MACHADO DE ASSIS (continued 3)
Reading edition
—Casarei? não casarei?
Uma noite, volvendo D. Benedicta este problema, á janella da casa de Botafogo, para onde se mudara desde alguns mezes, viu um singular expectaculo. Primeiramente uma claridade opaca, especie de luz coada por um vidro fosco, vestia o espaço da enseada, fronteiro á janella. Nesse quadro appareceu-Ihe uma figura vaga e transparente, trajada de nevoas, toucada de reflexos, sem contornos definidos, porque morriam todos no ar. A figura veiu até ao peitoril da janella de D. Benedicta; e de um gesto somnolento, com uma voz de criança, disse-lhe estas palavras sem sentido:
—Casa... não casarás... se casas... casarás... não casarás... e casas... casando...
D. Benedicta ficou atterrada, sem poder mexer-se; mas ainda teve a força de perguntar á figura quem era. A figura achou um principio de riso, mas perdeu-o logo; depois respondeu que era a fada que presidira ao nascimento de D. Benedicta: Meu nome é Velleidade, concluiu; e, como um suspiro, dispersou-se na noite e no silencio.
FIM DE D. BENEDICTA
O SEGREDO DO BONZO[1]
CAPITULO INEDITO DE FERNÃO MENDES PINTO
Atraz deixei narrado o que se passou n'esta cidade Fucheo, capital do reino de Bungo, com o padre mestre Francisco, e de como el-rey se houve com o Fucarandono e outros bonzos, que tiveram por acertado disputar ao padre as primazias da nossa santa religião. Agora direi de uma doutrina não menos curiosa que saudavel ao espirito, e digna de ser divulgada a todas as republicas da christandade.
Um dia, andando a passeio com Diogo Meirelles, n'esta mesma cidade Fucheo, n'aquelle anno de 1552, succedeu deparar-se-nos um ajuntamento de povo, á esquina de uma rua, em torno a um homem da terra, que discorria com grande abundancia de gestos e vozes. O povo, segundo o esmo mais baixo, seria passante de cem pessoas, varões sómente, e todos embasbacados. Diogo Meirelles, que melhor conhecia a lingua da terra, pois alli estivera muitos mezes, quando andou com bandeira de veniaga (agora occupava-se no exercicio da medicina, que estudara convenientemente, e em que era eximio) ia-me repetindo pelo nosso idioma o que ouvia ao orador, e que em resumo, era o seguinte:—Que elle não queria outra cousa mais do que affirmar a origem dos grillos, os quaes procediam do ar e das folhas de coqueiro, na conjuncção da lua nova; que este descobrimento, impossivel a quem não fosse, como elle, mathematico, physico e philosopho, era fructo de dilatados annos de applicação, experiencia e estudo, trabalhos e até perigos de vida; mas emfim, estava feito, e todo redundava em gloria do reino de Bungo, e especialmente da cidade Fucheo, cuja filho era; e, se por ter aventado tão sublime verdade, fosse necessario aceitar a morte, elle a aceitaria alli mesmo, tão certo era que a sciencia valia mais do que a vida e seus deleites.
A multidão, tanto que elle acabou, levantou um tumulto de acclamações, que esteve a ponto de ensurdecer-nos, e alçou nos braços o homem, bradando: Patimau, Patimau, viva Patimau que descobriu a origem dos grillos. E todos se foram com elle ao alpendre de um mercador, onde lhe deram refrescos e lhe fizeram muitas saudações e reverencias, á maneira d'este gentio, que é em extremo obsequioso e cortezão.
Desandando o caminho, vinhamos nós, Diogo Meirelles e eu, fallando do singular achado da origem dos grillos, quando, a pouca distancia d'aquelle alpendre, obra de seis credos, não mais, achámos outra multidão de gente, em outra esquina, escutando a outro homem. Ficámos espantados com a semelhança do caso, e Diogo Meirelles, visto que tambem este fallava apressado, repetiu-me da mesma maneira o teor da oração. E dizia este outro, com grande admiração e applauso da gente que o cercava, que emfim descobrira o principio da vida futura, quando a terra houvesse de ser inteiramente destruida, e era nada menos que uma certa gota de sangue de vacca; d'ahi provinha a excellencia da vacca para habitação das almas humanas, e o ardor com que esse distincto animal era procurado por muitos homens á hora de morrer; descobrimento que elle podia affirmar com fé e verdade, por ser obra de experiencias repetidas e profunda cogitação, não desejando nem pedindo outro galardão mais que dar gloria ao reino de Bungo e receber d'elle a estimação que os bons filhos merecem. O povo, que escutára esta falla com muita veneração, fez o mesmo alarido e levou o homem ao dito alpendre, com a differença que o trepou a uma charola; alli chegando, foi regalado com obsequios eguaes aos que faziam a Patimau, não havendo nenhuma distincçao entre elles, nem outra competencia nos banqueteadores, que não fosse a de dar graças a ambos os banqueteados.
Ficámos sem saber nada d'aquillo, porque nem nos parecia casual a semelhança exacta dos dous encontros, nem racional ou crivel a origem dos grillos, dada por Patimau, ou o principio da vida futura, descoberto por Langurú, que assim se chamava o outro. Succedeu, porém, costearmos a casa de um certo Titané, alparqueiro, o qual correu a fallar a Diogo Meirelles, de quem era amigo. E, feitos os cumprimentos, em que o alparqueiro chamou as mais galantes cousas a Diogo Meirelles, taes como—ouro da verdade e sol do pensamento,—contou-lhe este o que viramos e ouviramos pouco antes. Ao que Titané acudiu com grande alvoroço:—Póde ser que elles andem cumprindo uma nova doutrina, dizem que inventada por um bonzo de muito saber, morador em umas casas pegadas ao monte Coral. E porque ficassemos cubiçosos de ter alguma noticia da doutrina, consentiu Titané em ir comnosco no dia seguinte ás casas do bonzo, e accrescentou:—Dizem que elle não a confia a nenhuma pessoa, se não ás que de coração se quizerem filiar a ella; e, sendo assim, podemos simular que o queremos unicamente com o fim de a ouvir; e se fôr boa, chegaremos a pratical-a á nossa vontade.
No dia seguinte, ao modo concertado, fomos ás casas do dito bonzo, por nome Pomada, um ancião de cento e oito annos, muito lido e sabido nas letras divinas e humanas, e grandemente aceito a toda aquella gentilidade, e por isso mesmo mal visto de outros bonzos, que se finavam de puro ciume. E tendo ouvido o dito bonzo a Titané quem eramos e o que queriamos, iniciou-nos primeiro com varias ceremonias e bugiarias necessarias á recepção da doutrina, e só depois d'ella é que alçou a voz para confial-a e explical-a.
Haveis de entender, começou elle, que a virtude e o saber, tem duas existencias parallelas, uma no sugeito que as possue, outra no espirito dos que o ouvem ou contemplam. Se puzerdes as mais sublimes virtudes e os mais profundos conhecimentos em um sujeito solitario, remoto de todo contacto com outros homens, é como se elles não existissem. Os fructos de uma larangeira, se ninguem os gostar, valem tanto como as urzes e plantas bravias, e, se ninguem os vir, não valem nada; ou, por outras palavras mais energicas, não ha expectaculo sem expectador. Um dia, estando a cuidar n'estas cousas, considerei que, para o fim de allumiar um pouco o entendimento, tinha consumido os meus longos annos, e, aliás, nada chegaria a valer sem a existencia de outros homens que me vissem e honrassem; então cogitei se não haveria um modo de obter o mesmo effeito, poupando taes trabalhos, e esse dia posso agora dizer que foi o da regeneração dos homens, pois me deu a doutrina salvadora.
N'este ponto, afiámos os ouvidos e ficámos pendurados da boca do bonzo, o qual, como lhe dissesse Diogo Meirelles que a lingua da terra me não era familiar, ia fallando com grande pausa, porque eu nada perdesse. E continuou dizendo:—Mal podeis adivinhar o que me deu idéa da nova doutrina; foi nada menos que a pedra da lua, essa insigne pedra tão luminosa que, posta no cabeço de uma montanha ou no pincaro de uma torre, dá claridade a uma campina inteira, ainda a mais dilatada. Uma tal pedra, com taes quilates de luz, não existiu nunca, e ninguem jámais a viu; mas muita gente crê que existe e mais de um dirá que a viu com os seus proprios olhos. Considerei o caso, e entendi que, se uma cousa póde existir na opinião, sem existir na realidade, e existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é que das duas existencias parallelas a única necessaria é a da opinião, não a da realidade, que é apenas conveniente. Tão depressa fiz este achado especulativo, como dei graças a Deus do favor especial, e determinei-me a verifical-o por experiencias; o que alcancei, em mais de um caso, que não relato, por vos não tomar o tempo. Para comprehender a efficacia do meu systema, basta advertir que os grillos não podem nascer do ar e das folhas de coqueiro, na conjuncção da lua nova, e por outro lado, o principio da vida futura não está em uma certa gotta de sangue de vacca; mas Patimáu e Langurú, varões astutos, com tal arte souberam metter estas duas idéas no animo da multidão, que hoje desfructam a nomeada de grande physicos e maiores philosophos, e tem comsigo pessoas capazes de dar a vida por elles.
Não sabiamos em que maneira déssemos ao bonzo as mostras do nosso vivo contentamento e admiração. Elle interrogou-nos ainda algum tempo, compridamente, ácerca da doutrina e dos fundamentos d'ella, e depois de reconhecer que a entendiamos, incitou-nos a pratical-a, a divulgal-a cautelosamente, não porque houvesse nada contrario ás leis divinas ou humanas, mas porque a má comprehensão d'ella podia damnal-a e perdel-a em seus primeiros passos; emfim, despediu-se de nós com a certeza (são palavras suas) de que abalavamos d'alli com a verdadeira alma de pomadistas; denominação esta que, por se derivar do nome d'elle, lhe era em extremo agradavel.
Com effeito, antes de cair a tarde, tinhamos os tres combinado em pôr por obra uma idéa tão judiciosa quão lucrativa, pois não é só lucro o que se póde haver em moeda, senão tambem o que traz consideração e louvor, que é outra e melhor especie de moeda, comquanto não dê para comprar damascos ou chaparias de ouro. Combinamos, pois, á guisa de experiencia, metter cada um de nós, no animo da cidade Fucheo, uma certa convicção, mediante a qual houvessemos os mesmos beneficios que desfructavam Patimau e Langurú; mas, tão certo é que o homem não olvida o seu interesse, entendeu Titané que lhe cumpria lucrar de duas maneiras, cobrando da experiencia ambas as moedas, isto é, vendendo tambem as suas alparcas: ao que nos não oppuzemos, por nos parecer que nada tinha isso com o essencial da doutrina.
Consistiu a experiencia de Titané em uma cousa que não sei como diga para que a entendam. Usam n'este reino de Bungo, e em outros d'estas remotas partes, um papel feito de casca de canella moida e gomma, obra mui prima, que elles talham depois em pedaços de dois palmos de comprimento, e meio de largura, nos quaes desenham com vivas e variadas côres, e pela lingua do paiz, as noticias da semana, politicas, religiosas, mercantis e outras, as novas leis do reino, os nomes das fustas, lancharas, balões e toda a casta de barcos que navegam estes mares, ou em guerra, que a ha frequente, ou de veniaga. E digo as noticias da semana, porque as ditas folhas são feitas de oito em oito dias, em grande copia, e distribuidas ao gentio da terra, a troco de uma esportula, que cada um dá de bom grado para ter as noticias primeiro que os demais moradores. Ora, o nosso Titané não quiz melhor esquina que este papel, chamado pela nossa lingua Vida e claridade das cousas mundanas e celestes, titulo expressivo, ainda que um tanto derramado. E, pois, fez inserir no dito papel que acabavam de chegar noticias frescas de toda a costa de Malabar e da China, conforme as quaes não havia outro cuidado que não fossem as famosas alparcas d'elle Titané; que estas alparcas eram chamadas as primeiras do mundo, por serem mui solidas e graciosas; que nada menos de vinte e dous mandarins iam requerer ao imperador para que, em vista do explendor das famosas alparcas de Titané, as primeiras do universo, fosse creado o titulo honorifico de «alparca do Estado», para recompensa dos que se distinguissem em qualquer disciplina do entendimento; que eram grossissimas as encommendas feitas de todas as partes, ás quaes elle Titané ia acudir, menos por amor ao lucro do que pela gloria que d'alli provinha á nação; não recuando, todavia, do proposito em que estava e ficava de dar de graça aos pobres do reino umas cincoenta corjas das ditas alparcas, conforme já fizera declarar a el-rey e o repetia agora; emfim, que apezar da primazia no fabrico das alparcas assim reconhecida em toda a terra, elle sabia os deveres da moderação, e nunca se julgaria mais do que um obreiro diligente e amigo da gloria do reino de Bungo.
A leitura d'esta noticia commoveu naturalmente a toda a cidade Fucheo, não se fallando em outra cousa durante toda aquella semana. As alparcas de Titané, apenas estimadas, começaram de ser buscadas com muita curiosidade e ardor, e ainda mais nas semanas seguintes, pois não deixou elle de entreter a cidade, durante algum tempo, com muitas e extraordinarias anedoctas ácerca da sua mercadoria. E dizia-nos com muita graça:—Vêde que obedeço ao principal da nossa doutrina, pois não estou persuadido da superioridade das taes alparcas, antes as tenho por obra vulgar, mas fil-o crer ao povo, que as vem comprar agora, pelo preço que lhes taxo. Não me parece, atalhei, que tenhaes cumprido a doutrina em seu rigor e substancia, pois não nos cabe inculcar aos outros uma opinião que não temos, e sim a opinião de uma qualidade que não possuimos; este é, ao certo, o essencial d'ella.
Dito isto, assentaram os dous que era a minha vez de tentar a experiencia, o que immediatamente fiz; mas deixo de a relatar em todas as suas partes, por não demorar a narração da experiencia de Diogo Meirelles, que foi a mais decisiva das tres, e a melhor prova d'esta deliciosa invenção do bonzo. Direi somente que, por algumas luzes que tinha de musica e charamella, em que aliás era mediano, lembrou-me congregar os principaes de Fucheo para que me ouvissem tanger o instrumento; os quaes vieram, escutaram e foram-se repetindo que nunca antes tinham ouvido cousa tão extraordinaria. E confesso que alcancei um tal resultado com o só recurso dos ademanes, da graça em arquear os braços para tomar a charamella, que me foi trazida em uma bandeja de prata, da rigidez do busto, da uncção com que alcei os olhos ao ar, e do desdem e ufania com que os baixei á mesma assembléa, a qual neste ponto rompeu em um tal concerto de vozes e exclamações de enthusiasmo, que quasi me persuadiu do meu merecimento.
Mas, como digo, a mais engenhosa de todas as nossas experiencias, foi a de Diogo Meirelles. Lavrava então na cidade uma singular doença, que consistia em fazer inchar os narizes, tanto e tanto, que tomavam metade e mais da cara ao paciente, e não só a punham horrenda, senão que era molesto carregar tamanho peso. Comquanto os physicos da terra propuzessem extrahir os narizes inchados, para allivio e melhoria dos enfermos, nenhum d'estes consentia em prestar-se ao curativo, preferindo o excesso á lacuna, e tendo por mais aborrecivel que nenhuma outra cousa a ausencia daquelle orgão. N'este apertado lance mais de um recorria á morte voluntaria, como um remedio, e a tristeza era muita em toda a cidade Fucheo. Diogo Meirelles, que desde algum tempo praticava a medicina, segundo ficou dito atraz, estudou a molestia e reconheceu que não havia perigo em desnarigar os doentes, antes era vantajoso por lhes levar o mal, sem trazer fealdade, pois tanto valia um nariz disforme e pesado como nenhum; não alcançou, todavia, persuadir os infelizes ao sacrificio. Então occorreu-lhe uma graciosa invenção. Assim foi que, reunindo muitos physicos, philosophos, bonzos, autoridades e povo, communicou-lhes que tinha um segredo para eliminar o orgão; e esse segredo era nada menos que substituir o nariz achacado por um nariz são, mas de pura natureza metaphysica, isto é, inacessivel aos sentidos humanos, e comtudo tão verdadeiro ou ainda mais do que o cortado; cura esta praticada por elle em varias partes, e muito aceita aos physicos de Malabar. O assombro da assembléa foi immenso, e não menor a incredulidade de alguns, não digo de todos, sendo que a maioria não sabia que acreditasse, pois se lhe repugnava a metaphysica do nariz, cedia entretanto á energia das palavras de Diogo Meirelles, ao tom alto e convencido com que elle expoz e definiu o sem remedio. Foi então que alguns philosophos, alli presentes, um tanto envergonhados do saber de Diogo Meirelles, não quizeram ficar-lhe atraz, e declararam que havia bons fundamentos para uma tal invenção, visto não ser o homem todo outra cousa mais do que um producto da idealidade transcendental; donde resultava que podia trazer, com toda a verosimilhança, um nariz metaphysico, e juravam ao povo que o effeito era o mesmo.
A assembléa acclamou a Diogo Meirelles; e os doentes começaram de buscal-o, em tanta copia, que elle não tinha mãos a medir. Diogo Meirelles desnarigava-os com muitissima arte; depois estendia delicadamente os dedos a uma caixa, onde fingia ter os narizes substitutos, colhia um e applicava-o ao logar vasio. Os enfermos, assim curados e suppridos, olhavam uns para os outros, e não viam nada no lugar do orgão cortado; mas, certos e certissimos de que alli estava o orgão substituto, e que este era inacessivel aos sentidos humanos, não se davam por defraudados, e tornavam aos seus officios. Nenhuma outra prova quero da efficacia da doutrina e do fructo d'esse experiencia, senão o facto de que todos os desnarigados de Diogo Meirelles continuaram a prover-se dos mesmos lenços de assoar. O que tudo deixo relatado para gloria do bonzo e beneficio do mundo.
FIM DO SEGREDO DO BONZO
O ANNEL DE POLYCRATES
A
Lá vai o Xavier.
Z
Conhece o Xavier?
A
Ha que annos! Era um nababo, rico, podre de rico, mas prodigo...
Z
Que rico? que prodigo?
A
Rico e prodigo, digo-lhe eu. Bebia perolas diluidas em nectar. Comia linguas de rouxinol. Nunca usou papel mata-borrão, por achal-o vulgar e mercantil; empregava areia nas cartas, mas uma certa areia feita de pó de diamante. E mulheres! Nem toda a pompa de Salomão póde dar idéa do que éra o Xavier nesse particular. Tinha um serralho: a linha grega, a tez romana, a exhuberancia turca, todas as perfeições de uma raça, todas as prendas de um clima, tudo era admittido no harem do Xavier. Um dia enamorou-se loucamente de uma senhora de alto cothurno, e enviou-lhe de mimo tres estrellas do Cruzeiro, que então contava sete, e não pense que o portador foi ahi qualquer pé rapado. Não, senhor. O portador foi um dos archanjos de Milton, que o Xavier chamou na occasião em que elle cortava o azul para levar a admiração dos homens ao seu velho pai inglez. Era assim o Xavier. Capeava os cigarros com um papel de crystal, obra finissima, e, para accendel-os, trazia comsigo uma caixinha de raios do sol. As colxas da cama eram nuvens purpureas, e assim tambem a esteira que forrava o sophá de repouso, a poltrona da secretaria e a rede. Sabe quem lhe fazia o café, de manhã? A Aurora, com aquelles mesmos dedos côr de rosa, que Homero lhe poz. Pobre Xavier! Tudo o que o capricho e a riqueza pódem dar, o raro, o exquisito, o maravilhoso, o indescriptivel, o inimaginavel, tudo teve e devia ter, porque era um galhardo rapaz, e um bom coração. Ah! fortuna, fortuna! Onde estão agora as perolas, os diamantes, as estrellas, as nuvens purpureas? Tudo perdeu, tudo deixou ir por agua abaixo; o nectar virou zurrapa, os cochins são a pedra dura da rua, não manda estrellas ás senhoras, nem tem archanjos ás suas ordens...
Z
Você está enganado. O Xavier? Esse Xavier, ha de ser outro. O Xavier nababo! Mas o Xavier que alli vai nunca teve mais de duzentos mil réis mensaes; é um homem poupado, sobrio, deita-se com as gallinhas, accorda com os gallos, e não escreve cartas a namoradas, porque não as tem. Se alguma expede aos amigos é pelo carreio. Não é mendigo, nunca foi nababo.
A
Creio; esse é o Xavier exterior. Mas nem só de pão vive o homem. Você falla de Martha, eu fallo-lhe de Maria; fallo do Xavier especulativo...
Z
Ah!—Mas ainda assim, não acho explicação; não me consta nada d'elle. Que livro, que poema, que quadro...
A
Desde quando o conhece?
Z
Ha uns quinze annos.
A
Upa! Conheço-o ha muito mais tempo, desde que elle estreou na rua do Ouvidor, em pleno marquez de Paraná. Era um endiabrado, um derramado, planeava todas as cousas possiveis, e até contrarias, um livro, um discurso, um medicamento, um jornal, um poema, um romance, uma historia, um libello politico, uma viagem á Europa, outra ao sertão de Minas, outra á lua, em certo balão que inventara, uma candidatura politica, e archeologia, e philosophia, e theatro, etc., etc., etc. Era um sacco de espantos[1]. Quem conversava com elle sentia vertigens. Imagine uma cachoeira de idéas e imagens, qual mais original, qual mais bella, ás vezes extravagante, ás vezes sublime. Note que elle tinha a convicção dos seus mesmos inventos. Um dia, por exemplo, acordou com o plano de arrazar o morro do Castello, a troco das riquezas que os jesuitas alli deixaram, segundo o povo crê. Calculou-as logo em mil contos, inventariou-as com muito cuidado, separou o que era moeda, mil contos, do que eram obras de arte e pedrarias; descreveu minuciosamente os objectos, deu-me dous tocheiros de ouro.
Z
Realmente...
A
Ah! impagavel. Quer saber de outra? Tinha lido as cartas do conego Benigno, e resolveu ir logo ao sertão da Bahia, procurar a cidade mysteriosa. Expoz-me o plano, descreveu-me a architectura provavel da cidade, os templos, os palacios, genero etrusco, os ritos, os vasos, as roupas, os costumes...
Z
Era então doudo?
A
Originalão apenas. Odeio os carneiros de Panurgio, dizia elle, citando Rabelais: Comme vous sçaves estre du mouton le naturel, tousjours suivre le premier, quelque part qu'il aille. Comparava a trivialidade a uma mesa redonda de hospedaria, e jurava que antes comer um máu bife em mesa separada.
Z
Entretanto, gostava da sociedade.
A
Gostava da sociedade, mas não amava os socios. Um amigo nosso, o Pires, fez-lhe um dia esse reparo; e sabe o que é que elle respondeu? Respondeu com um apologo, em que cada socio figurava ser uma cuia d'agua, e a sociedade uma banheira.—Ora, eu não posso lavar-me em cuias d'agua, foi a sua conclusão.
Z
Nada modesto. Que lhe disse o Pires?
A
O Pires achou o apologo tão bonito que o metteu n'uma comedia, d'ahi a tempos. Engraçado é que o Xavier ouviu o apologo no theatro, e applaudiu-o muito, com enthusiasmo; esquecera-se da paternidade; mas a voz do sangue... Isto leva-me á explicação da actual miseria do Xavier.
Z
É verdade, não sei como se possa explicar que um nababo...
A
Explica-se facilmente. Elle espalhava idéas á direita e á esquerda, como o céu chove, por uma necessidade physica, e ainda por duas razões. A primeira é que era impaciente, não soffria a gestação indispensavel á obra escripta. A segunda é que varria com os olhos uma linha tão vasta de cousas, que mal poderia fixar-se em qualquer dellas. Se não tivesse o verbo fluente, morreria de congestão mental; a palavra era um derivativo. As paginas que então fallava, os capitulos que lhe borbotavam da bocca, só precisavam de uma arte de os imprimir no ar, e depois no papel, para serem paginas e capitulos excellentes, alguns admiraveis. Nem tudo era limpido; mas a porção limpida superava a porção turva, como a vigilia de Homero paga os seus cochillos. Espalhava tudo, ao acaso, ás mãos cheias, sem ver onde as sementes iam cahir; algumas pegavam logo...
Z
Como a das cuias.
A
Como a das cuias. Mas, o semeador tinha a paixão das cousas bellas, e, uma vez que a arvore fosse pomposa e verde, não lhe perguntava nunca pela semente sua mãe. Viveu assim longos annos, despendendo á tôa, sem calculo, sem fructo, de noite e de dia, na rua e em casa, um verdadeiro prodigo. Com tal regimen, que era a ausencia de regimen, não admira que ficasse pobre e miseravel. Meu amigo, a imaginação e o espirito têm limites; a não ser a famosa botelha dos saltimbancos e a credulidade dos homens, nada conheço inexgotavel debaixo do sol, O Xavier não só perdeu as idéas que tinha, mas até exhauriu a faculdade de as crear; ficou o que sabemos. Que moeda rara se lhe vê hoje nas mãos? que sestercio de Horacio? que drachma de Pericles? Nada. Gasta o seu logar-commum, rafado das mãos dos outros, come á mesa redonda, fez-se trival, chôcho...
Z
Cuia, emfim.
A
Justamente: cuia.
Z
Pois muito me conta. Não sabia nada disso. Fico inteirado; adeus.
A
Vai a negocio?
Z
Vou a um negocio.
A
Dá-me dez minutos?
Z
Dou-lhe quinze.
V
Quero referir-lhe a passagem mais interessante da vida do Xavier. Aceite o meu braço, e vamos andando. Vai para a Praça? Vamos juntos. Um caso interessantissimo. Foi alli por 1869 ou 70, não me recordo; elle mesmo é que me contou. Tinha perdido tudo; trazia o cerebro gasto, chupado, esteril, sem a sombra de um conceito, de uma imagem, nada. Basta dizer que um dia chamou rosa a uma senhora,—«uma bonita rosa»; fallava do luar saudoso, do sacerdocio da imprensa, dos jantares opiparos, sem accrescentar ao menos um relevo qualquer a toda essa chaparia de algibebe. Começára a ficar hypocondriaco; e, um dia, estando á janella, triste, desabusado das cousas, vendo-se chegado a nada, aconteceu passar na rua um taful a cavallo. De repente, o cavallo corcoveou, e o taful veiu quasi ao chão; mas sustentou-se, e metteu as esporas e o chicote no animal; este empina-se, elle teima; muita gente parada na rua e nas portas; no fim de dez minutos de luta, o cavallo cedeu e continuou a marcha. Os espectadores não se fartaram de admirar o garbo, a coragem, o sangue-frio, a arte do cavalleiro. Então o Xavier, consigo, imaginou que talvez o cavalleiro não tivesse animo nenhum; não quiz cahir diante de gente, e isso lhe deu a força de domar o cavallo. E d'ahi veiu uma idéa: comparou a vida a um cavallo chucro ou manhoso; e accrescentou sentenciosamente: Quem não fôr cavalleiro, que o pareça. Realmente, não era uma idéa extraordinaria; mas a penuria do Xavier tocara a tal extremo, que esse crystal pareceu-lhe um diamante. Elle repetiu-a dez ou doze vezes, formulou-a de varios modos, ora na ordem natural, pondo primeiro a definição, depois o complemento; ora dando-lhe a marcha inversa, trocando palavras, medindo-as, etc.; e tão alegre, tão alegre como casa de pobre em dia de perú. De noite, sonhou que effectivamente montava um cavallo manhoso, que este pinoteava com elle e o sacudia a um brejo. Accordou triste; a manhã, que era de domingo e chuvosa, ainda mais o entristeceu; metteu-se a lêr e a scismar. Então lembrou-se... Conhece o caso do annel de Polycrates?
Z
Francamente, não.
A
Nem eu; mas aqui vai o que me disse o Xavier. Potycrates governava a ilha de Samos. Era o rei mais feliz da terra; tão feliz, que começou a receiar alguma viravolta da Fortuna, e, para applacal-a antecipadamente, determinou fazer um grande sacrificio: deitar ao mar o annel precioso que, segundo alguns, lhe servia de sinete. Assim fez; mas a Fortuna andava tão apostada em cumulal-o de obsequios, que o annel foi engulido por um peixe, o peixe pescado e mandado para a cozinha do rei, que assim voltou á posse do annel. Não affirmo nada a respeito d'esta anedocta; foi elle quem me contou, citando Plinio, citando...
Z
Não ponha mais na carta. O Xavier naturalmente comparou a vida, não a um cavallo, mas...
A
Nada d'isso. Não é capaz de adivinhar o plano estrambotico do pobre diabo. Experimentemos a fortuna, disse elle; vejamos se a minha idéa, lançada ao mar, póde tornar ao meu poder, como o annel de Polycrates, no bucho de algum peixe, ou se o meu caiporismo será tal, que nunca mais lhe ponha a mão.
Z
Ora essa!
A
Não é estrambotico? Polycrates experimentára a felicidade; o Xavier quiz tentar o caiporismo; intenções diversas, acção indentica. Saiu de casa, encontrou um amigo, travou conversa, escolheu assumpto, e acabou dizendo o que era a vida, um cavallo chucro ou manhoso, e quem não fôr cavalleiro que o pareça. Dita assim, esta phrase era talvez fria; por isso o Xavier teve o cuidado de descrever primeiro a sua tristeza, o desconsolo dos annos, o mallogro dos esforços, ou antes os effeitos da imprevidencia, e quando o peixe ficou de bocca aberta, digo, quando a commoção do amigo chegou ao cume, foi que elle lhe atirou o annel, e fugiu a metter-se em casa. Isto que lhe conto é natural, crê-se, não é impossivel; mas agora começa a juntar-se á realidade uma alta dóse de imaginação. Seja o que fôr, repito o que elle me disse. Cerca de tres semanas depois, o Xavier jantava pacificamente no Leão de Ouro ou no Globo, não me lembro bem, e ouviu de outra mesa a mesma phrase sua, talvez com a troca de um adjectivo. «Meu pobre annel, disse elle, eis-te emfim no peixe de Polycrates.» Mas a idéa bateu as azas e voou, sem que elle pudesse guardal-a na memoria. Resignou-se. Dias depois, foi convidado a um baile: era um antigo companheiro dos tempos de rapaz, que celebrava a sua recente distincção nobiliaria. O Xavier aceitou o convite, e foi ao baile, e ainda bem que foi, porque entre o sorvete e o chá ouviu de um grupo de pessoas que louvavam a carreira de barão, a sua vida prospera, rigida, modelo, ouviu comparar o barão a um cavalleiro emerito. Pasmo dos ouvintes, porque o barão não montava a cavallo. Mas o panegyrista explicou que a vida não é mais do que um cavallo chucro ou manhoso, sobre o qual ou se ha de ser cavalleiro ou parecel-o, e o barão era-o excellente. «—Entra, meu querido annel, disse o Xavier, entra no dedo de Polycrates.» Mas de novo a idéa bateu as azas, sem querer ouvil-o. Dias depois...
Z
Adivinho o resto: uma serie de encontros e fugas do mesmo genero.
A
Justo.
Z
Mas, emfim, apanhou-o um dia.
A
Um dia só, e foi então que me contou o caso digno de memoria. Tão contente que elle estava n'esse dia! Jurou-me que ia escrever, a proposito d'isto, um conto fantastico, á maneira de Edgard Poe, uma pagina fulgurante, pontuada de mysterios,—são as suas proprias expressões;—e pediu-me que o fosse ver no dia seguinte. Fui; o annel fugira-lhe outra vez. «Meu caro A, disse-me elle, com um sorriso fino e sarcastico; tens em mim o Polycrates do caiporismo; nomeio-te meu ministro honorario e gratuito.» D'ahi em diante foi sempre mesma coisa. Quando elle suppunha pôr a mão em cima da idéa, ella batia as azas, plas, plas, plas, e perdia-se no ar, como as figuras de um sonho. Outro peixe a engolia e trazia, e sempre o mesmo desenlace. Mas dos casos que elle me contou n'aquelle dia, quero dizer-lhe tres...
Z
Não posso; lá se vão os quinze minutos.
A
Conto-lhe só tres. Um dia, o Xavier chegou a crer que podia emfim agarrar a fugitiva, e fincal-a perpetuamente no cerebro. Abriu um jornal de opposição, e leu estupefacto estas palavras: «O ministerio parece ignorar que a politica é, como a vida, um cavallo chucro ou manhoso, e, não podendo ser bom cavalleiro, porque nunca o foi, devia ao menos parecer que o é.» Ah! emfim! exclamou o Xavier, cá estás engastado no bucho do peixe; já me não podes fugir.» Mas, em vão! a idéa fugia-lhe, sem deixar outro vestigio mais do que uma confusa reminiscencia. Sombrio, desesperado, começou a andar, a andar, até que a noite caiu; passando por um theatro, entrou; muita gente, muitas luzes, muita alegria; o coração aquietou-se-lhe. Cumulo de beneficios: era uma comedia do Pires, uma comedia nova. Sentou-se ao pé do autor, applaudiu a obra com enthusiasmo, com sincero amor de artista e de irmão. No segundo acto, scena VIII, estremeceu. «D. Eugenia, diz o galan a uma senhora, o cavallo póde ser comparado á vida, que é também um cavallo chucro ou manhoso; quem não for bom cavalleiro, deve cuidar de parecer que o é.» O autor, com o olhar timido, espiava no rosto do Xavier o effeito d'aquella reflexão, emquanto o Xavier repetia a mesma supplica das outras vezes;—«Meu querido annel...
Z
Et nunc et semper... Venha o ultimo encontro, que são horas.
A
O ultimo foi primeiro. Já lhe disse que o Xavier transmittira a idéa a um amigo. Uma semana depois da comedia cae o amigo doente, com tal gravidade que em quatro dias estava á morte. O Xavier corre a vel-o; e o infeliz ainda o pôde conhecer, estender-lhe a mão fria e tremula, cravar-lhe um longo olhar baço da ultima hora, e, com a voz sumida, echo do sepulchro, soluçar-lhe: «Cá voou, meu caro Xavier, o cavallo chucro ou manhoso da vida deitou-me ao chão: se fui mau cavalleiro, não sei; mas forcejei por parecel-o bom.» Não se ria; elle contou-me isto com lagrimas. Contou-me tambem que a idéa ainda esvoaçou alguns minutos sobre o cadaver, faiscando as bellas azas de christal, que elle cria ser diamante; depois estalou um risinho de escarneo, ingrato e parricida, e fugiu como das outras vezes, mettendo-se no cerebro de alguns sujeitos, amigos da casa, que alli estavam, tranzidos de dor, e recolheram com saudade esse pio legado do defuncto. Adeus.
FIM DO ANNEL DE POLYCRATES
O EMPRESTIMO
Vou divulgar uma anecdota, mas uma anecdota no genuino sentido do vocabulo, que o vulgo ampliou ás historietas de pura invenção. Esta é verdadeira; podia citar algumas pessoas que a sabem tão bem como eu. Nem ella andou recondita, senão por falta de um espirito repousado, que lhe achasse a philosophia. Como deveis saber, ha em todas as cousas um sentido philosophico. Carlyle descobriu o dos colletes, ou, mais propriamente, o do vestuario; e ninguem ignora que os numeros, muito antes da loteria do Ypiranga, formavam o systema de Pythagoras. Pela minha parte creio ter decifrado este caso de emprestimo; ides ver se me engano.
E, para começar, emendemos Seneca. Cada dia, ao parecer d'aquelle moralista, é, em si mesmo, uma vida singular; por outros termos, uma vida dentro da vida. Não digo que não; mas porque não accrescentou elle, que muitas vezes uma só hora é a representação de uma vida inteira? Vede este rapaz: entra no mundo com uma grande ambição, uma pasta de ministro, um Banco, uma corôa de visconde, um baculo pastoral. Aos cincoenta annos, vamos achal-o simples apontador de alfandega, ou sacristão da roça. Tudo isso que se passou em trinta annos, póde algum Balzac mette-lo em trezentas paginas; porque não hade a vida, que foi a mestra de Balzac, apertal-o em trinta ou sessenta minutos?
Tinham batido quatro horas no cartorio do tabellião Vaz Nunes, á rua do Rosario. Os escreventes deram ainda as ultimas pennadas: depois limparam as pennas de ganço na ponta de seda preta que pendia da gaveta ao lado; fecharam as gavetas, concertaram os papeis, arrumaram os autos e os livros, lavaram as mãos; alguns que mudavam de paletot á entrada, despiram o do trabalho e enfiaram o da rua; todos sahiram. Vaz Nunes ficou só.
Este honesto tabellião era um dos homens mais perspicazes do seculo. Está morto: podemos elogial-o á vontade. Tinha um olhar de lanceta, cortante e agudo. Elle adivinhava o caracter das pessoas que o buscavam para escripturar os seus accordos e resoluções; conhecia a alma de um testador muito antes de acabar o testamento; farejava as manhas secretas e os pensamentos reservados. Usava oculos, como todos os tabelliães de theatro; mas, não sendo myope, olhava por cima d'elles, quando queria ver, e através d'elles, se pretendia não ser visto. Finorio como elle só, diziam os escreventes. Em todo o caso, circumspecto. Tinha cincoenta annos, era viuvo, sem filhos, e, para fallar como alguns outros serventuarios, roia muito caladinho os seus duzentos contos de reis.
—Quem é? perguntou elle de repente, olhando para a porta da rua.
Estava á porta, parado na soleira, um homem que elle não conheceu logo, e mal póde reconhecer dahi a pouco. Vaz Nunes pediu-lhe o favor de entrar; elle obedeceu, comprimentou-o, estendeu-lhe a mão, e sentou-se na cadeira ao pé da mesa. Não trazia o acanho natural a um pedinte; ao contrario, parecia, que não vinha alli senão para dar ao tabellião alguma cousa preciosissima e rara. E, não obstante, Vaz Nunes estremeceu e esperou.
—Não se lembra de mim?
—Não me lembro...
—Estivemos juntos uma noite, ha alguns mezes, na Tijuca... Não se lembra? Em casa do Theodorico, aquella grande ceia de Natal; por signal que lhe fiz uma saude... Veja se se lembra do Custodio.
—Ah!
Custodio endireitou o busto, que até então inclinara um pouco. Era um homem de quarenta annos. Vestia pobremente, mas escorado, apertado, correcto. Usara unhas longas, curadas com esmero, e tinha as mãos muito bem talhadas, macias, ao contrario da pelle do rosto, que era agreste. Noticias minimas, e aliás necessarias ao complemento de um certo ar duplo que distinguia este homem, um ar de pedinte e general. Na rua, andando, sem almoço e sem vintem, parecia levar após si um exercito. A causa não era outra mais do que o contraste entre a natureza e a situação, entre a alma e a vida. Esse Custodio nascera com a vocação da riqueza, sem a vocação do trabalho. Tinha o instincto das elegancias, o amor do superfluo, da boa chira, das bellas damas, dos tapetes finos, dos moveis raros, um voluptuoso, e, até certo ponto, um artista, capaz de reger a villa Torloni ou a galeria Hamilton. Mas não tinha dinheiro; nem dinheiro, nem aptidão ou pachorra de o ganhar; por outro lado, precisara viver. Il faut bien que je vive, dizia um pretendente ao ministro Talleyrand. Je n'en vois pas la necessité, redarguiu friamente o ministro. Ninguem dava essa resposta ao Custodio; davam-lhe dinheiro, um dez, outro cinco, outro vinte mil reis, e de taes esportulas é que elle principalmente tirava o albergue e a comida.
Digo que principalmente vivia d'ellas, porque o Custodio não recusava metter-se em alguns negocios, com a condição de os escolher, e escolhia sempre os que não prestavam para nada. Tinha o faro das catastrophes. Entre vinte emprezas, adivinhava logo a insensata, e mettia hombros a ella, com resolução. O caiporismo, que o perseguia, fazia com que as dezenove prosperassem, e a vigesima lhe estourasse nas mãos. Não importa; apparelhava-se para outra.
Agora, por exemplo, leu um annuncio de alguem que pedia um socio, com cinco contos de reis, para entrar em certo negocio, que promettia dar, nos primeiros seis mezes, oitenta a cem contos de lucro, Custodio foi ter com o annunciante. Era uma grande idéa, uma fabrica de agulhas, industria nova, de immenso futuro. E os planos, os desenhos da fabrica os relatorios de Birmingham, os mappas de importação, as respostas dos alfaiates, dos donos de armarinho, etc., todos os documentos de um longo inquerito passavam diante dos olhos de Custodio, estrellados de algarismos, que elle não entendia, e que por isso mesmo lhe pareciam dogmaticos. Vinte e quatro horas; não pedia mais de vinte e quatro horas para trazer os cinco contos. E saiu d'alli, cortejado, amimado pelo annunciante, que, ainda á porta, o afogou n'uma torrente de saldos. Mas os cinco contos, menos doceis ou menos vagabundos que os cinco mil reis, saccudiam incredulamente a cabeça, e deixavam-se estar nas arcas, tolhidos de medo e de somno. Nada. Oito ou dez amigos, a quem fallou, disseram-lhe que nem dispunham agora da somma pedida, nem acreditavam na fabrica. Tinha perdido as esperanças, quando aconteceu subir a rua do Rozario e ler no portal de um cartorio o nome de Vaz Nunes. Estremeceu de alegria; recordou a Tijuca, as maneiras do tabellião, as phrases com que elle lhe respondeu ao brinde, e disse comsigo, que este era o salvador da situação.
—Venho pedir-lhe uma escriptura...
Vaz Nunes, armado para outro começo, não respondeu: espiou por cima dos oculos e esperou.
—Uma escriptura de gratidão, explicou o Custodio; venho pedir-lhe um grande favor, um favor indispensavel, e conto que o meu amigo...
—Se estiver nas minhas mãos...
—O negocio é excellente, note-se bem; um negocio magnifico. Nem eu me mettia a incommodar os outros sem certeza do resultado. A cousa está prompta; foram já encommendas para a Inglaterra; e é provavel que dentro de dois mezes esteja tudo montado, é uma industria nova. Somos tres socios; a minha parte são cinco contos. Venho pedir-lhe esta quantia, a seis mezes,—ou a tres, com juro modico...
—Cinco contos?
—Sim, senhor.
—Mas, Sr. Custodio, não posso, não disponho de tão grande quantia. Os negocios andam mal; e ainda que andassem muito hem, não poderia dispôr de tanto. Quem é que póde esperar cinco contos de um modesto tabellião de notas?
—Ora, se o senhor quizesse...
—Quero, de certo; digo-lhe que se se tratasse de uma quantia pequena, accommodada aos meus recursos, não teria duvida em adiantal-a, Mas cinco contos! Creia que é impossivel.
A alma do Custodio cahiu de bruços. Subira pela escada de Jacob até o céu; mas em vez de descer como os anjos no sonho biblico, rolou abaixo e cahiu de bruços. Era a ultima esperança; e justamente por ter sido inesperada, é que elle suppoz que fosse certa, pois, como todos os corações que se entregam ao regimen do eventual, o do Custodio era supersticioso. O pobre diabo sentiu enterrarem-se-lhe no corpo os milhões de agulhas que a fabrica teria de produzir no primeiro semestre. Calado, com os olhos no chão, esperou que o tabellião continuasse, que se compadecesse, que lhe désse alguma aberta; mas o tabellião, que lia isso mesmo na alma do Custodio, estava tambem calado, girando entre os dedos a boceta de rapé, respirando grosso, com um certo chiado nazal e implicante. Custodio ensaiou todas as attitudes; ora pedinte, ora general. O tabellião não se mexia. Custodio ergueu-se.
—Bem, disse elle, com uma pontasinha de despeito, ha de perdoar o incomodo...
—Não ha que perdoar; eu é que lhe peço desculpa de não poder servil-o, como desejava. Repito: se fosse alguma quantia menos avultada, muito menos, não teria duvida; mas...
Estendeu a mão ao Custodio, que com a esquerda pegara machinalmente no chapéu. O olhar empanado do Custodio exprimia a absorpção da alma d'elle, apenas convalecida da quéda, que lhe tirára as ultimas energias. Nenhuma escada mysteriosa, nenhum céu; tudo voara a um piparote do tabellião. Adeus, agulhas! A realidade veio tomal-o outra vez com as suas unhas de bronze. Tinha de voltar ao precario, ao adventicio, ás velhas contas, com os grandes zeros arregalados e os cifrões retorcidos á laia de orelhas, que continuariam a fital-o e a ouvil-o, a ouvil-o e a fital-o, alongando para elle os algarismos implacaveis de fome. Que quéda! e que abysmo! Desenganado, olhou para o tabelião com um gesto de despedida; mas, uma idéa subita clareou-lhe a noute do cerebro. Se a quantia fosse menor, Vaz Nunes poderia servil-o, e com prazer; porque não seria uma quantia menor? Já agora abria mão da empreza; mas não podia fazer o mesmo a uns alugueis atrazados, a dous ou tres credores, etc., e uma somma razoavel, quinhentos mil réis, por exemplo, uma vez que o tabellião tinha a boa vontade de emprestar-lh'os, vinham a ponto. A alma do Custodio impertigou-se; vivia do presente, nada queria saber do passado, nem saudades, nem temores, nem remorsos. O presente era tudo. O presente eram os quinhentos mil réis, que elle ia ver surdir da algibeira do tabellião, como um alvará de liberdade.
—Pois bem, disse elle, veja o que me póde dar, e eu irei ter com outros amigos... Quanto?
—Não posso dizer nada a este respeito, porque realmente só uma cousa muito modesta.
—Quinhentos mil réis?
—Não; não posso.
—Nem quinhentos mil réis?
—Nem isso, replicou firme o tabellião. De que se admira? Não lhe nego que tenho algumas propriedades; mas, meu amigo, não ando com ellas no bolso; e tenho certas obrigações particulares... Diga-me, não está empregado?
—Não, senhor.
—Olhe; dou-lhe cousa melhor do que quinhentos mil réis; fallarei ao ministro da justiça, tenho relações com elle, e...
Custodio interrompeu-o, batendo uma palmada no joelho. Se foi um movimento natural, ou uma diversão astuciosa para não conversar do emprego, é o que totalmente ignoro; nem parece que seja essencial ao caso. O essencial é que elle teimou na supplica. Não podia dar quinhentos mil réis? Aceitava duzentos; bastavam-lhe duzentos, não para a empreza, pois adoptava o conselho dos amigos: ia recusal-a. Os duzentos mil réis, visto que o tabellião estava disposto a ajudal-o, eram para uma necessidade urgente,—«tapar um buraco.» E então relatou tudo, respondeu á franqueza com franqueza: era a regra da sua vida. Confessou que, ao tratar da grande empreza, tivera em mente acudir tambem a um credor pertinaz, um diabo, um judeu, que rigorosamente ainda lhe devia, mas tivera a aleivosia de trocar de posição. Eram duzentos e poucos mil réis; e dez, parece; mas aceitava duzentos...
—Realmente, custa-me repetir-lhe o que disse; mas, emfim, nem os duzentos mil réis posso dar. Cem mesmo, se o senhor os pedisse, estão acima das minhas forças n'esta occasião. N'outra póde ser, e não tenho duvida, mas agora...
—Não imagina os apuros em que estou!
—Nem cem, repito. Tenho tido muitas difficuldades n'estes ultimos tempos. Sociedades, subscripções, maçonaria... Custa-lhe crêr, não é? Naturalmente: um proprietario. Mas, meu amigo, é muito bom ter casas: o senhor é que não conta os estragos, os concertos, as pennas d'agua, as decimas, o seguro, os calotes, etc. São os buracos do pote, por onde vai a maior parte da agua...
—Tivesse eu um pote! suspirou Custodio.
—Não digo que não. O que digo é que não basta ter casas para não ter cuidados, despezas, e até credores... Creia o senhor que tambem eu tenho credores.
—Nem cem mil réis!
—Nem cem mil réis, peza-me dizel-o, mas é a verdade. Nem cem mil réis. Que horas são?
Levantou-se, e veiu ao meio da sala. Custodio veiu tambem, arrastado, desesperado. Não podia acabar de crer que o tabellião não tivesse ao menos cem mil réis. Quem é que não tem cem mil réis consigo? Cogitou uma scena pathetica, mas o cartorio abria para a rua; seria ridiculo. Olhou para fóra. Na loja fronteira, um sujeito apreçava uma sobrecasaca, á porta, porque entardecia depressa, e o interior era escuro. O caixeiro segurava a obra no ar; o freguez examinava o panno com a vista e com os dedos, depois as costuras, o forro... Este incidente rasgou-lhe um horizonte novo, embora modesto; era tempo de aposentar o paletó que trazia. Mas nem cincoenta mil réis podia dar-lhe o tabellião. Custodio sorriu;—não de desdem, não de raiva, mas de amargura e duvida; era impossivel que elle não tivesse cincoenta mil réis. Vinte, ao menos? Nem vinte. Nem vinte! Não; falso tudo; tudo mentira.
Custodio tirou o lenço, alisou a chapéu devagarinho; depois guardou o lenço, concertou a gravata, com um ar mixto de esperança e despeito. Viera cerceando as azas á ambição, pluma a pluma; restava ainda uma pennugem curta e fina, que lhe mettia umas velleidades de voar. Mas o outro, nada. Vaz Nunes cotejava o relogio da parede com o do bolso, chegava este ao ouvido, limpava o mostrador, calado, transpirando por todos os poros impaciencia e fastio. Estavam a pingar as cinco; deram, emfim, e o tabellião, que as esperava, desengatilhou a despedida. Era tarde; morava longe. Dizendo isto, despiu o paletó de alpaca, e vestiu o de casimira, mudou de um para outro a boceta de rapé, o lenço, a carteira... Oh! a carteira! Custodio viu esse utensilio problematico, apalpou-o com os olhos, invejou a alpaca, invejou a casimira, quiz ser algibeira, quiz ser o couro, a materia mesma do precioso receptaculo. Lá vae ella; mergulhou de todo no bolso do peito esquerdo; o tabellião abotoou-se. Nem vinte mil réis! Era impossivel que não levasse alli vinte mil réis, pensava elle; não diria duzentos, mas vinte, dez que fossem...
—Prompto! disse-lhe Vaz Nunes, com o chapéu na cabeça.
Era o fatal instante. Nenhuma palavra do tabellião, um convite ao menos, para jantar; nada; findára tudo. Mas os momentos supremos pedem energias supremas. Custodio sentiu toda força d'este logar-commum, e, subito, como um tiro, perguntou ao tabellião se não lhe podia dar ao menos dez mil réis.
—Quer ver?
E o tabellião desabotoou o paletó, tirou a carteira, abriu-a, e mostrou-lhe duas notas de cinco mil réis.
—Não tenho mais, disse elle; o que posso fazer é repartil-os com o senhor; dou-lhe uma de cinco, e fico com a outra; serve-lhe?
Custodio aceitou os cinco mil réis, não triste, ou de má cara, mas risonho, palpitante, como se viesse de conquistar a Asia Menor. Era o jantar certo. Estendeu a mão ao outro, agradeceu-lhe o obsequio, despediu-se até breve,—um até breve cheio de affirmações implicitas. Depois sahiu; o pedinte esvaiu-se á porta do cartorio; o general é que foi por alli abaixo, pisando rijo, encarando fraternalmente os inglezes do commercio que subiam a rua para se transportarem aos arrabaldes. Nunca o céu lhe pareceu tão azul, nem a tarde tão limpida; todos os homens traziam na retina a alma da hospitalidade. Com a mão esquerda no bolso das calças, elle apertava amorosamente os cinco mil réis, residuo de uma grande ambição, que ainda ha pouco sahira contra o sol, n'um impeto de aguia, e ora habita modestamente as azas de frango rasteiro.
FIM DO EMPRESTIMO
A SERENISSIMA REPUBLICA[1]
(CONFERENCIA DO CONEGO VARGAS)
Meus senhores,
Antes de communicar-vos uma descoberta, que reputo de algum lustre para o nosso paiz, deixai que vos agradeça a promptidão com que acudistes ao meu chamado. Sei que um interesse superior vos trouxe aqui; mas não ignoro tambem,—e fora ingratidão ignoral-o,—que um pouco de sympathia pessoal se mistura á vossa legitima curiosidade scientifica. Oxalá possa eu corresponder a ambas.
Minha descoberta não é recente; data do fim do anno de 1876. Não a divulguei então,—e, a não ser o Globo, interessante diario d'esta capital, não a divulgaria ainda agora,—por uma razão que achará facil entrada no vosso espirito. Esta obra de que venho fallar-vos, carece de retoques ultimos, de verificações e experiencias complementares. Mas o Globo noticiou que um sabio inglez descobriu a linguagem phonica dos insectos, e cita o estudo feito com as moscas. Escrevi logo para a Europa e aguardo as respostas com anciedade. Sendo certo, porém, que pela navegação aerea, invento do padre Bartholomeo, é glorificado o nome estrangeiro, emquanto o do nosso patricio mal se póde dizer lembrado dos seus naturaes, determinei evitar a sorte do insigne Voador, vindo a esta tribuna, proclamar alto e bom som, á face do universo, que muito antes d'quelle sabio, o fóra das ilhas britannicas, um modesto naturalista descobriu cousa identica, e fez com ella obra superior.
Senhores, vou assombrar-vos, como teria assombrado a Aristoteles, se lhe perguntasse: Credes que se possa dar um regimen social ás aranhas? Aristoteles responderia negativamente, com vós todos, porque é impossivel crer que jámais se chegasse a organisar socialmente esse articulado arisco, solitario, apenas disposto ao trabalho, e difficilmente ao amor. Pois bem, esse impossivel fil-o eu.
Ouço um riso, no meio do sussuro de curiosidade. Senhores, cumpre vencer os preconceitos. A aranha parece-vos inferior, justamente porque não a conheceis. Amais o cão, prezaes o gato e a gallinha, e não advertis que a aranha não pula nem ladra como o cão, não mia como o gato, não cacareja como a gallinha, não zune nem morde como o mosquito, não nos leva o sangue e o somno como a pulga. Todos esses bichos são o modelo acabado da vadiação e do parasitismo. A mesma formiga, tão gabada por certas qualidades boas, dá no nosso assucar e nas nossas plantações, e funda a sua propriedade roubando a alheia. A aranha, senhores, não nos afflige nem defrauda; apanha as moscas, nossas inimigas, fia, tece, trabalha e morre. Que melhor exemplo de paciencia, de ordem, de previsão, de respeito e de humanidade? Quanto aos seus talentos, não ha duas opiniões. Desde Plinio até Darwin, os naturalistas do mundo inteiro formam um só côro de admiração em torno d'esse bichinho, cuja maravilhosa teia a vassoura inconsciente do vosso creado destroe em menos de um minuto. Eu repetiria agora esses juizos, se me sobrasse tempo; a materia, porém, excede o prazo, sou constrangido a abrevial-a. Tenho-os aqui, não todos, mas quasi todos; tenho, entre elles, esta excellente monographia de Buchner, que com tanta subtileza estudou a vida psychica dos animaes. Citando Darwin e Buchner, é claro que me restrinjo á homenagem cabida a dois sabios de primeira ordem, sem de nenhum modo absolver (e as minhas vestes o proclamam) as theorias gratuitas e erroneas do materialismo.
Sim, senhores, descobri uma especie araneida que dispõe do uso da falla; colligi alguns, depois muitos dos novos articulados, e organisei-os socialmente. O primeiro exemplar d'essa aranha maravilhosa appareceu-me no dia 15 de dezembro de 1876. Era tão vasta, tão colorida, dorso rubro, com listras azues, transversaes, tão rapida nos movimentos, e ás vezes tão alegre, que de todo me captivou a attenção. No dia seguinte vieram mais tres, e as quatro tomaram posse de um recanto de minha chacara. Estudei-as longamente; achei-as admiraveis. Nada, porém, se póde comparar ao pasmo que me causou a descoberta do idioma araneida, uma lingua, senhores, nada menos que uma lingua rica e variada, com a sua estructura syntaxica, os seus verbos, conjugações, declinações, casos latinos e fórmas onomatopaicas, uma lingua que estou grammaticando para uso das academias, como o fiz summariamente para meu proprio uso. E fil-o, notai bem, vencendo difficuldades asperrimas com uma paciencia extraordinaria. Vinte vezes desanimei; mas o amor da sciencia dava-me forças para arremetter a um trabalho, que hoje declaro, não chegaria a ser feito duas vezes na vida do mesmo homem.
Guardo para outro recinto a descripção technica do meu arachnide, e a analyse da lingua. O objecto d'esta conferencia é, como disse, resalvar os direitos da sciencia brazileira, por meio de um protesto em tempo; e, isto feito, dizer-vos a parte em que reputo a minha obra superior á do sabio de Inglaterra. Devo demonstral-o, e para este ponto chamo a vossa attenção.
Dentro de um mez tinha commigo vinte aranhas; no mez seguinte cincoenta e cinco; em Março de 1877 contava quatrocentas e noventa. Duas forças serviram principalmente á empreza de as congregar:—o emprego da lingua d'ellas, desde que pude discernil-a um pouco, e o sentimento de terror que lhes infundi. A minha estatura, as vestes talares, o uso do mesmo idioma, fizeram-lhes crer que era eu o deus das aranhas, e desde então adoraram-me. E vede o beneficio d'esta illusão. Como as acompanhasse com muita attenção e miudeza, lançando em um livro as observações que fazia, cuidaram que o livro era o registro dos seus peccados, e fortaleceram-se ainda mais na pratica das virtudes. A flauta tambem foi um grande auxiliar. Como sabeis, ou deveis saber, ellas são doudas por musica.
Não bastava associal-as; era preciso dar-lhes um governo idoneo. Hesitei na escolha; muitos dos actuaes pareciam-me bons, alguns excellentes, mas todos tinham contra si o existirem. Explico-me. Uma fórma vigente de governo ficava exposta a comparações que poderiam amesquinhal-a. Era-me preciso, ou achar uma fórma nova, ou restaurar alguma outra abandonada. Naturalmente adoptei o segundo alvitre, e nada me pareceu mais acertado do que uma republica, á maneira de Veneza, o mesmo molde, e até o mesmo epitheto. Obsoleto, sem nenhuma analogia, em suas feições geraes, com qualquer outro governo vivo, cabia-lhe ainda a vantagem de um mecanismo complicado,—o que era metter á prova as aptidões politicas da joven sociedade.
Outro motivo determinou a minha escolha. Entre os differentes modos eleitoraes da antiga Veneza, figurava o do sacco e bolas, iniciação dos filhos da nobreza no serviço do Estado. Mettiam-se as bolas com os nomes dos candidatos no sacco, e extrahia-se annualmente um certo numero, ficando os eleitos desde logo aptos para as carreiras publicas. Este systema fará rir aos doutores do suffragio; a mim não. Elle exclue os desvarios da paixão, os desazos da inepcia, o congresso da corrupção e da cobiça. Mas não foi só por isso que o aceitei; tratando-se de um povo tão eximio na fiação de suas teias, o uso do sacco eleitoral era de facil adaptação, quasi uma planta indigena.
A proposta foi acceita. Serenissima Republica pareceu-lhes um titulo magnifico, roçagante, expansivo, proprio a engrandecer a obra popular.
Não direi, senhores, que a obra chegou á perfeição, nem que lá chegue tão cedo. Os meus pupillos não são os solarios de Campanella ou os utopistas de Morus; formam um povo recente, que não póde trepar de um salto ao cume das nações seculares. Nem o tempo é operario que ceda a outro a lima ou o alvião; elle fará mais e melhor do que as theorias do papel, validas no papel e mancas na pratica. O que posso affirmar-vos é que, não obstante as incertezas da idade, elles caminham, dispondo de algumas virtudes, que presumo essenciaes á duração de um Estado. Uma d'ellas, como já disse, é a perseverança, uma longa paciencia de Penelope, segundo vou mostrar vos.
Com effeito, desde que comprehenderam que no acto eleitoral estava a base da vida publica, trataram de o exercer com a maior attenção. O fabrico do sacco foi uma obra nacional. Era um sacco de cinco polegadas de altura e tres de largura, tecido com os melhores fios, obra solida e espessa. Para compol-o foram acclamadas dez damas principaes, que receberam o titulo de mães da republica, além de outros privilegios e fóros. Uma obra-prima, podeis crel-o. O processo eleitoral é simples. As bolas recebem os nomes dos candidatos, que provarem certas condições, e são escriptas por um official publico, denominado «das inscripções». No dia da eleição, as bolas são mettidas no sacco e tiradas pelo official das extracções. até perfazer o numero dos elegendos. Isto que era um simples processo inicial na antiga Veneza, serve aqui ao provimento de todos os cargos.
A eleição fez-se a principio com muita regularidade; mas, logo depois, um dos legisladores declarou que ella fora viciada, por terem entrado no sacco duas bolas com o nome do mesmo candidato. A assembléa verificou a exactidão da denuncia, e decretou que o sacco, até alli de tres pollegadas de largura, tivesse agora duas; limitando-se a capacidade do sacco, restringia-se o espaço á fraude, era o mesmo que supprimil-a. Aconteceu, porém, que na eleição seguinte, um candidato deixou de ser inscripto na competente bola, não se sabe se por descuido ou intenção do official publico. Este declarou que não se lembrava de ter visto o illustre candidato, mas aecrescentou nobremente que não era impossivel que elle lhe tivesse dado o nome; neste caso não houve exclusão, mas distracção. A assembléa, diante de um phenomeno psychologico ineluctavel, como é a distracção, não pôde castigar o official; mas, considerando que a estreiteza do sacco podia dar logar a exclusões odiosas, revogou a lei anterior e restaurou as tres pollegadas.
N'esse interim, senhores, falleceu o primeiro magistrado, e tres cidadãos apresentaram-se candidatos ao posto, mas so dous importantes, Hazeroth e Magog, os proprios chefes do partido rectilineo e do partido curvilineo. Devo explicar-vos estas denominações. Como elles são principalmente geometras, é a geometria que os divide em politica. Uns entendem que a aranha deve fazer as teias com fios rectos, é o partido rectilineo;—outros pensam, ao contrario, que as teias devem ser trabalhadas com fios curvos,—é o partido curvilineo. Ha ainda um terceiro partido, mixto e central, com este postulado:—as teias devem ser urdidas de fios rectos e fios curvos; é o partido recto-curvilineo; e finalmente, uma quarta divisão politica, o partido anti-recto-curvilineo, que fez taboa rasa de todos os principios litigantes, e propõe o uso de umas teias urdidas de ar, obra transparente e leve, em que não ha linhas de especie alguma. Como a geometria apenas puderia dividil-os, sem chegar a apaixonal-os, adoptaram uma symbolica. Para uns, a linha recta exprime os bons sentimentos, a justiça, a probidade, a inteireza, a constancia, etc., ao passo que os sentimentos ruins ou inferiores, como a bajulação, a fraude, a deslealdade, a perfidia, são perfeitamente curvos. Os adversarios respondem que não, que a linha curva é a da virtude e do saber, porque é a expressão da modestia e da humildade; ao contrario, a ignorancia, a presumpção, a toleima, a parlapatice, são rectas, duramente rectas. O terceiro partido, menos anguloso, menos exclusivista, desbastou a exageração de uns e outros, combinou os contrastes, e proclamou a simultaneidade das linhas como a exacta copia do mundo pliysico e moral. O quarto limita-se a negar tudo.
Nem Hazeroth nem Magog foram eleitos. As suas bolas sahiram do sacco, é verdade, mas foram inutilisadas, a do primeiro por faltar a primeira lettra do nome, a do segundo por lhe faltar a ultima. O nome restante e triumphante era o de um argentario ambicioso, politico obscuro, que subiu logo á poltrona ducal, com espanto geral da republica. Mas os vencidos não se contentaram de dormir sobre os louros do vencedor; requereram uma devassa. A devassa mostrou que o official das inscripções intencionalmente viciara a orthographia de seus nomes. O official confessou o defeito e a intenção; mas explicou-os dizendo que se tratava de uma simples ellipse; delicto, se o era, puramente litterario. Não sendo possivel perseguir ninguem por defeitos de ortographia ou figuras de rhetorica, pareceu acertado rever a lei. Nesse mesmo dia ficou decretado que o sacco seria feito de um tecido de malhas, atravez das quaes as bolas pudessem ser lidas pelo, publico, e, ipso facto, pelos mesmos candidatos, que assim teriam tempo de corrigir as inscripções.
Infelizmente, senhores, o commentario da lei é a eterna malicia. A mesma porta aberta á lealdade serviu á astucia de um certo Nabiga, que se conchavou com o official das extracções, para haver um logar na assembléa. A vaga era uma, os candidatos tres; o official extrahiu as bojas com os olhos no complice, que só deixou, de abanar negativamente a cabeça, quando a bola pegada foi a sua. Não era preciso mais para condemnar a idéa das malhas. A assembléa, com exemplar paciencia, restaurou o tecido espesso do regimen anterior; mas, para evitar outras ellipses, decretou a vallidação das bolas cuja inscripção estivesse incorrecta, uma vez que cinco pessoas jurassem ser o nome inscripto o proprio nome do candidato.
Este novo estatuto deu logar a um caso novo e imprevisto, como ides ver. Tratou-se de eleger um collector de esportulas, funccionario encarregado de cobrar as rendas publicas, sob a fórma de esportulas voluntarias. Eram candidatos, entre outros, um certo Caneca e um certo Nebraska. A bola extrahida foi a de Nebraska. Estava errada, é certo, por lhe faltar a ultima letra; mas, cinco testemunhas juraram, nos termos da iei, que o eleito era o proprio e unico Nebraska da republica. Tudo parecia findo, quando o candidato Caneca requereu provar que a bola extrahida não trazia o nome de Nebraska, mas o delle. O juiz de paz deferiu ao peticionario. Veiu então um grande philologo,—talvez o primeiro da republica, além de bom metaphysico, e não vulgar mathemathico,—o qual provou a cousa nestes termos:
—Em primeiro logar, disse elle; deveis notar que não é fortuita a ausencia da ultima lettra do nome Nebraska. Porque motivo foi elle escripto incompletamente? Não se póde dizer que por fadiga ou amor da brevidade, pois só falta a ultima lettra, um simples a. Carencia de espaço? Tambem não; vede; ha ainda espaço para duas ou tres syllabas. Logo, a falta é intencional, e a intenção não póde ser outra senão chamar a attenção do leitor para a lettra k, ultima escripta, desamparada, solteira, sem sentido. Ora, por um effeito mental, que nenhuma lei destruiu, a lettra reproduz-se no cerebro de dois modos, a fórma graphica, e a fórma sonica: k e ca. O defeito, pois, no nome escripto, chamando os olhos para a lettra final, incrusta desde logo no cerebro esta primeira syllaba: Ca. Isto posto, o movimento natural do espirito é ler o nome todo; volta-se ao principio, á inicial ne, do nome Nebrask.—Cané.—Resta a syllaba do meio, bras, cuja reducção a esta outra syllaba ca, ultima do nome Caneca, é a cousa mais demonstravel do mundo. E, todavia, não a demonstrarei, visto faltar-vos o preparo necessario ao entendimento da significação espiritual ou philosophica da syllaba, suas origens e effeitos, phases, modificações, consequencias logicas e syntaxicas, deductivas ou inductivas, symbolicas e outras. Mas, supposta a demonstração, ahi fica a ultima prova, evidente clara, da minha affirmação primeira pela annexação da syllaba ca ás duas Cane, dando este nome Caneca.
A lei emendou-se, senhores, ficando abolida a faculdade da prova testemunhal e interpretativa dos textos, e introduzindo-se uma innovação, o córte simultaneo de meia pollegada na altura e outra meia na largura do sacco. Esta emenda não evitou um pequeno abuso na eleição dos alcaides, e o sacco foi restituido ás dimensões primitivas, dando-se-lhe, todavia, a fórma triangular. Comprehendeis que esta fórma trazia consigo uma consequencia: ficavam muitas bolas no fundo. D'ahi a mudança para a fórma cylindrica; mais tarde deu-se-lhe o aspecto de uma ampulheta, cujo inconveniente se reconheceu ser igual ao triangulo, e então adoptou-se a fórma de um crescente, etc. Muitos abusos, descuidos e lacunas tendem a desapparecer, e o restante terá egual destino, não inteiramente, de certo, pois a perfeição não é d'este mundo, mas na medida e nos termos do conselho de um dos mais circumspectos cidadãos da minha republica, Erasmus, cujo ultimo discurso sinto não poder dar-vos integralmente. Encarregado de notificar a ultima resolução legislativa ás dez damas, incumbidas de urdir o sacco eleitoral, Erasmus contou-lhes a fabula de Penelope, que fazia e desfazia a famosa teia, á espera do esposo Ulysses.
—Vós sois a Penelope da nossa republica, disse elle ao terminar; tendes a mesma castidade, paciencia e talentos. Refazei o sacco, amigas minhas, refazei o sacco, até que Ulysses, cançado de dar ás pernas, venha tomar entre nós o logar que lhe cabe. Ulysses é a Sapiencia.
FIM DA SERENISSIMA REPUBLICA
O ESPELHO
ESBOÇO DE UMA NOVA THEORIA DA ALMA HUMANA
Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, varias questões de alta transcendencia, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espiritos. A casa ficava no morro de Santa Thereza, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se mysteriosamente com o luar que vinha de fóra. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrellas pestanejavam, atravez de uma atmosphera limpida e socegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de cousas metaphysicas, resolvendo amigavelmente os mais arduos problemas do universo.
Porque quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que fallavam; mas, além d'elles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja esportula no debate não passava de um o outro resmungo de approvação. Esse homem tinha a mesma edade dos companheiros, entre quarenta e cincoenta annos, era provinciano, capitalista, intelligente, não sem instrucção, e, ao que parece, astuto e caustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão era a fórma polida do instincto batalhador,. que jaz no homem, como uma herança bestial; e acerescentava que os seraphins e os cherubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como désse esta mesma resposta maquella noite, contestou-lh'a um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava elle) reflectiu um instante, e respondeu:
—Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.
Vai senão quando, no meio da noite, succedeu que este casmurro usou da palavra, e não dous ou tres minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veiu a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o accordo, mas a mesma discussão, tornou-se difficil, senão impossivel, pela multiplicidade de questões que se deduziram do tronco principal, e um pouco, talvez, pela inconsistencia dos pareceres. Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião,—uma conjectura, ao menos.
—Nem conjectura, nem opinião, redarguiu elle; uma ou outra póde dar logar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que resalta a mais clara demonstração acerca da materia de que se trata. Em primeiro logar, não ha uma só alma, ha duas...
—Duas?
—Nada menos de duas almas. Cada creatura humana traz duas almas comsigo: uma que olha de dentro para fóra, outra que olha de fóra para dentro... Espantem-se á vontade; pódem ficar de bocca aberta, dar de hombros, tudo; não admitto replica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior póde ser um espirito, um fluido, um homem, muitos homens, um objecto, uma operação. Ha casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa;—e assim tambem a polka, o voltarete, um livro, uma machina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o officio dessa segunda alma é transmittir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metaphysicamente fallando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existencia; e casos ha, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existencia inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior daquelle judeu eram os seus ducados; perdel-os equivalia a morrer, «Nunca mais verei o meu ouro, diz elle a Tubal; é um punhal que me enterras no coração». Vejam bem esta phrase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para elle. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma...
—Não?
—Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não alludo a certas almas absorventes, como a patria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de Cesar e de Cromwell. São almas energicas e exclusivas; mas ha outras, embora energicas, de natureza mudavel. Ha cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros annos, foi um chocalho ou um cavallinho de páu, e mais tarde uma provedoria de irmandade, supponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora,—na verdade, gentilissima,—que muda de alma exterior cinco, seis vezes por anno. Durante a estação lyrica é a opera; cessando a estação, a alma exterior substitue-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do Ouvidor, Petropolis...
—Perdão; essa senhora quem é?
—Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome: chama-se Legião... E assim outros muitos casos. Eu mesmo tenho experimentado d'essas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episodio de que lhes fallei. Um episodio dos meus vinte e cinco annos...
Os quatro companheiros, anciosos de ouvir o caso promettido, esqueceram a controversia. Santa curiosidade! tu não és só a ama da civilisação, és tambem o pomo da concordia, fructa divina, de outro sabor que não aquelle pomo da mythologia. A sala, até ha pouco ruidosa de physica e metaphysica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que concerta a ponta do charuto, recolhendo as memorias. Eis aqui como elle começou a narração:
—Tinha vinte e cinco annos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da guarda nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na villa, note-se bem, houve alguns despeitados; chôro e ranger de dentes, como na Escriptura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que estes perderam. Supponho tambem que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distincção. Lembra-me de alguns rapazes, que se davam commigo, e passaram a olhar-me de revez, durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos... Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, viuva do capitão Peçanha, que morava a muitas leguas da villa, n'um sitio escuso e solitario, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ella e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pagem, que d'ahi á dias tornou á villa, porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no sitio, escreveu a minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mez, pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me tambem o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. Jurava que em toda a provincia não havia outro que me puzesse o pé adiante. E sempre alferes; era alferes para cá alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãosinho, como d'antes; e ella abanava a cabeça, bradando que não, que era o «senhor alferes». Um cunhado d'ella, irmão do finado Peçanha, que alli morava, não me chamava de outra maneira. Era o «senhor alferes», não por gracejo, mas a serio, e á vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na mesa tinha eu o melhor logar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o enthusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnifica, que destoava do resto da casa, cuja mobilia era modesta e simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdára da mãe, que o comprára a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia n'isso de verdade; era a tradicção. O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos angulos superiores da moldura, uns enfeites de madreperola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom...
—Espelho, grande?
—Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a demovessem do proposito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e finalmente que o «senhor alferes» merecia muito mais. O certo é que todas essas cousas, carinhos, attenções, obsequios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. Imaginam, creio eu?
—Não.
—O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse á outra; ficou-me uma parte minima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era d'antes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortezia e os rapapés da casa, tudo o que me fallava do posto, nada do que me fallava do homem. A unica parte do cidadão que ficou commigo foi aquella que entendia com o exercicio da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-lhes acreditar, não?
—Custa-me até entender, respondeu um dos ouvintes.
—Vai entender. Os factos explicarão melhor os sentimentos; os factos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um philosopho antigo demonstrou o movimento andando. Vamos aos factos. Vamos ver como, ao tempo em que a consciencia do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa. As dôres humanas, as alegrias humanas se eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apathica ou um sorriso de favor. No fim de tres semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma noticia grave; uma de suas filhas, casada com um lavrador residente d'alli a cinco leguas, estava mal e á morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ella, e a mim que tomasse conta do sitio. Creio que, se não fosse a afflicção, disporia o contrario; deixaria o cunhado, e iria commigo. Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande oppressão, alguma cousa semelhante ao effeito de quatro paredes de um carcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espiritos boçaes. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciencia mais debil. Os escravos punham uma nota de humildade nas suas cortezias, que de certa maneira compensava a affeição dos parentes e a intimidade domestica interrompida. Notei mesmo, n'aquella noite, que elles redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes de minuto a minuto. Nhô alferes é muito bonito; nhô alferes ha de ser coronel; nhô alferes ha de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de louvores e prophecias, que me deixou extatico. Ah! perfidos! mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados.
—Matal-o?
—Antes assim fosse.
—Cousa peior?
—Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por outros, ou de movimento proprio, tinham resolvido fugir durante a noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguem, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum folego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo, nada, ninguem, um molequinho que fosse. Gallos e gallinhas tão sómente, um par de mulas, que philosophavam a vida, sacudindo as moscas, e tres bois. Os mesmos cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? era peior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras horas. Fiquei triste por causa do damno causado á tia Marcolina; fiquei tambem um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ella, para lhe dar a triste noticia, ou ficar tomando conta da casa. Adoptei o segundo alvitre, para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma estava mal, eu ia sómente augmentar a dor da mãe, sem remedio nenhum; finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse n'aquelle dia ou no outro, visto que tinham sahido havia já trinta e seis horas. Mas a manhã passou sem vestigio d'elle; e á tarde comecei a sentir uma sensação como de pessoa que houvesse perdido toda a acção nervosa, e não tivesse consciencia da acção muscular. O irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia, nem no outro, nem em toda aquella semana. Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de seculo a seculo, no velho relogio da sala, cuja pendula, tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote continuo do eternidade. Quando, muitos annos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei com este famoso estribilho: Never, for ever!—For ever, never! confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me d'aquelles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relogio da tia Marcolina:—Never, for ever!—For ever, never! Não eram golpes de pendula, era um dialogo do abysmo, um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silencio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguem nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ninguem em parte nenhuma... Riem-se?
—Sim, parece que tinha um pouco de medo.
—Oh! fôra bom se eu podesse ter medo! Viveria. Mas o caracteristico d'aquella situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicavel. Era como um defuncto andando, um somnambulo, um boneco mecanico. Dormindo, era outra cousa. O somno dava-me allivio, não pela razão commum de ser irmão da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse phenomeno:—o somno, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava actuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me, orgulhosamente, no meio da familia e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e promettia-me o posto de tenente, outro o de capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando accordava, dia claro, esvaia-se com o somno, a consciencia do meu ser novo e unico,—porque a alma interior perdia a acção exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar... Não tornava. Eu sahia fóra, a um lado e outro, a ver se descobria algum signal de regresso. Sœur Anne, sœur Anne, ne vois-tu rien venir? Nada, cousa nenhuma; tal qual como na lenda franceza. Nada mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa, nervoso, desesperado, estirava-me no canapé da sala. Tic-tac, tic-tac. Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janellas, assobiava. Em certa occasião lembrei-me de escrever alguma cousa, um artigo politico, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e phrases soltas, para intercalar no estylo. Mas o estylo, como a tia Marcolina, deixava-se estar. Sœur Anne, sœur Anne... Cousa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel.
—Mas não comia?
—Comia mal, fructas, farinha, conservas, algumas raizes tostadas ao fogo, mas supportaria tudo alegremente, se não fora a terrivel situação moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, lyras de Gonzaga, oitavas de Camões, decimas, uma anthologia em trinta volumes. Ás vezes fazia gymnastica; outras dava beliscões nas pernas; mas o effeito era só uma sensação physica de dôr ou de cançaço, e mais nada. Tudo silencio, um silencio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pendula. Tic-tac, tic-tac...
—Na verdade, era de enlouquecer.
—Vão ouvir cousa peior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhára uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, n'aquella casa solitaria; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradicção humana, porque no fim de oito dias, deu-me na veneta olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O proprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nitida e inteira, mas vaga, esfumada, diffusa, sombra de sombra. A realidade das leis physicas não permitte negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; attribui o phenomeno á excitação nervosa em que andava; receiei ficar mais tempo, e enlouquecer.—Vou-me embora, disse commigo. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando commigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrepito, affligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma cousa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma diffusão de linhas, a mesma decomposição de contornos... Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicavel, por um impulso sem calculo, lembrou-me... Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha idéa...
—Diga.
—Estava a olhar para o vidro, com uma persistencia de desesperado, contemplando as proprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... Não, não são capazes de adivinhar.
—Mas, diga, diga.
—Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, apromptei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, emfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sitio, dispersa e fugida com os escravos, eil-a recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco emerge de um lethargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objectos, mas não conhece individualmente uns nem outros; emfim, sabe que este é Fulano, aquelle é Sicrano; aqui está uma cadeira, alli um sofá. Tudo volta ao que era antes do somno. Assim foi commigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria, e o vidro exprimia tudo. Não era mais um automato, era um ente animado. D'ahi em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo, olhando, meditando; no fim de duas, tres horas, despia-me outra vez. Com este regimen pude atravessar mais seis dias de solidão, sem os sentir...
Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.
FIM DO ESPELHO
UMA VISITA DE ALCIBIADES[1]
CARTA DO DESEMBARGADOR X... AO CHEFE DE POLICIA DA CORTE.
Corte, 20 de setembro de 1875.
Desculpe V. Ex. o tremido da lettra e o desgrenhado do estylo; entendel-os-ha d'aqui a pouco.
Hoje, á tardinha, acabado o jantar, em quanto esperava a hora do Cassino, estirei-me no sofá e abri um tomo de Plutarcho. V. Ex., que foi meu companheiro de estudos, ha de lembrar-se que eu, desde rapaz, padeci esta devoção do grego; devoção ou mania, que era o nome que V. Ex. lhe dava, e tão intensa que me ia fazendo reprovar em outras disciplinas. Abri o tomo, e succedeu o que sempre se dá commigo quando leio alguma cousa antiga: transporto-me ao tempo e ao meio da acção ou da obra. Depois de jantar é excellente. Dentro de pouco acha-se a gente n'uma via romana, ao pé de um portico grego ou na loja de um grammatico. Desapparecem os tempos modernos, a insurreição da Herzegovina, a guerra dos carlistas, a rua do Ouvidor, o circo Chiarini. Quinze ou vinte minutos de vida antiga, e de graça. Uma verdadeira digestão litteraria.
Foi o que se deu hoje. A pagina aberta acertou de ser a vida de Alcibiades. Deixei-me ir ao sabor da loquella attica; d'ahi a nada entrava nos jogos olympicos, admirava o mais guapo dos athenienses, guiando magnificamente o carro, com a mesma firmeza e donaire com que sabia reger as batalhas, os cidadãos e os proprios sentidos. Imagine V. Ex. se vivi! Mas, o moleque entrou e accendeu o gaz; não foi preciso mais para fazer voar toda a archeologia da minha imaginação. Athenas volveu á historia, em quanto os olhos me cabiam das nuvens, isto é, nas calças de brim branco, no paletó de alpaca e nos sapatos de cordovão. E então reflecti commigo:
—Que impressão daria ao illustre atheniense o nosso vestuario moderno?
Sou espiritista desde alguns mezes. Convencido de que todos os systemas são puras nihilidades, resolvi adoptar o mais recreativo d'elles. Tempo virá em que este não seja só recreativo, mas tambem util á solução dos problemas historicos; é mais summario evocar o espirito dos mortos, do que gastar as forças criticas, e gastal-as em pura perda, porque não ha raciocinio nem documento que nos explique melhor a intenção de um acto do que o proprio autor do acto. E tal era o meu caso d'esta noite. Conjecturar qual fosse a impressão de Alcibiades era despender o tempo, sem outra vantagem, além do gosto de admirar a minha propria habilidade. Determinei portanto, evocar o atheniense; pedi-lhe que comparecesse em minha casa, logo, sem demora.
E aqui começa o extraordinario da aventura. Não se demorou Alcibiades em acudir ao chamado; dous minutos depois estava alli, na minha sala, perto da parede; mas não era a sombra impalpavel que eu cuidára ter evocado pelos methodos da nossa escola; era o proprio Alcibiades, carne e osso, vero homem, grego authentico, trajado á antiga, cheio d'quella gentileza e desgarre com que usava arengar ás grandes assembléas de Athenas, e tambem, um pouco, aos seus patáus. V. Ex., tão sabedor da historia, não ignora que tambem houve patáus em Athenas; sim, Athenas tambem os possuiu, e esse precedente é uma desculpa. Juro a V. Ex. que não acreditei; por mais fiel que fosse o testemunho dos sentidos, não podia acabar de crer que tivesse alli, em minha casa, não a sombra de Alcibiades, mas o proprio Alcibiades redivivo. Nutri ainda a esperança de que tudo aquillo não fosse mais do que o effeito de uma digestão mal rematada, um simples effluvio do chylo, através da luneta de Plutarcho; e então esfreguei os olhos, fitei-os, e...
—Que me queres? perguntou elle.
Ao ouvir isto, arrepiaram-se-me as carnes. O vulto fallava e fallava grego, o mais puro attico. Era elle, não havia duvidar que era elle mesmo, um morto de vinte seculos, restituido á vida, tão cabalmente como se viesse de cortar agora mesmo a famosa cauda do cão. Era claro que, sem o pensar, acabava eu de dar um grande passo na carreira do espiritismo; mas, ai de mim! não o entendi logo, e deixei-me ficar assombrado. Elle repetiu a pergunta, olhou em volta de si e sentou-se n'uma poltrona. Como eu estivesse frio e tremulo (ainda o estou agora) elle que o percebeu, fallou-me com muito carinho, e tratou de rir e gracejar para o fim de devolver-me o socego e a confiança. Habil como outr'ora! Que mais direi a V. Ex.? No fim de poucos minutos conversavamos os dous, em grego antigo, elle repotreado e natural, eu pedindo a todos as santos do céu a presença de um criado, de uma visita, de uma patrulha, ou, se tanto fosse necessario,—de um incendio.
Escusado é dizer a V. Ex. que abri mão da idéa de o consultar ácerca do vestuario moderno; pedira um espectro, não um homem «de verdade», como dizem as crianças. Limitei-me a responder ao que elle queria; pediu-me noticias de Athenas, dei-lh'as; disse-lhe que ella era emfim a cabeça de uma só Grecia, narrei-lhe a dominação musulmana, a independencia, Botzaris, lord Byron. O grande homem tinha os olhos pendurados da minha bocca; e, mostrando-me admirado de que os mortos lhe não houvessem contado nada, explicou-me que á porta, do outro mundo afrouxavam muito os interesses d'este. Não vira Botzaris nem lord Byron,—em primeiro logar, porque é tanta e tantissima a multidão de espiritos, que estes se fazem naturalmente desencontrados; em segundo logar, porque elles lá congregam-se, não por nacionalidades ou outra ordem, senão por categorias de indole, costume e profissão: assim é que elle Alcibiades, anda no grupo dos politicos elegantes e namorados, com o duque de Buckingham, o Garrett, o nosso Maciel Monteiro, etc. Em seguida pediu-me noticias actuaes; relatei-lhe o que sabia, em resumo; fallei-lhe do parlamento hellenico e do methodo alternativo com que Bulgaris e Comondouros, estadistas seus patricios, imitam Disraeli e Gladstone, revesando-se no poder, e, assim como estes, a golpes de discurso. Elle, que foi um magnifico orador, interrompeu-me:
—Bravo, athenienses!
Se entro n'estas minucias é para o fim de nada omittir do que possa dar a V. Ex. o conhecimento exacto do extraordinario caso que lhe vou narrando. Já disse que Alcibiades escutava-me com avidez; accrescentarei que era esperto e arguto; entendia as cousas sem largo dispendio de palavras. Era tambem sarcastico; ao menos assim me pareceu em um ou dois pontos da nossa conversação; mas no geral d'ella, mostrava-se simples, attento, correcto, sensivel e digno. E gamenho, note V. Ex., tão gamenho como outr'ora; olhava de soslaio para o espelho, como fazem as nossas e outras damas d'este seculo, mirava os borzeguins, compunha o manto, não saia de certas attitudes esculpturaes.
—Vá, continúa, dizia-me elle, quando eu parava de lhe dar noticias.
Mas eu não podia mais. Entrado no inextricavel, no maravilhoso, achava tudo possivel, não atinava porque razão, assim, como elle vinha ter commigo ao tempo, não iria eu ter com elle á eternidade. Esta idéa gelou-me. Para um homem que acabou de digerir o jantar e aguarda a hora do Cassino, a morte é o ultimo dos sarcasmos. Se pudesse fugir... Animei-me: disse-lhe que ia a um baile.
—Um baile? Que cousa é um baile?
Expliquei-lh'o.
—Ah! ver dansar a pyrrhica!
—Não, emendei eu, a pyrrhica já lá vai. Cada seculo, meu caro Alcibiades, muda de dansas como muda de ideias. Nos já não dansamos as mesmas cousas do seculo passado; provavelmente o seculo XX não dansará as d'este. A pyrrhica. foi-se, com os homens de Plutarcho e os numes de Hesiodo.
—Com os numes?
Repeti-lhe que sim, que o paganismo acabára, que as academias do seculo passado ainda lhe deram abrigo, mas sem-convicção, nem alma, que as mesmas bebedeiras arcadicas,
Evohé! padre Bassareu! Evohé! etc.
honesto passatempo de alguns desembargadores pacatos, essas mesmas estavam curadas, radicalmente curadas. De longe em longe, accrescentei, um ou outro poeta, um o outro prosador allude aos restos da theogonia pagã, mas só o faz por gala ou brinco, ao passo que a sciencia reduziu todo o Olympo a uma symbolica. Morto, tudo morto.
—Morto Zeus?
—Morto.
—Dyonisos, Aphrodita?...
—Tudo morto.
O homem de Plutarcho levantou-se, andou um pouco, contendo a indignação, como se dissesse comsigo, imitando o outro:—Ah! se lá estou com os meus athenienses!—Zeus, Dyonisos, Aphrodita... murmurava de quando em quando. Lembrou-me então que elle fôra uma vez accusado de desacato aos deuses e perguntei a mim mesmo d'onde vinha aquella indignação posthuma, e naturalmente postiça. Esquecia-me,—um devoto do grego!—esquecia-me que elle era tambem um refinado hypocrita, um illustre dissimulado. E quasi não tive tempo de fazer esse reparo, porque Alcibiades, detendo-se repentinamente declarou-me que iria ao baile commigo.
—Ao baile? repeti attonito.
—Ao baile, vamos ao baile.
Fiquei atterrado, disse-lhe que não, que não era possivel, que não o admittiriam, com aquelle trajo; pareceria doudo; salvo se elle queria ir lá representar alguma comedia de Aristophanes, accrescentei rindo, para disfarçar o medo. O que eu queria era deixal-o, entregar-lhe a casa, e uma vez na rua, não iria ao Cassino, iria ter com V. Ex. Mas o diabo do homem não se movia; escutava-me com os olhos no chão, pensativo, deliberante. Calei-me; cheguei a cuidar que o pesadelo ia acabar, que o vulto ia desfazer-se, e que eu ficava alli com as minhas calças, os meus sapatos e o meu seculo.
—Quero ir ao baile, repetiu elle. Já agora não vou sem comparar as dansas.
—Meu caro Alcibiades, não acho prudente um tal desejo. Eu teria certamente a maior honra, um grande desvanecimento em fazer entrar no Cassino, o mais gentil, o mais feiticeiro dos athenienses; mas os outros homens de hoje, os rapazes, as moças, os velhos... é impossivel.
—Porque?
—Já disse; imaginarão que és um doudo ou um comediante, porque essa roupa...
—Que tem? A roupa muda-se. Irei á maneira do seculo. Não tens alguma roupa que me emprestes?
Ia a dizer que não; mas occorreu-me logo que o mais urgente era sair, e que uma vez na rua, sobravam-me recursos para escapar-lhe, e então disse-lhe que sim.
—Pois bem, tornou elle levantando-se, irei á maneira do seculo. Só peço que te vistas primeiro, para eu aprender e imitar-te depois.
Levantei-me tambem, e pedi-lhe que me acompanhasse. Não se moveu logo; estava assombrado. Vi que só então reparara nas minhas calças brancas; olhava para ellas com os olhos arregalados, a bocca aberta; emfim, perguntou por que motivo trazia aquelles canudos de panno. Respondi que por maior commodidade; accrescentei que o nosso seculo, mais recatado e util do que artista, determinára trajar de um modo compativel com o seu decóro e gravidade. Demais nem todos seriam Alcibiades. Creio que o lisongeei com isto; elle sorriu e deu de hombros.