VII
Reading edition
*O CAVADOR*
O CAVADOR
Dezembro, noite, canta o galo… Rouco na treva canta o galo… —Oh, dor! oh, dor!— Aldeão não durmas!… Vae chamal-o, Miseria negra, vae chamal-o!… —Oh, dor! oh, dor!— Bate-lhe á porta, é teu vassalo, Que traga a enxada, é teu vassalo, Miseria negra, o cavador!
O vento ulula… Tremem ninhos… Na noite aziaga tremem ninhos… —Oh, dor! oh, dor!— A neve cae, fria d'arminhos… Na escuridão, fria d'arminhos… —Oh, dor! oh, dor!— Passa maldito nos caminhos, D'enxada ao hombro nos caminhos, Fantasma negro, o cavador!
Vem roxa a estrella d'alvorada… Vem morta a estrella d'alvorada… —Oh, dor! oh, dor!— Montanhas nuas sob a geada!… Hirtas, de bronze, sob a geada… —Oh, dor! oh, dor!— Torvo, inclinado sobre a enxada, Rasga as montanhas com a enxada. Fantasma negro, o cavador!
Cavou, cavou desde que é dia… Cavou, cavou… Bateu meio dia… —Oh, dor! oh, dor!— De pé na encosta erma e bravia, Triste na encosta erma e bravia, —Oh, dor! oh, dor!— Largando a enxada, «Ave Maria!…» Resa em silencio… «Ave Maria!…» Fantasma negro, o cavador!
Cavou, cavou na serra agreste, D'alva á noitinha em serra agreste… —Oh, dor! oh, dor!— E um caldo em premio tu lhe deste, Meu Deos!… seis filhos tu lhe deste… —Oh, dor! oh, dor!— Batem trindades… «Pae celeste!… Bemdito sejas, Pae celeste!…» Resa, fantasma, o cavador!
Cavou cem montes… que é do trigo?! Gerou seis bocas… que é do trigo?! —Oh, dor! oh, dor!— Bateu a Fome ao seu postigo… Bateu a Morte ao seu postigo… —Oh, dor! oh, dor!— «Que a paz de Deos seja comigo! Que a paz de Deos seja comigo!…» Disse, expirando, o cavador!
Junho—91.