CANTO DE PRIMAVERA
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Eis surge a quadra flórida, A quadra dos amores, Vertendo almos fulgores De seio juvenil. Tudo revive ao hálito Que a natureza aquece; Tudo rejuvenesce Á luz do ameno abril. Os bosques odoriferos Se cobrem de verduras: Nos montes e planuras Renasce a tenra flôr; Dos perfumados zephyros Ás musicas suaves Se juntam das mil aves Os canticos d'amor.
Salvè, estação esplendida, Ó luz appetecida, Que á terra dando vida, A tudo dás prazer! Minha alma em doces extasis Festeja a tua vinda, E se ergue á luz infinda, Manancial do ser. D'onde, ó calor benefico, Derivas teu alento? E d'onde o movimento Que dás á creação? Do fóco sempre vívido Que anima a natureza Por toda a redondeza Da terra, e da amplidão. Como nos campos fulgidos Espalha essas estrellas, Assim as flôres bellas Nos campos terreaes: Quão bello, ó Providencia, É teu poder fecundo, Enchendo o vasto mundo D'alentos immortaes!
Debalde o immenso vortice Retoma quanto gera: Tudo se regenera No perennal crisol, E tudo canta harmonico O Ser que, das alturas, Aos gêlos dá verduras, Ás sombras novo sol. Cantae, ó aves módulas, Cantae em côro ledo! Murmurios do arvoredo, Cantae a Jehovah! Campinas aromaticas, Erguei-lhe os mil perfumes Das flôres em cardumes Que a primavera dá! Abriu-se o tabernaculo Da terra florescente; Todo sorri fulgente, Todo respira amor: Resoem n'elle os canticos De mystica harmonia, Dizendo noite e dia: --Hosanna ao Creador!
CATÃO
Como em tarde anuviada, Em tarde de negros véos, Para a terra contristada Sorri o iris nos céos; Mas quando o sol esmorece, O iris desapparece, Tudo é negra escuridão; O mar ruge e se encapella, E nas azas da procella Corre bramindo o trovão: Tal ao sol da liberdade Que sobre Roma luziu, Qual iris em tempestade, Catão á patria sorriu. Mas esse astro que fulgente
Das aguias brilhára á frente, Do Capitolio baixou; E elle, o iris de bonança, Elle, de Roma a esperança, Com seu fulgor expirou. Contra as iras da tormenta, Ó forte, luctaste em vão: Que póde a virtude isenta Contra a geral corrupção? Já não luziam virtudes Como nos seculos rudes D'essa Roma consular; O templo da tyrannia A seus ministros abria As portas de par em par. Inda infante, viste Mario De Roma o sangue beber; E envolvida n'um sudario A pobre Italia gemer. Viste Sylla, o monstro infando, Entre as cabeças folgando, Qual tigre no seu festim; E, infante, bradaste ufano: --Dae-me um ferro, e do tyranno Livremos a patria emfim!--
Não t'o deram: que lucrava O teu valor juvenil? D'um tyranno outro brotava, Nascia a guerra civil. Enxuto de Roma o pranto, Eis que envolto em negro manto Lá surge um conspirador: Scintilla a morte, a ruina No punhal de Catilina, De Catilina, o traidor. Surge, vibora gerada Dos vicios no lodaçal! Sobre Roma descuidada Lança o veneno fatal! Eia, empunha o facho ardente! Entrega a patria innocente Aos punhaes da tua grei! E entre o sangue, á luz do incendio, N'um throno de vilipendio Vem sentar-te como rei! Mas treme! lá sôa o brado De Marco Tullio, orador. Treme! Catão no senado Já dos teus vence o furor. Succumbiste, algoz ferino!
Oh! mas vinga-te o destino Que Roma jurou perder. Catão, cobre-te de luto, Que da Gallia já escuto A guerra civil descer! Gerou-a o triumvirato, Esse monstro d'ambição; Que as eras de Cincinnato, Essas eras já lá vão. D'olhos fitos sobre a Italia Eis desce o leão de Gallia, E Arimino já tomou. É Cezar! eil-o que assoma: Abre-lhe as portas, ó Roma, Que ás tuas portas chegou! Eil-o parte, e já na Hespanha, Os tres legados venceu! Só em Dyrrachio lhe ganha A espada do grão Pompeu. Os mortos jazem aos centos: Sobre os seus restos sangrentos Um homem chora: é Catão. É elle que alli deplora Essa guerra assoladora, Guerra d'irmão contra irmão.
A liberdade expirava: O coração lh'o prediz. Roma, a livre, Roma escrava Ia dobrar a cerviz. Não se enganou: lá troveja O fragor d'alta peleja Em Pharsalia inda uma vez; Pompeu vacilla e fraqueia; A liberdade baqueia De Julio Cezar aos pés. Eil-a que expira, eil-a morta... Oh que não! resurge além! Catão é vivo: que importa Quanto Cezar ganho tem? De Pharsalia aos naufragantes Sobre as areias distantes Da Lybia surge um fanal: São d'elle, d'elle as bandeiras Juntando as rotas fileiras Para um combate final. Mas Cezar lá corre ovante, Vence Juba e Scipião; Tudo ante elle vacillante Se prostra emfim: maldição! Não tarda a hora funesta:
De liberdade só resta Dentro d'Utica um fulgor. Inda Catão lá impera: É lá que o vencido espera As iras do vencedor. Que venha, que ao seu aceno Curvado não ha de vêr Aquelle rosto sereno, Que nunca soube tremer. Caminha, Cezar altivo, E acharás em teu captivo, Em vez de preito, o desdem! Sabes vencer, porém corre, Vem saber como se morre, Aprende a morrer tambem! Catão, Catão, eis chegado O momento de partir! Com que rosto socegado Te vejo á morte sorrir! Antes do golpe supremo Tu paras inda no extremo A meditar com Platão: Assim a aguia alterosa D'alta penha cavernosa Mede sublime a amplidão.
E depois assim como ella, Das nuvens rompendo o véo, Adeja sobre a procella, Deixa a terra, e busca o céo: Tal co'a dextra sempre ousada Cravando no seio a espada, Partiste d'alma os grilhões; E d'entre os vaivens da sorte Voaste, calcando a morte, Ás ethereas regiões. Cezar vence, e ao Capitolio Lá sobe triumphador; Roma cahe do altivo solio, Rojando aos pés d'um senhor. Catão, o livre, expirára... No suspiro que exhalára A liberdade voou. Começava o negro imperio Que um Caligula, um Tiberio, Um Nero, monstro, gerou. Elle entanto, sepultado Nas praias junto do mar, Lá dormia descançado Sob a lagea tumular. Alli a queixosa vaga
Vinha, rolando na plaga, Beijar do livre a mansão; E inda fallar com saudade, Da patria, da liberdade, Á estatua de Catão.
IMITAÇÃO DO ISLANDEZ
Um dia eu te dizia:--se roubada Me fôres, vem buscar-me--e tu não crias Que eu podésse abraçar-te inanimada, Beijar teus olhos, tuas mãos já frias. Mas eu não te amaria, se inconstante Te podésse esquecer na sepultura; Desbotou-se o frescor de teu semblante, Mas inda adoro tua imagem pura. Apagou-se em teus labios o ar da vida, Mas um sôpro immortal veio animar-te; E tu inda és formosa, inda és querida Ao que na terra começou a amar-te. Não me deixes em misero abandono; Escuta ao longe, escuta a minha prece: Quando uma noite a viração do outomno Gemer em nossas rochas, apparece!
E se a lua brilhar, se de passagem Me estenderes a mão d'etherea alvura, Eu surgirei por vêr a tua imagem, Por ouvir tua voz serena e pura. Depois, anjo celeste, no meu seio Repousa a fronte, aperta-me em teus braços; Deixa que eu te acompanhe sem receio, D'esta existencia desatando os laços. Sobre a aurora do polo arrebatados Vamos, no seio d'immortaes venturas, Em nuvens d'ouro e purpura embalados, Cantar, sonhar, dormir n'essas alturas.
Á MORTE
DO MEU AMIGO LICINIO F. C. DE CARVALHO
Morreste, amigo, partiste D'esta mansão passageira! Bem depressa da carreira Tocaste a méta fatal! Com a folhagem dos bosques Gelou-te o vento do outomno, E dormes o longo somno Do teu leito sepulchral! Já tua mão extremosa Não aperta a mão do amigo Que tantas vezes comtigo Em sonhos vãos delirou. No seio da fria terra Já não me escutas nem fallas, Contando lutos ou galas Do teu viver que passou.
Oh! quantas vezes, immersos N'esses intimos enleios, Que fazem um de dous seios, Sentimos horas fugir! Quantas, sonhando horisontes De poesia, amor, ou gloria, N'uma expansão transitoria Creamos longo porvir! E morto jazes, ai! morto, Sem poder de teus anhelos Realisar os sonhos bellos, Cruzar a vasta amplidão?! Morto sem ter dito ao mundo A palavra augusta e sancta Que a turba anciosa espanta, E que é do genio o condão?! Morto á luz da tua aurora Sem que á luz da tua sesta Podésses, na hora funesta, Sorrir ao passado teu?! Morto, ai, morto sem ter ganho Mais lagrimas de saudade, Tão doces á soledade D'aquelle que já morreu?!
Deus! se a vida é campo ameno Onde se vem colher flôres, Porque, do sol aos fulgores, Não se hão de as flôres colher? Se é deserto ingrato e rude, Onde não brota uma fonte, Porque ha de em nosso horisonte A luz do dia nascer? Mas dorme, descança, amigo, Que a vida é o deserto ás vezes... Estrada de mil revezes, E de voragens fataes... E que é o poeta? o viajante Que fere os pés nos abrolhos, Em quanto levanta os olhos Ás regiões divinaes. Ave estrangeira que passa N'este clima procelloso, Com seu canto mavioso Levando as turbas d'apóz; Mas que chora de saudade Por sua patria querida, Té que a final abatida Cahe sem alento, e sem voz.
Descança! no frio leito De teu eterno repouso, Não te irá o sol formoso Cada manhã despertar; Mas tambem, da aurora á noite, Não calcarás os espinhos Que em teus agrestes caminhos Verias da flôr a par. Lá não irão festejar-te Ruidosos echos do mundo, Que dizem, no som profundo, Qual é do genio o poder; Mas tambem tuas corôas Não regarás com teu pranto, Nem a inveja em negro manto Tua estrella ha de envolver. Descança! que digo! surge! Ergue-te á luz, ó poeta, E revôa aonde inquieta Te levava a inspiração! Sonhaste mundos brilhantes, Sonhaste amor e poesia: No paiz do eterno dia Vae colher teu galardão!
Vae! das plagas do desterro Eis-te a final resgatado: Procura regenerado A patria que te sorri! Lá terás as harmonias Que soltam milhões d'espheras, E florentes primaveras Quaes não terias aqui. Lá gosa! lá, sacudido Sobre a terra o terreo manto, Desprende teu novo canto De novos soes ao fulgor! E, se lá póde chegar-te Esta nota de saudade, Escuta a voz da amizade Entre os mil hymnos do amor!
O MENDIGO
Nas torres soberbas da grande cidade O sol desmaiado não tarda a morrer; Recrescem as sombras: que importa? a vaidade No manto das sombras envolve o prazer. E o velho entretanto lá sóbe a montanha, Caminha, caminha, no cimo parou: Em frigidas gottas o rosto lhe banha Suor copioso, que á terra baixou. Quiz, antes da morte, nas serras distantes Fitar inda os olhos cançados da luz; A aldeia da infancia saudar por instantes, Depois satisfeito depôr sua cruz. Olhou, e um suspiro de vaga saudade Juntou a seus prantos em funda mudez; Depois, ao volver-se, topando a cidade, Que em ebrio tumulto folgava a seus pés:
«Mal hajas, cidade, que ao pobre faminto «O pão da desgraça negaste cruel! «Mal hajas, mal hajas, que a terra do extincto «Talvez lhe negáras, á tumba infiel!» E exhausto, e sem forças, cahiu de joelhos; E a fronte cançada firmou no bordão: Passados instantes, os olhos vermelhos Ao céo levantava, dizendo: perdão! Cahiam-lhe soltas no collo vergado As longas madeixas em brancos anneis: Que nobre semblante de rugas sulcado, Sulcado dos annos, e mágoas crueis! «Perdão para as vozes que solta a desgraça! «Perdão para o triste, perdão, ó meu Deus! «Bem hajas, que aos labios lhe roubas a taça «De fel e amarguras, abrindo-lhe os céos. «Já filhos não tenho, levou-m'os a guerra; «Esposa não tenho, finou-se de dôr; «Amigos não vejo na face da terra: «Que faço eu no mundo? bem hajas, Senhor! «Ás portas do rico bati sem alento, «Eu rico n'outr'ora, mendigo por fim: «O rico sem alma negou-me o sustento, «Aquelles que amava fugiram de mim.
«Vaguei pelo mundo, nas faces myrrhadas «Colhendo os insultos que ao pobre se dão; «Sem pão, sem abrigo, por noites geladas «Poisei minha fronte nas lageas do chão. «Que vezes a morte chamei sem alento, «Cançado dos annos, e fomes, e dôr! «A morte não veio: soffri meu tormento... «Só hoje me ouviste: bem hajas, Senhor! «Os homens e o mundo negaram-me os braços, «Mas tu me recolhes, tu me abres os teus... «Minha alma te busca, desprende-a dos laços... «Perdão para todos, perdão, ó meu Deus!» E um ai derradeiro soltou d'anciedade, Cahindo por terra nas urzes do chão; Ao longe, no seio da grande cidade, Brilhava das festas nocturno clarão.
A VIDA
A MEU IRMÃO
Que! luctar sempre em afanosa guerra Contra os rigores d'um feroz destino! A cada passo lacerar as plantas N'esta agra senda que nomeiam vida! Correr apóz um sonho, uma esperança Que leda nos sorria, e vêl-a ao cabo Sumir-se, desfazer-se como o fumo! Ou, se tocamos o vedado pomo, Arrojal-o de nós, murcho e vasio! Alcançar por um bem, mil dissabores! Por uma hora de gôso, mil de prantos! Soffrer, sempre soffrer, não vir um dia Em que possamos exclamar: ventura! E é este o calix de aprazivel nectar Que ao banquete do mundo nos convida? É este o eden que nos prende os olhos, E nos faz recuar ante o sepulchro?
Nascemos: com que pena á luz do dia
Surgimos logo do materno seio! Filhos da dôr, obedecendo á origem, Nos vagidos da infancia a annunciamos; E ainda assim, no deslizar sereno Dos dias infantis, a vida encanta; A taça da existencia tem doçura, Como se o mel lhe coroasse a borda Para mais facil nos tentar os labios. O horisonte dos annos se dilata; Vem a idade do amor. Que bellos sonhos Em magico painel a vista illudem! Um ser, que a mente em chammas divinisa, Nosso oásis feliz anima todo, Bem como o sol anima a natureza, Ou a rosa do valle os floreos prados. Mas quantos podem na manhã da vida Colher a rosa de seu mago enlevo? Quantos a estrella que adoraram crentes Sentem passar, e desfazer-se em breve, Não luzeiro do céo, porém da terra, Meteóro fugaz que baixa ao solo, E se dissipa redobrando a noite! As illusões do amor se desvanecem: D'esse mundo feliz o homem baqueia E devorando a mágoa segue ávante. Prometheu afanoso, eil-o procura Dar alma e vida ás creações que inventa,
Ai! já não bellas, mas de impura argilla. Honras, gloria, poder, bens de fortuna, Sciencia austera, festivaes prazeres, A tudo se abalança, aspira a tudo, E em tudo encontra desenganos sempre. Ao ponto que fitára jámais chega, Ou, se o alcança, não lhe dura o gôso. Ai do que envolto em miserandas faxas, Embalada sentiu a pobre infancia C'os gemidos da fome! Esse á ventura Quasi nem ousa levantar os olhos: Perpetuo desalento lh'os abate Á triste condição em que nascêra. Planta gerada n'um terreno esteril, Não se ergue altiva, não estende os ramos, Vive entre espinhos, e entre espinhos morre. Em vão se cança o triste: raras vezes A dura terra lhe concede o premio Do suor e das lagrimas que verte No seio ingrato d'essa mãe ferina. Um pão acerbo que amassou com pranto, É o alimento que reparte aos filhos; E o marco do caminho a cabeceira Onde desprende o moribundo alento. Ai d'elle! mas não menos desditoso O que em purpuras e ouro vendo o dia, Ou conduzido pela mão da sorte, Chegou aos cumes que a fortuna habita;
E, na posse dos bens que o mundo anceia, Palpou tremendo seu medonho nada. Este, empunhando o sceptro, empallidece Sentindo ás plantas vacillar-lhe o solio; No fastigio da gloria aquelle geme, Ao vêr o louro que lhe cinge a frente Pelo bafo da inveja emmurchecido. Um as honras consegue, e as vê sem preço; Outro as riquezas, e lamenta os dias Que mais bellos perdeu em seu alcance. Qual, a sciencia devassando ousado, Apóz longas vigilias estremece Da dúvida ante o espectro; qual ardente Das festas no rumor despende a vida, E a taça do prazer lhe deixa o enfado. Feliz aquelle que em modesta lida, Isento da ambição e da miseria, No regaço do amor e da virtude A vida passa. Mais feliz ainda Se, das turbas ruidosas afastado, Á sombra do carvalho, entre os que adora, Sente a existencia deslizar tranquilla, Como as aguas serenas do ribeiro Que as herdades pacificas lhe banha. Mas, que digo! nem esse. Infindos males, Communs a todos, seu viver não poupam. D'um lado a crua guerra lhe sacode O facho assolador ás brandas messes;
A pallida doença, d'outro lado, Dos entes que mais ama o vae privando; E elle mesmo talvez, infausta prêsa D'essa serpente que nos liga á morte, Nos eculeos da dôr a vida exhaure. E, como se estes males não bastaram, Sua mesma virtude lhe é supplicio. Compassivo co'a dôr que os outros soffrem, A dôr alheia o atormenta ainda. Justo, adora a justiça; e, olhando em torno, A injustiça e oppressão verá reinando; Verá a innocencia victima do crime, A virtude humilhada, o vicio altivo, Os prantos da miseria escarnecidos, Por toda a parte o mal, a dôr, e as queixas. Ai d'elle, ai d'elle, se um momento pára Na atroz contemplação de tantos males! Ai d'elle, que turbado e confundido, Em maldições blasphemará terrivel Da virtude, de si, de Deus, de tudo! Não! da vida no pélago agitado Um abrigo não ha, não ha um porto Onde possamos descançar tranquillos. Em nós, dentro em nós mesmos, ruge irada A tempestade que evitar queremos. Como a serpente no crystal da lympha, Na alma serena o soffrimento mora; Não póde o gôso dos mais bellos dias
Encher o abysmo que no seio temos. Em vão, em vão anciamos a ventura: Somos na terra qual viajante exhausto Que ouve o sussurro d'escondida fonte, E morre á sêde, sem poder tocal-a. Vida, tremenda herança d'amarguras, Eu te hei sondado nos meus proprios males, E em meus irmãos na dôr, nos homens todos: Grilhão pesado que nos dá o berço, E que depômos nos umbraes da tumba. A lucta, a mágoa, eis os teus dons funestos. Mas d'onde a causa do soffrer eterno Que as gerações ás gerações transmittem? Que um seculo, tombando de cansaço, Como um pêso importuno lega ao outro? D'onde o crime feroz que um tal castigo Sobre nós attrahiu? Se um deus é justo, Que deus, que lei, sem escutar-nos, pôde A sentença lavrar? Silencio é tudo! Em vão, para sabêl-o, em vão mil vezes Interroguei confuso o céo e a terra: O céo de bronze não me ouviu a prece, A terra obscura não me soube o enigma. Dos prophetas na voz, na voz dos sabios, A dúvida cruel achei sómente. Pedindo á morte a solução da vida, Desci ás tumbas, apalpei as cinzas; Quiz vêr se um echo da gelada campa
Surgia á minha voz; mas foi debalde. Frias ossadas, carcomidos restos De quem soffreu tambem, só me disseram Que tudo acaba alli. A terra, a terra, O seio impuro dos famintos vermes: Eis o refugio, a habitação amiga Que apóz a lucta nos espera ao cabo! Morte, morte, bem vinda sejas sempre! Em nome da existencia eu te saúdo! Tu reinas pela dôr na especie humana, E, quem sabe? talvez n'esse universo; O sol, o mesmo sol envolto em sombras, Parece reflectir-te as negras azas; E acaso á tua voz, a cada instante, Um comêta voraz fulmina um globo. Porque inda tardas a empunhar o sceptro Que n'este ao menos te pertence ha muito? Ao desterrado do eden porque deixas O resto de poder que inda te usurpa? Eia, desprende sobre a terra as azas, Sobre esta creação que abandonada Talvez por seu author como imperfeita, Qual nau perdida em tormentosos mares, Vaga sem rumo n'esse espaço ethereo! Mas que sinistra voz! Silencio, ó lyra! Não mais prosigas teu cantar blasphemo! Fanal de salvamento, luz d'esp'rança
Que na altura do Golgotha brilhaste, Desce á minha alma que a tristeza inunda! Desce! de todos resumindo as dôres O calix d'Elle foi o mais acerbo. Elle soffreu! Sofframos, e esperemos! Depois da noite escura vem o dia: Depois d'este desterro, a eterna patria!
DESENGANO
Vejo-a ainda! resurge a meus olhos Como em tempos ditosos surgia, E, qual anjo de casta poesia, Desce ás vezes n'um sonho d'amor; Vejo-a ainda nos céos e na terra, Nos encantos e risos da aurora, E, se o dia nas ondas descora, Das estrellas no meigo fulgor. Era a luz que brilhava em minha alma, Era o astro que em sombras luzira, Era o fogo sagrado que a lyra Ás doçuras d'amor acordou... Tudo é findo; debalde nas trevas Busco ainda seu facho luzente: Foi apenas um astro cadente, Meteóro fugaz que passou.
Pobre seio que ardente pulsaste Embalado por falsas venturas, O fanal que na terra procuras Sobre a terra jámais acharás. Não ha seio que entenda no mundo Esse ardor de teus vagos anhelos; Não ha luz que em seus raios mais bellos Não te esconda uma sombra fallaz. Que te resta? um futuro vasio D'illusões que nutriu a esperança, E um passado de triste lembrança Como é triste a verdade sem véo... Olvidar! olvidar! que ao presente, Ai! só cabe o repouso do olvido. Olvidar! e que em gêlo sumido Seja o fogo que em chammas ardeu! Sonho bello que esta alma illudiste, Chamma ardente nos céos ateada, Vôa, vôa á celeste morada! Lá nasceste, do mundo não és. E tu, lyra de languidas cordas Que d'amor suspiraste em desleixo, Vae, oh, vae! em silencio te deixo... Vae, oh, vae para sempre talvez!
AGAR
De Bersabé nos areaes ardentes O desmaiado sol ia esconder-se, E Agar, a expulsa Agar, gemendo afflicta, Unia ao peito o moribundo filho. O vaso d'agua que lhe dera o esposo Esgotára-se em breve, e no deserto Com seu pobre Ismael não descobrira, Desde o romper do dia, a anciada fonte. O dia declinava: eis que o infante, Que pela mão a acompanhava exhausto, Ardendo em sêde lhe succumbe ás plantas. Ella vê-o cahir, ella estremece, E, os olhos turvos em redor lançando, Aqui e alli correndo, busca ainda, Mas debalde, um frescor. Emfim cançada, Ella mesma tambem, eis volve ao filho, Prostra-se, abraça-o, com maternos beijos Tenta anciosa prolongar-lhe a vida.
«Filho, meu filho--murmurava a triste-- «Á sêde vaes morrer! Oh! se o podésse «Adivinhar teu pae, cruel não fôra; «E Sara, a propria Sara, enternecida «Emmudecêra seus fataes ciumes. «Oh! não gemas, não gemas, que debalde «Invocas tua mãe. Ella te escuta, «Mas não póde salvar-te: dentro em pouco «Em seu regaço exhalarás a vida. «E hei de eu vêr-te expirar? vêr n'esses olhos «Sumir-se a luz do dia? e n'essas faces, «Que tantas vezes me sorriram ledas, «Vêr as ancias da morte? Oh! não, não posso «Vêr morrer o meu filho.» Disse, e ao tronco D'uma arvore visinha o recostava; Depois, com tristes, vagarosos passos, Foi n'outros sitios aguardar a morte. Alli, ao vêr o sol que esmorecia, Desatou a chorar, e estes queixumes Em voz convulsa murmurou ainda: «Sol do deserto, que o meu pobre filho «Vês expirando na soidão além, «Com teu suave derradeiro brilho «Beijar-lhe a face carinhoso vem! «Oh! vem, que eu triste n'essa face pura «Materno beijo nunca mais darei. «Perdi meu filho: sobre a terra dura «Correi, meus prantos, sem cessar correi!
«Quando o teu facho resurgir no oriente, «Tudo na terra sentirá prazer; «E lá nos campos de Mambré virente «Mais bella a rosa te verá nascer: «Só elle em sombras d'uma noite escura «Adormecido ficará, bem sei. «Perdi meu filho: sobre a terra dura «Correi, meus prantos, sem cessar correi! «Por mim não choro, que infeliz escrava «Meus tristes dias findarei aqui: «Ai! choro aquelle que no mundo amava, «Choro meu filho que expirando vi. «Maternos mimos, filial ternura, «Lembrae-me os tempos que feliz gosei! «Perdi meu filho: sobre a terra dura «Correi, meus prantos, sem cessar correi! «Oh! quem dissera nos passados dias «Em que ao meu collo te cerquei d'amor, «Oh! quem dissera que a morrer virias «N'este deserto, sem achar frescor? «Emmurcheceste, já não tens verdura, «Mimoso arbusto que gentil criei! «Perdi meu filho: sobre a terra dura «Correi, meu prantos, sem cessar correi!
«Tantas esp'ranças, que o Senhor gerára «Na escrava humilde, findarão assim. «Foi mais feliz a geração de Sara: «Cruel destino só me coube a mim. «Em vão, em vão me prometteu futura «Longa progenie: sem ninguem fiquei. «Perdi meu filho: sobre a terra dura «Correi, meus prantos, sem cessar correi! «Quem, ó meu filho, n'este solo ardente, «Quem no jazigo te virá deitar? «Dizer-te:--dorme--e, reclinando a frente «No teu sepulchro, sobre ti chorar? «Eu não, que em breve n'esta plaga obscura «Tambem já morta como tu serei. «Perdi meu filho: sobre a terra dura «Correi, meus prantos, sem cessar correi! «Aves agrestes que me ouvis as queixas, «Com tristes vozes o seu fim chorae! «Brizas do ermo, suspirae-lhe endeixas! «Astros da noite, seu dormir velae! «Velae-o todos, que a final ventura «Que vos reservo nem sequer terei. «Perdi meu filho: sobre a terra dura «Correi, meus prantos, sem cessar correi!
Mas Deus! que viu ella, Que um ai desprendeu? Que pomba tão bella No manto do céo! Que pennas de prata, D'azul, d'escarlata, O espaço retrata Sereno, sem véo! É anjo voando! Que brilho que tem! Que véos ondulando De pura cecem! Que anneis de cabello Nos hombros de gêlo, No collo tão bello Cahindo ao desdem! Descendo, descendo, Já perto chegou; E a pobre tremendo Calada ficou; E o anjo sorria Com doce magia, E á terra descia, Na terra poisou.
E em roda mil lumes De brilho sem fim Lançava, e perfumes De nardo e jasmim; E a voz argentina, Suave, divina, Soltou peregrina, Fallando-lhe assim:
«O que fazes, Agar, porque choras? «Nada temas, não tens que temer: «Se o teu filho perdido deploras, «Esses prantos converte em prazer. «Do deserto chegou seu gemido «Ás alturas que habita o Senhor: «Surge, surge, e teu filho querido «Vae ao longe buscar sem temor! «Surge, surge, recobra a esperança, «Que as promessas cumpridas serão! «O teu filho, o Senhor t'o afiança, «Será pae d'uma grande nação. «Gloria a Deus que no céo ouve as mágoas «De quem soffre na terra a carpir! «Eis um jorro de limpidas aguas: «Ide n'ellas a sêde extinguir!»
E, assim dizendo, lhe mostrava perto Uma fonte escondida entre verduras, Como nunca se vira no deserto, De tão grato frescor, d'aguas tão puras. Depois, batendo as esmaltadas pennas, Deixou na terra um luminoso traço; E, agitando seu manto d'açucenas, Sumiu-se ao longe na amplidão do espaço. Erguendo aos céos a radiosa fronte, A pobre mãe ao Senhor Deus louvava; E, enchendo o vaso no crystal da fonte, Com elle ao filho a salvação levava.
MARIA, A CEIFEIRA
(IMITAÇÃO DE UHLAND)
«Bons dias, Maria: da lida do prado «Nem mesmo te afastam cuidados d'amor. «Se ao fim de tres dias m'o deixas ceifado, «A mão de meu filho te quero propôr.» Promessa é do rico, soberbo rendeiro: Maria, oh! quão ledo seu peito bateu! Seus olhos brilharam, seu braço ligeiro Mais forte nas messes a foice moveu. Soou meio dia: que ardente seccura! Já todos demandam a fonte, o pinhal; Sómente nos ares a abelha murmura: Maria não pára, que é sua rival. O sol esmorece, bateram trindades; Debalde o visinho lhe grita: bastou! Zagaes e ceifeiros se vão ás herdades: Maria, co'a foice, lidando ficou:
O orvalho desliza; desponta a seu turno A estrella no espaço, na selva o cantor: Maria, insensivel ao bardo nocturno, A foice incansavel agita ao redor. Os dias e as noites assim por taes modos, Nutrida d'amores, mal sente passar. Tres dias findaram; oh! vinde vêr todos Maria ditosa d'esp'rança a chorar. «Bons dias, Maria: já tudo ceifado! «Lidaste devéras: a paga has de ter. «Emquanto a meu filho, foi graça o tratado: «Quão loucos e simples o amor nos faz ser!» Tal disse, e passava... no peito constante, Ai pobre Maria, que transe cruel! Teu corpo formoso tremeu vacillante, E exhausta cahiste, ceifeira fiel. Um anno a coitada, sósinha comsigo, Vivendo de fructos, vagou sem fallar... No prado mais verde cavae-lhe o jazigo: Ceifeira como esta jámais heis de achar.
O FIRMAMENTO
AO MEU AMIGO J. S. DA SILVA FERRAZ
Gloria a Deus! eis aberto o livro immenso,
O livro do infinito,
Onde em mil letras de fulgor intenso
Seu nome adoro escripto.
Eis de seu tabernaculo corrida Uma ponta do véo mysterioso: Desprende as azas remontando á vida, Alma que anceias pelo eterno gôso! Estrellas que brilhaes n'essas moradas,
Quaes são vossos destinos?
Vós sois, vós sois as lampadas sagradas
De seus umbraes divinos.
Pullulando do seio omnipotente, E sumidas por fim na eternidade, Sois as faiscas de seu carro ardente Ao rolar através da immensidade.
E cada qual de vós um astro encerra,
Um sol que apenas vejo,
Monarcha d'outros mundos como a terra
Que formam seu cortejo.
Ninguem póde contar-vos: quem podéra Esses mundos contar a que daes vida, Escuros para nós qual nossa esphera Vos é nas trevas da amplidão sumida? Mas vós perto brilhaes, no fundo accêsas
Do throno soberano:
Quem vos ha de seguir nas profundezas
D'esse infinito oceano?
E quem ha de contar-vos n'essas plagas Que os céos ostentam de brilhante alvura, Lá onde sua mão sostem as vagas Dos soes que um dia romperão na altura? E tudo outr'ora na mudez jazia,
Nos véos do frio nada:
Reinava a noite escura; a luz do dia
Era em Deus concentrada.
Elle fallou! e as sombras n'um momento Se dissiparam na amplidão distante! Elle fallou! e o vasto firmamento Seu véo de mundos desfraldou ovante!
E tudo despertou, e tudo gyra
Immerso em seus fulgores;
E cada mundo é sonorosa lyra
Cantando os seus louvores.
Cantae, ó mundos que seu braço impelle, Harpas da creação, fachos do dia, Cantae louvor universal Áquelle Que vos sustenta, e nos espaços guia! Terra, globo que geras nas entranhas
Meu ser, o ser humano,
Que és tu com teus vulcões, tuas montanhas,
E com teu vasto oceano?
Tu és um grão d'areia arrebatado Por esse immenso turbilhão dos mundos Em volta de seu throno levantado Do universo nos seios mais profundos. E tu, homem, que és tu, ente mesquinho
Que soberbo te elevas,
Buscando sem cessar abrir caminho
Por tuas densas trevas?
Que és tu com teus imperios e colossos? Um átomo subtil, um froixo alento: Tu vives um instante, e de teus ossos Só restam cinzas que sacode o vento.
Mas ah! tu pensas, e o gyrar dos orbes
Á razão encadeias;
Tu pensas, e inspirado em Deus te absorbes
Na chamma das ideias:
Alegra-te, immortal, que esse alto lume Não morre em trevas d'um jazigo escasso! Gloria a Deus, que n'um átomo resume O pensamento que transcende o espaço! Caminha, ó rei da terra! se inda és pobre,
Conquista aureo destino,
E de seculo em seculo mais nobre
Eleva a Deus teu hymno!
E tu, ó terra, nos floridos mantos Abriga os filhos que em teu seio geras, E teu canto d'amor reune aos cantos Que a Deus se elevam de milhões d'espheras! Dizem que já sem forças, moribunda,
Tu vergas decadente:
Oh! não, de tanto sol que te circumda
Teu sol inda é fulgente.
Tu és joven ainda: a cada passo Tu assistes d'um mundo ás agonias, E rolas entretanto n'esse espaço Coberta de perfumes e harmonias.
Mas ai! tu findarás! além scintilla
Hoje um astro brilhante;
Ámanhã eil-o treme, eil-o vacilla,
E fenece arquejante:
Que foi? quem o apagou? foi seu alento Que extinguiu essa luz já fatigada; Foram seculos mil, foi um momento Que a eternidade fez volver ao nada. Um dia, quem o sabe? um dia, ao pêso
Dos annos e ruinas,
Tu cahirás n'esse vulcão accêso
Que teu sol denominas;
E teus irmãos tambem, esses planetas Que a mesma vida, a mesma luz inflamma, Attrahidos emfim, quaes borboletas, Cahirão como tu na mesma chamma. Então, ó sol, então n'esse aureo throno
Que farás tu ainda,
Monarcha solitario, e em abandono,
Com tua gloria finda?
Tu findarás tambem, a fria morte Alcançará teu carro chammejante: Ella te segue, e prophetiza a sorte N'essas manchas que toldam teu semblante.
Que são ellas? talvez os restos frios
D'algum antigo mundo,
Que inda referve em borbotões sombrios
No teu seio profundo.
Talvez, envôlta pouco a pouco a frente Nas cinzas sepulchraes de cada filho, Debaixo d'elles todos de repente Apagarás teu vacillante brilho. E as sombras poisarão no vasto imperio
Que teu facho alumia;
Mas que vale de menos um psalterio
Dos orbes na harmonia?
Outro sol como tu, outras espheras Virão no espaço descantar seu hymno, Renovando nos sitios onde imperas Do sol dos soes o resplendor divino. Gloria a seu nome! um dia meditando
Outro céo mais perfeito,
O céo d'agora a seu altivo mando
Talvez caia desfeito.
Então, mundos, estrellas, soes brilhantes, Qual bando d'aguias na amplidão disperso, Chocando-se em destroços fumegantes, Desabarão no fundo do universo.
Então a vida, refluindo ao seio
Do fóco soberano,
Parará concentrando-se no meio
D'esse infinito oceano;
E, acabado por fim quanto fulgura, Apenas restarão na immensidade-- O silencio aguardando a voz futura, O throno de Jehovah, e a eternidade!
TRISTEZA
Extingue-se o anno, são findos os dias Que os valles encheram de próvida luz; O inverno c'roado de nevoas sombrias, Seus pallidos gêlos á terra conduz. O rio em torrentes inunda as campinas, As veigas perderam seu floreo matiz, Pesada tristeza reveste as collinas, E as selvas que ha pouco sorriram gentis. Em tudo a meus olhos avulta uma imagem De triste abandono, de mystica dôr: Apraz-me este luto que veste a paizagem, Apraz-me esta scena d'extincto verdor. Como estas campinas outr'ora florentes, Meus dias formosos floriram tambem; Como ellas agora, meus dias cadentes, Despidos de encantos, já viço não tem.
Quão rico de gôsos o tempo corria! Quão triste o presente, quão pobre ficou! Só resta a saudade, qual vaga harmonia Que uma harpa nocturna de longe soltou. Mas essa que vale perdida a esperança? Que vale um passado que já não é meu? Á flôr desbotada que importa a lembrança Da aurora suave que aroma lhe deu? Um dia outra quadra mais bella e mais pura Virá de boninas ornar os vergeis; Mas vós, ó meus tempos d'amor e ventura, Sois findos p'ra sempre, jámais voltareis. Sondando o futuro, minha alma conhece Que os ermos do mundo já rosas não tem: Já tudo succumbe, já tudo fenece, O sol da ventura, e a esp'rança tambem. Té mesmo em meu peito vacilla agitada A chamma da vida perdendo o calor; Meus dias declinam qual luz desmaiada Que doira as montanhas com tibio fulgor. Se tudo, ah! se tudo findou no passado, Se as trevas se estendem nos céos do porvir, Que esperas, minha alma? do livro do fado São negras as folhas: só resta partir.
Ao longe, quem sabe? sulcando as alturas, Jardins mais formosos verás na amplidão, De flôres eternas, d'eternas verduras Que os gêlos da terra jámais seccarão. Temendo os rigores do outomno visinho, As aves adejam buscando outros céos: Tu és, ó minh'alma, qual ave sem ninho,-- Procura outros climas, rasgando os teus véos!
A MÃE E A FILHA
--Filha, filha, que linda alvorada! Anda vêr este sol a nascer: Ha tres dias que gemes deitada, Mas já hoje sorris de prazer. --Oh! que sonhos d'encantos divinos! Tudo em roda luzia em fulgor, E mil anjos cantavam seus hymnos Em jardins d'açucenas em flôr. Era longe dos olhos humanos, N'uma terra mui longe d'aqui... Oh! que mundo tão livre d'enganos! Oh! que vida que n'elle vivi!
*
--Olha o sol que tão bello se esconde Nas montanhas sombrias d'além... Tão calada, tão triste! responde, Que tens tu, minha filha, meu bem?
Vou na patria d'eternos amores, Vou ao longe ditosa viver, Mas, no seio de mundos melhores, Ai! não te hei de a meu lado já vêr! Eis um anjo que desce os espaços... Que harmonias! que brilho sem fim! Mãe, oh mãe, dá-me ainda os teus braços... Já não soffro, não chores por mim.
O MOSTEIRO DA BATALHA
Pulsemos a lyra, que além se levanta Padrão de victoria que immenso reluz! Um templo e altares á Mãe sacrosancta; Um templo, um poema que altivo descanta Grandezas da patria nos atrios da cruz. Grandezas da patria quem traz á memoria Que o peito não sinta d'orgulho bater? Pulsemos a lyra! do livro da historia Volvamos as folhas, que a musa da gloria Em nuvens ethereas sentimos descer!
*
Eis já d'Aljubarrota nas campinas Se encontraram as hostes contendoras. D'aqui tremulam portuguezas quinas: D'além as castelhanas invasoras. D'aqui é João primeiro, cuja lança A corôa defende e a patria cara: D'além o estranho rei, pedindo a herança Da princeza Beatriz que desposára.
Refulge o sol nas armas, os cavallos Rincham fogosos escarvando a terra; D'um lado e d'outro os chefes a intervallos Correm as alas animando á guerra. Pouco avultam as hostes portuguezas: Tremendo é de Castella o poderío; Mas quem á patria negará proezas D'alto valor, e generoso brio! A vespera é do dia consagrado Á Assumpção gloriosa de Maria; Os olhos levantando, o rei soldado: «Senhora, exclama, nosso esforço guia! «Se vencermos, um templo magestoso «Te erguerei sobre o campo da batalha!» Diz, e esporeando seu corcel fogoso Brios em todos com a voz espalha. Soam trombetas; o signal é dado; Fluctuam soltos os pendões na frente: --Sam Tiago!--brada o castelhano ousado; --Sam Jorge e ávante!--a portugueza gente. Rédeas soltando os esquadrões galopam, E dão em cheio com furor insano, Como torrentes que no val se topam, Ou como as ondas no revolto oceano.
Retine o ferro, a multidão se agita; As hachas d'armas, os broqueis lampejam; Piões, ginetes, com medonha grita, N'um mar de sangue em turbilhão pelejam. O sol já desce a mergulhar no oceano, E inda referve a encarniçada lida; Eis redobra d'esforço o lusitano, E o estrangeiro leva de vencida. Foge o rei castelhano espavorido; Fogem os seus em debandada solta; Persegue-os João primeiro, e destemido A gosar do triumpho ao campo volta. Já se erigem trophéos, já resplandece O céo da patria c'o fulgor da gloria; Faltava o monumento que dissesse: --Foi aqui! eis o campo da victoria!
*
E eil-o ahi que se levanta Com magestosa grandeza, D'aquella gentil proeza Sublime recordação; Eil-o ahi aos céos erguido, Como um colosso gigante Apontando ao caminhante O sitio da grande acção.
Altos porticos, lavores D'ostentosa architectura, Corucheus d'immensa altura Roçando a fronte nos céos; Dentro, a nobre magestade Do sanctuario profundo, Onde, extincta a voz do mundo, Só lembra o passado, e Deus. Sobre os gothicos pilares Brilham tremulos fulgores, Que das vidraças de côres Entorna a mystica luz. Tudo cala, mas, se o orgão Por entre as naves resôa, Tudo se anima, e apregôa O sancto Verbo da cruz. Então a mente se enleva Nas torrentes de harmonia Que da abobada vasia Retumbam pela amplidão; E, abrazada nos fulgores Dos vivos, sagrados lumes, Sobre as azas dos perfumes Revôa á etherea mansão.
Se tudo cahe em silencio, Cahe em si mesma, e medita, Recordando a data escripta N'esses gothicos umbraes. Pensa então nos heroismos, E crenças da meia idade, Combatendo a escuridade D'aquelles tempos feudaes. Pensa nos vultos heroicos Dos antigos cavalleiros, E em nossos feitos guerreiros Pela patria e pela cruz; Pensa na grande victoria Que nos fez independentes, E que aos olhos dos presentes N'esse moimento reluz; Pensa n'um povo pequeno, Mas esforçado e guerreiro, Triumphando do estrangeiro Á voz do rei popular; Pensa no Mestre valente; E sua sombra gigante Parece ás vezes distante Entre as columnas vagar.
E pensa tambem no artista, N'esse architecto inspirado Que um poema sublimado Alli traçou a cinzel; Que cego da luz dos olhos Accendeu a luz do engenho, E consummou seu empenho, Ao grande assumpto fiel. E Affonso Domingues surge N'esse padrão sobranceiro Ao lado de João primeiro, Seu immortal fundador; Reis ambos: um pelo berço Que lhe deu sua nobreza; Outro, rei pela grandeza Do seu genio creador. Lá dormem! um rodeado Dos brazões da sua gloria, Como depois da victoria, Sob a tenda a descançar; Outro á sombra d'esses tectos Em campa singela e nua, Como querendo a obra sua D'além da tumba guardar.
*
E lá dormem tambem outros que a morte Juntou á sombra do logar sagrado, D'infantes e de reis alta cohorte, Servindo de cortejo ao rei soldado. Reunidos emfim no chão funereo, Fernando, Pedro, e Henrique, os tres infantes; Henrique, o sabio audaz que outro hemispherio Primeiro abriu aos lusos navegantes. Duarte e João segundo descançando D'altas victorias na mansão tranquilla; Affonso quinto c'os laureis sonhando D'Alcacer, Tanger, e da forte Arzilla. E no sôpro do vento que perpassa, E lhes roça nas frias sepulturas, Parecem murmurar em voz escassa, E agitar suas ferreas armaduras. E lá quando o luar pelas janellas Lhes escôa nas lapidas marmoreas, Talvez erguidos se recostam n'ellas A fallar entre si de nossas glorias. Dormi em paz, ó chefes do passado, Heroico fundador, prole valente; Dormi em paz no tumulo calado Recordando os laureis da vossa gente.
Enchei em roda os penetraes divinos De vossos gloriosos esplendores; E se tendes poder sobre os destinos, Defendei-os do tempo e seus furores. Que as gerações passando reverentes Possam, volvendo as paginas da historia, Largas eras saudar, curvando as frentes, Esse padrão d'immoredoura gloria!
DESALENTO
Cançado, ai! já cançado quando a vida Em flôr nascente desabrocha ao mundo! Quando a esperança, d'illusões vestida, Sorri a todos n'um porvir jucundo! Alma que gemes em lethal quebranto, Desprende as azas nos vergeis celestes! Amor, gloria, prazer, dae-me inda o encanto Que nos dias passados já me déstes! Mas que é o amor da terra? luz divina Que mal desce do céo logo se apaga; Candida rosa que o tufão inclina, Que o tempo e a morte desfolhando esmaga. Doces imagens que em ditoso enleio Cerquei outr'ora d'illusão infinda, O que é feito de vós? ai! n'este seio Viveis apenas, se viveis ainda.
E tu, que és tu, ó gloria? um som que passa, E de seculo em seculo retumba, Mas que a frigida lousa não traspassa De quem já dorme na calada tumba. Astro que brilha e queima, espectro ovante Que a desgraça acompanha, e o genio illude: Vós o sabeis, Camões, e Tasso, e Dante, Vós que gemeis ainda no ataúde. Que é o gôso, o prazer? fumo d'incenso Que embriaga um momento, e se evapora; Que é o saber, a sciencia? espaço immenso Em que a verdade mal reluz na aurora. Que é este mundo que eu sonhei tão bello? Profundo abysmo de tormenta escura; Que é pois a vida? um fadigoso anhelo Que levamos do berço á sepultura. A morte! oh! se além d'ella o porto amigo Nos surgisse a final ledo e formoso! Se n'esses mundos da esperança abrigo Despontasse outro sol mais bonançoso! Mas quem sabe da morte? o ouvido attento No silencio das campas nada escuta; E Socrates não diz se um novo alento Achou, bebendo a gelida cicuta.
Senhor, Senhor, porque vim eu ao mundo, E qual é sobre a terra o meu destino, De mim que homem geraste, e que no fundo D'este valle d'angustia érro sem tino? Infeliz de quem nasce! a ave que gyra, A fera, o tronco, o verme que rasteja Tambem nasceu, mas esse a nada aspira, Ou se aspirou alcança o que deseja. E o homem nasce, pensa, e aspira ancioso Ás illusões que a mente lhe depara, E a cada passo lhe esmorece o gôso, E acha só trevas onde luz sonhára. E caminha, e caminha, e sem alento Cahe abysmado no seu terreo leito, Onde apóz a fadiga e o soffrimento A lousa sepulchral lhe esmaga o peito. Aqui, de dôr um pélago profundo; Além, os vermes da feral jazida; Senhor, Senhor, porque vim eu ao mundo? Porque do nada me chamaste á vida?
CONSOLAÇÃO
Quando nas trevas de minha alma afflicta A procella da dôr mais se encapella, E o desalento, a dúvida, e a descrença Co'as negras azas me escurece o dia, A ti, ó Deus, a ti com mais esforço, Através do infinito onde te escondes Busco elevar-me, demandando auxilio; E tu, Senhor, descendo a quem te chama, Fulguras entre as sombras, e a tormenta Que dentro d'alma rebramia fera, Vae pouco e pouco serenando as iras.
*
Bem hajas! quem te procura Jámais te procura em vão: Tu desces, e a noite escura Se volve em doce clarão; Tu desces, e a luz da esp'rança, Como estrella de bonança, Brilha no mar da afflicção.
A vida é triste: no mundo Soffremos até morrer; Mas, Senhor, quem sonda a fundo Mysterios do teu poder? A vida é triste, mas breve; E o futuro que se eleve, Eterno, immenso ha de ser. Mundos e mundos no espaço Vão rolando á tua voz, Prêsos em mystico laço N'esses jardins sobre nós; E tudo canta á porfia Aquella grande harmonia Que ensinam teus anjos sós. Tudo folga: só na terra Ha de o homem padecer? Acaso tão pouco encerra Seu fado? não póde ser. Se o homem foi obra tua, N'este mar em que fluctua Ha de um porto emfim haver.
Bem hajas! a dôr e o pranto Vem de ti, do teu amor; São crysol augusto e sancto Que nos apura em fulgor; São a chamma, o fogo intenso Que nos ergue como incenso, E a teus pés nos vae depôr. Tu sabes porque sombria Vaga a noite na amplidão, Porque a terra se anuvia, E ruge irado o tufão: É que o dia segue a noite, E das procellas no açoite Se esconde a florea estação. Bem hajas, Senhor, bem hajas! O teu poder nos conduz; Se de luto um dia trajas, Outro dia além reluz. N'este gyro sempiterno, Vem o estio apóz o inverno, E apóz as sombras a luz.
Bem hajas! feliz no mundo Quem tua face entrevê, E d'este abysmo profundo Se ergue nas azas da fé! Feliz quem sorrindo ás vagas, De olhos fitos sobre as plagas, Espera, confia, e crê!
O BUSSACO
Oh! salve irmão do Libano, Que altivo ergues a fronte, Monarcha d'estas serras, Senhor da solidão! Salve, gigante cupula, Que ostentas no horisonte, Erguida sobre as terras, A cruz da redempção! Em teus agrestes pincaros O homem vive e sente Mais longe d'este mundo, Mais proximo dos céos: Por isso, nos seus extasis, O monge penitente Aqui meditabundo Se erguia aos pés de Deus.
Por largo tempo o cantico Do pobre cenobita Soou na ermida rude Da tua solidão: Hoje o silencio lugubre Sómente n'ella habita, Silencio d'ataúde Em funebre mansão. Porém se os coros mysticos Findaram sua reza, Se a voz do sancto hosanna Em ti já feneceu; Tu vives, e inda incolume Ao Deus da natureza, Calada a voz humana, Descantas o hymno teu. Oh! como és bello erguendo-te Á luz do novo dia, Que os mantos de verdura Te banha de fulgor! Quando o gemer dos zephyros, Das aves a harmonia, Acordam na espessura Louvando o Creador!
Mas quanto mais esplendido Serás quando a tormenta, Sublime, rugidora, Eu teu regaço cahe! Quando de mil relampagos Teu cume se apresenta C'roado, como outr'ora O fulgido Sinai! Quando os tufões indomitos, Rugindo nas escarpas, Se abraçam ás torrentes Com horrido fragor! Depois, em negro vortice, Desferem nas mil harpas De teus cedros ingentes Um cantico ao Senhor! Tu és grandioso; o animo Que a sós aqui medita Recolhe altas imagens De sancta inspiração. Oh! porque veio turbida A guerra atroz, maldita, Soltar n'estas paragens As vozes do canhão?
D'um lado eram as bellicas Hostes de Bonaparte; Do outro heroico e ufano O povo portuguez: A liberdade e a patria Ergueu seu estandarte, E a historia do tyranno Contou mais um revez. Tudo passou: sumiram-se Vencidos, vencedores; Té mesmo do gigante Soou a hora fatal: Só tu, sorrindo impavido Do tempo e seus furores, Inda ergues arrogante Teu vulto colossal. E cada vez que fulgido Renasce o novo dia, De nova luz te banhas, Despindo os negros véos; E dizes, em teu jubilo, Ao sol que te alumia: --O rei d'estas montanhas Saúda o rei dos céos.
Depois, ao vêl-o pallido Nas vagas do horisonte, Pareces ao mar vasto Dizer com altivez: --Em teu regaço, ó pelago, Tu lhe sumiste a fronte: Avança, que de rasto Virás beijar-me os pés!
A FONTE DOS AMORES
Eis os sitios formosos onde a triste Nos dias d'illusão viveu ditosa; Eis a fonte serena, e os altos cedros Que os segredos d'amor inda lhe guardam. Oh! quantas vezes, solitaria fonte, Apóz longo vagar por esses campos Do placido Mondego, n'estas margens A namorada Ignez veio assentar-se, E ausente de seu bem carpir saudosa, Aos montes e ás hervinhas ensinando O nome que no peito escripto tinha! E quantas, quantas vezes no silencio D'esta grata soidão viste os amantes, Esquecidos do mundo e a sós felizes, Nos extasis da terra os céos gosando!
Pobre infeliz Ignez! breves passaram Os teus dias d'amor e de ventura. Ao regio moço o coração rendêras, E o que em todos é lei, em ti foi crime. Eis do barbaro pae, do rei severo, Se arma a dextra feroz, eil-o que aos sitios Onde habitava amor conduz a morte. Distante de teu bem, ao desamparo, Ai! não podéste conjurar-lhe as iras. Debalde aos pés d'Affonso lacrimosa Pediste compaixão; debalde em ancias Abraçando os filhinhos innocentes, Os filhos de seu filho, a natureza Invocaste e a piedade: a voz dos impios, Dos vis algozes, te abafou as queixas, E o cego rei te abandonou aos monstros. Eil-os a ti correndo, eil-os que surdos Aos ais, aos rogos que tremendo soltas, No palpitante seio crystallino, Que tanto amou, oh barbaros! os ferros, Os duros ferros com furor embebem. Prostrada, agonisante, os doces filhos Por derradeira vez unes ao peito, E de teu Pedro murmurando o nome, Aos innocentes abraçada expiras. Inda, infeliz Ignez, inda saudosos Estes sitios que amavas te pranteiam. As aves do arvoredo, os echos, brizas,
Parecem murmurar a infanda historia; Teu sangue tinge as pedras, e esta fonte, A fonte dos amores, dos teus amores, Como que em som queixoso inda repete Ás margens, e aos rochedos commovidos, Teu derradeiro, moribundo alento.
A UM THEATRO ACADEMICO
Abrindo sepulchros, rasgando mysterios, Quem mortos gelados levanta de pé? Quem varre co'as azas as cinzas d'imperios, E os vultos heroicos anima, quem é? Quem tira do nada uma fórma divina? Quem finge uma imagem de negro terror? Quem ergue virtudes, e o crime fulmina? Quem risos excita, quem prantos de dôr? --O genio do drama e o genio da scena!-- São elles que traçam, em véo d'illusões, D'amor, de ciume, de riso, e de pena O jogo travado, fallando ás paixões. São elles unidos que em chamma inquieta Sentiu Gil Vicente na fronte escaldar? São elles que o bardo da terna Julieta, E a fronte de Talma vieram c'roar.
São elles, mancebos, que em nuvens de flôres A senda apontaram que afoitos seguis, De palmas e c'rôas, de magos fulgores, Mas senda d'espinhos; c'o genio condiz. Em nobre fadiga, que os ocios despreza, D'acerbos estudos assim descançaes! Foi bello o designio, difficil a empreza: Quem logra nas artes repouso jámais? Que importa? na lucta se provam alentos, Sómente na lucta se colhem laureis; Aos peitos ardentes, de gloria sedentos, Reluz a bonança por entre os parceis. Ávante! e que o genio das artes potente O fogo das artes vos possa trazer! Que em scenas de prantos o pranto rebente, Que em scenas alegres se gose o prazer! As artes e as letras nasceram amigas: Ás aras das duas incensos levae, E aos louros colhidos em sabias fadigas, Os louros do palco viçosos juntae!
N'UM ALBUM
Do soffrimento o archanjo lamentoso Sobre a face do mundo estende o braço: Um diadema offertava, e pavoroso: «Para o que mais soffreu!» gritou no espaço. Eis logo immensa turba se atropella, Todos querem ganhar a prenda infausta; Mas nenhum dos que chegam por obtêl-a Mostrava a taça da amargura exhausta. «Afastae-vos!» lhes brada o genio esquivo, «Nenhum tocou do soffrimento a meta: «Tu, só tu mereceste o premio altivo; «Ergue a fronte, corôa-te, poeta!»
VISÃO DO RESGATE
AO MEU AMIGO ALEXANDRE BRAGA
E eu achei-me assentado solitario Junto d'um grande mar triste e sombrio, Cujas ondas d'aspecto funerario, Se agitavam, qual trémulo sudario Sobre um cadaver macilento e frio. E eu era triste! sepulchraes gemidos Me vinham d'essas ondas tormentosas; Seu fragor penetrava em meus ouvidos, Como o arfar de mil peitos opprimidos Em duros transes d'afflicções penosas. E por cima na abobada do mundo Um véo de nuvens se estendia baço; Rebramava o trovão rouco e profundo, E o mar lhe respondia gemebundo, E a tristeza reinava em todo o espaço.
E um suor frio me escorreu na fronte, Como o orvalho na cruz d'um cemiterio; E de meus prantos desatou-se a fonte, E eu pedi ao Senhor que do horisonte Me tirasse esta nuvem de mysterio. E o Senhor deu ouvidos a meu rogo, Pois vi descer a mim do firmamento Um facho ardente de celeste fogo, Que as trevas de meus olhos varreu logo, Qual varre as nuvens um tufão violento. E eu vi tudo! esse mar de ondas sombrias Era um mar de nações que se agitava; E eu conheci que em leito d'agonias, Chorando em vão seus miserandos dias, Aquella multidão gemia escrava. Alli o fraco de pavor transido Arrastava grilhões aos pés do forte; O perverso ostentava o rosto erguido, E o justo era qual pombo foragido Que nas garras do açor encontra a morte. O mendigo nos atrios do opulento Pedia amparo, e maldições colhia; O filho do trabalho, sem alento, Comprava o escasso pão ao avarento A troco dos andrajos que despia.
E entre as garras da fome devorante O mancebo luctava enfraquecido, O velho desmaiava agonisante, E a mãe sem forças apertava o infante Ao peito como a urze resequido. E um espectro medonho e ensanguentado Por entre aquelles povos divagava, Brandindo um ferro com medonho brado; E o chão que elle pisava era abysmado Como em torrentes d'incendida lava. É que esses povos, como iradas feras, Ao seu brado feroz se levantavam; E a matança era tanta, que disseras Vêr um circo de hyenas e pantheras Que entre as garras crueis se espedaçavam. E no meio de tudo em alto monte Se erguia um throno de rubins accesos, No qual um anjo, coroada a fronte, Dominava soberbo esse horisonte De povos algemados e indefesos. E no semblante d'esse archanjo ardente O dedo do Senhor estava escripto; E eu pude lêr-lhe na sombria frente, Gravadas em caracter refulgente, As sinistras palavras:--sê maldito!
E outro archanjo de negras armaduras De joelhos aos pés se lhe inclinava; E, infausto mensageiro d'amarguras, Na sinistra empunhava algemas duras, Na dextra ferrea urna sustentava. E offertando-lhe a urna com respeito, Lhe dizia com voz assustadora: «Anjo do mal que o homem tens sujeito, «N'este vaso de dôr recebe o preito «Das lagrimas crueis que o mundo chora. «Eis o penhor fiel que a tyrannia «Por mim, seu anjo, te conduz ás plantas. «Os humanos resistem noite e dia, «Mas o laço do amor não concilia «As suas turbas, que feroz supplantas. «Mal haja o Christo que o amor ensina! «Seu vil reinado succumbiu na terra. «Triumpha, anjo do mal, reina e domina, «E mil flagellos ás nações fulmina, «De crimes, divisões, de luto e guerra!» E o archanjo brandindo o sceptro ardente Sorria com feroz perversidade: E ao longe murmurava um som fremente, Como o rugido d'um volcão latente, Ou a voz de longinqua tempestade.
E eu cedi ao vaivem de minhas mágoas, Como ao sôpro do vento a fragil hera, Té que uma voz, como a das grandes agoas, De minhas penas abrandando as frágoas, Me bradou aos ouvidos:--crê e espera!
*
E subito uma aurora Serena, refulgente, Das trevas do oriente Desfez os negros véos; Lavrou, como um incendio, Nas sombras horrorosas, E alfim cobriu de rosas A cupula dos céos. E um astro despontando Na franja do horisonte, Alçou a meiga fronte Coberta d'aurea luz: Sobre elle campeando Cercada d'alta gloria, Promessa de victoria, Brilhava a eterna cruz.
E logo ardente nuvem, Relampagos soltando, Baixou do céo voando No carro dos trovões; Bem como de trombeta Soltava estranho accento, E prestes como o vento Rolou sobre as nações. E n'ella a gloria immensa Do Deus que o mundo adora Brilhava como outr'ora No tôpo do Sinai; E o grito da trombeta Dizia em som de guerra: --Surgi, povos da terra, N'um só vos ajuntae!-- E o throno do mau anjo Tremeu nos fundamentos, E eu vi passar nos ventos O espirito de Deus; Seu brado erguia os povos, Bem como a tempestade Do mar na immensidade Levanta os escarcéos.
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E as turbas procellosas remoinharam, Como as areias que o tufão agita; E alçando todas pavorosa grita, Com laços fraternaes se colligaram. E emquanto erguiam seus pendões de guerra, Eis que as azas batendo nas alturas, Cingidos de brilhantes armaduras, Dous archanjos pairaram sobre a terra. Cobriam-lhes as fórmas delicadas Escudos e couraças diamantinas, Aureos elmos as frontes peregrinas, Nas dextras empunhando igneas espadas. E eu vi-os, como soes relampejantes, Adejarem velozes sobre a terra, Brandindo irados, em signal de guerra, As terriveis espadas flammejantes. Té que chegando o instante do resgate, Fitando os povos que os olhavam mudos, Bateram co'as espadas nos escudos, Bradando ás multidões:--eia ao combate!
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E os povos ao brado, Qual mar agitado Fervendo em cachões, Erguiam-se fortes Em densas cohortes, Em mil turbilhões; E á guerra corriam, E feros bramiam Quaes feros leões. Corriam, chegaram, E o throno cercaram Do anjo do mal; Mas elle!--maldito!-- Das luctas o grito Soltára fatal; Na mão, qual espectro, Luzia-lhe um sceptro De lume infernal. Com furia sombria, Da vil tyrannia Ao anjo acenou, E o prompto ministro Seu mando sinistro Fiel acceitou; E eis rapido logo As armas de fogo Medonhas tomou.
E enormes serpentes Vermelhas, ardentes, Soltou pelo chão; Das ferreas escamas Sahiam-lhes chammas De torvo clarão; Cada uma nos povos Saltava em corcovos D'horrenda visão. Os povos, que as viam, Debalde investiam Seus gyros mortaes: Crueis lavaredas Abriam veredas Ás serpes fataes; E a turba d'exangue Cahia do sangue Nos rios caudaes. Mas n'isto ligeiros Os anjos guerreiros, No ar inda então, Baixaram luzentes, Quaes astros cadentes, Á terrea mansão; E aos anjos malvados Correram irados Com voz de trovão.
E todos, alçadas As igneas espadas Brandiram a par; Cada uma semelha Luzente centelha Cruzando no ar; Semelha no embate A onda que bate Na rocha do mar. Seus olhos vibravam, Seus gritos soavam Em echos d'horror; As turbas rugiam, As armas tiniam Com novo rancor; O carro da guerra Rolava na terra Com torvo fragor. Até que um rebombo Soou, como tombo Ruidoso e fatal De penha que d'alto Desaba, e d'um salto Retumba no val: Era alto ruido Do throno abatido Do genio do mal.
E logo infinitos Ouvi ledos gritos, E ouvi maldições; E soltos aos ventos Vi centos e centos D'ovantes pendões; Vi feitos pedaços Algemas, e laços, E ferreos grilhões. Vi thronos cahidos, Vi sceptros partidos Rolarem no pó; Vi aureos emblemas, Vi mil diademas Calcados sem dó; Vi povos diversos, Outr'ora dispersos, Unidos n'um só.
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Vi a terra já livre d'anciedade Rasgar altiva seu funereo manto; Vi os homens á voz da liberdade Surgirem fortes do lethal quebranto.
Vi-os, tecendo fraternaes abraços, Sem odios, sem rancor, e sem vinganças Estreitarem d'amor serenos laços, Unidos em sublimes allianças. E eu louvei o Senhor! já não reinava O anjo do mal co'a tyrannia fera: Seu throno demolido semelhava D'apagado volcão torva cratera.
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Coberto de mantos de pura saphíra Que dia tão ledo brilhava sem véos! A estrella formosa que aos homens surgíra Reinava em triumpho no campo dos céos. Seu facho divino cercado de rosas Vertia no mundo torrentes de luz, E o mundo coberto de galas formosas Saudava n'esse astro do Golgotha a cruz. Dos valles, dos montes, da terra, e dos mares, Sahiam murmurios de paz e d'amor, Co'a voz dos humanos soando nos ares Em cantos infindos d'infindo louvor.
Batendo serenos as azas douradas, Os anjos formosos pairavam no céo, Qual nitido bando de pombas nevadas Cruzando os espaços n'um dia sem véo. Nem elmos agora, nem malhas luzentes Cobriam dos anjos as fórmas gentis: De branco trajados, seus véos innocentes Ondeavam tremendo nas auras subtis. Cahiam-lhes soltos os longos cabellos No collo, nos hombros d'alvura louçã, Seus rostos ornando, mais puros, mais bellos Que a estrella argentina da rosea manhã. Traziam poisadas nas candidas frentes Grinaldas singelas de casta cecem, E as harpas eburneas tangiam cadentes, C'roadas de rosas e lirios tambem. Um côro celeste voando em cardumes Seguia os archanjos com doces canções; E todos lançando na terra perfumes Assim descantavam por sobre as nações:
O ARCHANJO DO CHRISTIANISMO
Salve, dia que meigo fulguras Despontando no mundo sem véo! Salve, estrella d'amor e venturas Que resurges formosa no céo! Pura e bella surgíras outr'ora, Densa nevoa cobriu tua luz; Pura e bella resurges agora, Vem reinar sobre os homens, ó cruz! Vem remil-os da negra maldade, Vem na face do mundo luzir, Vem trazer-lhes a luz da verdade, Que o Messias lançou no porvir! Era o anjo das trevas maldito, Quem do mundo regía as nações; Foi o Verbo, o Messias predicto, Que desceu a partir seus grilhões. Novas crenças brotando dos labios Revelou em seu Pae um Deus só, E, caladas as vozes dos sabios, Falsos deuses cahiram no pó.
Viu as gentes sepultas no crime, E eis que armado d'augusta missão Deu lições de virtude sublime, D'innocencia, d'amor, e perdão. Ensinou a brandura ao tyranno, Ao soberbo dos justos a lei; Ao avaro bradou:--sê humano! E ao perverso e ao impio:--tremei! Deu ao fraco palavras de vida, Deu ao triste consolos na dôr, Deu a todos a esp'rança perdida D'outro reino de paz e d'amor. E cumprindo do mundo a sentença No tormento da cruz expirou; Mas com sangue d'um Deus sua crença Sobre a terra gravada ficou. Do Calvario, librado nas pennas, A mil povos com ella voei; Mil corôas teci d'açucenas, Com que tantos martyrios ornei. Foi então... dá-me queixas, ó lyra, Dá-me notas de fundo pezar... Christo, ó Christo, a calumnia, a mentira, Ai! ousaram teu Verbo ultrajar.
Teus ministros, sem fé na verdade, Renegaram da sancta missão, E entregaram a lei da igualdade Aos tyrannos, á voz da ambição. Logo o facho sangrento da guerra Accenderam com impio furor, E em teu nome cobriram a terra D'exterminio, de sangue, e d'horror. D'ouro e sangue mantendo seus vicios Teus preceitos calcaram no pó; E mil scenas de horrendos supplicios Ostentaram ao mundo sem dó. Então eu á celeste morada D'entre os homens voando subi, E a teus pés com a fronte curvada Largas eras, ó Christo, gemi. Mas das trevas não pôde o combate Apagar o teu astro de luz: Aos captivos, signal do resgate, Eil-o surge brilhante na cruz. Povos, povos, seccae vosso pranto! Levantae-vos do leito da dôr! Terra, entôa de novo o teu canto, Doce canto de paz e d'amor!
Da maldade, dos odios, da guerra, Para sempre o reinado morreu. Paz aos homens na face da terra! Gloria a Deus nas alturas do céo!
CÔRO DOS ANJOS
Hosanna! hosanna! signal de victoria, A cruz do resgate já brilha ás nações; Hosanna! e se eleva nos cantos de gloria Dos anjos, dos homens, de mil gerações!
O ARCHANJO DA LIBERDADE
Bem vindo sejas, bonançoso dia, Que ao mundo trazes a perdida luz! Bem vindo sejas! teu fulgor lhe envia No facho eterno que as nações conduz! Assim de galas e esplendor vestida Á voz do Eterno a creação rompeu; E a liberdade se ligou á vida, No mar, na terra, na amplidão do céo.
--Vivei, sois livres, caminhae ávante!-- O Eterno disse, e me entregou a lei; Seu dedo a terra me apontou distante, E eu das alturas com prazer baixei. E a lei dos mundos vim gravar na selva, No leão das brenhas, e no açor do ar, No cedro altivo, na modesta relva, Nas bravas ondas do revolto mar. No ser humano, d'entre os mais acceito, Gravei mais fundo o universal condão, E d'entre as azas lhe verti no peito Viva centelha d'immortal clarão. Então, qual fumo d'abrazado incenso, Voou da terra festival louvor; E a natureza, no seu gyro immenso, Pulsou de vida, liberdade e amor. Mais ai! que o homem de seus dons celestes No altar dos vicios holocausto fez; Rasgou impuro da innocencia as vestes, Calcou tyranno seus irmãos aos pés. Tomando o ferro de cruel verdugo Fartou com sangue mil crueis paixões; Impôz ao fraco seu tyranno jugo, E o fraco ás plantas lhe arrastou grilhões.
Então a terra suspendeu seus hymnos, A luz do dia se turvou no céo, E esta harpa triste, nos umbraes divinos, Aos pés do Eterno desde então gemeu. De negras sombras se toldára o mundo, Mas eis que os tempos eram findos já; Eis que uma estrella de fulgor jucundo, Sorrindo á terra, alumiou Judá. Em vão; só hoje triumphar devia Esse astro immenso de serena luz: Eis surge, eis surge do resgate o dia, Brilhando aos homens sobre a eterna cruz. Povos, sois livres, enxugae o pranto! Do leito amargo do penar surgi! Terra, modúla teu festivo canto, Que o novo dia já reluz em ti! D'um Deus o sangue resgatou a affronta: Quebrae a taça da agonia e dôr! Novo porvir ás gerações desponta De liberdade, de ventura e amor. Eterna gloria ao que desceu á terra! Eterna gloria do universo ao Rei! Que o fraco exalta, que o soberbo aterra, Que impõe aos orbes e ás nações a lei!
CÔRO DOS ANJOS
Hosanna! hosanna! seu nome infinito Refulge de gloria, qual astro sem véo, Na luz da verdade, no Verbo predicto, No mar, nos abysmos, na terra, e no céo!
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E subindo através do espaço immenso O côro--hosanna, hosanna--repetia, Entre nuvens d'azul, d'ouro, e d'incenso, E entre notas d'angelica harmonia. Entanto eu com a face unida á terra Do novo dia o resplendor saudava, E sobre o campo da passada guerra Ao Senhor dos exercitos orava.