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Nota de editor:
Devido à existência de erros tipográficos neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
Rita Farinha (Julho 2010)
SOCIEDADE DE GEOGRAPHIA DE LISBOA
OS DIALECTOS ROMANICOS OU NEO-LATINOS NA AFRICA, ASIA E AMERICA
POR F. ADOLPHO COELHO
Professor do Curso Superior de Lettras e socio effectivo da Sociedade de Geographia de Lisboa

LISBOA CASA DA SOCIEDADE DE GEOGRAPHIA 89, RUA DO ALECRIM, 89 1881
IMPRENSA NACIONAL
Extrahido do Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa
OS DIALECTOS ROMANICOS OU NEO-LATINOS NA AFRICA, ASIA E AMERICA
N'uma conferencia feita ante a Sociedade de Geographia em 16 de fevereiro de 1878 chamámos a attenção dos nossos consocios e do publico para as fórmas dialectaes particulares que algumas linguas europêas e particularmente o francez, o hespanhol e o portuguez, tinham tomado nas colonias e conquistas da Africa, Asia e America. Esses dialectos têem até hoje attrahido muito pouco a attenção dos linguistas, não existindo ainda nenhum trabalho geral sobre elles.
Era nosso desejo reunir os materiaes para um trabalho especial sobre os dialectos portuguezes, e um trabalho geral comparativo em que tentassemos determinar as leis de formação d'esses dialectos, formação que se póde por assim dizer estudar
no vivo
, porque um similhante estudo não poderia deixar de nos ministrar dados importantes sob os pontos de vista glottologico, ethnologico e psychologico.
Pedimos n'essa conferencia esclarecimentos, como já o tinhamos feito por outros meios, e os nossos pedidos não foram de todo inuteis. Um mancebo intelligente da ilha de Santo Antão, o sr. Cesar Augusto de Sá Nogueira, que assistíra á conferencia, deu-nos todos os materiaes para o estudo que publicâmos do dialecto creolo d'aquella ilha. O nosso amigo rev. R. H. Moreton continuou nos seus dedicados esforços para nos obter publicações no dialecto portuguez de Ceylão, e a elle devemos em grande parte poder dar hoje uma bibliographia já assás consideravel d'essas publicações e, o que é mais, possuil-as, estando assim habilitados para publicar em breve um estudo bastante completo sobre a
Grammatica e vocabulario do indo-portuguez
. No meio de outros trabalhos mais consideraveis nunca perdemos de vista os dialectos creolos, que havia muito nos interessavam, e fomos assim reunindo uma serie de noticias, em parte simplesmente bibliographicas, cujo conjuncto nos parece offerecer já doutrina sufficiente para constituir materia de um artigo de ensaio. Por mais incompleto que fique o nosso trabalho estamos certos que vem preencher uma lacuna no quadro da glottologia. Fr. Pott no quadro systematico-bibliographico da glottologia que serve de prefacio ao tomo II, 4 das suas
Etymologische Forschungen
(1870) nem sequer menciona os dialetos creolos; nos livros geraes de Whitney, Max Müller e outros sobre a glottologia em vão se busca uma noticia d'esses tão interessantes productos; as opiniões expressas por alguns linguistas sobre o caracter d'esses dialectos, são, como veremos, indecisas ou erroneas, ou não apontam os lados por que esses dialectos são mais importantes para o observador. Comprehende-se este facto singular da historia da nossa sciencia quando se sabe que uma parte dos glottologos gastam o seu tempo á busca da solução de problemas ou insoluveis ou cuja chave não está ainda descoberta (etrusco, basco, acadiano, etc.), e outra anda absorvida pelos seus estudos especiaes, sem duvida interessantes e muitas vezes importantes, mas que fazem desviar a attenção de questões de muito maior momento, sendo poucos os que fazem progredir a sciencia de uma maneira sensivel.
O nosso ensaio seria muito mais completo se tivessemos maior numero de informações dos dialectos das nossas colonias e conquistas, e se tivessemos visto diversas publicações sobre os dialectos similhantes das outras linguas europêas, que por diversas causas não podémos examinar. Entre essas causas predominam a raridade de algumas d'essas publicações e miseravel dotação das nossas bibliothecas, que não lhes permitte comprar senão poucos livros que interessem a um pequeno numero de estudiosos.
I. DIALECTOS PORTUGUEZES
1. Creolo da ilha de Santo Antão (archipelago de Cabo Verde)
Este dialecto é fallado principalmente pela população de côr e pelas creanças que o aprendem com as creadas e amas negras. Distinguem-se duas fórmas: o creolo
rachado
, creolo
fundo
, creolo
vejo
, fallado principalmente no interior da ilha e de que as noticias e documentos que publicâmos dão conhecimento, e o creolo em que a grammatica portugueza é menos ignorada, distinguindo-se quasi unicamente pela pronuncia de algumas palavras ou sons e pelo accento geral.
As cartas seguintes foram escriptas por pessoas instruidas que fallam bem o portuguez, mas conhecem bem o creolo rachado. O unico documento verdadeiramente genuino do dialecto de Santo
Antão
acha-se na serie de adivinhações que o nosso amigo o sr. Sá Nogueira nos ministrou.
Carta 1.ª
Nha amigo.—Cu préssa en scrêbê ês dôs fója di papel, qui dentro d'ês carta en tâ manda nhô. Meu amigo.—Com pressa escrevi estas duas folhas de papel que dentro d'esta carta lhe envio.
Talvêz algun cúsa, palabra, ou móde nhù crê, stâ êrrado. Cuza qn'en câ tâ dubída; pamóde pâ más criôlo qui nós di Cabo Berde nú sabê, sénpre nu tâ ncontra dificuldade ou enbaráço, quel'ora qui nú pêga na péna pâ nu scrêbê na nós lingua. Talvez alguma cousa, palavra ou como quizer, esteja errada. O que não duvido, porque por mais creolo que nós de Cabo Verde saibâmos, sempre encontrâmos difficuldade ou embaraço logo que pegâmos na penna para escrevermos na nossa lingua.
Ês culpa ê câ di nós, ê di gobérno, qui si al bê animaba nós na calquér cuza, ê tâ oprimíno cú má scoja di sês empregado, qu'ê tâ manda pâ Cabo Berde. A culpa não é nossa, é do governo que longe de animar-nos em qualquer cousa, opprime-nos com a má escolha dos seus empregados, que elle manda para Cabo Verde.
Ê tâ fazê bên mal, pamóde assi ê tâ pêrdê tudo amor, tudo stima qu'ê pôdê tên na pôbo di Cabo Berde. Ês cuza ê câ só na Cabo Berde, ê pâ tudo cábo, unde ê tên un palmo di chôn. En podê flába nhô cuzás chéo a ruspêto di nós gobérno na Cabo Berde, ¿mas paquê? Ês carta ê câ, sima português tâ flâ, di politica, e pamóde ês en tâ bira pâ principio di nós conbersa. Ê sima en staba tâ flâ nhô, en câ sabê si algun cuza stâ tórto ou mál screbêdo nês dôs fójas di papel; mas câ m'inporta cú ês, e nhu ôubi cuss'ê qu'ent â flâ nhô: Na fója un e na linha binte eu binte un, nhu tâ lé na banda di criôlo «nha Dóna di nha Lucía» e na banda di português nhú câ tâ acha nada qui, sima português tâ flâ, tâ corrêspondêl. Faz bem mal, porque assim perde todo o amor e toda a estima que póde ter no povo de Cabo Verde. Isto não é só em Cabo Verde é por toda a parte, onde elle tem um palmo de terra. Eu podia dizer-lhe muitas cousas a respeito do nosso governo em Cabo Verde, mas para que? Esta carta não é, como dizem os portuguezes, de politica, e por isso volto ao principio da nossa conversação. É como lhe estava dizendo, não sei se alguma cousa está errada ou mal escripta n'essas duas folhas de papel; mas não nos importemos com isso, e ouça o que lhe digo: Na folha 1 v. e linhas vinte e vinte um, na columna creola «nha Dona nha Luzia», e no portuguez não encontro nada que, como dizem os portuguezes, lhe corresponda.
Nhú sabê ê pamóde? Ê pamóde ês Dóna ê un nóme qui na criôlo tâ chomádo «nome di cassa», e ê tâ custuma pôdo n'algun minino fémea. Ê pâ ês nóme que ês minino tâ chomado tioqu'ê grande, ou tioqu'ê mórré. Ês uso ê câ só di Cabo Berde, na Brazil tanbê ê tâ usado, e assi mi conchê ghentes chéo cú nome di Nené, Nhanhina, Nhánha, Sinhârínha, Nhásinhára, Júca, Jóca, sin sér sês nome di batismo, ou sês nome di greja. Sabe a rasão? É porque Dona n'aquelle logar é um nome que em creolo se chama «nome de casa», e usa-se nas meninas (creanças). É por esse nome que ellas são chamadas até á maioridade ou até á morte. Este uso não é só de Cabo Verde, no Brazil tambem se usa, e assim conhecemos muita gentecom os nomes de Néné . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . e Joca sem serem os seus nomes de baptismo.
Agora si nhú crê sabê cuss'ê quí Dóna crê flâ, en tâ flâ nhô, no portugués ê avó e Dóno ê avô. Agora se quizer saber o que quer dizer Dona, eu lhe digo, em portuguez é avó e Dono avô.
A ruspêto di berbo, criôlo câ tên tudo tudo qui português tâ choma ténpo. Emquanto a verbos, o creolo não tem tudo quanto o portuguez chama tempo.
Prónóme ê sima ja'n esplicá nhô na fója dôs. Na criôlo di Cabo Berde câ tên bós ou abós pâ vós di português, e ês tâ flâ nhô, o qu'ês tâ papiâ cú alguên só, e nhôs, o qu'ês tâ papiâ cú más d'un. O pronome é como já lhe expliquei na folha 2. No creolo de Cabo Verde só ha bós ou abós para o vós portuguez, e usam de nhô quando fallam a uma pessoa só, e de nhôs quando fallam a mais de uma.
Agora En, min, amin ê quasi tudo ô mésmo, cú algun différença, cónfórme conbersa tâ corrê. Tanbê criôlo tên mi. Ex.: Agora emquanto a En, min, amin é quasi tudo o mesmo, com alguma differença conforme o seguimento da conversação. Tambem o creolo tem mi. Ex.:
En crê ês cuza. Eu quero esta cousa.
Quênhê qui fazê ês cuza? Ê mi. Quem fez isto? Fui eu.
Amin en sâ tâ bá enghênho, ou Amin sâ tâ bá enghênho, ou En sâ tâ bá enghenho. Eu vou ao engenho . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Jâ bástâ. Nhú al stâ enfadado. Agóra tioque nu encontra na biblióthéca. Basta. Deve de estar enfadado. Agora até quando nos encontrarmos na bibliotheca.
Nhú acreditan, cum'amigo (ou sima'amigo) qui tâ respêta nhô chéo. Acredite-me, como amigo, que muito o respeita.
Carta 2.ª
Césa.—Pan fartá-bo bontade en tâ scrêbê-bo na nós lingua, na criôlo rachado, qu'en câ sabê si bô tâ entendê-le. Cesar.—Para vos fazer a vontade eu escrevo-vos na nossa lingua, em creolo fundo, que eu não sei se vós o entendeis.
Flan: pâ que bô mestê pâ nû scrêbêbo nês lingua? Bô tenê gána di estudâ si orige, fazê algun gramatica ou dicionare? S'ê pâ algun dês cussa Deus juda-bos; mas dexam fla-bo mê al fazê-bo suâ tioque bu câ podê más, tioque bi seinti... Dizei-me: para que precisaes de que vos escrevamos n'esta lingua? Tendes desejo de estudar a sua origem, de fazer alguma grammatica ou diccionario? Se é para alguma d'estas cousas, Deus vos ajude, mas sempre vos direi que isso vos fará suar até não poderdes mais, até que o sintaes . . . . . . . . . . . . . .
N'ês ija quasi tudo alguên tenê médo di Duco. Duco bu conchê-le? Estan mâ náu. Duco era un préso que staba na calabôs; ê entendê mê câ stába lâ sábe, ê fugi êle cû dôs companheros; ê stâ riba cháda; tâ mátâ cábra, tâ forçâ mujéres, tâ fazê tudo casta di pouca borgonha. Flado mâ Duco manda flâ Henrique d'Olibéra, Puchim, Maia, Bencesláu pâ ês tomâ seintido cú sês bida, pâ ês câ bá fóra, pamóde se encontra cu êles mê tâ matalos. Fazê idéa mó ês al tênê mêdo! N'esta ilha quasi toda a gente tem medo de Duco: Duco vós conheceil-o? Estou que não. Duco era um preso que estava no calabouço; e entendeu que não estava lá bem; e fugiu com dois companheiros; está em cima da achada; mata cabras, força mulheres, faz toda a casta de pouca vergonha. Diz-se (fallado) que Duco manda dizer a Henrique de Oliveira, Puchim, Maia, Wenceslau para que estes tomem sentido com a sua vida, para estes não irem fóra, poisque se se encontra com elles que os mata. Fazei idéa, como estes terão medo!
P. si bida ê dentro cartore; ê stâ magro sima alguên tisgo; ê flâ mâ só bo que sâ tâ fazê-le falta; ê mandá-bo mantenha chéo. Paulo a sua vida é dentro do cartorio, elle está magro assim como um tisico; diz que sois vós que lhe tendes feito falta; elle manda-vos muitas recommendações.
Ti outr'ora; en câ ten mâs tempo. Bo armun, etc. Até outra occasião; eu não tenho mais tempo. Vosso irmão, etc.
Carta 3.ª
Nha estimado armun. En rêcêbê carta di nhô, qu'in fica munto contente con êl, e pan fazê nhô bontade en tâ cumçâ screbê nhô na criôlo. Primêro nobidade qu'in tâ dâ nhô ê cumâ C. mâ tâ recitâ quês berços di dôda de Albano na criôlo e ê ta cunçal sin: Meu estimado irmão. Eu recebi carta do senhor, que eu fico muito contente com ella, e para fazer ao senhor vontade eu começo a escrever ao senhor em creolo. Primeira novidade que eu dou ao senhor é que C. recita aquelles versos da doida de Albano em creolo, e começa assim:
Benca li nha fijo sucuta: Vem cá meu filho escuta:
Bê ê amigo di bu mái? És amigo de tua mãe?
Bé! nha mái, e que pergunta ê ês? Bem, minha mãe, e que pergunta é essa?
Pôs bên, sima bu ojá ês carnuja carnugado, ferucho feruchado ê sangue di bu pai; i bu tâ juran cumâ bu ta bingal? Pois bem, assim como tu vês este ferro enferrujado é sangue de teu pae, e tu juras-me como o vingas?
En tâ jura! Eu juro!
Ampôz ê Ricardo pai di Maria, qui matâ bu pai! Pois é Ricardo, pae de Maria, que matou teu pae!
Bé! mamái! Pai di Maria en câ podê matal, pamóde Maria stan dente nha côraçon. Bé! mamã! Pae de Maria eu não posso matal-o, porque Maria está dentro de meu coração.
E assim cú munto cuza, mas qu'in câ sabê, e por isso en câ tâ pon. Quen qui costumá tanbê recital ê Brito e mas Quinquim. E assim com muita cousa, mas que eu não sei, e por isso eu não ponho. Quem aqui tambem costuma recital-os é Brito e mais Joaquim.
En pidi nhô di fabôr pá nhú mandan quêl dicionare; en pedi té na português, gora en tâ biral na criôlo. Quê pâ fabur câ nhú desquecê. En tâ, cába ês carta pan porgunta nhô s'ê pêrciso escrêbê nhô en criôlo na tudo bapor, ou náo. Eu pedi ao senhor o favor de mandar-me aquelle diccionario; eu pedi em portuguez, agora eu traduzo (viro) em creolo. Queira por favor não se esquecer. Eu acabo esta carta por perguntar ao senhor se é preciso escrever ao senhor emcreolo por todos os vapores ou não.
Nhu adés, nhú dán tudo alguen mantênha chéo. Tudo ghentes di casa tâ mandâ nhô mantenha chéo.
Phrases diversas
Mâ nhu stâ? ou Mâ nhu pássâ? Como está? ou como passa?
Cômmôdádo, nhô mâ nhu sa ta pássâ? Bom, e o sr. como tem passado?
Mâ ba ghentes tudo dinhô? ou Móde ghentes tudo di nhô stâ? Como estão todos os seus?
Tudo stâ bon, graças a Déus. Todos estão bons, graças a Deus.
Jâ dura qui en ca ôjâ nhô; Unde nhu staba? ou Unde nhu tên stado? Ha muito tempo que o não vejo, onde tem estado?
Mi en stába la na Orgôn, ou En tên stâdo la na Orgôn. Eu estava nos Orgãos, ou eu tenho estado nos Orgãos.
Cuz'é ou Cuss'ê nhu bá fazêba lâ? O que foi lá fazer?
En bába oja (ou en bá ojába) un nhâ parente, qui stába doente. Fui ver uma parenta minha que estava doente.
¿Quênhê, tia di nhô, nhâ Maria? ¿Cuss'ê qu'ê tênba? Quem? a sua tia, a sr.a Maria? O que tinha ella?
E tênba dór na péto, ou, ê ta quexaba di dór na péto. Tinha dores no peito, ou queixava-se de dores no peito.
Ê jâ stâ milhor? Já está melhor?
En dêxal um pouco milhor, ou, En dêxal más cômôdádo un pouco. Deixei-a um pouco melhor.
Púndo nhu sâ tâ bai? (gossi-n). Para onde vae agora?
En sâ tâ bai Praia. Vou á Praia.
I mi en sâ tâ bai (ou bá) Tarrafal ou Tarfal. E eu vou para o Tarrafal.
Anton nhu tên qui anda chêo inda. Então tem de andar ainda muito.
Qui horas ê gossin? ou Canto hora jâ dâ? Quantas horas são?
Já stâ pâ dôs hora. Devem ser duas horas.
Dêxam bai, tioque nu torna ojá. Deixe-me ir, até quando nos tornarmos a ver.
Nhu adés. (adés). Adeus.
F. En tâ pidi bo pâ bo escrêbên um carta na criôlo, mas num criôlo bêrdadêro. Bu al acha galante ês pidido; mas oc bu sabê ê pâ cuzé, bu al ficá conténte. Gossin en câ podê flábo ê pâ que fin, pamóde en câ tên ténpo. F. Peço-te que me escrevas uma carta em creolo, mas em um creolo verdadeiro (puro). Has de achar exquisito (extravagante) este pedido, mas quando souberes para que é, ficarás satisfeito. Agora (n'esta occasião) não posso dizer-te para que fim é, porque não tenho tempo.
Câ bu squêcê, ¿já bu oubí? Não te esqueças, ouviste?
Bo armun amigo. Teu irmão, amigo.
Jâ bu râcêbê nha carta qui en scrêbê-bo na criôlo? Respondên e e mandâ flan mode ghentes tudo stâ. Já recebeste a minha carta que te escrevi em crioulo? Responde-me e manda dizer-me como estão todos.
Titia jâ stâ mijór di si dismaios? Nha Dóna di nha Lucía inda câ cômôda? A tia já está melhor dos seus desmaios? A nha Dona da Luzia ainda não está boa?
Logo qui[1] bu rêcêbê ês carta, bu ta manda chôma Roque, e bu ta flal cumâ en rêcêbê si carta, e su xinti chêo di más, di máo tratos, qui scribons sâ tâ dal. Logo que receberes esta carta mandarás chamar o Roque, e lhe dirás que recebi a carta d'elle, e senti bastante dos maus tratos, que os escrivães lhe têem dado.
Comâ gossin en câ podê fazel náda, e pâ ê spêra tioque en boltâ C. Berde; e anton en tâ oja, si algun cuza en tâ podê alcança na si fabôr. Que agora nada lhe posso fazer, e que espere até (quando) eu voltar a Cabo Verde, e verei então se alguma cousa posso alcançar em seu favor.
Adivinhações
«Os creolos em Cabo Verde, diz-nos o sr. Nogueira, pelo menos em Sant'Iago, têem por costume contarem historias, isto é, lendas ou contos.
«Quasi sempre essas historias são contadas á noite, assentando-se as pessoas que tomam parte n'esse passatempo de caracter verdadeiramente familiar, á porta da rua ou então dentro de casa, fazendo d'esse passatempo um serão. Precedem a essas historias as adivinhações, sendo algumas d'estas bem obscenas.»
Eis uma pequena serie d'essas adivinhas que o nosso collaborador nos ministrou:
1. Xintido. Mi li, mi lá.
2. Porco. Mungo mungo tâ ba rúbera.
3. Chúba na banána. Ráque-ráque na pedragál.
4. Ê un home que mátâ un buro, pamóde um pé de coube. Curupíu de dâs pé mátâ curúpíu de quato pé, sob curupiu de um pé.
5. Ê ôjo. In tên nhâ dôs fijo na janélla nium câ tâ ôjâ companhêro.
6. Falla. In tên nhâ fijo in tâ mandal dento chuba ê câ tâ môjâ.
7. Máma di cadêra. In tên nhâ dôs fijo tâ córê tudo córê, nium câ tâ pássâ companhêro.
8. Oréja. In tên nhâ figuêrinha na pónta di rócha, tâ queí, câ tâ queí.
9. Sónbra. In córê ín câ pêga, in xinta in pêga.
10. Bôca cú dente. In tên nhâ pucarínha cheio d'ôsso.
11. Tripiche. Chôro na cassa di riba, batuque na cassa di baxo.
12. Pánno. Nôte di cumprido, di dia di trabêsado.
13. Caldêron. Ê tên pé ê câ tâ ánda ê tên aça ê câ tâ buâ.
14. Arco d'abêja. Jôn di Pico, Manél d'Orgôn, sê câ súbi ê al trabêssa.
15. Pedra fôgôn. In tên três préto; si ún câ stâ, quêlouto dôs câ tâ sirbi.
16. Óbo. Radondête indête que não tem tapo nem tôpête.
17. Anzol:—ê tâ lêba isca mórto, ê tâ tarcê pexe Préto côrcôbádo que tâ lêba mórto, tâ trâzê bibo.
18. Póte. Ê bá dêtado, ê bên sâquédo.
19. Estréla na Céo. In tên nha cúrál di cábra, nôte pâ manheê nium.
20. Máma de báca. Nha quato bôli bóca pâ báxo lête câ tâ lánça.
21. Estrubado. Nhâ boi tâ bônba lâ na Tarafál, in tâ oubi li.
22. Mandioca. Ríquití pé béjo fésta quê câ chiga, ê câ sabe.
23. Morte. In bai pân cá bên más.
24. Calbicêra. Albo cú mâ albâiáda, verde mâ vêrdête, tên côr di rabu de sancho, mas ê câ êl.
25. Caminho. Un hóme grande sin sónbra.
26. Fumo. Nha cabállo dento cóma na rua.
27. Sino. Sin câ pêga nha boi rábo ê câ tâ bônba.
28. E côco cú si pája, cu cumida, cu ágo. In tên un caza di pája dento quêl caza di pája in tên un caza branca, dento caza branca in tên un fonte d'ágo.
29. Cruz na cháda. In tên nha báca na cháda, in câ tâ dâ pája, in câ tâ dé ágo, tudo alghên qui páçâ ta botan el um mô de pája.
30. Nabíu. In tên un óme grande na mê di mar, s'ê câ bento ê câ tâ anda.
Observações phoneticas
Dos sons do portuguez faltam no creolo de Santo Antão
lh
, substituido por
j
(
paja
,
ija
,
foja
,
fijo
,
scoja
),
v
substituido por
b
(
dubida
,
dêbê
,
oubi
,
pobo
,
conbersa
,
biro
,
fabur
); os diphthongos nasaes (
Jan
==
João
,
Orgon
==
Orgãos
,
coraçon
==
coração
,
armun
==
irmãos
,
náo
==
não
); o diphthongo
ei
, substituido por
é
,
ê
(
proméro
,
ruspêto
,
figuêrinha
).
Ha alguma tendencia para o iotacismo:
di
==
de
.
I
desapparece em
pos
==
pois
,
mas
==
mais
.
Mudanças varias nas vogaes atonas:
armum
==
irmão
,
proméro
==
primeiro
,
borgonha
==
vergonha
,
ruspêto
==
respeito
.
Mudança nas vogaes accentuadas:
cuza
==
cosa
,
favur
==
favor
.
Apherese de vogal ou de syllaba:
sim
==
assim
,
nhô
==
senhor
,
nha
==
minha
[2]
;
tâ
==
está
.
Syncope de vogal:
cumçâ
==
começar
,
crê
==
querer
,
conchê
==
conhecer
.
Apocope de vogal ou de syllaba inteira:
calabôs
==
calaboço
,
mó
(como)==
modo
,
mo
==
molho
,
ês
==
este
.
Apocope de
r
: regular no infinito (
ser
é uma excepção, se não ha erro no paradigma que nos enviou o nosso informador);
nhô
==
senhor
,
pâ
==
por
.
Varia:
ago
==
agua
,
sucuta
==
escuta
.
Observações morphologicas
1.
Genero.
Os adjectivos não têem fórmas que indiquem o genero. A fórma typica é em geral a fórma masculina portugueza; mas ha excepção, como
nha
==
minha
.
2.
Numero.
O emprego das fórmas do plural não se póde estabelecer com certeza dos textos que temos á nossa disposição, nem das noticias que nos ministraram.
Os casos seguintes parecem-nos representar as tendencias do dialecto no emprego do
s
do plural: a) os adjectivos e pronomes empregados como adjectivos não tomam o signal do plural (mas diz-se
quel
,
quels
); b) com os numeraes o substantivo não toma o signal do plural (mas na carta 2.ª ha
dôs companheros
); c) quando do contexto da phrase resulta a idéa da pluralidade falta o
s
do plural. Exemplos:
es dos foja. tres preto. mujer, mujeres. estas duas folhas. tres pretos. mulher, mulheres.
Com relação ao plural diz-nos o nosso informador: «A tendencia que ha hoje para empregar regularmente as fórmas do plural torna-se muito sensivel».
3.
Pronomes.
Os pronomes demonstrativos são:
ês
(este, esse) e
quel
(aquelle).
Ês home. Ês mujer. Ês homes. Ês mujeres. Este homem. Esta mulher. Estes homens. Estas mulheres.
Quel rapaz. Quel rapariga. Quels (ou quel) rapaz. Quels (ou quel) raparigas. Aquelle rapaz. Aquella rapariga. Aquelles rapazes. Aquellas raparigas.
O interrogativo é:
quen
,
qui
, ou
quê-nhê
, quem.
Eis o quadro dos pronomes pessoaes.
Singular: En, in, mi -n Bu (abó) Di bó -bo Ê -l nhô êl, -le eu -me tu de ti -te elle lhe lhe (vos) o Plural: Nós, nu -no Nhô, nhôs nhô Ês -ls nós -nos vós vos elles lhes
Quên qui dan (dâ-n) el. Quên qui dá-bo el. Quên qui dá-nhô el. Quên qui dá-no el. Quên qui dá nhô el. Quên qui dals (da-ls) el. Bu tâ entendêle. En tâ jural. Quem m'a deu. Quem t'a deu. Quem lh'a deu. Quem nol'a deu. Quem vol'a deu. Quem lh'a deu. Tu entendel-o. Eu o juro.
Bu
(vós) tendo usurpado o logar de
tu
, não ha pronome da segunda pessoa do plural; o
pronomen reverentiae
é substituido por
nhô
==senhor,
nhâ
==senhora.
Nhô
tomou o signal do plural:
ô nh'amigos, nhôs al judan fazê ês cuza
, ó meus amigos, vós haveis de me ajudar a fazer esta cousa.
O pronome da segunda pessoa do singular diz-se
bó
quando é precedido de proposição:
di bó
, de ti.
Nas ilhas de Barlavento ha
bucê
,
bucês
,
bocê
,
bocês
em logar de
bó
,
abó
e
nhô
.
Os seguintes exemplos mostram as fórmas dos possessivos ou seus equivalentes:
Nha caballo. Nha caballos. Nha egua. Nha eguas. Ês caballo ê di men. Ês caballos ê di men. Ês egua ê di men. Ês eguas é di men. O meu cavallo. Os meus cavallos. A minha egua. As minhas eguas. Este cavallo é meu. Estes cavallos são meus. Esta egua é minha. Estas eguas são minhas.
Bu cavallo. Bu cavallos. Bu egua. Bu eguas. Ês caballo ê di bó. Ês egua ê di bó. O teu cavallo. Os teus cavallos. A tua egua. As tuas eguas. Este cavallo é teu. Esta egua é tua.
Si caballo, sês caballo. Caballo di nhô ou nhâ. Ês caballo ê di nhô. O seu cavallo, o cavallo d'elle. O seu (vosso) cavallo. Este cavallo é vosso, seu.
Nós boi. Nós báca. Ês boi ou ês báca ê di nós. O nosso boi. A nossa vaca. Este boi ou esta vaca é vosso, vossa.
Si caballo, sês caballo. Ês caballo ê di sês, d'êls ou d'ês. O seu cavallo (d'elles). Este cavallo é seu (d'elles).
4.
Verbo.
Esta parte da grammatica do creolo de Santo Antão apresenta uma riqueza muito maior que em geral os outros dialectos similhantes. Não é difficil explicar este facto: o contacto persistente entre a população que falla o dialecto e os que fallam o portuguez puro tende naturalmente a fazer penetrar no creolo maior numero de fórmas portuguezas. Vimos já o que se dava com as fórmas do plural. Damos os paradigmas da conjugação e faremos depois algumas observações sobre elles.
Ser (sér)
Indicativo
Presente Perfeito composto
Mi ê Bu, abo ou abo bu ê Êl ê Nós, nos nu ê Ês ê Eu sou Tu és Elle é Nós somos Elles são Eu ten sido Bu ten sido Êl, ê ten sido Nos, nu, ten sido Ês tên sido Eu tenho sido Tu tens sido Elle tem sido Nós temos sido Elles têem sido
Imperfeito e perfeito Futuro
Mi era Bu etc. era Êl era Nós era Ês era Eu era Tu eras Elle era Nós eramos Elles eram En al ser Bu al ser Êl al ser Nu al ser Ês al ser Eu serei Tu serás Elle será Nós seremos Elles serão
Condicional
En tâ sérba Bu tâ serba Ê tâ sérba Nu tâ sérba Ês tên de ser Eu seria Tu serias Elle seria Nós seriamos Elles seriam
Subjunctivo
Presente Imperfeito
En ser Bu ser Ê ser Nu ser Ês ser Eu seja Tu sejas Elle seja Nós sejamos Elles sejam Mi era Bu era Êl, ê era Nu era Ês era Eu fosse Tu fosses Elle fosse Nós fossemos Elles fossem
Futuro composto
In ten de ser Bu ten de ser El, ê ten de ser Nos, nu ten de ser Ês ten de ser. Eu tiver de ser Tu tiveres de ser Elle tiver de ser Nós tivermos de ser Elles tiverem de ser
Imperativo
Ser Sê tu Nhu ser Sede vós
Haver
Este verbo é quasi exclusivamente empregado para a expressão do futuro como auxiliar, portanto no presente do indicativo.
A fórma
al
provém de
ha-de
, por apocope e mudança de
d
em
l
.
O verbo
dêbê
é empregado como auxiliar, substituindo
al
. Na cidade da Praia diz-se
hôbe (oubi) tempo, tên habido
, mas essas fórmas não se acham ainda no creolo rachado.
Ten (ter)
No presente do indicativo
tên
para todas as pessoas no paradigma escripto pelo nosso informador; mas nas cartas 2.ª e 3.ª ha
tênê
como fórma fundamental, servindo pois para o presente só com os pronomes e figurando nos tempos compostos, como
ser
no paradigma acima.
O imperfeito e o perfeito do indicativo tem
tenba
, tinha, para todas as pessoas; o imperativo
tên
. Emprega-se o participio
tido
.
Stá (estar)
No presente do indicativo
sta
ou
star
para todas as pessoas; no imperfeito
staba
, no perfeito
stêbe
, ou no creolo rachado
staba
, como no imperfeito. Os tempos periphrasticos conformam-se ao paradigma de
ser
. Emprega-se o participio
stado
.
Verbos não auxiliares
O presente em regra é expresso por
tâ
(-stá) com o infinito, para todas as pessoas exemplos:
en tâ jurâ
, eu juro,
bô tâ flâ
, vós dizeis; mas occorre tambem como presente a simples fórma do infinito:
nhu sabê
, vós sabeis. Algumas fórmas do presente portuguez, principalmente da terceira pessoa, occorrem, sem variação, com o auxiliar
tâ
ou isoladas, exprimindo o presente:
en tâ bai
, eu vou;
êl tâ lêba
, elle leva;
en péga
, eu agarro;
en tâ biro
, eu volto;
in xinto
, eu me sento.
Ha fórmas do preterito como
fazeba
, fazia,
baba
, ia (sobre o presente
bai
).
O perfeito parece ser expresso pelo infinito, como
recebê
,
fugî
(elle fugiu),
xinti
,
matá
,
entendê
, nas cartas acima.
O imperativo é expresso pelo infinito:
esquecê
, esquece, esquecei;
judá
, ajuda, ajudae. Occorrem algumas fórmas particulares como
ben
, vem, vinde.
Ha participios em
ado
como
usado
,
enfadado
, em
edo
como
screbedo
, escripto, em
ido
(normal?).
Os tempos periphrasticos seguem o paradigma de
ser
(auxiliar com a fórma principal, infinito presente ou participio passado).
Algumas vezes o futuro é identico ao presente:
en tâ mandá
, mandarei;
bô tâ flal
, dir-lhe-has.
Observações lexiologicas
A etymologia dos vocabulos creolos é geralmente transparente nos specimens que publicâmos; notâmos apenas particularmente os seguintes, comquanto outros chamem tambem a attenção:
Câ
, não; origem incerta.
Mâ
,
mê
, que; provirá da conjugação adversativa
mas
?
Mantenha
em
mantenha chéo
, significando muitas recommendações; originou-se este emprego evidentemente da formula antiga de saudar:
Deus te mantenha
.
Pamóde
, porque; provém da formula
por amor de
,
por mór de
, muito usada em portuguez, significando por causa de. No dialecto de Macau usa-se no mesmo sentido a variante phonetica
prómódi
.
Papiá
, fallar;
flâ
toma o sentido de dizer.
Sâ
em
nhu sâ tâ passado
como tem passado, e
sâ tâ dal
, lhe tem dado, etc., é obscuro para nós.
Sábe
(de
saber
) serve para exprimir que uma cousa é agradavel;
câ sábe
, que é desagradavel;
ês cumida ê sâbe
, esta comida é agradavel, sabe bem;
quel home tên ar sábe
, aquelle homem ter ar agradavel; algumas vezes póde traduzir-se por
bem
.
Fede
exprime o contrario:
chêrá féde
, cheirar mal;
fazêl féde
, offendel-o.
Tioque
, até que;
oque
(
oc
),
oqu'ês
, quando.
Nomes hypocoristicos ou nomes de casa
Baca. Lourenço. Jéjé. José.
Balanta. Valentim. Faia. Raphael.
Banda. Domingos. Fan. Estephania.
Barujo. Vicente. Fina. Josephina.
Beba. Genoveva. Fita. Antonio.
Bebé. Bernabé. Fonfon. Affonso.
Beto. Alberto. Fronha. Luiza.
Beto. Roberto. Gena. Eugenia.
Bibina. Balbina. Gruida. Margarida.
Bina. Etelvina. Ia. Maria.
Bocha. Ambrosio. Lela. Magdalena.
Bomba. Bombina. Anna. Lelencha. Florencia.
Caella. Michaela. Lelencho. Florencio.
Caixa. Nicolau. Lena. Helena.
Cote. Torquato. Lorma. Jeronymo.
Chalino. Marcellino. Lota. Izabel.
Chamara. Maximiana. Maja. Luiz.
Chamaro. Maximiano. Mana. Germana.
Chana. Sebastiana. Mano. Germano.
Chana. Luciana. Maral. Pedro.
Chanchane. Alexandre. Mongido. Hermenegildo.
Chéché. José. Motas. Thimotheo.
Chella. Marcella. Munda. Raymundo.
Chello. Marcello. Nhaba. Filippe.
Chencho. Innocencio. Nico. Manuel.
Chicha. Narcisa. Oiro. Miguel.
Chichi. Cecilia. Pelico. Polycarpo.
Chica. Francisca. Penha. Gregorio.
Chico. Francisco. Pomba. Ignez.
Chimí. Cazimiro. Potâ. Hippolyto.
China. Filippe. Queta. Henriqueta.
Choga. Chrysostomo. Quinquina. Joaquina.
Choncha. Sebastião. Ramal. Antonio.
Chubanta. Martha. Roda. Andreza.
Chumpa. Paula. Ronda. Agostinho.
Cobra. Francisco. Supro. Cypriano.
Coco. Simoa. Tancha. Tantancha. Constança.
Coima. Paulo. Tantana. Victoriana.
Colaça. Nicolaça. Tantano. Victoriano.
Cuna. Joaquina. Tatacha. Anastacia.
Dada. Felicidade. Tatacho. Anastacio.
Damás. Damasio. Tetêa. Dorothea.
Delba. Amaro. Têtês. Matheus.
Dico. Frederico. Tilia. Mathilde.
Didi. Claudina. Tinho. Martinho.
Dindino. Bernardino. Tino. Faustino.
Dique. Henrique. Tintim. Valentim.
Doca. Theodora. Tintina. Catharina.
Doco. Theodoro. Tólo. Bartholomeu.
Doli. Isidoro. Touco. Victor.
Doria. André. Tuda. Gertrudes.
Dunda. Domingos.
Ás formações hypocoristicas que têem limitadissima extensão em Portugal, abriu-se um campo novo nos dialectos fóra da Europa; algumas d'essas fórmas vieram de lá para a metropole, como
Juca
,
Nhónhô
, etc.
É difficil e em parte impossivel achar as relações que existem entre algumas d'essas fórmas hypocoristicas de Santo Antão e as usuaes correspondentes; para algumas não haverá até talvez relação etymologica; mas a difficuldade provém principalmente do pequeno numero das fórmas que conhecemos, que não nos permittem reconhecer todas as variedades dos processos, a que devem a existencia. As fórmas difficeis de reduzir ou irreductiveis, em a nossa lista são:
Baca
,
Banda
,
Barujo
,
Bomba
(e
Bombina
),
Caixa
,
China
,
Choga
,
Choncha
,
Chubanta
,
Chumpa
,
Cobra
,
Coco
,
Coima
,
Delba
,
Doria
,
Dunda
,
Faia
,
Fita
,
Fronha
,
Lota
,
Maja
,
Maral
,
Nhabo
,
Oiro
,
Pelico
,
Pomba
,
Potâ
,
Ramal
,
Roda
,
Ronda
,
Touco
(32 fórmas). As outras fórmas hypocoristicas de Santo Antão provém das usuaes correspondentes por processos de formação em geral perfeitamente regulares. O processo mais geral é o da simples apherese de todos os elementos que precedem a syllaba accentuada; essa alteração raramente é a unica que se dá: quasi sempre se complica com outras. Em poucos casos a apherese deixa de fazer desapparecer todas as syllabas que precedem a accentuada (vid. infra
Mongido
e
Chamaro
).
Formação por apherese
A.
Simples apherese.
Caela de Michaela. Mano de Germano
Colaça » Nicolaça. Queta » Henriqueta.
Fina » Josephina. Tinho » Martinho.
Lena » Helena. Tino » Faustino.
Em:
Ia de Maria
a apherese estendeu-se á consoante inicial da syllaba accentuada.
B.
Apherese complicada com outros phenomenos phoneticos.
1) Modificações nas vogaes finaes:
Cate de Tor-quato. Mota-s de Ti-motheo.
Dada » Felici-dade. Munda » Raymundo.
Gena » Eu-genia.
2) Apocope:
Fan de Este-phania
3) Apocope com retracção do accento:
Tólo de Bartholo-meu
4) Alteração da vogal accentuada:
Cuna de *Quina de Joa-quina.
5) Quéda de
r
da syllaba accentuada, com ou sem modificação das vogaes finaes:
Beto de *Berto de Al-berto.
Beto » *Berto » Ro-berto.
Dico » *Drico » Fre-drico, Frederico.
Guida » *Grida » Mar-grida, Margarida.
Tuda » *Trudes » Ger-trudes.
6) Modificações nas consoantes das syllabas conservadas:
a)
v
em
b
.
Beba de *Veva de Genoveva.
Bina » *Vina » Etel-vina.
b)
s
,
z
(
ç
,
s
) em
ch
:
Chicha de *Cisa de Nar-cisa.
Chello » *Cello » Mar-cello.
Tancha » *Tança » Cons-tança.
c)
ci
,
si
,
ti
em
ch
:
Bocha de *Brosio de Am-brosio.
Chana » *Ciana » Lu-ciana.
Chencho » *Cencio » Inno-cencio.
Chana » *Tiana » Sebas-tiana.
Em
Bocha
houve quéda de
r
como em
Beto
,
Tuda
, etc., mudança de
o
em
a
como em
Munda
.
d) Mudança de
ç
em
ch
com alteração n'uma vogal protonica:
Chalino de *Cellino de Mar-cellino.
e) Mudança de
ç
em
ch
e desapparecimento d'uma consoante:
Chico de *Cisco de Francisco.
Facico
é a pronuncia pathologica do nome
Francisco
.
f) Alterações diversas regulares de consoantes (complicadas n'alguns casos com modificações vocalicas).
Assimilação de
ld
em
ll
(
l
):
Tilia de *Tilde de Ma-thilde.
Assimilação de
ld
em
d
:
Mongido (Mengido) de *Menegildo de Hermenegildo.
r
em
l
,
n
em
r
:
Lorma de *Ron(y)mo de Je-ronymo.
r
em
l
:
Doli de *Doro de Isi-doro.
r
em
d
:
Dique de *Rique de Henrique
n
em
r
:
Chamáro de *Chimiano de Ma-ximiano.
n
em
l
:
Lela de *Lena de Magda-lena.
g) Alteração consonantal irregular:
Doca de *Dora de Theo-dora.
h) Alteração da consoante da syllaba accentuada com apocope de syllaba:
Chimí de *Zimí de Ca-zimiro.
C.
Apherese e reduplicação:
1) Sem apocope:
a) Bibina de *Bina de Bal-bina.
Chanchane » *Chane (Chandre) » Alexandre.
Dindino » *Dino » Bernar-dino.
Lelencho » *Lencho (Rencho) » Flo-rencio.
Tantancha » *Tancha » Constança.
Tatacho » *Tacho » Anas-tacio.
Tetea » *Tea » Doro-thea.
Tetés » *Tés (Teus) » Ma-theus.
b) Bebé » *Bé » Berna-bé.
Chéché » *Ché » José.
Jéjé » *Jé » José.
Quimquim » *Quim » Joa-quim.
Tintim » *Tim » Valen-tim.
2) Com apocope:
Didi de *Di (Dina) de Clau-dina.
Fonfon » *Fon (Fonso) » A-fonso.
Chichi » *Chi (Chilia) » Ce-cilia.
Chichi
póde explicar-se tambem por apocope.
3) Com syncope:
Tantano de Tano (Trano, Triano, Toriano) de Vic-toriano.
Tintina » Tina (Trina, Tarina) » Ca-tharina.
Formação por apocope (sem apherese)
A.
Sem retracção do accento:
Balánta de Valentim.
Pelíco » Policarpo.
Supro » Cypriano.
Algumas das fórmas difficeis de explicar resultam sem duvida, em parte, de uma complicação de processos;
Potâ
, por exemplo, provém, de
Hypolito
por apherese de
Hy
, syncope de
l
com contracção de vogaes e protracção do accento, mas esta fórma permanece isolada. A derivação póde tambem, como n'outras linguas, ter representado algum papel (
Lota
==
Izabelota
).
Os processos de formação que acabâmos de expor não têem nada de especial: encontram-se com simples variantes n'um grande numero de linguas antigas e modernas, falladas a distancias consideraveis, pertencendo a grupos radicalmente distinctos.
Mr. Robert Mowat consagrou ás fórmas hypocoristicas um estudo muito interessante,
De la déformation dans les noms propres
, publicado primeiramente em
Mémoires de la société de linguistique de Paris
, e depois na brochura
Noms propres anciens et modernes
(Paris, 8.º, 1869), p. 41-59. Um grande numero de fórmas hypocoristicas germanicas acha-se estudada na obra especial de Franz Stark,
Die Kosenamen der Germanen
(Wien, 1868, 8.º), em August Fick,
Die Göttinger Familiennamen
(Programma do
Gymnasium and Realschule erster Ordnung zu Göttingen
. Göttingen, 1875, 4.º), em Ludwig Steub,
Die Oberdeutschen Familienamen
(München, 1870, 8.º peq.) Nos
Studien zur romanischen Wortschöpfung
von Carolina Michaëlis ha uma collecção interessante de fórmas hypocoristicas romanicas (p. 70 ss). São essas as obras que temos á mão sobre o assumpto, mas ha outras que d'elle se occupam, como a de August Fick,
Griechische Eigennamen
. Vamos extrahir d'essas obras alguns exemplos que provam a existencia de leis geraes nas formações hypocoristicas.
Na Biblia
Aram
(Gen. 22, 21) e
Ram
(Job. 32, 2) designam o mesmo personagem; o mesmo se dá com
Jaziel
(Chr. I, 15, 20) e
Aziel
(Chr. I, 15, 18). Mowat, que cita esses exemplos, approxima
Lazaro
(Evangelho de S. João e de S. Lucas) de
Eleazaro
(Livro dos Machabeos) e adduz o copta
Chael
(cp.
Caella
por
Michaela
no creolo de Santo Antão), o phenicio
Karthalon
por
Melkarthalon
,
Stembal
por
Manastambal
(segundo Gesenius).
No grego o processo da apherese é raro; exemplo:
Κλητος por Ανάκλητος
A apherese com derivação observa-se em:
Στασοῦλα de 'Ανα-στασίη , suf. οῦλα
Σταθακης de Εὐ-στάθυος , suf. ακη
Na mencionada lingua ao contrario o processo da apocope é frequente, sendo as terminações supprimidas substituidas constantemente por a final ᾶς; exemplos:
'Αλεξᾶς de 'Αλέξανδρος 'Αλεξᾶς de 'Αλέξανδρος
'Αρτεμᾶς » Αρτεμίδωρος Μηνᾶς » Μηνόδωρος
Επαφρᾶς » Επαφρόδειτος Νικανδᾶς » Νικανδρίδας
Ζηνᾶς » Ζηνόδωρος Ολυμπᾶς » Ολυμπιόδωρος
Κλεόπας » Κλεόπατρος Παρμενᾶς » Παρμενίδης ou Παρμενίσκος
Κλεοφᾶς » Κλεόφαντος
Λουκᾶς » Λουκανός Σιλᾶς » Σιλουανός
O inglez, com a sua tendencia para accentuar a syllaba inicial, emprega de preferencia a apocope nas formações hypocoristicas; essa apocope é complicada com outros factos phoneticos, de que mencionaremos alguns.
1. Apocope simples:
Chris de Chrístian de Christiánus.
Clem » Clemént » Cleméntius.
Dan » Dániel » Daniél.
Tom » Thómas » Thomás (Θωμάς).
Greg » Grégory » Gregórius.
2. Apocope e adjuncção de um
s
:
a) Sem assimilação de consoantes:
Cutts de Cuth-bert.
Edes » Ed-ward.
b) Com assimilação de consoantes:
Watts de Walter , Gibbs de Gilbert.
Comp. creolo
Motas
de
Timotheo
.
3. Apocope com mudança de
r
em
d
:
Dick de Richard , Dobbs de Robert.
Comp. creolo
Dique
de
Henrique
.
Nos seguintes nomes germanicos medievaes desappareceu ou a primeira ou a segunda parte:
Faro por Burgundofaro. Bruna por Brunihildís.
Giso » Wartgis. Euva » Evarix.
Offa » Ceolwulf. Hrode » Hruodolf.
Prandus » Rotprandus. Sunna » Suanilda.
Uffo » Liudulfus. Tado » Tadelbertus.
A suppressão de uma parte do nome foi seguida ou acompanhada, como se vê, de outras modificações, comparaveis em parte ás que observámos nas fórmas hypocoristicas do creolo de Cabo Verde.
O processo de addição de suffixos diminutivos ás fórmas mutiladas tem grande extensão nas linguas germanicas. Exemplos:
Godi-ko de *Gode por Gode-fredus.
Ghise-ke » *Gise » Gise-lbertus.
Ghere-ke » *Ghere » Gere-hardus.
Albi-so » *Albe » Albe-ricus.
Gisle-zo » *Gisel » Gisel-bertus.
Berti-nus » *Bert » Bert-randus.
Feli-nus » *Fel » Fel-mirus.
Escolhemos agora alguns exemplos da lista das fórmas hypocoristicas francezas dadas por Mowat:
Bastien de Sebastien. Guste de Auguste.
Billon » Barbillon. Livet » Olivet.
Briel » Gabriel. Mancet » Clémencet.
Brois » Ambrois, Ambroise. Mas » Thomas.
Colas » Nicolas. Maury » Amaury.
Cot » Jacot. Nardon » Bernardon.
Delle » Adèle. Pin » Chopin.
Fan » Stephan. Pold » Léopold.
Fonce, Fons » Alphonse. Randal » Durandal.
Gelle » Angèle. Sandre » Alexandre.
Gory » Grégory. Thézard » Balthazar.
Hippeau » Philippeau. Vestris » Silvestre.
Estes exemplos bastam para mostrar que as fórmas hypocoristicas creolas são o resultado da acção de leis geraes.
2. Creolo de S. Thomé
Conhecemos apenas o seguinte specimen que devemos á memoria de um amigo; são versos de um portuguez que habita a ilha:
Sã Ma Plantá, Senhora Maria da Apresentação,
Sã Ma jabo, Senhora Maria diabo,
Floli blavo, Flor brava,
Bujungá. Bujungá (nome indigena)
Neni d'òlo, Annel d'oiro
Cun mimoia C'om argolas (memoria);
Sâ za estoia, Isto é historia,
Sã zetá. Senhora rejeitar,
Lenço seda Lenço de seda
C'uma saia, C'uma saia
Mé lagaia, ?
Sã zetá Senhora rejeitar.
Sã Ma Plantá. Senhora Maria da Apresentação.
3. Creolo da Ilha de Sant'Iago (archipelago de Cabo Verde)
Ao nosso amigo, o sr. Luciano Cordeiro, secretario da sociedade de geographia, devemos a communicação da seguinte carta, dictada por uma negra de Sant'Iago, que se exprime no creolo d'aquella ilha:
Nho Dótore.
Senhor doutor.
Mi ten sódadi cheu di nho Dótore, a má di nha Dóna L.
Eu tenho saudades muitas do sr. doutor e mais da sr.a Dona
Mi manda mantenha, cheu, cheu, cheu.
Eu mando recommendações, muitas, muitas, muitas.
Mi a má Seyton nu está desamparados cheios di sódadi
Eu e mais o Seyton nós estamos desamparados cheios de saudades
di nha Dotore e di nha L....
do sr. doutor e da sr.
a
Oh! nhor Deus!
Oh! senhor Deus!
Nha Sinhára manda mantenha cheu tambê A. cu J.
A minha senhora manda recommendações muitas tambem A. e J.
Está magro tóraqui piscóço já sae fora.
Estão magros até que (até o ponto) pescoço já sae fóra.
(Isto é: está demasiadamente magro).
Agora qui já mi sabê cusa qui é falta di nho Dotore. Deos
Agora que já eu sei cousa que é a falta do sr. doutor. Deus
al judan qui in torna, olhá nho.
ha de permittir-me que eu torne a ver sr.
Mi está na casa di nha Sinhára, mas en stá cu muito
Eu estou na casa de minha senhora, mas eu estou com muitas,
muito sódadi di nhos tudo dós.
muitas saudades dos srs. ambos dois.
Mi é quel creada di nhós qui tâ chomado Maria.
Eu sou a creada dos srs. que se chama Maria.
Este dialecto offerece naturalmente intimas similhanças com o de Santo Antão, mas revela uma maior approximação ao portuguez puro, que em parte póde ser puramente individual, poisque a negra que dictou a carta tem vivido muito com pessoas instruidas originarias da metropole.
O dialecto possue um presente formado com
tá: en tá bá
, eu vou, como em Santo Antão. A negação é tambem
câ
, não;
nh'armun
==meu irmão, como em Santo Antão;
al
==
hade
,
ajudan
==
ajudar-me
, e outras particularidades coincidem ainda nos dois dialectos, e provavelmente em todos os do archipelago de Cabo Verde.
Observam-nos que
nhor
e
nhara
por
senhor
,
senhora
são mais respeitosos que
nho
e
nha
e se empregam dirigindo-se a pessoas de idade.
Nhanha
é a senhora da casa, mãe de familia;
nhanhinha
, menina;
nhonhosinho
, menino.
4. Creolo da Guiné portugueza
Tudo quanto podemos apurar sobre o creolo portuguez da Africa (continente e ilhas) se reduz ao que precede e á seguinte noticia.
De la langue, créole de la Guinée portugaise. (Notes sur la Guinée portugaise ou Sénégambie méridionale, par M. Bertrand-Bocandé). Bulletin de la Société de Géographie de Paris, 3e série, t. XII. 73-77 (1849 juillet et août):
«On conçoit que des hommes acoutumés à se servir pour manifester leur pensée, d'un idiome aussi simple, ne purent facilement élever leur intelligence au génie d'une langue européenne. Quand ils furent en contact avec les Portugais et forcés de s'entendre avec eux, en parlant une même langue, il a fallu que l'expression variée des idées acquises pendant tant de siècles de civilisation se dépouillât de sa perfection, pour s'adapter aux idées naissantes et aux formes barbares du langage des nations à demi sauvages. Le mot adopté dut conserver toujours le même son; et perdre ces désinences variées qui servent à distinguer les nombres, les genres, les pronoms, les temps ou les modes; il fut soumis seulement aux transformations absolument indispensables au discours, pour qu'il ne devînt pas uniquement des sons insignifiants.
«Il se fit un retranchement graduel de toutes ces modifications qui servent à exprimer les diverses nuances de la pensée, et quand il ne fut plus possible de rien retrancher pour conserver le discours encore intelligible, l'idiome fut fixée dans sa grammaire particulière, devenue aussi simple que peuvent le permettre les règles de la grammaire générale de toute langue. Il exista alors ce que l'on appelle la langue
créole
portugaise.
«Pour se former, elle a dû d'abord se soumettre à la prononciation habituelle des peuples d'Afrique. Ceux-ci ne peuvent, comme je l'ai déjà dit, prononcer les deux sons représentés par
je
et
che
qui sont devenus
ie
et
kie
.
«Les noms n'eurent plus de terminaison pour distinguer les
nombres
; on doit désigner la quantité de l'objet, ou dire s'il y en a peu, ou beaucoup. Le
genre
, en parlant des animaux seulement, se fait connaître en ajoutant au nom les mots
homme
ou
femme
; on dit donc par exemple: un
bœuf homme
, un
bœuf femme
.
«Il fallut adopter des pronoms. Il y a des pronoms personnels pour les différentes personnes et le nombre de ces personnes.
«Le radical des verbes se termine toujours par une voyelle: on en a retrauché l'
r
; et ce radical peut être employé comme substantif, ou comme verbe.
«Les pronoms ajoutés au verbe désignent seuls les personnes; il n'y a pas de désinences différentes pour les déterminer.
«Quand aux temps
présents
,
passés
et
futurs
, il fallait nécessairement un moyen de les distinguer.
«Le
présent
se fait connaître de deux manières, ou bien en ajoutant simplement l'un des pronoms au radical, ou bien, au moyen du verbe
être
suivi du mot
na
, qui signifie
dans
et au radical: ainsi pour dire
j'écris
, on emploie cette tournure
moi écris
, ou
mois est dans écri
, qui équivaut à
je suis à écrire
; le passé se désigne avec la particule
ia
, (
déjà
), mis avant ou après le radical;
ta
, placé devant marque un temps
futur
;
va
, après, forme l'imparfait; enfin
ta
précédant et
va
suivant le radical indiquent le mode conditionnel.
«J'ai connu au poste français de Séyou un de ces Papels-manjaga que l'on appelle portugais, qui était devenu sergent de poste; il n'avait pu apprendre le français; mais il avait adapté à notre langue le mécanisme de la langue créole portugaise, et se serait parfaitement fait entendre de quelqu'un qui en aurait eu la clef; ses commandants avaient beaucoup de peine à le comprendre. Ainsi il disait
moi faire
ou
mois est na faire
, pour dire je fais;
moi ia faire
, j'ai fait;
moi faire va
, je faisais;
moi ta faire
, je ferai;
moi ta faire va
, je ferais ou j'aurais fait.
«Le créole portugais n'est donc qu'une altération de la langue portugaise; il est composé de beaucoup de mots de cette langue dont quelques-uns sont hors d'usage aujourd'hui, de mots espagnols, et d'autres empruntés aux langues des peuples qui entourent ses différentes factoreries.
«Ce créole varie dans chaque lieu: il a des mots, des expressions, une accentuation et même quelquefois une ordre grammatical plus ou moins différents, suivant la langue qui a dominé pour faire subir ses modifications à la langue portugaise, qui est toujours partout le fondement du créole.
«Dans la Guinée il ressemble à celui des îles du cap Vert; mais dans celle-ci on peut dire qu'on remarque autant de dialectes qu'il y a d'îles, et dans celle de San-Thiago seule, les créoles de la Villa da Praya, du centre de l'île et de Terrafal, et de San-Miguel offrent des changements notables: plus on s'approche de la Villa da Praya, plus le créole ressemble au portugais. Dans la Guinée, le créole de Bissao sera mêlé davantage d'expressions
papels
, celui de Ziguichor, de
bagnoun
ou de
floup
, celui de Farim et de Géba de
mandingue
.
«Cet idiome se modifie encore suivant les personnes qui le parlent: la position sociale, l'éducation, les habitudes, influent d'une manière aussi remarquable pour l'expression créole que pour les langues les plus parfaites. Il est facile à la personne la moins exercée en entendant le créole, de deriver le rang ou l'éducation de celui qui le parle. On entendra même des personnes, quoique sans instruction, s'exprimer dans cet idiome avec une facilité et une grâce que l'on ne pourra s'empêcher d'admirer; ils savent parfaitement en tirer parti, quoiqu'il paraisse si ingrat, pour composer des récits intéressants, et improviser des chansons dans lesquels la vérité des images et les circonlutions suppléent aux expressions qui manquent dans le langage, et dépeignent souvent élégamment les idées qu'ils veut suggérer.
«Des personnes instruites qui tiendront une conversation en créole, se garderont difficilement de mêler dans leurs discours des expressions, des tournures empruntées à la langue portugaise, et principalement s'ils veulent exprimer quelque idée abstracte qui n'a point de mots en créole.
«D'un autre côté, il est presque impossible à un Portugais habitué long temps à ne parler que le créole, de se soustraire à une funeste habitude; des mots, des expressions, des phrases créoles se rencontreront dans sa conversation, dans ces écrits. Et s'il n'est pas soutenu par une connaissance profonde de sa langue, il la confondra bientôt avec le créole qu'il ne pouvait d'abord entendre, il finira même quelquefois par parler un langage qui ne sera ni portugais, ni créole, car il n'en aura que le mécanisme.»
5. O portuguez no Brazil
O Brazil com as suas 873:000 milhas quadradas, povoadas, é verdade por emquanto apenas por uns 10 milhões de habitantes, offerece um campo vasto á alteração do portuguez, á qual se oppõe porém a extensão crescente da litteratura, e especialmente do jornalismo. Como o dominio litterario da velha metropole europêa não cessou com o dominio politico, a linguagem litteraria do grande imperio da America meridional não se afasta senão n'algumas peculiaridades de importancia secundaria do portuguez da Europa. A linguagem fallada distingue-se, já na bôca dos mais instruidos, por essa entoação geral, por essa tendencia determinada para tornar abertas todas as vogaes atonas, por esse amor do iotacismo, que nos fazem reconhecer ao fim da primeira phrase pronunciada por um brazileiro ou pessoa que se adaptou á pronuncia brazileira a sua proveniencia. Na linguagem popular, especialmente das provincias, na linguagem dos
matutos
, notam-se modificações phoneticas mais consideraveis, a mais geral das quaes é a suppressão do
r
final, que permitte rimas como a que nos apresenta a seguinte quadra popular:
Mariquinhas morreu hoje, Hoje mesmo s'éntirou: Sobre a sua sipultura Nasceu um pé de firô (flor).
O vocabulario brazileiro apresenta naturalmente muitos termos compostos ou derivados de termos portuguezes, mas desconhecidos na nossa lingua da Europa, e um numero assás consideravel de termos provenientes dos dialectos indigenas, o
tupi
e o
guarani
, e ainda de outras linguas americanas; as linguas africanas ministram tambem alguns termos.
Uma parte das palavras peculiares do portuguez do Brazil foram já reunidas em um
Vocabulario brazileiro
, por Braz da Costa Rubim (Rio de Janeiro, 1853. 8.º).
Damos em seguida uma serie de versos populares do Brazil. As cantigas n.
os
1 e 4 a 12 foram-nos communicadas por um amigo; 2 e 3 acham-se na
Noticia da provincia de Mattogrosso
, por Joaquim Moutinho, p. 19; n.
os
13 a 20 acham-se na comedia
O matuto na côrte
por Antonio Augusto de Araujo Correão. Rio de Janeiro, 1863.
1. Cantiga de pretos
Qui é queli santo Qui vai no andô? É San Binidito É nosso sinhô.
Chi, cha.
2. Cantiga dos cururueiros de Matto-grosso
Em cima d'aquelle morro
Siá dona
Tem um pé de jatobá. Não ha nada mais pió
Ai, siá dona,
Do que um home se casá.
3. Desafio dos cururueiros
homem Eu passei o Parnahyba, Navegando numa barça, Os peccados vem da saia, Mas não pode vir da carça. mulher Dizem que a muyé é farça Tão farça como papé, Mas quem vendeu Jesus Christo. home, não foi muyé.
4. 7.
Quando mozo vai ni rua, Camiza cheia di renda. Quitanda sei a qui reva: Por fóça que acha venda. Zi eu vi, ũa baráta No capóte di vóvó, Quando eu fui prá pegálla Báteu ázas e vóó.
5. 8.
Zi criorinha dim Ba'ía. Za não come bacai'ao; Come só óvátáfá Cucu, farinha di páo. Minha Avó quando é di noite Custumava-se a banhá, Quando entra na gaméra Começa rogo a chorá...!
6. 9.
Zi criorinha dim Ba'ía Quando vai lává ó má, Deixáram as água turva, Sendo ellas um cristá. Zi um gustinho lhe quero dá Dá minha bunda quábráda Québra a bunda, mexe bunda Québra a bunda de Sinhá.
Québra a bunda, mexe bunda Québra a bunda di iá-iá.
10.
O negra trás café, chá e pão torrado, Para dar ó sôr pintor: vae pintar o meu sobrado. De verde amarello e incarnado; Onde eu faço o meu gingado.
11. 15.
Minha mulatinha, Meu muracujá A maré é boa, Vamous embarcá Á beira do rio, Á borda do má: Eu sou artilheiro Que sei atirá. Peixinho do rio, Camarão do má: Minha mulatinha Diz-me o teu nome. —Eu mi chamo botão Do calção do home. Sô Mané diz que não qué Que o rato caia no mé, As alegria dos Cabanos É matá os pápa mé. Olé! Olé!
16.
Esta vai por despedida Por dentro d'esta liminha. Ora viva Sinhá Dona Sinhá Insolencia Zephina.
12. Marca o passo, moça, barabos! Patury não se come sem limão, As mulata me chamão cidadão.
—Chiáu, ó rapariga! —Que pede, ó sinhó! —Chiáu quer vir cumigo? —Sen surda, sinhó, —Chiaú, eu do dinheiro, —Percebo, sinhó. —Então, ven ja cumigo. —Já, já, vou, sinhó. 17.
Minha caboca bónita Sapateia no tijolo, Que a barra do teu vestido É prata e parece ouro.
13. 18.
—Minha gente não inore Este meu cantar baixão! Estou com o peito cerrado. D'um marvado catarrão. —Senhô mestre cantadô, Ai que me mandou cantá, Quero que me dê por conta Ai os peixe que tem no má. Ai os peixe que tem no má Carrego no meu chapéo, Ai quero que me dê por conta. Ai as estrellas que tem no céo. —Você me mandou cantá Ai pensando que eu não sabia, Eu não sou cumo a cigarra Que no cantá leva o dia. Ai a viola está com fóme E a prima está c'uma dô, Minha gente venhão vê Que bahiano gemedô.
19.
Diga lá, Senhó Doutô, Que aprendeu a lussophia, Qual é a ave que avôa E que dá leite quando cria?
20.
14. Por favô, Senhô doutô, Me adecifre esta conta Vinte e cinco guardanapos Com dois gintem em cada ponta?
Ai! sô mestre cardereiro Metta a mão na mêladura, Que a canna do Lavradô Só que dá é rapadura. Sim senhô, eu advinho Sem fartá nem um dé réis, Doze pátacas e meia Vem a ser quatro mim réis.
Diversas particularidades caracteristicas dos dialectos creolos repetem-se no Brazil; tal é a tendencia para a suppressão das fórmas do plural, manifestada aqui em que, quando se seguem artigo e substantivo, adjectivo e substantivo, etc., que deviam concordar, só um toma o signal do plural. Assim na cantiga n.º 20:
dois gintem
==dois vintens. Ouve-se com frequencia
os homen
por
os homens
;
as muyé
por
as mulheres
;
duas boa pessoa
por
duas boas pessoas
;
casas grande
por
casas grandes
, etc. Mencionaremos ainda o habito de dar fórmas diminutivas aos pronomes:
ellasinha
==ella (referindo-se a uma menina);
umasinha
==uma (referindo-se a uma creança, a um animal, a uma cousa pequena).
Tens um cão? Tenho umzinho
(isto é um cão pequeno).
6. Dialecto portuguez de Ceylão ou indo-portuguez
A primeira noticia que tivemos d'este dialecto achámol-a na obra de A. A. Teixeira de Vasconcellos,
Les contemporains portugais, espagnols et brésiliens
, t. I.
Le Portugal et la Maison de Bragance.
Paris, 1859, 8.º, pag. 115-116, em que se acha um curtissimo extracto da parabola do semeador em indo-portuguez. A obra de lord Stanley
The
three voyages
of Vasco da Gama
ministrava-nos depois um excerpto mais extenso (Genesis, cap. III). Depois, como já dissemos, reunimos assás abundantes materiaes para o estudo do dialecto. Hoje limitâmo-nos á parte historica e bibliographica, e no nosso ultimo capitulo indicaremos os principaes pontos de contacto entre o indo-portuguez e os dialectos similhantes.
Em 1503 Lourenço d'Almeida submetteu um dos reis mais poderosos da ilha de Ceylão, Boenago Pandar. Por esse tempo foi fundada a fortaleza de Colombo e deu-se o commando da ilha a um capitão portuguez
[3]
. O terceiro viso-rei da India Lopo Soares fundou ali um estabelecimento commercial em 1517, que porém decaíu. Só pela morte de D. João Dharmapala, que legou os seus dominios ao rei de Portugal, então Filippe I (1581), é que os portuguezes adquiriram titulo á soberania da ilha, com excepção de Jaffna, de que reconheciam ainda o rei nominal, e de Kandy, em cujo throno elles queriam assentar a rainha Catharina. Apesar dos portuguezes desejarem impor suas leis e costumes, ficaram de pé as antigas leis e privilegios da ilha.
N'esse periodo e no seguinte as guarnições dos fortes portuguezes regulavam por 20:000 homens, dos quaes apenas menos de 1:000 eram europeus. Colombo desenvolveu-se então muito: edificaram-se conventos, igrejas, hospitaes, e quando caíu em 1656 nas mãos dos hollandezes residiam lá mais de 900 familias nobres, alem de 1:500 familias de empregados da justiça, commerciantes e negociantes. Em 1617 os portuguezes assenhorearam-se á mão armada de Jaffna. A alliança dos hollandezes com o rei de Kandy foi o ponto de partida para o seu dominio na ilha. Em 1658 tornaram-se senhores de todo o littoral e terras baixas e expelliram os portuguezes, tratando de destruir todos os vestigios da nossa influencia. As igrejas catholicas foram substituidas por igrejas protestantes; a lingua portugueza, que durante o nosso tão curto dominio se implantára na ilha sob uma fórma dialectal, ao lado das linguas indigenas, o singalez e o tamul, foi perseguida. Rapava-se a cabeça de todos os escravos que fallavam portuguez; multavam-se por negligencia os seus senhores: os hollandezes esperavam assim, como diziam n'uma proclamação «destruir a lingua dos portuguezes para que o nome dos nossos inimigos pereça e o nosso proprio floreça em seu logar». (Emerson II, 70.)
«O dominio da Hollanda em Ceylão foi quasi igual em duração ao de Portugal, cerca de um seculo e quarenta annos, mas a politica dos dois paizes deixou uma muito differente impressão do caracter e instituições do povo em cujo seio elles viveram.» (Emerson II, pag. 70.)
Ha uma palavra portugueza que os hollandezes não perseguiram, antes aproveitaram como fonte de receita. O titulo de
dom
era muito estimado pelos indigenas de Ceylão: os portuguezes permittiam o seu uso pela quantia de alguns centos de dollars. Escrevia-se o nome do comprador n'uma placa de prata com o desejado
dom
á frente; o comprador ajoelhava ante o governador ou pessoa por elle regularmente auctorisada; collocava-lhe a placa na cabeça e a auctoridade dizia: Levanta-te, dom Fulano. Os hollandezes continuaram a vender o
dom
rendoso, reduzindo o preço, que chegou por fim a dez dollars, tornando-se assim accessivel ás bolsas modestas. Hoje ainda a ilha está cheia de dons. O hollandez foi esquecido totalmente, até pelos descendentes dos que o fallavam; a repressão odienta não poude ao contrario destruir o portuguez.
Senhora da ilha desde 1796, a Inglaterra adoptou uma politica diversa da dos seus predecessores: os inglezes estudaram o indo-portuguez, como elles chamam ao dialecto portuguez de Ceylão; deram-lhe uma pequena litteratura, de que damos mais abaixo noticia, e serviram-se d'elle como meio de propaganda politica e religiosa.
Muito mais facil de estudar que as linguas indigenas, o tamul que, é fallado na costa norte, e o singalez, fallado ao centro e na costa sul, comprehendido por muitas familias principaes das cidades, que ainda se ensoberbecem com o seu
dom
, os seus nomes portuguezes, precedendo os appellidos indigenas, o indo-portuguez era um instrumento precioso que os inglezes com o seu genio administrativo não podiam deixar de aproveitar.
As informações que reunimos sobre a extensão e importancia actual do indo-portuguez não são sufficientes para formar sobre este assumpto um juizo inteiramente seguro. Um missionario que esteve na ilha escrevia, em data de 13 de novembro de 1875, que o indo-portuguez é quasi exclusivamente a lingua dos descendentes dos portuguezes e hollandezes que se estabeleceram na ilha; que a lingua não é considerada pelos missionarios como importante meio de instrucção, tanto quanto os que a usam fallam outra lingua; que os missionarios Wesleyanos têem um serviço publico em portuguez em Colombo e em duas ou tres cidades; que o dialecto está em extrema decadencia, e que com o curso de outra geração se extinguirá totalmente. O missionario que deu estas noticias não estava, porém, bem informado, porque diz que o indo-portuguez não tem grammatica nem diccionario, o que nós sabemos não ser exacto. Um outro missionario, que residiu tambem em Ceylão, descreve com data de 20 de março de 1877, que durante o exercicio das suas funcções de missionario em Ceylão não encontrou uma só pessoa com quem o portuguez podesse ser empregado como meio de conversação; que nos districtos do norte e do oriente da ilha o portuguez está quasi inteiramente extincto; que a missão tinha deixado de o empregar para o serviço publico havia alguns annos, ao norte da ilha; que ao sul estava em rapida decadencia.
Alguns testemunhos, em verdade anteriores aos d'esses missionarios, cujas informações devemos ao nosso bom amigo rev. R. H. Moreton, attribuem ao dialecto maior importancia e extensão; a bibliographia que damos mais abaixo depõe tambem n'este sentido.
Na
Cruz de Christo
lê-se: «O auctor te da sua guardismento per o publico, per o modo ne qual sua
Versos sagrada
tinha recebido; dos cento e cincoenta livrinhos de aquel tinha impressado e vendido per o povo quem te sabe portuguez; esti lingoa mais que assi corrupto, tem papiado extensivomente nesti Ilha, e tem ainde doci, mellifluozo, como seu parente Frances e Italiano».
«O indo-portuguez é mais ou menos entendido por todas as classes na ilha de Ceylão e por toda a costa da India; a sua extrema simplicidade de construcção e facilidade de acquisição tendo-o posto extensamente em uso como um meio de trafico. Mas o povo de que é vernaculo e que, em Ceylão só, sobe a mais de 50:000 individuos, é constituido por descendentes dos hollandezes e portuguezes, os primeiros dominadores (europeus) da India.»
The Bible of Every Land
, pag. 275-276.
Damos em seguimento a nota bibliographica das publicações em dialecto portuguez de Ceylão ou relativas a elle, de que até hoje tivemos conhecimento; as que não possuimos e nem sequer vimos vão indicadas com o signal †.
Bautismo: sua subjectos e modo de sua administração. Parte premeiro: Tocando o bautismo de nocentes.
Colombo: impressado ne officia de Missão Wesleyano. 1869, 44 pp, in-12.
Bom novas.
N.º 15. March. 1869. p. 57-60. Colombo: printed at the Wesleyan Mission Press. É um numero de um pequeno periodico religioso.
Cantigas por adoração publico em lingoa portugueza de Ceylon.
De Robert Newstead, missionario wesleyano. Terceiro vez impressado. Colombo impressado ne officina Wesleyana. 1823. 8.º 22-4 pp. (de index).
†
Compendium (A) of the Ceylon-portuguese language
by W. B. Fox. Colombo. 1859.
Cruz (A) de Christo.
Colombo: Impressado ne officio de A. H. Peterson. 1859. 23 pp. A
Intrudição
acha-se subscripta por J. A. C. No nosso exemplar acha-se o nome manuscripto por inteiro: John Arnold Cristophelaz.
†
Dictionary (A) in the Singhalese, Portuguese and English languages.
Second edition, enlarged. By W. B. Fox, Wesleyan Missionary. (Publicado em 1820).
Fórma (A) da oração publico e administração dos Sacramentos, conforme ao uso da Igreja Inglaterra. Traduzido, por o missão, em lingua portuguez de Ceylon.
Pelo Robert Newstead, missionario Wesleyano. Em Colombo: Impressado na officina Wesleyano. 1820. 44 pp.
†
Grammatical (A) Arrangement on the method of learning the corrupted portuguese as spoken in India
, by Berrenger. Sec. edit. Colombo, 1811. Indicação do sig. Teza no artigo alludido infra.
Horte de paraiso. Em o nome de o Jesus crucificado.
(XIV orações.) Impressado ne Officio de Baptiste Missionarios, Kandy. 32 pp.
Hum caminho per inferno.
Folha avulsa, 1 p.
Hum catecismo per o ensino de criances ne o principiô de relize, e hum curto catecismo de o nomis ne o escritura.
Colombo: impressado ne officio de Wesleyanos. 1837. 12 pp.
Indoportoghese.
E. Teza. 8.º 10 pp. Estratto dal Periodico:—Studi Filologici, Storici e Bibliografici Il Propugnatore. Vol. V. É o primeiro estudo scientifico sobre este dialecto.
†
Instructions for children.
By the late Rev. John Wesley, A. M. of the University of Oxford. In portuguese and english.
(Publicado antes de 1820.)
Meditacãos e oracãos
(sic)
sober differenti subjectos e por differenti casiãos.
J. Campbell, Printer, Hulfsdorp Press. 50 pp. 4.º peq.
Novo (O) Testamento de Nosso Senhor e Salvador Jesus Christo, traduzido ne indo-portugueza.
Colombo, officina de Missão Wesleyano, 1852. 8.º
Oraçãos, Dez Mandamentos, O sermão riba do montanha.
16 pp.
Psalterio (O), ou Psalmos de David, como apontado a ler nas igrejas. Traduzido em lingoa portugueza de Ceylon, e publicado por a Sociedade Biblia de Colombo.
A Colombo: Impressado na officina Wesleyano. 1821. 8.º 102 pp.
The singhalese Tract Society
, n.º 6, 1856.
O Serpente de Cobre.
8 pp. No fim acha-se a indicação: Preço hum challi de-cobri, huma ou senao oito fanam hum cento.
Voz de verdade.
(Pequeno periodico religioso mensal; temos alguns numeros desde 1 de outubro de 1870, em que começou a publicar-se, até janeiro de 1873. Sem logar de impressão.) 4 pp. cada numero.
Vocabulary (A) in the Ceylon Portuguese, and English Languages, with a series of Familiar Phrases.
By John Callaway, Wesleyan Missionary. Colombo: Printed at the Wesleyan Mission Press. 1820. Price six fanams. 44 pp. in 12.º
A maior parte das publicações mencionadas que possuimos devemol-as á dedicação do nosso bom amigo o rev. R. H. Moreton, que se empenhou para com a missão Wesleyana e missionarios seus amigos para nol-as obter.
Na obra:
The Bible of Every Land, a history of the Sacred Scriptures in every language and dialect into which translations have been made
, etc. London, Samuel Bagster and Sons. 4.º, p. 275-276, achâmos as seguintes noticias com relação ás traducções do Antigo e Novo Testamento em indo-portuguez.
«Com o declinar dos governos portuguez e hollandez na India, os membros d'estas nações foram deixados sem meios de instrucção religiosa excepto os que offereciam os missionarios catholicos romanos; e em consequencia, o catholicismo romano tornou-se a fórma prevalecente da sua religião. Em 1817, Mr. Newstead, missionario wesleyano, que residia em Negombo, em Ceylão, começou uma traducção do Novo Testamento para beneficio espiritual d'este povo. Partes d'esta traducção foram lidas por Mr. Newstead do pulpito, e foram tambem emprestadas livremente a pessoas doentes, uma das quaes, diz-se, morreu com o evangelho de S. João debaixo do travesseiro. O povo mostrou tanto interesse pela obra, que uma edição impressa foi em breve resolvida, e, em 1819, a versão do evangelho de S. Matheus foi publicada em Ceylão, á custa da Sociedade biblica auxiliar de Colombo; e os psalmos seguiram-se, em 1821, á custa da mesma sociedade.
«Pouco depois Mr. Newstead completou a sua traducção do Novo Testamento, e a obra foi submettida a uma miuda revisão por uma commissão nomeada para esse fim, consistindo de tres missionarios e de seis dos mais intelligentes indo-portuguezes. A revisão foi terminada em 1824; e Mr. Newstead emprehendeu uma viagem a Inglaterra para sollicitar o auxilio da Sociedade biblica ingleza e estrangeira para a publicação da obra. A traducção foi recommendada com instancia á adopção da commissão pelo rev. T. J. Twisleton, archidiacono de Ceylão; e, como o seu valor foi attestado por outros juizes competentes, duas edições foram impressas em Londres, a expensas da sociedade, em 1826, sob a superintendencia pessoal de Mr. Newstead. A segunda edição do Novo Testamento, consistindo de 5:000 exemplares, appareceu em Colombo em 1831; e, no anno seguinte, uma versão dos livros do Genesis, Exodo, e parte do Levitico foi publicada no mesmo logar, a expensas da mesma sociedade. O Pentateucho e o Psalterio foram impressos em Colombo, em 1833, n'uma edição de 5:000 exemplares; annuncia-se como estando em progresso a traducção de todo o Antigo Testamento.
«Uma outra edição do Novo Testamento indo-portuguez foi mais recentemente emprehendida, e projectou-se no começo imprimil-a em Londres, sob a inspecção de Mr. Newstead, o traductor, e á custa da Sociedade biblica ingleza e estrangeira. Mas Mr. Newstead, depois de muitos annos de ausencia de Ceylão, não sentiu sufficiente confiança no seu conhecimento da lingua para fazer imprimir o Novo Testamento; e em consequencia d'isso resolveu-se imprimir só o evangelho de S. Matheus em Londres, para fim provisorio, emquanto a impressão da obra inteira seria confiada a missionarios residentes em Ceylão, com a vista de a imprimir na imprensa da missão n'aquella ilha. O evangelho de S. Matheus foi acabado em 1852, sob a superintendencia de Mr. Newtead. Deram-se ao mesmo tempo instrucções para a impressão em Colombo de 2:000 exemplares do Testamento inteiro, á custa da Sociedade biblica ingleza e estrangeira. Esta edição foi completada em 1853, sob o cuidado de uma commissão de revisão escolhida para esse fim.»
Eis um specimen do dialecto:
O sermão riba do Montanha
Ne Evangelho de São Matheus
Capitulo V [4]
E Jesus olhando o multidãos (de gentes) ja foi riba de hum montanha, e elle quando ja santa sua disçipulos ja chegar perto per elle.
2 E Jesus ja abri sua boca, e ja ensina per elotros fallando.
3 Bendito
tem
os pobres ne espirito, porque per elotros tem o reyno de ceo.
4 Bendito
tem
elotros quem tem tristes, porque elotros lo ser consolados.
5 Bendito
tem
elotros quem tem paçiente ne coraçaõ (humildes), porque elotros lo herida o terra.
6 Bendito
tem
elotros quem te senti fome e securo por justiça, porque elotros lo ser enchido, (per elotros lo tem baste).
7 Bendito
tem
o gentes misericordioso, porque elotros lo acha (reçebe) misericordia.
8 Bendito
tem
os limpos ne coraçaõ, porque elotros lo olha per Deus.
9 Bendito
tem
o gentes quem te faze paz, porque elotros lo ser chomado filhos filhas de Deos.
10 Bendito
tem
elotros quem te suffri (padeçe) per o causo de justiça: porque per elotros tem o reyno de ceo.
11 Bendito tem vosoutros quando
gentes
te engeita per vosoutros, e perseguir
per vosoutros
, e te falla toquando de vosoutros, tudos sortes de mal, falsamente, sem rezaõ por o causo de mi.
12 Allegré com muito grande allegria, porque vossas paga ne ceo
tem
grande, porque assi (mesmo modo) elotros ja perseguir per os prophetas, quem tinhe antes (mais diante) vosoutros.
13 ¶ Vosoutros tem o sal de terra, mas si o sal ja perdi aquel so sabor, acquel com que lo ser salgado? aquel despois nunca valé nada, senaõ per fica pinchado fora, e per fica massado baixo de pes de gente
14 Vosoutros tem o lume de o mundo, hum cidade que tem riba de um montanho non pode ser escundido.
15 Nem gentes nunca sandé hum candecera e (despois) aquel bota baixo de hum medida, mas riba hum candeler, e aquel te da lumi per tudos (pessaõs) quem tem ne caza.
16 Vossas lumi desse luzi diante de gentes, que vossas bom fazeres elotros pode olha, e glarifica per vossas Pai quem tem ne ceo.
17 ¶ Naõ lembra que eu ja vi per destrui o lei ou o prophetas, eu nunca vi per destrui, mas per guarda (per faze) aquel lei.
18 Em verdade eu te falla per vosoutros, (que) ate que ceo e terra lo ser passado, nehum palavra, nehum lettra de o lei nada ser passado, ate que tudo lo ser cabado.
19 Videaquel, quem seja lo quebra uma de istes mais piquinino manedmentos e assi lo ensina por gentes, (per faze) el lo ser chomado o mais piquinino ne o reyno de ceo; mas, quem seja lo faze e lo ensina istes mandamentos, aquel mesmo pessaõ lo ser chomado grande ne o reyno de ceo.
20 Porque eu te falla por vosoutros, doque
o justiça
de os escribos e (de os) phariseos, si vossa justiça non ten mais grande, vosoutro si nem hum modo nada entra ne o reyno de ceo.
21 ¶ Vosoutros ja ovi que tinhe fallado de elotros de tempo antigo, (velho tempo) vos nada mata, e quem seja te mata, lo ser ne perigo de o juizo.
22 Mas Eu te falla per vosoutros, que quem seja com sua irmaõ tem raibe sem rezão, lo ser ne perigo de o juizo, e quem seja per sua irmaõ lo falla, Raca, (vil pessaõ,) lo ser ne perigo de o supremo counselho, e quem seja que lo falla vos dodo, lo ser ne perigo de o fogo de inferno.
23 Videaquel, si vos te trize vossa sagoate per o altar, e ali te cahi ne sentido que vossa irmaõ tem alun cousa contra vos.
24 Ali guarda vossa sagoate diante o altar, e anda vos, primeiro com vossa irmaõ fica bom amizade, e depois de aquel, vi, e offerçe (da) vossa sagoate.
25 Accorda com vossa enimigo prestamente que hora vos tem ne o caminho com elle, ou senaõ ne alum tempo, o enimigo pode entrega per vos per julgador, e o julgador te entrega per vos per sapier, e vos te fica lançado ne prisão.
26 Em verdade Eu te falla per vos, que vos nem hum modo nada vi fora (de aquel lugar) ate que vos ja paga o trazeiro padas de dinheiro.
27 Vosoutros ja ovi que tinhe fallado, de elotros de tempo antigo vos nada faze adulterio.
28 Mas, per vosoutros Eu te falla Que quem seja com impuro deseijo te olha sobre hum mulher, ja faze adulterio com ella ne sua coração.
29 E si vossa olha dreito te offende par vos (tem um cassião per vos per offende) ranca aquel, e pincha fora de vos, porque tem mais bom per vos que uma de vossas olhos te fica destruido, e não que vossa enteiro corpo lo ser lançado ne inferno.
30 E si vossa maõ dreito (mesmo modo) te offende per vos, corta aquel, e lança fora de vos, porque doque vossa inteiro corpo per fica lançado ne inferno, tem mais bom que uma de vossa mãos te fica destruido.
31 Tinhe fallado que quemseja lo reda (bote fora) sua mulher, elle miste da per ella hum carta de seperaçaõ.
32 Mas eu te falla per vosoutros que quem seja lo reda sua mulher senaõ (forde) per rezaõ de fornicaçaõ, ella te causo per faze adultero, e quem seja lo caza com aquel mulher, (tambem) te faze adulterio.
33. Torna, vosoutros ja ovi que tinhe fallado de elotros de tempo antigo, vos ne mista da falsa juramento, mas miste paga per o Senhor vossa permita:
34 Mas Eu te falla per vosoutros, que enteiromente ne miste jura nem pelo ceo porque aquel tem o throno de Deus.
35 Nem pelo o terra porque aquel tem o estrado de sua pes: nem pelo Jerusalem porque aquel tem o cidade de o grande Rey.
36 Nem pelo vossa cabeça porque vos nonpode faze branco ou preto hum cabello.
37 Mas vossas cõmmunicaçaõ desse fica sem, sem naõ, naõ, porque doque iste que seja tem mais, te vi de mal.
38 ¶ Vosoutros ja ovi que tinhe fallado, hum olho por hum olho, e hum dente por hum dente.
39 Mas Eu te falla per vosoutros que vosoutros ne miste dessa mal: mas quem seja quando buftea per vos ne façe dreito; vira per elle o outra tambem.
40 E si alum homi lo çita per vos ne hum corte de justiça, e tira vossa cabai, elle desse toma vossa mantle tambem.
41 E quem seja lo força par vos per anda hum leagou, anda com elle dous leagous.
42 Da per elle quem te pedie com vos, e ne miste vira de elle quem lo toma per deuda de vos.
43 Vosoutros ja ovi que tinhe fallado, vos miste ama per vossa vizinho, e abhoreçe per vossa enimigo.
44 Mas Eu te falla per vosoutros. Ama por vossas enimigos, benze per elotros quem te maldiçoa per vosoutros, faze bom per elotros quem te abhoreçe por vosoutros, e roga (com Deos) por elotros, quem te faze mal, e te perseguir per vosoutros.
45 Que vosoutros pode fica o filhos filhas de vossas Pai quem tem ne ceo, porque elle te faze o Sol por luze sobre o maldito gentes, e sobre o bom gentes, e te manda chuve sobre os justos, e (tambem) os injustos.
46 Porque si vosoutros te ama per elotros, quem per vosoutros te ama, vossas meriçementos que tem? O maldito gentes o mesmo te faze.
47 E si vosoutros per vossas irmaõs namais te mostra bondade, vosoutros que te faze mais doque outros? O maldito gentes o mesmo te faze.
48 Videaquel, seja vosoutros perfeito, ate assi como vossas Pai quem tem ne ceo, tem perfeito.
Capitulo VI
Toma cuidade que vosoutros nunca faze caridade, (da ismolas,) diante de gentes per fica olhado de elotros; ou senaõ vosoutros nunca recebe nem um paga de vossas Pai quem tem ne ceo.
2 Videaquel, vos quando te da ismolas, ne miste son hum trombetta diante de vos, (per da sabe vos que te faze) assi como os hypocritas te faze, ne os synagogas, e ne os ruas que elotros pode acha honra de gentes; Em verdade, eu te falla per vosoutros, (Que) elotros te acha elotros su paga.
3 Mas vos quando te da ismolas, vossa maõ escarde naõ desse sabe, vossa maõ dreito que te faze.
4 Que vossas ismolas pode ser ne segrade, e vossa Pai, quem ne segrade te olha, sua mesmo ne publico lo paga per vos.
5 ¶ (E tambem) vos quando te ora (te roga com Deus) ne miste fica mesmo per os hypocritas porque elotros te dizer per ora ne os synagogas, e cantos de ruas, que elotros pode ser olhado de gente. Em verdade eu te falla per vosoutros que elotros te reçebe elotros su paga.
6 Mas vos, quando vos te ora, entra ne vossa cambre, e quando vos ja ficha porta, ora com vossa Pai quem tem ne segrade e elle quem te olha ne segrade ne publico lo paga par vos.
7 Mas vos outros quando te ora, naõ usa vaõ palavras, assi como os gentios te faze, porque elotros te lembra que elotros lo tem ovido per rezaõ de elotros su muito palavras.
8 Videaquel vosoutros ne miste fica mesmo per elotros, porque vossas Pai (celestial) enteiromente te sabe vosoutros que cousas te mista ansque vosoutros te pedie de elle.
9 Videaquel, ne iste modo vosoutros miste roga. Pai nossa quem tem ne ceo, sentificado seja tua nome.
10 Venho o tua reyno, seja feito a tua vontade asis ne terra como ne ceo.
11 O paõ nossa de cada dia nos da hoje,
12 E perdoa nos nossas dividas, assi como nos te perdoa per nossos dividores.
13 E nos naõ desse cahi ne tentaçaõ, mas livra nos de mal, porque teu tem o reyno e o poder, e o gloria, pera tudo sempre, Amen.
14 Porque, si vosoutros te perdoa per gente elotros su offenças, vossas Pai celestial tambem lo perdoa per vosoutros.
15 Mas si vosoutros per gente nunca perdoa elotros su offenças, vossas Pai celestial tambem nada perdoa (per vosoutros) vossas offenças.
16 ¶ Torna, vosoutros quando te jingua, noõ fica mesmo per o hypocritas, com hum rosto de tristeza, porque elotros te faze feu elotros su rostas, que pode parçe per gente que elotros te jingua. Em verdade eu te falla per vosoutros (que) elotros te reçebe elotros su paga.
17 Mas vos, quando vos te jingua, onta (com azete) vossa cabeça e lava vossa rosta.
18 Que per gente naõ pode parçe que vos te jingua, mas per vossas Pai, quem ne segrade te olha, e vossas Pai quem ne segrade te olha, ne publico lo paga par vos.
19 ¶ Vosoutros nemiste junta thesouros (riquezas) ne o terra, onde pouches e forea te dana, e onde ladraõs te entra e te furta.
20 Mas junta per vossa mesmos, thesouros ne ceo, onde nem pouche nem forea nunca dana, e onde ladraõs nunca entra e furta.
21 Porque vossas thêsouro onde tem, ne aquel lugar tambem vossas coraçaõs lo fica.
23 O lumi de o corpo tem o olho, videaquel si vossa olho tem puro (sinçero,) vossa inteiro corpo lo tem enchido de lumi.
23 Mas si vossa olho tem mal, vossa inteiro corpo lo tem enchido de escuridade, videaquel si o lumi que tem dentro de vos tem escuridade que grande tem aquel escuridade!
24 ¶ Nem hum homi nonpode servi per dous Senhors, porque elle lo abhoreçe per huma, e por outra hum lo ama, ou senaõ, elle lo tem firme per huma, e por outra hum lo disimporta, vosoutros nonpode servi per Deos, e tambem per Mammon (ou requezas).
25 Videaquel Eu te falla por vosoutros naõ toma nem hum cuidade toquando de vossas vida, vosoutros que lo comer, ou vosoutros que lo bebe, nem toquando de vossas corpo, vosoutros com que lo tem vestido, doque comer, nontem o vida de valia mais grande, e (tambem,) o corpo do que vestidos?
26 Olha os pastros de ar! porque aquelles nunca bruffa, nem nunca faze novidade, nem nunca junta ne celleiros, ainda, vossas Pai celestial te sustenta per aquelles, (e) doque aquelles nontem vosoutros muito mais bom?
27 Com muito lembranças quem de vosoutros pode faze sua mesmo hum covido mais alto?
28 E porque vosoutros te cuida toquando vestidos? considera os fules de o campo, (varze,) aquelles ne que modo te cresçenta, aquelles nunca servi, nem nunca travai.
29 E ainda, Eu te falla per vosoutros, que ate Salomão ne tudo sua gloria (grandeza) non tinhe vestido assi (bunito) como huma de istes (fules).
30 Videaquel si Deos assi te vesti os fules de o campo, que hoje te fica, e amiam tem lançado ne forno (ou fogo,) Nontem sua vontade muito mais pera vesti per vosoutros? O vosoutros de bem pouco fe!
31 Videaquel, non toma cuidade fallando, nos que lo comer, ou nos que lo bebe? ou nos com que lo tem vestido?
32 (Porque tudo de istes cousas os Gentios te busca,) porque vossas Pai celestial (bemfeito) te sabe que vosoutros tem necessidade de istes cousas.
33 Mas, primeiro vosoutros miste busca o reyno de Deos, e sua justiça e (aquelhora) tudo de istes cousas per vosoutras lo ser dado.
34 Videaquel naõ toma nem hum cuidade toquando de amiam, porque o amiam lo toma cuidade toquando os cousas que per aquel te compete. Per cada hum dia o mal tem baste, que te compete per aquel dia.
Capitulo VII
Nao julga, que vosoutros nunca ser julgado.
2 Porque com que julgaçaõ vosoutros te julga (per gente) vosoutros (tambem,) lo ser julgado (de Deos,) e com que medida vosoutros te medi, aquel mesmo per vosoutros lo ser medido torna.
3 E porque vos te olha o mote (piquinino erro) que tem ne olho de vossa irmão, e nunca considera a grande faltançe que tem ne vossa mesmo olho?
4 Ou quely vos lo falla per vossa irmaõ, Eu desse tira o mote fora de vossa olho; e Olha! hum grande faltançe tem ne vossa mesmo olho?
5 Vos hypocrita! primeiro, fora de vossa mesmo olho, pincha aquel grande faltançe e aquelhora, mais claromente vos lo olha per tira o mote fora de vossa irmão su olho:
6 ¶ Aquel que tem santo, naõ da per os cachors nem pincha vossas aljoffries diante os porcas, ou senão (istes bom cousas) aquelles (porcas e cachors) lo massa baixo de pe; e torna lo vira, e lo rompa per vosoutros.
7 Pedie (com Deos) e aquel lo ser dado per vosoutros, busca, e vosoutros lo asserta, bate, (per o porta de misericordia,) e per vosoutros aquel lo ser aberto.
8 Porque cada hum pessaõ quem te pedie (ne dreito modo,) te recebe, e elle quem te busca, te asserta, e per elle quem te bate o porta lo ser aberto.
9 Ou, entre de vosoutros, qui homi tem, quem per sua filho lo da hum pedra, elle quando te pedie pão?
10 Ou, si elle te pedie hum peixe, elle lo da hum serpente.
11 Antos, si vosoutros, tendo mal, te sabe perda per vossas filhos bom cousas, que tanto mais vossas Pai quem tem ne ceo lo da bom cousas per elotros quem te pedie de elle.
12 Videaquel tudos cousas que seja que vosoutros te querre que gente per vosoutros miste faze, o mesmo (cousas,) vosoutros miste faze per elotros, porque iste tem (o mandemento,) de o lei, e de o prophetas.
13 ¶ Entra vosoutros ne o porta estreito, porque largo tem o porta, e largo tem o caminho que te leva per destruição, e bastantos tem quem ne aquel te alcança.
14 Videque estreito tem o porta, e estreito o caminho que te leva per vida, e poucos namais, aquel te asserta.
15 Toma cuidade de falso prophetas, quem per vosoutros te vi, ne vestidos de ovelhas (de enganho,) mas dentro, elotrem tem bem maldito.
16 Vosoutros lo conheçe per elotros, de elotros su frute, gente te panha ouves de espinhos? ou bom fruite de mal albris?
17 Ate assi, cada hum bom albri te produçe bom fruite, mas hum mal albri mal fruite nenhum mal albri nonpode produçe fruite bom.
18 Hum bom albri non pode produçe mal fruite, nem, hum albri corrupto non pode produçe bom fruite.
19 Cada hum albri, que nunca produçe bom fruite tem cortado e pinchado ne o fogo.
20 Videaquel de elotros su fruite, vosoutros lo conhece per elotros.
21 Naõ cada um pessaõ quem par me te falla Senhor! Senhor! nada entra ne o reyno de ceo, mas elle (namais,) quem te faze o vontade de meu Pai quem tem ne ceo.
22 Bastanto (pessaõs) lo falla par mi, ne aquel dia (de julgaçaõ,) Senhor, Senhor, nos nunca prophecia ne tua nome? e ne tua nome ja lança fora diabos? e ne tua nome ja faze bastantos obras espantoso?
23 E aquelhora, per elotros Eu lo declara, Eu nem hum tempo nunca conheçe, per vosoutros, sahi de mi, vosoutros quem te faze iniquidade!
24 ¶ Videaquel, quem seja te ovi istes meu ensinos, e aquelles te faze, Eu lo papia de elle assi como de hum homi sizo, quem je concerta sua caza riba de hum rocha (muito grande e força pedra).
25 E o chuve ja cahi, e os aguas, ja vi e os ventos ja abala, e ja bate sobre aquel caza, e aquel nunca cahi, per o causo que aquel tinhe fundado riba de um rocha.
26 E cada hum pessaõ quem te ovi istes meu ensinos e aquelles nunca faze, toquanto de elle eu lo papia assi como hum homi dodiçe, quem sua caza ja concerta riba do area.
27 E o chuve ja cahi, e os aguas ja vi, e os ventos ja abala, e ja bate sobre aquel caza, e aquel ja cahi e grande tinhe o ruido de aquel.
28 E aquel ja vi per suste, Jesus quando ja caba istes ensinos, que os gentes tinhe espantado com sua doutrino.
29 Porque Jesus ja ensina per elotros assi como huma quem tinhe com authoridade (poder) e não assi como os escribos.
7. O dialecto portuguez de Malaca
John Cameron, que viajou na India ha vinte e tantos annos, descrevendo na sua obra
Our tropical possessions in Malayan India
(London, 1865, pag. 374
[5]
) os descendentes dos portuguezes estabelecidos em Malaca, os quaes são uma raça mixta de portuguezes e indigenas, nota que durante um periodo de cerca de dois seculos elles têem conservado a sua lingua original e continuam a fallar uma especie de portuguez corrupto (
broken portuguese
); que elles são grandes musicos, que são muito prolificos, e que ao caír da tarde os homens casados se assentam nas varandas de suas casas dando para a rua, tocando geralmente no violino alguma melancholica melodia para divertimento de suas mulheres e familias que estão reunidas em roda d'elles.
8. Dialecto macaista
D'este só conhecemos o que nos ministram as duas cartas que reproduzimos; a primeira foi publicada em 1865 no
Ta-Ssi-Yang-Kuo
, jornal de Macau, e reproduzida na
Gazeta de Portugal
; a segunda te-mol-a n'uma folha avulsa, tiragem á parte de um jornal provavelmente o mesmo
Ta-Ssi-Yang-Kuo
. As cartas foram forjadas por quem conhecia a lingua litteraria; um documento verdadeiramente popular falta-nos infelizmente.
Não ha n'esse dialecto distincção de generos; o
P. S.
da primeira carta indica que a influencia do jornalismo ía introduzindo as fórmas, da lingua mãe.
O plural é expresso pela repetição da palavra:
china china
, os chinas;
criança criança
, crianças;
sium sium
, senhores;
amigo amigo
, amigos.
As fórmas verbaes estão reduzidas a uma, que é o infinito geralmente, ou uma fórma do presente, a qual póde ser empregada como infinito; assim
calote de vae pescar
, tolice de ir pescar;
hora de vem
, hora de vir;
pôde tem
, póde ter. A mesma fórma serve para todas as pessoas.
O
r
do infinito foi apocopado excepto no verbo
ser
:
tirá
, tirar;
mandá
, mandar;
fazê
, fazer;
coré
, correr;
subí
, subir.
O presente é expresso: 1) pelo infinito:
vosso tio gostá
, vosso tio gosta; 2) por uma fórma do presente:
china sam tolo
, o china é tolo; 3) por
tá
(está) com o infinito:
tá fazê
, faço, fazes, faz, etc.,
tá andá
, ando etc.,
tá fallá
, fallo, etc.; 4) por
tá
(está) com a fórma do presente que toma o logar do infinito:
tá vai
, vou vae, etc.
O futuro é expresso por
logo
com o infinito:
logo ficá
, ficará; mas n'alguns casos esse processo serve para exprimir o presente.
O passado é expresso: 1) pela formula fundamental:
augmentá
, augmentou; 2) por
já
com a fórma fundamental:
já principiá
, principiou; mas este processo parece tambem exprimir o presente.
Conservam-se os participios passivos:
impurado
,
costumado
, etc.
Notem-se, entre outras, as seguintes fórmas:
mestê
, ser preciso, de ver;
promódi
, por amor de, porque;
pastro
, passaro;
assilai
, tal.
Carta de Siára Pancha a Nhim Miquela
Macáo 3 de janero de 1865.
«Minha querida Miquéla.
Tanto tempo eu já querê respondê vosso carta, mas sempre sentî doente, porisso tanto tardá este resposta. Vôs minha Miquéla nadi ficá reva cô eu; vôs sabe qui eu mutu querê pra vôs, e se nunca escrevê mas ásinha san prómódi já tá múto véla. Otro dia acun-ha mofina di ama abri janella, eu irguí cedo, sai fóra, apanhã vento, ficá constipada. Priméro toma sincap, misinha de vento, raspá mordicim, mas nunca pôde ficá bom, cada dia sintí corpo más fraco, perna azedo. Dôtôr falá sam doença d'idade, mas eu nunca sintí assim, chomá mêstre Ahoi, qui tudu gente falá sam capaz, elle já curá. Agora sentí um poco forte, mas mêstre nômquêro que eu fazê mutu força, e mandá tomá ninho di pastro.
Nosso Macáo, minha Miquéla tem grande novidade. Governo nôvo sam capaz e já virá tudo. Mas um pôco tempo tudo lôgo ficá virado. Rua agora já nomtêm pedra pedra, sam otro lai môdo, fazê duro cô téra. Fazê gosto olá di bonito. Pra vanda de mar, na praia grandi, já botá qui tanto arvi; tudo gente cioso e intrimittido falá numpresta, qui sabe qui foi, mas eu nunca sintí assim. Campo de Sam Francisco já fichá, fazê jardim, escada grande já nomtêm, fazê ali muro; ali riba, aquelle calvario tamêm tá vai iá pra fazê quartel di soldado, qui já principiá, logo ficá grandi. Porta di Campo e di Santo Antone já nomtêm tamêm, agora sam rua largu, tudo aquelle arvi fronte di Gularte sua casa já cortá, china china falá corê sangui, mas eu sentí china sam tôlo. Aquelle porcaria di fonti perto di cano real tamêm já tapá, abri poço alá vanda. Tudu poço agora tem sua cobertor bem fêto, e bomba di novo invençám.
Si minha Miquéla agora pôde ólá tudo aquelle lugar, certo nadi crê qui sam Macáo.
Santo Antone qui bem fêto! Aquelle bariga di adro já vai dentro, ficá bonito, e rua mas um pôco grandi. Padri nunca contente, mas qui cuza logo fazê! A nôte já nômtem aquelle escuridám costumado, hoze candía tem tres bico, e china china si querê furtá azète vai cartá mati. Genti di Senado sempre durmido, nomtêm aquelle genio di Governo, que tem ôlo vivo, e nadi iscapá nada. Cêdo, cêdo, já tem na rua, tirá telhêro di botica, rancá pagôde di porta di china china, cortá rua fazê drêto, qui fazê gosto ólá.