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Papeis Avulsos

Note 1 — MACHADO DE ASSIS (continued 3)

Reading edition

Em algumas linhas escriptas para dar o ultimo adeus a Arthur de Oliveira, meu triste amigo, disse que era elle o original deste personagem. Menos a vaidade, que não tinha, e salvo alguns rasgos mais accentuados, este Xavier era o Arthur. Para completal-o darei aqui mesmo aquellas linhas impressas na Estação de 31 de Agosto ultimo:

"Quem não tratou de perto este rapaz, morto a 21 do mez corrente, mal poderá entender a admiração e saudade que elle deixou.

"Conheci-o desde que chegou do Rio Grande do Sul, com dezesete ou dezoito annos de edade; e podem crer que era então o que foi aos trinta. Aos trinta lera muito, vivera muito; mas toda aquella pujança de espirito, todo esse raro temperamento litterario que lhe admiravamos, veiu com a flor da adolescencia; desabrochara com os primeiros dias. Era a mesma torrente de ideias, a mesma fulguração de imagens. Ha algumas semanas, em escripto que viu a luz na Gazeta de Noticias, defini a alma de um personagem com esta especie de hebraismo:—chamei-lhe um sacco de espantos. Esse personagem (posso agora dizel-o) era, em algumas partes, o nosso mesmo Arthur, com a sua poderosa loquella e extraordinaria fantazia. Um sacco de espantos. Mas, se o da minha invenção morreu exhausto de espirito, não aconteceu o mesmo a Arthur de Oliveira, que pôde alguma vez ficar prostrado, mas não exhauriu nunca a força genial que possuia.

"Um organismo daquelles era naturalmente irrequieto. Minas o viu, pouco depois, no collegio dos padres do Caráça, começando os estudos, que interrompeu logo, para continual-os na Europa. Na Europa travou relações litterarias de muito peso; Theophilo Gauthier, entre outros, queria-lhe muito, apreciava-lhe a alta comprehensao artistica, a natureza impetuosa e luminosa, os deslumbramentos subitos de raio. Venez, père de la foudre! dizia-lhe elle, mal o Arthur assomava á porta. E o Arthur, assim definido familiarmente pelo grande artista, entrava no templo, palpitante da divindade, admirativo como tinha de ser até á morte. Sim, até á morte. Gauthier foi uma das religiões que o consolaram. Sete dias antes de o perdermos, isto é, a 14 deste mez, prostrado na cama, roido pelo dente cruel da tisica, escrevia-me elle a proposito de um prato do jantar. "O verde das couves espanejava-se em uma onda de pirão, cor de ouro. A palheta de Ruysdael, pelo incendido do ouro, não hesitaria um só instante, em assignar esse pirão mirabolante, como diria o grande e divino Theo..." Grande e divino! Vêde bem que esta admiração é de um moribundo, refere-se a um morto, e falla na intimidade da correspondencia particular. Onde outra mais sincera?

"Não escrevo uma biographia. A vida delle não é das que se escrevem; é das que são vividas, sentidas, amadas, sem jamais poderem converter-se á narração; tal qual os romances psychologicos, em que a urdidura dos factos é breve ou nenhuma. Ultimamente, exercia o professorado no Collegio de Pedro II; mas a doença tomou-o entre as suas tenazes, para não o deixar mais.

"Não o deixou mais: comeu-lhe a seiva toda; desfibrou-o com a paciencia dos grandes operarios. Elle, como vimos, prestes a tropeçar na cova, regalava-se ainda das reminiscencias litterarias, evocava a palheta de Ruysdael, olhando para a vida que lhe ia sobreviver, a vida da arte que elle amou com fé religiosa, sem proveito para si, sem calculo, sem odios, sem invejas, sem desfallecimento. A doença fel-o padecer muito; teve instantes de dôr cruel, não raro de desespero e de lagrimas; mas, em podendo, reagia. Encararia alguma vez o enigma da morte? Poucas horas antes de morrer (perdôem-me esta recordação pessoal; é necessaria), poucas horas antes de morrer, lia um livro meu, o das Memorias Posthumas de Braz Cubas, e dizia-me que interpretava agora melhor algumas de suas passagens. Talvez as que entendiam com a occasião... E dizia-me aquillo serenamente, com uma força de animo rara, uma resignação de granito. Foi ao sair de uma dessas visitas, que escrevi estes versos, recordando os arrojos d'elle comparados com o actual estado. Não lh'os mostrei; e dou-os aqui para os seus amigos:

"Sabes tu de um poeta enorme, Que andar não usa No chão, e cuja extranha musa, Que nunca dorme, "Calça o pé melindroso e leve, Como uma pluma, De folha e flôr, de sol e neve, Cristal e espuma; "E mergulha, como Leandro, A fórma rara No Pó, no Sena, em Guanabara, E no Scamandro; "Ouve a Tupan e escuta a Momo, Sem controversia, E tanto adoro o estudo, como Adora a inercia; "Ora do fuste, ora da ogiva Sair parece; Ora o Deus do occidente esquece Pelo deus Siva; "Gosta do estrepito infinito, Gosta das longas Solidões em que se ouve o grito Das arapongas; "E se ama o rapido besouro, Que zumbe, zumbe, E a mariposa que succumbe Na flamma de ouro, "Vagalumes e borboletas Da côr da chamma, Roxas, brancas, rajadas, pretas, Não menos ama "Os hippopotamos tranquillos, E os elephantes, E mais os bufalos nadantes, E os crocodillos, "Como as girafas e as pantheras, Onças, condores, Toda a casta de bestas feras E voadores. "Se não sabes quem elle seja, Trepa de um salto, Azul acima, onde mais alto A aguia negreja; "Onde morre o clamor iniquo Dos violentos; Onde não chega o riso obliquo Dos fraudulentos. "Então olha, de cima posto, Para o oceano; Verás n'um longo rosto humano Teu mesmo rosto; "E has de rir, não do riso antigo, Potente e largo, Riso de eterno moço amigo; Mas de outro amargo, "Como o riso de um deus enfermo, Que se aborrece Da divindade, e que apetece Tambem um termo...

"Os amigos delle apreciarão o sentido desses versos. O publico, em geral, nada tem com um homem que passou pela terra sem o convidar para cousa nenhuma, um forte engenho que apenas soube amar a arte, como tantos christãos obscuros amaram a Egreja, e amar tambem aos seus amigos, porque era meigo, generoso e bom."

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