V
Reading edition
*CANÇÃO PERDIDA*
CANÇÃO PERDIDA
Halitos de lilaz, de violeta e d'opala, Roxas macerações de dor e d'agonia, O campo, anoitecendo e adormecendo, exhala…
Triste, canta uma voz na sincope do dia:
Alguem de mim se não lembra Nas terras d'alem do mar… Ó Morte, dava-te a vida, Se tu lha fosses levar!…
Ó Morte, dava-te a vida, Se tu lha fosses levar!…
Com o beijo do sol na face cadaverica, Beijo que a morte esvae em palidez algente, Eis a lua a boiar sonambula e chimerica…
Doce, canta uma voz melancolicamente:
O meu amor escondi-o N'uma cova ao pé do mar… Morre o amor, vive a saudade… Morre o sol, olha o luar!…
Morre o amor, vive a saudade… Morre o sol, olha o luar!…
Latescente a neblina opalica flutua, Diluindo, evaporando os montes de granito Em colossos de sonho, extasiados de lua…
Flebil, chora uma voz no letargo infinito:
Quem dá ais ó rouxinol, Lá para as bandas do mar?… É o meu amor que na cova Leva as noites a chorar!…
É o meu amor que na cova Leva as noites a chorar!…
A lua enorme, a lua argentea, a lua calma, Imponderalisou a natureza inteira, Descondensou-a em fluido e embebeceu-a em alma…
Triste expira uma voz na canção derradeira:
Ó meu amor, dorme, dorme Na areia fina do mar, Que em antes da estrella d'alva Comtigo me irei deitar!…
Que em antes da estrella d'alva Comtigo me irei deitar!…
Maio—91.