olhos seus (tu bem o sabes, Quando outr'hora passavamos unidas Em innocentes brincos… feliz tempo!) Meus peitos, cuja alvura terminavam Preciosos rubís, patentes foram. Ao voluptuoso tacto palpitante Mais, e mais se arrijaram, de maneira Que os labios não podiam comprimil-os. Meus braços nús, meu collo, eu toda estava Coberta de signaes de ardentes beijos. Os leves trajos, que ainda conservava, Em vão eu quiz suster: rapido impulso Guiava Alcino: d'Hercules as forças Ali vencera… As minhas que fariam? Co'as forças o pudor desfallecido Deixei fartar seus olhos, e seus gestos. «Que lindos membros!… Que divinaes fórmas!… (De quando em quando extatico dizia) «Ah! que mimosos pés!.. Oh céo!.. que encantos!.. «Que graças apparecem espalhadas!.. «Que thesouros de amor sobre estas bases!.. «Oh! que prazer!.. que vistas deleitosas!.. «Alzira, eu vejo em ti uma deidade! «Deixa imprimir meus osculos aonde «Entre fios subtís se esconde o nacar!.. «Deixa esgotar a fonte das delicias!.. «Ah! deixa-me expirar aqui de gosto!.. «Não mais rubor, Alzira, não mais pejo!..» Eram brazas, que as carnes me queimavam, Seus dedos, os seus beiços, sua lingua! Sim; sua lingua, bem como um corisco, Abriu rapida entrada, onde engolphadas Todas as sensações luctavam juntas: Pela primeira vez dentro em mim mesma Senti gerar-se subita mudança, Com que de envolta mil deleites vinham. Communicou-me sua raiva Alcino, E na lasciva acção, que proseguia, Tal int'resse me fez tomar, que eu propria A seus intentos me prestei de todo. Entre incessantes gostos doces gotas Brotavam sobre os toques impudicos: Mas quando, ao crebro impulso, extasiada Cheguei ao cume do prazer celeste, Ardente emmanação de intimos membros, Que electrisavam fogos insoffriveis, Innundou o instrumento das delicias, Como se ao crime seu vibrassem pena, Ou antes dessem premio: affadigado Na maior languidez, quasi em deliquio, Alcino veiu ao meu unir seu rosto. N'este instante, eu não sei que desejava; Sei que o primeiro ensaio dos prazeres Em vez de suffocar activas chammas, Scentelhas transformou em labaredas, Infundiu-lhes vigor inextinguivel. A ardencia dos desejos combatia Receio occulto, sem nascer do pejo. N'um volver d'olhos se despiu Alcino, E deu-me nú a ver quam bem talhado D'hombros, e lados com feições formosas Seu corpo era gentil: válidos membros Cobria fina pelle; era robusto, E delicado a um tempo; esbelto, airoso, Mediocre estatura, olhos rasgados, Mimosas faces, rubicundos beiços, Cheio de carnes, sem que fosse obesso, Egual nas proporções… Eis um mancebo Digno de a Marte, e a Adonis antepôr-se, Não tendo de um a rude valentia, Nem tendo d'outro a feminil brandura. Então lancei curiosa avidas vistas Sobre ignotas feições: fiquei pasmada Ao ver do sexo as distinctivas fórmas Dobrando a extensão: dobrou meu susto, Mormente quando, desviando Alcino Meus pés unidos, entre meus joelhos Seus joelhos encravou, e com seus dedos Procurou dividir da estreita fenda Pequenos fechos, sobre os quaes, de chofre, Assestou o canhão, que me assustava. Ao medo succedeu uma dôr viva, Como se agudo ferro me cravassem.... Alcino impetuoso ía rompendo A tenue fenda… Em vão, com mil gemidos Em pranto debulhada, eu lhe pedia Que não continuasse a atormentar-me: O cruel, minhas lagrimas bebendo, Respirando com ancia, e furibundo, Com a bôca calada sobre a minha, Meus gritos abafando, me rasgava: Mais internos pruridos flagellavam Intactos membros, mais ardor vehemente Abrange a todos do que os outros soffrem. Copioso suor ardente, e frio O cançasso d'Alcino, a afflicção minha, Inculcavam assás, que eram baldados Seus exforços crueis para romper-me. Tão ardua intromissão debalde havia A custo do meu sangue repetido. Se enorme corpo diminuta porta Deve transpôr, carece de abater-lhe Antes d'entrar, humbraes a que se encosta. A violenta fricção traíu Alcino, E o membro, que tentava traspassar-me, Da propria sanha aos impetos rendido, Succumbiu, espumando horrendamente. Da electrica materia nas entranhas Caíram-me faiscas derretidas; Um vulcão se ateou dentro em mim toda. O insoffrivel ardor, que me infundiu Liquido tiro, ao centro já chegado Por onde apenas o expugnado forte Da inimiga irrupção indefensavel, Podia receber patente damno, Taes estragos causou, que mais valêra A entrada franquear ao sitiante. Já dor não conhecia: chammejava Meu proprio sangue, com violencia tanta Que lacerar-me as vêas parecia. Na estancia do prazer lançára Alcino Do Mont-gibello as lavas, e extinguil-as Só torrentes mais fortes poderiam. Improviso calor calou-me o peito: Quizera eu já expor-me aos vivos golpes; Quizera já no meio da carnagem A batalha suster, ganhar a morte, Ou a victoria, de triumphos cheia. Tardava a meus desejos ver completa D'Alcino a empreza; eu mesma o provocára Se, em fim, refeito da ufanosa esgrima O não visse ameaçar um novo assalto. A um resto de temor maldisse affouta, E comigo jurei de não dar mostras De leve dor, bem que me espedaçasse. Alcino sotopõe uma almofada Para o alvo nivelar, e separando Quanto mais pôde nitidas columnas, O edificio tentou pôr em ruina. Ao forte insano impulso eu respondendo, (Ah! que o valor cedeu no transe afflicto!) O muro se escallou!… Foi tal a força Da agonia cruel, que esmorecendo Semiviva fiquei; em quanto Alcino Dobrando, e redobrando acerbos golpes, Do reducto de amor o intimo accesso Penetra entre meus ais, e os meus gemidos; Outra vez attingiu supremo goso, Goso celestial, cujos effluvios Um balsamo espargiram deleitavel, Que socegou a dor, chamando a vida. Lethargicos alentos me abysmaram N'um pélago de gostos indiziveis; Elevaram-me a um céo d'immensas glorias: Encadeei Alcino com meus braços, Enlacei-o com os pés entre as espaldas; Férvidos beijos dando, e recebendo Com phrenetico ardor, com ancia intensa, Chamando-lhe meu bem, minha alma, e vida; Vozes, suspiros confundindo… tanto, Tanto em fim apressei dos hirtos membros Forçosa agitação, que n'um momento Ineffaveis delicias destillando Alcino em mim, e eu n'elle, ao mesmo tempo, Libámos juntos quanto prazer podem Os mesmos homens figurar deidades… Minha Olinda, que instantes!… Eu não posso Traçar-te a confusão de emoções novas Que no extasi final me transportaram!… Amarga, acerba dor succumbe ao goso Da ventura sem par… Vitaes alentos Saborear não podem tantos gostos… É preciso morrer entre deleites, E melhor fôra não tornar á vida, Que conserval-a sem morrer mil vezes. Sete vezes Amor chamando ás armas Seus subditos fieis, travou peleja; Sete vezes Amor bradou «Victoria!» Da indefensa coragem conduzido Morphêo veiu c'roar nossas proezas. Eis de que modo a tua Alzira soube D'Amor com as lições sublime vôo Erguer affouta sobre o nescio vulgo; Este odeia o prazer por van modestia, E as pudicas vestaes, escravas do erro, Não cessam d'embair-nos, affectando D'uma virtude van mimicas fórmas, Que o que se anhela mais a encobrir forçam; Forçam em vão, que a Natureza brada, E ao grito seu, queira, ou não queira o mundo, Curvo depõe ficções, da insania filhas, Tirando abrolhos, que da vida lança Na aprazivel estrada impostor bando. Assim ornei a fronte radiosa De vicejante rama, que decóra Victorias, que do erro heróes alcançam. Toma das minhas mãos, amada Olinda, Proveitosa lição; tu já começas Triumphos a ganhar, cheios de gloria: Docil tua alma a improbos dictames, Docil será tambem de mais bom grado, Ás piedosas leis da Natureza: Retrocede, como eu, da inextricavel Sinuosa Vereda, onde perdidas Palpamos trevas, tacteando abysmos; Desapprende a fingir: só quadra ao vicio Acobertar-se com mendaces roupas. A modestia, o pudor gera a ignorancia, Ou do mal-feito um sentimento interno; O mais é cobardia, ignavia rude, Que só n'uma alma vil pode arraigar-se. Cabe, a quem soube respirar, vencendo Da impostura as traições, um ar mais puro; Olhar d'em torno a si, ver quam distante Pulverulenta jaz infame turba: Cabe ostentar o garbo, e a louçania Que espanta o vulgo, impondo-lhe o respeito De que a nobre altivez se faz condigna. Deixa-lhe os modos, toma o que te cumpre, Sincera Olinda, tua amiga imita. Eu não córo de dar-me toda a Alcino, Nem eu córo tambem de confessal-o: Instinctos naturaes se não são crimes, Como crime será narrar seus gosos?… Se é innocente a acção, a voz não pecca; D'est'arte saborêa o que estudaste, E d'est'arte falar, ah! não vacilles!… Não te escuse o pensar que egual pintura Objecto egual exige, minha Olinda. Não; nos gostos de amor sempre ha mudança, Amor sempre varía os seus deleites. Eu mostrei-te o modêlo; em mim o encontras; Usa da singeleza que te é propria, E abre o teu coração, cheio de goso, Qual, antes de o provar, ingenua abriste. Se expôr da sorte infensa a crueldade Dá lenitivo ao mal, que se exp'rimenta, Sobre-eleva o prazer á extrema dita, Quando de o confiar redunda interesse. Eia, querida! annue aos meus desejos, Rouba um instante a amor, dá-o á amizade.
EPISTOLA VII. OLINDA A ALZIRA.
Tu não podes saber, querida Alzira, Com que alegria as cubiçadas lettras Da tua Olinda foram recebidas! Não o podes saber, nem eu dizer-to. Que pura locução, que Amor ensina! Quam diff'rente linguagem da que falam Os livros, que me dá o meu Bellino! N'elles descubro o sensual estylo Que a modestia revolta, e que não quadra Ás puras sensações, que Amor excita. Phrase brutal, sem arte, e sem melindre, Qual despejada plebe usar costuma; N'elles de Amor os gostos enxovalha Mysterioso véo, que arrancar ousam Com mão profana d'ante o sanctuario Que Amor encerra, e d'onde o deus occulto Manda aos mortaes um cento de venturas. D'elles o numen foge, e por castigo Leva apoz si deleites, que não provam: Em vez de graças mil, de mil prazeres Priapeo tropel impios incensam. Dá-me tedio a lição de escriptos torpes, Onde o prazer fugaz, lassos os membros, Sob mil fórmas em vão se perpetua. Lassos os membros, lassos os sentidos, Debalde esgotam, soffregos de gostos, De impudicicia innumeraveis gestos. Morre a chamma, que amor mutuo não sopra; Como é vil a expressão, e é vil o goso Que uma Thereza, que outras taes francezas Em impuros bordeis gabar se uffanam! Foi-me preciso, Alzira, usar do imperio Que a um fraco sexo deleitosos modos Fagueiros, ternos emprestar costumam, Para do amante meu obter a custo De obscenas producções o sacrificio, Que o coração corrompem, e devassam Puros desejos, sentimentos doces. Mostrei-lhe que o prazer esmorecia De amavel illusão sem os preludios; E que, apezar dos seus vivos protestos, Se os sentidos assás lisonjeava, Mil emoções gostosas embotando, Impellido a gosar continuamente, Escravo do prazer na sua amante Não fartaria hydropicos desejos: Ardentes Messallinas buscaria, Entre os braços das quaes mais facil era Á vida termo pôr, que saciar-se. Cedeu às minhas supplicas, e agora Grato me diz — que se elle da ventura O caminho me abriu, eu n'elle o guio: Assim, quando os sentidos fatigados De amor se negam a esgotar delicias, Mana do coração inexhaurivel Prolifica virtude, que os alenta. Assim de gostos perennaes correntes Franquêa Amor, a quem o não profana: De Amor os gosos são como o diamante, Que, sem o engaste que tocar-lhe véda, Perdera a polidez, perdera o brilho. Ame o lascivo o mau, o torpe o obsceno: Eu em tuas expressões aprendo, Alzira, Como a ternura impera nos sentidos: E d'um, e d'outro regulando as forças, De amorosos tropheos requinta a gloria. O sensual atolla-se nos vicios, Cujo infesto vapor todo o corria De lançar-lhe no tumulo o esqueleto; D'outra arte aquelle, que libar suavisa Nectar, que Amor esparge aos seus validos, Das rugas, e das cans não teme o estrago; Que nos ultimos annos pode ainda Em seu transporte Amor beijar na face. Mas que exiges de mim? Pensas, Alzira, Que a rude Olinda como tu descreva A emmanação dos gostos, que se provam Quando o primeiro amor os desenvolve Da terna virgem no innocente peito? Reclamas a candura, de que usava Antes de me illustrar de Amor o facho? Ousas mesmo increpar-me de artificio, Porque eu não sube delicada têa Urdir aos olhos teus, porque eu não sube As effusões de amor envolver n'ella, E, qual me envias, dar-te digna offerta? Basta, tu mandas; vou obedecer-te. Tenho ante os olhos instrucções sobejas Para pintar o quadro dos deleites Que de dous entes n'um absortos brotam. Tu me dás os pinceis, o molde, as côres; E no meu coração, prezada amiga, Fecunda o goso meigos sentimentos, Que só acabarão, se amor acaba!… Que chimericos ceos fórma a impostura!.. Aonde móres delictas se promettem Que as de um amante, d'outro ao lado unido? Eu sonhava illusões, antes que fosse Nos mysterios de amor iniciada. Errava de um em outro labyrintho, D'onde os conselhos teus, amada Alzira, E Amor, dando-me o fio de Ariadna Me fizeram sair: deixam-me forças Para abafar o monstro, que meus dias Tinha de funestar com vãos temores, Filhos do erro vil, da fraude abortos. Qual vaguêa nas trevas sem acordo Perdido o tino, afflicto o caminhante, D'alta terra entre as faldas pedregosas, Ou de invia selva na espessura vasta; Aqui tropeça, ali se encontra, e bate, Macera as mãos, o rosto, e tenteando Um pé lhe escapa, cai, rola-se o triste, E n'um barathro crê despedaçar-se; Eis improvisa luz assoma ao longe; Attenta o infeliz, toma-a por norte, E dos p'rigos, que o cercam, se vê salvo: Taes tuas lettras para mim brilharam Na escuridão fatal, que me envolvia. Não espaçou Amor ditoso prazo Para no gremio seu a tua Olinda Bemfazejo accolher. Vira eu Bellino Passar uma, e mil vezes, attentando Com interesse em mim, attentei n'elle, Em seu terno olhar, e meigos gestos; Vi que um amante o ceo me destinava: Em breve os olhos meus lhe responderam Ás mudas expressões, que os seus diziam: Em breve as suas cartas, de amor cheias, Fizeram dar egual calor ás minhas, Accendendo os meus férvidos transportes. N'uma cerrada noute, quando ao somno Estava tudo entregue, Amor velando No meu peito, e no seu, a vez primeira Nos ajuntou em fim: elle exultava De indizivel prazer: eu me sentia Na agitação maior de gosto, e susto. Ao dar-lhe a mão, para o guiar de manso Té ao aposento meu, subito fogo Calou-me as vêas, penetrou-me toda. Mas quando, já fechados um com outro, Vi que seus gestos, mais que suas vozes, Sua ternura ousada me exprimiam, Lembrou-me o p'rigo, a que me havia exposto. Tarda lembrança, que cedia a embates De ignoto medo, que o rubor gerava! Queria eu impedir-lhe ardentes beijos, Mas vedavam-no as chammas, que accendiam; E ás primeiras caricias insensivel, Luctando entre o pudor, e entre o desejo, Em mil contrarias reflexões absorta, Meu silencio e inacção a empresas novas De maior valor, Bellino excitaram: Confesso, que devéras quiz oppôr-me A seus intentos no primeiro instante: Porém pouco tardou que abrazeada Em chammas voluptuosas, resistindo A seus esforços, mais lhe franqueava Facil accesso a proximos triumphos. Sentado junto a mim, lançando um braço Em redor do meu collo, até cingir-me. E obrigar-me a chegar ao seu meu rosto; Com a mão sobre os peitos inquieta, Que ao crebro palpitar os apressava; E os labios discorrendo os olhos, faces, Té fixal-os nos meus, ou por entre elles Confundindo os alentos, lançar chammas Dentro em meu coração, qual facho acceso; A ardente lingua sua unindo á minha, Ou, sobre o seio meu calando a bôca, N'elle impressos deixar seus proprios beiços. Com mão mais temeraria, do vestido Pela abertura a occultos attractivos Indo o fogo atear… Ah! que eu não pude Mais resistencia oppôr a seus desejos! Apenas leve fisga separando Um dedo seu, que um raio parecia, Tocou o sitio onde os deleites moram, Subito, alvorotados uns com outros Travando estranha lucta, me levaram Onde, fóra de mim, quasi sem vida, Só quanto então gosei, gosar podia. Dos membros todos foram engolphar-se As sensações ali; e só tornaram A ser o que eram, quando ao mesmo tempo Sua potencia intrinseca exhalando; Fiquei de todo languida, e abatida: O perverso Bellino attentos olhos Nos meus então fitando, quiz ler n'elles De que ficções minha alma se occupava. Foi extremo o rubor, que de improviso Minhas faces tingiu: lancei-lhe os braços, Escondendo meu rosto no seu peito, Por não poder suster-lhe as doces vistas. A minha terna acção atraiçoou-me: Que o maligno, pegando-me do rosto Com ambas suas mãos, mais me encarava; De confusa me ver folga, e se ufana, Com beijos mil parece devorar-me; Entre os seus braços mais e mais me aperta, E pouco a pouco sobre mim se inclina: Minha cabeça no sophá encosta, Meus pendentes pés trava, e os submette Entre os seus mesmos té que, em fim, de todo Senti do corpo seu o pezo grato. Meu leito era defronte: mas Bellino No largo canapé circ'lo bastante Habil athleta achou para o combate. Perplexa, em mil affectos engolphada, Irada, enternecida, em cruel lucta, Meus sentimentos todos labutavam: Um timido pudor activos fogos Contrariava em vão, em vão retinha Ignotos medos, soffregos desejos: Suspensa, e curiosa eu esperava Gostosa scena, em que prolixas noutes Pensando o que seria, despendêra. Em quanto d'esta sorte embellezado Me tinham taes idéas, já Bellino No phrenesi maior de gráu, ou força, Os meus secretos votos preenchia. Em torno da cintura levantados Meus trajos inferiores, sobre os joelhos Sentindo os de Bellino desprendidos, Alargando-me os pés, tomando entre elles Vantajosa attitude a seus projectos, Franqueando co'a mão facil entrada Á chammejante lança, que tocava O mesmo sitio, que invadíra o dedo: Forcejou para ferir-me com seus golpes, Com impeto tamanho, com tal raiva Que nem dos gritos meus se commovia, Nem podia o meu pranto apiedal-o; C'o forte impulso as movediças carnes Levava-me ás entranhas; da ferida Corria o sangue, mas sem que podesse Ao ferro assolador achar bainha. Seus dedos sanguinarios finalmente D'uma, e outra parte com vigor sustendo Flexiveis membros, redobrando as forças Da valente impulsão, a cruel lança Rompeu cruento ingresso… traspassou-me. Que dor, Alzira!… Dei tão alto grito Que Bellino depois disse o assustára, Bem que fosse de meus páes distante o quarto. Sem sentidos fiquei, em quanto o amante Os trophéos da victoria recolhia; E só tornei a mim, quando ao meu sangue Suave irrigação veiu mesclar-se, A agitações de gosto a dor cedendo, De gosto inexhaurivel, que provára. N'um momento apertada com Bellino, N'activa sensação toquei com elle A meta das delicias, transportada De muito mais prazer do que a dor fôra. N'este instante convulsa, e delirante, E como se um espasmo supportasse, Intirissada toda, os meus alentos Senti reconcentrar-se n'um só ponto. Findava o meu amante, inda eu gosava (Comprimindo-o comigo) altas venturas, De que sedenta então não poderia Fartar-me assás: meus braços exhauridos, Meu collo, e pés, eu toda fatigada Do vehemente tremor, em que lidára. Caí prostrada, quasi semi-morta. Quando a meus olhos (que caligens densas Tinham coberto) a luz tornou de novo, Volvi-os sobre o amante, de tal sorte Que ao vêl-o já supplice o instigava: Não ficava ocioso n'este tempo, Que no exame gastou do entrado forte, Pasmado dos estragos, que fizera, E dos despojos, que lucrava alegre. Da machina, que a praça expugnou firme, A estructura e altivez eu divisando, Custava-me a atinar como podéra Plantar-se o obelisco no reducto estreito. Bellino minhas vistas comprehendendo, Fez-me sentir, forçando-me a tocal-o, Marmorea rigidez, côr escarlate, Fórma, e calor de obuz, que disparava. Quando submisso, da peleja lasso, O vi depois sem o estendido conto, Brancas roupas trajava, mais humilde: Mas agora, affrontado, arremeçando Monarcha ufano, a purpura do collo, Com furor ao combate se aprestava. Reverberou seu fogo em minhas faces, E a vêa e vêa d'ellas espalhado De todo o corpo me filtrou os membros. Da lascivia ao pudor jungindo o pezo, Fez-me Bellino levantar, e tendo Elle sentado unidos os joelhos, Sobre elles me sentou, e franco accesso Da lança abrindo á ponta, a foi de manso No riste pondo, té que a meio conto N'elle embebida, sobre si de todo Levando o pezo meu, entrou de modo Que fiquei té ás visceras varada. A introducção tão forte pouco affeitos Meus delicados membros se avexaram: Mas curvando-me um pouco, e com justeza, Achei convir ao estojo o instrumento; Cuja palpitação, sem ajustar-nos, Em cadencia reciproca alliada, Bastava a provocar gosto indizivel, De modo que sem mais fadiga eu pude, Na grata posição Bellino immovel, Attingir o prazer mais saboroso, Nadar em mil deleites engolphada: Aqui, amada Alzira, essa virtude Que appellidam pudor, foi-me odiosa. De seus grilhões liberta, possuida De um venereo furor, impaciente De comprimir a mim o charo amante, Arranquei-me da lubrica attitude, Sobre elle me arrojei, toda anciosa De me identificar c'o meu Bellino; Estreitada com elle, abandonada De amor á raiva, que ambos incendia, Sobre mim o arrastei junto do leito, Onde ao meu peito o seu, aos seus meus labios, Do corpo os membros todos enlaçados Misturando nos osculos o alento, Nos osculos libando doce nectar, Em tal agitação, que aos ceos alçar-me, E abater-me aos abysmos parecia; Ávida de absorver a grossa lança, De soffrer-lhe a rijeza diamantina, E de arrostar-lhe os golpes incessantes, Sentindo o instante em que violento impulso De celeste effusão marcava o termo, Nas mãos, e nos pés sós firmando o corpo, Tanto me impertiguei, que o meu amante Sustive sobre mim, suspenso, em quanto Aos finaes paroxismos succumbindo Ao meu uniu seu ultimo gemido, E dentro das entranhas abrazadas Lançando-me torrentes d'almo influxo, submersa me deixou n'um mar de gosos. Julgas, Alzira, que entre tanto gosto Na assidua compressão me não doiam As maceradas meliadrosas carnes? Ah! que esta dor pelo prazer vencida Irritava emoções deliciosas, Sobre-elavava ás sensações mais gratas. Qual sequioso cervo, repassado Da calmosa avidez, suaves gotas Rabido anhela, e quanto é mais soffrida Ardente sêde, tanto mais ensopa Uma, e outra vez insaciaveis fauces: Não d'outra sorte flagellados membros Da dor pungindos de crueis combates, Balsamica emoção consoladora Com avidez seccavam insoffridos: A elluvião prolifica eu sentia, Pruridos divinaes, e estremecendo Á melliflua impressão, perennaes gosos Bastante tempo apoz gosava ainda. N'este instante expirou dentro em minh'alma Temor nefando, que immolava ao culto. Nova moral raiou de Olinda aos olhos; Eu tive em pouco rispidos preceitos, Ameaças crueis, com que ralavam Meus annos infantís. Doeu-me, Alzira, De ver tanta belleza definhada Da hypocrisia victimas infaustas; Aponta a edade, em que é d'amor forçoso As delicias gosar; em que almo viço Como nas plantas, n'ellas assignalam: Grata reproducção comsigo abafam, Envenena-se o germen da natura, Infecção purulenta as vai minando, Que seus dias termina, ou os condemna A languida existencia: abate o corpo, Abate o esp'rito corruído o alento. Innovámos a acção, eu, e Bellino, E eguaes em forças, sem perder coragem, Nenhum de nós cedeu, bem que durasse Algumas horas o combate acceso: Mas da noute feliz o longo manto Que os mysterios de amor commette ás trevas, Com roseos dedos a invejosa Aurora Cruel abrindo, faz dentro em meu peito A escuridão entrar, que em torno tinha. Foi-me odiosa a luz, que affugentava De mim com o amor perennes delicias. Uma e outra vez Amor tem facultado Ao constante Bellino, á terna Olinda Outros, como estes, prosperos momentos: São de tormento para mim os dias Que tel-o junto a mim debalde busco: Para elle o tempo que sem ver-me gasta, Figura-lhe de um seculo a distancia. Já Hymenêo houvera de enlaçar-nos, Se o mundo, Alzira, o mundo, que não cuida Senão em machinar sua ruina, De longo tempo não tivesse urdido Iniquas tramas, horridas ciladas, Que ao homem (digno premio de sua obra) Barreiras põe na estrada da ventura. Retrocede o infeliz d'um a outro lado, Negras voragens abre ante os seus passos Tropel de Furias, que comsigo arrasta, Filhas do Erro, que animou insano. A Fortuna que foi comigo larga, Negou seus dons a meu querido amante. Elle não conta nobres ascendentes, De quem meus páes se dizem oriundos: É quanto basta, para erguer muralhas De alcance, entre elle e mim, inacessiveis: O ditoso hymenêo não me é preciso, O hymenêo, apparato de teus votos, Para entre os braços seus tecer affouta Indissoluveis nós c'o meu Bellino: Sou d'elle, é meu: os homens que se ralem. Alzira, tu, que a amor meu peito abriste, Abre meus olhos á Natura inteira: Eu quero n'ella ver os meus destinos; Só n'ella eu quero divinaes verdades Solicita explorar, viver só n'ella: Cumpre as gratas promessas, que me fazes, Deva a ti só a tua Olinda tudo. Não ha para os christãos um Deus diff'rente Do que os gentios teem, e os musulmanos? O que a razão desnega, não existe: Se existe um Deus, a Natureza o offerece; Tudo o que é contra ella, é offendel-o. Devo eu seguir o culto, que me apontam As impressões da propria Natureza? Tenho uma religião em pratical-as? Que mundo é este pois, prezada Alzira? Teem os homens levado o seu arrojo Té forjarem um Deus na ousada mente, Traçar-lhe cultos, levantar-lhe templos, Attribuir-lhe leis, que a ferro, e fogo Extranhos povos a adorar constrangem, Immolando milhões á gloria sua? Nos labios teem doçura, e probidade, No coração o fel, a raiva: os monstros São máus por condição, ou máus por erro? Não, eu não posso, Alzira, d'este enigma Romper o denso véo: minhas idéas Jazem n'um cahos de horrida incerteza: Hesitar me não deixes por mais tempo: Minha instrucção confio aos teus cuidados; D'amizade o esplendor dá-te a mim toda; Acaba de fazer-me de ti digna.