❧ OS LVSIADAS DE LVIS DE CAMÕES. (continued 3)
Reading edition · Edition 2
A nao grande, em que vay Paulo da Gama, Quebrada leua o maſto pello meyo, Quaſi toda alagada: a gente chama Aquelle que a ſaluar o mundo veyo: Não menos gritos vãos ao ar derrama Toda a Nao de Coelho, com receyo, Com quanto teue o meſtre tanto tento Que primeiro amainou que deſſe o vento:
Agora ſobre as nuuens os ſubião As ondas de Neptuno furibundo, Agora a ver parece que decião As intimas entranhas do profundo. Noto, Auſtro, Boreas, Aquilo querião Arruinar a machina do mundo, A noite negra & feya ſe alumia, Cos rayos, em que o Polo todo ardia.
As Alcioneas aues triste canto Iunto da costa braua leuantarão, Lembrando ſe de ſeu paſſado pranto, Que as furioſas agoas lhe cauſarão: Os Delfins namorados entre tanto La nas couas maritimas entrarão, Fugindo aa tempeſtade, & ventos duros Que nem no fundo os deixa eſtar ſeguros
Nunca tam viuos rayos fabricou Contra a fera ſoberba dos Gigantes, O gram ferreiro ſordido, que obrou Do enteado as armas radiantes: Nem tanto o gram Tonante arremeſſou Relampados ao mundo fulminantes, No gram diluuio, donde ſos viuerão Os dous que em gente as pedras conuerterão.
Quantos montes então, que derribarão As ondas que batião denodadas, Quantas aruores velhas arrancarão Do vento brauo as furias indinadas: As forçoſas raizes não cuidarão Que nunca pera o ceo foſſem viradas, Nem as fundas arêas que podeſſem Tanto os mares que encima as reuolueſſem.
Vendo Vaſco da Gama que tam perto Do fim de ſeu deſejo ſe perdia, Vendo ora o mar ate o inferno aberto, Ora com noua furia ao ceo ſubia, Confuſo de temor, da vida incerto, Onde nenhum remedio lhe valia, Chama aquelle remedio ſancto & forte Que o impoſsibil pode, desta ſorte.
Diuina guarda, angelica, celeſte, Que os ceos, o mar & terra ſenhoreds, Tu que a todo iſrael refugio deſte Por metade das agoas Eritreas: Tu que liuraſte Paulo & defendeſte Das Syrtes arenoſas & ondas feas, E guardaste cos filhos o ſegundo Pouoador do alagado & vacuo mundo.
Se tenho nouos medos perigoſos Doutra Scylla & Caribdis ja paſſados, Outras Syrtes, & baxos arenoſos, Outros Acroceraunios infamados, No fim de tantos caſos trabalhoſos, Por que ſomos de ti deſemparados, Se eſte noſſo trabalho não te offende, Mas antes teu ſeruiço ſo pretende?
O ditoſos aquelles que puderão Entre as agudas lanças Affricanas Morrer, em quanto fortes ſostiuerão A ſancta Fe, nas terras Mauritanas: De quem feitos illuſtres ſe ſouberão, De quem ſicão memorias ſoberanas, De quem ſe ganha a vida com perdella, Doce fazendo a morte as honras della.
Aſsi dizendo os ventos que lutauão, Como touros indomitos bramando, Mais & mais a tormenta acrecentauão, Pella miuda enxarcia aſſuuiando. Relampados medonhos não ceſſauão, Feros trouoẽs que vem repreſentando Cair o ceo dos exos ſobre a terra, Cenſigo os elementos terem guerra.
Mas ja a amoroſa ſtrela ſcintilaua Diante do Sol claro, no Orizonte Menſageira do dia, & viſitaua A terra, & o largo mar, com leda fronte: A deoſa que nos ceos a gouernaua, De quem foge o enſiſero Orionte, Tanto que o mar, & a chara armada vira, Tocada junto foy de medo, & de ira.
Estas obras de Baco ſam por certo, Diſſe, mas não ſerâ, que auante leue Tão danada tenção, que deſcuberto Me ſera ſempre o mal a que ſe atreue, Iſto dizendo, dece ao mar aberto, No caminho gaſtando eſpaço breue, Em quanto manda as nimphas amoroſas Grinaldas nas cabeças por de roſas.
Grinaldas manda por de varias cores Sobre cabellos louros a porfia, Quem não dirâ, que nacem roxas flores Sobre ouro natural, que amor infia: Abrandar determina por amores Dos ventos a nojoſa companhia, Moſtrandolhe as amadas Nimphas bellas, Que mais fermoſas vinhão que as eſtrellas.
Aſsi foy, porque tanto que chegarão A viſta dellas, logo lhe falecem As forças com que dantes pellejarão, E ja como rendidos lhe obedecem. Os pês & mãos, parece, que lhe atarão Os cabellos que os rayos eſcurecem, A Boreas, que do peito mais queria, Aſsi diſſe a belliſsima Oritia.
Não creas, fero Boreas, que te creyo Que me tiueſte nunca amor constante, Que brandura he de amor mais certo arreyo, E não conuem furor a firme amante: Se ja não poẽs a tanta inſania freyo, Não eſperes de mi daqui em diante, Que poſſa mais amarte, mas temerte, Que amor contigo, em medo ſe conuerte.
Aſsi meſmo a fermoſa Galatea Dizia ao fero Noto, que bem ſabe Que dias ha que em vella ſe recrea, E bem crê que com elle tudo acabe, Não ſabe o brauo tanto bem ſe o crea, Que o coração no peito lhe não cabe, De contente de ver que a dama o manda, Pouco cuida que faz ſe logo abranda.
Deſta maneira as outras amanſauão Subitamente os outros amadores, E logo aa linda Venus ſe entregauão, Amanſadas as iras & os furores, Ella lhe prometeo vendo que amauão. Sempiterno fauor em ſeus amores, Nas bellas mãos tomandelhe omenagem De lhe ſerem leais eſta viagem.
Ia a menham clara daua nos outeiros, Por onde o Ganges murmurando ſoa, Quando da celſa gauea os marinheiros Enxergarão terra alta pella proa, Ia fora de tormenta, & dos primeiros Mares, o temor vão do peito voa, Diſſe alegre o Piloto Melindano, Teria he de Calccu, ſe não me engano.
Eſta he por certo a terra que buſcais Da verdadeira India, que aparece E ſe do mundo mais não deſejais, Voſſo trabalho longo aqui fenece: Soſſrer aqui não pode o Gama mais, De ledo em ver que a terra ſe conhece, Os geolhos no chão, as mãos ao ceo A merce grande a Deos agardeceo.
As graças a Deos daua, & razão tinha Que não ſomente a terra lhe moſtraua, Que com tanto temor buſcando vinha Por quem tanto trabalho eſprimentaua, Mas via ſe liurado tão aſinha Da morte, que no mar lhe aparelhaua O vento duro, feruido, & medonho, Como quem deſpertou de horrendo ſonho.
Por meyo deſtes horridos parigos Deſtes trabalhos graues & temores, Alcanção os que ſam de fama amigos As honras immortais, & graos mayores: Não encoſtados ſempre nos antigos Troncos nobres de ſeus anteceſſores, Não nos leitos dourados, entre os finos Animais de Moſcouia Zebellinos.
Não cos manjares nouos & exquiſitos, Não cos paſſeos molles & oucioſos, Não cos varios deleites & infinitos Que afeminão os peitos generoſos: Não cos nunca vencidos apetitos Que a Fortuna tem ſempre tão mimoſos, Que não ſoffre a nenhum que o paſſo mude Pera algũa obra heroica de virtude.
Mas com buſcar co ſeu forçoſo braço As honras, que elle chame proprias ſuas, Vigiando, & veſtindo o forjado aço Soffrendo tempeſtades & ondas cruas: Vencendo os torpes frios no regaço Do Sul, & regioẽs de abrigo nuas, Engulindo o corrupto mantimento Temperado com hum arduo ſofrimento.
E com forçar o rosto que ſe enfia, A parecer ſeguro, ledo, inteiro, Pera o pilouro ardente, que aſſouia E leua a perna, ou braço ao companheiro: Destarte o peito hum calo honroſo cria Deſprezador das honras, & dinheiro, Das honras, & dinheiro, que a venntura Forjou, & não vertude juſta, & dura.
Deſtarte ſe eſclarece o entendimento, Que experiencias fazem repouſado, E fica vendo, como de alto aſſento, O baxo tracto humano embaraçado, Eſte onde tiuer força o regimento Direito, & nam de affeitos occupado, Subirà (como deue) a illuſtre mando, Contra vontade ſua, & não rogando.
FIM.
❧ Canto Septimo.
Ia ſe viã chegados junto aa terra, Que deſejada ja de tantos fora, Que entre as correntes Indicas ſe encerra, E o Ganges, que no çeo terreno mora: Ora ſus gente forte que na guerra Quereis leuar a palma vencedora, Ia ſois chegados, ja tendes diante A terra de riquezas abundante.
A vos, ô geraçam de Luſo digo, Que tam pequena parte ſois no mundo: Não digo inda no mundo, mas no amigo Curral de quem gouerna o çeo rotundo: Vos, a quem não ſomente algum perigo Eſtorua conquiſtar o pouo inmundo: Mas nem cobiça, ou pouca obediencia Da Madre, que nos çeos eſtâ em eſſencia.
Vos Portugueſes poucos, quanto fortes, Que o fraco poder voſſo não peſais, Vos que aa cuſta de voſſas varias mortes A lei da vida eterna dilatais: Aſsi do çeo deitadas ſam as ſortes, Que vos por muito poucos que ſejais, Muito façais na ſancta Chriſtandade: Que tanto, ô Chriſto exaltas a humildade.
Vedelos Alemães, ſoberbo gado, Que por tam largos campos ſe apacenta, Do ſucceſſor de Pedro rebelado, Nouo paſtor, & noua ceita inuenta: Vedelo em feas guerras occupado, Que inda co cego error ſe nam contenta, Não contra o ſuperbiſsimo Otomano: Mas por ſair do jugo ſoberano.
Vedelo duro Ingles, que ſe nomea Rei da velha & ſanctiſsima cidade, Que o torpe Iſmaelita ſenhorea, (Quem via honra tam longe da verdade) Entre as Boreais neues ſe recrea, Noua maneira faz de Chriſtandade, Pera os de Christo tem a eſpada nua, Nem por tomar a terra que era ſua.
Guardalhe por entanto hum falſo Rei, A cidade Hieroſolima terreste, Em quanto elle não guarda a ſancta lei, Da cidade Hieroſolima celeſte: Pois de ti Gallo indigno que direy? Que o nome Christianiſsimo quiſeste, Nem pera defendelo, nem guardalo, Mas para ſer contra elle, & derribalo.
Achas que tẽs direito em ſenhorios De Chriſtãos, ſendo o teu tam largo & tãto. E nam contra o Cynifio & Nilo rios Inimigos do antigo nome ſancto, Ali ſe ande prouar da eſpada os fios, Em quem quer reprouar da Ygreja o canto, De Carlos, de Luis, o nome & a terra Erdaſte, & as cauſas nam da justa guerra?
Pois que direy daquelles que em delicias, Que o vil ocio no mundo traz conſigo, Gastão as vidas, logrão as diuicias, Eſquecidos de ſeu valor antigo: Naſcem da tyrania inimicicias, Que o pouo forte tem de ſi inimigo, Contigo Italia fallo, ja ſumerſa Em vicios mil, & de ti meſma aduerſa.
O miſeros Chriſtãos, pola ventura Sois os dentes de Cadmo deſparzidos, Que hũs aos outros ſe dão aa morte dura, Sendo todos de hum ventre produzidos? Nem vedes a diuina ſepultura Poſſuida de cães, que ſempre vnidos Vos vem tomar a voſſa antiga terra, Fazendo ſe famoſas pela guerra?
Vedes que tem por vſo & por decreto, Do qual ſam tão inteiros obſeruantes, Ajuntarem o exercito inquieto, Contra os pouos, que ſam de Chriſto amantes. Entre vos nunca deixa a fera Aleto De ſamear cizanias repugnantes, Olhay ſeſtais ſeguros de perigos, Que elles & vos, ſois voſſos inimigos.
Se cobiça de grandes ſenhorios Vos faz yr conquiſtar terras alheas, Nam vedes que Pactolo & Hermo rios, Ambos voluem auriferas areas, Em Lidia, Aſsiria laurão de ouro os fios, Affrica eſconde em ſi luzentes veas, Mouauos ja ſe quer riqueza tanta, Pois mouer vos não pode a caſa Sancta.
Aquellas inuenções feras & nouas, De instrumentos mortais da artelharia, Ia deuem de fazeras duras prouas, Nos muros de Bizancio, & de Turquia: Fazei que torne la aas ſilueſtres couas, Dos Caspios montes, & da Citia fria, A Turca geração, que multiplica Na policia da voſſa Europa rica.
Gregos, Traces, Armenios, Georgianos Bradando vos eſtão, que o pouo bruto Lhe obriga os caros filhos aos profanos Preceptos do alcorão (duro tributo) Em caſtigar.os feitos inhumanos Vos gloriay de peito forte, & aſtuto, E não queirais louuores arrogantes, De ſerdes contra os voſſos muy poſſantes.
Mas em tanto que cegos, & ſedentos Andais de voſſo ſangue, o gente inſana, Não faltarão Christãos atreuimentos, Neſta pequena caſa Luſitana De Affrica tem maritimos aſſentos, He na Aſia mais que todas ſoberana, Na quarta parte noua os campos ara, E ſe mais mundo ouuera la chegâra.
E vejamos em tanto que aconteçe Aaquelles tam famoſos nauegantes, Deſpois que a branda Venus enfraqueçe O furor vão dos ventos repugnantes: Deſpois que a larga terra lhe apareçe, Fim de ſuas perfias tam conſtantes, Onde vẽ ſamear de Christo a ley, E dar nouo coſtume, & nouo Rei.
Tanto que aa noua terra ſe chegârão, Leues embarcações de peſcadores Acharão, que o caminho lhe moſtrârão De Calecu onde eram moradores: Pera la logo as proas ſe inclinarão, Porque esta era a cidade das milhores Do Malabar milhor, onde viuia O Rei que a terra toda poſſuia.
Alem do Indo jaz, & âquem do Gange, Hum terreno muy grande, & aſſaz famoſo Que pela parte Auſtralo mar abrange, E pera o Norte o Emodio cauernoſo. Iugo de Reis diuerſos o conſtrange A varias leis: algũs o vicioſo Mahoma, algũs os Idolos adorão, Algũs os animais, que entre elles morão.
La bem no grande monte, que cortando Tam larga terra, toda Aſia diſcorre, Que nomes tam diuerſos vai tomando, Segundo as regiões por onde corre, As fontes ſaem, donde vem manando Os rios, cuja gram corrente morre No mar Indico, & cercão todo o peſo Do terreno, fazendo o Cherſoneſo.
Entre hum & o outro rio, em grande eſpaço Say da larga terra hũa longa ponta Quaſi piramidal , que no regaço Do mar com Ceilão inſula confronta, E junto donde naſce o largo braço Gangetico, o rumor antigo conta. Que os vizinhos da terra moradores Do cheiro ſe mantem das finas flores.
Mas agora de nomes, & de vſança, Nouos & varios ſam os habitantes: Os Delijs, os Patanes, que em poſſança De terra, & gente, ſam mais abundantes, Decanis, Oriâs, que a eſperança Tem de ſua ſaluação nas reſonantes Agoas do Gange, & a terra de Bengala Fertil de ſorte que outra não lhe igoala.
O Reino de Cambaia bellicoſo (Dizem que foy de Poro Rei potente) O Reino de Narſinga poderoſo, Mais de ouro & pedras, que de forte gente: Aqui ſe enxerga la do mar vndoſo Hum monte alto, que corre longamente, Seruindo ao Malabar de forte muro, Com que do Canarâ viue ſeguro.
Da terra os naturais lhe chamão Gate, Do pê do qual pequena quantidade Se eſtende hũa ſralda eſtreita, que combate Do mar a natural ferocidade: Aqui de outras cidades ſem debate, Calecu tem a illuſtre dignidade, De cabeça de Imperio rica, & bella, Samorim ſe intitula o ſenhor della.
Chegada a frota ao rico ſenhorio, Hum Portugues mandado logo parte, A fazer ſabedar o Rei gentio Da vinda ſua a tam remota parte: Entrando o menſageiro pelo Rio, Que ali nas ondas entra, a não viſta arte A cor, o geſto estranho, o trajo nouo Fez concorrer a vello todo o pouo.
Entre a gente que a vello concorria, Se chega hum Mahometa, que naſcido Fora na região da Berberia, La onde fora Anteo obedecido. Ou pela vezinhança ja teria O Reino Luſitano conhecido, Ou foy ja aſsinalado de ſeu ferro, Fortuna o trouxe a tam longo desterro.
Em vendo o menſageiro com jocundo Roſto, como quem ſabe a lingoa Hiſpana Lhe diſſe, quem te trouxe a eſtoutro mundo, Tam longe da tua patria Luſitana? Abrindo lhe reſponde o mar profundo, Por onde nunca veio gente humana, Vimos buſcar do Indo o grão corrente, Por onde a Lei diuina ſe acrecente.
Eſpantado ficou da gram viajem, O mouro qne Monçaide ſe chamaua, Ouuindo as opreſſoẽs que na paſſajem Do mar, o Luſitano lhe contaua, Mas vendo em fim, que a força da menſajem So pera o Rei da terra releuaua, Lhe diz que eſtaua fora da cidade. Mas de caminho pauca quantidade.
E que em tanto que a noua lhe chegeſſe De ſua estranha vinda, ſe queria Na ſua pobre caſa repouſaſſe, E do manjar da terra comeria: E deſpois que ſe hum pouco recreaſſe, Coelle pera a armada tornaria, Que alegria não pode ſer tamanha, Que achar gente vezinha em terra eſtranha.
O Portuegues aceita de vontade O que o ledo Monçaide lhe offerece Como ſe longa fora ja a amizade, Coelle come & bebe, & lhe obedeçe: Ambos ſe tornão logo da cidade, Pera a frota, que o Mouro bem conheçe, Sobem aa Capitaina, & toda a gente Monçaide recebeo benignamente.
O Capitão o abraça em cabo ledo, Ouuindo clara a lingoa de Caſtella, Iunto de ſi o aſſenta, & prompto & quedo Pela terra pergunta, & couſas della: Qual ſe ajuntaua em Rodope o aruoredo, So por ouuir o amante da donzella Euridiçe, tocando a lira de ouro, Tal a gente ſe ajunta a ouuir o Mouro.
Elle começa, o gente que a natura Vizinha fez de meu paterno ninho, Que deſtino tam grande, ou que ventura Vos trouxe a cometerdes tal caminho: Nam he ſem cauſa não occulta, & eſcura Vir do longinco Tejo, & ignoto Minho, Por mares nunca doutro lenho arados, A Reinos tam remotos & apartados.
Deos por certo vos traz, porque pretende Algum ſeruiço ſeu por vos obrado: Por iſſo ſo vos guia, & vos defende Dos imigos do mar, do vento yrado: Sabey que estais na India, onde ſe estende Diuerſo pouo, rico & proſperado, De ouro luzente, & fina pedraria, Cheiro ſuaue, ardente eſpeciaria.
Eſta prouincia, cujo porto agora Tomado tendes, Malabar ſe chama, Do culto antigo os Ydolos adora, Que ca por estas partes ſe derrama: De diuerſos Reis he, mas dum ſo fora Noutro tempo, ſegundo a antiga fama, Saramâ Perimal foy derradeiro Rei, que este Reino teue vnido & inteiro.
Porem como a eſta terra entam vieſſem, De la do ſeyo Arabico outras gentes, Que o culto Mahometico trouxeſſem, No qual me inſtituirão meus parentes, Succedeo que pregando conuerteſſem O Perimal, de ſabios & elloquentes, Fazem lhe a ley tomar com feruor tanto, Que proſupos de nella morrer ſancto.
Naos arma, & nellas mete curioſo Mercadoria que offereça rica, Pera yr nellas a ſer religioſo, Onde o prepheta jaz, que a ley pubrica: Antes que parta, o Reino poderoſo Cos ſeus reparte, porque não lhe fica Erdeiro proprio, faz os mais aceitos, Ricos de pobres, liures de ſojeitos.
A hum Cochim, & a outro Cananor, A qual Chale, a qual a ilha da pimenta, A qual Coulão, a qual dâ Cranganor E os mais, a quem o mais ſerue & contenta Hum ſo moço, a quem tinha muito amor, Deſpois que tudo deu, ſe lhe apreſenta, Pera este Calecu ſomente fica, Cidade ja por tracto nobre & rica.
Eſta lhe dâ co titulo excellente De Emperador, que ſobre os outros mande, Iſto feito ſe parte diligente, Pera onde em ſancta vida acabe, & ande, E daqui fica o nome de potente Camorî, mais que todos digno, & grande Ao moço & deſcendentes, donde vem Eſte, que agora o Imperio manda & tem.
A ley da gente toda rica & pobre, De fabulas compoſta ſe imagina: Andão nûs, & ſomente hum pano cobre As partes, que a cubrir natura inſina: Dous modos ha de gente, porque a nobre Naires chamados ſam, & a menos digna Poleâs tem por nome, a quem obriga A ley não mesturar a casta antiga
Porque os q̃vſaram ſempre hum mesmo officio, De outro nam podẽ receber conſorte, Nem os filhos teram outro exercicio, Senão o de ſeus paſſados ate morte, Pera os Neires he certo grande viçio Deſtes ſerem tocados de tal ſorte, Que quando algum ſe toca por ventura, Com ceremonias mil ſe alimpa & apura.
Deſta ſorte o Iudaico pouo antigo Nem tocaua na gente de Samaria, Mais eſtranhezas inda das que digo Neſta terra vereis de vſança varia, Os Naires ſos ſam dados ao perigo Das armas, ſos defendem da contraria Banda o ſeu Rei, trazendo ſempre vſada Na ezquerda a adarga, e na dereita a eſpada:
Bramenes ſam os ſeus religioſos, Nome antigo, & de grande preminencia, Obſeruão os preceitos tam famoſos Dhum, que primeiro pos nome aa ciencia: Nem matão couſa viua, & temeroſos Das carnes tem grandiſsima abstinencia, Somente no venereo ajuntamento Tem mais licença, & menos regimento.
Gerais ſam as molheres: mas ſomente Pera os da geração de ſeus maridos: Ditoſa condiçam, ditoſa gente, Que nam ſam de ciumes offendidos. Eſtes & outros costumes variamente Sam pelos Malabares admitidos, A terra he groſſa em trato, em tudo aquilo Que as ondas podem dar da China ao Nilo.
Aſsi contaua o Mouro: mas vagando Andaua a fama ja pela cidade, Da vinda deſta gente estranha, guando O Rei ſaber mandaua da verdade, Ia vinham pelas ruas caminhando, Rodeados de todo ſexo, & idade, Os principaes que o Rei buſcar mandâra, O Capitão da armada que chegâra.
Mas elle, que do Rei ja tem licença Pera deſembarcar, acompanhado Dos nobres Portugueſes ſem detença Parte de ricos panos adornado: Das cores a fermoſa diferença A viſta alegra ao pouo aluoroçado, O remo compaſſado fere frio Agora o mar, despois o freſco rio.
Na praia hum regedor do Reino eſtaua, Que na ſua lingoa Catual ſe chama, Rodeado de Naires, que eſperaua Com deſuſada feſta o nobre Gama: Ia na terra nos braços o leuaua, E num partatil leito hũa rica cama Lhe offereçe em que va, costume vſado, Que nos hombros dos homẽs he leuado.
Desta arte o Malabar, deſtarte o Luſo, Caminhão la pera onde o Rei o eſpera: Os outros Portagueſes vão ao vſo Que infantaria ſegne eſquadra fera: O pouo que concorre vay confuſo De ver a gente estranha, & bem quiſera Perguntar: mas no tempo ja paſſado Na torre de Babel lhe foi vedado.
O Gama, & o Catual hião fallando Nas couſas que lhe o tempo offerecia, Monçaide entrelles vay interpretando As palauras que de ambos entendia: Aſsi pela cidade caminhando, Onde hũa rica fabrica ſe erguia De hum ſumptuoſo templo ja chegauão, Pelas portas do qual juntos entrauão.
Ali estam das deidades as figuras Eſculpidas em pao, & em pedra fria, Varias degeſtos, varias de pinturas, A ſegundo o Demonio lhe fingia. Vem ſe as abominaueis eſculturas, Qual a Chimêra em membros ſe varia, Os Chriſtãos olhos a ver Deos vſados Em forma humana eſtam marauilhados.
Hum na cabeça cornos eſculpidos, Qual Iupiter Amon em Lybia estaua, Outro num corpo roſtos tinha vnidos, Bem como o antigo Iano ſe pintaua: Outro com muitos braços diuididos A Briareo pareçe que imitaua: Outro fronte Canina tem de fora, Qual Anubis Menfitico ſe adora.
Aqui feita do barbaro gentio A ſupersticioſa adoração, Direitos vão ſem outro algum deſuio, Pera onde eſtaua o Rei do pouo vão: Engroſſando ſe vay da gente o fio, Cos que vem ver o eſtranho Capitão, Eſtão pelos telhados & janellas Velhos & moços, donas & donzellas.
Ia chegão perto, & não paſſos lentos, Dos jardins odoriferos fermoſos, Que em ſi eſcondem os regios apouſentos, Altos de torres não, mas ſumptuoſos, Edificão ſe os nobres ſeus aſſentos, Por entre os aruoredos deleitoſos, Aſsi viuem os Reis daquella gente, No campo & na cidade juntamente.
Pelos partais da cerca a ſutileza Se enxerga da Dedalea facultade, Em figuras mostrando por nobreza Da India a mais remota antiguidade: Affiguradas vão com tal viueza As hiſtorias daquella antiga idade, Que quem dellas tiuer noticia inteira, Pela ſombra conheçe a verdadeira.
Eſtaua hum grande exercito que piſa A terra Oriental, que o Idaſpe laua, Rege o hum capitam de fronte liſa, Que com frondentes Tirſos palejaua, Por elle edificada eſtaua Niſa Nas ribeiras do rio, que manaua, Tão proprio, que ſe ali estiuer Semelle, Dirâ por certo, que he ſeu filho aquelle.
Mais auante bebendo ſeca o rio, Mui grande multidão da Aſsiria gente, Sujeita a feminino ſenhorio, De hũa tam bella, como incontinente: Ali tem junto ao lado nunca frio, Eſculpido o feroz ginete ardente, Com quem teria o filho competencia, Amor nefando, bruta incontinencia.
Daqui mais apartadas tremolauão As bandeiras de Grecia glorioſas, Terceira Monarchia, & ſojugauão, Ate as agoas Gargeticas vndoſas: Dum capitão mancebo ſe guiauão De palmas rodeado valeroſas, Que ja não de Filipo, mas ſem falta De progenie de Iupiter ſe exalta.
Os Portugueſes vendo eſtas memorias, Dizia o Catual ao Capitão, Tempo cedo virà que outras victorias, Estas que agora olhais abaterão: Aqui ſe eſcreuerão nouas hiſtorias, Por gentes eſtrangeiras que virão Que os noſſos ſabios magos o alcançârão, Quando o tempo futuro eſpeculârão.
E dizlhe mais a magica ſciencia, Que pera ſe euitar força tamanha, Não valerâ dos homẽs reſiſtencia, Que contra o Ceo não val da gente manha: Mas tambem diz que a bellica excellencia Nas armas, & na paz, da gente eſtranha Sera tal, que ſera no mundo ouuido O vencedor, por gloria do vencido.
Aſsi fallando entrauão ja na ſala, Onde aquelle potente Emperador Nũa camilha jaz, que nam ſe igoala De outra algũa no preço & no lauor: No recoſtado geſto ſe aſsinala Hum venerando & prospero ſenhor, Hum pano de ouro cinge, & na cabeça De precioſas gemas ſe adereça.
Bem junto delle hum velho reuerente, Cos giolhos no chão, de quando em quando Lhe daua a verde folha da erua ardente Que a ſeu coſtume eſtaua ruminando: Hum Bramene, peſſoa preminente, Pera o Gama vem com paſſo brando, Pera que ao grande Principe o apreſente, Que diante lhe acena que ſe aſſente.
Sentado o Gama junto ao rico leito, Os ſeus mais afaſtados, prompto em viſta Estaua o Samori no trajo & geito Da gente, nunca de antes delle viſta: Lançando a graue voz do ſabio peito, Que grande authoridade logo aquiſta Na opinião do Rei, & do pouo todo O Capitão lhe falla deſte modo.
Hum grande Rei, de la das partes, onde O ceo volubil com perpetua roda Da terra a luz ſolar coa terra eſconde, Tingindo a que deixou de eſcura noda, Ouuindo do rumor que la responde O eco, como em ti da India toda O principado eſtâ, & a mageſtade, Vinculo quer contigo de amizade.
E por longos rodeos a ti manda, Por te fazer ſaber que tudo aquillo Que ſobre o mar, que ſobre as terras anda De riquezas, de lâ do Tejo ao Nilo: E desda fria plaga de Gelanda, Ate bem donde o Sol nam muda o eſtilo Nos dias, ſobre a gente de Ethiopia, Tudo tem no ſeu Reino em grande copia.
E ſe queres com pactos, & lianças De paz, & de amizade ſacra, & nua, Comerçio conſentir das abundanças Das fazendas da terra ſua, & tua, Porque creção as rendas, & abaſtanças, Por quem a gente mais trabalha & ſua, De voſſos Reinos, ſera certamente De ti proueito, & delle gloria ingente.
E ſendo aſsi que o nô deſta amizade, Entre vos firmemente permaneça, Estara prompto a toda aduerſidade, Que por guerra a teu Reino ſe offereça: Com gente, armas, & naos de qualidade Que por yrmão te tenha, & te conheça, E da vontade em ti ſobriſto poſta Me des a my certiſsima reposta.
Tal embaxada daua o Capitão, A quem o Rei gentio reſpondia, Que em ver embaxadores de nação Tam remota, gram gloria recebia: Mas neſte caſo a vltima tençam Com os de ſeu conſelho tomaria, Informando ſe certo de quem era O Rei, & a gente, & terra que diſſera.
E que em tanto podia do trabalho Paſſado yr repouſar, & em tempo breue Daria a ſeu deſpacho hum juſto talho, Com que a ſeu Rei repoſta alegre leue: Ia niſto punha a noite o vſado atalho Aas humanas canſeiras, porque ceue De doçe ſono os membros trabalhados, Os olhos ocupando ao ocio dados.
Agaſalhados foram juntamente, O Gama, & Portugueſes no apouſento Do nobre Regedor da Indica gente, Com festas & geral contentamento: O Catual no cargo diligente De ſeu Rei, tinha ja por regimento Saber da gente eſtranha donde vinha Que costumes, que lei, que terra tinha.
Tanto que os igneos carros do fermoſo Mancebo Delio vio, que a luz renoua, Manda chamar Monçaide, deſejoſo De poder ſe informar da gente noua: Ia lhe pergunta prompto & curioſo, Se tem noticia inteira, & certa proua, Dos eſtranhos quem ſam, que ouuido tinha Que he gente de ſua patria muy vizinha.
Que particularmente ali lhe deſſe Informação muy larga, pois fazia Niſſo ſeruiço ao Rei, porque ſoubeſſe O que neste negocio ſe faria: Mançaide torna, poſto que eu quiſeſſe Dizerte disto mais nam ſaberia, Somente ſey que he gente la de Hespanha Onde o meu ninho, & o Sol no mar ſe banha.
Tem a ley dum Propheta, que gerado Foi ſem fazer na carne detrimento Da mãy, tal que por bafo estâ aprouado Do Deos, que tem do mundo o regimento: O que entre meus antigos he julgado Delles, he que o valor ſanguinolento Das armas, no ſeu braço reſplandeçe, O que em noſſos paſſados ſe pareçe.
Porque elles com virtude ſobre humana, Os deitarão dos campos abundoſos Do rico Tejo, & freſca Goadiana, Com feitos memoraueis, & famoſos: E não contentes inda, & na Affricana Parte, cortando os mares proceloſos Nos não querem deixar viuer ſeguros, Tomando nos cidades, & altos muros.
Nam menos tem moſtrado esforço, & manha, Em quaesquer outras guerras que acõteção, Ou das gentes beligeras da Eſpanha, Ou la dalgũs que do Pirene deção. Aſsi que nunca em fim com lança eſtranha Se tem, que por vencidos ſe conheção, Nem ſe ſabe inda não, te afirmo & aſſello Pera estes Anibais nenhum Marcello.
E ſeſta informação nam for inteira Tanto quanto conuem, delles pretende Informarte, que he gente verdadeira, A quem mais falſidade enoja & offende: Vay verlhe a frota, as armas, & a maneira Do fundido metal, que tudo rende, E folgaras de veres a policia Portugueſa na paz, & na milicia.
Ia com deſejos o Idolatra ardia, De ver iſto, que o Mouro lhe contaua, Manda eſquipar bateis, que yr ver queria Os lenhos em que o Gama nauegaua. Ambos partem da praia, a quem ſeguia A Naira geraçam, que o mar coalhaua, Aa Capitaina ſobem forte & bella, Onde Paulo os recebe a bordo della.
Purpureos ſam os toldos, & as bandeiras Do rico fio ſam, que o bicho gera, Nellas eſtam pintadas as guerreiras Obras, que o forte braço ja fizera: Batalhas tem campais auentureiras, Deſafios crueis, pintura fera, Que tanto que ao Gentio ſe apreſenta, A tento nella os ollos apacenta.
Pelo que ve pergunta: mas o Gama Lhe pedia primeiro que ſe aſſente, E que aquelle deleite que tanto ama A ceita Epicurea, eſperimente: Dos eſpumantes vaſos ſe derrama O licor, que Noe mostrâra aa gente: Mas comer o Gentio nam pretende, Que a ceita que ſeguia lho defende.
A trombeta que em paz no penſamento, Imagem faz de guerra, rompe os ares, Co ſogo o diabolico instrumento, Se faz ouuir no fundo la dos mares: Tudo o Gentio nota: mas o intento Moſtraua ſempre ternos ſingulares Feitos dos homẽs, que em retrato breue A muda poeſia ali deſcreue.
Alçaſe em pê, co elle os Gamas junto Coelho de outra parte, & o Mauritano Os olhos poem no bellico trafunto De hum velho branco, aſpeito venerando, Cujo nome nam pode ſer defuncto Em quanto ouuer no mundo trato humano, No trajo a Grega vſança eſtâ perfeita, Hum ramo por inſignia na dereita.
Hum ramo na mão tinha: mas o cego Eu que cometo inſano, & temerario, Sem vos Nimphas do Tejo, & do Mondego, Por caminho tam arduo, longo, & vario: Voſſo fauor inuoco, que nauego Por alto mar, com vento tam contrario, Que ſe nam me ajudais, ei grande medo, Que o meu fraco batel ſe alague cedo.
Olhay que ha tanto tempo, que cantando O voſſo Tejo, & os voſſos Luſitanos, A fortuna me traz peregrinando, Nouos trabalhos vendo, & nouos danos: Agora o mar, agora eſprimentando Os perigos Mauorcios inhumanos, Qual Canace que â morte ſe condena, Nũ mão ſempre a eſpada, & noutra a pena:
Agora com pobreza auorrecida, Por hoſpicios alheios degradado, Agora da eſperança ja adquirida, De nouo mais que nunca derribado: Agora aas costas eſcapando a vida, Que dum fio pendia tam delgado, Que não menos milagre foi ſaluarſe, Que pera o Rei Iudaico acrecentarſe.
E ainda Nimphas minhas não baſtaua, Que tamanhas miſerias me cercaſſem: Senão que aquelles que eu cantando andaua, Tal premio de meus verſos me tornaſſem A troco dos deſcanſos que eſparaua, Das capellas de louro que me honraſſem, Trabalhos nunca vſados me inuentârão, Com que em tam duro eſtado me deitârão.
Vede Nimphas que engenhos de ſenhores O voſſo Tejo cria valeroſos, Que aſsi ſabem prezas com tais fauores A quem os faz cantando glorioſos: Que exemplos a futuros eſcriptores, Pera eſpertar engenhos curioſos, Pera porem as couſas em memoria, Que merecerem ter eterna gloria.
Pois logo em tantos males he forçado, Que ſo voſſo fauor me não falleça, Principalmente aqui, que ſou chegado Onde feitos diuerſos engrandeça: Daimo vos ſos, que eu tenho ja jurado Que não no empregue em quem o não mereça Nem por liſonja louue algum ſubido, Sob pena de não ſer agradecido.
Nem creais Nimphas nam que fama deſſe A quem ao bem comum, & do ſeu Rei Antepoſer ſeu proprio intereſſe: Imigo da diuina & humana ley, Nenhum ambicioſo, que quiſeſſe Subir a grandes cargos, cantarey, So por poder com torpes exercicios Vſar mais largamente de ſeus vicios.
Nenhum que vſe de ſeu poder bastante Pera ſeruir a ſeu deſejo feio, E que por comprazer ao vulgo errante Se muda em mais figuras que Proteio, Nem Camenas tambem cuideis que cante Quem com habito honeſto & graue veio, Por contentar o Rei no officio nouo, A deſpir & roubar o pobre pouo.
Nem quem acha que he justo & que he dereito Guardaſe a ley do Rei ſeueramente, E não acha que he juſto & bom reſpeito, Que ſe pague o ſuor da ſeruil gente. Nem quem ſempre com pouco experto peito Razões aprende, & cuida que he prudente, Pera taxar com mão rapace & eſcaſſa, Os trabalhos alheios, que nam paſſa.
Aquelles ſos direy que auenturârão Por ſeu Deos, por ſeu Rei, a amada vida Onde perdendoa, em fama a dilatârão, Tambem de ſuas obras merecida Apolo, & as Muſas que me acompanharão, Me dobraram a furia concedida Em quanto eu tomo alento deſcanſado, Por tornar ao trabalho mais folgado.
F I M.
❧ Canto Octauo.
Na primeira figura ſe detinha O Catual, que vira estar pinta- da. Que por diuiſa hum ramo na mão tinha, A barba branca, longa, & penteada: Quem era, & porque cauſa lhe conuinha A diuiſa que tem na mão tomada, Paulo reſponde, cuja voz diſcreta O Mauritano ſabio lhe interpreta.
Eſtas figuras todas que aparecem, Brauos em viſta, & feros nos aſpeitos, Mais brauos, & mais feros ſe conhecem Pela fama, nas obras, & nos feitos Antigos ſam, mas inda reſplandecem Co nome, entre os engenhos mais perfeitos, Eſte que ves he Luſo, donde a fama O noſſo Reino Luſitania chama.
Foy filho & companheiro do Thebano, Que tam diuerſas partes conquiſtou Parece vindo ter ao ninho Hispano, Seruindo as armas que contino vſou, Do Douro, Guadiana o campo vfano, Ia dito Eliſio, tanto o contentou Que ali quis dar, aos ja canſados oſſos Eterna ſepultura, & nome aos noſſos.
O ramo que lhe ves pera diuiſa, O verde Tyrſo foi de Baco vſado, O qual aa noſſa idade amoſtra & auiſa Que foi ſeu companheiro & filho amado: Ves outro, que do Tejo a terra piſa, Deſpois de ter tam longo mar arado, Onde muros perpetuos edefica, E templo a Palas, que em memoria fica
Vliſſes he o que faz a ſancta caſa Aa Deoſa, que lhe dâ lingoa facunda, Que ſe lâ na Aſia Troia inſigne abraſa, Ca na Europa Lisboa ingente funda: Quem ſera eſtoutro ca que o campo arraſa De mortos, com preſença furibunda? Grandes batalhas tem desbaratadas, Que as Agueas nas bandeiras tem pintadas.
Aſsi o Gentio diz, reſponde o Gama, Eſte que ves paſtor ja foi de gado, Viriato ſabemos que ſe chama, Destro na lança mais que no cajado: Injuriada tem de Roma a fama, Vencedor inuencibil afamado, Nem tem coelle não, nem ter puderão O primor que com Pirro ja tiuerão.
Com força não: com manha vergonhoſa, A vida lhe tirarão que os eſpanta, Que o grande aperto em gente, inda q̃ honroſa Aas vezes leis magnanimas quebranta: Outro eſtâ aqui que contra a patria yroſa Degradado com noſco ſe aleuanta, Eſcolheo bem com quem ſe aleuantaſſe Pera que eternamente ſe illuſtraſſe.
Vês com noſco tambem vence as bandeiras Deſſas aues de Iupiter validas, Que ja naquelle tempo as mais guerreiras Gentes de nos ſouberam ſer vencidas: Olha tam ſotis artes & maneiras, Pera adquerir os pouos tam fingidas A fatidica Cerua que o auiſa, Elle he Sertorio, & ella a ſua diuiſa.
Olha eſtoutra bandeira & ve pintado, O gram progenitor dos Reis primeiros, Nos Vngaro o fazemos, porem nado Crem ſer em Lotharingia os eſtrangeiros: Deſpois de ter cos Mouros ſuperado Galegos, & Leoneſes caualleiros, Aa caſa Sancta paſſa o ſancto Enrique, Porque o tronco dos Reis ſe ſanctifique.
Quem he me dize estoutro que me eſpanta, Pergunta o Malabar marauilhado, Que tantos eſquadrões, que gente tanta, Com tam pouca, tem roto & deſtroçado: Tantos muros aſperrimos quebranta, Tantas batalhas da nunca canſado, Tantas coroas tem por tantas partes, A ſeus pês derribadas, & eſtandartes?
Eſte he o primeiro Afonſo, diſſe o Gama, Que todo Portugal aos Mouros toma, Por quem no Estigio lago jura a fama, De mais não celebrar nenhum de Roma: Eſte he aquelle zeloſo a quem Deos ama, Com cujo braço o Mouro imigo doma, Pera quem de ſeu Reino abaxa os muros, Nada deixando ja pera os futuros.
Se Ceſar, ſe Alexandre Rei tiuerão, Tam pequeno poder, tam pouca gente, Contra tantos inimigos quantos erão, Os que desbarataua eſte excelente, Nam creas que ſeus nomes ſe eſtenderão Com glorias imortais tam largamente: Mas deixa os feitos ſeus inexplicaueis, Ve que os de ſeus vaſſalos ſam notaueis.
Eſte que ves olhar com geſto yrado, Pera o rompido Alumno mal ſofrido, Dizendo lhe que o exercito eſpalhado, Recolha, & torne ao campo defendido: Torna o moço do velho acompanhado, Que vencedor o torna de vencido, Egas moniz ſe chama o forte velho Pera leais vaſſalos claro eſpelho.
Vello ca vai cos filhos a entregarſe, Acorda ao colo, nu de ſeda & pano, Porque nam quis o moço ſogeitarſe, Como elle prometera ao Castelhano: Fez com ſiſo & promeſſas leuantarſe O cerco que ja eſtaua ſoberano, Os filhos & molher obriga aa pena, Pera que o ſenhor ſalue, a ſi condena.
Nem fez o Conſul tanto que cercado Foi nas forcas Caudinas de ignorante Quando a paſſar por baxo foi forçado Do Samnitico jugo triumphante: Este pelo ſeu pouo injuriado, Aſsi ſe entrega ſo firme & conſtante, Eſtoutro aſsi, & os filhos naturais, E a conſorte ſem culpa, que doe mais
Ves eſte que ſaindo da cilada, Dâ ſobre o Rei que cerca a villa forte, Ia o Rei tem preſo, & a villa deſcercada Illustre feito digno de Mauorte, Velo ca vay pintado neſta armada No mar tambem aos Mouros dando a morte, Tomando lhe as galès, leuando a gloria, Da primeira maritima victoria.
E dom Fuas Roupinho que na terra, E no mar reſplandece juntamente, Co fogo que acendeo junto da ſerra De Abila, nas gales da Maura gente Olha como então juſta & ſancta guerra De acabar pelejando està contente: Dar mãos dos Mouros entra a felice alma Triunfando nos ceos com juſta Palma.
Nam ves hum ajuntamento de estrangeiro Trajo, ſair da grande armada noua, Que ajuda a combater o Rei primeiro Lisboa, de ſi dando ſancta proua: Olha Enrique famoſo caualleiro, A Palma que lhe naſce junto aa coua, Por elles moſtra Deos milagre visto, Germanos ſam os Martyris de Christo.
Hum Sacerdote vê brandindo a eſpada, Contra Arronches que toma, por vingança De Leiria, que de antes foi tomada, Por quem porMaphamede enreſta a lança: He Teotonio Prior: mas vê cercada Sanctarem, & veras a ſegurança Da figura nos muros, que primeira Subindo ergueo das Quinas a bandeira:
Vello ca donde Sancho desbarata Os Mouros de Vandalia em fera guerra, Os imigos rompendo, o Alferez mata, E Hispalico pendão derriba em terra, Mem Moniz he, que em ſi o valor retrata, Que o ſepulchro do pay cos oſſos cerra, Digno deſtas bandeiras, pois ſem falta A contraria derriba, & a ſua exalta.
Olha aquelle que deçe pela lança, Com as duas cabeças dos vigias, Onde a çilada eſconde, com que alcança A cidade por manhas & ouſadias: Ella por armas toma a ſemelhança Do caualleiro, que as cabeças frias Na mão leuaua, feito nunca feito, Giraldo ſem pauor he o forte peito.
Nem vês hum Caſtelhano, que agrauado, De Affonſo nono Rei, pelo odio antigo Dos de Lara cos Mouros he deitado, De Portugal fazendoſe inimigo? Abrantes villa toma acompanhado Dos duros infieis que traz conſigo: Mas vê que hum Portugues com pouca gente O desbarata & o prende ouſadamente.
Martim Lopez ſe chama o caualleiro, Que destes leuar pode a palma, & o louro: Mas olha hum Eccleſiastico guerreiro, Que em lança de aço torna o Bago de ouro: Vêllo entre os duuidoſos tam inteiro, Em não negar batalha ao brauo Mouro, Olha o ſinal no çeo que lhe apareçe, Com que nos poucos ſeus o esforço creçe.
Vês vão os Reis de Cordoua & Seuilha, Rotos, cos outros dous, & não de eſpaço, Rotos? mas antes mortos, marauilha Feita de Deos, que não de humano braço: Vês ja a villa de Alcaçare ſe humilha, Sem lhe valer defeſa, ou muro de aço, A dom Matheus o Biſpo de Lisboa, Que a coroa de palma ali coroa.
Olha hum Meſtre que deçe de Caſtella, Portugues de nação, como conquiſta A terra dos Algarues, & ja nella Nem acha que por armas lhe reſiſta, Com manha, esforço, & com benigna estrella Villas, castellos toma a eſcalla vista: Ves Tauila tomada aos moradores, Em vingança dos ſete caçadores.
Vês com belica aſtucia ao Mouro ganha Silues, que elle ganhou com força ingente, He dom Paio Correa, cuja manha E grande esforço faz enueja aa gente: Mas não paſſes os tres q̃ ẽ Frãça & Eſpanha Se fazem conhecer perpetuamente, Em deſafios, juſtas & torneos, Nellas deixando publicos trofeos.
Vellos co nome vem de auentureiros, A Castella, onde o preço ſos leuârão Dos jogos de Belona verdadeiros, Que com dano de algũs ſe exercitârão, Vê mortos os ſoberbos caualleiros, Que o principal dos tres deſafiarão, Que Gonçalo Ribeiro ſe nomea, Que pode não temer a ley Letea.
Atenta num que a fama tanto eſtende, Que de nenhum paſſado ſe contenta, Que a patria que de hum fraco fio pende Sobre ſeus duros hombros a ſuſtenta, Não no ves tinto de yra, que reprende A vil deſconfiança inerte & lenta Do pouo, & faz que tome o doçe freyo, De Rei ſeu natural, & nam de alheyo.
Olha por ſeu conſelho & ouſadia, De Deos guiada ſo, & de ſancta Eſtrella So pode o que impoſsibil parecia, Vencer o pouo ingente de Castella: Ves par induſtria, esforço, & valentia Outro eſtrago & victoria clara & bella Na gente, aſsi feroz como infinita, Que entre o Tarteſo, & Goadiana habita.
Mas não ves quaſi ja desbaratado, O poder Luſitano, pela auſencia Do Capitão deuoto, que apartado Orando inuoca a ſuma & trina eſſencia: Vello com preſſa ja dos ſeus achado, Que lhe dizem que falta reſiſtencia Contra poder tamanho, & que vieſſe, Porque conſigo esforço aos fracos deſſe.
Mas olha com que ſancta confiança, Que inda não era tempo reſpondia, Como quem tinha em Deos a ſegurança Da victoria, que logo lhe daria: Aſsi Pompilio, ouuindo que a poſſança Dos imigos a terra lhe corria, A quem lhe a dura noua eſtaua dando, Pois eu, reſponde, eſtou ſacrificando.
Se quem com tanto esforço em Deos ſe atreue, Ouuir quiſeres como ſe nomea, Portugues Cipião chamar ſe deue: Mas mais de dom Nuno Aluarez ſe arrea, Ditoſa patria que tal filho teue: Mas antes pai, que em quanto o Sol rodea Eſte globo de Ceres & Neptuno, Sempre ſuſpirarâ por tal aluno.
Na meſma guerra vê que preſas ganha, Estoutro Capitão de pouca gente, Comendadores vence, & o gado apanha, Que leuão roubado ouſadamente: Outra vez vê que a lança em ſangue banha Destes, ſo por liurar com amor ardente O preſo amigo, preſo por leal, Pero Rodriguez he do Landroal.
Olha eſte deſleal o como paga O perjurio que fez & vil engano, Gil Fernandez he de Eluas quem o eſtraga, E faz vir a paſſar o vltimo dano: De Xerez rouba o campo, & quaſi alaga Co ſangue de ſeus donos Castelhano: Mas olha Rui Pireira que co roſto Faz eſcudo aas gales, diante poſto.
Olha que dezeſete Luſitanos, Neſte outeiro fabulas ſe defendem, Fortes de quatrocentos Castelhanos, Que em derredor pelos tomar ſe eſtendem, Porem logo ſentiram com ſeus danos, Que nam ſo ſe defendem, mas effendem, Digno feito de ſer no mundo eterno, Grande no tempo antigo & no moderno.
Sabeſe antigamente que trezentos Ia contra mil Romanos pelejarão, No tempo que os virîs atreuimentos De Viriato tanto ſe illuſtrarão, E delles alcançando vencimentos Memoraueis, de erança nos deixarão, Que os muitos por ſer poucos nam temamos O que deſpois mil vezes amoſtramos.
Olha ca dous Infantes Pedro & Henrique, Progenie generoſa de Ioane, Aquelle faz que fama illuſtre fique Delle em Germania, com que a morte engane: Eſte, que ella nos mares o pubrique, Por ſeu deſcobridor, & deſengane De Ceita a Maura tumida vaidade, Primeiro entrando as portas da cidades.
Vês o Conde dom Pedro que ſustenta Dous cercos contra toda a Barbaria, Vês outro Conde eſtà que repreſenta Em terra Marte, em forças & ouſadia, De poder defender ſe nam contenta Alcaçere da ingente companhia: Mas do ſeu Rei defende a cara vida, Pondo por muro a ſua, ali perdida.
Outros muitos verias que os pintores Aqui tambem por certo pintarião: Mas faltalhe pinçel, faltão lhe cores, Honra, premio, fauor que as artes crião, Culpa dos vicioſos ſucceſſores, Que degenerão certo, & ſe deſuião Do luſtre, & do valor dos ſeus paſſados, Em goſtos & vaidades atolados.
Aquelles pais illuſtres que ja derão Principio aa geraçam que delles pende, Pela virtude muyto antão fizerão, E por deixar a caſa que deſcende, Cegos, que dos trabalhos que tiuerão, Se alta fama & rumor delles ſe eſtende, Eſcuros deixão ſempre ſeus menores, Com lhe deixar deſcanſos corrutores.
Outros tambem ha grandes & abaſtados, Sem nenhum tronco illuſtre donde venhão, Culpa de Reis, que aas vezes a priuados Dão mais que a mil, q̃ esforço & ſaber tenhã Eſtes os ſeus nam querem ver pintados, Crendo que cores vãs lhe não conuenhão, E como a ſeu contrairo natural, Aa pintura que falla querem mal.
Não nego que â com tudo deſcendentes Do generoſo tronco, & caſa rica Que com custumes altos & excellentes Suſtentão a nobreza que lhe fica: E ſe ha luz dos antigos ſeus parentes Nelles mais o valor não clarifica, Nam ſalta ao menos, nem ſe faz eſcura: Mas destes acha poucos a pintura.
Aſsi eſtâ declarando os grandes feitos, O Gama que ali moſtra a varia tinta, Que a douta mão tam claros, tam perfeitos Do ſingular artifice ali pinta: Os olhos tinha promptos & dereitos, O Catual na historia bem daſtinta, Mil vezes perguntaua, & mil ouuia, As goſtoſas batalhas que ali via.
Mas ja a luz ſe moſtraua duuidoſa, Porque a alampada grande ſe eſcondia Debaxo do Orizonte & luminoſa Leuaua aos Antipodas o dia, Quando o Gentio, & a gente generoſa, Dos Naires, da nao forte ſe partia A buſcar o repouſo que deſcanſa, Os laſſos animais, na noite manſa.
Entre tanto os Aruſpices famoſos Na falſa opinião, que em ſacrificios Anteuem ſempre os caſos duuidoſos, Por ſinais diabolicos, & indicios Mandados do Rei proprio, eſtudioſos Exercitauão a arte & ſeus officios, Sobre esta vinda desta gente eſtranha, Que aas ſuas terras vem da ignota Eſpanha.
Sinal lhe mostra o Demo verdadeiro, De como a noua gente lhe ſeria Iugo perpetuo, eterno catiueiro, Deſtruiçam de gente, & de valia: Vaiſe eſpantado o atonito agoureiro Dizer ao Rei (ſegundo o que entendia) Os ſinais temeroſos que alcançâra Nas entranhas das victimas que oulhara:
A iſto mais ſe ajunta que hum deuoto Sacerdote da ley de Maphamede, Dos odios concebidos nam remoto, Contra a diuina Fe, que tudo excede, Em forma do Propheta falſo & noto, Que do filho da eſcraua Agar procede, Baco odioſo em ſonhos lhe aparece, Que de ſeus odios inda ſe nam deçe.
E diz lhe aſsi, guardaiuos gente minha, Do mal que ſe aparelha pelo imigo Que pelas agoas humidas caminha, Antes que eſteis mais perto do perigo: Isto dizendo acorda o Mouro aſinha, Eſpantado do ſonho: mas conſigo Cuida que não he mais que ſonho vſado Torna a dormir quieto & ſoſegado.
Torna Bacho dizendo, nam conheces O gram legiſlador que a teus paſſados Tem moſtrado o preceito a que obedeces Sem o qual foreis muitos baptizados? Eu parti rudo vello, & tu adormeces? Pois ſaberas que aquelles que chegados De nouo ſam, ſeram muy grande dano Da lei que eu dei ao neſcio pouo humano.
Em quanto he fraca a força deſta gente, Ordena como em tudo ſe reſista, Porque quando o Sol ſae facilmente Se pode nelle por a aguda viſta: Porem deſpois que ſobe claro & ardente, Se agudeza dos olhos o conquiſta, Tam cega fica, quanto ficareis Se raizes criar lhe nam tolheis.
Isto dito, elle & o ſono ſe deſpede, Tremendo fica o atonito Agareno Salta da cama, lume aos ſeruos pede Laurando nelle oo feruido veneno: Tanto que a noua luz que ao Sol precede Mostrara roſto Angelico & ſereno, Conuoca os principais da torpa ceita, Aos quais do que ſonhou dâ conta estreita.
Diuerſos pareceres & contrarios Ali ſe dão ſegundo o que entendião, Astutas traições, enganos varios, Perfidias inuentauam & tecião: Mas deixando conſelhos temerarios, Deſtruiçam da gente pretendião, Por manhas mais ſotis & ardis milhores, Com peitas adquerindo os regedores,
Com peitas, ouro, & dadiuas ſecretas Concilião da terra os principais, E com razões notaueis & diſcretas Moſtram ſer perdiçam dos naturais, Dizendo que ſam gentes inquietas, Que os mares discorrendo Occidentais, Viuem ſo de piraticas rapinas, Sem Rei, ſem leis humanas ou diuinas.
O quanto deue o Rei que bem gouerna, De olhar que os conſelheiros, ou priuados, De conſciencia, & de virtude interna, E de ſincero amor ſejam dotados: Porque como estè paſto na ſuperna Cadeira, pode mal dos apartados Negocios, ter noticia mais inteira, Do que lhe der a lingoa conſelheira.
Nem tam pouco direy que tome tanto Em groſſo, a conſciencia limpa & certa Que ſe enleue num pobre & humilde manto, Onde ambição a caſo ande encuberta, E quando hũ bom em tudo he juſto & ſancto E em negocios do mundo pouco acerta, Que mal coelles poderâ ter conta, A quieta inocencia, em ſo Deos pronta.
Mas aquelles auaros Catuais, Que o Gentilico pouo gouernauão, Induzidos das gentes infernais, O Portugues deſpacho dilatauão: Mas o Gama, que não pretende mais, De tudo quanto os Mouros ordenauão, Que leuar a ſeu Rei hum ſinal certo Do mundo, que deixa deſcuberto.
Nisto trabalha ſo, quem bem ſabia Que deſpois que leuaſſe esta certeza, Armas, & naos, & gentes mandaria Manoel, que exercita a ſumma alteza, Com que a ſeu jugo & ley ſometeria Das terras, & do mar a redondeza, Que elle não era mais que hum diligente Deſcobridor das terras do Oriente.
Fallar ao Rei Gentio determina, Porque com ſeu deſpacho ſe tornaſſe, Que ja ſentia em tudo da malina Gente impedirſe quanto delejaſſe: O Rei que da noticia falſa, & indina Nam era deſpantar ſe ſespantaſſe, Que tam credulo era em ſeus agouros, E mais ſendo affirmados pelos Mouros.
Eſte temor lhe esfria o baixo peito: Por outra parte a força da cobiça, A quem por natureza eſtâ ſugeito, Hum deſejo immortal lhe acende, & atiça: Que bem vê que grandiſsimo proueito Farâ ſe com verdade, & com juſtiça O contrato fizer por longos annos, Que lhe comete o Rei dos Luſitanos.
Sobre iſto nos conſelhos que tomaua, Achaua muy contrarios pareceres, Que naquelles, com quem ſe aconſelhaua, Executa o dinheiro ſeus poderes: O grande Capitão chamar mandaua, A quem chegado diſſe, ſe quiſeres Confeſſarme a verdade limpa, & nua, Perdão alcançaras da culpa tua.
Eu ſou bem informado, que a embaxada Que de teu Rei me deste, que he fingida: Porque nem tu tẽs Rei, nem patria amada, Mas vagabundo vas paſſando a vida: Que quem da Hiſperia vltima alongada Rei, ou ſenhor de inſania deſmedida, Ha de vir cometer com naos, & frotas Tam incertas viagẽs, & remotas?
E ſe de grandes Reinos poderoſos, O teu Rei tem a regia majestade, Que preſentes me trazes valeroſos, Sinais de tua incognita verdade: Com peças & dões altos ſumptuoſos Se lia dos Reis altos a amizade: Que ſinal nem penhor não he baſtante, A palauras dum vago nauegante.
Se por ventura vindes deſterrados, Como ja foram homẽs dalta ſorte, Em meu Reino ſereis agaſalhados, Que toda a terra he patria pera o forte: Ou ſe piratas ſois ao mar vſados, Dizeimo ſem temor de infamia, ou morte: Que por ſe ſustentar em toda idade, Tudo faz a vital neceſsidade.
Iſto aſsi dito, o Gama que ja tinha Suspeitas das inſidias que ordenaua O Mahometico odio, donde vinha Aquillo que tam mal o Rei cuidaua: Cũa alta confianca, que conuinha, Com que ſeguro credito alcançaua, Que Venus Acidalia lhe influia, Tais palauras do ſabio peito abria.
Se os antigos delitos, que a malicia Humana cometeo na priſca idade, Nam cauſaram, que o vaſo da niquicia, Açoute tão cruel da Chriſtandade, Viera por perpetua inimicicia Na geraçam de Adão, co a falſidade O poderoſo Rei da torpe ſeita, Nam conceberas tu tam mâ ſoſpeita.
Mas porque nenhumb grande bem ſe alcança Sem grandes opreſsões, & em todo o feyto Segue o temor os paſſos da eſperança, Que em ſuor viue ſempre de ſeu peyto, Me moſtras tu tão pouca confiança Deſta minha verdade: ſem reſpeyto Das razões em contrario que acharias Senão creſſes a quem não crer deuias.
Porque ſe eu de rapinas ſo viueſſe Vndiuago, ou da patria desterrado, Como cres que tão longe me vieſſe, Buſcar aſſento incognito & apartado? Porque eſperanças, ou porque intereſſe, Viria eſprimentando o mar yrado, Os Antarticos frios, & os ardores Que ſofrem do Carneyro os moradores?
Se com grandes preſentes dalta eſtima O credito me pedes do que digo, Eu não vim mais q̃ a achar o estranho Clima Onde a natura pos teu Reyno antigo: Mas ſe a Fortuna tanto me ſublima, Que eu torne à minha patria, & Reino amigo Então verâs o dom ſoberbo & rico Com que minha tornada certifico.
Se te pareçe inopinado feito, Que Rei da vltima Hisperia ati me mande, O coraçam ſublime, o regio peito, Nenhum caſo poſsibil tem por grande. Bem pareçe que o nobre & gram conceito Do Luſitano eſpirito demande Maior credito, & fe de mais alteza, Que crea delle tanta fortaleza.
Sabe que ha muitos annos, que os antigos Reis noſſos firmemente propuſerão De vencer os trabathos, & perigos, Que ſempre âs grandes couſas ſe opuſerão E deſcobrindo os mares inimigos Do quieto deſcanſo, pretenderão De ſaber que fim tinhão, & onde estauão As derradeiras praias que lauauão.
Conceito digno foi do ramo claro Do venturoſo Rei, que arou primeiro O mar, por yr deitar do ninho caro O morador de Abila derradeiro: Eſte por ſua induſtria, & engenho raro, Num madeiro ajuntando outro madeiro, Deſcobrir pode a parte, que faz clara De Argos, da Ydra a luz, da Lebre, e da Ara.
Creſcendo cos ſucceſſos bons primeyros No peyto as ouſadias, deſcobrirão Pouco & pouco caminhos eſtrangeyros, Que hũs ſuccedendo aos outros proſeguirão: De Affrica os moradores derradeyros Austrais, que nunca as ſete flammas virão, Forão viſtos de nos, atras deyxando Quantos eſtão os Tropicos queymando.
Aſsi com firme peyto, & com tamanho Propoſito vencemos à Fortuna, Ate que nos no teu terreno eſtranho Viemos pôr a vltima coluna: Rompendo a força do liquido Eſtanho Da tempeſtade horrifica, & importuna Ati chegamos, de quem ſo queremos ſinal, que ao noſſo Rey de ti leuemos.
Eſta he a verdade Rey, que não faria Por tão incerto bem, tão fraco premio Qual, não ſendo isto aſsi, eſperar podia, Tão lango tão fingido, & vão proemio: Mas antes deſcanſar me deyxaria No nunca deſcanſado & fero gremio Da madre Thetis, qual pirata inico Dos trabalhos alheyos feyto rico.
Aſsi que ô Rey, ſe minha grão verdade Tẽs por qual he, ſincera, & não dobrada, Ajuntame ao deſpacho breuidade, Não me impidas o goſto da tornada: E ſe inda te parece falſidade, Cuyda bem na razão que eſta prouada, Que com claro juyzo pode verſe, Que facil he a verdade dentenderſe.
A tento eſtaua o Rey na ſegurança, Com que prouaua o Gama o que dezia, Concebe delle certa confiança, Credito firme, em quanto proferia, Pondera, das palauras ha abastança, Iulga na autoridade grão valia, Começa de julgar por enganados Os Catuais currutos, mal julgados.
Iuntamente a cobiça do proueyto, Que eſpera do contrato Luſitano, O faz obedecer, & ter reſpeyto, Co Capitão, & não co Mauro engano: Enfim ao Gama manda, que direyto Aas naos ſe vâ, & ſeguro dalgum dano Poſſa a terra mandar qualquer fazenda, Que pela eſpeciaria troque, & venda.
Que manda da fazenda enfim lhe manda, Que nos Reynos Gangeticos faleça, Salgũa traz idonea la da banda Donde a terra ſe acaba, & o mar começa. Iâ da Real preſença veneranda Se parte o Capitão, pera onde peça Ao Catual, que delle tinha cargo Embarcação, que a ſua eſta de largo.
Embarcação que o leue aas naos lbe pede: Mas o mao Regedor, que nouos laços Lhe machinaua, nada lhe concede, Interponda tardanças & embaraços: Coelle parte ao caes, porque o arrede Longe quanto poder dos regios paços, Onde, ſem que ſeu Rei tenha noticia, Faça o que lhe inſinar ſua malicia.
La bem longe lhe diz, que lhe daria Embarcaçam bastante, em que partiſſe, Ou que pera a luz craſtina do dia Futuro, ſua partida diffiriſſe: Ia com tantas tardanças entendia O Gama, que o Gentio conſentiſſe Na ma tençam dos Mouros, torpe & fera, O que delle ate li nam entendêra:
Era este Catual, hum dos que estauão Corrutos pela Maumetana gente, O principal por quem ſe gouernauão As cidades do Samorim potente: Delle ſomente os Mouros eſperauão Efeyto a ſeus enganos torpemente, Elle, que no concerto vil conſpira De ſuas eſperanças nam delira.
O Gama com inſtancia lhe requere Que o mande por nas naos, & não lhe val, E que aſsi lho mandàra, lhe refere, O nobre ſucceſſor de Perimal: Porque razão lhe empede & lhe difere A fazenda trazer de Portugal, Pois aquillo que os Reis ja tem mandado Nam pode ſer por outrem derrogado?
Pouco obedece o Catual corruto A tais palauras, antes reuoluendo Na fantaſia algum ſutil, & aſtuto Engano diabolico, & eſtupendo, Ou como banhar poſſa o ferro bruto No ſangue auorrecido, eſtaua vendo, Ou como as naos em fogo lhe abraſaſſe, Porque nenhũa aa patria mais tornaſſe.
Que nenhum torne aa patria ſo pretende O conſelho infernal dos Maumetanos, Porque nam ſaiba nunca onde ſe eſtende Aterra Eoa o Rei dos Luſitanos: Não parte o Gama em fim, que lho defende O Regedor dos barbaros profanos, Nem ſem licença ſua yrſe podia, Que as almâdias todas lhe tolhia.
Aos brados & razões do Capitão, Responde o Idolatra, que mandaſſe Chegar aa terra as naos, que longe eſtão, Porque milhor dali foſſe, & tornaſſe: Sinal he de inimigo, & de ladrão, Que la tam longe a frota ſe alargaſſe, Lhe diz, porque do certo & fido amigo He nam temer do ſeu nenhum perigo.
Nestas palauras o diſcreto Gama Enxerga bem, que as naos deſeja perto O Catual, porque com ferro, & flama Lhas aſſalte, por odio deſcuberto: Em varios penſamentos ſe derrama: Fantaſiando eſtâ remedio certo, Que deſſe a quanto mal ſe lhe ordenaua Tudo temia, tudo em fim cuidaua.
Qual o reflexo lume do polido Eſpelho de aço, ou de cristal fermoſo, Que do rayo ſolar ſendo ferido, Vai ferir noutra parte luminoſo, E ſendo da oucioſa mão mouido Pela caſa do moço curioſo, Anda pelas paredes, & telhado, Tremulo, aqui & ali, & deſſoſſegado.
Tal o vago juyzo fluctuaua Do Gama preſo, quando lhe lembrara Coelho, ſe por caſo o eſparaua Na praia cos bateis, como ordenara: Logo ſecretamente lhe mandaua, Que ſe tornaſſe aa frota, que deixâra, Nam foſſe ſalteado dos enganos, Que eſperaua, dos feros Maumetanos.
Tal ha de ſer, quem quer co dom de Marte Imitar os illuſtres, & igoalalos. Voar co penſamento a toda parte, Adiuinhar pirigos, & euitallos: Com militar engenho, & ſutil arte Entender os imigos, & enganalos, Crer tudo em fim, que nunca louuarey O Capitão que diga, não cuidey.
Inſiste o Malabar em telo preſo, Senão manda chegar a terra a armada, Elle conſtante, & de yra nobre aceſo, Os ameaços ſeus nam teme nada: Que antes quer ſobre ſi tomar o peſo, De quanto mal a vil malicia ouſada Lhe andar armando, que por em ventura A frota de ſeu Rei, que tem ſegura.
Aquella noite eſteue ali detido, E parte do outro dia, quando ordena De ſe tornar ao Rei. mas impedido Foi da guarda que tinha não pequena: Comete lhe o Gentio outro partido, Temendo de ſeu Rei castigo, ou pena, Se ſabe esta malicia, a qual aſinha Saberâ, ſe mais tempo ali o detinha.
Diz lhe que mande vir toda á fazenda Vendibil, que trazia, pera a terra, Pera que de vagar ſe troque, & venda, Que quem nam quer comercio, buſca guerra: Posto que os maos prepoſitos entenda O Gama, que o danado peito encerra, Conſente, porque ſabe por verdade, Que compra co a fazenda a liberdade.
Concertã ſe que o negro mande dar, Embarcações idoneas com que venha, Que os ſeus bateis não quer auenturar, Onde lhos tome o imigo, ou lhos detenha: Partem as almàdias a buſcar Mercadoria Hispana, que conuenha, Eſcreue a ſeu yrmão, que lhe mandaſſe A fazenda, com que ſe reſgataſſe.
Vem a fazenda a terra, aonde logo A agaſalhou o iffame Catual: Coella ficam Aluaro & Diogo, Que a podeſſem vender pelo que val, Se mais que obrigação, que mando & rogo No peito vil o premio pode, & val, Bem o moſtra o Gentio a quem o entenda, Pois o Gama ſoltou pela fazenda.
Por ella o ſolta, crendo que ali tinha Penhor baſtante, donde recebeſſe Intereſſe maior do que lhe vinha, Se o Capitão mais tempo detiueſſe: Elle vendo que ja lhe nam conuinha Tornar a terra, porque nam podeſſe Ser mais retido, ſendo aas naos chegado Nellas eſtar ſe deixa deſcanſado.
Nas naos estar ſe deyxa vagaroſo, Atê ver o que o tempo lhe deſcobre, Que não ſe fia ja do cobiçoſo Regedor corrompido, & poauco nobre. Veja agora o juyzo curioſo Quanto no rico, aſsi como no pobre Pode o vil intereſſe & ſede imiga Do dinheyro, que a tudo nos obriga.
A Polidoro mata o Rey Treicio, Sò por ficar ſenhor do grão teſouro: Entra, pelo fortiſsimo edificio, Com a filha de Acriſo a chuua douro: Pode tanto em Tarpeia auaro vicio, Que a troco do metal luzente, & louro, Entrega aos inimigos a alta torre, Do qual quaſi afogada empago morre.
Eſte rende munidas fortalezas, Faz tredoros, & falſos os amigos, Eſte a mais nobres faz fazer vilezas, E entrega Capitães aos inimigos: Este corrompe virginais purezas, Sem temer de honra, ou fama algũs perigos, Eſte depraua as vezes âs ciencias, Os juyzos cegando, & as conſciencias.
Eſte interpreta mais que ſutilmente Os textos. eſte faz & desfaz leis: Eſte cauſa os perjurios entre a gente: E mil vezes tirânos torna os Reis. A te os que ſo a Deos omnipotente Se dedicão, mil vezes ouuireis, Que corrompe eſte encantador, & illude: Mas não ſem cor com tudo de virtude.
F I M.
❧ Canto Nono.
Tiuerão longamen- te na cidade Sem vender ſe a fazenda os do- us feitores, Que os infieis por manha, & falſidade Fazem, que nam lha comprem mercadores, Que todo ſeu propoſito, & vontade Era, deter ali os deſcubridores Da India, tanto tempo que vieſſem De Meca as naos, que as ſuas desfizeſſem.
La no ſeio Eritreo, onde fundada Arſinoe foi do Fgipcio Ptholomeo, Do nome da irmã ſua aſsi chamada, Que deſpois em Suez ſe conuerteo, Não longe, o porto jaz da nomeada Cidade Meca, que ſe engrandeceo Com a ſuperstiçam falſa, & profana, Da relegioſa agoa Maumetana.
Gidâ ſe chama o porto, aonde o trato De todo o roxo mar mais florecia, De que tinha proueito grande, & grato O Soldão que eſſe Reino poſſuia: Daqui aos Malabares, por contrato Dos infieis, fermoſa companhia De grandes naos, pelo Indico Oceano, Eſpeciaria vem buſcar cada anno.
Por eſtas naos os Mouros eſperauão, Que como foſſem grandes & poſſantes Aquellas, que o comerçio lhe tomauão, Com flamas abraſaſſem crepitantes: Neſte ſocorro tanto confiauão, Que ja nam querem mais dos nauegantes, Se nam que tanto tempo ali tardaſſem, Que da famoſa Meca as naos chegaſſem.
Mas o Gouernador dos ceos, & gentes, Que pera quanto tem determinado, De longe os meios dâ conuenientes, Por onde vem a effeito o fim fadado, Influio piadoſos accidentes De affeiçam em Monçaide, que guardado Estaua pera dar ao Gama auiſo, E merecer por iſſo o Paraiſo.
Eſte de quem ſe os Mouros não guardauão, Por ſer Mouro como elles, antes era Participante em quanto machinauão, A tençam lhe deſcobre torpe, & fera: Muitas vezes as naos que longe eſtauão Viſita, & com piedade conſidera O dano, ſem razão, que ſe lhe ordena, Pela maligna gente Sarracena.
Informa o cauto Gama das armadas, Que de Arabica Meca vem cadano, Que agora ſam dos ſeus tam deſejadas, Pera ſer inſtrumento deſte dano: Diz lhe que vem de gente carregadas, E dos trouões horrendos de Vulcano, E que pode ſer dellas opremido, Segundo eſtaua mal apercebido.
O Gama que tambem conſideraua O tempo, que pera a partida o chama, E que deſpacho ja não eſparaua Milhor do Rei, que os Maumetanos ama: Aos feitores, que em terra eſtão, mandaua Que ſe tornem aas naos: & porque a fama Deſta ſubita vinda os não impida, Lhe manda que a fizeſſem eſcondida.
Porem não tardou muito, que voando Hum rumor nam ſoaſſe com verdade, Que forão preſos os feitores, quando Foram ſentidos virſe da cidade: Eſta fama as orelhas penetrando Do ſabio capitão, com breuidade Faz repreſaria nũs, que aas naos vierão, A vender pedraria que trouxerão.
Eram eſtes antigos mercadores Ricos em Calecu, & conhecidos Da falta delles, logo entre os milhores Sentido foi, que eſtão no mar retidos: Mas ja nas naos os bõs trabalhadores, Voluem o cabrestante, & repartidos Pelo trabalho, hũs puxão pela amarra, Outros quebrão co peito duro a barra.
Outros pendem da verga, & ja deſatão A vella, que com grita ſe ſoltaua, Quando com maior grita ao Rei relatão A preſſa, com que a armada ſe leuaua: As molheres & filhos, que ſe matão Daquelles que vão preſos, onde eſtaua O Samorim, ſe aqueixão que perdidos Hũs tem os pais, as outras os maridos.
Manda logo os feitores Luſitanos Com toda ſua fazenda liuremente, A peſar dos imigos Maumetanos, Porque lhe torne a ſua preſa gente: Deſculpas manda o Rei de ſeus enganos, Recebe o Capitão de melhormente Os preſos, que as deſculpas, & tornando Algũs negros, ſe parte as vellas dando.
Parteſe coſta abaxo, porque entende Que em vão co Rei gentio trabalhaua, Em querer delle paz, a qual pretende Por firmar o comercio que trataua: Mas como aquella terra que ſe estende Pela Aurora, ſabida ja deixaua, Com eſtas nouas torna aa patria cara, Certos ſinais leuando do que achara.
Leua algũs Malabares, que tomou Per força, dos que o Samorim mandâra, Quando os preſos feitores lhe tornou: Leua pimenta ardente que compràra: A ſeca flor de Banda não ficou, A Noz, & o negro crauo, que faz clara A noua ilha Maluco, coa canella, Com que Ceilão he rica illustre & bella.
Isto tudo lhe ouuera a deligencia De Monçaide fiel, que tambem leua, Que inſpirado de Angelica influencia, Quer no liuro de Chriſto que ſe eſcreua, O ditoſo .Affricano, que a clemencia Diuina aſsi tirou deſcura treua, E tam longe da patria achou maneira, Pera ſubir aa patria verdadeira.
Apartadas aſsi da ardente costa, As venturoſas naos, leuando a proa Pera onde a natureza tinha poſta A Meta Austrina da eſparança boa, Leuando alegres nouas & repoſta, Da parte Oriental pera Lisboa, Outra vez cometendo os duros medos Do mar incerto, temidos & ledos.
O prazer de chegar aa patria cara, A ſeus penates caros & parentes, Pera contar a peregrina, & rara Nauegaçam, os varios çeos, & gentes, Vir a lograr o premio, que ganhàra Por tão longos trabalhos, & accidentes, Cada hum, tem por goſto tam perfeito, Que o coração para elle he vaſo eſtreito.
Porem a Deoſa Cipria, que ordenada Era pera fauor dos Luſitanos Do Padre eterno, & por bom genio dada Que ſempre os guia ja de longos annos. A gloria por trabalhos alcançada, Satisfação de bem ſofridos danos, Lhe andaua ja ordenando, & pretendia Darlhe nos mares tristes alegria.
Deſpois de ter hum pouco reuoluido Na mente, o largo mar que nauegârão, Os trabalhos, que pelo Deos naſcido, Nas Amphioneas Thebas, ſe cauſarão, Ia trazia de longe no ſentido, Pera premio de quanto mal paſſarão, Buſcarlhe algum deleite, algum deſcanſo No Reino de criſtal liquida, & manſo.
Algum repouſo em fim, com que podeſſe Refucilar a laſſa humanidade Dos nauegantes ſeus, como intereſſe Do trabalho, que incurta a breue idade: Parecelhe razão que conta deſſe A ſeu filho, por cuja poteſtade Os Deoſes faz decer ao vil terreno, E os humanos ſubir ao ceo ſereno.
Iſto bem reuoluido, determina De terlhe aparelhada la no meio Das agoas, algũa inſula diuina, Ornada deſmaltado & verde arreio: Que muitas tem no reino, que confina Da primeira co terreno ſeio, Afora as que paſſue ſoberanas, Pera dentro das portas Herculanas.
Ali quer que as aquaticas donzellas, Eſperem os fortiſsimos barões, Todas as que tem titolo de bellas, Gloria dos olhos, dor dos corações, Com danças, & coreas, porque nellas Influirâ ſecretas affeições, Pera com mais vontade trabalharem De contentar a quem ſe affeiçoarem.
Tal manha buſcou ja, pera que aquelle Que de Achiſes pario, bem recebido Foſſe no campo que a bouina pelle Tomou de eſpaço, por ſutil partido: Seu filho vai buſcar, porque ſo nelle Tem todo ſeu poder, fero Cupido, Que aſsi como naquella empreſa antiga A ajudou ja, neſtoutra a ajude & ſiga.
No carro ajunta as aues, que na vida Vão da morte as exequias celebrando, E aquellas em que ja foi conuertida Peristera, as boninas apanhando: Em derredor da Deoſa ja partida, No ar laſciuos beijos ſe vão dando, Ella por onde paſſa o ar, & o vento Sereno faz, com brando mouimento.
Ia ſobre os Idalios montes pende, Onde o filho frecheiro eſtaua então, Ajuntando outros muitos, que pretende Fazer hũa famoſa expedição Contra o mundo reuelde, porque emende Erros grandes, que ha dias nelle eſtão, Amando couſas que nos ſorão dadas, Nam pera ſer amadas, mas vſadas.
Via Acteon na caça, tam auſtero, De cego na alegria bruta, inſana, Que por ſeguir hum feo animal fero, Foge da gente, & bella forma humana: E por caſtigo quer doçe, & ſeuero, Maſtra lhe a fermoſura de Diana, E guarde ſe nam ſeja inda comido Deſſes cães que agora ama, & conſumido.
E vè do mundo todo os principais, Que nenhum no bem pubrico imagina, Vê nelles, que não tem amor a mais Que a ſi ſomente, & a quem Philaucia inſina Vê que eſſes que frequentão os reais Paços, por verdadeira & ſaã doctrina Vendem adulação, que mal conſente Mandarſe o nouo trigo florecente.
Vê que aquelles que deuem aa pobreza Amor diuino, & ao pouo charidade, Amão ſomente mandos, & riqueza, Simulãdo juſtiça, & integridade: Da fea tyrania & de aſpereza Fazem direito, & vaã ſeueridade: Leis em fauor do Rei ſe estabelecem, As em fauor do pouo ſo perecem.
Vê em fim que ninguem ama o que deue, Se não o que ſomente mal deſeja, Não quer que tanto tempo ſe releue, O castigo que duro, & justo ſeja: Seus miniſtros ajunta, porque leue Exercitos conformes aa peleja, Que eſpera ter coa mal regida gente, Que lhe não for agora obediente.
Muitos deſtes mininos voadores, Eſtão em varias obras trabalhando, Hũs amolando ferros paſſadores, Outros aſteas de ſetas delgaçando, Trabalhando cantando estão de amores, Varios caſos em verſo modulando, Melodia ſonora, & concertada, Suaue a letra, angelica a ſoada.
Nas fragras immortais, onde forjauão, Pera as ſetas as pontas penetrantes, Por lenha, corações ardendo eſtauão, Viuas entranhas inda palpitantes: As agoas onde os ferros temperauão, Lagrimas ſam de miſeros amantes, A viua flama, o nunca morto lume, Deſejo he ſo que queima, & não conſume.
Algũs exercitando a mão andauão, Nos duros corações da plebe ruda, Crebros ſoſpiros pelo ar ſoauão, Dos que feridos vão, da ſeta aguda, Fermoſas Nimphas ſam, as que curauão As chagas recebidas, cuja ajuda Não ſomente dâ vida aos mal feridos: Mas poem em vida os inda não naſcidos.
Fermoſas ſam algũas, & outras feas, Segundo a qualidade for das chagas, Que o veneno eſpalhado pelas veas, Curão no aas vezes aſperas triagas Algũs ficão ligados em cadeas, Por palauras ſutis de ſabias Magas, Iſto acontece aas vezes quando as ſetas Acertão de leuar eruas ſecretas.
Deſtes tiros aſsi deſordenados, Que estes moços mal deſtros vão tirando, Naſcem amores mil desconcertados, Entre o pouo ferido miſerando, E tambem nos heroes de altos eſtados, Exemplos mil ſe vem de amor nefando, Qual o das moças, Bibli, & Cynirea Hum mancebo de Aſsiria, hum de Iudea.
E vos ô poderoſo por paſtoras Muytas vezes ferido o peyto vedes, E por bayxos, & rudos vos ſenhoras Tambem vos tomão nas Vulcanias redes, Hũs eſperando andais nocturnas horas, Outros ſubis telhados & paredes, Mas eu creyo que deſte amor indino, He mais culpa a da mãy, que a da minino.
Mas ja no verde prado o carro leue, Punhão os brancos Ciſnes manſamente, E Dione, que as roſas entre a neue No rosto traz, decia diligente: O frecheiro, que contra o çeo ſe atreue, A recebella vem, ledo, & contente, Vem todos os cupidos ſeruidores, Beijar a mão aa Deoſa dos amores.
Ella porque não gaſte o tempo em vão, Nos braços tendo o filho, confiada Lhe diz, amado filho, em cuja mão Toda minha potencia eſtà fundada: Filho em quem minhas forças ſempre eſtão, Tu que as armas Tifeas tẽs em nada, A ſocorrer me a tua poteſtade, Me traz eſpecial neceſsidade.
Bem ves as Luſitanicas fadigas, Que eu ja de muito longe fauoreço, Porque das Parcas ſey minhas amigas, Que me ande venerar & ter em preço, E porque tanto imitão as antigas Obras de meus Romanos, me offereço A lhe dar tanta ajuda em quanto poſſo, A quanto ſe estender o poder noſſo.
E porque das inſidias do odioſo Baco foram na India moleſtados, E das injurias ſos do mar vndoſo, Poderão mais ſer mortos, que canſados: No mesmo mar, que ſempre temeroſo Lhe foi, quero que ſejão repouſados, Tomando aquelle premio, & doçe gloria Do trabalho que faz clara a memoria.
E pera iſſo queria que feridas As filhas de Nereo, no ponto fundo, Da mor dos Luſitanos encendidas, Que vem de deſcobrir o nouo mundo, Todas nũa ilha juntas & ſubidas, Ilha que nas entranhas do profundo Oceano, terei aparelhada, De dões de Flora, & Zefiro adornada.
Ali com mil refreſcos & manjares, Com vinhos odoriferos, & roſas, Em criſtalinos paços ſingulares, Fermoſos leitos, & ellas mais fermoſas: Em fim com mil deleites não vulgares, Os eſperem as Nimphas amoroſas, Damor feridas, pera lhe entregarem Quanto dellas os olhos cobiçarem.
Quero que aja no reino Neptunino Onde eu naſci, progenie forte & bella, E tome exemplo o mundo vil, malino, Que contra tua potencia ſe reuela, Porque entendão que muro Adamantino, Nem triste hypocreſia val contra ella: Mal auerâ na terra quem ſe guarde, Se teu fogo imortal nas agoas arde.
Aſsi Venus propos, & o filho inico Pera lhe obedecer ja ſe apercebe, Manda trazer o arco eburneo rico, Onde as ſetas de ponta de ouro embebe: Com geſto ledo a Cipria, & impudico, Dentro no carro o filho ſeu recebe, Ha redea larga aas aues, cujo canto Ha Phaetontea morte chorou tanto.
Mas diz Cupido, que era neceſſaria Hũa famoſa, & celebre terceyra, Que poſto que mil vezes lhe he contraria, Outras muytas ha tem por companheyra: A Deoſa Gigantea temeraria, Iactante, mintiroſa, & verdadeyra, Que com cem olhos ve, & por onde voa O que vè com mil bocas apregoa.
Vão a buſcar, & mandam a diante, Que celebrando va com tuba clara, Os louuores da gente nauegante, Mais do que nunca os doutrem celebrara Ia murmurando a fama penetrante Pelas fundas cauernas ſe eſpalhàra, Fala verdade, a vida por verdade, Que junto a Deoſa traz Credulidade.
O louuor grande, o rumor excellente No coração dos Deoſes, que indinados Forão por Baco contra a illuſtre gente, Mudando os fez hum pouco afeyçoados: O peyto feminil, que leuemente Muda quaeſquer propafitos tomados, Ia julga por mao zelo, & por crueza Deſejar mal a tanta fortaleza.
Deſpede niſto o fero moço as ſetas Hũa apos outra, geme o mar cos tiros, Dereitas pelas ondas inquietas, Algũas vão, & algũas fazem giros: Caem as Nimphas, lançam das ſecretas Entranhas ardentiſsimos ſoſpiros, Cae qualquer, ſem ver o vulto que ama, Que tanto como a vista pode a fama.
Os cornos ajuntou da eburnea Lũa, Com força o moço indomito exceſsiua, Que Thetis quer ferir mais que nenhũa, Porque mais que nenhũa lhe era eſquiua: Ia não fica na aljaua ſeta algũa, Nem nos equoreos campos Nimpha viua, E ſe feridas inda eſtão viuendo, Sera pera ſentir que vão morrendo.
Day lugar altas & ceruleas ondas, Que vedes Venus traz a medicina, Moſtrando as brancas vellas, & redondas, Que vem por cima da agoa Neptunina: Pera que tu reciproco reſpondas Ardente Amor aa flama feminina, He forçado que a pudicicia honesta Faça quanto lhe Venus amoeſta.
Ia todo o bello coro ſe aparelha Das Nereidas, & junto caminhaua Em coreas gentis, vſança velha, Pera a ilha, a que Venus as guiaua: Ali a fermoſa Deoſa lhe aconſelha O que ella fez mil vezes, quando amaua, Ellas que vão do doçe amor vencidas, Eſtão a ſeu conſelho offerecidas.
Cortando vão as naos a larga via Do mar ingente, pera a patria amada, Deſejando prouerſe de agoa fria, Pera a grande viajem prolongada: Quando juntas com ſubita alegria, Ouuerão vista da ilha namorada, Rompendo pelo çeo a mãi fermoſa De Menonio, ſuaue & deleitoſa.
De longe a Ilha virão freſca, & bella, Que Venus pelas ondas lha leuaua (Bem como o vento leua branca vella) Pera onde a forte armada ſe enxergaua, Que porque não paſſaſſem, ſem que nella Tomaſſem porto, como deſejaua, Pera onde as naos nauegão a mouia A Accidalia, que tudo em fim podia.
Mas firme a fez & imobil, como vio Que era dos Nautas viſta, & demandada, Qual ficou Delos, tanto que pario Latona Phebo, & a Deoſa aa caça vſada Pera la logo a proa o mar abrio, Onde a coſta fazia hũa enſeada Curua, & quieta, cuja branca area Pintou de ruiuas conchas Cyterea.
Tres fermoſos outeiros ſe moſtrauão, Erguidos com ſoberba gracioſa, Que de gramineo eſmalte ſe adornauão, Na fermoſa ilha alegre, & deleitoſa: Claras fontes & limpidas manauão Do cume, que a verdura tem viçoſa, Por entre pedras aluas ſe diriua, A ſonoroſa Limpha fugitiua.
Num valle ameno, que os outeiros fende, Vinhão as claras agoas ajuntarſe, Onde hũa meſa fazem, que ſe estende Tam bella, quanto pode imaginarſe: Aruoredo gentil ſobre ella pende, Como que prompto estâ pera afeitarſe, Vendoſe no cristal reſplandecente, Que em ſi o eſtâ pintando propriamente:
Mil aruores eſtão ao çeo ſubindo, Com pomos odoriferos & bellos, A Laranjeira tem no fruito lindo A cor, que tinha Daphne nos cabellos. Encoſtaſe no chão, que eſtà caindo A Cidreira cos peſos amarellos, Os fermoſos limoẽs ali cheirando Eſtam virgineas tetas imitando.
As aruores agreſtes, que os outeiros Tem com frondente coma emnobrecidos Alemos ſam de Alcides, & os Loureiros Do louro Deos amados, & queridos: Mirtos de Cyterea, cos Pinheiros De Cybele por outro amor vencidos, Estâ apontando o agudo Cipariſo Pera onde he poſto o Etereo paraiſo.
Os dões que dâ Pomona, ali natura Produze diferentes nos ſabores, Sem ter neceſsidade de cultura, Que ſem ella ſe dão muito milhores. As Cereijas porpureas na pintura, As Amoras, que o nome tem de amores, O pomo, que da patria Perſia veio, Milhor tornado no terreno alheio.
Abre a Romã, mostrando a rubicunda Cor, com que tu Rubi teu preço perdes: Entre os braços do Vlmeiro eſtâ a jocunda Vide, cũs cachos roxos, & outros verdes: E vos ſe na voſſa aruore fecunda Peras pyramidais viuer quiſerdes, Entregaiuos ao dano, que cos bicos, Em vos fazem os paſſaros inicos.
Pois a tapeçaria bella & fina, Com que ſe cobre a ruſtico terreno, Faz ſer a de Achemenia menos dina: Mas o ſombrio valle mais ameno: Ali a cabeça o flor Cyfiſia inclina, Sobollo tanque lucido & ſereno, Floreçe o filho & neto de Cyniras, Por quem tu Deoſa Paphia inda ſuspiras.
Pera julgar dificil couſa fora, No çeo vendo, & na terra as meſmas cores, Se daua aas flores cor a bella Aurora, Ou ſe lha dam a ella as bellas flores: Pintando eſtaua ali Zefiro, & Flora As violas da cor dos amadores, O Lirio roxo, a freſca Roſa bella, Qual reluze nas faces da donzella.
A candida Cecêm das Matutinas Lagrimas ruciada, & a Manjarona, Venſe as letras nas flores Hyacintinas, Vem queridas do filho de Latona: Bem ſe enxerga nos pomos & boninas, Que competia Cloris com Pomona: Pois ſe as aues no ar cantando voão, Alegres animais o chão pouoão.
A longo da agoa o niueo Ciſne canta, Responde lhe do ramo Philomela, Da ſombra de ſeus cornos nam ſe eſpanta Acteon nagoa criſtalina & bella: Aqui a fugace Lebre ſe leuanta Da eſpeſſa mata, ou temida Gazella, Ali no bico traz ao caro ninho, O mantimento ô leue paſſarinho.
Neſta freſcura tal deſembarcauão Ia das naos os ſegundos Argonautas, Onde pela floresta ſe deixauão Andar as bellas Deoſas como incautas, Algũas doçes Cytaras tocauão, Algũas arpas, & ſonoras frautas, Outras cos arcos de ouro ſe fingião Seguir os animais, que nam ſeguião.
Aſsi lho aconſelhàra a meſtra experta, Que andaſſem pelos campos eſpalhadas, Que vista dos barões a preſa incerta, Se fizeſſem primeyro deſejadas Algũas, que na forma deſcuberta Do bello corpo eſtauão confiadas, Poſta a artificioſa fermoſura, nuas lauarſe deyxão na agoa pura.
Mas os fortes mancebos, que na praya Punhão os pes de terra cubiçoſos, Que não ha nenhum delles, que não ſaya De acharem caça agreſte deſejoſos: Não cuydão que ſem laço, ou redes caya Caça naquelles montes deleytoſos Tão ſuaue, domeſtica, & benina, Qual ferida lha tinha ja Ericina.
Algũs que em eſpingardas, & nas beſtas Pera ferir os Ceruos ſe fiauão, Pelos ſombrios matos, & floreſtas Determinadamente ſe lançauão: Outros nas ſombras, que de as altas ſeſtas Defendem a verdura, paſſeauão Ao longo da agoa, que ſuaue, & queda Por aluas pedras corre aa praya leda.
Começão de enxergar ſubitamente Por entre verdes ramos varias cores, Cores de quem a viſta julga, & ſente, Que não erão das roſas, ou das flores, Mas da lam fina, & ſeda diferente Que mais incîta a força dos amores, De que ſe vestem as humanas roſas, Fazendoſe por arte mais fermoſas.
Da Veloſo eſpantado hum grande grito, Senhores caça eſtranha diſſe he eſta, Se inda durão o Gentio antigo rito, A Deoſas he ſagrada esta floresta: Mais deſcobrimos do que humano eſprito Deſejou nunca, & bem ſe manifeſta Que ſam grandes as couſas, & excellentes Que o mundo encobre aos homẽs imprudẽtes.
Sigamos eſtas Deoſas, & vejamos, Se fantasticas ſam, ſe verdadeiras, Isto dito velloces mais que Gamos, Selançam a correr pelas ribeiras: Fugindo as Nimphas vão por entre os ramos, Mas mais induſtrioſas que ligeiras, Pouco & pouco ſurrindo, & gritos dando, Se deixão yr dos Galgos alcançando.
De hũa os cabellos de ouro o vento leua Correndo, & da outra as fraldas delicadas, Acendeſe o deſejo que ſe ceua Nas aluas carnes ſubito moſtradas, Hũa de industria cae, & ja releua Com moſtras mais maſias, que indinadas, Que ſobre ella empecendo tambem caia Quem a ſeguio pela arenoſa praia.
Outros por outra parte vão topar, Com as Deoſas deſpidas, que ſe lauão, Ellas começam ſubito a gritar, Como que aſſalto tal nam eſperauão, Hũas fingindo menos eſtimar A vergonha, que a força, ſe lançauão Nuas por entre o mato, aos olhos dando O que aas mãos cobiçoſas vão negando.
Outra como acudindo mais de preſſa, Aa vergonha da Deoſa caçadora, Eſconde o corpo nagoa, outra ſe apreſſa Por tomar os veſtidos, que tem fora: Tal dos mancebos ha, que ſe arremeſſa Veſtido aſsi & calçado (que co a mora Deſſe deſpir, ha medo que inda tarde) A matar na agoa o fogo que nelle arde.
Qual tão de caçador ſagaz, & ardido, Vſado a tomar na agoa a aue ferida, Vendo roſto o ferreo cano erguido, Pera a Garcenha, ou Pata conhecida, Antes que ſoe o eſtouro, mal ſofrido Salta nagoa, & da preſa nam duuîda, Nadando vay & latindo, aſsi o mancebo Remete ha que nam era yrmaã de Phebo.
Lionardo ſoldado bem deſpoſto, Manhoſo, caualleiro, & namorado, A quem amor não dera hum ſo deſgoſto, Mas ſempre fora delle mal tratado: E tinha ja por firme proſuposto Ser com amores mal afortunado, Porem não que perdeſſe a eſperança, De inda poder ſeu fado ter mudança.
Quis aqui ſua ventura, que corria Apos Efire, exemplo de belleza, Que mais caro que as outras dar queria, O que deu para darſe a natureza, Ia canſado correndo lhe dizia. O fermoſura indigna de aſpereza, Pois desta vida te concedo a palma, Eſpera hum corpo de quem leuas a alma.
Todas de correr canſam, Nimpha pura, Rendendo ſe aa vontade do inimigo, Tu ſo de my ſo foges na eſpeſſura? Quem te diſſe que eu era o que te ſigo? Se to tem dito ja aquella ventura, Que em toda a parte ſempre anda comigo, O nam na creas, porque eu quando a cria, Mil vezes cada hora me mentia.
Nam canſes, que me canſas: & ſe queres Fujirme, porque nam poſſa tocarte, Minha ventura he tal, que inda que eſperes Ella farâ que nam poſſa alcançarte: Eſpera, quero ver, ſe tu quiſeres, Que ſutil modo buſca de eſcaparte, E notarâs no fim deſte ſucceſſo, Tra la ſpica & la man, qual muro he meſſo.
O não me fujas, aſsi nunca o breue Tempo fuja de tua fermoſura, Que ſo com refrear o paſſo leue, Vencerâs da fortuna a força dura: Que Emperador, que exercito ſe atreue. A quebrantar a furia da ventura, Que em quanto deſejey me vai ſeguindo, O que tu ſo faras nam me fugindo?
Põeste da parte da desdita minha? Fraqueza he dar ajuda ao mais potente: Leuas me hum coração, que liure tinha? Solta mo, & corroras mais leuemente. Não te carrega eſſa alma tam mezquinha, Que neſſes fios de ouro reluzente Atada leuas? ou deſpois de preſa Lhe mudaſte a ventura, & menos peſa?
Neſta eſperança ſo te vou ſeguindo, Que ou tu nam ſofrerâs o peſo della, Ou na virtude de teu gesto lindo, Lhe mudarâs a triste & dura eſtrella. E ſe ſe lhe mudar, nam vas fugindo, Que Amor te ferirà, gentil donzella, E tu me eſperarâs, ſe Amor te fere, E ſe me eſperas, não ha mais que eſpere.
Ia nam fugia a bella Nimpha, tanto Por ſe dar cara ao triste que a ſeguia, Como por yr ouuindo o doçe canto, As namoradas magoas que dizia: Voluendo o roſto ja ſereno & ſancto, Toda banhada em riſo, & alegria, Cair ſe deixa aos pês do vencedor, Que todo ſe desfaz em puro amor.
O que famintos beijos na floreſta, E que mimoſo choro que ſoaua, Que afagos tam ſuaues, que yra honeſta Que em riſinhos alegres ſe tornaua: O que mais paſſam na menhã, & na ſesta Que Venus com prazeres inflamaua, Milhor he eſprimentalo que julgalo, Mas julgue o quem nam pode eſprimentalo.
Deſta arte em fim conformes ja as fermoſas Nimphas, cos ſeus amados nauegantes, Os ornão de capellas deleitoſas, De louro, & de ouro, & flores abundantes: As mãos aluas lhe dauão como eſpoſas Com palauras formais, & eſtipulantes, Se prometem eterna companhia Em vida & morte, de honra & alegria.
Hũa dellas maior, a quem ſe humilha Todo o coro das Nimphas, & obedece, Que dizem ſer de Celo & Vesta filha, O que no geſto bello ſe parece, Enchendo a terra, & o mar de marauilha, O Capitão illustre que o mereçe, Recebe ali com pompa honeſta, & rêgia, Moſtrando ſe ſenhora grande, & egregia.
Que deſpois de lhe ter dito quem era, Cum alto exordio de alta graça ornado, Dando lhe a entender, que ali viera Por alta influiçam do imobil fado, Pera lhe deſcobrir da vnida eſphera, Da terra immenſa, & mar não nauegado Os ſegredos, por alta prophecia, O que eſta ſua naçam ſo merecia:
Tomando o pela mão a leua, & guia Pera o cume dum monte alto, & diuino, No qual hũa rica fabrica ſe erguia De criſtal toda, & de ouro puro, & fino: A maior parte aqui paſſam do dia Em doçes jogos, & em prazer contino, Ella nos paços logra ſeus amores, As outras pelas ſombras entre as flores.
Aſsi a fermofa, & a forte companhia, O dia quaſi todo eſtão paſſando, Nãa alma, doçe, incognita alegria, O trabalhos tam longos compenſando: Porque dos feitos grandes, da ouſadia Forte & famoſa, o mundo està guardando O premio la no fim bem merecido, Com fama grande, & nome alto & ſubido.
Que as Nimphas do Occeano tam fermoſas, Thetis & a Ilha angelica pintada, Outra couſa nam he, que as deleitoſas Honras, que a vida fazem ſublimada: Aquellas preminencias glorioſas, Os triumphos, a fronte coroada De Palma, & Louro, a gloria & marauilha Estes ſam os deleites desta Ilha.
Que as immortalidades que fingia A antiguidade, que os illuſtres ama, La no estellante Olimpo a quem ſubia, Sobre as aſas inclitas da fama, Por obras valeroſas, que fazia, Pelo trabalho immenſo, que ſe chama Caminho da virtude alto & fragoſo: Mas no fim doçe, alegre, & deleitoſo.
Nam erão ſenão premios, que reparte Por feitos imortais & ſoberanos, O mundo, cos varões, que esforço & arte Diuinos os fizerão, ſendo humanos: Que Iupiter, Mercurio, Phebo, & Marte Eneas, & Quirino, & os dous Thebanos Ceres, Palas, & Iuno, com Diana Todos forão de fraca carne humana.
Mas a fama, trombeta de obras tais, Lhe deu no mundo nomes tam eſtranhos De Deoſes, Semideoſes immortais Indigetes, Eroicos, & de Magnos Por iſſo, o vos que as famas estimais, Se quiſerdes no mundo ſer tamanhos, Deſpertai ja do ſono do ocio ignauo, Que o animo de liure faz eſcrauo.
E ponde na cobiça hum freio duro, E na ambiçam tambem, que indignamente Tomais mil vezes, & no torpe & eſcuro Vicio da tirania infame, & vrgente: Porque eſſas honras vaãs, eſſe ouro puro Verdadeiro valor nam dão aa gente, Milhor he merecellos, ſem os ter Que poſſuilos ſem os mereçer.
Ou day na paz as leis iguais, constantes, Que aos grandes não dem o dos pequenos, Ou vos veſti nas armas rutilantes, Contra a ley dos imigos Sarracenos, Fareis os Reinos grandes, & poſſantes E todos tereis mais, & nenhum menos Poſſuireis riquezas merecidas, Com as honras, que illuſtrão tanto as vidas.
E fareis claro o Rei, que tanto amais, Agora cos conſelhos bem cuidados, Agora co as eſpadas, que immortais Vos farão, como os voſſos ja paſſados: Impoſsibilidades não façais, Que quem quis ſempre pode: & numerados Sereis entre os Heroes eſclarecidos, E neſta ilha de Venus recebidos.
F I M.
❧ Canto Decimo & vltimo.
Mas ja o claro ama- dor da Lariſſea Adultera, inclinaua os animais, La para o grande lago, que rodea Temiſtitão, nos fins Occidentais: O grande ardor do Sol Fauonio enfrea, Co ſopro, que nos tanques naturais Encreſpa a agoa ſerena, & deſpertaua Os Lirios, & Iazmins que a calma agraua.
Quando as fermoſas Ninfas cos amantes Pella mão ja conformes & contentes, Subião pera os paços radiantes, E de metais ornados reluzentes: Mandados da Rainha, que abundantes Meſas, daltos manjares, excelentes, Lhe tinha aparelhados, que a fraqueza Reſtaurem da canſada natureza.
Ali em cadeiras ricas criſtalinas, Se aſſentão, dous & dous, amante & dama, Noutras aa cabeceira douro finas, Eſtà coa bella Deoſa o claro Gama: De ygoarias ſuaues & diuinas A quem não chega a Egipcia antiga fama, Se acumulão os pratos de fuluo ouro, Trazidos la do Atlantico teſouro.
Os vinhos odoriferos, que acima Eſtão não ſo do Italico Falerno, Mas da Ambroſia, que Ioue tanto eſtima, Com todo o ajuntamento ſempiterno: Nos vaſos, onde em vão trabalha a lima Creſpas eſcumas erguem, que no interno Coração mouem ſubita alegria, Saltando coa miſtura dagoa fria.
Mil praticas alegres ſe tocauão, Rîſos doces, ſutis, & argutos ditos, Que entre hũ & outro mãjar ſe aleuantauão Deſpertando os alegres apatitos: Muſicos instrumentos não faltauão, Quais no profundo reyno, os nus eſpritos Fizerão deſcanſar da eterna pena, Cũa voz dhũa angelica Syrena.
Cantaua a bella Ninfa, & cos acentos Que pellos altos paços vão ſoando, Em conſonancia ygoal, os inſtromentos Suaues vem a hum tempo conformando: Hum ſubito ſilencio enfrea os ventos, E faz hir docemente murmurando As agoas, & nas caſas naturais Adormecer os brutos animais.
Com doce voz eſtâ ſubindo ao cco Altos varões, que estão por vir ao mundo, Cujas claras Ideas via Protheo, Num globo vão, diafano, rotundo, Que Iupiter em dom lho concedeo Em ſonhos, & deſpois no reino fundo Vaticinando o diſſe, & na memoria Recolheo logo a Ninfa a clara hiſtoria.
Materia he de Coturno, & não de Soco A que a Nimpha aprendeo no immenſo lago: Qual Yopas não ſoube, ou Demodoco, Entre os Pheaces hum, outro em Carthago. Aqui minha Caliope te inuoco Neste trabalho extremo, porque em pago, Me tornes, do q̃ eſcreuo, & em vão pretendo, O goſto de eſcreuer, que vou perdendo.
Vão os annos decendo, & ja do Eſtio Ha pouco que paſſar ate o Otono, A fortuna me faz o engenho frio, Do qual ja não me jacto, nem me abono: Os deſgoſtos me vão leuando ao rio Do negro eſquecimento, & eterno ſono, Mas tu me dâ que cumpra, ò grão Rainha Das Muſas, cô que quero aa nação minha.
Cantaua a bella Deoſa, que virião Do Tejo, pello mar que o Gama abrîra, Armadas que as ribeiras vencerião, Por onde o Oceano Indico ſoſpira: E que os Gentios Reis, que não darião A ceruiz ſua ao jugo, o ferro & yra Prouarião do braço duro & forte, Ate renderſe a elle, ou logo aa morte.
Cantaua dhum que tem nos Malabares Do ſumo ſacerdocio a dignidade, Que ſo por não quebrar cos ſingulares Baroẽs, os nos que dera damizade, Sofrerâ ſuas cidades & lugares, Com ferro, incendios, ira & crueldade Ver deſtruir do Samorim potente: Que tais odios terâ coa noua gente.
E canta como la ſe embarcaria Em Bellem o remedio deste dano, Sem ſaber o que em ſi ao mar traria O grão Pacheco, Achiles Luſitano: O peſo ſentirão, quando entraria, O curuo lenho, & o ſeruido Oceano, Quando mais nagoa os troncos, que gemerem, Contra ſua natureza ſe meterem.
Mas ja chegado aos fins Orientais, E deixado em ajuda do gentio Rey de Cochim,com poucos naturais, Nos braços do ſalgado & curuo rio, Desbaratarâ os Naires infernais No paſſo Cambalão, tornando frio Deſpanto o ardos immenſo do Oriente Que verâ tanto obrar tão pouca gente.
Chamarâ o Samorim mais gente noua: Virão Reis Bipur, & de Tânôr, Das ſerras de Narſinga, que alta proua Eſtarão prometendo a ſeu ſenhor: Faràque todo o Naire em fim ſe moua, Que entre Calicû jaz, & Cananor, Dambas as leis immigas, pera a guerra, Mouros por mar, Gentios polla terra.