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Os Lusíadas

Luís Vaz de Camões (continued 3)

Reading edition

Picam de esporas, largam rédeas logo,

Abaixam lanças, fere a terra fogo.

64

"Dos cavalos o estrépito parece

Que faz que o chão debaixo todo treme;

O coração no peito, que estremece

De quem os olha, se alvoroça e teme:

Qual do cavalo voa, que não desce;

Qual, com o cavalo em terra dando, geme;

Qual vermelhas as armas faz de brancas;

Qual com os penachos do elmo açouta as ancas.

65

"Algum dali tomou perpétuo sono

E fez da vida ao fim breve intervalo;

Correndo algum cavalo vai sem dono

E noutra parte o dono sem cavalo.

Cai a soberba Inglesa de seu trono,

Que dois ou três já fora vão do vale;

Os que de espada vêm fazer batalha,

Mais acham já que arnês, escudo e malha.

66

"Gastar palavras em contar extremos

De golpes feros, cruas estocadas,

É desses gastadores, que sabemos,

Maus do tempo, com fábulas sonhadas.

Basta, por fim do caso, que entendemos

Que com finezas altas e afamadas,

Com os nossos fica a palma da vitória,

E as damas vencedoras, e com glória.

67

"Recolhe o Duque os doze vencedores

Nos seus paços, com festas e alegria;

Cozinheiros ocupa e caçadores

Das damas a formosa companhia,

Que querem dar aos seus libertadores

Banquetes mil cada hora e cada dia,

Enquanto se detêm em Inglaterra,

Até tornar à doce e cara terra.

68

"Mas dizem que, contudo, o grã Magriço,

Desejoso de ver as coisas grandes,

Lá se deixou ficar, onde um serviço

Notável à condessa fez de Frandes;

E como quem não era já noviço

Em todo trance, onde tu, Marte, mandes,

Um Francês mata em campo, que o destino

Lá teve de Torcato e de Corvino.

69

"Outro também dos doze em Alemanha

Se lança, e teve um fero desafio

Com um Germano enganoso, que com manha

Não devida o quis pôr no extremo fio."

Contando assim Veloso, já a companha

Lhe pede que não f aça tal desvio

Do caso de Magriço, e vencimento,

Nem deixe o de Alemanha em esquecimento.

70

Mas, neste passo, assim prontos estando

Eis o mestre, que olhando os ares anda,

O apito toca; acordam despertando

Os marinheiros duma e doutra banda;

E porque o vento vinha refrescando,

Os traquetes das gáveas tomar manda:

"Alerta, disse, estai, que o vento cresce

Daquela nuvem negra que aparece."

71

Não eram os traquetes bem tomados,

Quando dá a grande e súbita procela:

"Amaina, disse o mestre a grandes brados,

Amaina, disse, amaina a grande vela!"

Não esperam os ventos indinados

Que amainassem; mas juntos dando nela,

Em pedaços a fazem, com um ruído

Que o mundo pareceu ser destruído.

72

O céu fere com gritos nisto a gente,

Com súbito temor e desacordo,

Que, no romper da vela, a nau pendente

Toma grã suma d'água pelo bordo:

"Alija, disse o mestre rijamente,

Alija tudo ao mar; não falte acordo.

Vão outros dar à bomba, não cessando;

A bomba, que nos imos alagando!"

73

Correm logo os soldados animosos

A dar à bomba; e, tanto que chegaram,

Os balanços que os mares temerosos

Deram à nau, num bordo os derribaram.

Três marinheiros, duros e forçosos,

A menear o leme não bastaram;

Talhas lhe punham duma e doutra parte,

Sem aproveitar dos homens força e arte.

74

Os ventos eram tais, que não puderam

Mostrar mais força do ímpeto cruel,

Se para derribar então vieram

A fortíssima torre de Babel.

Nos altíssimos mares, que cresceram,

A pequena grandura dum batel

Mostra a possante nau, que move espanto,

Vendo que se sustém nas ondas tanto.

75

A nau grande, em que vai Paulo da Gama,

Quebrado leva o masto pelo meio.

Quase toda alagada: a gente chama

Aquele que a salvar o mundo veio.

Não menos gritos vãos ao ar derrama

Toda a nau de Coelho, com receio,

Conquanto teve o mestre tanto tento,

Que primeiro amainou, que desse o vento.

76

Agora sobre as nuvens os subiam

As ondas de Netuno furibundo;

Agora a ver parece que desciam

As íntimas entranhas do Profundo.

Noto, Austro, Bóreas, Aquilo queriam

Arruinar a máquina do mundo:

A noite negra e feia se alumia

Com os raios, em que o Pólo todo ardia.

77

As Alcióneas aves triste canto

Junto da costa brava levantaram,

Lembrando-se do seu passado pranto,

Que as furiosas águas lhe causaram.

Os delfins namorados entretanto

Lá nas covas marítimas entraram,

Fugindo à tempestade e ventos duros,

Que nem no fundo os deixa estar segui-os.

78

Nunca tão vivos raios fabricou

Contra a fera soberba dos Gigantes

O grã ferreiro sórdido, que obrou

Do enteado as armas radiantes;

Nem tanto o grã Tonante arremessou

Relâmpagos ao mundo fulminantes,

No grã dilúvio, donde sós viveram

Os dois que em gente as pedras converteram.

79

Quantos montes, então, que derribaram

As ondas que batiam denodadas!

Quantas árvores velhas arrancaram

Do vento bravo as fúrias indinadas!

As forçosas raízes não cuidaram

Que nunca para o céu fossem viradas,

Nem as fundas areias que pudessem

Tanto os mares que em cima as revolvessem.

80

Vendo Vasco da Gama que tão perto

Do fim de seu desejo se perdia;

Vendo ora o mar até o inferno aberto,

Ora com nova fúria ao céu subia,

Confuso de temor, da vida incerto,

Onde nenhum remédio lhe valia,

Chama aquele remédio santo é forte,

Que o impossível pode, desta sorte:

81

"Divina Guarda, angélica, celeste,

Que os céus, o mar e terra senhoreias;

Tu, que a todo Israel refúgio deste

Por metade das águas Eritreias;

Tu, que livraste Paulo e o defendeste

Das Sirtes arenosas e ondas feias,

E guardaste com os filhos o segundo

Povoador do alagado e vácuo mundo;

82

"Se tenho novos modos perigosos

Doutra Cila e Caríbdis já passados,

Outras Sirtes e baixos arenosos,

Outros Acroceráunios infamados,

No fim de tantos casos trabalhosos,

Por que somos de ti desamparados,

Se este nosso trabalho não te ofende,

Mas antes teu serviço só pretende?

83

"Ó ditosos aqueles que puderam

Entre as agudas lanças Africanas

Morrer, enquanto fortes sostiveram

A santa Fé nas terras Mauritanas!

De quem feitos ilustres se souberam,

De quem ficam memórias soberanas,

De quem se ganha a vida com perdê-la,

Doce fazendo a morte as honras dela!"

84

Assim dizendo, os ventos que lutavam

Como touros indómitos bramando,

Mais e mais a tormenta acrescentavam

Pela miúda enxárcia assoviando.

Relâmpados medonhos não cessavam,

Feros trovões, que vêm representando

Cair o céu dos eixos sobre a terra,

Consigo os elementos terem guerra.

85

Mas já a amorosa estrela cintilava

Diante do Sol claro, no Horizonte,

Mensageira do dia, e visitava

A terra e o largo mar, com leda fronte.

A densa que nos céus a governava,

De quem foge o ensífero Orionte,

Tanto que o mar e a cara armada vira,

Tocada junto foi de medo e de ira.

86

"Estas obras de Baco são, por certo,

Disse; mas não será que avante leve

Tão danada tenção, que descoberto

Me será sempre o mil a que se atreve."

Isto dizendo, desce ao mar aberto,

No caminho gastando espaço breve,

Enquanto manda as Ninfas amorosas

Grinaldas nas cabeças pôr de rosas.

87

Grinaldas manda pôr de várias cores

Sobre cabelo; louros à porfia.

Quem não dirá que nascem roxas flores

Sobre ouro natural, que Amor enfia?

Abrandar determina, por amores,

Dos ventos a nojosa companhia,

Mostrando-lhe as amadas Ninfas belas,

Que mais formosas vinham que as estrelas.

88

Assim foi; porque, tanto que chegaram

A vista delas, logo lhe falecem

As forças com que dantes pelejaram,

E já como rendidos lhe obedecem.

Os pés e mãos parece que lhe ataram

Os cabelos que os raios escurecem.

A Bóreas, que do peito mais queria,

Assim disse a belíssima Oritia:

89

"Não creias, fero Bóreas, que te creio

Que me tiveste nunca amor constante,

Que brandura é de amor mais certo arreio,

E não convém furor a firme amante.

Se já não pões a tanta insânia freio,

Não esperes de mi, daqui em diante,

Que possa mais amar-te, mas temer-te;

Que amor contigo em medo se converte."

90

Assim mesmo a formosa Galateia

Dizia ao fero Noto, que bem sabe

Que dias há que em vê-la se recreia,

E bem crê que com ele tudo acabe.

Não sabe o bravo tanto bem se o creia,

Que o coração no peito lhe não cabe,

De contente de ver que a dama o manda,

Pouco cuida que faz, se logo abranda.

91

Desta maneira as outras amansavam

Subitamente os outros amadores;

E logo à linda Vénus se entregavam,

Amansadas as iras e os furores.

Ela lhe prometeu, vendo que amavam,

Sempiterno favor em seus amores,

Nas belas mãos tomando-lhe homenagem

De lhe serem leais esta viagem.

92

Já a manhã clara dava nos outeiros

Por onde o Ganges murmurando soa,

Quando da celsa gávea os marinheiros

Enxergaram terra alta pela proa.

Já fora de tormenta, e dos primeiros

Mares, o temor vão do peito voa.

Disse alegre o piloto Melindano:

"Terra é de Calecu, se não me engano.

93

"Esta é por certo a terra que buscais

Da verdadeira Índia, que aparece;

E se do mundo mais não desejais,

Vosso trabalho longo aqui fenece."

Sofrer aqui não pode o Gama mais,

De ledo em ver que a terra se conhece:

Os geolhos no chão, as mãos ao céu,

A mercê grande a Deus agradeceu.

94

As graças a Deus dava, e razão tinha,

Que não somente a terra lhe mostrava,

Que com tanto temor buscando vinha,

Por quem tanto trabalho experimentava;

Mas via-se livrado tão asinha

Da morte, que no mar lhe aparelhava

O vento duro, fervido e medonho,

Como quem despertou de horrendo sonho.

95

Por meio destes hórridos perigos,

Destes trabalhos graves e temores,

Alcançam os que são de fama amigos

As honras imortais e graus maiores:

Não encostados sempre nos antigos

Troncos nobres de seus antecessores;

Não nos leitos dourados, entre os finos

Animais de Moscóvia zebelinos;

96

Não com os manjares novos e esquisitos,

Não com os passeios moles e ociosos,

Não com os vários deleites e infinitos,

Que afeminam os peitos generosos,

Não com os nunca vencidos apetitos

Que a Fortuna tem sempre tão mimosos,

Que não sofre a nenhum que o passo mude

Para alguma obra heróica de virtude;

97

Mas com buscar com o seu forçoso braço

As honras, que ele chame próprias suas;

Vigiando, e vestindo o forjado aço,

Sofrendo tempestades e ondas cruas;

Vencendo os torpes frios no regaço

Do Sul e regiões de abrigo nuas;

Engolindo o corrupto mantimento,

Temperado com um árduo sofrimento;

98

E com forçar o rosto, que se enfia,

A parecer seguro, ledo, inteiro,

Para o pelouro ardente, que assovia

E leva a perna ou braço ao companheiro.

Destarte, o peito um calo honroso cria,

Desprezador das honras e dinheiro,

Das honras e dinheiro, que a ventura

Forjou, e não virtude justa e dura.

99

Destarte se esclarece o entendimento,

Que experiências fazem repousado,

E fica vendo, corno de alto assento,

O baixo trato humano embaraçado.

Este, onde tiver força o regimento

Direito, e não de afeitos ocupado,

Subirá (como deve) a ilustre mando,

Contra vontade sua, e não rogando.

Canto Sétimo

1

Já se viam chegados junto à terra,

Que desejada já de tantos fora,

Que entre as correntes Indicas se encerra,

E o Ganges, que no céu terreno mora.

Ora, sus, gente forte, que na guerra

Quereis levar a palma vencedora,

Já sois chegados, já tendes diante

A terra de riquezas abundante.

2

A vós, ó geração de Luso, digo,

Que tão pequena parte sois no inundo;

Não digo ainda no mundo, mas no amigo

Curral de quem governa o céu rotundo;

Vós, a quem não somente algum perigo

Estorva conquistar o povo imundo,

Mas nem cobiça, ou pouca obediência

Da Madre, que nos céus está em essência;

3

Vós, Portugueses, poucos quanto fortes,

Que o fraco poder vosso não pesais;

Vós, que à custa de vossas várias mortes

A lei da vida eterna dilatais:

Assim do céu deitadas são as sortes,

Que vós, por muito poucos que sejais,

Muito façais na santa Cristandade:

Que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!

4

Vede-los Alemães, soberbo gado,

Que por tão largos campos se apascenta,

Do sucessor de Pedro, rebelado,

Novo pastor, e nova seita inventa:

Vede-lo em feias guerras ocupado,

Que ainda com o cego error se não contenta,

Não contra o soberbíssimo Otomano,

Mas por sair do jugo soberano.

5

Vede-lo duro Inglês, que se nomeia

Rei da velha e santíssima cidade,

Que o torpe Ismaelita senhoreia,

(Quem viu honra tão longe da verdade?)

Entre as Boreais neves se recreia,

Nova maneira faz de Cristandade:

Para os de Cristo tem a espada nua,

Não por tomar a terra que era sua.

6

Guarda-lhe por entanto um falso Rei

A cidade Hierosólima terrestre,

Enquanto ele não guarda a santa lei

Da cidade Hierosólima celeste.

Pois de ti, Galo indigno, que direi?

Que o nome Cristianíssimo quiseste,

Não para defendê-lo, nem guardá-lo,

Mas para ser contra ele, e derrubá-lo!

7

Achas que tens direito em senhorios

De Cristãos, sendo o teu tão largo e tanto,

E não contra o Cinífio e Nilo, rios

Inimigos do antigo nome santo?

Ali se hão de provar da espada os fios

Em quem quer reprovar da Igreja o canto.

De Carlos, de Luís, o nome e a terra

Herdaste, e as causas não da justa guerra?

8

Pois que direi daqueles que em delícias,

Que o vil ócio no mundo traz consigo,

Gastam as vidas, logram as divícias,

Esquecidos de seu valor antigo?

Nascem da tirania inimicícias,

Que o povo forte tem de si inimigo:

Contigo, Itália, falo, já submersa

Em Vícios mil, e de ti mesma adversa.

9

Ó míseros Cristãos, pela ventura,

Sois os dentes de Cadmo desparzidos,

Que uns aos outros se dão a morte dura,

Sendo todos de um ventre produzidos?

Não vedes a divina sepultura

Possuída de cães, que sempre unidos

Vos vêm tomar a vossa antiga terra,

Fazendo-se famosos pela guerra?

10

Vedes que têm por uso e por decreto,

Do qual são tão inteiros observantes,

Ajuntarem o exército inquieto

Contra os povos que são de Cristo amantes;

Entre vós nunca deixa a fera Aleto

De semear cizânias repugnantes:

Olhai se estais seguros de perigos,

Que eles e vós sois vossos inimigos.

11

Se cobiça de grandes senhorios

Vos faz ir conquistar terras alheias,

Não vedes que Pactolo e Hermo, rios,

Ambos volvem auríferas areias?

Em Lídia, Assíria, lavram de ouro os fios;

África esconde em si luzentes veias;

Mova-vos já sequer riqueza tanta,

Pois mover-vos não pode a Casa Santa.

12

Aquelas invenções feras e novas

De instrumentos mortais da artilharia,

Já devem de fazer as duras provas

Nos muros de Bizâncio e de Turquia.

Fazei que torne lá às silvestres covas

Dos Cáspios montes, e da Cítia fria

A Turca geração, que multiplica

Na polícia da vossa Europa rica.

13

Gregos, Traces, Arménios, Georgianos,

Bradando-vos estão que o povo bruto

Lhe obriga os caros filhos aos profanos

Preceptos do Alcorão (duro tributo!)

Em castigar os feitos inumanos

Vos gloriai de peito forte e astuto,

E não queirais louvores arrogantes

De serdes contra os vossos muito possantes.

14

Mas entanto que cegos o sedentos

Andais de vosso sangue, ó gente insana!

Não faltarão Cristãos atrevimentos

Nesta pequena casa Lusitana:

De África tem marítimos assentos,

É na Ásia mais que todas soberana,

Na quarta parte nova os campos ara,

E se mais mundo houvera, lá chegara.

15

E vejamos entanto que acontece

Aqueles tão famosos navegantes,

Depois que a branda Vénus enfraquece

O furor vão dos ventos repugnantes:

Depois que a larga terra lhe aparece,

Fim de suas porfias tão constantes,

E dar novo costume e novo Rei.

16

Tanto que à nova terra se chegaram,

Leves embarcações de pescadores

Acharam, que o caminho lhe mostraram

De Calecu, onde eram moradores.

Para lá logo as proas se inclinaram,

Porque esta era a cidade das melhores

Do Malabar melhor, onde vivia

O Rei que a terra toda possuía.

17

Além do Indo jaz, e aquém do Gange,

Um terreno muito grande e assaz famoso,

Que pela parte Austral o mar abrange,

E para o Norte o Emódio cavernoso.

Jugo de Reis diversos o constrange

A várias leis: alguns o vicioso

Mahoma, alguns os ídolos adoram,

Alguns os animais, que entre eles morri.

18

Lá bem no grande monte, que cortando

Tão larga terra, toda Ásia discorre,

Que nomes tão diversos vai tomando,

Segundo as regiões por onde corre,

As fontes saem, donde vêm manando

Os rios, cuja grã corrente morre

No mar Índico, e cercam todo o peso

Do terreno, fazendo-o Quersoneso.

19

Entro um e outro rio, em grande espaço,

Sai da larga terra uma loira ponta

Quase piramidal, que no regaço

Do mar com Ceilão ínsula confronta;

E junto donde nasce o largo braço

Gangético, o rumor antigo conta

Que os vizinhos, da terra moradores,

Do cheiro se mantêm das finas flores.

20

Mas agora de nomes e de usança

Novos e vários são os habitantes:

Os Delis, os Patanes, que em possança

De terra e gente, são mais abundantes;

Decanis, Oriás, que a esperança

Têm de sua salvação nas ressonantes

Águas do Gange, e a terra de Bengala

Fértil de sorte que outra não lhe iguala.

21

O Reino de Cambaia belicoso

(Dizem que foi de Poro, Rei potente)

O Reino de Narsinga, poderoso

Mais de ouro e pedras que de forte gente.

Aqui se enxerga lá do mar undoso

Um monte alto, que corre longamente,

Servindo ao Malabar de forte muro,

Com que do Canará vive seguro.

22

Da terra os naturais lhe chamam Gate,

Do pé do qual pequena quantidade

Se estende uma fralda estreita, que combate

Do mar a natural ferocidade.

Aqui de outras cidades, sem debate,

Calecu tem a ilustre dignidade

De cabeça de Império rica e bela:

Samorim se intitula o senhor dela.

23

Chegada a frota ao rico senhorio,

Um Português mandado logo parte

A fazer sabedor o Rei gentio

Da vinda sua a tão remota parte.

Entrando o mensageiro pelo rio,

Que ali nas ondas entra, a não vista arte,

A cor, o gesto estranho, o trajo novo

Fez concorrer a vê-lo todo o povo.

24

Entre a gente que a vê-lo concorria,

Se chega um Mahometa, que nascido

Fora na região da Berberia,

Lá onde fora Anteu obedecido:

Ou pela vizinhança já teria

O Reino Lusitano conhecido,

Ou foi já assinalado de seu ferro:

Fortuna o trouxe a tão loiro desterro.

25

Em vendo o mensageiro, com jocundo

Rosto, como quem sabe a língua Hispana,

Lhe disse: "Quem te trouxe a estoutro mundo,

Tão longe da tua pátria Lusitana?"

—"Abrindo, lhe responde, o mar profundo,

Por onde nunca veio gente humana,

Vimos buscar do Indo a grão corrente,

Por onde a Lei divina se acrescente."

26

Espantado ficou da grã viagem

O Mouro, que Monçaide se chamava,

Ouvindo as opressões que na passagem

Do mar, o Lusitano lhe contava:

Mas vendo enfim que a f orça da mensagem

Só para o Rei da terra relevava,

Lhe diz que estava f ora da cidade,

Mas de caminho pouca quantidade.

27

E que, entanto que a nova lhe chegasse

De sua estranha vinda, se queria,

Na sua pobre casa repousasse,

E do manjar da terra comeria,

E depois que se um pouco recreasse,

Com ele para a armada tornaria,

Que alegria não pode ser tamanha,

Que achar gente vizinha em terra estranha.

28

O Português aceita de vontade

O que o ledo Monçaide lhe oferece;

Como se longa fora já a amizade,

Com ele come, e bebe, e lhe obedece.

Ambos se tornam logo da cidade

Para a frota, que o Mouro bem conhece;

Sobem à capitania; e toda a gente

Monçaide recebeu benignamente.

29

O Capitão o abraça em cabo ledo,

Ouvindo clara a língua de Castela;

Junto de si o assenta, e pronto e quedo,

Pela terra pergunta, e cousas dela.

Qual se ajuntava em Ródope o arvoredo,

Só por ouvir o amante da donzela

Eurídice, tocando a lira de ouro,

Tal a gente se ajunta a ouvir o Mouro.

30

Ele começa: "Ó gente, que a natura

Vizinha fez de meu paterno ninho,

Que destino tão grande ou que ventura

Vos trouxe a cometerdes tal caminho?

Não é sem causa, não, oculta e escura,

Vir do longínquo Tejo e ignoto Minho,

Por mares nunca doutro lenho arados,

A Reinos tão remotos e apartados.

31

"Deus por certo vos traz, porque pretende

Algum serviço seu por vós obrado;

Por isso só vos guia, e vos defende

Dos inimigos, do mar, do vento irado.

Sabei que estais na Índia, onde se estende

Diverso povo, rico e prosperado

De ouro luzente e fina pedraria,

Cheiro suave, ardente especiaria.

32

"Esta província, cujo porto agora

Tomado tendes, Malabar se chama:

Do culto antigo os ídolos adora,

Que cá por estas partes se derrama:

De diversos Reis é, mas dum só

Noutro tempo, segundo a antiga fama;

Saramá Perimal foi derradeiro

Rei, que este Reino teve unido e inteiro.

33

"Porém, como a esta terra então viessem

De lá do seio Arábico outras gentes,

Que o culto Mahomético trouxessem,

No qual me instituíram meus parentes,

Sucedeu que pregando convertessem

O Perimal: de sábios e eloquentes,

Fazem-lhe a lei tomar com fervor tanto,

Que pressupôs de nela morrer santo.

34

"Naus arma, e nelas mete curioso

Mercadoria, que ofereça rica,

Para ir nelas a ser religioso,

Onde o profeta jaz, que a Lei publica;

Antes que parta, o Reino poderoso

Com os seus reparte, porque não lhe fica

Herdeiro próprio, faz os mais aceitos

Ricos de pobres, livres de sujeitos.

35

"A um Cochim, e a outro Cananor,

A qual Chalé, a qual a ilha da Pimenta,

A qual Coulão, a qual dá Cranganor,

E os mais, a quem o mais serve e contenta,

Um só moço, a quem tinha muito amor,

Depois que tudo deu, se lhe apresenta:

Para este Calecu somente fica,

Cidade já por trato nobre e rica.

36

"Esta lhe dá com o título excelente

De Imperador, que sobre os outros mande.

Isto feito, se parte diligente

Para onde em santa vida acabe, e ande.

E daqui fica o nome de potente

Samori, mais que todos digno e grande,

Ao moço e descendentes; donde vem

Este, que agora o Império manda e tem.

37

"A Lei da gente toda, rica e pobre,

De fábulas composta se imagina:

Andam nus, e somente um pano cobre

As partes, que a cobrir natura ensina.

Dois modos há de gente, porque a nobre

Naires chamados são, e a menos digna

Poleás tem por nome, a quem obriga

A Lei não misturar a casta antiga.

38

"Porque os que usaram sempre um mesmo ofício,

De outro não podem receber consorte,

Nem os filhos terão outro exercício,

Senão o de seus passados, até morte.

Para os Naires é certo grande vício

Destes serem tocados; de tal sorte,

Que quando algum se toca, por ventura,

Com cerimónias mil se alimpa e apura.

39

"Desta sorte o Judaico povo antigo

Não tocava na gente de Samária.

Mais estranhezas ainda das que digo

Nesta terra vereis de usança vária.

Os Naires sós são dados ao perigo

Das armas; sós defendem da contrária

Banda o seu Rei, trazendo sempre usada

Na esquerda a adarga e na direita a espada.

40

"Brâmenes são os seus religiosos,

Nome antigo e de grande proeminência:

Observam os preceitos tão famosos

Dum que primeiro pôs nome à ciência:

Não matam coisa viva, e, temerosos,

Das carnes têm grandíssima abstinência;

Somente no venéreo ajuntamento

Têm mais licença e menos regimento.

41

"Gerais são as mulheres, mas somente

Para os da geração de seus maridos:

Ditosa condição, ditosa gente,

Que não são de ciúmes ofendidos!

Estes e outros costumes variamente

São pelos Malabares admitidos.

A terra é grossa em trato, em tudo aquilo

Que as ondas podem dar da China ao Nilo."

42

Assim contava o Mouro; mas vagando

Andava a fama já pela cidade

Da vinda desta gente estranha, quando

O Rei saber mandava da verdade.

Já vinham pelas ruas caminhando,

Rodeados de todo sexo e idade,

Os principais, que o Rei buscar mandara

O Capitão da armada, que chegara.

43

Mas ele, que do Rei já tem licença

Para desembarcar, acompanhado

Dos nobres Portugueses, sem detença

Parte, de ricos panos adornado.

Das cores a formosa diferença

A vista alegra ao povo alvoroçado.

O remo compassado fere frio

Agora o mar, depois o fresco rio.

44

Na praia um regedor do Reino estava,

Que na sua língua Catual se chama,

Rodeado de Naires, que esperava

Com desusada festa o nobre Gama.

Já na terra, nos braços o levava,

E num portátil leito uma rica cama

Lhe oferece, em que vá, costume usado,

Que nos ombros dos homens é levado.

45

Desta arte o Malabar, destarte o Luso

Caminham, lá para onde o Rei o espera:

Os outros Portugueses vão ao uso

Que infantaria segue, esquadra fera.

O povo que concorre vai confuso

De ver a gente estranha, e bem quisera

Perguntar: mas no tempo já passado

Na torre de Babel lhe foi vedado.

46

O Gama e o Catual iam falando

Nas coisas, que lhe o tempo oferecia;

Monçaide entre eles vai interpretando

As palavras que de ambos entendia.

Assim pela cidade caminhando,

Onde uma rica fábrica se erguia

De um sumptuoso templo, já chegavam,

Pelas portas do qual juntos entravam.

47

Ali estão das deidades as figuras

Esculpidas em pau e em pedra fria;

Vários de gestos, vários de pinturas,

A segundo o Demónio lhe fingia:

Vêem-se as abomináveis esculturas,

Qual a Quimera em membros se varia:

Os Cristãos olhos, a ver Deus usados

Em forma humana, estão maravilhados.

48

Um na cabeça cornos esculpidos,

Qual Júpiter Amon em Líbia estava;

Outro num corpo rostos tinha unidos,

Bem como o antigo Jano se pintava;

Outro com muitos braços divididos

A Briareu parece que imitava;

Outro fronte canina tem de fora,

Qual Anúbis Menfítico se adora.

49

Aqui feita do bárbaro gentio

A supersticiosa adoração,

Direitos vão, sem outro algum desvio,

Para onde estava o Rei do povo vão.

Engrossando-se vai da gente o fio,

Com os que vêm ver o estranho Capitão;

Estão pelos telhados e janelas

Velhos e moços, donas e donzelas.

50

Já chegam perto, e não com passos lentos,

Dos jardins odoríferos formosos,

Que em si escondem os régios aposentos,

Altos de torres não, mas sumptuosos.

Edificam-se os nobres seus assentos

Por entre os arvoredos deleitosos:

Assim vivem os Reis daquela gente,

No campo e na cidade juntamente.

51

Pelos portais da cerca a sutileza

Se enxerga da Dedálea facultade,

Em figuras mostrando, por nobreza,

Da Índia a mais remota antiguidade.

Afiguradas vão com tal viveza

As histórias daquela antiga idade,

Que quem delas tiver notícia inteira,

Pela sombra conhece a verdadeira.

52

Estava um grande exército que pisa

A terra Oriental, que o Idaspe lava;

Rege-o um capitão de fronte lisa,

Que com frondentes tirsos pelejava;

Por ele edificada estiva Nisa

Nas ribeiras do rio, que manava,

Tão próprio, que se ali estiver Semele,

Dirá, por certo, que é seu filho aquele.

53

Mais avante bebendo seca o rio

Mui grande multidão da Assíria gente,

Sujeita a feminino senhorio

De uma tão bela como incontinente.

Ali tem junto ao lado nunca frio,

Esculpido o feroz ginete ardente,

Com quem teria o filho competência:

Amor nefando, bruta incontinência!

54

Daqui mais apartadas tremulavam

As bandeiras de Grécia gloriosas,

Terceira Monarquia, e sojugavam

Até as águas Gangéticas undosas.

Dum capitão mancebo se guiavam,

De palmas rodeado valerosas,

Que já, não de Filipo, mas sem falta

De progénie de Júpiter se exalta.

55

Os Portugueses vendo estas memórias,

Dizia o Catual ao Capitão:

"Tempo cedo virá que outras vitórias

Estas, que agora olhais, abaterão;

Aqui se escreverão novas histórias

Por gentes estrangeiras que virão;

Que os nossos sábios magos o alcançaram

Quando o tempo futuro especularam.

56

"E diz-lhe mais a mágica ciência

Que, para se evitar força tamanha,

Não valerá dos homens resistência,

Que contra o Céu não val da gente manha;

Mas também diz que a bélica excelência,

Nas armas e na paz, da gente estranha

Será tal, que será no mundo ouvido

O vencedor, por glória do vencido,"

57

Assim falando entravam já na sala,

Onde aquele potente Imperador

Numa camilha jaz, que não se iguala

De outra alguma no preço e no lavor.

No recostado gesto se assinala

Um venerando e próspero senhor;

Um pano de ouro cinge, e na cabeça

De preciosas gemas se adereça.

58

Bem junto dele um velho reverente,

Com os giolhos no chão, de quando em quando

Lhe dava a verde folha da erva ardente,

Que a seu costume estava ruminando.

Um Brâmene, pessoa proeminente,

Para o Gama vem com passo brando,

Para que ao grande Príncipe o apresente,

Que diante lhe acena que se assente.

59

Sentado o Gama junto ao rico leito,

Os seus mais afastados, pronto em vista

Estava o Samori no trajo e jeito

Da gente, nunca de antes dele vista.

Lançando a grave voz do sábio peito,

Que grande autoridade logo aquista

Na opinião do Rei e do povo todo,

O Capitão lhe fala deste modo:

60

"Um grande Rei, de lá das partes Onde

O céu volúvel, com perpétua roda,

Da terra a luz solar com a terra esconde,

Tingindo a que deixou de escura noda,

Ouvindo do rumor que lá responde

O eco, como em ti da Índia toda

O principado está, e a majestade,

Vínculo quer contigo de amizade.

61

"E por longos rodeios a ti manda,

Por te fazer saber que tudo aquilo

Que sobre o mar, que sobre as terras anda

De riquezas, de lá do Tejo ao Nilo,

E desde a fria plaga de Gelanda

Até bem donde o Sol não muda o estilo

Nos dias, sobre a gente de Etiópia,

Tudo tem no seu Reino em grande cópia.

62

"E se queres com pactos e alianças

De paz e de amizade sacra e nua

Comércio consentir das abastanças

Das fazendas da terra sua e tua,

Por que cresçam as rendas e abastanças,

Por quem a gente mais trabalha e sua,

De vossos Reinos, será certamente

De ti proveito, o dele glória ingente.

63

"E sendo assim, que o nó desta amizade

Entre vós firmemente permaneça,

Estará pronto a toda adversidade,

Que por guerra a teu Reino se ofereça,

Com gente, armas e naus, de qualidade

Que por irmão te tenha e te conheça;

E da vontade em ti sobre isto posta

Me dês a mim certíssima resposta."

64

Tal embaixada dava o Capitão,

A quem o Rei gentio respondia

Que, em ver embaixadores de nação

Tão remota, grã glória recebia;

Mas neste caso a última tenção

Com os de seu conselho tomaria,

Informando-se certo de quem era

O Rei, e a gente, e terra que dissera..

65

E que entanto podia do trabalho

Passado ir repousar, e em tempo breve

Daria a seu despacho um justo talho,

Com que a seu Rei resposta alegre leve.

Já nisto punha a noite o usado atalho

As humanas canseiras, por que ceve

De doce sono os membros trabalhados,

Os olhos ocupando ao ócio dados.

66

Agasalhados foram juntamente

O Gama e Portugueses no aposento

Do nobre Regedor da Índica gente,

Com festas e geral contentamento.

O Catual, no cargo diligente

De seu Rei, tinha já por regimento

Saber da gente estranha donde vinha,

Que costumes, que lei, que terra tinha.

67

Tanto que os ígneos carros do formoso

Mancebo Délio viu, que a luz renova,

Manda chamar Monçaide, desejoso

De poder-se informar da gente nova.

Já lhe pergunta pronto e curioso,

Se tem notícia inteira e certa prova

Dos estranhos, quem são; que ouvido tinha

Que é gente de sua pátria muito vizinha;

68

Que particularmente ali lhe desse

Informação mui larga, pois faria

Nisso serviço ao Rei, por que soubesse

O que neste negócio se faria.

Monçaide torna:—"Posto que eu quisesse

Dizer-te disto mais, não saberia;

Somente sei que é gente lá de Espanha,

Onde o meu ninho e o Sol no mar se banha.

69

"Têm a lei dum Profeta, que gerado

Foi sem fazer na carne detrimento

Da mãe, tal que por bafo está aprovado

Do Deus, que tem do mundo o regimento,

O que entre meus antigos é vulgado

Deles, é que o valor sanguinolento

Das armas no seu braço resplandece,

O que em nossos passados se parece.

70

"Porque eles, com virtude sobre-humana,

Os deitaram dos campos abundosos

Do rico Tejo e fresco Goadiana,

Com feitos memoráveis e famosos:

E não contentes ainda, e na Africana

Parte, cortando os mares procelosos,

Nos não querem deixar viver seguros,

Tomando-nos cidades e altos muros.

71

"Não menos têm mostrado esforço e manha

Em quaisquer outras guerras que aconteças,

Ou das gentes belígeras de Espanha,

Ou lá dalguns que do Pírene desçam.

Assim que nunca enfim com lança estranha

Se tem, que por vencidos se conheçam,

Nem se sabe ainda, não, te afirmo e asselo,

Para estes Anibais nenhum Marcelo.

72

"E se esta informação não for inteira

Tanto quanto convém, deles pretende

Informar-te, que é gente verdadeira,

A quem mais falsidade enoja e ofende:

Vai ver-lhe a f rota, as armas e a maneira

Do fundido metal, que tudo rende,

E folgarás de veres a polícia

Portuguesa na paz e na milícia."

73

Já com desejos o Idolatra ardia

De ver isto, que o Mouro lhe contava.

Manda esquipar batéis que ir ver queria

Os lenhos em que o Gama navegava.

Ambos partem da praia, a quem seguia

A Naira geração, que o mar coalhava.

A capitania sobem forte e bela,

Onde Paulo os recebe a bordo dela.

74

Purpúreos são os toldos, e as bandeiras

Do rico fio são que o bicho gera;

Nelas estão pintadas as guerreiras

Obras, que o forte braço já fizera:

Batalhas tem campais, aventureiras,

Desafios cruéis, pintura fera,

Que, tanto que ao Gentio se apresenta,

A tento nela os olhos apascenta.

75

Pelo que vê pergunta; mas o Gama

Lhe pedia primeiro que se assente,

E que aquele deleite, que tanto ama

A seita Epicureia, experimente.

Dos espumantes vasos se derrama

O licor que Noé mostrara à gente:

Mas comer o Gentio não pretende,

Que a seita que seguia lho defende.

76

A trombeta que, em paz, no pensamento

Imagem faz de guerra, rompe os ares;

Com o fogo o diabólico instrumento

Se faz ouvir no fundo lá dos mares.

Tudo o Gentio nota; mas o intento

Mostrava sempre ter nos singulares

Feitos dos homens, que em retrato breve

A muda poesia ali descreve

77

Alça-se em pé, com ele o Gama junto,

Coelho de outra parti, e o Mauritano;

Os olhos põe no bélico transunto

De um velho branco, aspecto venerando

Cujo nome não pode ser defunto

Enquanto houver no mundo trato humano:

No trajo a Grega usança está perfeita,

Um ramo por insígnia na direita.

78

Um ramo na mão tinha... Mas, ó cego!

Eu, que cometo insano e temerário,

Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego,

Por caminho tão árduo, longo e vário!

Vosso favor invoco, que navego

Por alto mar, com vento tão contrário,

Que, se não me ajudais, hei grande medo

Que o meu fraco batel se alague cedo.

79

Olhai que há tanto tempo que, cantando

O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,

A fortuna mo traz peregrinando,

Novos trabalhos vendo, e novos danos:

Agora o mar, agora experimentando

Os perigos Mavórcios inumanos,

Qual Canace, que à morte se condena,

Numa mão sempre a espada, e noutra a pena.

80

Agora, com pobreza avorrecida,

Por hospícios alheios degradado;

Agora, da esperança já adquirida,

De novo, mais que nunca, derribado;

Agora às costas escapando a vida,

Que dum fio pendia tão delgado

Que não menos milagre foi salvar-se

Que para o Rei Judaico acrescentar-se.

81

E ainda, Ninfas minhas, não bastava

Que tamanhas misérias me cercassem,

Senão que aqueles, que eu cantando andava

Tal prémio de meus versos me tornassem:

A troco dos descansos que esperava,

Das capelas de louro que me honrassem,

Trabalhos nunca usados me inventaram,

Com que em tão duro estado me deitaram.

82

Vede, Ninfas, que engenhos de senhores

O vosso Tejo cria valorosos,

Que assim sabem prezar com tais favores

A quem os faz, cantando, gloriosos!

Que exemplos a futuros escritores,

Para espertar engenhos curiosos,

Para porem as coisas em memória,

Que merecerem ter eterna glória!

83

Pois logo em tantos males é forçado,

Que só vosso favor me não faleça,

Principalmente aqui, que sou chegado

Onde feitos diversos engrandeça:

Dai-mo vós sós, que eu tenho já jurado

Que não o empregue em quem o não mereça,

Nem por lisonja louve algum subido,

Sob pena de não ser agradecido.

84

Nem creiais, Ninfas, não, que a fama desse

A quem ao bem comum e do seu Rei

Antepuser seu próprio interesse,

Inimigo da divina e humana Lei.

Nenhum ambicioso, que quisesse

Subir a grandes cargos, cantarei,

Só por poder com torpes exercícios

Usar mais largamente de seus vícios;

85

Nenhum que use de seu poder bastante,

Para servir a seu desejo feio,

E que, por comprazer ao vulgo errante,

Se muda em mais figuras que Proteio.

Nem, Camenas, também cuideis que canto

Quem, com hábito honesto e grave, veio,

Por contentar ao Rei no ofício novo,

A despir e roubar o pobre povo.

86

Nem quem acha que é justo e que é direito

Guardar-se a lei do Rei severamente,

E não acha que é justo e bom respeito,

Que se pague o suor da servil gente;

Nem quem sempre, com pouco experto peito,

Razões aprende, e cuida que é prudente,

Para taxar, com mão rapace e escassa,

Os trabalhos alheios, que não passa.

87

Aqueles sós direi, que aventuraram

Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida,

Onde, perdendo-a, em fama a dilataram,

Tão bem de suas obras merecida.

Apolo, e as Musas que me acompanharam,

Me dobrarão a fúria concedida,

Enquanto eu tomo alento descansado,

Por tornar ao trabalho, mais folgado.

Canto Oitavo

1

Na primeira figura se detinha

O Catual que vira estar pintada,

Que por divisa um ramo na mão tinha,

A barba branca, longa e penteada:

"Quem era, e por que causa lhe convinha

A divisa, que tem na mão tomada?"

Paulo responde, cuja voz discreta

O Mauritano sábio lhe interpreta.

2

"Estas figuras todas que aparecem,

Bravos em vista e feros nos aspectos,

Mais bravos e mais feros se conhecem,

Pela fama, nas obras e nos feitos:

Antigos são, mas ainda resplandecem

Colo nome, entre os engenhos mais perfeito

Este que vês é Luso, donde a fama

O nosso Reino Lusitânia chama.

3

"Foi filho e companheiro do Tebano,

Que tão diversas partes conquistou;

Parece vindo ter ao ninho Hispano

Seguindo as armas, que contino usou;

Do Douro o Guadiana o campo ufano,

Já dito Elísio, tanto o contentou,

Que ali quis dar aos já cansados ossos

Eterna sepultura, e nome aos nossos.

4

"O ramo que lhe vês para divisa,

O verde tirso foi de Baco usado;

O qual à nossa idade amostra e avisa

Que foi seu companheiro e filho amido.

Vês outro, que do Tejo a terra pisa,

Depois de ter tão longo mar arado,

Onde muros perpétuos edifica,

E templo a Palas, que em memória fica?

5

"Ulisses é o que faz a santa casa

A Deusa, que lhe dá língua facunda;

Que, se lá na Ásia Tróia insigne abrasa,

Cá na Europa Lisboa ingente funda."

—"Quem será estoutro cá, que o campo arrasa

De mortos, com presença furibunda?

Grandes batalhas tem desbaratadas,

Que as águias nas bandeiras tem pintadas."

6

Assim o Gentio diz. Responde o Gama:

—"Este que vês, pastor já foi de gado;

Viriato sabemos que se chama,

Destro na lança mais que no cajado;

Injuriada tem de Roma a f ama,

Vencedor invencível afamado;

Não tem com ele, não, nem ter puderam

O primor que com Pirro já tiveram.

7

"Com força, não; com manha vergonhosa,

A vida lhe tiraram que os espanta:

Que o grande aperto, em gente ainda que honrosa,

As vezes leis magnânimas quebranta.

Outro está aqui que, contra a pátria irosa,

Degradado, conosco se alevanta:

Escolheu bem com quem se alevantasse,

Para que eternamente se ilustrasse.

8

"Vês? conosco também vence as bandeiras

Dessas aves de Júpiter validas;

Que já naquele tempo as mais Guerreiras

Gentes de nós souberam ser vencidas.

Olha tão subtis artes e maneiras,

Para adquirir os povos, tão fingidas,

A fatídica Cerva que o avisa:

Ele é Sertório, e ela a sua divisa.

9

"Olha estoutra bandeira, e vê pintado

O grã progenitor dos Reis primeiros.

Nós Úngaro o fazemos, porém nado

Crêem ser em Lotaríngia os estrangeiros.

Depois de ter com os Mouros superado,

Galegos e Leoneses cavaleiros,

A casa Santa passa o santo Henrique,

Por que o tronco dos Reis se santifique."

10

"Quem é, me diz, este outro que me espanta,

(Pergunta o Malabar maravilhado)

Que tantos esquadrões, que gente tanta,

Com tão pouca, tem roto e destroçado?

Tantos muros aspérrimos quebranta,

Tantas batalhas dá, nunca cansado,

Tantas coroas tem por tantas partes

A seus pés derribadas, e estandartes!"

11

—"Este é o primeiro Afonso, disse o Gama,

Que todo Portugal aos Mouros toma;

Por quem, no Estígio lago, jura a Fama

De mais não celebrar nenhum de Roma.

Este é aquele zeloso a quem Deus ama,

Com cujo braço o Mouro inimigo doma,

Para quem de seu Reino abaixa os muros,

Nada deixando já para os futuros,

12

"Se César, se Alexandre Rei, tiveram

Tão pequeno poder, tão pouca gente,

Contra tantos inimigos quantos eram

Os que desbaratava este excelente,

Não creias que seus nomes se estendera

Com glórias imortais tão largamente;

Mas deixa os feitos seus inexplicáveis,

Vê que os de seus vassalos são notáveis.

13

"Este que vês olhar com gesto irado

Para o rompido aluno mal sofrido,

Dizendo-lhe que o exército espalhado

Recolha, e torne ao campo defendido;

Torna o moço do velho acompanhado,

Que vencedor o torna de vencido:

Egas Moniz se chama o forte velho,

Para leais vassalos claro espelho.

14

"Vê-lo cá vai com os filhos a entregar-se,

A corda ao colo, nu de seda e pano,

Porque não quis o moço sujeitar-se,

Como ele prometera, ao Castelhano.

Fez com siso e promessas levantar-se

O cerco, que já estava soberano;

Os filhos e mulher obriga à pena:

Para que o senhor salve, a si condena.

15

"Não fez o Cônsul tanto, que cercado

Foi nas forças Caudinas, de ignorante,

Quando a passar por baixo foi forçado

Do Samnítico jugo triunfante.

Este, pelo seu povo injuriado,

A si se entrega só, firme e constante;

Estoutro a si, e os filhos naturais,

E a consorte sem culpa, que dói mais.

16

"Vês este que, saindo da cilada,

Dá sobre o Rei que cerca a vila forte?

Já o Rei tem preso e a vila descercada:

Ilustre feito, digno de Mavorte!

Vê-lo cá vai pintado nesta armada,

No mar também aos Mouros dando a morto,

Tomando-lhe as galés, levando a glória

Da primeira marítima vitória.

17

"É, Dom Fuas Roupinho, que na terra

E no mar resplandece juntamente,

Com o fogo que acendeu junto da serra

De Abila, nas galés da Maura gente.

Olha como, em tão justa e santa guerra,

De acabar pelejando está contente:

Das mãos dos Mouros entra a feliz alma,

Triunfando, nos céus, com justa palma.

18

"Não vês um ajuntamento, de estrangeiro

Trajo, sair da grande armada nova,

Que ajuda a combater o Rei primeiro

Lisboa, de si dando santa prova?

Olha Henrique, famoso cavaleiro,

A palma que lhe nasce junto à cova.

Por eles mostra Deus milagre visto:

Germanos são os mártires de Cristo.

19

"Um Sacerdote vê brandindo a espada

Contra Arronches, que toma, por vingança

De Leiria, que de antes foi tomada

Por quem por Mafamede enresta a lança:

É Teotónio, Prior. Mas vê cercada

Santarém, e verás a segurança

Da figura nos muros, que primeira

Subindo, ergueu das Quinis a bandeira.

20

"Vê-lo cá, donde Sancho desbarata

Os Mouros de Vandália em fera guerra;

Os inimigos rompendo, o alferes mata

E o Hispálico pendão derriba em terra:

Mem Moniz é, que em si o valor retrata,

Que o sepulcro do pai com os ossos cerra,

Digno destas bandeiras, pois sem falta

A contrária derriba e a sua exalta.

21

"Olha aquele que desce pela lança?

Com as duas cabeças dos vigias,

Onde a cilada esconde, com que alcança

A cidade por manhas e ousadias.

Ela por armas toma a semelhança

Do cavaleiro, que as cabeças frias

Na mão levava (feito nunca feito!)

Giraldo Sem-pavor é o forte peito.

22

"Não vês um Castelhano, que agravado

De Afonso nono rei, pelo ódio antigo

Dos de Lara, com os Mouros é deitado,

De Portugal fazendo-se inimigo?

Abrantes vila toma, acompanhado

Dos duros infiéis que traz consigo.

Mas vê que um Português com pouca gente

O desbarata e o prende ousadamente.

23

"Martim Lopes se chama o cavaleiro,

Que destes levar pode a palma e o louro.

Mas olha um Eclesiástico guerreiro,

Que em lança de aço torna o Bago de ouro.

Vê-lo entre os duvidosos tão inteiro

Em não negar batalha ao bravo Mouro;

Olha o sinal no céu que lhe aparece,

Com que nos poucos seus o esforço cresce.

24

"Vós? vão os Reis de Córdova e Sevilha

Rotos, com os outros dois, e não de espaço.

Rotos? mas antes mortos, maravilha

Feita de Deus, que não de humano braço.

Vês? já a vila de Alcáçare se humilha,

Sem lhe valer defesa, ou muro de aço,

A Dom Mateus, o Bispo de Lisboa,

Que a coroa da palma ali coroa.

25

"Olha um Mestre que desce de Castela,

Português de nação, como conquista

A terra dos Algarves, e já nela

Não acha quem por armas lhe resista;

Com manha, esforço, e com benigna estrela,

Vilas, castelos toma à escala vista.

Vês Tavila tomada aos moradores,

Em vingança dos sete caçadores!

26

"Vês? com bélica astúcia ao Mouro ganha

Silves, que ele ganhou com força ingente:

É Dom Paio Correia, cuja manha

E grande esforço faz inveja à gente.

Mas não passes os três que em França e Espanha

Se fazem conhecer perpetuamente

Em desafios, justas e torneios,

Nelas deixando públicos troféus.

27

"Vê-los, com o nome vêm de aventureiros

A Castela, onde o preço sós levaram

Dos jogos de Belona verdadeiros,

Que com dano de alguns se exercitaram.

Vê mortos os soberbos cavaleiros,

Que o principal dos três desafiaram,

Que Gonçalo Ribeiro se nomeia,

Que pode não temer a lei Leteia.

28

"Atenta num, que a fama tanto estende,

Que de nenhum passado se contenta;

Que a pátria, que de um fraco fio pende,

Sobre seus duros ombros a sustenta.

Não no vês tinto de ira, que reprende

A vil desconfiança inerte e lenta

Do povo, e faz que tome o doce freio

De Rei seu natural, e não de alheio?

29

"Olha: por seu conselho e ousadia

De Deus guiada só, e de santa estrela,

Só pode o que impossível parecia:

Vencer o povo ingente de Castela.

Vês, por indústria, esforço e valentia,

Outro estrago e vitória clara e bela,

Na gente, assim feroz como infinita,

Que entre o Tarteso e Goadiana habita?

30

"Mas não vês quase já desbaratado

O poder Lusitano, pela ausência

Do Capitão devoto, que, apartado

Orando invoca a suma e trina Essência?

Vê-lo com pressa já dos seus achado,

Que lhe dizem que falta resistência

Contra poder tamanho, e que viesse,

Por que consigo esforço aos fracos desse?

31

"Mas olha com que santa confiança,

—Que inda não era tempo,—respondia,

Como quem tinha em Deus a seguraria

Da vitória que logo lhe daria.

Assim Pompílio, ouvindo que a possança

Dos inimigos a terra lhe corria,

A quem lhe a dura nova estava dando,

-"Pois eu, responde, estou sacrificando."—

32

"Se quem com tanto esforço em Deus se atreve,

Ouvir quiseres como se nomeia,

Português Cipião chamar-se deve;

Mas mais de Dom Nuno Alvares se arreia:

Ditosa pátria que tal filho teve!

Mas antes pai, que enquanto o Sol rodeia

Este globo de Ceres e Netuno,

Sempre suspirará por tal aluno.

33

"Na mesma guerra vê que presas ganha

Estoutro Capitão de pouca gente;

Comendadores vence e o gado apanha,

Que levavam roubado ousadamente.

Outra vez vê que a lança em sangue banha

Destes, só por livrar com o amor ardente

O preso amigo, preso por leal:

Pêro Rodrigues é do Landroal.

34

"Olha este desleal o como paga

O perjúrio que fez e vil engano:

Gil Fernandes é de Elvas quem o estraga,

E faz vir a passar o último dano:

De Xerez rouba o campo, e quase alaga

Com o sangue de seus donos Castelhano.

Mas olha Rui Pereira, que com o rosto

Faz escudo às galés, diante posto.

35

"Olha que dezessete Lusitanos,

Neste outeiro subidos se defendem,

Fortes, de quatrocentos Castelhanos,

Que em derredor, pelos tomar, se estendem;

Porém logo sentiram, com seus danos,

Que não só se defendem, mas ofendem:

Digno feito de ser no mundo eterno,

Grande no tempo antigo e no moderno.

36

"Sabe-se antigamente que trezentos

Já contra mil Romanos pelejaram,

No tempo que os viris atrevimentos

De Viriato tanto se ilustraram,

E deles alcançando vencimentos

Memoráveis, de herança nos deixaram

Que os muitos, por ser poucos, não temamos:

O que depois mil vezes amestramos.

37

"Olha cá dois infantes, Pedro e Henrique,

Progénie generosa de Joane:

Aquele faz que fama ilustre fique

Dele em Germânia, com que a morte engane;

Este, que ela nos mares o publique

Por seu descobridor, e desengane

De Ceita a Maura túmida vaidade,

Primeiro entrando as portas da cidade.

38

"Vês o conde Dom Pedro, que sustenta

Dois cercos contra toda a Barbaria?

Vês, outro Conde está, que representa

Em terra Marte, em forças e ousadia;

De poder defender se não contenta

Alcácere da ingente companhia;

Mas do seu Rei defende a cara vida,

Pondo por muro a sua, ali perdida.

39

"Outros muitos verias, que os pintores

Aqui também por certo pintariam;

Mas falta-lhe pincel, faltam-lhe cores,

Honra, prémio, favor, que as artes criam:

Culpa dos viciosos sucessores,

Que degeneram, certo, e se desviam

Do lustre e do valor dos seus passados,

Em gostos e vaidades atolados.

40

"Aqueles pais ilustres que já deram

Princípio à geração que deles pende,

Pela virtude muito então fizeram,

E por deixar a casa, que descende.

Cegos, que dos trabalhos que tiveram,

Se alta fama e rumor deles se estende,

Escuros deixam sempre seus menores,

Com lhe deixar descansos corruptores.

41

"Outros também há grandes e abastados,

Sem nenhum tronco ilustre donde venham;

Culpa de Reis, que às vezes a privados

Dão mais que a mil, que esforço e saber tenham.

Estes os seus não querem ver pintados,

Crendo que cores vãs lhe não convenham,

E, como a seu contrairo natural,

A pintura, que fala, querem mal.

42

"Não nego que há contudo descendentes

Do generoso tronco, e casa rica,

Que com costumes altos e excelentes,

Sustentam a nobreza que lhe fica;

E se a luz dos antigos seus parentes

Neles mais o valor não clarifica,

Não falta ao menos, nem se faz escura.

Mas destes acha poucos a pintura."

43

Assim está declarando os grandes feitos

O Gama, que ali mostra a vária tinta,

Que a douta mão tão claros, tão perfeitos,

Do singular artífice ali pinta.

Os olhos tinha prontos e direitos

O Catual na história bem distinta;

Mil vezes perguntava e mil ouvia

As gostosas batalhas que ali via.

44

Mas já a luz se mostrava duvidosa,

Porque a a lâmpada grande se escondia

Debaixo do Horizonte e luminosa

Levava aos Antípodas o dia,

Quando o Gentio e a gente generosa

Dos Naires da nau forte se partia

A buscar o repouso que descansa

Os lassos animais, na noite mansa.

45

Entretanto os Arúspices famosos

Na falsa opinião, que em sacrifícios

Antevêem sempre os casos duvidosos,

Por sinais diabólicos e indícios,

Mandados do Rei próprio, estudiosos

Exercitavam a arte e seus ofícios

Sobre esta vinda desta gente estranha,

Que às suas terras vem da ignota Espanha.

46

Sinal lhe mostra o Demo verdadeiro,

De como a nova gente lhe seria

Jugo perpétuo, eterno cativeiro,

Destruição de gente, e de valia.

Vai-se espantado o atónito agoureiro

Dizer ao Rei (segundo o que entendia)

Os sinais temerosos que alcançara

Nas entranhas das vítimas que olhara.

47

A isto mais se ajunta que um devoto

Sacerdote da lei de Mafamede,

Dos ódios concebidos não remoto

Contra a divina Fé, que tudo excede,

Em forma do Profeta falso e noto,

Que do filho da escrava Agar procede,

Baco odioso em sonhos lhe aparece,

Que de seus ódios ainda se não desse.

48

E diz-lhe assim: "Guardai-vos, gente minha,

Do mal que se aparelha pelo inimigo

Que pelas águas úmidas caminha,

Antes que esteis mais perto do perigo."

Isto dizendo, acorda o Mouro asinha,

Espantado do sonho; mas consigo

Cuida que não é mais que sonho usado:

Torna a dormir quieto e sossegado.

49

Torna Baco, dizendo: "Não conheces

O grã legislador que a teus passados

Tem mostrado o preceito a que obedeces,

Sem o qual fôreis muitos batizados?

Eu por ti, rudo, velo; e tu adormeces!

Pois saberás que aqueles, que chegados

De novo são, serão muito grande dano

Da lei que eu dei ao néscio povo humano.

50

"Enquanto é fraca a força desta gente,

Ordena como em tudo se resista,

Porque, quando o Sol sai, facilmente

Se pode nele pôr a aguda vista;

Porém, depois que sobe claro e ardente,

Se agudeza dos olhos o conquista,

Tão cega fica, quanto ficareis,

Se raízes criar lhe não tolheis."

51

Isto dito, ele e o sono se despede.

Tremendo fica o atónito Agareno:

Salta da cama, lume ao servos pede,

Lavrando nele o fervido veneno.

Tanto que a nova luz que ao Sol precede

Mostrara rosto angélico e sereno,

Convoca os principais da torpe seita,

Aos quais do que sonhou dá conta estreita.

52

Diversos pareceres e contrários

Ali se dão, segundo o que entendiam;

Astutas traições, enganos vários,

Perfídias inventavam e teciam.

Mas, deixando conselhos temerários,

Destruição da gente pretendiam,

Por manhas mais subtis e ardis melhores,

Com peitas adquirindo os regedores;

53

Com peitas, ouro, e dádivas secretas

Conciliam da terra os principais,

E com razões notáveis e discretas

Mostram ser perdição dos naturais,

Dizendo que são gentes inquietas,

Que, os mares discorrendo ocidentais,

Vivem só de piráticas rapinas,

Sem Rei, sem leis humanas ou divinas

54

Ó quanto deve o Rei que bem governa,

De olhar que os conselheiros, ou privados,

De consciência e de virtude interna

E de sincero amor sejam dotados!

Porque, como este posto na suprema

Cadeira, pode mal dos apartados

Negócios ter notícia mais inteira,

Do que lhe der a língua conselheira.

55

Nem tão pouco direi que tome tanto

Em grosso a consciência limpa e certa,

Que se enleve num pobre e humilde manto,

Onde ambição acaso ande encoberta.

E quando um bom em tudo é justo e santo,

Em negócios do mundo pouco acerta,

Que mal com eles poderá ter conta

A quieta inocência, em só Deus pronta.

56

Mas aqueles avaros Catuais,

Que o Gentílico povo governavam,

Induzidos das gentes infernais,

O Português despacho dilatavam.

Mas o Gama, que não pretende mais,

De tudo quanto os Mouros ordenavam,

Que levar a seu Rei um sinal certo

Do mundo, que deixava descoberto.

57

Nisto trabalha só; que bem sabia

Que depois que levasse esta certeza,

Armas, o naus, e gente mandaria

Manuel, que exercita a suma alteza,

Com que a seu jugo e lei someteria

Das terras e do mar a redondeza;

Que ele não era mais que um diligente

Descobridor das terras do Oriente.

58

Falar ao Rei gentio determina,

Por que com seu despacho se tornasse,

Que já sentia em tudo da malina

Gente impedir-se quanto desejasse.

O Rei, que da notícia falsa e indina

Não era de espantar se se espantasse,

Que tão crédulo era em seus agouros,

E mais sendo afirmados pelos Mouros,

59

Este temor lhe esfria o baixo peito.

Por outra parte a força da cobiça,

A quem por natureza está sujeito,

Um desejo imortal lhe acende e atiça:

Que bem vê que grandíssimo proveito

Fará, se com verdade e com justiça

O contrato fizer por longos anos,

Que lhe comete o Rei dos Lusitanos.

60

Sobre isto, nos conselhos que tomava,

Achava muito contrários pareceres;

Que naqueles com quem se aconselhava

Executa o dinheiro seus poderes.

O grande Capitão chamar mandava,

A quem chegado disse:—"Se quiseres

Confessar-me a verdade limpa e nua,

Perdão alcançarás da culpa tua.

61

Fala do Samorim ao Gama

"Eu sou bem informado que a embaixada

Que de teu Rei me deste, que é fingida;

Porque nem tu tens Rei, nem pátria amada,

Mas vagabundo vás passando a vida;

Que quem da Hespéria última alongada,

Rei ou senhor de insânia desmedida,

Há de vir cometer com naus e frotas

Tão incertas viagens e remotas?

62

"E se de grandes Reinos poderosos

O teu Rei tem a régia majestade,

Que presentes me trazes valerosos,

Sinais de tua incógnita verdade?

Com peças e dons altos, sumptuosos,

Se lia dos Reis altos a amizade;

Que sinal nem penhor não é bastante

As palavras dum vago navegante.

63

"Se porventura vindes desterrados,

Como já foram homens de alta sorte,

Em meu Reino sereis agasalhados,

Que toda a terra é pátria para o forte;

Ou se piratas sois ao mar usados,

Dizei-mo sem temor de infâmia ou morte,

Que por se sustentar em toda idade,

Tudo faz a vital necessidade."

64

Isto assim dito, o Gama, que já tinha

Suspeitas das insídias que ordenava

O Mallomético ódio, donde vinha

Aquilo que tão mal o Rei cuidava,

Com uma alta confiança, que convinha,

Com que seguro crédito alcançava,

Que Vénus Acidália lhe influía,

Tais palavras do sábio peito abria:

65

"Se os antigos delitos, que a malícia

Humana cometeu na prisca idade,

Não causaram que o vaso da niquícia,

Açoute tão cruel da Cristandade,

Viera pôr perpétua inimicícia

Na geração de Adão, coa falsidade,

Ó poderoso Rei da torpe seita,

Não conceberas tu tão má suspeita.

66

"Mas porque nenhum grande bem se alcança

Sem grandes opressões, e em todo o feito

Segue o temor os passos da esperança,

Que em suor vive sempre de seu peito,

Me mostras tu tão pouca confiança

Desta minha verdade, sem respeito

Das razões em contrário que acharias

Se não cresses a quem não crer devias.

67

"Porque, se eu de rapinas só vivesse,

Undívago, ou da pátria desterrado,

Como crês que tão longe me viesse

Buscar assento incógnito e apartado?

Por que esperanças, ou por que interesse

Viria experimentando o mar irado,

Os Antarcticos frios, e os ardores

Que sofrem do Carneiro os moradores?

68

"Se com grandes presentes de alta estima

O crédito me pedes do que digo,

Eu não vim mais que a achar o estranho clima

Onde a natura pôs teu Reino antigo.

Mas, se a Fortuna tanto me sublima

Que eu torne à minha pátria e Reino amigo,

Então verás o dom soberbo e rico,

Com que minha tornada certifico.

69

"Se te parece inopinado feito,

Que Rei da última Hespéria a ti me mande,

O coração sublime, o régio peito,

Nenhum caso possível tem por grande.

Bem parece que o nobre e grã conceito

Do Lusitano espírito demande

Maior crédito, e fé de mais alteza,

Que creia dele tanta fortaleza.

70

"Sabe que há muitos anos que os antigos

Reis nossos firmemente propuseram

De vencer os trabalhos e perigos,

Que sempre às grandes coisas se opuseram;

E, descobrindo os mares inimigos

Do quieto descanso, pretenderam

De saber que fim tinham, e onde estavam

As derradeiras praias que lavavam.

71

"Conceito digno foi do ramo claro

Do venturoso Rei, que arou primeiro

O mar, por ir deitar do ninho caro

O morador de Abila derradeiro.

Este, por sua indústria e engenho raro,

Num madeiro ajuntando outro madeiro,

Descobrir pôde a parte, que faz clara

De Argos, da Hidra a luz, da Lebre e da Ara.

72

"Crescendo com os sucessos bons primeiros

No peito as ousadias, descobriram

Pouco e pouco caminhos estrangeiros,

Que uns, sucedendo aos outros, prosseguiram.

De África os moradores derradeiros

Austrais, que nunca as sete flamas viram,

Foram vistos de nós, atrás deixando

Quantos estão os Trópicos queimando.

73

"Assim com firme peito, e com tamanho

Propósito, vencemos a Fortuna,

Até que nós no teu terreno estranho

Viemos pôr a última coluna.

Rompendo a força do líquido estanho,

Da tempestade horrífica e importuna,

A ti chegamos, de quem só queremos

Sinal, que ao nosso Rei de ti levemos.

74

"Esta é a verdade, Rei; que não faria

Por tão incerto bem, tão fraco prémio,

Qual, não sendo isto assim, esperar podia,

Tão longo, tão fingido e vão proêmio;

Mas antes descansar me deixaria

No nunca descansado e fero grêmio

Da madre Tethys, qual pirata inico,

Dos trabalhos alheios feito rico.

75

"Assim que, ó Rei, se minha grã verdade

Tens por qual é, sincera e não dobrada,

Ajunta-me ao despacho brevidade,

Não me impeças o gosto da tornada.

E, se ainda te parece falsidade,

Cuida bem na razão que está provada,

Que com claro juízo pode ver-se,

Que fácil é a verdade de entender-se."

76

A tento estava o Rei na segurança

Com que provava o Gama o que dizia;

Concebe dele certa confiança,

Crédito firme em quanto proferia.

Pondera das palavras a abastança,

Julga na autoridade grão valia,

Começa de julgar por enganados

Os Catuais corruptos, mal julgados.

77

Juntamente a cobiça do proveito,

Que espera do contrato Lusitano,

O faz obedecer e ter respeito

Com o Capitão, e não com o Mauro engano.

Enfim ao Gama manda que direito

As naus se vá, e, seguro de algum dano,

Possa a terra mandar qualquer fazenda,

Que pela especiaria troque e venda.

78

Que mande da fazenda, enfim, lhe manda,

Que nos Reinos Gangéticos faleça;

Se alguma traz idónea lá da banda

Donde a terra se acaba e o mar começa.

Já da real presença veneranda

Se parte o Capitão, para onde peça

Ao Catual, que dele tinha cargo,

Embarcação, que a sua está de largo.

79

Embarcação que o leve às naus lhe pede;

Mas o mau Regedor, que novos laços

Lhe maquinava, nada lhe concede,

Interpondo tardanças e embaraços.

Com ele parte ao cais, por que o arrede

Longe quanto puder dos régios paços,

Onde, sem que seu Rei tenha notícia,

Faça o que lhe ensinar sua malícia.

80

Lá bem longe lhe diz que lhe daria

Embarcação bastante em que partisse,

Ou que para a luz crástina do dia

Futuro sua partida diferisse.

Já com tantas tardanças entendia

O Gama, que o Gentio consentisse

Na má tenção dos Mouros, torpe e fera,

O que dele atéli não entendera.

81

Era este Catual um dos que estavam

Corruptos pela Maumetana gente,

O principal por quem se governavam

As cidades do Samorim potente.

Dele somente os Mouros esperavam

Efeito a seus enganos torpemente.

Ele, que no conceito vil conspira,

De suas esperanças não delira.

82

O Gama com instância lhe requere

Que o mande pôr nas naus, e não lhe vai;

E que assim lhe mandara, lhe refere,

O nobre sucessor de Perimal.

Por que razão lhe impede e lhe difere

A fazenda trazer de Portugal?

Pois aquilo que os Reis já têm mandado

Não pode ser por outrem derrogado.

83

Pouco obedece o Catual corrupto

A tais palavras; antes revolvendo

Na fantasia algum subtil e astuto

Engano diabólico e estupendo,

Ou como banhar possa o ferro bruto

No sangue avorrecido, estava vendo;

Ou como as naus em fogo lhe abrasasse,

Por que nenhuma à pátria mais tornasse.

84

Que nenhum torne à pátria só pretende

O conselho infernal dos Maumetanos,

Por que não saiba nunca onde se estende

A terra Eoa o Rei dos Lusitanos.

Não parte o Gama enfim, que lho defende

O Regedor dos bárbaros profanos;

Nem sem licença sua ir-se podia,

Que as almadias todas lhe tolhia.

85

Aos brados o razões do Capitão

Responde o Idolatra que mandasse—

Chegar à terra as naus, que longo estão,

Por que melhor dali fosse e tornasse.

"Sinal é de inimigo e de ladrão,

Que lá tão longe a frota se alargasse,

Lhe diz, porque do certo e fido amigo

É não temer do seu nenhum perigo."

86

Nestas palavras o discreto Gama

Enxerga bem que as naus deseja perto

O Catual, por que com f erro e flama,

Lhas assalte, por ódio descoberto.

Em vários pensamentos se derrama;

Fantasiando está remédio certo,

Que desse a quanto mal se lhe ordenava;

Tudo temia, tudo enfim cuidava.

87

Qual o reflexo lume do polido

Espelho de aço, ou de cristal formoso,

Que, do raio solar sendo ferido,

Vai ferir noutra parte luminoso,

E, sendo da ociosa mão movido

Pela casa do moço curioso,

Anda pelas paredes é telhado

Trêmulo, aqui e ali, e dessossegado:

88

Tal o vago juízo flutuava

Do Gama preso, quando lhe lembrara

Coelho, se por caso o esperava

Na praia com os batéis, como ordenara.

Logo secretamente lhe mandava,

"Que se tornasse à frota, que deixara;

Não fosse salteado dos enganos,

Que esperava dos feros Maumetanos."

89

Tal há de ser quem quer, com o dom de Marte,

Imitar os ilustres e igualá-los:

Voar com o pensamento a toda parte,

Adivinhar perigos, e evitá-los:

Com militar engenho e subtil arte

Entender os inimigos, e enganá-los;

Crer tudo, enfim, que nunca louvarei

O Capitão que diga: "Não cuidei".

90

Insiste o Malabar em tê-lo preso,

Se não manda chegar a terra a armada;

Ele constante, e de ira nobre aceso,

Os ameaços seus não teme nada;

Que antes quer sobre si tomar o peso

De quanto mal a vil malícia ousada

Lhe andar armando, que pôr em ventura

A frota de seu Rei, que tem segura.

91

Aquela noite esteve ali detido,

E parte do outro dia, quando ordena

De se tornar ao Rei; mas impedido

Foi da guarda que tinha, não pequena.

Comete-lhe o Gentio outro partido,

Temendo de seu Rei castigo ou pena,

Se sabe esta malícia, a qual asinha

Saberá, se mais tempo ali o detinha.

92

Diz-lhe "que mande vir toda a fazenda

Vendível, que trazia, para a terra,

Para que de vagar se troque e venda:

Que quem não quer comércio, busca guerra.

Posto que os maus propósitos entenda

O Gama, que o danado peito encerra,

Consente, porque sabe por verdade,

Que compra com a fazenda a liberdade.

93

Concertam-se que o negro mande dar

Embarcações idóneas com que venha;

Que os seus batéis não quer aventurar

Onde lhos tome o inimigo, ou lhos detenha.

Partem as almadias a buscar

Mercadoria Hispana, que convenha.

Escreve a seu irmão que lhe mandasse

A fazenda com que se resgatasse.

94

Vem a fazenda a terra, aonde logo

A agasalhou o infame Catual;

Com ela ficam Álvaro e Diogo,

Que a pudessem vender pelo que val.

Se mais que obrigação, que mando e rogo

No peito vil o prémio pode e val,

Bem o mostra o Gentio a quem o entenda,

Pois o Gama soltou pela fazenda.

95

Por ela o solta, crendo que ali tinha

Penhor bastante, donde recebesse

Interesse maior do que lhe vinha,

Se o Capitão mais tempo detivesse.

Ele, vendo que já lhe não convinha

Tornar a terra, por que não pudesse

Ser mais retido, sendo às naus chegado

Nelas estar se deixa descansado.

96

Nas naus estar se deixa vagaroso,

Até ver o que o tempo lhe descobre:

Que não se fia já do cobiçoso

Regedor corrompido e pouco nobre.

Veja agora o juízo curioso

Quanto no rico, assim como no pobre,

Pode o vil interesse e sede inimiga

Do dinheiro, que a tudo nos obriga.

97

A Polidoro mata o Ptei Treício,

Só por ficar senhor do grão tesouro;

Entra, pelo fortíssimo edifício,

Com a filha de Acriso a chuva d'ouro;

Pode tanto em Tarpeia avaro vício,

Que, a troco do metal luzente e louro,

Entrega aos inimigos a alta torre,

Do qual quase afogada em pago morre.

98

Este rende munidas fortalezas,

Faz tredores e falsos os amigos:

Este a mais nobres faz fazer vilezas,

E entrega Capitães aos inimigos;

Este corrompe virginais purezas,

Sem temer de honra ou fama alguns perigos:

Este deprava às vezes as ciências,

Os juízos cegando e as consciências;

99

Este interpreta mais que sutilmente.

Os textos; este faz e desfaz leis;

Este causa os perjúrios entre a gente,

E mil vezes tiranos torna os Reis.

Até os que só a Deus Onipotente

Se dedicam, mil vezes ouvireis

Que corrompe este encantador, e ilude;

Mas não sem cor, contudo, de virtude.

Canto Nono

1

Tiveram longamente na cidade,

Sem vender-se, a fazenda os dois feitores

Que os infiéis, por manha e falsidade,

Fazem que não lha comprem mercadores;

Que todo seu propósito e vontade

Era deter ali os descobridores

Da Índia tanto tempo, que viessem

De Meca as naus, que as suas desfizessem.

2

Lá no seio Eritreu, onde fundada

Arsínoe foi do Egípcio Ptolomeu,

Do nome da irmã sua assim chamada,

Que depois em Suez se converteu,

Não longe o porto jaz da nomeada

Cidade Meca, que se engrandeceu

Com a superstição falsa e profana

Da religiosa água Maumetana.

3

Gidá se chama o porto, aonde o trato

De todo o Roxo mar mais florescia,

De que tinha proveito grande e grato

O Soldão que esse Reino possuía.

Daqui aos Malabares, por contrato

Dos infiéis, formosa companhia

De grandes naus, pelo Índico Oceano,

Especiaria vem buscar cada ano.

4

Por estas naus os Mouros esperavam,

Que, como fossem grandes e possantes,

Aquelas, que o comércio lhe tomavam,

Com flamas abrasassem crepitantes.

Neste socorro tanto confiavam,

Que já não querem mais dos navegantes,

Senão que tanto tempo ali tardassem,

Que da famosa Meca as naus chegassem.

5

Mas o Governador dos céus e gentes,

Que, para quanto tem determinado,

De longe os meios dá convenientes,

Por onde vem a ef eito o fim fadado,

Influiu piedosos acidentes

De afeição em Monçaide, que guardado

Estava para dar ao Gama aviso,

E merecer por isso o Paraíso.

6

Este, de quem se os Mouros não guardavam,

Por ser Mouro como eles, antes era

Participante em quanto maquinavam,

A tenção lhe descobre torpe e fera.

Muitas vezes as naus que longe estavam

Visita, o com piedade considera

O dano, sem razão, que se lhe ordena

Pela maligna gente Sarracena.

7

Informa o cauto Gama das armadas

Que de Arábica Meca vêm cada ano,

Que agora são dos seus tão desejadas,

Para ser instrumento deste dano.

Diz-lhe que vêm de gente carregadas,

E dos trovões horrendos de Vulcano,

E que pode ser delas oprimido,

Segundo estava mal apercebido.

8

O Gama, que também considerava

O tempo, que para a partida o chama,

E que despacho já não esperava

Melhor do Rei, que os Maumetanos ama,

Aos feitores, que em terra estão, mandava

Que se tornem às naus; e por que a fama

Desta súbita vinda os não impeça,

Lhe manda que a fizessem escondida.

9

Porém não tardou muito que, voando,

Um rumor não soasse com verdade:

Que foram presos os feitores, quando

Foram sentidos vir-se da cidade.

Esta fama as orelhas penetrando

Do sábio Capitão, com brevidade

Faz represaria nuns, que às naus vieram

A vender a pedraria que trouxeram.

10

Eram estes antigos mercadores

Ricos em Calecu, e conhecidos;

Da falta deles, logo entre os melhores

Sentido foi que estão no mar retidos.

Mas já nas naus os bons trabalhadores

Volvem o cabrestante, e repartidos

Pelo trabalho, uns puxam pela amarra,

Outros quebram com o peito duro a barra;

11

Outros pendem da verga, e já desatam

A vela, que com grita se soltava,

Quando com maior grita ao Rei relatam

A pressa com que a armada se levava.

As mulheres e filhos que se matam

Daqueles que vão presos, onde estava

O Samorim, se queixam que perdidos

Uns têm os pais, as outras os maridos.

12

Manda logo os feitores Lusitanos

Com toda sua fazenda livremente

Apesar dos inimigos Maumetanos,

Por que lhe torne a sua presa gente.

Desculpas manda o Rei de seus enganos;

Recebe o Capitão de melhor mente

Os presos que as desculpas, e tornando

Alguns negros, se parte as velas dando.

13

Parte-se costa abaixo, porque entende

Que em vão com o Rei gentio trabalhava

Em querer dele paz, a qual pretende

Por firmar o comércio que tratava.

Mas como aquela terra, que se estende

Pela Aurora, sabida já deixava,

Com estas novas torna à pátria cara,

Certos sinais levando do que achara.

14

Leva alguns Malabares, que tomou

Por força, dos que o Samorim mandara

Quando os presos feitores lhe tornou;

Leva pimenta ardente, que comprara;

A seca flor de Banda não ficou,

A noz, e o negro cravo, que faz clara

A nova ilha Maluco, com a canela,

Com que Ceilão é rica, ilustre e bela.

15

Isto tudo lhe houvera a diligência

De Monçaide fiel, que também leva,

Que, inspirado de angélica influência,

Quer no livro de Cristo que se escreva.

Ó ditoso Africano, que a clemência

Divina assim tirou de escura treva,

E tão longe da pátria achou maneira

Para subir à pátria verdadeira!

16

Apartadas assim da ardente costa

As venturosas naus, levando a proa

Para onde a Natureza tinha posta

A meta Austrina da esperança boa,

Levando alegres novas e resposta

Da parte Oriental para Lisboa,

Outra vez cometendo os duros medos

Do mar incerto, tímidos e ledos;

17

O prazer de chegar à pátria cara,

A seus penates caros e parentes,

Para contar a peregrina e rara

Navegação, os vários céus e gentes;

Vir a lograr o prémio, que ganhara

Por tão longos trabalhos e acidentes,

Cada um tem por gosto tão perfeito,

Que o coração para ele é vaso estreito.

18

Porém a deusa Cípria, que ordenada

Era para favor dos Lusitanos

Do Padre eterno, e por bom génio dada,

Que sempre os guia já de longos anos;

A glória por trabalhos alcançada,

Satisfação de bem sofridos danos,

Lhe andava já ordenando, e pretendia

Dar-lhe nos mares tristes alegria.

19

Depois de ter um pouco revolvido

Na mente o largo mar que navegaram,

Os trabalhos, que pelo Deus nascido

Nas Anfióneas Tebas se causaram;

Já trazia de longe no sentido,

Para prémio de quanto mal passaram,

Buscar-lhe algum deleite, algum descanso

No Reino de cristal líquido e manso;

20

Algum repouso, enfim, com que pudesse

Refocilar a lassa humanidade

Dos navegantes seus, como interesse

Do trabalho que encurta a breve idade.

Parece-lhe razão que conta desse

A seu filho, por cuja potestade

Os Deuses faz descer ao vil terreno

E os humanos subir ao céu sereno.

21

Isto bem revolvido, determina

De ter-lhe aparelhada, lá no meio

Das águas, alguma ínsula divina,

Ornada de esmaltado e verde arreio;

Que muitas tem no reino, que confina

Da mãe primeira com o terreno seio,

Afora as que possui soberanas

Para dentro das portas Herculanas.

22

Ali quer que as aquáticas donzelas

Esperem os fortíssimos barões,

Todas as que têm título de belas,

Glória dos olhos, dor dos corações,

Com danças e coreias, porque nelas

Influirá secretas afeições,

Para com mais vontade trabalharem

De contentar, a quem se afeiçoaram.

23

Tal manha buscou já, para que aquele

Que de Anquises pariu, bem recebido

Fosse no campo que a bovina pele

Tomou de espaço, por subtil partido.

Seu filho vai buscar, porque só nele

Tem todo seu poder, fero Cupido,

Que assim como naquela empresa antiga

Ajudou já, nestoutra a ajude e siga.

24

No carro ajunta as aves que na vida

Vão da morte as exéquias celebrando,

E aquelas em que já foi convertida

Perístera, as boninas apanhando.

Em derredor da Deusa já partida,

No ar lascivos beijos se vão dando.

Ela, por onde passa, o ar e o vento

Sereno faz, com brando movimento.

25

Já sobre os Idálios montes pende,

Onde o filho frecheiro estava então

Ajuntando outros muitos, que pretende

Fazer uma famosa expedição

Contra o mundo rebelde, por que emende

Erros grandes, que há dias nele estão,

Amando coisas que nos foram dadas,

Não para ser amadas, mas usadas.

26

Via Acteon na caça tão austero,

De cego na alegria bruta, insana,

Que por seguir um feio animal fero,

Foge da gente e bela forma humana;

E por castigo quer, doce e severo,

Mostrar-lhe a formosura de Diana;

E guarde-se não seja ainda comido

Desses cães que agora ama, e consumido.

27

E vê do mundo todo os principais,

Que nenhum no bem público imagina;

Vê neles que não têm amor a mais

Que a si somente, e a quem Filáucia ensina.

Vê que esses que frequentam os reais

Paços, por verdadeira e sã doutrina

Vendem adulação, que mal consente

Mondar-se o novo trigo florescente.

28

Vê que aqueles que devem à pobreza

Amor divino e ao povo caridade,

Amam somente mandos e riqueza,

Simulando justiça e integridade.

Da feia tirania e de aspereza

Fazem direito e vã severidade:

Leis em favor do Rei se estabelecem,

As em favor do povo só perecem.

29

Vê, enfim, que ninguém ama o que deve,

Senão o que somente mal deseja;

Não quer que tanto tempo se releve

O castigo, que duro e justo seja.

Seus ministros ajunta, por que leve

Exércitos conformes à peleja,

Que espera ter com a mal regida gente,

Que lhe não for agora obediente.

30

Muitos destes meninos voadores

Estão em várias obras trabalhando:

Uns amolando ferros passadores,

Outros ásteas de setas delgaçando;

Trabalhando, cantando estão de amores,

Vários casos em verso modulando,

Melodia sonora e concertada,

Suave a letra, angélica a soada.

31

Nas frágoas imortais, onde forjavam

Para as setas as pontas penetrantes,

Por lenha corações ardendo estavam,

Vivas entranhas ainda palpitantes.

As águas onde os ferros temperavam,

Lágrimas são de míseros amantes;

A viva f lama, o nunca morto lume,

Desejo é só que queima, e não consume.

32

Alguns exercitando a mão andavam

Nos duros corações da plebe rude;

Crebros suspiros pelo ir soavam

Dos que feridos vão da seta aguda.

Formosas Ninfas são as que curavam

As chagas recebidas cuja ajuda

Não somente dá vida aos mal feridos,

Mas põe em vida os ainda não nascidos.

33

Formosas são algumas e outras feias,

Segundo a qualidade for das chagas;

Que o veneno espalhado pelas veias

Curam-no às vezes ásperas triagas.

Alguns ficam ligados em cadeias,

Por palavras subtis de sábias magas:

Isto acontece às vezes, quando as setas

Acertam de levar ervas secretas.

34

Destes tiros assim desordenados,

Que estes moços mal destros vão tirando,

Nascem amores mil desconcertados

Entre o povo ferido miserando;

E tamboril nos heróis de altos estados

Exemplos mil se vêem de amor nefando,

Qual o das moças Bíbli e Cinireia,

Um mancebo de Assíria, um de Judeia.

35

E vós, ó poderosos, por pastoras

Muitas vezes ferido o peito vedes;

E por baixos e rudos, vós, senhoras,

Também vos tomam nas Vulcâneas redes.

Uns esperando andais noturnas horas,

Outros subis telhados e paredes:

Mas eu creio que deste amor indino

É mais culpa a da mãe que a do menino.

36

Mas já no verde prado o carro leve

Punham os brancos cisnes mansamente,

E Dione, que as rosas entro a neve

No rosto traz, descia diligente.

O frecheiro, que contra o céu se atreve,

A recebê-la vem, ledo e contente;

Vêm todos os Cupidos servidores

Beijar a mão à Deusa dos amores.

37

Ela, por que não gaste o tempo em vão,

Nos braços tendo o filho, confiada

Lhe diz: "Amado filho, em cuja mão

Toda minha potência está fundada;

Filho, em quem minhas forças sempre estão;

Tu, que as armas Tifeias tens em nada,

A socorrer-me a tua potestade

Me triz especial necessidade.

38

"Bem vês as Lusitânicas fadigas,

Que eu já de muito longe favoreço,

Porque das Parcas sei, minhas amigas,

Que me hão de venerar e ter em preço.

E, porque tanto imitam as antigas

Obras de meus Romanos, me ofereço

A lhe dar tanta ajuda, em quanto posso,

A quanto se estender o poder nosso.

39

"E porque das insídias do odioso

Baco foram na Índia molestados,

E das injúrias sós do mar undoso

Puderam mais ser mortos que cansados,

No mesmo mar, que sempre temeroso

Lhe foi, quero que sejam repousados,

Tomando aquele prémio e doce glória

Do trabalho, que faz clara a memória.

40

"E para isso queria que, feridas

As filhas de Nereu, no ponto fundo,

De amor dos Lusitanos incendidas,

Que vêm de descobrir o novo mundo,

Todas numa ilha juntas e subidas,

Ilha, que nas entranhas do profundo

Oceano terei aparelhada,

De dons de Flora e Zéfiro adornada;

41

"Ali, com mil refrescos e manjares,

Com vinhos odoríferos e rosas,

Em cristalinos paços singulares

Formosos leitos, e elas mais formosas;

Enfim, com mil deleites não vulgares,

Os esperem as Ninfas amorosas,

De amor feridas, para lhes entregarem

Quanto delas os olhos cobiçarem.

42

"Quero que haja no reino Netunino,

Onde eu nasci, progénie forte e bela,

E tome exemplo o mundo vil, malino,

Que contra tua potência se rebela,

Por que entendam que muro adamantino,

Nem triste hipocrisia val contra ela:

Mal haverá na terra quem se guarde,

Se teu fogo imortal nas águas arde."

43

Assim Vénus propôs, e o filho inieo,

Para lhe obedecer, já se apercebe:

Manda trazer o arco ebúrneo rico,

Onde as setas de ponta de ouro embebe.

Com gesto ledo a Cípria, e impudico,

Dentro no carro o filho seu recebe;

A rédea larga às aves, cujo canto

A Factôntea morte chorou tanto.

44

Mas diz Cupido, que era necessária

Uma famosa e célebre terceira,

Que, posto que mil vezes lhe é contrária,

Outras muitas a tem por companheira:

A Deusa Giganteia, temerária,

Jactante, mentirosa, e verdadeira,

Que com cem olhos vê, e por onde voa,

O que vê, com mil bocas apregoa.

45

Vão-a buscar, e mandam adiante,

Que celebrando vá com tuba clara

Os louvores da gente navegante,

Mais do que nunca os d'outrem celebrara.

Já murmurando a Fama penetrante

Pelas fundas cavernas se espalhara:

Fala verdade, havida por verdade,

Que junto a Deusa traz Credulidade.

46

O louvor grande, o rumor excelente

No coração dos Deuses, que indignados

Foram por Baco contra a ilustre gente,

Mudando, os fez um pouco afeiçoados.

O peito feminil, que levemente

Muda quaisquer propósitos tomados,

Já julga por mau zelo e por crueza

Desejar mal a tanta fortaleza.

47

Despede nisto o fero moço as setas

Uma após outra: geme o mar com os tiros;

Direitas pelas ondas inquietas

Algumas vão, e algumas fazem giros;

Caem as Ninfas, lançam das secretas

Entranhas ardentíssimos suspiros;

Cai qualquer, sem ver o vulto que ama:

Que tanto, como a vista, pode a fama.

48

Os cornos ajuntou da ebúrnea lua

Com força o moço indómito excessiva,

Que Tethys quer ferir mais que nenhuma,

Porque mais que nenhuma lhe era esquiva.

Já não fica na aljava seta alguma,

Nem nos equóreos campos Ninfa viva;

E se feridas ainda estão vivendo,

Será para sentir que vão morrendo.

49

Dai lugar, altas e cerúleas ondas,

Que, vedes, Vénus traz a medicina,

Mostrando as brancas velas e redondas,

Que vêm por cima da água Netunina.

Para que tu recíproco respondas,

Ardente Amor, à flama feminina,

É, forçado que a pudicícia honesta

Faça quanto lhe Vénus amoesta.

50

Já todo o belo coro se aparelha

Das Nereidas, e junto caminhava

Em coreias gentis, usança velha,

Para a ilha, a que Vénus as guiava.

Ali a formosa Deusa lhe aconselha

O que ela fez mil vezes, quando amava.

Elas, que vão do doce amor vencidas,

Estão a seu conselho oferecidas.

51

Cortando vão as naus a larga via

Do mar ingente para a pátria amada,

Desejando prover-se de água fria,

Para a grande viagem prolongada,

Quando juntas, com súbita alegria,

Houveram vista da ilha namorada,

Rompendo pelo céu a mãe formosa

De Menónio, suave e deleitosa.

52

De longe a Ilha viram fresca e bela,

Que Vénus pelas ondas lha levava

(Bem como o vento leva branca vela)

Para onde a forte armada se enxergava;

Que, por que não passassem, sem que nela

Tomassem porto, como desejava,

Para onde as naus navegam a movia

A Acidália, que tudo enfim podia.

53

Mas firme a fez e imóvel, como viu

Que era dos Nautas vista e demandada;

Qual ficou Delos, tanto que pariu

Latona Febo e a Deusa à caça usada.

Para lá logo a proa o mar abriu,

Onde a costa fazia uma enseada

Curva e quieta, cuja branca areia,

Pintou de ruivas conchas Citereia.

54

Três formosos outeiros se mostravam

Erguidos com soberba graciosa,

Que de gramíneo esmalte se adornavam..

Na formosa ilha alegre e deleitosa;

Claras fontes o límpidas manavam

Do cume, que a verdura tem viçosa;

Por entre pedras alvas se deriva

A sonorosa Ninfa fugitiva.

55

Num vale ameno, que os outeiros fende,

Vinham as claras águas ajuntar-se,

Onde uma mesa fazem, que se estende

Tão bela quanto pode imaginar-se;

Arvoredo gentil sobre ela pende,

Como que pronto está para afeitar-se,

Vendo-se no cristal resplandecente,

Que em si o está pintando propriamente.

56

Mil árvores estão ao céu subindo,

Com pomos odoríferos e belos:

A laranjeira tem no fruto lindo

A cor que tinha Dafne nos cabelos;

Encosta-se no chão, que está caindo,

A cidreira com os pesos amarelos;

Os formosos limões ali, cheirando,

Estão virgíneas tetas imitando.

57

As árvores agrestes que os outeiros

Têm com frondente coma enobrecidos,

Alemos são de Alcides, e os loureiros

Do louro Deus amados e queridos;

Mirtos de Citereia, com os pinheiros

De Cibele, por outro amor vencidos;

Está apontando o agudo cipariso

Para onde é posto o etéreo paraíso.

58

Os dons que dá Pomona, ali Natura

Produz diferentes nos sabores,

Sem ter necessidade de cultura,

Que sem ela se dão muito melhores:

As cerejas purpúreas na pintura,

As amoras, que o nome têm de amores,

O pomo que da pátria Pérsia veio,

Melhor tornado no terreno alheio.

59

Abre a romã, mostrando a rubicunda

Cor, com que tu, rubi, teu preço perdes;

Entre os braços do ulmeiro está a jocunda

Vide, com uns cachos roxos e outros verdes;

E vós, se na vossa árvore fecunda,

Peras piramidais, viver quiserdes,

Entregai-vos ao dano, que, com os bicos,

Em vós fazem os pássaros inicos.

60

Pois a tapeçaria bela e fina,

Com que se cobre o rústico terreno,

Faz ser a de Aqueménia menos diria,

Mas o sombrio vale mais ameno.

Ali a cabeça a flor Cifísia inclina

Sôbolo tanque lúcido e sereno;

Floresce o filho e neto de Ciniras,

Por quem tu, Deusa Páfia, inda suspiras.

61

Para julgar, difícil coisa fora,

No céu vendo e na terra as mesmas cores,

Se dava às flores cor a bela Aurora,

Ou se lha dão a ela as belas flores.

Pintando estava ali Zéfiro e Flora

As violas da cor dos amadores;

O lírio roxo, a fresca rosa bela,

Qual reluz nas faces da donzela;

62

A cândida cecém, das matutinas

Lágrimas rociada, e a manjarona.

Vêem-se as letras nas flores Hiacintinas,

Tão queridas do filho de Latona.

Bem se enxerga nos pomos e boninas

Que competia Cloris com Pomona.

Pois se as aves no ar cantando voam,

Alegres animais o chão povoam.

63

Ao longo da água o níveo cisne canta,

Responde-lhe do ramo filomela;

Da sombra de seus cornos não se espanta

Acteon, n'água cristalina e bela;

Aqui a fugace lebre se levanta

Da espessa mata, ou tímida gazela;

Ali no bico traz ao caro ninho

O mantimento o leve passarinho.

64

Nesta frescura tal desembarcavam

Já das naus os segundos Argonautas,

Onde pela floresta se deixavam

Andar as belas Deusas, como incautas.

Algumas doces cítaras tocavam,

Algumas harpas e sonoras flautas,

Outras com os arcos de ouro se fingiam

Seguir os animais, que não seguiam.

65

Assim lhe aconselhara a mestra experta;

Que andassem pelos campos espalhadas;

Que, vista dos barões a presa incerta,

Se fizessem primeiro desejadas.

Algumas, que na forma descoberta

Do belo corpo estavam confiadas,

Posta a artificiosa formosura,

Nuas lavar-se deixam na água pura,

66

Mas os fortes mancebos, que na praia

Punham os pés, de terra cobiçosos,

Que não há nenhum deles que não saia

De acharem caça agreste desejosos,

Não cuidam que, sem laço ou redes, caia

Caça naqueles montes deleitosos,

Tão suave, doméstica e benigna,

Qual ferida lha tinha já Ericina.

67

Alguns, que em espingardas e nas bestas,

Para ferir os cervos se fiavam,

Pelos sombrios matos e florestas

Determinadamente se lançavam:

Outros, nas sombras, que de as altas sestas

Defendem a verdura, passeavam

Ao longo da água que, suave e queda,

Por alvas pedras corre à praia leda.

68

Começam de enxergar subitamente

Por entre verdes ramos várias cores,

Cores de quem a vista julga e sente

Que não eram das rosas ou das flores,

Mas da lã fina e seda diferente,

Que mais incita a força dos amores,

De que se vestem as humanas rosas,

Fazendo-se por arte mais formosas.

69

Dá Veloso espantado um grande grito:

"Senhores, caça estranha, disse, é esta!

Se ainda dura o Gentio antigo rito,

A Deusas é sagrada esta floresta.

Mais descobrimos do que humano espírito

Desejou nunca; e bem se manifesta

Que são grandes as coisas e excelentes,

Que o mundo encobre aos homens imprudentes.

70

"Sigamos estas Deusas, e vejamos

Se fantásticas são, se verdadeiras."

Isto dito, velozes mais que gamos,

Se lançam a correr pelas ribeiras.

Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos,

Mas, mais industriosas que ligeiras,

Pouco e pouco sorrindo e gritos dando,

Se deixam ir dos galgos alcançando.

71

De uma os cabelos de ouro o vento leva

Correndo, e de outra as fraldas delicadas;

Acende-se o desejo, que se ceva

Nas alvas carnes súbito mostradas;

Uma de indústria cai, e já releva,

Com mostras mais macias que indignadas,

Que sobre ela, empecendo, também caia

Quem a seguiu pela arenosa praia.

72

Outros, por outra parte, vão topar

Com as Deusas despidas, que se lavam:

Elas começam súbito a gritar,

Como que assalto tal não esperavam.

Umas, fingindo menos estimar

A vergonha que a força, se lançavam

Nuas por entre o mato, aos olhos dando

O que às mãos cobiçosas vão negando.

73

Outra, como acudindo mais depressa

A vergonha da Deusa caçadora,

Esconde o corpo n'água; outra se apressa

Por tomar os vestidos, que tem fora.

Tal dos mancebos há, que se arremessa,

Vestido assim e calçado (que, coa mora

De se despir, há medo que ainda tarde)

A matar na água o fogo que nele arde.

74

Qual cão de caçador, sagaz e ardido,

Usado a tomar na água a ave ferida,

Vendo no rosto o férreo cano erguido

Para a garcenha ou pata conhecida,

Antes que soe o estouro, mal sofrido

Salta n'água, e da presa não duvida,

Nadando vai e latindo: assim o mancebo

Remete à que não era irmã de Febo.

75

Leonardo, soldado bem disposto,

Manhoso, cavaleiro e namorado,

A quem amor não dera um só desgosto,

Mas sempre fora dele maltratado,

E tinha já por firme pressuposto

Ser com amores mal afortunado,

Porém não que perdesse a esperança

De ainda poder seu fado ter mudança,

76

Quis aqui sua ventura, que corria

Após Efire, exemplo de beleza,

Que mais caro que as outras dar queria

O que deu para dar-se a natureza.

Já cansado correndo lhe dizia:

"Ó formosura indigna de aspereza,

Pois desta vida te concedo a palma,

Espera um corpo de quem levas a alma.

77

"Todas de correr cansam, Ninfa pura,

Rendendo-se à vontade do inimigo,

Tu só de mi só foges na espessura?

Quem te disse que eu era o que te sigo?

Se to tem dito já aquela ventura,

Que em toda a parte sempre anda comigo,

Ó não na creias, porque eu, quando a cria,

Mil vezes cada hora me mentia.

78

"Não canses, que me cansas: e se queres

Fugir-me, por que não possa tocar-te,

Minha ventura é tal que, ainda que esperes,

Ela fará que não possa alcançar-te.

Espora; quero ver, se tu quiseres,

Que subtil modo busca de escapar-te,

E notarás, no fim deste sucesso,

Tra la spica e la man, qual muro è messo.

79

"Ó não me fujas! Assim nunca o breve

Tempo fuja de tua formosura!

Que, só com refrear o passo leve,

Vencerás da fortuna a força dura.

Que Imperador, que exército se atreve

A quebrantar a fúria da ventura,

Que, em quanto desejei, me vai seguindo,

O que tu só farás não me fugindo!

80

"Pões-te da parte da desdita minha?

Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.

Levas-me um coração, que livre tinha?

Solta-me, e correrás mais levemente.

Não te carrega essa alma tão mesquinha,

Que nesses fios de ouro reluzente

Atada levas? Ou, depois de presa,

Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?

81

"Nesta esperança só te vou seguindo:

Que, ou tu não sofrerás o peso dela,

Ou na virtude de teu gesto lindo

Lhe mudarás a triste e dura estrela:

E se se lhe mudar, não vás fugindo,

Que Amor te ferirá, gentil donzela,

E tu me esperarás, se Amor te fere:

E se me esperas, não há mais que espere."

82

Já não fugia a bela Ninfa, tanto

Por se dar cara ao triste que a seguia,

Como por ir ouvindo o doce canto,

As namoradas mágoas que dizia.

Volvendo o rosto já sereno e santo,

Toda banhada em riso e alegria,

Cair se deixa aos pés do vencedor,

Que todo se desfaz em puro amor.

83

Ó que famintos beijos na floresta,

E que mimoso choro que soava!

Que afagos tão suaves, que ira honesta,

Que em risinhos alegres se tornava!

O que mais passam na manhã, e na sesta,

Que Vénus com prazeres inflamava,

Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,

Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.

84

Desta arte enfim conformes já as formosas

Ninfas com os seus amados navegantes,

Os ornam de capelas deleitosas

De louro, e de ouro, e flores abundantes.

As mãos alvas lhes davam como esposas;

Com palavras formais e estipulantes

Se prometem eterna companhia

Em vida e morte, de honra e alegria.

85

Uma delas maior, a quem se humilha

Todo o coro das Ninfas, e obedece,

Que dizem ser de Celo e Vesta filha,

O que no gesto belo se parece,

Enchendo a terra e o mar de maravilha,

O Capitão ilustre, que o merece,

Recebe ali com pompa honesta e régia,

Mostrando-se senhora grande e egrégia.

86

Que, depois de lhe ter dito quem era,

Com um alto exórdio, de alta graça ornado,

Dando-lhe a entender que ali viera

Por alta influição do imóvel fado,

Para lhe descobrir da unida esfera

Da terra imensa, e mar não navegado,

Os segredos, por alta profecia,

O que esta sua nação só merecia,

87

Tomando-o pela mão, o leva e guia

Para o cume dum monte alto e divino,

No qual uma rica fábrica se erguia

De cristal toda, e de ouro puro e fino.

A maior parte aqui passam do dia

Em doces jogos e em prazer contino:

Ela nos paços logra seus amores,

As outras pelas sombras entre as flores.

88

Assim a formosa e a forte companhia

O dia quase todo estão passando,

Numa alma, doce, incógnita alegria,

Os trabalhos tão longos compensando.

Porque dos feitos grandes, da ousadia

Forte e famosa, o mundo está guardando

O prémio lá no fim, bem merecido,

Com fama grande e nome alto e subido.

89

Que as Ninfas do Oceano tão formosas,

Tethys, e a ilha angélica pintada,

Outra coisa não é que as deleitosas

Honras que a vida fazem sublimada.

Aquelas proeminências gloriosas,

Os triunfos, a fronte coroada

De palma e louro, a glória e maravilha:

Estes são os deleites desta ilha.

90

Que as imortalidades que fingia

A antiguidade, que os ilustres ama,

Lá no estelante Olimpo, a quem subia

Sobre as asas ínclitas da Fama,

Por obras valorosas que fazia,

Pelo trabalho imenso que se chama

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