❧ OS LVSIADAS DE LVIS DE CAMÕES. (continued 2)
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Aquelle que me deſte por marido, Por defender ſua terra amedrontada, Co pequeno poder, offerecido Ao duro golpe eſtà, da Maura eſpada, E ſe não for contigo ſocorrido, Verme as delle & do Reino ſer priuada, Viuua & triſte, & posta em vida eſcura, Sem marido, ſem Reino, & ſem ventura.
Por tanto, ô Rei, de quem com puro medo, O corrente Muluca ſe congella, Rompe toda a tardança, acude cedo, Aa miſeranda gente de Caſtella. Se eſſe gesto que moſtras claro & ledo, De pay o verdadeiro amor aſſella: Acude & corre pay, que ſe não corres, Pode ſer que não aches quem ſocorres.
Não de outra ſorte a timida Maria Falando eſtá, que a triſte Venus, quando A Iupiter ſeu pay fauor pedia, Pera Eneas ſeu filho, nauegando, Que a tanta piedade o comouia, Que caido das mãos o rayo infando. Tudo o clemente Padre lhe concede, Peſandolhe do pouco que lhe pede.
Mas ja cos eſquadrões da gente armada, Os Eborenſes campos vão qualhados, Luſtra co Sol o arnes, a lança, a eſpada, Vão rinchando os cauallos jaezados: A canora trombeta embandeirada Os corações aa paz acoſtumados: Vay às fulgentes armas incitando Polas concauidades retumbando.
Entre todos no meio ſe ſublima, Das inſignias Reais acompanhado, O vaſeroſo Affonſo, que por cima De todos, leua o collo aleuantado, E ſomente co geſto esforça & anima, A qualquer coração amedrontado. Aſsi entra nas terras de Castella, Com a filha gentil Rainha della.
Iuntos os dous Affonſos finalmente, Nos campos de Tarifa, eſtão defronte Da grande multidão da cega gente, Pera quem ſam pequenos campo & monte. Não ha peito tão alto & tam potente, Que de deſconfiança não ſe afronte, Em quanto não conheça, & claro veja, Que co braço dos ſeus Chriſto peleja.
Eſtão do Agar os netos caſi rindo, Do poder dos Chrisſtãos fraco & pequeno, As terras como ſuas repartindo, Ante mão, entre o exercito Agareno: Que com titulo falſo poſſuindo Eſtà o famoſo nome Sarraceno. Aſsi tambem com falſa conta & nua, Aa nobre terra alhea chamão ſua.
Qual o membrudo & barbaro Gigante, Do Rei Saul, com cauſa tam temido, Vendo o Paſtor inorme eſtar diante, So de pedras & esforço apercebido, Com palauras ſoberbas o arrogante, Despreza o fraco moço mal veſtido: Que rodeando a funda o deſengana, Quanto mais pode a Fê que a força humana.
Desta arte o Mouro perfido deſpreza, O poder dos Christãos, & não entende, Que eſtà ajudado da alta fortaleza, A quem o Inferno horrifico ſe rende. Co ella o Castelhano, & com deſtreza, De Marrocos o Rei comete & offende. O Portugues que tudo eſtima em nada, Se faz temer ao Reino de Granada.
Eis as lanças & eſpadas retenião, Por cima dos arneſes, brauo eſtrago, Chamão (ſegundo as leis que ali ſeguião,) Hũs Mafamede, & os outros Sanctiago, Os feridos com grita o Ceo ferião, Fazendo de ſeu ſangue bruto lago, Onde outros meios mortos ſe afogauão, Quando do ferro as vidas eſcapauão.
Com esforço tamanho eſtrue & mata, O Luſo ao Granadil, que em pouco eſpaço, Totalmente o poder lhe desbarata, Sem lhe valer defeſa, ou peito de aço: De alcançar tal victoria tam barata, Inda não bem contente o forte braço, Vay ajudar ao brauo Caſtelhano, Que pelejando eſtà co Mauritano.
Ia ſe hia o Sol ardente recolhendo, Pera a caſa de Thetis, & inclinado, Pera o Ponente o veſpero trazendo, Estaua o claro dia memorado, Quando o poder do Mauro grande & horẽdo Foi pelos fortes Reis desbaratado, Com tanta mortindade, que a memoria, Nunca no mundo vio tam gram victoria.
Não matou a quarta parte o forte Mario, Dos que morrerão neſte vencimento, Quando as agoas co ſangue do aduerſario, Fez beber ao exercito ſedento, Nem o Peno aſperiſsimo contrario, Do Romano poder de naſcimento: Quando tantos matou da illustre Roma, Que alqueires tres de aneis dos mortos toma.
E ſe tu tantas almas ſo podeſte, Mandor ao Reino eſcuro de Cocito, Quando a ſancta Cidade desfizeſte Do pouo pertinaz no antigo rito: Permiſſam & vingança foy celeſte, E não força de braço, o nobre Tito, Que aſsi dos Vates foy profetizado, E despois por I E S V certificado.
Paſſada eſta tão prospera victoria, Tornado Affonſo aa Luſitana terra, A ſe lograr da paz com tanta gloria, Quanta ſoube ganhar na dura guerra, O caſo triste & dino da memoria, Que do ſepulchro os homẽs deſenterra, Aconteceo da miſera, & mezquinha Que deſpois de ſer morta foy Rainha.
Tu ſo, tu puro Amor com força crua, Que os corações humanos tanto obriga, Deſte cauſa aa moleſta morte ſua, Como ſe fora perfida inimiga: Se dizem fero Amor que a ſede tua, Nem com lagrimas triſtes ſe mitiga: E porque queres aſpero & tirano Tuas aras banhar em ſangue humano.
Eſtauas linda Ines poſta em ſoſego De teus annos, colhendo doçe fructo, Naquelle engano da alma, ledo & cego, Que a fortuna não deixa durar muito, Nos ſaudoſos campos do Mondego, De teus fermoſos olhos nunca enxuto, Aos montes inſinando, & âs eruinhas O nome que no peito eſcripto tinhas.
Do teu Principe ali te reſpondião, As lembranças que na alma lhe morauão, Que ſempre ante ſeus olhos te trazião, Quando dos teus fermoſos ſe apartauão De noite em doçes ſonhos, que mentião, De dia em penſamentos que voauão. E quanto em fim cuidaua, & quanto via, Eram tudo memorias de alegria.
De outras bellas ſenhoras, & Princeſas, Os deſejados tâlamos engeita, Que tudo em fim, tu puro amor desprezas, Quando hum gesto ſuaue te ſogeita: Vendo estas namoradas eſtranhezas, O velho pay ſeſudo, que reſpeita O murmurar do pouo, & a fantaſia Do filho, que caſarſe não queria.
Tirar Ines ao mundo determina, Por lhe tirar o filho que tem preſo, Crendo co ſangue ſô da morte indina, Matar do firme amor o fogo aceſo: Que furor conſentio, que a eſpada fina, Que pode ſustentar o grande peſo Do furor Mauro, foſſe aleuantada, Contra hũa fraca dama delicada?
Trazião a os horrificos algozes, Ante o Rei, ja mouido a piedade: Mas o pouo com falſas, & ferozes Razões, aa morte crua o perſuade: Ella com tristes & piedoſas vozes, Saidas ſô da magoa, & ſaudade Do ſeu Principe, & filhos que deixaua, Que mais que a propria morte a magoaua.
Pera o Ceo criſtalino aleuantando, Com lagrimas os olhos piedoſos, Os olhos, porque as mãos lhe eſtaua atando, Hum dos duros miniſtros riguroſos. E deſpois nos mininos atentando, Que tam queridos tinha, & tam mimoſos, Cuja orfindade como mãy temia, Pera o auô cruel aſsi dizia.
Se ja nas brutas feras, cuja mente Natura fez cruel de naſcimento, E nas aues agreſtes, que ſomente Nas rapinas aerias tem o intento, Com pequenas crianças vio a gente, Terem tam piadoſo ſentimento, Como co a mãy de Nino ja moſtrârão, E cos yrmãos que Roma edificàrão.
O tu que tẽs de humano o geſto & o peito (Se de humano he, matar hũa donzella Fraca & ſem força, ſo por ter ſubjeito O coração, a quem ſoube vencella) A eſtas criançinhas tem reſpeito, Pois o não tẽs aa morte eſcura della, Mouate a piedade ſua & minha, Pois te não moue a culpa que não tinha.
E ſe vencendo a Maura reſiſtencia, A morte ſabes dar com fogo & ferro, Sabe tambem dar vida com clemencia, A quem pera perdela não fez erro: Mas ſe to aſsi merece eſta inocencia, Poem me em perpetuo & miſero deſterro, Na Scitia fria, ou la na Lybia ardente, Onde em lagrimas viua eternamente.
Poem me onde ſe vſe toda a feridade, Entre Liões, & Tigres, & verey Se nelles achar poſſo a piedade Que entre peitos humanos não achey: Ali co amor intrinſeco & vontade, Naquelle por quem mouro, criarey Eſtas reliquias ſuas que aqui viſte, Que refrigerio ſejão da mãy triste.
Queria perdoarlhe o Rei benigno, Mouido das palauras que o magoão: Mas o pertinaz pouo, & ſeu deſtino (Que deſta ſorte o quis) lhe não perdoão, Arrancão das eſpadas de aço fino, Os que por bom tal feito ali apregoão, Contra hũa dama, ô peitos carniceiros Feros vos amoſtrais, & caualleiros?
Qual contra a linda moça Policena, Conſolação extrema da mãy velha, Porque a ſombra de Achiles a condena, Co ferro o duro Pirro ſe aparelha: Mas ella os olhos com que o ar ſerena, (Bem como paciente, & manſa ouelha) Na miſera mãy postos, que endoudeçe Ao duro ſacrificio ſe offereçe.
Tais contra Inès os brutos matadores, No colo de alabaſtro, que ſoſtinha As obras com que amor matou de amores Aquelle que despois a fez Rainha: As eſpadas banhando, & as brancas ſlores, Que ella dos olhos ſeus regadas tinha, Se encarniçauão, feruidos & yroſos, No foturo castigo não cuidoſos.
Bem podêras, ô Sol, da viſta deſtes Teus rayos apartar aquelle dia, Como da ſeua meſa de Tyeſtes, Quando os filhos por mão de Atreu comia. Vos, ô concauos vales que podeſtes, A voz extrema ouuir da boca fria, O nome do ſeu Pedro que lhe ouuistes, Por muito grande eſpaço repetistes.
Aſsi como a bonina que cortada, Antes do tempo foy, candida & bella, Sendo das mãos laciuas mal tratada, Da minina que a trouxe na capella: O cheiro traz perdido, & a cor murchada: Tal eſtà morta a palida donzella, Secas do roſto as roſas, & perdida A branca & viua cor, co a doçe vida.
As filhas do Mondego, a morte eſcura Longo tempo chorando memorarão, E por memoria eterna em fonte pura As lagrimas choradas transformarão: O nome lhe poderão, que inda dura, Dos amores de Ines que ali paſſarão. Vede que freſca fonte rega as flores, Que lagrimas ſam a agoa, & o nome amores
Não correo muito tempo que a vingança Não viſſe Pedro das mortais feridas, Que em tomando do Reino a gouernança, A tomou dos fugidos humicidas: Do outro Pedro cruiſsimo os alcança, Que ambos immigos das humanas vidas, O concerto fizerão duro & injuſto, Que com Lepido, & Antonio fez Auguſto.
Este castigador foy reguroſo, De latrocinios, mortes & adulterios, Fazer nos maos cruezas, fero & yroſo, Erão os ſeus mais certos refrigerios: As cidades guardando juſtiçoſo, De todos os ſoberbos vituperios, Mais ladrões caſtigando aa morte deu, Que o vagabundo Alcides, ou Theſeu.
Do juſto & duro Pedro naſce o brando (Vede da natureza o deſconcerto) Remiſſo, & ſem cuidado algum Fernando, Que todo o Reino pos em muito aperto, Que vindo o Caſtelhano deuastando As terras ſem defeſa, eſteue perto De deſtruirſe o Reino totalmente, Que hum fraco Rei faz fraca a forte gente.
Ou foy caſtigo claro do peccado, De tirar Lianor a ſeu marido, E caſar ſe co ella de enleuado, Num falſo parecer mal entendido: Ou foy que o coração ſogeito, & dado Ao vicio vil, de quem ſe vio rendido, Molle ſe fez, & fraco, & bem parece Que hum baxo amor os fortes enfraquece.
Do peccado tiuerão ſempre a pena Muitos, que Deos o quis, & permitio: Os que forão roubar a bella Elena, E com Apio tambem Tarquino o vio: Pois por quem Dauid Sancto ſe condena? Ou quem o Tribo illuftre deſtruio De Benjamim? bem claro nolo inſina, Por Sarra Faraô, Sychem por Dina.
E pois ſe os peitos fortes enfraqueçe, Hum inconceſſo amor deſatinado, Bem no filho de Almena ſe pareçe, Quando em Omfale andaua transformado, De Marco Antonio a fama ſe eſcureçe, Com ſer tanto a Cleopatra affeiçoado: Tu tambem Peno proſpero o ſentiſte, Deſpois que hũa moça vil na Apulia viste.
Mas quem pode liurarſe por ventura, Dos laços que amor arma brandamente Entre as roſas & a neue humana pura, O ouro, & o alabaſtro transparente Quem de hũa peregrina fermoſura De hum vulto de Meduſa propriamente Que o coração conuerte que tem preſo, Em pedra não: mas em deſejo aceſo.
Quem vio hum olhar ſeguro, hum geſto brando, Hũa ſuaue & Angelica excelencia, Que em ſi eſtâ ſempre as almas trãformãdo Que tiueſſe contra ella reſiſtencia: Deſculpado por certo estâ Fernando, Pera quem tem de amor experencia: Mas antes tendo liure a fantaſia, Por muyto mais culpado o julgaria. Fim.
❧ Canto Quarto.
Deſpois de procello ſa tempestade, Nocturna ſombra, & ſibilante vento, Traz a manhaã ſerena claridade, Eſperança de porto, & ſaluamento: Aparta o Sol a negra eſcuridade, Remouendo o temor ao penſamento: Aſsi no Reino forte aconteceo, Deſpois que o Rei Fernando ſalleçeo.
Porque ſe muito os noſſos deſejarão, Quem os danos & offenſas va vingando, Naquelles que tãbem ſe aproueitârão, Do deſcuido remiſſo de Fernando, Deſpois de pouco tempo o alcançârão, Ioanne ſempre illuſtre aleuantando Por Rei, como de Pedro vnico erdeiro (Ainda que bastardo) verdadeiro.
Ser iſto ordenação dos ceos diuina, Por ſinais muito claros ſe moſtrou Quando em Euora a voz de hũa minina, Ante tempo falando o nomeou: E como couſa em fim que o Ceo destina, No berço o corpo, & a voz aleuantou, Portugal, Portugal, alçando a mão Diſſe, polo Rei nouo Dom Ioão.
Alteradas então do Reino as gentes, Co odio que occupado os peitos tinha, Abſolutas cruezas, & euidentes Faz do pouo o furor por onde vinha, Matando vão amigos & parentes, Do adultero Conde, & da Rainha, Com quem ſua incontinencia deſoneſta Mais (despois de viuua) manifeſta.
Mas elle em fim com cauſa deſonrado, Diante della a ferro frio morre, De outros muitos na morte acompanhado Que tudo o fogo erguido queima & corre: Quem como Astianas precipitado (Sem lhe valerem ordẽs) de alta torre A quem ordẽs, nem aras, nem reſpeito, Quem nu por ruas & em pedaços feito.
Podẽſe por em longo eſquecimento, As cruezas mortais que Roma vio Feitas do feroz Mario, & do cruento Syla, quando o contrario lhe fogio: Por iſſo Lianor, que o ſentimento Do morto Conde ao mundo deſcobrio, Faz contra Luſitania vir Caſtella, Dizendo ſer ſua filha herdeira della.
Beatriz era a filha, que caſada Co Caſtelhano eſtà, que o Reino pede, Por filha de Fernando reputada, Se a corrompida fama lho concede. Com esta voz Caſtella aleuantada, Dizendo que eſta filha ao pay ſucede: Suas forças ajunta pera as guerras De varias regiões & varias terras.
Vem de toda a prouincia que de hum Brigo, (Se foy) ja teue o nome diriuado Das terras que Fernando, & que Rodrigo Ganharão do tirano & Mauro eſtado: Não eſtimão das armas o perigo, Os que cortando vão co duro arado Os campos Lioneſes, cuja gente, Cos Mouros foi nas armas excellente.
Os Vandalos, na antiga valentia Ainda confiados,ſe ajuntauão Da cabeça de toda Andaluzia, Que do Goadalquibir as agoas lauão, A nobre Ilha tambem ſe apercebia, Que antigamente os Tirios habitauão: Trazendo por inſignias verdadeiras As Herculeas colunas nas bandeiras.
Tambem vem la do Reino de Toledo, Cidade nobre & antiga, a quem cercando O Tejo em torno vay ſuaue & ledo, Que das ſerras de Conca vem manando: A vos outros tambem não tolhe o medo, O ſordidos Galegos, duro bando, Que pera reſistirdes, vos armastes, Aaquelles, cujos golpes ja prouastes.
Tambem mouem da guerra as negrasfurias, A gente Bizcainha, que careçe De polidas razões, & que as injurias Muito mal dos estranhos compadeçe: A terra de Guipuſcua, & das Aſturias Que com minas de ferro ſe ennobreçe, Armou delle, os ſoberbos matadores, Pera ajudar na guerra a ſeus ſenhores.
Ioane, a quem do peito o eforço creçe, Como a Sariſam Hebreo da guedelha, Poſto que tudo pouco lhe pareçe Cos poucos de ſeu Reino ſe aparelha, E não porque conſelho lhe faleçe, Cos principaes ſenhores ſe aconſelha: Mas ſo por ver das gentes as ſentenças, Que ſempre ouue entre muitos diferenças.
Não falta com razões quem deſconcerte, Da opinião de todos, na vontade, Em quem o esforço antigo ſe conuerte, Em deſuſada & ma deſlealdade, Podendo o temor mais, gelado, inerte Que a propria & natural fidelidade, Negão o Rei & a patria, & ſe conuem Negarão (como Pedro) o Deos que tem.
Mas nunca foy que eſte erro ſe ſentiſſe, No forte dom Nuno aluerez: mas antes Poſto que em ſeus Irmãos tão claro o viſſe, Reprouando as vontades incoſtantes: A aquellas duuidoſas gentes diſſe, Com palauras mais duras que elegantes, A mão na eſpada irado, & não facundo, Ameaçando a terra, o mar, & o mundo.
Como da gente illuſtre Portugueſa, Ha de auer quem refuſe o patrio Marte? Como, deſta prouincia que princeſa Foy das gentes na guerra em toda parte, Ha de ſair quem negue ter defeſa, Quem negue a Fe, o amor, o esforço & arte De Portugues, & por nenhum reſpeito O proprio Reino queira ver ſogeito?
Como, não ſois vos inda os deſcendentes Daquelles, que debaixo da bandeira, Do grande Enriquez, feros & valentes Venceſtes eſta gente tam guerreira? Quando tantas bandeiras, tantas gentes Poſeram em fugida, de maneira, Que ſete illuſtres Condes lhe trouxerão Preſos, afora a preſa que tiuerão?
Com quem forão contino ſopeados Estes, de quem o eſtais agora vos, Por Dinis & ſeu filho, ſublimados Se não cos voſſos fortes pais & auôs? Pois ſe com ſeus deſcuidos, ou peccados, Fernando em tal fraqueza aſsi vos pos, Torne vos voſſas forças o Rei nouo, Se he certo que co Rei ſe muda o pouo.
Rei tendes tal, que ſe o valor tiuerdes Igual ao Rei que agora aleuantaſtes, Desbaratareis tudo o que quiſerdes, Quanto mais a quem ja desbarataſtes: E ſe com iſto em fim vos não mouerdes, Do penetrante medo que tomastes, Atay as mãos a voſſo vão receio, Que eu ſo reſiſtirey ao jugo alheio.
Eu ſo com meus vaſſalos, & com eſta, (E dizendo isto arranca mea eſpada) Defenderey da força dura, & infeſta A terra nunca de outrem ſojugada, Em virtude do Rei, da patria meſta, Da lealdade ja por vos negada, Vencerey (não ſo eſtes aduerſarios:) Mas quantos a meu Rei forem contrarios.
Bem como entre os mançebos recolhidos, Em Camiſio, reliquias ſos de Canas, Ia pera ſe entregar quaſi mouidos A fortuna das forças Affricanas: Cornelio moço os faz, que compelidos Da ſua eſpada jurem, que as Romanas Armas, nam deixarão em quanto a vida Os nam deixar, ou nellas for perdida.
Deſtarte a gente força, & e força Nuno, Que com lhe ouuir as vltimas razões Remouem o temor frio importuno, Que gelados lhe tinha os corações: Nos animais caualgão de Neptuno, Brandindo, & volteando arremeſſoẽs, Vão correndo & gritando a boca aberta, Viua o famoſo Rei que nos liberta.
Das gentes populares, hũs aprouão A guerra com que a patria ſe ſoſtinha, Hũs as armas alimpão & renouão, Que a ferrugem da paz gaſtadas tinha: Capaçetes eſtofam, peitos prouão, Armaſe cada hum como conuinha. Outros fazem vestidos de mil cores, Com letras & tenções de ſeus amores.
Com toda esta lustroſa companhia, Ioanne forte ſae da freſca Abrantes, Abrantes, que tambem da fonte fria Do Tejo logra as agoas abundantes: Os primeiros armigeros regia, Quem pera reger era os muy poſſantes, Orientais exercitos, ſem conto, Com que paſſaua Xerxes o Helesponto.
Dom Nuno Alueres digo, verdadeiro Açoute de ſoberbos Caſtelhanos, Como ja o fero Huno o foy primeiro Pera Eranceſes, pera Italianos, Outro tambem famoſo caualleiro, Que a ala dereita tem dos Luſitanos, Apto pera mandalos, & regelos, Meu Rodriguez ſe diz de Vaſconcelos.
E da outra ala que a eſta correſponde, Antão vazquez de Almada he Capitão, Que deſpois foy de Abranches nobre Conde, Das gentes vay regendo a ſestra mão, Logo não retagoarda não ſe eſconde, Das quinas & caſtellos o pendão, Com Ioanne Rey forte em toda parte, Que eſcurecendo o preço vay de Marte.
Eſtauão pelos muros temeroſas, E de hum alegre medo quaſi frias, Rezando as mais, irmãs, damas, & eſpoſas Prometendo jejũs, & romarias: Ia chegão as eſquadras bellicoſas, Defronte das imigas companhias, Que com grita grandiſsima os recebem, E todas grande duuida concebem.
Respondem as trombetas menſageiras, Pifaros ſibilantes, & atambores, Alferezes volteão as bandeiras, Que variadas ſam de muitas cores: Era no ſeco tempo, que nas eiras Ceres o fructo deixa aos lauradores, Entra em Aſtrea o Sol, no mes de Agoſto, Baco das vuas tira o doçe moſto.
Deu ſinal a trombeta Castelhana, Horrendo, fero, ingente, & temeroſo, Ouuio o o monte Artabro, & Guadiana, A tras tornou as ondas de medroſo: Ouuio o Douro, & a terra Tranſtagana, Correo ao mar o Tejo duuidoſo: E as mãis que o ſom terribil eſcuitârão, Aos peitos os filhinhos apertârão.
Quantos roſtos ali ſe vem ſem cor, Que ao coração acode o ſangue amigo, Que nos perigos grandes, o temor, He mayor muitas vezes que o perigo, E ſe o não he, pareçeo, que o furor De offender, ou vencer o duro immigo, Faz não ſentir, que he perda grande & rara Dos membros corporais da vida cara.
Começaſe a trauar a incerta guerra, De ambas partes ſe moue a primeira ala, Hũs leua a defenſam da propria terra, Outros as eſperanças de ganhala: Logo o grande Pereira em quem ſe encerra Todo o valor, primeiro ſe aſsinala Derriba, & encontra, & a terra ẽ fim ſemea Dos que a tanto deſejão, ſendo alhea.
Ia pelo eſpeſſo ar, os eſtridentes Farpões, ſetas, & varios tiros voão, Debaxo dos pês duros dos ardentes Cauallos, treme a terra, os vales ſoão: Eſpedação ſe as lanças, & as frequentes Quedas, co as duras armas tudo atroão. Recreçem os immigos ſobre a pouca Gente, do fero Nuno que os apouca.
Eis ali ſeus yrmãos contra elle vão, (Caſo feo & cruel:) mas não ſe eſpanta, Que menos he querer matar o yrmão, Quem contra o Rei & a patria ſe aleuanta: Destes arrenegados muitos ſam, No primeiro eſquadrão, que ſe adianta, Contra yrmãos & parentes (caſo eſtranho) Quaes nas guerras Ciuis de Iuleo Magno.
O tu Sertorio, o nobre Cariolano Catilina, & vos outros dos antigos, Que contra voſſas patrias, com profano Coração, vos fizestes inimigos: Se lâ no reino eſcuro de Sumano Receberdes grauiſsimos castigos Dizeilhe que tambem dos Portugueſes Algũs tredores ouue algũas vezes.
Rompem ſe aqui dos noſſos os primeiros, Tantos dos inimigos a elles vão: Eſta ali Nuno, qual pellos outeiros De Ceita estâ o fortiſsimo lião Que cercado ſe ve dos caualleiros Que os campos vão correr de Tutuão, Perſeguem no com as lanças, & elle iroſo Toruado hũ pouco eſtâ, mas não medroſo.
Com torua vista os vê, mas a natura Ferina, & a yra não lhe compadecem Que as coſtas dê, mas antes na eſpeſſura Das lanças ſe arremeſſa, que recrecem: Tal eſtà o caualeiro que a verdura Tinge co ſangue alheyo, ali perecem Algũs dos ſeus, que o animo valente Perde a virtude contra tanta gente.
Sentio Ioane a afronta que paſſaua Nuno, que como ſabio capitão, Tudo corria, & via, & a todos daua Com preſença & palauras coração: Qual parida Lioa fera & braua Que os filhos que no ninho ſôs eſtão Sentio, que em quanto pasto lhe buſcara, O paſtor de Maſsilia lhos furtara.
Corre raiuoſa, & freme, & com bramidos Os montes ſete Irmãos atroa & abala, Tal Ioane com outros eſcolhidos Dos ſeus, correndo acode aa primeira ala: O fortes companheiros, o ſubidos Caualeyros, a quem nenhum ſe ygoala, Defendey voſſas terras que a eſperança Da liberdade, eſtâ na voſſa lança.
Vedes me aqui, Rey voſſo, & companheiro Que entre as lanças & ſêtas, & os arneſes Dos inimigos corro, & vou primeiro Pelejay verdadeiros Portugueſes. Iſto diſſe o magnanimo guerreyro E ſopeſando a lança quatro vezes, Com força tira & deſte vnico tiro Muytos lançarão o vltimo ſoſpiro,
Porque eis os ſeus aceſos nouamente Dhũa nobre vergonha & honroſo fogo Sobre qual mais com animo valente, Perigos vencerâ, do Marcio jogo Porfião: tingeo ferro o fogo ardente Rompem malhas primeiro, & peitos logo Aſsi recebem junto & dão feridas Como a quem ja não doe perder as vidas.
A muitos mandão ver o Eſtigio lago Em cujo corpo a morte, & o ferro entraua O Meſtre morre ali de Sanctiago Que fortiſsimamente pelejaua Morre tambem, fazendo grande eſtrago Outro Meſtre cruel de Calatraua Os Pereiras tambem arrenegados Morrem, arrenegando o Ceo & os fados.
Muitos tambem do vulgo vil ſem nome Vão, & tambem dos nobres ao profundo Onde o Trifauce Cão perpetua fome Tem, das almas que paſſão deſte mundo E porque mais aqui ſe amanſe & dome A ſoberba do imigo furibundo, A ſublime bandeira Caſtelhana Foy derribada os pês da Luſitana.
Aqui a fera batalha ſe encruece Com mortes, gritos, ſangue & cutiladas A multidão da gente que perece Tem as flores da propria cor mudadas: Ia as coſtas dão & as vidas: ja falece O furor, & ſobejão as lançadas, Ia de Caſtella o Rey desbaratado Se vee, & de ſeu propoſito mudado.
O campo vay deixando ao vencedor Contente de lhe não deixar a vida Seguẽ no os que ficarão, & o temor Lhe da não pês, mas aſas aa fugida: Encobrem no profundo peito a dor Da morte, da fazenda deſpendida, Da magoa, da deſonra, & triste nojo De ver outrem triumphar de ſeu deſpojo.
Algũs vão maldizendo & blasfemando Do primeyro que guerra fez no mundo Outros a ſede dura vão culpando Do peito cobiçoſo & ſitibundo: Que por tomar o alheo, o miſerando Pouo auentura aas penas do profundo Deixando tantas mãis, tantas eſpoſas Sem filhos, ſem maridos deſditoſas.
O vencedor Ioanne eſteue os dias Coſtumados no campo, em grande gloria Com offertas deſpois, & romarias As graças deu a quem lhe deu victoria: Mas Nuno que não quer por outras vias, Entre as gentes deixar de ſi memoria Se não por armas ſempre ſoberanas Pera as terras ſe paſſa Trãſtaganas.
Ajudao ſeu destino de maneira Que fez igoal o effeito ao penſamento, Porque a terra dos Vandalos fronteira Lhe concede o deſpojo & o vencimento Ia de Siuilha a Betica bandeira E de varios ſenhores nũ momento Se lhe derriba aos pês ſem ter defeſa Obrigados da força Portugueſa.
Deſtas & outras victorias longamente Erão os Caſtelhanos opprimidos Quando a paz deſejada ja da gente Derão os vencedores aos vencidos: Deſpois que quis o Padre omnipotente Dar os Reis inimigos por maridos Aas duas lllustriſsimas Ingleſas Gentis, fermoſas, inclitas princeſas.
Não ſofre o peito forte vſado aa guerra Não ter imigo ja a quem faça dano, E aſsi não tendo a quem vencer na terra Vay cometer as ondas do Occeano: Eſte he o primeiro Rey que ſe deſterra Da patria, por fazer que o Afrinano, Conheça pollas armas, quanto excede A ley de Christo aa ley de Mafamede.
Eis mil nadantes aues pello argento Da furioſa Tetis inquieta, Abrindo as pandas aſas vão ao vento Pera onde Alcides pos a extrema meta: O monte Abila, & o nobre fundamento De Ceita toma, & o torpe Mahometa Deita fora, & ſegura toda Eſpanha Da Iuliana, mã, & desleal manha.
Não conſentio a morte tantos annos Que de Heroe tão ditoſo ſe lograſſe Portugal, mas os coros ſoberanos Do ceo ſupremo, quis que pouoaſſe: Mas pera defenſam dos Luſitanos Deixou quem o leuou, quem gouernaſſe, E aumentaſſe a terra mais que dantes Inclita gêração, altos Infantes.
Não foy do Rey Duarte tão ditoſo O tempo que ficou na ſumma alteza, Que aſsi vay alternando o tempo iroſo O bem co mal, o goſto co a tristeza: Quem vio ſempre hum eſtado deleitoſo? Ou quem vio em fortuna auer firmeza? Pois inda neſte Reino, & neſte Rey Não vſou ella tanto deſta ley.
Vio ſer captiuo o ſancto irmão Fernando Que a tão altas empreſas aſpiraua Que por ſaluar o pouo miſerando Cercado, ao Sarraceno ſentregaua: Sô por amor da patria eſtâ paſſando A vida de ſenhora feyta eſcraua, Por não ſe dar por elle ha forte Ceita Mais o pubrico bem que o ſeu reſpeita.
Cadro porque o inimigo não venceſſe, Deixou antes vencer da morte a vida, Regulo porque a patria não perdeſſe, Quis mais a liberdade ver perdida: Eſte porque ſe Eſpanha não temeſſe A captiueiro eterno ſe conuida: Codro, nem Curcio, ouuido por eſpanto Nemos Decios leais fizerão tanto.
Mas Affonſo do Reino vnico herdeiro, Nome em armas ditoſo, em noſſa Heſperia, Que a ſoberba do barbaro fronteiro, Tornou em baxa & humilima miſeria, Fora por certo inuicto caualleiro, Se não quiſera yr ver a terra Iberia: Mas Affrica dira ſer impoſsibil, Poder ninguem vencer o Rei terribil.
Eſte pode colher as maçãs de ouro, Que ſamente o Terintio colher pode, Do jugo que lhe pos o brauo Mouro, A ceruiz inda agora nam ſacode: Na fronte a palma leua, & o verde louro, Das victorias do barbaro, que acode A defender Alcaçer forte villa, Tangere populoſo, & a dura Arzilla.
Porem ellas em fim por força entradas, Os muros abaxarão de Diamante, Aas Portugueſas forças coſtumadas, A derribarem quanto achão diante, Marauilhas em armas eſtremadas, E de eſcriptura dinas elegante, Fizerão caualleiros nesta empreſa Mais, affinando a fama Portugueſa.
Porem deſpois tocado de ambição, E gloria de mandar amara & bella, Vay cometer Fernando de Aragão, Sobre o potente Reino de Caſtella, Ajuntaſe a inimiga multidão, Das ſoberbas & varias gentes della, Deſde Caliz ao alto Perineo, Que tudo ao Rei Fernando obedeceo.
Não quis ficar nos Reinos occioſo, O mancebo Ioanne, & logo ordena De ir ajudar o pay ambicioſo, Que então lhe foy ajuda não pequena, Saioſe em fim do trançe perigoſo, Com fronte não toruada, mas ſerena Desbaratado o pay ſanguinolento: Mas ficou duuidoſo o vencimento.
Porque o filho ſublime & ſoberano, Gentil, forte, animoſo caualleiro, Nos contrarios fazendo imenſo dano, Todo hum dia ficou no campo inteiro: Desta arte foy vencido Octauiano, E Antonio vencedor ſeu companheiro, Quando daquelles que Ceſar matârão Nos Philipicos campos ſe vingârão.
Porem deſpois que a eſcura noite eterna, Affonſo apouſentou no Ceo ſereno, O Principe que o Reino então gouerna, Foy Ioanne ſegundo, & Rei terzeno: Eſte por auer fama ſempiterna, Mais do que tentar pode homem terreno Tentou, que foy buſcar da roxa Aurora Os terminos, que eu vou buſcando agora.
Manda ſeus menſageiros que paſſarão Eſpanha, França, Italia celebrada, E la no illuſtre porto ſe embarcârão, Onde ja foy Partenope enterrada, Napoles onde os fados ſe moſtrârão, Fazendoa a varias gentes ſubjugada, Pola illuſtrar no fim de tantos annos, Co ſenhorio de inclitos Hispanos.
Polo mar alto Siculo nauegão, Vão ſe aas praias de Rodes arenoſas, E dali aas ribeiras altas chegão, Que com morte de Magno ſam famoſas: Vão a Menfis, & aas terras que ſe regão, Das enchentes Niloticas vndoſas, Sobem aa Ethiopia, ſobre Egipto, Que de Christo la guarda o ſancto rito.
Paſſam tambem as ondas Eritreas, Que o pouo de Iſrael ſem Nao paſſou, Ficão lhe a tras as ſerras Nabateas, Que o filho de Ismael co nome ornou: As coſtas odoriferas Sabeas, Que a mãy do bello Adonis tanto honrou, Cercão, com toda a Arabia deſcuberta Feliz, deixando a Petrea, & a Deſerta.
Entrão no estreito Perſico, onde dura Da confuſa Babel, inda a memoria, Ali co Tigre o Eufrates ſe meſtura, Que as fontes onde naſcem tem por gloria: Dali vão em demanda da agoa pura, Que cauſa inda ſera de larga hiſtoria Do Indo, pellas ondas do Occeano, Onde nam ſe atreueo paſſar Trajano.
Virão gentes incognitas, & eſtranhas Da India, da Carmania, & Gedroſia, Vendo varios costumes, varias manhas Que cada Região produze & cria: Mas de vias tão aſperas, tamanhas Tornarſe facilmente não podia, La morrerão em fim, & la ficârão. Que aa deſejada patria não tornârão.
Pareſce que guardaua o claro Ceo A Monoel, & ſeus merecimentos, Eſta empreſa tão ardua, que o moueo A ſubidos & illuſtres mouimentos: (Manoel, que a Ioane ſocedeo No reino, & nos altiuos penſamentos) Logo como tomou do reino cargo Tomou mais a conquiſta do mar largo.
O qual, como de nobre penſamento Daquella obrigação, que lhe ficâra De ſeus antepaſſados, (cujo intento, Foy ſempre acrecentar a terra chara) Não deixaſſe de ſer hum ſo momento Conquiſtado: No tempo que a luz clara Foge, & as eſtrellas nitidas que ſaem A repouſo conuidão, quando caem.
Eſtando ja deitado no aureo leito Onde ymaginações mais certas ſam, Reuoluendo contino no conceito De ſeu officio, & ſangue a obrigação, Os olhos lhe occupou o ſonno acceito Sem lhe deſoccupar o coração, Porque tanto que laſſo ſe adormece Morfeo en varias formas lhe aparece.
Aqui ſe lhe apreſenta que ſubia Tão alto que tocaua aa prima Eſphera, Donde diante varios mundos via Nações de muita gente eſtranha, & fera: E laa bem junto donde nace o dia Deſpois que os olhos longos estendera, Vio de antiguos longinquos & altos montes Nacerem duas claras & altas fontes.
Aues agrestes, feras & alimarias Pello monte ſeluatico habitauão, Mil aruores ſylueſtres & eruas varias O paſſo & o trato aas gentes atalhauão: Eſtas duras montanhas aduerſarias De mais conuerſação, por ſi moſtrauão Que deſque Adão peccou aos noſſos annos Não as romperão nunca pês humanos.
Das agoas ſe lhe antolha que ſaião Por elle os largos paſſos inclinando, Dous homẽs, que muy velhos parecião De aſpeito, inda que agreſte, venerando: Das pontas dos cabellos lhe ſaião Gotas, que o corpo todo vão banhando, A cor da pelle baça & denegrida A barba hirſuta, intonſa, mas comprida.
Dambos de dous a fronte coroada Ramos não conhecidos & eruas tinha, Hum delles a preſença traz canſada Como quem de mais longe ali caminha, E aſsi a agoa com impito alterada Parecia que doutra parte vinha, Bem como Alfeo de Arcadia em Syracuſa Vay buſcar os abraços de Aretuſa.
Eſte que era o mais graue na peſſoa Destarte pera o Rey de longe brada, O tu a cujos reinos & coroa Grande parte do mundo eſta guardada, Nos outros, cuja fama tanto voa Cuja ceruiz bem nunca foy domada, Te auiſamos que he tempo que ja mandes A receber de nos tributos grandes.
Eu ſou o illuſtre Ganges, que na terra Celeſte, tenho o berço verdadeiro, Estoutro he o Indo Rey, que nesta ſerra Que vês, ſeu nacimento tem primeiro: Cuſtartemos com tudo dura guerra, Mas inſiſtindo tu por derradeiro, Com não viſtas victorias, ſem receyo A quantas gentes vês poras o freyo:
Não diſſe mais o rio Illuſtre & ſancto, Mas ambos deſparecem num momento, Acorda Emanuel cum nouo eſpanto E grande alteração de penſamento: Eſtendeo niſto Febo o claro manto Pello eſcuro Emiſperio ſomnolento: Veyo a menham no ceo pintando as côres De pudibunda roſa & roxas flores.
Chama o Rei os ſenhores a conſelho E propoẽ lhe as figuras da viſam, As palauras lhe diz do ſancto velho, Que a todos forão grande admiração: Determinão o nautico aparelho Pera que com ſublime coração Vaa a gente que mandar cortando os mares A buſcar nouos climas, nouos ares.
Eu que bem mal cuidaua que em effeito Se poſeſſe o que o peito me pedia, Que ſempre grandes couſas deste geito Preſago o coração me prometia: Não ſey porque razão, porque reſpeito, Ou porque bom ſinal que em mi ſe via, Me poẽ o inclyto Rei nas mãos a chaue Deſte cometimento grande, & graue.
E com rogo & palauras amoroſas Que he hũ mando nos Reis que a mais obriga, Me diſſe: As couſas arduas & lustroſas Se alcanção com trabalho & com fadiga: Faz as peſſoas altas & famoſas A vida que ſe perde & que periga, Que quando ao medo infame não ſe rende Então, ſe menos dura, mais ſe eſtende.
Eu vos tenho entre todos eſcolhido Para hũa empreſa qual a vos ſe deue, Trabalho illuſtre, duro & eſclareſcido, O que eu ſey que por mi vos ſera leue: Não ſofri mais, mas logo: O Rey ſubido, Auenturarme a ferro, a fogo, a neue, He tão pouco por vos que mais me pena Ser eſta vida couſa tão pequena.
Imaginay tamanhas auenturas Quaes Euriſteo a Alcides inuentaua, O lião Cleonêo, Arpias duras O porco de Erimanto, a Ydra braua: Decer em fim aas ſombras vans & eſcuras Onde os campos de Dite a Eſtige laua, Porque a mayor perigo, a môr affronta Por vos, o Rey, o eſprito & carne he prõpta.
Com merces ſumptuoſas me agardece E com razoẽs me louua eſta vontade, Que a virtude louuada viue & crece, E o louuor altos caſos perſuade: A acompanharme logo ſe offerece Obrigado damor & damizade, Não menos cobiçoſo de honra & fama, O charo meu Irmão Paulo da Gama.
Mais ſe me ajunta Nicolao Coello De trabalhos muy grande ſoffredor, Ambos ſam de valia & de conſelho Dexperiencia em armas & furor: Ia de manceba gente me aparelho Em que crece o deſejo do valer, Todos de grande esforço, & aſsi parece Quem a tamanhas couſas ſe offerece.
Forão de Emanoel remunerados, Porque com mais amor ſe apercebeſſem, E com palauras altas animados Pera quantos trabalhos ſoccedeſſem: Aſsi forão o Mynias ajuntados Pera que o veo dourado combateſſem, Na Fatidiça nao, que ouſou primeira Tentar o mar Euxinio, auentureira.
E ja no porto da inclita Vliſſea Cum aluoroço nobre, & cum deſejo, (Onde o licor meſtura & branca area Co ſalgado Neptuno o doce Tejo:) As naos preſtes eſtão, & não refrea Temor nenhum o iuuenil deſpejo, Porque a gente maritima & a de Marte Eſtão pera ſeguirme a toda parte.
Pellas prayas vestidos os ſoldados De varias cores vem, & varias artes, E não menos de esforço aparelhados Pera buſcar do mundo nouas partes: Nas fortes naos os ventos ſoſſegados Ondeão os aerios estandartes, Ellas prometem vendo os mares largos De ſer no Olimpo eſtrellas como a de Argos.
Deſpois de aparelhados deſta ſorte De quanto tal viagem pede & manda, Aparelhamos a alma pera a morte Que ſempre aos nautas ante os olhos anda: Pera o ſumo poder que a Etherea corte Soſtenta ſo coa vista veneranda, Imploramos fauor que nos guiaſſe E que noſſos começos aſpiraſſe.
Partimonos aſsi do ſancto templo Que nas Prais do mar eſtâ aſſentado, Que o nome tem da terra, pera exemplo, Donde Deos foy em carne ao mundo dado: Certifico te, o Rey, que ſe contemplo Como fuy deſtas prayas apartado, Cheyo dentro de duuida & receyo Que apenas nos meus olhos ponho o freyo.
A gente da cidade aquelle dia (Hũs por amigos, outros por parentes, Outros por ver ſomente) concorria Saudoſos na viſta & deſcontentes: E nos coa virtuoſa companhia De mil religioſos diligentes, Em prociſſam ſolene a Deos orando Pera os bateis viemos caminhando.
Em tão longo caminho & duuidoſo Por perdidos as gentes nos julgauão, As molheres cum choro piadoſo, Os homẽs com ſuſpiros que arrancauão: Mãis, Eſpoſas, Irmãs, que o temeroſo Amor mais deſconfia, acrecentauão A deſeſperação, & frio medo De ja nos não tornar a ver tão cedo.
Qual vay dizendo: O filho a quem eu tinha So pera refrigerio, & doce emparo Desta canſada ja velhice minha, Que em choro acabarâ, penoſo & amaro: Porque me deixas, miſera & mezquinha? Porque de mi te vas, o filho charo A fazer o funereo enterramento Onde ſejas de pexes mantimento?
Qual em cabello: O doce & amado eſpoſo Sem quem não quis amor que viuer poſſa, Porque is auenturar ao mar iroſo Eſſa vida que he minha, & não he voſſa? Como por hum caminho duuidoſo Vos eſquece a afeição tão doce noſſa? Noſſo amor, noſſo vão contentamento Quereis que com as vellas leue o vento.
Neſtas & outras palauras que dizião De amor, & de piadoſa humanidade, Os velhos & os mininos os ſeguião Em quem menos esforço poẽ a ydade: Os montes de mais perto reſpondião Quaſi mouidos de alta piedade, A branca area as lagrimas banhauão Que em multidão co ellas ſe ygoalauão.
Nos outros ſem a vista aleuantarmos Nem a Mãy, nem a Eſpoſa, neſte eſtado, Por nos não magoarmos, ou mudarmos Do prepoſito firme começado: Determiney de aſsi nos embarcarmos Sem o deſpedimento custumado, Que poſto que he de amor vſança boa Aquem ſe aparta, on fica, mais magoa.
Mas hum velho daſpeito venerando, Que ficaua nas prayas, entre a gente, Poſtos em nos os olhos, meneando Tres vezes a cabeça, deſcontente, A voz peſada hum pouco aleuantando, Que nos no mar ouuimos claramente, Cum ſaber ſo dexperiencias feyto Tais palauras tirou do experto peito.
O gloria de mandar, o vaã cubiça Deſta vaidade, a quem chamamos Fama, O fraudolento goſto, que ſe atiça Cũa aura popular, que honra ſe chama: Que caſtigo tamanho & que juſtiça fazes no peito vão que muito te ama, Que mortes, que perigos, que tormentas Que crueldades nelles eſprimentas.
Dura inquietação dalma & da vida Fonte de deſemparos & adulterios, Sagaz conſumidora conhecida De fazendas, de reinos, & de imperios: Chamante illuſtre, chamante ſubida, Sendo dina de infames vituperios, Chamante Fama, & Gloria ſoberana, Nomes com quem ſe o pouo neſcio engana.
A que nouos deſaſtres determinas De leuar estes reynos & eſta gente? Que perigos, que mortes lhe destinas Debaixo dalgum nome preminente? Que promeſſas de reynos, & de minas Douro, que lhe faras tão facilmente? Que famas lhe prometeras, que hiſtorias? Que triumphos, que palmas, que victorias?
Mas ô tu geração daquelle inſano Cujo peccado & deſobediencia, Não ſomente do reino ſoberano Te pos neſte deſterro & triſte auuſencia: Mas inda doutro estado mais que humano Da quieta & da ſimpres innocencia, Idade douro, tanto te priuou Que na de ferro & darmas te deitou.
Ia que nesta goſtoſa vaidade Tanto enleuas a leue fantaſia, Ia que aa bruta crueza & feridade Poſeste nome esforço & valentia, Ia que prezas em tanta quantidade O deſprezo da vida, que deuia De ſer ſempre eſtimada, pois que ja Temeo tanto perdella quem a dâ.
Não tens junto com tigo o Iſmaelita Com quem ſempre teras guerras ſobejas? Não ſegue elle do Arabio a ley maldita, Se tu polla de Chriſto ſo pellejas? Não tem cidades mil, terra infinita, Se terras & riqueza mais deſejas? Não he elle por armas esforçado Se queres por victorias ſer louuado?
Deixas criar aas portas o inimigo Por yres buſcar outro de tão longe, Por quem ſe deſpouoe o reino antigo Se enfraqueça & ſe vaa deitando a longe: Buſcas o incerto & incognito perigo Porque a fama te exalte & te liſonge, Chamando te ſenhor com larga copia Da India, Perſia, Arabia, & de Ethiopia.
O maldito o primeiro que no mundo Nas ondas vella pôs en ſeco lenho, Dino da eterna pena do profundo Se he juſta a juſta ley que ſigo & tenho: Nunca juyzo algum alto & profundo, Nem cythara ſonora, ou viuo engenho, Te dê por iſſo fama, nem memoria, Mas comtigo ſe acabe o nome & gloria.
Trouxe o filho de Iapeto do Ceo O fogo que ajuntou ao peito humano, Fogo que o mundo em armas accendeo Em mortes, em deſonras (grande engano) Quanto milhor nos fora Prometeo, E quanto pera o mundo menos dano, Que a tua eſtatua Illuſtre não tiuera Fogo de altos deſejos, que a mouera.
Não cometera o moço miſerando O carro alto do pay, nem o âr vazio O grande Achitector co filho, dando Hum, nome ao mar, & o outro, fama ao rio: Nenhum cometimento alto & nefando Por fogo, ferro, agoa, calma & frio, Deixa intentado a humana geração: Miſera ſorte, eſtranha Condição! F I M.
❧ Canto Quinto. Eſtas ſentenças tais o velho honrado Vociferando eſtaua, quando a- brimos As aſas ao ſereno & ſoſſegado Vento, & do porto amado nos partimos: E como he ja no mar cuſtume vſado A vella desfraldando o ceo ferimos, Dizendo Boa viagem, logo o vento Nos troncos fez o vſado mouimento.
Entruaa neste tempo o eterno lume, No animal Nemeyo truculento, E o mundo que com tempo ſe conſume Na ſeiſta idade andaua enfermo & lento: Nella ve, como tinha por coſtume Curſos do Sol quatorze vezes cento, Com mais nouenta & ſete, em que corria quando no mar a armada ſe estendia.
Ia a vista pouco & pouco ſe desterra Daquelles patrios montes que ficauão, Ficaua o charo Tejo, & a freſca ſerra De Sintra, & nella os olhos ſe alongauão: Ficauanos tambem na amada terra O coração, que as magoas lâ diyxauão, E ja deſpois que toda ſe eſcondeo Não vimos mais em fim que mar & ceo.
Aſsi fomos abrindo aquelles mares Que geração algũa não abrio, As nouas Ilhas vendo, & os nouos ares, Que o generoſo Enrique deſcobrio: De Mauritania os montes & lugares Terra que Anteo num tempo poſſuyo, Deyxando aa mão ezquerda, que aa dereita Não ha certeza doutra, mas ſoſpeita.
Paſſamos a grande Ilha da madeira Que do muito aruoredo aſsi ſe chama, Das que nos pouoamos, a primeira, Mais celebre por nome, que por fama: Mas nem por ſer do mundo a derradeira Se lhe auentajão quantas Venus ama, Antes ſendo esta ſua ſe eſquecera De Cypro, Guido, Pafos, & Cythêra.
Deixamos de Maſsilia a eſteril costa Onde ſeu gado os Azenegues pastão, Gente que as freſcas agoas nunca goſta Nem as eruas do campo bem lhe abaſtão: A terra a nenhum fruto em fim deſpoſta, Onde as aues no ventre o ferro gastão, Padecendo de tudo extrema inopia Que aparta a Barbarîa de Etiopia.
Paſſamos o lemite aonde chega O Sol, que pera o Norte os carros guia, Onde jazem os pouos, a quem nega O filho de Climêne a cor do dia: Aqui gentes eſtranhas laua & rega Do negro Sanagâ a corrente fria, Onde o Cabo Arſinario o nome perde Chamando ſe dos noſſos Cabo verde.
Paſſadas tendo ja as Canareas ilhas Que tiuerão por nome Fortunadas, Entramos nauegando pollas filhas Do velho Heſperio, Heſperidas chamadas Terras por onde nouas marauilhas Andarão vendo jaa noſſas armadas, Ali tomamos porto com bom vento Por tomarmos da terra mantimento.
A aquella ilha aportamos, que tomou O nome do guerreiro Sanctiago, Sancto que os Eſpanhoes tanto ajudou A fazerem nos Mouros brauo eſtrago: Daqui tanto que Boreas nos ventou Tornamos a cortar o immenſo lago, Do ſalgado Occeano, & aſsi deixamos A terra onde o refreſco doce achamos.
Por aqui rodeando a larga parte De Africa, que ficaua ao Oriente, A prouincia lalofo, que reparte Por diuerſas naçoẽs a negra gente: A muy grande Mandinga, por cuja arte, Logramos o metal rico & luzente, Que do curuo Gambea as agoas bebe As quaes o largo Atlantico recebe.
As Dorcadas paſſamos, pouoadas Das Irmaãs, que outrotempo ali viuião, Que de vista total ſendo priuadas Todas tres dhum ſo olho ſe ſeruião: Tu ſo, tu cujas tranças encreſpadas Neptuno la nas agoas acendião, Torna la ja de todas a mais fea De biuoras encheſte a ardente area.
Sempre em fim pera o Auſtro a aguda proa No grandiſsimo golfão nos metemos, Deixando a ſerra aſperrima Lyoa Co Cabo a quem das Palmas nome demos: O grande rio, onde batendo ſoa O mar nas prayas notas, que ali temos, Ficou, co a Ilha illuſtre que tomou O nome dhum que o lado a Deos tocou.
Ali o muy grande reyno eſtâ de Congo Por nos ja conuertido â fee de Christo, Por onde o Zaire paſſa claro & longo Rio pellos antigos nuca viſto: Por eſte largo mar em fim me alongo Do conhecido pollo de Caliſto, Tendo o termino ardente ja paſſado Onde o meyo do mundo he limitado.
Ia deſcuberto tinhamos diante La no nouo Hemiſperio noua estrela Não viſta deoutra gente, que ignorante Algũs tempos eſteue incerta della: Vemos a parte menos rutilante E por falta destrellas menos bella, Do Polo fixo, onde inda ſe não ſabe Que outra terra comece, ou mar acabe:
Aſsi paſſando aquellas regioẽs Por onde duas vezes paſſa Apolo, Dous inuernos fazendo & dous veroẽs Em quanto corre dhum ao outro Polo: Por calmas, por tormentas & opreſſoẽs Queſempre faz no mar o yrado Eolo, Vimos as Vrſas a peſar de Iuno Banharemſe nas agoas de Neptuno.
Contarte longamente as perigoſas Couſas do mar, que os homẽs não entendem, Subitas trouoadas temeroſas, Relampados que o ar em fogo acendem: Negros chuueiros, noites tenebroſas, Bramidos de trouoẽs que o mundo fendem, Não menos he trabalho, que grande erro Ainda que tiuiſſe a voz de ferro.
Os caſos vi que os rudos marinheiros Que tem por meſtra a longa experiencia, Contão por certos ſempre & verdadeiros Iulgando as couſas ſo polla aparencia. E que os que tem juizos mais inteiros Que ſo por puro engenho & por ciencia, Vem do mundo, os ſegredos eſcondidos Iulgão por falſos, ou mal entendidos.
Vi claramente viſto o lume viuo Que a maritima gente tem por ſanto, Em tempo de tormenta & vento eſquiuo De tempeſtade eſcura & triste pranto: Não menos foy a todos ecceſsiuo Milagre, & couſa certo de alto eſpanto, Ver as nuuẽs do mar com largo cano Soruer as altas agoas do Occeano.
Eu o vi certamente (& não preſumo Que a viſta me enganaua) leuantar ſe, No ar hum vaporzinho & ſutil fumo E do vento trazido, rodearſe: De aqui leuado hum cano ao Polo ſumo Se via, tão delgado que enxergarſe Dos olhos facilmente não podia, Da materia das nuuẽs parecia.
Hiaſe pouco & pouco acrecentando E mais que hum largo maſto ſe engroſſaua, Aqui ſe eſtreita, aqui ſe alargaquando Os golpes grandes de agoa em ſi chupaua: Eſtauaſe co as ondas ondeando, Encima delle hũa nuuem ſe eſpeſſaua, Fazendoſe mayor mais carregada Co cargo grande dagoa em ſi tomada.
Qual roxa Sangueſuga ſe veria Nos beiços da alimaria (que imprudente, Bebendo a recolheo na fonte fria) Fartar co ſangue alheyo a ſede ardente: Chupando mais & mais ſe engroſſa & cria Ali ſe enche & ſe alarga grandemente, Tal a grande coluna, enchendo aumenta A ſi, & a nuuem negra que ſuſtenta.
Mas deſpois que de todo ſe fartou O pê que tem no mar a ſi recolhe, E pello ceo chouendo em fim voou Porque coa agoa a jacente agoa molhe: Aas ondas torna as ondas que tomou: Mas o ſabor do ſal lhe tira, & tolhe, Vejão agora os ſabios na eſcriptura Que ſegredos ſam estes de Natura.
Se os antigos Philoſophos, que andarão Tantas terras, por ver ſegredos dellas, As marauilhas que eu paſſei, paſſarão A tão diuerſos ventos dando as vellas: Que grandes eſcripturas que deixarão Que influição de ſinos & de eſtrellas, Que eſtranhezas, que grandes qualidades, E tudo ſem mentir, puras verdades.
Mas ja o Planeta qne no ceo primeiro Habita, cinco vezes apreſſada, Agora meyo rosto, agora inteiro Mostrara, em quãto o mar cortaua a armada: Quando da Eterea gauea hum marinheiro Prompto coa viſta, terra, terra, brada, Salta no bordo aluoroçada a gente Cos olhos no Orizonte do Oriente.
A maneira de nuuẽs ſe começão A deſcubrir os montes que enxergamos, As ancoras peſadas ſe adereção, As vellas ja chegados amainamos: E pera que mais certas ſe conheção As partes tão remotas onde eſtamos, Pello nouo inſtrumento do Astrolabio Inuenção de ſutil juizo & ſabio.
Deſembarcamos logo na eſpaçoſa Parte, por onde a gente ſe eſpalhou, De ver couſas eſtranhas deſejoſa Da terra que outro pouo não piſou: Porem eu cos pilotos na arenoſa Praya, por vermos em que parte eſtou, Me detenho, em tomar do ſol a altura E compaſſar a vniuerſal pintura.
Achamos ter de todo ja paſſado Do Semicapro pexe a grande meta, Eſtando entre elle & o circulo gelado Auſtral, parte do mundo mais ſecreta: Eis de meus companheiros rcdeado Vejo hum eſtranho vir de pelle preta, Que tomarão per força, em quanto apanha De mel os doces fauos na montanha.
Toruado vem na viſta, como aquelle Que não ſe vira nunca em tal eſtremo, Nem elle entende a nos, nem nos a elle, Seluagem mais que o bruto Polifemo: Começolhe a mostrar da rica pelle De Colcos o gentil metal ſupremo, A prata fina, a quente eſpeciaria: A nada disto o bruto ſe mouia.
Mando moſtrarlhe peças mais ſomenos Contas de Chriſtalmo tranſparente, Alguns ſoantes caſcaueis pequenos, Hum barrete vermelho, cor contente: Vi logo por ſinais & por acenos Que com iſto ſe alegra grandemente, Mando o ſoltar com tudo, & aſsi caminha Pera a pouoação, que perto tinha.
Mas logo ao outro dia ſeus parceiros Todos nús, & da cor da eſcura treua, Decendo pellos aſperos outeiros As peças vem buſcar que eſtoutro leua: Domeſticos ja tanto & companheiros Se nos moſtrão, que fazem que ſe atreua, Fernão Velloſo a yr ver da terra o trato E partirſe co elles pello mato.
He Velloſo no braço confiado E de arrogante cre que vay ſeguro, Mas, ſendo hum grande eſpaço ja paſſado, Em que algum bom ſinal ſaber procuro: Eſtando, a viſta alçada, co cuidado No auentureyro, eis pello monte duro Aparece, & ſegundo ao mar caminha Mais apreſſado do que fora vinha.
O batel de Coelho foy depreſſa Pollo tomar, mas antes que chegaſſe, Hum Etiope ouſado ſe arremeſſa A elle porque não ſe lhe eſcapaſſe: Outro & outro lhe ſaem veſſe em preſſa Velloſo, ſem que alguem lhe ali ajudaſſe, Acudo eu logo, & em quanto o remo aperto Se mostra hum bando negro deſcuberto.
Da eſpeſſa nuuem ſêtas & pedradas Chouem ſobre nos outros ſem medida, E não forão ao vento em vão deitadas Que esta perna trouxe eu dali ferida: Mas nos como peſſoas magoadas A repoſta lhe demos tão tecida, Que em mais que nos barretes ſe ſoſpeita Que a cor vermelha leuão deſta feita.
E ſendo ja Velloſo em ſaluamento Logo nos recolhemos pera a armada, Vendo a malicia fea & rudo intento Da gente beſtial, bruta & maluada: De quem nenhum milhor conhecimento Podemos ter da India deſejada, Que eſtarmos inda muyto longe della E aſsi torney a dar ao vento a vella.
Diſſe então a Velloſo hum companheiro (Começando ſe todos a ſorrir) Oula Vedolo amigo, aquelle outeiro He milhor de decer que de ſubir: Si he, reſponde o ouſado auentureiro Mas quando eu pera ca vi tantos vir, Daquelles caẽs, de preſſa hum pouco vim Por me lembrar que estaueis ca ſem mim.
Contou então que tanto que paſſarão Aquelle monte, os negros de quem fallo, Auante mais paſſar o não deixarão, Querendo, ſe não torna, ali matallo: E tornando ſe, logo ſe emboſcarão Porque ſaindo nos pera tomallo, Nos podeſſem mandar ao reino eſcuro Por nos roubar em mais a ſeu ſeguro.
Porem ja cinco Soes erão paſſados Que dali nos partiramos, cortando Os mares nunca doutrem nauegados, Proſperamente os ventos aſſoprando: Quando hũa noite estando deſcuidados Na cortadora proa vigiando, Hũa nuuem que os ares eſcurece Sobre noſſas cabeças aparece.
Tão temeroſa vinha & carregada, Que pos nos coraçoẽs hum grande medo, Bramindo o negro mar, de longe brada Como ſe deſſe em vão nalgum rochedo: O poteſtade, diſſe, ſublimada Que ameaço diuino, ou que ſegredo, Eſte clima, & eſte mar nos apreſenta, Que môr couſa parece que tormenta?
Não acabaua, quando hũa figura Se nos mostra no ar, robuſta & valida, De disforme & grandiſsima eſtatura, O roſto carregado, a barba eſqualida: Os olhos encouados, & a poſtura Medonha & maa, & a cor terrena & palida, Cheos de terra & creſpos os cabellos, A boca negra, os dentes amarellos.
Tão grande era de membros, que bem poſſo Certificarte, que este era o ſegundo De Rodes estranhiſsimo Coloſſo, Que hum dos ſete milagres foy do mundo: Cum tom de voz nos falla horrendo & groſſo Que pareceo ſair do mar profundo, Arrepião ſe as carnes & o cabello A mi, & a todos, ſoo de ouuillo & vello.
E diſſe: O gente ouſada mais que quantas No mundo cometerão grandes couſas, Tu que por guerras cruas, taes & tantas E por trabalhos vãos munca repouſas: Pois os vedados terminos quebrantas E nauegar meus longos mares ouſas, Que eu tãto tempo ha ja que guardo, & tenho Nunca arados deſtranho, ou proprio lenho.
Pois vens ver os ſegredos eſcondidos Da natureza, & do humido elemento, A nenhum grande humano concedidos De nobre, ou de immortal merecimento: Ouue os danos de mi, que apercebidos Eſtão, a teu ſobejo atreuimento, Por todo o largo mar & polla terra Que inda has de ſojugar com dura guerra.
Sabe que quantas naos eſta viagem Que tu fazes, fizerem de atreuidas Inimiga terão esta paragem Com ventos & tormentas deſmedidas: E da primeira armada que paſſagem Fizer por eſtas ondas inſuffridas, Eu farey dimprouiſo tal caſtigo Que ſeja môr o dano que o perigo.
Aqui eſpero tomar ſe não me engano De quem me deſcobrio ſuma vingança, E não ſe acabarâ ſo nisto o dano De voſſa pertinace confiança: Antes em voſſas naos vereys cada anno Se he verdade o que meu juyzo alcança, Naufragios, perdiçoẽs de toda ſorte, Que o menor mal de todos ſeja a morte.
E do primeiro Illuſtre, que a ventura Com fama alta fizer tocar os Ceos, Serey eterna & noua ſepoltura Por juizos incognitos de Deos: Aqui porà da Turca armada dura Os ſoberbos & proſperos tropheos, Comigo de ſeus danos o ameaça A destruida Quiloa com Mombaça.
Outro tambem virâ de honrada fama Liberal, caualeiro, enamorado, E conſigo trarâ a fermoſa dama Que Amor por gram merce lhe terâ dado: Triſte ventura, & negro fado os chama Neste terreno meu, que duro & yrado, Os deixarâ dhum crú naufragio viuos Pera verem trabalhos ecceſtiuos.
Verão morrer com fome os filhos charos Em tanto amor gêrados & nacidos, Verão os Cafres aſperos & auaros Tirar aa linda dama ſeus veſtidos: Os cristalinos membros & perclaros Aa calma, ao frio, no ar verão deſpidos, Deſpois de ter piſada longamente Cos delicados pês a area ardente.
E verão mais osolhos que eſcaparem De tanto mal, de tanta deſuentura, Os dous amantes miſeros ficarem Na ſeruida & implacabil eſpeſſura: Ali deſpois que as pedras abrandarem Com lagrimas de dôr, de magoa pura, Abraçados as almas ſoltaram Da fermoſa & miſerrima priſam.
Mais hia por diante o monstro horrendo Dizendo noſſos fados, quando alçado Lhe diſſe eu: Quem es tu? que eſſe estupendo Corpo, certo me tem marauilhado A boca & os olhos negros retorcendo, E dando hum eſpantoſo & grande brado, Me reſpondeo, com voz peſada & amara Como quem da pregunta lhe peſara.
Eu ſou aquelle occulto & grande Cabo A quem chamais vos outros Tormentorio, Que nunca a Ptolomeu, Pomponio, Eſtrabo, Plinio, & quantos paſſarão fuy notorio: Aqui toda a Africana coſta acabo Neſte meu nunca viſto Promontorio, Que pera o Polo Antariuo ſe eſtende A quem voſſa ouſadia tanto offende.
Fuy dos filhos aſperrimos da terra Qual Encelado, Egeo, & o Centimano, Chameime Adamaſtor,& fuy na guerra Contra o que vibra os rayos de Vulcano: Não que poſeſſe ſerra ſobre ſerra Mas conquiſtando as ondas do Occeano, Fuy capitão domar, par onde andaua A armada de Neptuno, que eu buſcaua.
Amores da alta eſpoſa de Peleo Me fizerão tomar tamanha empreſa, Todas as Deoſas deſprezey do ceo So par amar das agoas a Princeſa: Hum dia a vi coas filhas de Nereo Sayr nua na praya, & logo preſa, A vontade ſinti, de tal maneira Que inda não ſinto couſa que mais queira.
Como foſſe impoſsibil alcançalla Polla grandeza fea de meu geſto, Determiney por armas de tomalla E a Doris eſte caſo manifeſto: De medo a Deoſa então por mi lhe falla: Mas ella cum fermoſo riſo honesto, Reſpondeo: Qual ſera o amor baſtante De Nimpha que ſuſtente o dhum Gigante.
Com tudo por liurarmos o Occeano De tanta guerra, eu buſcarey maneira, Com que com minha honra eſcuſe o dano. Tal reſpoſta me torna a menſageira: Eu que cair não pude neste engano, (Que he grande dos amantes a cigueira) Encherãome com grandes abondanças O peito de deſejos & eſperanças.
Ia neſcio, ja da guerra deſiſtindo Hũa noite de Doris prometida, Me aparece de longe o geſto lindo Da branca Thetis vnica deſpida: Como doudo corri de longe, abrindo Os braços, pera aquella que era vida Deſte corpo, & começo os olhos bellos A lhe beijar, as faces & os cabellos.
O que não ſey de nojo como o conte Que crendo ter nos braços quem amaua, Abraçado me achey cum duro monte De aſpero mato, & de eſpeſſura braua: Eſtando cum penedo fronte a fronte Queu pollo roſto angelico apartaua, Não fiquey homem não, mas mudo & quedo E junto dhum penedo outro panedo
O Nimpha a mais fermoſa do Oceano Ia que minha preſença não te agrada, Que te cuſtaua terme neſte engano, Ou foſſe monte, nuuem, ſonho, ou nada: Daqui me parto irado, & quaſi inſano Da magoa & da deſonra ali paſſada, A buſcar outro mundo, onde não viſſe Quem de meu pranto, & de meu mal ſe riſſe.
Erão ja neſte tempo meus Irmãos Vencidos & em miſeria estrema poſtos, E por mais ſegurarſe os Deoſes vãos Algũs a varios montes ſottopostos: E como contra o Ceo não valem mãos, Eu que chorando andaua meus deſgoſtos, Comecey a ſentir do fado imigo Por meus atreuimentos o caſtigo.
Conuerteſeme a carne em terra dura, Em penedos os oſſos ſe fizerão, Eſtes membros que ves & esta figura Por eſtas longas agoas ſe estenderão: Em fim minha grandiſsima eſtatura Neſte remoto cabo conuerterão Os Deoſes, & por mais dobradas magoas Me anda Thetis cercando deſtas agoas.
Aſsi contaua & cum medonho choro Subito dante os olhos ſe apartou, Desfez ſe a nuuem negra, & cum ſonoro Bramido, muito longe o mar ſoou: Eu, leuantando as mãos ao ſancto coro Dos Anjos, que tão longe nos guiou, A Deos pedi que remoueſſe os duros Caſos, que Adamaſtor contou futuros.
Ia Phlegon, & Pyrois vinhão tirando Cos outros dous o carro radiante, Quando a terra alta ſe nos foy mostrando Em que foy conuertido o grão gigante: Ao longo desta costa, começando Ia de cortar as ondas do Leuante, Por ella abaixo hum pouco nauegamos Onde ſegunda vez terra tomamos.
A gente que eſta terra poſſuya Poſto que todos Etiopes erão, Mais humana no trato parecia Que os outros, que tão mal nos receberão: Com bailos & com feſtas de alegria Pella praya arenoſa a nos vierão, As molheres conſigo & o manſo gado Que apacentauão, gordo & bem criado.
As molheres queimadas vem encima Dos vagaroſos bois, ali ſentadas Animais que elles tem em mais eſtima Que todo o outro gado das manadas: Cantigas paſtoris, ou proſa, ou rima, Na ſua lingua cantão concertadas, Co doce ſom das rusticas auenas Imitando de Titiro as Camenas.
Eſtes como na viſta prazenteiros Foſſem, humanamente nos tratarão, Trazendonos galinhas & carneiros A troco doutras peças que leuarão: Mas como nunca em fim meus companheiros Palaura ſua algũa lhe alcançarão Que deſſe algun ſinal do que buſcamos: As vellas dando, as ancoras leuamos.
Ia aqui tinhamos dado hum gram rodeyo Aa coſta negra de Africa, & tornaua A proa a demandar o ardente meyo Do Ceo, & o polo Antartico ficaua: Aquelle ilheo deixamos, onde veyo Outra armada primeira, que buſcaua O tormentorio Cabo, & deſcuberto, Naquelle ilheo fez ſeu limite certo.
Daqui fomos cortando muitos dias Entre tormentas tristes & bonanças, No largo mar fazendo nouas vias So conduzidos de arduas eſperanças: Co mar hum tempo andamos em porfias Que como tudo nelle ſam mudanças, Corrente nelle achamos tão poſſante Que paſſar não deixaua por diante.
Era mayor a força em demaſia Segundo pera tras nos obrigaua, Do mar, que cantro nos ali corria Que por nos a do vento que aſſopraua: Injuriado Noto da porfia Em que co mar (parece) tanto eſtaua Os aſſopros esforça iradamente Com que nos fez vencer a grão corrente.
Trazia o Sol o dia celebrado Em que tres Reis das partes do Oriente, Forão buſcar hum Rey de pouco nado No qual Rey outros tres ha juntamente: Neſte dia outro porto foy tomado Por nos, da meſma ja contada gente, Num largo rio, ao qual o nome demos Do dia em que por elle nos metemos.
Deſta gente refreſco algum tomamos, E do rio freſca agoa, mas com tudo Nenhum ſinal aqui da India achamos No pouo com nos outros caſi mudo: Ora vê Rey quamanha terra andamos Sem ſair nunca deſte pouo rudo, Sem vermos nunca noua, nem ſinal, Da deſejada parte Oriental.
Ora imagina agora quam coitados Andariamos todos, quam pardidos, De fomes, de tormentas quebrantados Por climas & por mares não ſabidos: E do eſperar comprido tão canſados Quanto a deſeſperar ja compellidos, Por ceos não naturais, de qualidade Inimiga de noſſa humanidade.
Corrupto ja & danado o mantimento Danoſo & mão ao fraco corpo humano, E alem diſſo nenhum contentamento Que ſequer da eſperança foſſe engano: Cres tu que ſe eſte noſſo ajuntamento De ſoldados, não fora Luſitano, Que durara elle tanto obediente Por ventura a ſeu Rey & a ſeu regente?
Cres tu que ja não forão leuantados Contra ſeu capitão ſe os reſiſtira, Fazendo ſe Piratas, obrigados De deſeſperação, de fome, de ira? Grandemente, porcerto eſtão prouados Pois que nenhum trabalho grande os tira Daquella Portugueſa alta eccellencia De lealdade firme, & obediencia.
Deixando o porto em fim do doce rio E tornando a cortar a agoa ſalgada, Fizemos deſta costa algum deſuio Deitando pera o pego toda a armada: Porque ventando Noto manſo & frio Nã nos apanhaſſe a agoa da enſeada, Que a coſta faz ali daquella banda Donde a rica Sofala o ouro manda.
Eſta paſſada, logo o leue leme Encomendado ao ſacro Nicolao, Pera onde o mar na coſta brada & geme A proa inclina dhũa & doutra nao. Quando indo o coração que eſpera & teme E que tanto fiou dhum fraco pao, Do que eſparaua ja deſeſperado Foy dhũa nouidade aluoroçado.
E foy, que eſtando ja da costa perto Onde as prayas & valles bem ſe vião, Num rio, que ali ſae ao mar aberto Bateis aa vela entrauão & ſayão: Alegria muy grande foy porcerto Acharmos ja peſſoas que ſabião Neuegar, porque entrellas eſperamos De achar nouas algũas, como achamos.
Ethiopes ſam todos, mas parece Que com gente milhor comunicauão, Palaura algũa Arabia ſe conhece Entre a lingoagem ſua que falauão. E com pano delgado que ſe tece De algodão, as cabeças apertauãa, Com otro que de tinta azul ſe tinge Cadahum as vergonhoſas partes cinge.
Pella Arabica lingoa que mal falão, E que Fernão martinz muy bem entende Dizem, que por nos, que em grãdeza ygoalão As noſſas, o ſeu mar ſe corta & fende. Mas que la donde ſae o Sol, ſe abalão Pera onde a coſta ao Sul ſe alarga, & eſtende E do Sul pera o Sol, terra onde auia Gente aſsi como nos da cor do dia.
Muy grandemente aqui nos alegramos Coa gente, & com as nouas muito mais. Pellos ſinais que neſte rio achamos O nome lhe ficou dos bons ſinais: Hum padrão neſta terra aleuantamos Que pera aſinalar lugares tais Trazia alguns, o nome tem do bello Guiador de Tobias a Gabello.
Aqui de limos, caſcas & doſtrinhos, Nojoſa criação das agoas fundas, Alimpamos as naos, que dos caminos Longos do mar, vem ſordidas & immundas: Dos oſpedes que tinhamos vizinhos Com moſtras apraziueis & jocundas, Ouuemos ſempre o vſado mantimento Limpas de todo o falſo penſamento.
Mas não foy, da eſperança grande & immenſa Que neſta terra ouuemos, limpa & pura A alegria: mas logo a recompenſa A Ramnuſia com noua deſuentura: Aſsi no ceo ſereno ſe diſpenſa, Coesta condição peſada & dura Nacemos, o peſar terâ firmeza, Mas o bem logo muda a natureza.
E foy que de doença crua & feya A mais que eu nunca vi, deſempararão Muitos a vida, & em terra eſtranha & alheia Os oſſos pera ſempre ſepultarão: Quem auerâ que ſem o ver o creya Que tão disformemente ali lhe incharão, As gingiuas na boca, que crecia A carne, & juntamente apodrecia.
Apodrecia cum fetido & bruto Cheiro, que o âr vizinho inficionaua, Não tinhamos ali medico aſtuto, Sururgião ſutil menos ſe achaua: Mas qualquer neste officio pouco inſtructo Pella carne ja podre aſsi cortaua, Como ſe fora morta, & bem conuinha Pois que morto ficaua quem a tinha.
Em fim que neſta incognita eſpeſſura Deixamos pera ſempre os companheiros, Que em tal caminho & em tanta deſuentura Forão ſempre com noſco auentureiros: Quam facil he ao corpo a ſepultura Quaeſquer ondas do mar, quaeſquer outeiros, Estranhos, aſsimeſmo como aos noſſos, Receberão de todo o illuſtre os oſſos.
Aſsi que deſte porto nos partimos Com mayor eſperança & mòr triſteza, E pella coſta abaixo o mar abrimos Buſcando algum ſinal de mais firmeza: Na dura Moçambique em fim ſurgimos, De cuja falſidade & mâ vileza Ia ſeras ſabedor, & dos enganos Dos pouos de Mombaça pouco humanos.
Ate que aqui no teu ſeguro porto, Cuja brandura & doce tratamento, Darâ ſaude a hum viuo, & vida a hũ morto, Nos trouxe a piedade do alto aſſento: Aqui repouſou, aqui doce conforto, Noua aquietação do penſamento Nos deste, & vês aqui ſe atente ouuiſte, Te contey tudo quanto me pediste.
Iulgas agora Rey ſe ouue no mundo Gentes que tais caminhos cometeſſem? Crês tu que tanto Eneas & o facundo Vliſſes, pello mundo ſe eſtendeſſem? Ouſou algum a ver do mar profundo Por mais verſos que delle ſe eſcreueſſem, Do que eu vi, a poder desforço & de arte, E do que inda ei de ver, a oitaua parte?
Eſſe que bebeo tanto da agoa Aonia Sobre quem tem contenda peregrina, Entre ſi, Rodes, Smirna, & Colofonia, Atenas, Yos, Argo, & Salamina: E ſoutro que eſclarece toda Auſonia, A cuja voz altiſona & diuina Ouuindo, o patrio Mincio ſe adormece, Mas o Tibre co ſom ſe enſoberuece.
Cantem, louuem, & eſereuão ſempre eſtremos Deſſes ſeus Semideoſes, & encareção, Fingindo Magas Circes, Polifemos, Syrenas que co canto os adormeção: Dem lhe mais nauegar â vella & remos Os Cicones, & a terra onde ſe eſquecem Os companheiros em goſtando o Loto, Dem lhe perder nas agoas o Piloto.
Ventos ſoltos lhe finjão & imaginem Dos odres, & Calipſos namoradas, Harpias, que o manjar lhe contaminem Decer aas ſombras nuas ja paſſadas: Que por muito & por muito que ſe afinem Nestas Fabulas vaãs tambem ſonhadas, A verdade que eu conto nua & pura Vence toda grandiloca eſcriptura.
Da boca do facundo capitão Pendendo eſtauão todos embibidos, Quando deu fim aa longa narração Dos altos feitos grandes & ſubidos: Louua o Rey o ſublime coração Dos Reis em tantas guerras conhecidos, Da gente louua a antiga fortaleza, A lealdade danimo & nobreza.
Vay recontando o pouo que ſe admira O caſo cada qual que mais notou, Nenhum delles da gente os olhos tira Que tão longos caminhos rodeou: Mas ja o mancebo Delio as redeas vira Que o irmão de Lampecia mal guiou, Por vir a deſcanſar nos Thetios braços E el Rey ſe vay do mar aos nobres paços.
Quam doce he o louuor & a juſta gloria Dos proprios feitos, quando ſam ſoados, Qualquer nobre trabalha que em memoria Vença, ou ygoale os grandes ja paſſados: As enuejas da illustre & alhea hiſtoria Fazem mil vezes feitos ſublimados, Quem valeroſas obras exercita Louuor alheo muito o eſperta & incita.
Não tinha em tanto os feitos glorioſos De Achiles, Alexandro na pelleja, Quanto de quem o canta, os numeroſos Verſos, iſſo ſo louua, iſſo deſeja: Os tropheos de Melciades famoſos Temiſtocles deſpertão ſo de enueja, E diz, que nada tanto o deleitaua Como a vez que ſeus feitos celebraua.
Trabalha par moſtrar Vaſco da Gama Que eſſas nauegaçoẽs que o mundo canta, Não merecem tamanha gloria & fama: Como a ſua, que o ceo & a terra eſpanta: Si mas aquelle Heroe que eſtima & ama Com doẽs, merces, fauores, & honra tanta A lira Mantuana faz que ſoe Eneas, & a Romana gloria voe.
Dâ a terra Luſitana Scipioẽs Ceſares, Alexandros, & da Auguſtos, Mas não lhe dâ com tudo aquelles doẽs Cuja falta os faz duros & robustos Octauio, entre as mayores opreſſoẽs Compunha verſos doutos & venuſtos, Não dirâ Fuluia certo que he mentira Quando a deixaua Antonio por Glafira.
Vay Ceſar ſojugando toda França E as armas não lhe empedem a ſciencia, Mas nũa mão a pena, & noutra a lança Igoalaua de Cicero a eloquencia: O que de Scipião ſe ſabe & alcança He nas comedias grande experiencia, Lia Alexandro a Homero de maneira Que ſempre ſe lhe ſabe aa cabeceira.
Em fim não ouue forte capitão Que não foſſe tambem douto & ſciente, Da Lacia, Grega, ou Barbara nação Se não da Portugueſa tão ſomente: Sem vergonha o não digo, que a rezão Dalgum não ſer por verſos excelente, He não ſe ver prezado o verſo & rima, Porque quem não ſabe arte não na eſtima.
Por iſſo & não por falta de Natura Não ha tambem Virgilios nem Homeros, Nem auerâ ſe eſte coſtume dura Pios Eneas, nem Achiles feros: Mas o pior de tudo he que a ventura Tão aſperos os fez, & tão Austeros, Tão rudos, & de ingenho tão remiſſo Que a muitos lhe dâ pouco, ou nada diſſo.
Aas Muſas agardeça o noſſo Gama O muito amor da patria, que as obriga A dar aos ſeus na lira nome & fama De toda a illuſtre & bellica fadiga: Que elle, nem quem na eſtirpa ſeu ſe chama, Caliope não tem por tão amiga, Nem as filhas do Tejo, que deixaſſem As tellas douro fino, & que o cantaſſem.
Porque o amor fraterno & puro gosto De dar a todo o Luſitano feito Seu louuor, he ſomente o proſuposto Das Tagides gentis, & ſeu reſpeito: Porem não deixe em fim de ter deſpoſto Ninguem a grandes obras ſempre o peito, Que por eſta, ou por outra qualquer via Não perdera ſeu preço & ſua valia.
F I M.
❧ Canto Seiſto.
Nam ſabia em que modo festejaſſe O Rey Pagão os fortes nauegan tes, Pera que as amizades alcançaſſe Do Rey Chriſtão, das gentes tão poſſantes: Peſalhe que tão longe o apouſentaſſe Das Europeas terras abundantes, A ventura, que namno fez vizinho Donde Hercules ao mar abrio o caminho.
Com jogos, danças, & outras alegrias A ſegundo a policia Melindana, Com vſadas & ledas peſcarias Com que a Lageia Antonio alegra & engana: Eſte famoſo Rey todos os dias Feſteja a companhia Luſitana, Com banquetes, manjares deſuſados Com frutas, aues, carnes, & peſcados.
Mas vendo o Capitão que ſe detinha Ia mais do que deuia, & o freſco vento O conuida que parta & tome aſinha, Os Pilotos da terra & mantimento, Não ſe quer mais deter, que ainda tinha Muito pera cortar do ſalſo argento, Ia do Pagão benigno ſe deſpede Que a todos amizade longa pede.
Pedelhe mais, que aquelle porto ſeja Sempre com ſuas Frotas viſitado, Que nenhum outro bem mayor deſeja Que dar a tais baroẽs ſeu reino & estado: E que em quanto ſeu corpo o ſprito reja Eſtarâ de contino aparelhado, A pôr a vida & reino totalmente Por tão bom Rey, por tão ſublime gente.
Outras palauras tais lhe reſpondia O Capitão, & logo as vellas dando, Pera as terras da Aurora ſe partia, Que tanto tempo ha ja que vay buſcando: No Piloto que leua não auia Falſidade, mas antes vay moſtrando A nauegação certa, & aſsi caminha Ia mais ſeguro do que dantes vinha.
As ondas nauegauão do Oriente Ia nos mares da India, & enxergauão Os talamos do Sol, que nace ardente, Ia quaſi ſeus deſejos ſe acabauão: Mas o mao de Tioneo, que na alma ſente As venturas, que então ſe aparelhauão Aa gente Luſitana dellas dina, Arde, morre, blasfema & deſatina.
Via eſtar todo o Ceo determinado De fazer de Lisboa noua Roma, Não no pode eſtoruar, que deſtinado Eſtâ doutro poder que tudo doma, Do Olimpo dece em fim deſeſperado, Nouo remedio em terra buſca, & toma, Entra no humido reino, & vaiſe aa corte Daquelle, a quem o mar cayo em ſorte.
No mais interno fundo das profundas Cauernas altas, onde o mar ſe eſconde, La donde as ondas ſaem furibundas, Quando aas iras do vento o mar reſponde, Neptuno mora, & morão as jocundas Nereidas, & outros Deoſes do mar, onde As agoas campa deixão aas cidades, Que habitão eſtas humidas deidades.
Deſcobre o fundo nunca deſcuberto As areas ali de prata fina, Torres altas ſe vem no campo aberto Da tranſparente maſſa criſtalina, Quanto ſe chegão mais os olhos perto, Tanto menos a vista determina Se he criſtal o que vê, ſe diamante, Que aſsi ſe moſtra claro & radiante.
As portas douro fino, & marchetadas Do rico aljofar que nas conchas nace, De eſculptura fermoſa estão lauradas, Na qual do irado Baco a viſta pace: E vê primeiro em cores variadas Do velho Chaos a tão confuſa face, Vemſe os quatro elementos traſladados Em diuerſos officios occupados.
Ali ſublime o Fogo eſtaua encima, Que em nenhũa materia ſe ſuſtinha, Daqui as couſas viuas ſempre anima, Deſpois que Prometeo furtado o tinha: Logo a pos elle leue ſe ſublima O inuiſibil Ar, que mais aſinha Tomou lugar, & nem por quente, ou frio, Algum deixa no mundo eſtar vazio
Eſtaua a terra em montes reuestida De verdes eruas & aruores floridas, Dando pasto diuerſo & dando vida Aas alimarias nella produzidas: A clara forma ali estaua eſculpida Das agoas entre a terra deſparzidas, De peſcados criando varios modos, Com ſeu humor mantendo os corpos todos.
Noutra parte eſculpida eſtaua a guerra Que tiuerão os Deoſes cos Gigantes, Esta Tiſeo debaixo da alta ſerra De Etna, que as flamas lança crepitantes: Eſculpido ſe vê ferindo a terra Neptuno, quando as gentes ignorantes. Delle o cauallo ouuerão, & a primeira De Minerua pacifica Ouliueira.
Pouca tardança faz Lyeo irado Ne viſta deſtas couſas, mas entrando Nos paços de Neptuno, que auiſado Da vinda ſua, o eſtaua ja aguardando: Aas portas o recebe, acompanhado Das Nimphas, que ſe eſtão marauilhando, De ver que cometendo tal caminho, Entre no reino dagoa o Rey do vinho.
O Neptuno, lhe diſſe, não te eſpantes. De Baco nos teus reinos receberes, Porque tambem cos grandes & poſſantes Mostra a Fortuna injuſta ſeus poderes: Manda chamar os Deoſes do mar, antes Que fale mais, ſe ouuirme o mais quiſeres, Verão da deſuentura grandes modos, Oução todos o mal que toca a todos.
Iulgando ja Neptuno que ſeria Eſtranho caſo aquelle, logo manda Tritão, que chame os Deoſes da agoa fria, Que o mar habitão dhũa & doutro banda, Tritão, que de ſer filho ſe gloria Do Rey, & de Salacia veneranda, Era mancebo grande, negro & feyo Trombeta de ſeu pay, & ſeu Correyo.
Os cabellos da barba, & os que decem Da cabeça nos ombros, todos erão, Hũs limos prenhes dagoa, & bem parecem Que nunca brando pentem conhecerão: Nas pontas pendurados não falecem Os negros Miſilhoẽs, que ali ſe gerão, Na cabeça por gorra tinha poſta Hũa muy grande caſca de Lagoſta.
O corpa nú, & os membros genitais Por não ter ao nadar impedimento, Mas porem de pequenos animais Do mar, todos cubertos cento & cento: Camaroẽs, & Cangrejos, & outros mais Que recebem de Phebe crecimento, Oſtras, & Camaroẽs do muſco çujos, As coſtas coa caſca os Caramujos.
Na mão a grande Concha retorcida Que trazia, com força ja tocaua, A voz grande canora foy ouuida Por todo o mar, que longe retumbaua: Ia toda a companhia apercebida Dos Deoſes, para os paços caminhaua Do Deos, que fez os muros de Dardania, Deſtroidos deſpois da Grega inſania.
Venha o padre Oceano acompanhado Dos filhos & das filhas que gerara, Vem Nereo, que com Doris foy caſado, Que todo o mar de Nimphas pouoara: O Propheta Proteo, deixando o gado Maritimo pacer pella agoa amara, Ali veyo tambem, mas ja ſabia O que o padre Lyeo no mar queria.
Vinha por outra parte a linda eſpoſa De Neptuno, de Celo & Veſta filha, Graue & leda no gesto, & tão fermoſa Que ſe amanſaua o mar de marauilha: Veſtida hũa camiſa precioſa Trazia de delgada beatilha, Que o corpo cristalino dexa verſe, Que tanto bem não he para eſconderſe.
Anfitrite fermoſa como as ſlores, Neſte caſo não quis que faleceſſe, O Delfim traz conſigo, que aos amores Do Rey lhe aconſelhou que obedeceſſe: Cos olhos que de tudo ſam ſenhores Qualquer parecera que o Sol venceſſe, Ambas vem pella mão, ygoal partido Pois ambas ſam eſpoſas dhum marido.
Aquella que das furias de Atamante Fugindo, veyo a ter diuino eſtado, Conſigo traz o filho, belli Infante, No numero dos Deoſes relatado. Pella praya brincando vem diante Com as lindas conchinhas, que o ſalgado Mar ſempre cria, & aas vezes pella area No colo o toma a bella Panopea.
E o Deos que foy num tempo corpo humano, E por virtude da erua poderoſa Foy conuertido em pexe, & deſte dano Lhe reſultou deidade glorioſa, Inda vinha chorando o feio engano, Que Circes tinha vſado coa fermoſa Scylla, que elle ama, desta ſendo amado Que a mais obriga amor mal empregado.
Ia finalmente todos aſſentados Na grande ſala nobre & diuinal, As Deoſas em riquiſsimos eſtrados, Os Deoſes em cadeiras de cristal: Forão todos do Padre agaſalhados, Que co Thebano tinha aſſento ygoal: De fumos enche a caſa a rica maſſa Que no mar nace, & Arabia em cheiro paſſa.
Eſtando ſoſſegado ja o tumulto Dos Deoſes, & de ſeus recebimentos, Começa a deſcubrir do peito occulto, A cauſa o Tyoneo de ſeus tormentos: Hum pouco carregando ſe no vulto, Dando moſtra de grandes ſentimentos, So por dar aos de Luſo triſte morte Co ferro alheyo, fala deſta ſorte.
Princepe que de juro ſenhoreas Dhum Polo, ao outro Polo o mar irado, Tu que as gentes da terra toda enfreas, Que não paſſem o termo limitado: E tu padre Oceano, que rodeas O mundo vniuerſal, & o tens cercado: E com juſto decreto aſsi parmites, Que dentro viuão ſo de ſeus limites.
E vos Deoſes do mar, que não ſoffreis Injuria algũa em voſſo reino grande, Que com castigo ygoal vos não vingueis, De quemquer que por elle corra, & ande: Que deſcuido foy este em que viueis? Quem pode ſer que tanto vos abrande, Os peitos, con razão endurecidos Contra os humanos fracos & atreuidos?
Vistes que com grandiſsima ouſadia Forão ja cometer o Ceo ſupremo, Vistes aquella inſana fantaſia De tentarem o mar com vella & remo: Vistes, & ainda vemos cada dia, Soberbas & inſolencias tais, que temo Que do mar & do Ceo em poucos anos, Venhão Deoſes a ſer, & nos humanos.
Vedes agora a fraca geracão Que dhum vaſſallo meu o nome toma, Com ſoberbo, & altiuo coração, A vos, & a mi, & o mundo todo doma: Vedes o voſſo mar cortando vão, Mais do que fez a gente alta de Roma, Vedes o voſſo reino deuaſſando Os voſſos eſtatutos vão quebrando.
Eu vi que contra os Mynias, que primeiro No voſſo reino este caminho abrirão, Boreas injuriado, & o companheiro Aquilo, & os outros todos reſiſtirão: Pois ſe do ajuntamento auentureiro Os ventos eſta injuria aſsi ſentirão, Vos a quem mais compete eſta vingança, Que eſperais, porque a pondes em tardança?
E não conſinto Deoſes que cuideis Que por amor de vos do ceo deci, Nem da magoa da injuria que ſofreis, Mas da que ſeme faz tombem a mi: Que aquellas grandes honras, queſabeis Que no mundo ganhey, quando venci As terras Indianas do Oriente, Todas vejo abatidas desta gente.
Que o gran Senhor & fados que destinão, Como lhe bem parece, o baxo mundo, Famas mores que nunca determinão De dar a eſtes baroẽs no mar profundo: Aqui vereis o Deoſes como inſinão O mal tambem a Deoſes. que a ſegundo Se ve, ninguem ja tem menos valia Que quem com mais razão valer deuia.
E por iſſo do Olimpo ja fugi, Buſcando algum remedio a meus peſares, Por ver o preço, que no Ceo perdi, Se por dita acharey nos voſſos mares: Mais quis dizer, & não paſſou daqui, Porque as lagrimas ja correndo a pares Lhe ſaltarão dos olhos, com que logo Se acendem as Deidades dagoa em fogo.
A Ira com que ſubito alterado O coração dos Deoſes foy num ponto, Não ſoffreo mais conſelho bem cuidado, Nem dilação, nem outro algum deſconto: Ao grande Eolo mandão ja recado Da parte de Neptuno, que ſem conto Solte as furias dos ventos repugnantes, Que não aja no mar mais nauegantes.
Bem quiſera primeiro ali Protheo Dizer neste negocio o que ſentia, E ſegundo o que a todos pareceo, Era algũa profunda prophecia: Porem tanto o tumulto ſe moueo Subito na diuina companhia, Que Thetis indinada lhe bradou, Neptuno ſabe bem o que mandou.
Ia la o ſoberbo Hypotades ſoltaua Do carcere fechado os furioſos Ventos, que com palauras animaua, Contra os varoẽs audaces & animoſos: Subito o ceo ſereno ſe obumbraua, Que os ventos mais que nunca impetuoſos Começão nouas forças a yr tomando, Torres, montes & caſas derribando.
Em quanto este conſelho ſe fazia No fundo aquoſo, a leda laſſa Frota Com vento ſoſſegado proſeguia Pello tranquilo mar, a longa rota: Era no tempo quando a luz do dia. Do Eoo Emiſperio estâ remota, Os do quarto da prima ſe deitauão Pera o ſegundo os outros deſpertauão.
Vencidos vem do ſono, & mal deſpertos Bocijando a miudo ſe encoſtauão, Pellas antenas, todos mal cubertos, Contra os agudos ares que aſſoprauão: Os olhos contra ſeu querer abertos Mas estregando os membros estirauão, Remedios contra o ſonno buſcar querem, Hiſtorias contão, caſos mil referem.
Com que milhor podemos, hum dizia, Eſte tempo paſſar, que he tão peſado, Se não com algum conto de alegria Com que nos deixe o ſono carregado? Reſponde Lionardo, que trazia Penſamentos de firme namorado, Que contos paderemos ter milhores Pera paſſar o tempo, que de amores?
Não he, diſſe Veloſo, couſa juſta Tratar branduras em tanta aſpereza, Que o trabalho do mar, que tanto cuſta, Não ſoffre amores, nem delicadeza: Antes de guerra ſeruida & robuſta A noſſa hiſtoria ſeja, pois dureza Noſſa vida ha de ſer, ſegundo entendo Que o trabalho por vir mo eſta dizendo.
Conſentem niſto todos, & encomendão A Veloſo que conte iſto que aproua, Contarei diſſe, ſem que me reprendão De contar couſa fabuloſa, ou noua: E porque os que me ouuirem daqui aprendão A fazer feitos grandes de alta proua, Dos nacidos direy na noſſa terra, E eſtes ſejão os doze de Inglaterra.
No tempo que do reino a redea leue Ioão filho de Pedro moderaua, Deſpois que ſoſſegado & liure o teue Do vizinho poder que o moleſtaua: La na grande Inglaterra, que da neue Boreal ſempre abunda, ſemeaua A fera Erinis dura & mâ cizania Que luſtre foſſea noſſa Luſitania.
Entre as damas gentis da corte Ingleſa, E nobres corteſaõs, a caſo hum dia Se leuantou diſcordia em ira aceſa, Ou foy opinião, ou foy porfia: Os Corteſaõs a quem tam pouco peſa Soltar palauras graues de ouſadia Dizem que prouarão, que honras & famas Em tais damas não ha, pera ſer damas.
E que ſe ouuer alguem com lança & eſpada Que queira ſustentar a parte ſua, Que elles em campo raſo, ou estacada, Lhe darão fea infamia, ou morte crua: A femenil fraqueza pouco vſada Ou nunca a oprobrios tais, vendo ſe nua De forças naturais conuenientes, Socorro pede a amigos & parentes.
Mas como foſſem grandes & poſſantes No reino os inimigos, não ſe atreuem Nem parentes, nem feruidos amantes A ſuſtentar as damas, como deuem: Com lagrimas fermoſas & bastantes A fazer que em ſocorro os Deoſos leuem De todo o Ceo, por roſtos de alabaſtro Se vão todas ao duque de Alencastro.
Era eſte Ingres potente, & militara Cos Portugueſes ja contra Castella, Onde as forças magnanimas prouara Dos companheiros, & benigna eſtrella? Não menos neſta terra eſprimentara Namorados affeitos, quando nella A filha vio, que tanto o peito doma Do forte Rey, que por molher a toma.
Eſte que ſocorrer lhe não queria, Por não cauſar diſcordias inteſtinas Lhe diz, quando o direito pretendia Do reino la das terras Iberinas, Nos Luſitanos vi tanta ouſadia, Tanto primor, & partes tão diuinas, Que elles ſos poderião, ſe não erro Suſtentar voſſa parte a fogo & ferro.
E ſe agrauadas damas ſois ſeruidas, Por vos lhe mandarei embaixadores, Que por cartas diſcretas & polidas, De voſſo agrauo os fação ſabedores: Tambem por voſſa parte encarecidas Com palauras dafagos & damores, Lhe ſejão voſſas lagrimas, que eu creyo Que ali terees ſocorro & forte eſteyo.
Destarte as aconſelha o Duque experto, E logo lhe nomea doze fortes, E porque cada dama hum tenha certo, Lhe manda que ſobrelles lancem ſortes, Que ellas ſo doze ſam: & deſcuberto Qual a qual tem caida das conſortes, Cadhũa eſcreue ao ſeu por varios modos, E todas a ſeu Rey, & o Duque a todos.
Ia chega a Portugal o menſageiro, Toda a corte aluoroça a nouidade, Quiſera o Rey ſublime ſer primeiro, Mas não lho ſoffre a Regia Mageſtade: Qualquer dos corteſaõs auentureiro Deſeja ſer, com feruida vontade, E ſo fica por bemauenturado, Quem ja vem pello Duque nomeado.
La na leal cidade, donde teue Origem (como he fama) o nome eterno De Portugal, armar madeiro leue Manda o que tem o leme do gouerno: Apercebem ſe os doze em tempo breue Darmas, & roupas de vſo mais moderno, De elmos, cimeras, letras, & primores Caualos, & Concertos de mil cores.
Ia do ſeu Rey tomado tem licença Pera partir do Douro celebrado, Aqueles, que eſcolhidos por ſentença Forão do Duque Ingles eſprimentado: Não ha na companhia differença De caualeiro, destro, ou esforçado: Mas hum ſo, que Magriço ſe dizia Deſtarte fala aa forte companhia,
Fortiſsimos conſocios, eu deſejo A muito ja de andar terras estranhas, Por ver mais agoas, que as do Douro & Tejo, Varias gentes, & leis, & varias manhas: Agora que aparelho certo vejo, (Pois que do mundo as couſas ſam tamanhas) Quero ſe me deixais, ir ſò por terra, Porque eu ſerey conuoſco em Inglaterra.
E quando caſo for, que eu impedido Por quem das couſas he vltima linha, Não for com voſco ao prazo instituido, Pouca falta vos faz a falta minha: Todos por mi fareis o que he diuido: Mas ſe a verdade o ſprito me adiuinha, Rios, montes, fortuna, ou ſua enueja, Não farão que eu com voſco la não ſeja.
Aſsi diz & abraçados os amigos, E tomada licença, em fim ſe parte, Paſſa Lião, Caſtella vendo antigos Lugares, que ganhara o patrio Marte: Neuarra, cos altiſsimos perigos Do Perineo, que Eſpanha & Galia parte: Vistas em fim de França as couſas grandes, No grande emperio foy parar de Frandes.
Ali chegado, ou foſſe caſo, ou manha, Sem paſſar ſe deteue muitos dias, Mas dos onze a illuſtriſsima companha Cortão do mar do Norte as ondas frias: Chegados de Inglaterra aa coſta eſtranha, Pera Londres ja fazem todos vias, Do Duque ſam com feſta agaſalhados, E das damas ſeruidos, & amimados.
Chegaſſe o prazo, & dia aſinalado, De entrar em campo ja cos doze Ingleſes, Que pello Rey ja tinhão ſegurado, Armanſe delmos, greuas, & de arneſes: Ia as damas tem por ſi fulgente & armado O Mauorte feroz dos Portugueſes, Vestem ſe ellas de cores & de ſedas De ouro, & de joyas mil, ricas, & ledas.
Mas aquella, a quem fora em ſorte dado Magriço, que não vinha, com triſteza Se veſte, por não ter quem nomeado Seja ſeu caualeiro, nesta empreſa: Bem que os onze apregoão, que acabado Sera o negocio aſsi na corte Ingleſa, Que as damas vencedoras ſe conheção Poſto que dous & tres dos ſeus falleção.
Ia num ſublime & pubrico theatro Se aſſenta o Rey Ingles com toda a corte, Eſtauão tres & tres, & quatro & quatro, Bem como a cada qual coubera em ſorte: Não ſam vistos do Sol do Tejo ao Batro, De força, esforço, & danimo mais forte, Outros doze ſayr como os Ingleſes No campo, contra os onze Portugueſes.
Maſtigão os caualos escumando Os aureos freos, com feroz ſembrante, Estaua o Sol nas armas rutilando, Como em criſtal, ou rigido diamante: Mas enxergaſe num & noutro bando Partido deſigoal & diſſonante Dos onze contra os doze: quando a gente Começa a aluoroçar ſe geralmente.
Verão todos o rosto aonde auia A cauſa principal do rebuliço, Eis entra hum caualeiro, que trazia Armas, caualo, ao bellico ſeruiço. Ao Rey & aas damas fala, & logo ſe hia Pera os onze, que eſte era o gram Magriço, Abraça os companheiros como amigos, A quem não fata certo nos perigos.
A dama como ouuio, que este era aquelle, Que vinha a defender ſeu nome, & fama, Se alegra, & veſte ali do animal de Hele, Que a gente bruta mais que vertude ama: Ia dão ſinal, & o ſom da tuba impelle Os belicoſos animos, que inflama, Picão deſporas, largão redeas logo Abaxão lanças, fere a terra fogo.
Dos caualos o estrepito parece Que faz, que o chão debaixo todo treme, O coração no peito, que estremece De quem os olha, ſe aluoroça, & teme: Qual do caualo voa, que não dece, Qual co caualo em terra dando, geme, Qual vermelhas as armas faz de brancas, Qual cos penachos do elmo açouta as ancas.
Algum dali tomou perpetuo ſono, E fez da vida ao fim breue interualo, Correndo algum cauallo vay ſem dono, E noutra parte o dono ſem caualo: Cae a ſoberba Ingleſa de ſeu trono, Que dous ou tres ja fora vão do valo, Os que de eſpada vem fazer batalha, Mais achão ja que arnes, eſcudo, & malha.
Gastar palauras em contar eſtremos De golpes feros, cruas eſtocadas, He deſſes gaſtadores, que ſabemos Maos do tempo, com fabulas ſonhadas: Baſta por fim do caſo, que entendemos Que com finezas altas & affamadas, Cos noſſos fica a palma da victoria, E as damas vencedoras, & com gloria.
Recolhe o Duque os doze vencedores Nos ſeus paços, com feſtas & alegria, Cozinheiros occupa, & caçadores Das damas a fermoſa companhia, Que querem dar aos ſeus libertadores Banquetes mil, cada hora, & cada dia, Em quanto ſe detem em Inglaterra, Ate tornar aa doce & chara terra.
Mas dizem que com tudo o gram Magriço Deſejoſo de ver as couſas grandes, La ſe deixou ficar, onde hum ſeruiço Notauel aa condeſſa fez de Frandes: E como quem não era ja nouiço Em todo trance, onde tu Marte mandes, Hum Frances mata em campo, que o deſtino La teue de Torcato & de Coruino.
Outro tambem dos doze em Alemanha Se lança, & teue hum fero deſafio Cum Germano enganoſo, que com manha Não diuida o quis pòr no eſtremo fio: Contando aſsi Veloſo, ja a companha Lhe pede, que não faça tal deſuio Do caſo de Magriço, & vencimento Nem deixe o de Alemanha em eſquecimento.
Mas neste paſſo aſsi promptos eſtando, Eis o meſtre, que olhando os ares anda, O apito toca, acordão deſpertando Os marinheiros dhũa & doutra banda: E porque o vento vinha refreſcando, Os traquetes das gaueas tomar manda, Alerta, diſſe, estay, que o vento crece Daquella nuuem negra que aparece.
Não erão os traquetes bem tomados, Quando dà a grande & ſubita procella, Amaina, diſſe o meſtre a grandes brados Amaina, diſſe, amaina a grande vella, Não eſperão os ventos indinados Que amainaſſem, mas juntos dando nella, Em pedaços a fazem, cum ruido Que o mundo pareceo ſer deſtruydo.
O ceo fere com gritos niſto a gente, Cum ſubito temor, & deſacordo, Que no romper da vela a Nao pendente Toma gram ſuma dagoa pello bordo, Alija, diſſe o meſtre, rijamente, Alija tudo ao mar, não falte acordo, Vão outros dar a bomba não ceſſando, Aa bomba que nos imos alagando.
Correm logo os ſoldados animoſos A dar aa bomba, & tanto que chegarão, Os balanços, que os mares temeroſos Derão aa Nao, num bordo os derribarão: Tres marinheiros duros, & forçoſos, A menear o leme não baſtarão, Talhas lhe punhão dhũa & doutra parte Se aproueitar dos homens força & arte.
Os ventos erão tais, que não poderão Moſtrar mais força dimpeto cruel, Se pera derribar então vierão A fortiſsima torre de Babel: Nos altiſsimos mares, que crecerão, A pequena grandura dhum batel, Moſtra a poſſante nao, que moue eſpanto Vendo que ſe ſoſtem nas ondas tanto.