Front matter (continued 2)
Reading edition
Otro dia Voluntario inglez d'Hongkong já vem Macáo! Qui lai di bonito! eu já vai ólá tamêm. Macáo parêce França, tudo gente fallá. Tem tifin, rivista di tropa, salva di vinte un-ha tiro, balsa á note qui bonito, gastá cô tudo aquelle flamancia tres mil fóra pataca. Algum gente qui nunca gostá assilai cuza, já vai ólá cova de Sam Francisco Xavier eu tamêm muto quere pra santo, mas nunca vai.
Agora tá gavartá Sam Paulo; achá un-ha buracu na Monte, ôtro na frontipicio di igreja e gente antigo fallá sam caminho di basso di téra qui vai di igreja pra fortaleza na tempo de paulista, porisso agora gavartá tudo aquelle mato, pra descobri caminho. Tudu gente fallá ali tem tanto pataca qui jisuita interá, eu achá graça: pôde crê? Padri padri qui cusa pôde tem? coitado! Eu sintí sam historia. Mesmo caminho, qui sabe? Elôtro qui cuza fazê cô caminho basso di téra? Elôtro nunca sam heregi como pedrêro livre, qui cusa fazê di lugar pra escondê?
Minha Miquéla nomêstê esquecê di mandá nova di tudu qui ólá ali; si marido tem vagar mandá tamêm escrevê. Gente tá fallá qui moda di balám já cavá pra nhonhonha, eu sintí qui si sam assim sam fortuna.
Eu tamêm nompôde gostá di assilai cusa; quando vento grandi sam mutu pirigoso, e quando incustá na janéla, ou ficá capido, impurado pra traz, frôvê sangui ólá.
Dá bença pra criança criança e nomêstê esquecê de tudu aquelle receta qui eu já mandá quando apanhá saván. Nomêstê lembrá sam brinco, eu fallá cô experiencia: tudu gente ri, qui foi eu pilá costa a note intêro, mas eu inda tá vivo, elôtro tudu qui fazê cusa de moda tá morê mas ásinha.
Eu já mandá dos amchôm di achar di gamên, un-ha balsa di sucri pedra, dos jara di jagra para vós e criança criança, mas nunca achá resposta, porisso eu ficá cô pençám.
Já intrá anno novo; mutu bom anno, filicidade, vida, saude para vôs, vosso marido e tudo criança criança. Nosso senhôr deçá criá. Eu tá muto lembrá pra vós, querê mandá um pôco de alúa mas nômpôde, paciencia. Masqui nompôde acetá bom vontade d'este vella chacha qui mutu querê pra vôs.
Dá lembrança pra Pepe, falá cô elle múto contente eu já ficá, ouvi falá, elle já ficá bom de espinhéla. Vosso tio padri tamêm mandá lembrança, elle coitado nunca sam nada já. Nhum Quimquim já vai viazi, imbarcá de piloto na navio que levá chuchai, ganhá tanto pataca.
Vosso chacha
Pancha.
P. S.—Vós lôgo sintí grandi differença na minha modo di escrevê. Eu já aperfeçoá bastante neste um pôco tempo. Tudu este escóla novo de machu e femia, e aquelle gazetta
Ta-ssi-yang-kuo
já fazê indretá bastante nosso lingu.
Carta de tia Paschoela á sua sobrinha Florencia
Macáo, 5 de otubro de 1869.
Minha Querida Chencha.
Como vôs lôgo querê sabe tudo novidade de Macáo, porisso que eu já pedi com tudo sium sium, parecero de jogo, pra trazê tudo novidade de fóra pra eu pôde escrevê pra vôs.
Macáo agora já tá muto mudado; já nontêm inveja de Éropa. Pra tudo rua são careta, são cavalo; de tanto que já tem, que já nontêm lugar pra guardá; maior parte ficá pinchado na meu de rua de S. Lorenço. Agora tá fazè ung-a casa qui lai de grande na horta de governador, tamem pra guardá careta e cavalo. Olá um pôco, minha Chencha, fazê palacio na cidade pra cavalo, tudo pobre pobre vae pará pra casinha de campo!
Agora tá com força de prepará pra recebe principe de Inglaterra. Já pedi com sium Carlito pra dá moda pra fazê ung-a cadera pra cartá principe. Querê cadera que tem quatro pinga pra oito cule; mas como vosso tio gostá muto de figurá, já lembrá de pedí pra convidá oito comendador pra cartá aquelle bemaventurado principe, pra vosso tio tamem pôde entrá na meu.
Nosso governador lôgo vae ficá na casa vasio de sium Lorenço pra dá palacio pra principe.
Nosso juiz tá perto vae já pra Goa. Coitado de vêlo, já soffrê ung-a molestia bem de grande que escapá morê. Agora tá andá côtê; assim mesmo este um pôco de farizêo nunca perdoá de desesperá aquelle pobre vêlo, que se nunca são cuidado de Padre Maximo, com sua misinha cazera, já vae já pra otro mundo!
Já cavá lua de batê páu, mas lua de batê costa de china china inda nompôde cavá, porisso que este um pôco desabrogunhado rabo de porco cada vez tá mas atrevido.
Otro dia eu já assistí festa de Senhora Rozario. Sentí na greza ung-a chêro bem desagradavel. Vem casa a note, tá contá com tio João, elle então que dá conta, que já levantá um pôco alto parte trazero de capela-môr; já fazê ali ung-a lugar pra botá imundicia. Quando vem chua, tudo agu de aquelle porcaria porcaria, contaminá pra pê de parede, vem pra dentro de capela-môr. Vôs inda lôgo ovi, minha Chencha, que algum dia inda lôgo mudá tudo cavalo de policia pra dentro de greza, pra tem mas cham pra fazê palacio grande grande pra official. Agora já nunca contentá cada ung-a com dos cela. Cada official querê sete cela, qui lai môdo pôde chegá?
Padre Rondina já livrá de ung-a desgraça qui lai de grande! Que sabe qualo mapeçoso aquelle que já vae tirá de sua lugar ung-a botle de enxarope, bota ung-a botle de verniz. Coitado de padre, sem sabe de nada, virá muto socegado na sua botle pra copo de agu; quando bebê primero pucado, então que sentí que são verniz! Nunçám obra de maliçombrado! querê vernizá tripa de gente como vernizá cadera, canapé?!
Vosso tio tá muto triste. Este anno já perdê quanto mil pataca com laia laia de condenação de historia. Se o menos pôde tem agora grande negocio de cule, tamem são bom; pôde chubi um pochinho de aqui, um pochinho de ali, discontá o que já perdê. Jogo este anno já nompôde tirá muto. Dispeza cada vez mas grande. Familia augmentá. Divida nompôde cobrá; maior parte são gente grande grande que tá devê. Assim mesmo, minha Querida Chencha, inda nompôde quexá de falta que comê; perna de presunto que china china mandá de presente, armado de ung-a ponta pra otro ponta de cusinha; mas vosso tio nompôde comê ôtro cusa mas que pece fino, chilimeçô de casa algum vez lamci di Cantão.
N'otro tempo pescaria são na agu salgado; agora são na agu doce. Que sabe qualo bragero aquelle que já inventá que na Praia Grande tem pescaria de pece pedra, aquelle rapaz de botica de Neves já cae na calote de vae pescá anote fronte de sua botica. Pinchá linha cae na sêco; em quanto tá safá linha, senti comedura; quando puça, apanhá ung-a casta de susto qui laia de grande! era que são ung-a cuzaçuso de rato, como ung-a letão, ganchado na anzol. Aquelle tentação de animal principiá côrê pra tudo Praia Grande com linha na boca, e pobre de rapaz a côrê traz de tal rato pra salvá sua linha; de sorte que já fazê ri tudo aquelle gente na Praia Grande com tal pescaria de pece pedra, que ramatá, largá sarangong.
Manjor Julio já tem quanto mez já de morto. Aquelle tolo de Boletim parte que dá peza sua viuva, vae dá pra tudo sua amigo amigo. Que sabe se na Éropa são costumado assim?
Tudo vez que eu sae na janella intopá com ung-a official de vapor que casta de-chistoso, mas historero, sevandizio que más nompôde ser. Tem ung-a nome que laia de galante; eu já nompôde lembra se são Homecaco o Monocaco, mas são ung-a cusa assim de caco. Máu genio, lingustero, intremetido, até querê intremetê com emprego de sium Miguel Simões, e tá fazê conta já de intrá naquelle lugar. Pra tudo gente são meçá chavoqueada, tirá dente, tira lingu; mas medrozo como cachoro china.
Como já são hora de vem tudo parecero de jogo, eu já nompôde escrevê mas novidade. Amestê olá fazê chá, tirá sucre, mandá fazê torada, comprá manteguilha na botica de barbero.
Adeus, Minha Querida Chencha, Deus conservá saude pra vos e pro vosso Abelardo, Eu, vosso tio, tia tia, tio João, tudo mandá muto lembrança.
Vai ung-a botle de achar laia laia e ung-a flandi de bolo batê-pau torado.
Vosso tia e amiga
Pascoela.
9. Appendix:
O portuguez alterado como o fallam os negros e os estrangeiros que possuem mal a lingua tem sido muitas vezes imitado, principalmente no theatro e na litteratura de cordel. Apesar do interesse secundario d'essas imitações damos, alguns specimens.
(Indo Gonçalo seu caminho, apartando-se do Clerigo, topa hum Negro grande ladrão, e entra cantando buscando hum mulato: e diz Gonçalo, depois de cantar o Negro:)
gonç. Dize, negro, es da côrte? gonç. Mais tredor era o rascote Que m'a mim furtou a lebre.
neg. Qu'esso?
gonç. S'es da côrte? neg. Qu'he quesso que te furtai?
neg. Ja a mi forro, nam sa cativo. Boso conhece Maracote? Corregidor Tibão he, Elle comprai mi primeiro; Quando já paga a rinheiro, Daita a mi fero na pé. He masa tredora aquelle, Aramá que te ero Maracote. gonç Hũa lebre de meu pae, De meu cunhado huns capões, E marmelos e limões; Abonda tudo lá vai.
neg. Jesu, Jesu, Deoso consabrado! Aramá tanta ladrão! Jesu! Jesu! hum caralasão: Furunando sá sapantado. Jesu! cralasam.
Pato nosso santo paceto ranho tu e figo valente tu e cinco sego, salva tera pão nosso quanto dão dá noves caro he debrite noses ja libro nosso gallo. Amen Jeju, Jeju, Jeju.
Sa pantaro Furunando. Dize, rogo-te, fallai: Conhece tu que furtai? Porque tu nam bruguntando? Grande canseira: Firalgo sôlto, canseira; Chovere muto, canseira; Não póde chovere, canseira:
gonç. Perguntarei por meu pae. Muito filho, canseira;
neg. Cal-te: Deoso cima sai, Que furtai ere oiai. Deoso nunca vai dormi, Sempre abre oio assi, Tamanha tu sapantai. Guarda mar esso mal, E senhora Prito santo. Nunca rirá homem branco Furunando furta real. Não sabe mi essa careira: Para que? para comê? Muto comê muto bebê Turo turo sa canseira. Nunca pariro canseira; Papa na Roma canseira; Essa ratinho, canseira; Não vamo paraiso, grande canseira; Vira reza mundo turo turo he Canseira. Mi nam falla zombaria. Pos para que furtai? Que riabo sempreza! Abre oio turo ria. Mi busca mulato bai. Ficar abora, ratinho.
Vira mundo turo canseira: Senhor grande, canseira; Home prove, canseira; Muiere fermoso, canseira; Muiere feio, canseira; Negro cativo, canseira; Senhoro de negro, canseira; Vai missa, canseira; Prégação longo, canseira; Crerigo nam tem muiere, canseira; Crerigo tem muiere, canseira; gonç. Eu aguardo meu padrinho, Que va comigo a meu pae. Eu vou ao rio perem, Porque hei sêde e beberei, E sicais que nadarei Emquanto o clerigo vem. Leixarei o chapeirão Mettido nesta mouteira, E o cinto e esmoleira, Porque lá logo o verão, Não me aqueça outra tal feira.
(Espreita o negro como Gonçalo esconde o chapeirão e o al, e tanto que se vai entra dizendo:)
neg. A mi abre oio e ve Ratinho tira besiro: Ere dexa aqui condiro: Não sei onde elle mettê. Senhora Santo Francico, Santa Antonia, San Furunando! Pois mi ha d'andar buscando, E levare elle na bico O servo Santa Maria.
Sabe a regina Matho misercoroda nutra d'hum cego savel até que vamos. A oxulo filho d'egoa alto soso peamos ja mentes ja frentes vinagre qu'elle quebrárão em balde ja ergo a quante nossa ha ilhos tue busca cordas oculos nosso convento e geju com muito fruta ventre tu ja tremes ja pias. Seuro santa Maria dinhero me lá darão he ve esa carta da me mucho que furte cantara Furunando.
(Acabada assim esta
salve regina,
acha o Negro o que Gonçalo leixou escondido, e diz:)
Ei-lo aqui sa! Deoso graça. Graça Deoso esse he capote; Nunca dexa aqui palote: Ratinho, quem te forcasse! Aramá que te ero villão! Que palote saba sam, Barete também bo era. Mi cansai e á deradera A mior fica sua mão. Vejamos bolsa que tem: Hum pente para que bo? Tres ceitil sa qui so: Ratinho nunca bitem. O riabo ladarão! Corpo re reos consabrado! Essa villão murgurado Sa masa prove que cão. Quando bolsa mi achase Fernão d'Alvaro, esse si; Nunca pente sa alli. Ah reos! quem te furtasse Bolsa, Nuna Ribeiro! Home bai busca rinheiro: A toro ere rise: Ja rinheiro feito he. Aramá que tu ero gaiteiro! Fernão d'Alvaro m'acontenta; Elle nunca risse nam. Logo chama ca crivam, —Crivaninhae esormenta; Toma rinheiro, vas embora. Boso, home de bem, que buscae? —Mi da cureiro agarba sae. —Boso que buscai corte agora? —Buscae a Rei jam João, Paga minha casaramento. —Dá ca, moso, trae esormento; Crivaninhae boso, crivão: Home, tomae hum dos quatro sete: Vas embora turo turo. Sua rinheiro sa segura, Mioro que elle promete. Marco Estevez moladeiro. Elle rise: Santa Maria! Rinheiro boso queria? Bai bai dormir paieiro.— Boso que pedir, muieiro? —Tanta filho mi tem qui... —Quem manda boso pari, Boso grande parideiro? —Boso seria muito bô: Vaca ne Francico paia; Tenha seis filho e mi so Nam temo comere ni migaia. Elle rise: Que culpo tem a Rei jam João Boso parir como porco, Bai buscai sua pae torto, Que dai a sua fio pão. Velha, que boso querê? —Molla, que a mi pobre sai. Elle rise: Porque boso nan guardai Rinheiro que boso bebê?— Jesu! Jesu! moladeiro Sa riabo aquella home: Quando a mi more da fome Nunca buscai sua rinheiro, Porém graça a Reos, a mi Nunca minga que furtá; Pouco ca, pouco relá, Pouco requi, pouco reli, Grão e grão gallo fartá, Quem furta, home sesuro: E louvar a Reos com turo E senhoro Prito Santo. A mi bai furta emtanto Camisa que sá na muro.
Gil Vicente, O Clerigo da Beira.
O preto, e o bugio ambos no mato discorrendo sobre a arte de ter dinheiro sem ir ao Brazil.
Lisboa. Na officina patriarchal de Francisco Luiz Ameno 1789. 4.º 21 pp.—Excerpto:
«Já non pore deixá de incricá os cabeça, e confessá, que vozo doutrina sá huns doutrina tão craro, e verdadeiro, que pla mim sá huns admiraçom non sé platicada per toro o mundo. O trabaio a que vozo obliga os pleto, e os blanco; sá huns trabaio a que ninguem se pore negá sem melecé huns cóssa bom; porque os genia, e os incrinaçom do natureza a toro gente move pala ere, e fóla de trabaio ninguem pore vivé em satisfaçom. Mim agola sem trabaiá nom pore conté, ainda que mim ter abominaçon a captiveiro cruere de blanco, de que sá forro; com turo non aglada a mim estar aqui sem nada fazé: evita vozo tanta plegiça, os excessa de plodigo, e dos varento, que nozo poderemo toro assi havé os oira, e triunfá dos indigencia; e de turo quanto pore infelicitá. Se aqui apalecera agola uns blanco, que pole escrevé os mavioso doutrina, que vozo platicá, e toro o gente ouvire cos oreia aberto, faria ere ao familia toro do mundo hum favoro, que meoro non pore imaginá.» p. 21.
II. DIALECTOS HESPANHOES
1. Creolo de Curaçáo
Esta ilha, cujo nome é lembrado por um licor bem conhecido, que d'ella tomou o seu, é uma das tres ilhas denominadas de «sotavento»; está situada em frente da costa de Venezuela entre a lat. 12° 3' e 12° 24' e long. 68° 47' e 69° 16' Gr.
Com as outras ilhas do grupo pertenceu á Hespanha depois de seu desenvolvimento até 1648 em que a Hollanda ficou de posse d'ella, e conservando-a até hoje, apenas com uma interrupção produzida pelo dominio de Inglaterra de 1807 até 1815. A primitiva colonisação hespanhola foi muito limitada. Hoje a população da ilha sobe a mais de 15:000 habitantes, de que apenas cêrca de um quinto são brancos. A população negra parece ter passado para lá em grande parte das colonias hespanholas; o dialecto creolo que ella falla tem por base o hespanhol e contém alguns elementos lexiologicos ministrados pelo hollandez. O sign. E. Teza consagrou a esse dialecto um artigo no
Politecnico
, vol. XXI, p. 342-352, tendo por base de investigação o livro:
Catecismo pa uso di catolicanan di Curaçao. Cathecismus ten gebruike der katholyken van Curaçao door Martinus Joannes Niewindt, bissehop van Cytrum, karmerheer van Z. H. en apostolisch vicarius van Curaçao. Gedrukt te Curaçao ter drukkery van zyne doorluchtige hoogwardigheid
. Segundo o illustre professor italiano esse catechismo não foi impresso muito antes de 1845.
The Bible of Every Land
, p. 270, dá-nos a seguinte noticia: «Uma traducção de parte do Novo Testamento n'esta lingua foi feita pelo rev. Mr. Conradi; e uma pequena edição do evangelho de S. Matheus foi impressa em 1846, a expensas da Sociedade biblica neerlandeza». O sign. Teza não soube da existencia d'essa traducção, de que a obra ingleza citada nos dá um specimen em orthographia hollandeza, que vamos reproduzir enterlinhando-o com as palavras hespanholas correspondentes, tanto quanto conseguimos determinal-as.
S. Matheus, cap. V v. t. 12
1. Anto ora koe Hezoes a mira toer e heende nan eel a soebi
Entonces hora que Jeus ha mirar todo el hombre — el a subir
o en seroe; deespues eel a sienta i soe desipel nan a bini
a un sierra; despues el a sentado y su discipulo — ha venido
seka dje.
cerca del.
2. I eel a koemisa di papia i di sienja nan di ees manera.
Y el ha comenzar de papiar y de enseñar — de esta manera.
3. Bieenabeentoera ta e pober nan na spiritoe, pasoba reina
Bienaventurado está el pobre — spíritu, por-este-obra reino
di Dioos ta di nan.
de Dios está de —
4. Bieenabeentoera ta ees nan, koe ta jora pasoba lo
Bienaventurado está este —, que está llorar, por-este-obra —
nan bira konsolaa.
— consolado.
5. Bieenabeentoera pasifiko nan, pasoba lo nan erf tera.
Bienaventurado pacifico —, por-este-obra — — tierra.
6. Bieenabeentoera ees nan, koe tien hamber i sedoe di hoestisij,
Bienaventurado este —, que tiene hambre y sed de justicia,
passoba lo nan no tiene hamber i sedoe mas.
por-este-obra — — no tiene hambre y sed mas.
7. Bieenabeentoera ees nan, koe tien mizerikoordia, pasoba
Bienaventurado este —, que tiene misericordia, por-este-obra
lo heende tien mizerikoordia koe nan,
— hombre tiene misericordia con —
8. Bieenabeentoera ees nan, koe ta liempi di koerasoon pasoba
Bienaventurado este — que está limpio di coraçon, por-este-obra
lo nan mira Dios.
— — mira Dios,
9. Bieenabeentoera ees nan, koe ta perkoera paas, pasoba
Bienaventurado este — que está procurar paz, por-este-obra
lo nan ta jama joe di Dioos.
— — está llamado hijo de Dios.
10. Bieenabeentoera ees nan, koe ta persigido pa motiboe di
Bienaventurado este —, que está persiguido por motivo de
hoestisji, pasoba reina di Dioos ta di nan.
justicia, por-este-obra reino de Dios está de —
11. Bosonam lo ta bieenabeentoerado koe ta koos nan zoendra
Vosotro-nan — está bienaventurado que está — — —
i persigi bosonan, i koe ta koos pa mi kausa nan ganja
y persiguido vosotro-nan, y que está — por mi causa — gañar
toer soorto di maloe ariba bosonan
todo suerte de malo arriba vosotro-nan.
12. Legra bosonan i salta di legria, pasoba bosonan
Alegrar vosotro-nan y saltar de alegria por-este-obra vosotro-nan
rekompeensa ta grandi deen di Ciëloe; pasoba nan a persigi
recompensa está grande dentro de Cielo; por-este-obra — ha perseguido
di ees manera e profeet nan, koe tabata promee koe bosonan.
de este manera el profeta —, que estaba primero que vosotro-nan.
Para auxiliar a comprehensão d'esse excerpto damos a versão hespanhola dos doze versiculos de S. Matheus.
1. Mas viendo Jesus este gentío, se subio á un monte, donde habiéndose sentado, se le acercaron sus discípulos;
2. Y abriendo su boca, los adoctrinaba diciendo:
3. Bienaventurados los pobres de espíritu, porque de ellos es el reino de los cielos.
4. Bienaventurados los que lloran, porque ellos serán consolados.
5. Bienaventurados los mansos, porque elles poseerán la tierra.
6. Bienaventurados los que tienen hambre y sed de justicia, porque ellos serán saciados.
7. Bienaventurados los misericordiosos, porque ellos alcanzarán misericordia.
8. Bienaventurados los limpios de corazon, porque ellos verán á Dios.
9. Bienaventurados los pacificadores, porque ellos serán llamados hijos de Dios.
10. Bienaventurados los que padecen persecucion por la justicia, porque de ellos es el reino de los cielos.
11. Bienaventurados sereis cuando los hombres per mi causa os maldijeren, y os persiguieren; y dijeren con mentira toda suerte de mal contra vosotros.
12. Alegráos y regocijáos, porque es muy grande vuestra recompensa en los cielos: del mismo modo persiguieron á los profetas que ha habido antes de vosotros.
Como se vê, n'este dialecto não ha nenhuma distincção formal de genero nem de numero: a pluralidade exprime-se pela adjuncção de
nan
, que é o pronome da terceira pessoa plural:
ees nan
, estes ou aquelles;
pober
, pobre;
pober nan
, pobres. Quando um substantivo é precedido de adjectivos só se segue o signal do plural depois do substantivo:
toer el heende nan
, todos os (aquelles) homens. O presente é geralmente expresso pela fórma
ta
(==está) e o infinito, tendo todos os infinitos perdido o
r
final.
O futuro é expresso por
lo
(==luego?).
2. Hespanhol fallado nos campos de Buenos-Ayres e Montevideu
M. Maspero publicou em
Mémoires de la Société de Linguistigue de Paris
, t. II, p. 51-65 (Paris, 1875), um artigo sobre as alterações experimentadas pelo hespanhol no Rio da Prata. Essas alterações são sufficientes para lhe dar uma feição dialectal assás bem caracterisada; mas são muito differentes das que determinam os dialectos creolos, como o de Curaçáo, etc.; são principalmente lexiologicas e phoneticas. A vida nova dos europeus n'essas regiões deu principalmente logar á creação de palavras novas do velho fundo do idioma nacional e á introducção de termos das linguas indigenas, por exemplo, de
pié
fez-se
pialar
, pear um cavallo, de
manco mancarron
, um cavallo máo, que não serve para nada. Alguns dos termos das linguas indigenas adoptados encontram-se tambem no portuguez do Brazil e parte vieram até ás linguas europêas, como
jacaré
,
yacaré
(termo guarani). As alterações phoneticas encontram-se sobretudo na linguagem do camponio oriental ou
Porteño
.
III. DIALECTOS FRANCESES
1. Creolo da ilha Mauricio
A este dialecto pertencem algumas poesias da collecção intitulada:
Les essais d'un bobre africain
, seconde édition, augmentée de près du double, et dédiée à madame Borel jeune, par F. Chrestien. Ile Maurice, G. Deroullede et C
ie
, 1831, pet. in-4. Achámos a indicação d'esta obra no catalogo da bibliotheca de Burgaud des Marets e n'um artigo de M. P. Meyer:
Revue critique
, 1872, artigo 50. A ilha Mauricio, depois do dominio do portuguez e hollandez (1598-1715) esteve em poder dos francezes de 1715 a 1810, em que se tornou possessão ingleza.
O dr. A. Bos publicou na
Romania
muito recentemente (vol. IX, p. 571-578) uma nota sobre o dialecto creolo d'essa ilha, a qual pudémos ler ainda á ultima hora. Resumimos o seu conteúdo.
«Esse creolo, diz o auctor, formado para o uso commum, laço de communicação entre as differentes raças que habitam a ilha, é muito desprezado; não se escreve e não é empregado pelos brancos senão para se fazerem comprehender dos seus creados de côr. O plantador de Mauricio não falla creolo senão a seus servos ou trabalhadores, negros ou indios, e ainda a seus cães de caça, repellindo para longe de si a idéa que esse
patois
informe possa jamais converter-se n'uma lingua. E, todavia, o creolo de Mauricio, como diremos mais abaixo, cresce e prospera de dia em dia; encaminha-se para a fortuna de uma lingua.»
Com relação á phonetica notaremos o seguinte:
1. O accento tonico não se desloca.
2. Ha alongamento frequente de
a
:
ā-ccent
,
pā-rent
. Esse alongamento é de lei quando ha quéda de consoante:
pā-ti==partir
(alongamento por compensação).
3.
E
medial atono muda-se em
i
:
vini
(venir) ou cae;
e
final atono cae sempre.
4.
Ui
muda-se em
i
;
oi
ás vezes em
o
.
5.
Ch
,
g
(e, i),
j
mudam-se respectivamente em
ç
,
z
.
6.
R
final cae sempre, até nas ligações como
tre
,
bre
; p. ex.
cambe==chambre
.
R
medial entre vogal e consoante cae igualmente:
Zoze==Georges
.
7.
X
é pronunciado como
s
(ç):
éçélan==excellent
.
Com relação ás fórmas eis o mais interessante:
1. Não ha distincção de generos: permanecendo a fórma masculina para o masculino e feminino,
mon fame
,
ton lakaze
, ma femme, ta maison.
2. A distincção do numero tende igualmente a desapparecer. Os pronomes pessoaes que são palavras differentes para o singular e plural conservam-se:
moa
, eu;
nou
, nós;
toa
, tu;
vou
, vós.
3. A suppressão do artigo é quasi completa. Como no dialecto da Trinidad o artigo e ainda a preposição partitiva coalescem com varias palavras:
lacaze
, casa (maison);
dilo
,
dipin
,
divin
(
de l'eau
,
du pain
,
du vin
). Como no dialecto da Trinidad se diz
zoreis
==oreilles (o
s
é o resto do artigo
les
), assim n'este temos, p. ex,:
zozo
, oiseaux. O
z
apparece tambem no singular:
ène zozo
, un oiseau,
li zozo
, les oiseaux.
4. Pronomes:
moi
,
toa
,
li
(lui);
nous
,
vous
,
li
. Os pronomes sujeitos do singular
je
,
tu
,
il
do francez desappareceram pois; o pronome da terceira pessoa do plural é identico ao do singular.
5. Uma unica fórma verbal—o infinito, é empregada no creolo da ilha Mauricio. O passado é expresso pelo infinito do verbo principal com o infinito auxiliar
fini
:
moi fini travaïé
, j'ai travaillé;
mon fini broçe chambre
, j'ai fait (
brosser
) la chambre. Para a expressão do futuro empregam-se com o infinito diversas locuções adverbiaes. Para alguns verbos, segundo o dr. Bos, essa fórma unica que substitue todas as outras não saíu do infinito, mas sim do presente:
koné
==connais, connaît;
voulé
==voulez. A explicação verdadeira d'essas fórmas está n'outro principio que o artigo que analysâmos nos ministra. Os infinitos em
oir
e
re
foram substituidos por infinitos analogicos pelos typos em
e
(
er
) e
i
(
ir
); assim
éteindre
por
éteignir
,
tezi
por
taire
. Estas fórmas assentam sobre as do plural
éteignons
,
éteignez
,
éteignent
,
taisons
,
taiser
,
taisent
, ou antes sobre os substractos
éteign-
, tais- com a desinencia do infinito
i
. O dr. Bos, tendo primeiro explicado
voulé
por
voulez
, apresenta-o depois como exemplo d'este processo.
6. O verbo
avoir
foi substituido por
gagner
(como na Luisiana).
7. Não se usam conjuncções; as proposições são raras. A construcção approxima-se do typo chinez:
moa kosé vou alé baza
, je vous dis (cause) d'aller au marché (bazar);
toa guété çival pa pati
, tu regarderas (guetter) á ce que le cheval ne parte pas;
mamzèle kosé kóme ça mamzèle pa vini mamzèle faï
, mademoiselle m'envoie vous dire précisément qu'elle ne peut pas venir, parce qu'elle est malade;
vou kontan moa alé promené
, êtes-vous satisfait, aimez-vous que j'aille me promener?
Com relação ao vocabulario diz-nos o nosso auctor: «O creolo apenas conservou do francez poucas palavras, as palavras que bastam para exprimir as primeiras necessidades da vida, as relações mais ordinarias. Evidentemente seria difficil e mesmo impossivel tratar um assumpto de philosophia em creolo; o mesmo succedeu provavelmente com o francez nos seus primeiros começos. A essas poucas palavras francezas que formam quasi em totalidade o seu vocabulario, o creolo ajuntou algumas recebidas dos paizes vizinhos:
baza
, mercado,
salam
, bons dias;
tiffin
(pronuncia-se
toffin
), o paladar, d'onde
tiffiner
, provar, palavras que pela maior parte se acham no francez em uso em Mauricio.»
«Esse creolo de Mauricio, apesar de ser tão grosseiro, está longe de querer desapparecer deante das linguas muito mais perfeitas, o francez e o inglez. A maior parte da população de Mauricio é hoje india; póde prever-se que ella augmentará cada dia mais, graças ás immigrações continuas da India. Deante d'essa onda que sobe, a antiga população creola, brancos, negros e mulatos, diminue proporcionalmente. Ora entre indios, chinezes, malgaches, creolos, mulatos e brancos o laço commum é o creolo. Um indio, um chinez, um arabe, um branco (europeu?) tratarão uns com os outros os seus negocios em creolo, e esse neo-francez tomará maior extensão ao passo que a população variegada da ilha for augmentando. É possivel até que n'uma epocha, muito afastada é verdade, o francez desappareça, como a população que o falla tende a diminuir. O creolo, ganhando ao contrario terreno, poderá tornar-se a lingua usual, commum, e até a lingua geral, como elle é já a lingua do povo, a
rustica vulgaris
.» O auctor pensa que o inglez permanecerá exclusivamente como lingua de administração sem influencia sobre o creolo.
No francez da ilha Mauricio algumas palavras indicam a proveniencia dos primeiros colonos, porque se acham lá como na Bretanha, de onde elles emigraram; além d'isso esses colonos eram marinheiros. Achando coincidencia de termos entre o creolo d'essa ilha e o de outras possessões europeas no vocabulario em contraposição com o do francez litterario, deve admittir-se que ella tem a causa em que esses colonos levam no seu vocabulario termos do francez de Bretanha e do vocabulario nautico que se encontram nas outras linguas romanicas. No francez de Mauricio diz-se, por exemplo,
amarrer
não
attacher
,
espérer
, não
attendre
,
larguer
não
lâcher
, como em portuguez.
2. Creolo da Luisiana
Na
Mélusine
I, col. 495-497, acha-se reproduzido um conto em francez-creolo da Luisiana com traducção franceza. É talvez ocioso recordar aos nossos leitores que os francezes descobriram em 1699 a foz do Mississipi e fundaram em 1717 Nova Orleans, e que tendo a Luisiana feito parte dos dominios de Hespanha desde 1762 até 1800, passou n'esse ultimo anno de novo para o dominio da França, que a cedeu aos Estados Unidos em 1803 por 60 milhões de francos. Esses factos explicam a existencia da colonisação franceza e do dialecto francez-creolo n'aquelle estado da republica norte americana. Eis um excerpto do conto:
Ein joie, dan tan lé zot foi, Compair Bouki couri dîné côté so ouasin Compaire Lapin. Compair Lapîn té pa gagné ein goute do lo pou boi. Ça fé Compair Bouki di com à Compair Lapin; Un jour, au temps d'autre fois, Bouc alla dîner chez son voisin, compère Lapin. Compère Lapin n'avait pas une goutte d'eau à boire. Alors compère Bouc dit comme ça à compère Lapin:
—Mouen non pli, mo pa gagné do lo; si to olé vini padna, no va fouyé ein pi. —Moi non plus, je n'ai pas d'eau; si tu veux venir par là, nous allons creuser un puits.
Compair Lapin soucouyé so la tête: Compère Lapin secoua la tête:
—Non! Compair Bouki; gran bon matin, mo boi la rosé on zerbe; dan jou, kan mo souaf, ma boi dan piste la ouach. —Non compère Bouc; le bon matin je bois la rosée sur l'herbe et dans le jour, quand j'ai soif, je bois dans la piste de la vache. Alors compèreBouc fouilla son puits tout seul.
Ça fé Compair Bouki fouyé so pi li tou sel. Apé li té fouyé pi là, kan li couri charché so do lo bon matin, li ouâ trace Compair Lapin au ra so pi. Li graté so la tête et li jonglé. Après qu'il eut fouillé le puits, quand il courut chercher de l'eau de bon matin, il vit la trace de compère Lapin au ras du puits. Il se gratta et s'écria:
—Bambail, mo Compair, mo va trapé toi. —Mon compère, je vais t'attraper.
Li couri pran so zouti et lifé ein gro catin avé boi laurié. Li godroné li, godroné li si tan jika lité noi com négresse guinain. Soleil bas, Compair Bouki couri planté so catin déboute au ra so pi. Dan la nuite la line tapé cléré, Compair Lapin vini avè so baqué pou charché do lo. Kan li ouâ ti négresse là, li rété, li baissé, li gardé ben. Il court prendre ses outils et il fait une grosse catin[6] avec du bois du laurier. Il la goudronne, la goudronne jusqu'à tant qu'elle fût noire comme négresse de Guinée. Le soleil tombé, compère Bouc courut planter sa catin debout au ras du puits. Dans la nuit, la lune tapait clair; compère Lapin vint avec son baquet pour chercher de l'eau. Quand il voit la petite négresse, il s'arrête, se baisse et la regarde bien.
—Ki bétail ci là? —Quelle bête est-ce là?
Li hélé on li; ti négresse là pa grouyé, li pas réponne. Il la hèle; petite négresse ne bouge pas, ne répond pas.
Observações phoneticas.
1)
u
,
ui
mudado em
i
:
jiká
==
jusqu'à
,
line
==
lune
,
pli
==
plus
,
pi
==
puits
; 2)
au
em
ou
:
oussi
==
aussi
; 3)
eu
em
é
:
pé
==
peu
,
fé
==
feu
,
sel
==
seul
; 4)
oi
em
è
,
é
:
drète
==
droite
,
cré
==
croire
,
olé
==
vouloir
; 5)
r
,
re
,
le
apocopados:
ouâ
==
voir
,
noi
==
noir
,
pou
==
pour
,
jou
==
jour
,
cré
==
croire
,
pran
==
prendre
,
zot
,
lot
==
autre
,
enco
==
encore
;
capab
==
capable
; 6)
r
sincopado entre vogal e consoante ou consoante e vogal:
fanne
==
fendre
,
réponne
==
répondre
,
foce
==
force
,
moceau
==
morceau
,
apé
==
après
; 7)
v
vocalisado ou supprimido:
choual
==
cheval
,
ouach
==
vache
,
ouâ
==
voir
,
olé
==
vouloir
(mas
volé
==
voler
); 8) assimilação:
fanne
==
fendre
,
moune
==
monde
,
réponne
==
répondre
; 9) apherese:
cré
==
sacré
,
ti
==
petit
;
baissé
==
abaisser
,
rété
==
arrêter
,
voyé
==
envoyer
,
contré
==
rencontrer
,
gardé
==
regarder
.
Genero e numero.
Não ha nenhuma distincção formal de genero e numero:
ti
ou
petit
==
petit
e
petite
;
moceau
==
morceau
e
morceaux
.
Artigo.
Ora é empregado ou supprimido, assás arbitrariamente:
La main goche collé aussi
, la main gauche se colle aussi;
pié collé
, le pied se colle. O artigo apparece entre o possessivo e o substantivo:
so la main
, sa main;
mo lot la main
, mon autre main (l'autre main),
so la tête
, sa tête. O artigo coalesceu com alguns substantivos:
lo
, eau;
do lo
, de l'eau (litteralmente:
du l'eau
),
so do lo
, son eau (litteralmente:
son du l'eau
), mas
mo fron
, mon front,
so pi
, son puits.
N'alguns casos coalesceu com o substantivo o
s
(z) de
les
, e a fórma com essa prothese é empregada como singular ou plural:
so zepol
, son épaule;
zerbe
, herbe;
zot
, autre (tambem
lot
),
so zouti
, ses outils;
so zoreil
, son oreille, ses oreilles; o mesmo se dá na Trinidad e Mauricio.
Pronomes.
1.ª pessoa singular,
mo
,
mouen
sujeito:
mo boi
, je bois;
mouen non pli
, moi non plus;
mouen
regimen:
lâché mouen
, lâche-moi. 2.ª pessoa singular,
to
sujeito:
to gardé
, tu regardes;
toi
regimen:
to cré choual voyé cou pié on toi
, tu croiras qu'un cheval t'a envoyé un coup de pied;
mo va trapé toi
, je vais t'attraper;
qui cogne toi
, qui te cogne. 3.ª pessoa singular,
li
sujeito e regimen:
li fé
, il fait;
li gratté
, il sa gratta;
li voyé li
, il l'envoya. 1.ª pessoa plural,
no va fouyé
, nous allons creuser (fouiller). As outras fórmas faltam no conto sobre que se baseiam estas nossas observações. Não ha pronome reflexo:
li rété
, il s'arrête;
li baissé
, il s'abaisse;
li gratté
, il se gratta.
Verbo.
Com excepção de
té
==
était
(
étais
), todas as fórmas verbaes são substituidas pelo infinito, que serve para exprimir o presente, o futuro, o preterito de todos os modos. A fórma
té
serve porém para exprimir com um infinito (ou o participio passivo?) periphrasticamente o preterito:
li té pá gagné
, il n'avait pás;
li té fouyé
, il eut fouillé;
to té di
, tu avais dit.
Preposição
. As principaes preposições são:
avé
, avec,
dan
, dans, en;
on
, en;
au
;
pou
, pour. A preposição
de
é supprimida:
pierre tonnair
, pierre de tonnerre;
boi laurier
, bois de laurier;
ta branchaille sec
, tas de branches sèches;
piste la ouach
, piste de la vache;
au ra so pi
, au ras de son puits;
cou pié
, coup de pied.
Suppressão de verbos
, etc.:
Comencé colair
, il commence à être colère;
kan mo souaf
, quand j'ai soif.
3. Creolo da Guyana
MM. de Saint Quentin publicaram ha alguns annos um livro contendo contos populares (um só na prosa original), fabulas traduzidas do francez e canções creolas dos auctores n'este dialecto. Temos noticia d'este livro apenas por uma indicação na
Mélusine
, I, 55 (Paris, 1877). Na
Mélusine
, I, n.
os
1 e 2, ha traducção, mas sem o original, de dois contos da Guyana franceza. Esta possessão da França foi colonisada por francezes no começo do seculo XVII e permaneceu colonia franceza até hoje, com excepção do periodo de 1808-1817, em que esteve em nosso poder.
4. Creolo da Ilha de S. Domingos
Encontram-se um
Voccabulaire, français et crèole
, dialogos e canções n'este dialecto no
Manuel des habitants de Saint-Domingue
, par Ducœurjoly. Paris, Lenoir, 1802, t. II, p. 283-393.
5. Creolo da Trinidad
O dialecto francez-creolo d'esta ilha póde estudar-se na obra
The theory and practice of creole grammar
, by J. J. Thomas. Port of Spain (Trinidad), the
Chronicle
publishing office. In 8.º, 134. p. Tenho noticia d'essa obra apenas por um artigo de M. Paul Meyer na
Revue critique
, 1872, art. 50.
«A conservação entre os negros das Antilhas, diz M. P. Meyer, de
patois
mais ou menos differentes uns dos outros, mas tendo incontestavelmente uma origem franceza, é um facto digno de attenção. É-o sobretudo na Trinidad que nunca foi colonia franceza. É evidente que todos esses negros vêem originariamente de colonias francezas, e aquelles mesmo da parte meridional dos Estados Unidos que fallam o inglez que nos fizeram conhecer os romances de Mrs. Beech-Stowe ou de M. Kirke, deviam ter fallado outr'ora um
patois
francez. Parece até que o
patois
da Ilha de França offerece, na deformação do francez, analogias com o da Trinidad que não são explicadas sufficientemente pela communidade do ponto de partida. A expansão de um
patois
negro formado do francez depende naturalmente das deslocações a que foram submettidos aquelles que o fallavam, e isso é um assumpto que não é geralmente conhecido, pelo menos d'este lado do Atlantico.
«O fundo do
patois
é francez, com alguns emprestimos do hespanhol (a Trinidad foi colonia hespanhola até 1797) e do inglez.
«Ha algumas particularidades curiosas no systema dos sons. A apocope e mais ainda a apherese (o fim da palavra sendo geralmente protegido pelo accento) representam n'elle um grande papel. Assim:
tè
por
étais
,
était
(ou antes talvez pelo participio
été
);
sé
por
serais
,
serait
. Outras suppressões effectuam-se sobre o centro das palavras; assim:
vlez
por
voulez
, em que vemos a extensão de um facto que o anglo-normando nos offerece em
frai
(
ferai
),
fras
,
frad
, etc. As liquidas
l
e
r
caem deante d'uma outra consoante, e a vogal precedente torna-se longa:
mâgré
(
malgré
),
pâler
(
parler
),
môdre
(
mordre
). Algumas vezes tambem
l
e
r
caem depois do accento diante de um
e
mudo, que seria melhor não escrever; assim:
tabe
(
table
),
vîte
(
vitre
). Todos que tiveram occasião de ouvir negros ou mulatos das colonias tiveram occasião de notar os mesmos factos na sua pronuncia, ainda quando elles fallam francez.
«Não é á phonetica que pertencem os factos mais caracteristicos do creolo, mas á flexão e á composição das palavras. O que n'essa parte se observa é bem feito para elevar ao mais alto o assombro dos que acham já enormes as formações novas que nos offerecem os idiomas romanicos comparados com o latim. Nós dizemos
celui-là
emquanto o latim vulgar dizia
eccillum
; mas os negros põem
là
a todo o instante depois dos substantivos como um demonstrativo a que não ligam já grande valor (M. Th., p. 15). O sentido das particulas e dos artigos está de tal modo obliterado que já não se empregam senão absolutamente confundidos com as palavras a que se juntaram e fazendo corpo com ella:
difé
,
dithé
,
divin
,
dleau
(p. 18) querem dizer:
feu
,
thé
,
vin
,
eau
;
zoreies
quer dizer as orelhas;
pêncor
(p. 122) quer dizer
pas encore
, contracção que nos offerece tambem o provençal
pancaro
. N'um idioma tão empobrecido é só o logar das palavras que indica as relações. Assim n'este proverbio:
Pas fôte langue qui fair bêf pas sa pâler
(p. 121) (Ça n'est pas faute
de
langue qui faire bœuf pas savoir parler).
«Os verbos parecem, pelo menos muitas vezes, reduzidos a uma só fórma, a do infinito (a não ser que alguma outra fórma tenha sido preservada por causa de uma differença bem sensivel e de um uso frequente). Estudar-se-hão com interesse os diversos tempos compostos com os quaes os negros remediaram as lacunas da conjugação, e achar-se-ha n'isso materia para diversas comparações com os factos parallelos das linguas romanicas. Todavia é mister não esquecer que a comparação não tem aqui senão a mais fraca base. Os negros quando aprenderam o francez, estavam habituados a uma linguagem absolutamente differente, e nunca souberam senão as palavras e as fórmas mais usuaes do seu novo idioma, emquanto o latim vulgar de que saíram as linguas romanicas por desenvolvimentos individuaes e locaes, foi sempre um idioma assás completo, cujas transformações foram assás lentas para que as lacunas tivessem tempo de se encher ao passo que se formaram.»
6. Creolo da Martinica
Cremos que versa principalmente sobre este dialecto a obra seguinte, que conhecemos apenas pelo catalogo da bibliotheca de Burgaud des Marets:
Catéchisme en langue créole, précédé d'un essai de grammaire sur l'idiome usité dans les colonies françaises
, par M. Goux, missionnaire à la Martinique. Paris, Vrayet de Suroy, 1842, in 8.º Mais recente é o livro de Turiault:
Étude sur le langage créole de la Martinique
. Brest. 236 pp. in 8.º en deux volumes. 1876. (Paris, Viaut.) Contém uma serie de enigmas, numerosos proverbios, alguns contos, algumas canções e diversas traducções do francez. Vid.
Mélusine
, I, 55. Paris, 1877.
IV. LINGUA FRANCA
Littré,
Dict. de la langue française
, s. v.
franc
4, define lingua franca: «jargon mélé d'italien, d'espagnol, etc. à l'usage des Francs de l'Orient» isto é, dos europeus do Levante.
J. Creswell Clough no ensaio
On the existence of mixed languages
, p. 11, define, fundado na auctoridade de Malte Brun, a lingua franca do Mediterraneo como uma mistura de catalão, limosino, siciliano e arabe, originada nos estabelecimentos de escravos dos mouros e turcos. O auctor não conheceu porém nenhum specimen d'essa lingua. (
The Athenaeum
, 1877. January to June, p. 545.)
Segundo o mesmo periodico inglez, vol. cit. p. 608, ha um
Dictionnaire de la langue franque, ou petit mauresque, à l'usage des français en Afrique
, publicado ha alguns annos em Marselha. O vocabulario comprehende palavras italianas, algumas fórmas approximando-se do hespanhol e ainda um certo numero de termos locaes usados na Argelia.
O principe L. L. Bonaparte considera, com rasão, a lingua franca como estando para com o italiano litterario na mesma relação que o indo-portuguez para com o portuguez, os dialectos creolo-francezes para com o francez, o negro-hollandez para com o hollandez, (
Athenaeum
, vol. cit., p. 640 e 703.)
Lingua franca Italiano
Bon giorno, Signor; comme ti star?—Mi star bonu, e ti?—Mi star contento mirar per ti.—Grazia.—Mi pudir servir per ti per qualche cosa?—Muciu grazia.—Ti dar una cadiera al Signor.—Non bisogna. Mi star bene acousì.—Comme star il fratello di ti?—Star muciu bonu. Buon giorno, Signore; come stai?—Io sto bene, e tu?—Io son contente di vederti.—Grazie.—Poss'io servirti in qualche cosa?—Molte grazie.—Dà una seggiola al Signore.—Non ho bisogno. Io sto bene così.—Como sta il tuo fratello?—Sta molto bene.
(The Athenaeum, 1877, 1.º sem., p. 640).
L. L. Bonaparte dá as seguintes regras que caracterisam a lingua franca: 1.ª Os nomes não têem plural:
amigo
==amigo e amigos. 2.ª Os verbos não têem conjugação, mas só um futuro periphrastico e um participio terminando em
ato
ou
ito
:
mi
,
ti
,
ellu
,
noi
,
voi
,
eli
,
andar
significam não só eu vou, tu vaes, elle vae, nós vamos, vós ides, elles vão, mas tambem eu ia, etc., eu fui, etc.;
bisogno andar
significa eu irei, etc. 3.ª
Star
significa
ser
e
ter
, quando são usados como verbos auxiliares. 4.ª
Avir
ou
tenir
significam
ter
, mas só com a idéa de
possuir
. 5.ª O regimen directo dos pronomes pessoaes é precedido da preposição
per: mi mirar per ella
, eu vejo-o.
Molière no acto IV do
Bourgeois gentilhomme
deu uma imitação da lingua franca.
«Scène X.—
Le Muphti, Dervis, Turcs, chantans et dansans; Monsieur Jourdain
, vêtu à la turque, la tête rasée, sans turban et sans sabre.
Le Muphti, à M. Jourdain.
Se ti sabir, Ti respondir, Se non sabir, Tazir, tazir. Mi star muphti, Ti qui star si? Non intendir, Tazir, tazir.
«Scène XI.—
Le Muphti, Dervis, Turcs chantans et dansans.
Le Muphti.
Dice, Turque, qui star quista? Anabatista? anabatista?
Les Turcs.
Ioc.
Le Muphti.
Zuinglista?
Les Turcs.
Ioc.
Le Muphti.
Coffita?
Les Turcs.
Ioc.
Le Muphti.
Hussita? Morista? Tronista?
Les Turcs.
Ioc, ioc, ioc.
Le Muphti.
Ioc, ioc, ioc. Star pagana.
Les Turcs.
Ioc.
Le Muphti.
Luteranos.
Les Turcs.
Ioc.
Le Muphti.
Puritana?
Les Turcs.
Ioc.
Le Muphti.
Bramina? Moffina? Zurina?
Les Turcs.
Ioc, ioc, ioc.
Le Muphti.
Ioc, ioc, ioc. Mahametana? Mahametana?
Les Turcs.
Hi Valla. Hi Valla.
Le Muphti.
Como chamara? Como chamara
Les Turcs.
Giourdina, Giourdina.
Le Muphti
(sautant). Giourdina, Giourdina.
Les Turcs.
Giourdina, Giourdina.
Le Muphti.
Mahameta, per Giourdina, Mi pregar, sera e matina. Voler far un paladina De Giourdina, de Giourdina; Dar turbanta e dar scarrina, Con galera, e brigantina, Per deffender Palestina, Mahameta, per Giourdina, Mi pregar sera e matina. Star bon Turca Giourdina?
Les Turcs.
Hi Valla. Hi Valla.
Le Muphti
(chantant et dansant). Ha la ba, ba la chou, ba la ba, ba la da.
Les Turcs.
Ha la ba, la la chou, ba la ba, ba la da.
«Scène XIII.—
Le Muphti, Dervis, Monsieur Jourdain, Turcs, chantans et dansans.
Monsieur Jordain
(après qu'on lui a ôté l'Alcoran de dessus le dos). Ouf!
Le Muphti
(à M. Jourdain).
Ti non star furba?
Les Turcs.
No, no, no.
Le Muphti.
Non star forfanta?
Les Turcs.
No, no, no.
Le Muphti
(aux turcs).
Donar turbanta.
Les Turcs.
Ti non star furba? No, no, no. Non star forfanta? No, no, no. Donar turbanta.
Les Turcs dansans
mettent le turban sur la tête de
M. Jourdain
au son des instruments.
Le Muphti
(donnant le sabre à
M. Jourdain
).
Ti star nobile, non star fabbola, Pigliar schiabolla.
Les Turcs
(mettant le sabre à la main).
Ti star nobile, non star fabbola, Pigliar schiabolla.
Les Turcs dansans
donnent en cadence plusieurs coups de sabre à
M. Jourdain
.
Le Muphti.
Dara, dara Bastonnara.
Les Turcs.
Dara, dara Bastonnara.
Les Turcs
donnent à
M. Jourdain
des coups de bâton en cadence.
Le Muphti.
Non tener honta, Questa star l'ultima affronta.
Les Turcs.
Non tener honta, Questa star l'ultima affronta.»
O uso frequente na lingua franca da palavra
sabir
, principalmente na expressão
mi no sabir
com que os levantinos e argelinos respondiam ás perguntas que lhes faziam os estrangeiros e que elles não comprehendiam, fez dar a essa lingua o nome de
sabir
,
lingua sabir
. Vid. Littré,
Dictionnaire de la langue française. Supplément
, s. v.
Sabir
.
A. Darmesteter,
De la création actuelle de mots nouveaux dans la langue française
, p. 261, n. define ainda: «Le
sabir
ou langue franque, mélange d'italien, de français, de provençal et d'arabe parlé par les marins de la Méditerranée».
Algumas phrases ou expressões da lingua franca chegaram, sem duvida por intermedio dos marinheiros, até ao calão ou girias dos diversos povos da Europa. No
cant
(calão de Inglaterra) ha por exemplo:
nantee dinarly
(não tenho) nenhum dinheiro, da lingua franca;
niente dinaro
, do italiano
niente
, nada (==fr.
néant
) e
denario
(==port.
dinheiro
, hesp.
dinero
, fr.
denier
, do lat.
denarius
). Em portuguez ha
nentes
do ital.
niente
, que não veiu ao que parece por intermedio da lingua franca.
Nicles
, nada, da giria dos garotos portuguezes parece estar por
niks
e corresponder ao
nix
da lingua franca. «The well-known
Nix mangiare
stairs at Malta derive their name from the endless beggars who lie there and shout «Nix mangiare», i. é. «nothing to eat»,—an expression which exhibits remarkably the mongrel composition of the Lingua Franca,
mangiare
being italian, and
Nix
(germ.
Nichts
), an evident importation from Trieste, or other Austrian seaport.»
The Slang Dictionary
, apud Johan Storm,
Englische Philologie
I
, 162-3.
Storm junta em nota a pag. 163: Li n'um romance maritimo inglez a seguinte lamuria de um pedinte maltez: «
Me
molto miserabile, signore!
Nix
padre,
nix
madre,
nix
mangiare
per sixteen days
, per Gesù Christo.»
Nix
é considerado geralmente na Italia pelo povo como a negação allemã ou estrangeira. Mas o emprego de uma expressão como
nix
ou de termos extranhos não determina de modo algum o caracter da lingua franca. O emprego de expressões como
sixteen days
é um accidente de momento que se encontra em todas as linguas: quando a gente que as falla se acha em contacto com estranhos recorre á sua maior ou menor provisão de termos estrangeiros. A composição da lingua franca não é realmente mais
mongrel
que por exemplo a do inglez, que apresenta vocabulos provenientes de innumeras linguas.
V. CONSIDERAÇÕES GERAES
Não foram só as linguas romanicas que serviram de base á formação de dialectos como os que acâbamos de noticiar: podemos dar indicação de dialectos similhantes de origem germanica, a cujo estudo procederemos logo que tenhamos materiaes sufficientes.
O
negro-english
, dialecto assim chamado impropriamente, é fallado na colonia hollandeza de Surinam, na Guiana, por uma população de cêrca de 100:000 individuos, dos quaes 90:000 negros e 10:000 de origem européa. As fórmas grammaticaes estão reduzidas n'este dialecto, como em todos os similhantes a um minimo.
The Bible of Every Land
, p. 213, dá noticia de traducções dos Psalmos e do Novo Testamento no
negro-english
. Julgâmos terem por objecto este dialecto os livros seguintes que ainda não lográmos ver:
Kurzgefasste neger-englische Grammatik.
Bautzen, 1854.
Van der Vegt,
Proeve eener handleiding om het neger-engelsch
.
O creolez (ingl.
creolese
) é um dialecto tendo por base o hollandez, fallado pela população negra das ilhas de Santa Cruz, S. Thomaz e S. João (Indias Occidentaes); não tem distincção de genero nem numero, nem declaração de nomes, nem conjugação simples de verbos.
Em 1781 o governo da Dinamarca fez imprimir em Copenhagen uma traducção do Novo Testamento n'esse dialecto; em 1818 fez-se nova edição. Segundo
The Bible of Every Land
, pag. 212, parece que o creolez caíu em desuso.
O inglez serviu de base na China á formação dialectal chamada
Pidgin English
(
pidgin
é approximadamente a pronuncia chineza do inglez
biznes
,
business
). Não vimos ainda a obra de Leland,
Pidgin English singsing, or Songs and Stories in the China-English dialect
. London, 1866.
Na
Introduction to the Study of Sign Language among the north american Indians
by Garrick Mallery (Smithsonian Institution-Bureau of Ethnology. Washington, 1880.) p. 12, achâmos a seguinte noticia: «Os kalapuyas do Oregão meridional usaram até ha pouco uma linguagem de signaes, mas gradualmente adoptaram para a communicação com o estrangeiro a lingua composta, commummente chamada giria
tsinuk
ou giria
chinook
, que provavelmente se originou para fins commerciaes nas margens do Columbia antes da chegada dos europeus, fundada sobre o tsinuk, tsiholi, nutka, etc., mas agora enriquecido por termos francezes e inglezes, e esqueceram quasi inteiramente os seus antigos signaes. A prevalencia d'esta lingua mestiça, formada nas mesmas condições que produziram o
pigeon-english
ou a
lingua franca
do oriente, explica a falta notada de lingua de signaes entre as tribus da costa noroeste».
A giria tsinuk não é talvez, apesar do que nos diz G. Mallery, mais do que um dialecto inglez da natureza dos que são objecto do presente estudo.
Ninguem ainda, que saibâmos, viu com clareza o verdadeiro caracter e reconheceu as leis geraes que presidem á formação de dialectos de que nos occupâmos.
O eminente philologo P. Meyer tocou a nosso ver em um dos pontos essenciaes da questão, mas por falta sem duvida de termos de comparação não a collocou á verdadeira luz: «Estudar-se-hão com interesse, diz elle, com relação ao dialecto da Trinidad, os diversos tempos compostos pelos quaes os negros remediaram as lacunas da conjugação, achar-se-ha materia para diversas comparações com os factos parallelos que apresenta á formação das linguas romanicas. Nada deve porém esquecer que a comparação tem aqui a mais fraca base. Os negros, quando aprenderam o francez, estavam habituados a uma lingua absolutamente differente e nunca souberam mais que as
palavras e as fórmas mais usuaes
de seu novo idioma, emquanto o latim vulgar de que saíram por desenvolvimentos individuaes e locaes as linguas romanicas, foi sempre um idioma sufficientemente completo, cujas transformações foram assás lentas para que as lacunas tenham tido tempo de se encher facilmente ao passo que se formaram».
Rev. critique
, 1872 artigo 50. Na passagem seguinte, M. P. Meyer mostra ter repugnancia em admittir que a formação de dois dialectos creolos obedeça a leis perfeitamente identicas: «Parece que o
patois
da ilha de França offerece, na deformação do francez, analogias com o da Trinidad que não são explicadas sufficientemente pela communidade do ponto de partida».
O dr. Bos (
Romania
IX, 571) admitte já a independencia d'essas formações analogas, sem ver ainda aqui a acção de leis geraes: «Os diversos creolos (francezes) que se fallam nas Antilhas, na America, nas ilhas Mascarenhas, no Oceano Indico, têem todos um ar de familia, uma similhança ainda mais accentuada que a que existe entre as linguas neo-latinas, e devida provavelmente á sua maior mocidade e á sua maior proximidade da lingua mãe. Alem d'isso essa lingua mãe, o francez, é unica para os idiomas creolos; e o latim vulgar, quando deu origem ás linguas neo-latinas, tinha talvez já perdido a unidade, e experimentado as influencias regionaes que deviam transformal-o, aqui em francez, acolá em provençal, alem em italiano, etc. Fóra pois da questão de tempo, a grande similhança que existe entre as linguagens creolas provém provavelmente da unidade da lingua que lhe deu origem: o francez representa aqui o papel do latim vulgar com relação ás linguas romanicas».
As idéas geraes com relação á formação d'estes dialectos expressas por E. Tesa no seu citado estudo sobre o creolo de Curaçáo não me parecem tambem exprimir a verdade dos factos. «Due studj sono a farsi nella istoria delle lingue: la libertà e la servitù. Una favella si disgiunge da una grande famiglia, serbando parte del tesoro commune e nei valori radicali che si incorporano in un grupo di suoni, e ne' canoni derivativi, e nelle flessioni. Questa ricchezza ereditata non giace inerte. È un grande albero: e dei molti rami, quale si leva più alto, quale si arresta a mezza la via; ma in ciascuno è una vita sua propria: vi discorre lo stesso succo a nutrirli, ma è vario lo spessore degli strati e le virtú: tutto è un agitarsi, un crescere; finchè le due ultime foglie, che si toccano in mezzo al sereno dei cieli, non rammentano più che la radice commune è nascosta in un luogo solo e circondata di poca terra.
«Beata la nazione alla quale, in codesta opera de' secoli, la lingua si disvolge senza ingiustamente comandare e senza miseramente servire; perchè anche negli organismi vocali così corrompe il vedersi schiavo como il farsi tiranno.
«Bensì le lingue, presto o tardi, si incontrano, si impinguano, si tarpano l'una l'altra; o sia l'imitazione delle idee come nella prosa de' Cechi e de' Magiari, guidata in tanta parte dal tedesco: o da questa lingua in quella si trasfonda la somma delle parole, como le sanscrite nel tamulico; le turche nel greco, nell'armeno, nello schipetaro, nel româno, nel bulgaro, nel serbo. Talora poi le forme stesse o cedeno alle alle straniere o le accettano cooperatrici a rappresentare il pensiero; come nel persiano e più nel turco e, con istrazio peggiore, nel huzuresco.
«Un esempio di queste corruzioni profonde lo veggiano a Curassao; e non osservato, ch'io sappia, dai linguisti. Non ho trovato che un libro; e bisognerebbe sapere se altri ve ne sieno e serbino tutti le forme spagnuole, o incomincine a corrompere anche la lingua degli Olandesi, padroni nuovi. Poi sarebbe utile a conoscere
quale dialetto vi parlassero gli aborigeni
; quando sia scomparso o se ancora se ne conservino le tracce; finalmente quanto sieno in quel picciolo popolo i discendenti di Spagna i quanto di Olanda...
«Certo da questo breve studio sul curassese saremo condotti a ristringere la opinione di Augusto Fuchs che lo spagnuolo, dominatore in tanta parte di America, non si mescolò a nessuna delle lingue indigene da formare um nuovo dialetto (Cfr.
Die romanischen Sprachen.
Halle, 1849, p. 7). Non s'è mescolato; ma
il pensiero nazionale trascinò dietro a sè le fórme spgnuole e gli avanzi
; così che ne derivò una favella che non assomiglia certo a nessuno dei dialetti metapireneici.
«A me pare che uscirebbe un bel libro, ma da non farsi in Europa, chi si ponesse a ricercare come le lingue latine rimutassero; il francese nel Canada, in Haiti; il portoghese nel Brasile e lungo le coste d'India; a Cuba, a Portorico e via via lo spagnuolo.
sarebbe a discoprirsi la gramatica indigena
;
e dedurne le leggi dissolutive di quella parola
, là inerte o quasi, che fu stromento a forti pensiere e alle grazie dell'arte in bocca a Dante, a Cervantes, a Voltaire.»
Como se vê o douto professor de Pisa inclina-se a admittir como explicação dos dialectos creolos uma accommodação das fórmas romanicas á grammatica das linguas dos povos entre os quaes esses dialectos se formam.
Alguns eruditos brazileiros, conhecedores dos dialectos indigenas, admittem influencia grammatieal d'estes dialectos sobre o portuguez do seu paiz.
«A lingua fallada pelos primitivos incolas d'El-Dorado, a lingua do selvagem, que teve voga nos primeiros tempos do desenvolvimento do Brazil, que durante dois seculos entre os proprios colonos europeus era «a lingua geral» e de uso quotidiano no tracto commum, usada e fallada até no pulpito, ainda hoje fallada no Paraguay, teve tal importancia já, que, temendo-se que fosse esquecida a lingua portugueza, mereceu ser proscripta expressamente a ponto de a mandarem abolir pela provisão de 12 de outubro de 1727 (
Jornal do Timon
, t. 2.º; p. 315). E depois, apezar de tudo, ella perdura ainda, já não digo pelo facto de subsistir hoje entre varias e numerosas tribus do Amazonas e de Matto Grosso, porém, perdura na lingua portugueza, fallada pelos descendentes dos Brazis, dando-lhe um feitio caracteristico que distingue essencialmente essa falla brazileira da portugueza, não só na inflexão da voz, não só na phonetica, mas ainda no tornêo grammatical e no phraseado que tem
seu que
de novo, não usado na terra lusitana, e a final em grande numero de vocabulos de todo não portuguezes. A «lingua geral» é certo, morreu com o indio e ou si não morreu ainda, vae morrer e desapparecerá com o derradeiro selvagem, que a locomotiva da civilização tem de aniquilar na sua marcha, no seu «avança para deante». Porèm, como em seguida á derrubada, onde era a mata virgem, surge a capoeira, do mesmo modo no campo de exterminio, do qual se-eliminou o indio, subsistem o mameluco, o caboclo, o caipira, o matuto; e essa pobre gente que constitue a nossa gente da roça, os nossos
officiaes de officio
, a nossa soldadesca e a nossa maruja, concorre sem a menor duvida com a maior percentagem para formar o algarismo da nossa população. Desappareceu o indio (
abá
), o indigena, o autochtone (
t-yby-abá
==
typynabá
), o selvagem (
tapyyia
),—mas ficou o caboclo, o perfilhado por branco (
caraïb-oca
==
caribóca
), o mameluco, o filho da mulher india (
membyrucá
), o pelle tostada (
caipíra
), ou o homem corrido, envergonhado, abatido, submettido (
kuaipira
). E esses mamelucos, caboclos e caipiras, fallando a lingua do «outro», do extrangeiro, do homem de lá longe, do emboaba, (
amo-abá
), fallando essa lingua corrompida pelo fallar do africano, do selvagem negro (
tapyyñuna
), conservam no sotaque, no phraseado, reminiscencias da «lingua geral» que vão se-fazer ouvir ainda no seio do parlamento, onde desgraçadamente predomina um francez assaz eivado de francezismos e tambem já de não poucos inglezismos. Foi proscripta a lingua do indio (o
abá ñeenga
), mas na lingua do branco (no
caraï-ñeenga
) fallada pelos matutos, e reproduzida ás vezes com bastante merito em escriptos litterarios, subsistem dizeres
sui generis
, oriundos da lingua materna, certamente
materna
pois que elles são os mamelucos, os filhos da mulher indigena, são os caboclos oriundos do homem branco. Como muito bem diz o sñr. dr. Couto de Magalhães, na
linguagem popular
do Brazil ha não só grande
quantidade de vocabulos tupis
ou
guaranis
, mas ainda
phrases, figuras, idiotismos e construcções peculiares
. Quanto ao vocabulario é incontestavel, e com um pouco de attenção vê-se, que no portuguez brazilico abundam dicções de linguas americanas em numero mais consideravel talvez que o das dicções arabicas que se-conservam no lexicon portuguez. Dizemos «linguas americanas», porque na realidade não ha só vocabulos do
abáñeenga
, e sim tambem do
chilidugu
, do
kechua callu
, do
karai-arianga
, e outras, como sejam
brisa
,
canôa
,
furacão
,
piroga
,
mate
,
guasca
,
guampa
,
gaûcho
, etc. Nas sciencias naturaes (mórmente na botanica) e na geographia é mais que consideravel o numero de vocabulos oriundos de linguas americanas
[7]
.»
«Nem o tupi oriental, aquelle que era fallado na costa quando os jesuitas o escreveram, e que faz objecto dos diccionarios e grammaticas que nos legaram; nem a lingua Kirirí, um tupi que era fallado pela tribu d'esse nome, não são hoje linguas vivas. Assim como os selvagens ou desappareceram ou subsistem mestiçados, assim a lingua ou desappareceu ou mestiçou-se no rustico fallar do nosso povo, conseguindo introduzir na lingua portugueza do Brazil centenares de raizes
[8]
.
«O cruzamento d'estas raças (indigenas do Brazil, negros e brancos) ao passo que misturou os sangues, cruzou tambem (se nos é licito servirmo-nos d'essa expressão) a lingua, sobretudo a linguagem popular. É assim que, na linguagem do povo das provincias do Pará, Goyaz, e especialmente de Matto-Grosso, há não só quantidade de vocabulos tupís e guaranís accommodados á lingua portugueza e n'ella transformados, como ha phrases, figuras, idiotismos, e construcções peculiares ao tupí. Este facto mostra que o cruzamento physico de duas raças deixa vestigios moraes, não menos importantes do que os do sangue. O notavel professor norte-americano C. F. Hartt nota que são rarissimos os verbos portuguezes que têem raizes tupís, e cita como um d'esses raros exemplos, talvez unico, o verbo
moquear
. Se o illustre professor houvesse viajado outras provincias, veria que esse exemplo não é isolado, e que não temos um, mas muitos verbos vindos do tupí, e alguns d'elles tão expressivos e energicos que não encontrâmos equivalentes em portuguez; citarei entre outros os seguintes:
espocar
(Pará) por: arrebentar abrindo;
petequear
(Minas, S. Paulo) por: jogar;
entocar
(geralmente em todo o Brazil) por metter-se em buraco, ou figuradamente, por: encolher-se, fugir á responsabilidade;
gapuiar
(Pará, Maranhão) por: apanhar peixe;
cutucar
(geral) por: tocar com a ponta;
espiar
(geral) por: observar;
popocar
(Pará, Maranhão) por: abrir arrebentando;
pererecar
(geral) por: caír e revirar;
entejucar
por: embarrear;
encangar
por: metter os bois no jugo;
apinchar
por: lançar, arremessar;
capinar
por: limpar o matto;
embiocar
por: entrar no buraco;
bobuiar
por: fluctuar;
catingar
por: exhalar mau cheiro;
tocaiar
por: esperar, etc., são outros tantos verbos com que o tupí enriqueceu a lingua popular dos habitantes do interior do Brazil, lingua ás vezes rude, não o contestâmos, mas ás vezes tambem de uma energia e elegancia de que só póde fazer idéa, aquelle que tem estado em uma roda de gaúchos folgazãos a ouvil-os contar a historia de seus amores, suas façanhas de valentia, ou as lendas, ás vezes tão tocantes e poeticas de suas superstições, metade christãs, metade indigenas
[9]
...
«Se dos verbos passassemos aos substantivos, nomes de animaes, logares, plantas, ver-se-hía que nada menos de mil vocabulos, quasi uma lingua inteira, passou e veiu fundir-se na nossa, assim como com o cruzamento tem passado e ha-de continuar a passar o sangue indigena a assimilar-se e confundir-se com o nosso
[10]
.»
Como se vê os dois escriptores brazileiros, que têem um longo conhecimento do tupi-guarani, nenhum facto apresentam que prove a influencia grammatical que admittem: as suas indicações resumem-se a factos lexiologicos, alguns dos quaes são muito contestaveis.
Não entraremos n'um exame critico directo das diversas opiniões que acabâmos de citar. Os materiaes por nós accumulados permittem-nos assentar os seguintes principios, em face dos quaes é facil julgar essas opiniões.
1.º
Os dialectos romanicos e creolos, indo-portuguez e todas as formações similhantes representam o primeiro ou primeiros estadios na acquisição de uma lingua estrangeira por um povo que falla ou fallou outra.
Este principio é por assim dizer evidente. Basta observar como os estrangeiros que não têem estudos grammaticaes começam a fallar a lingua de um paiz que não é o seu para a ver perfeitamente confirmada.
Mi no fallá portuguese
é uma phrase typica que todos conhecemos na bôca dos inglezes.
Os factos observados nos dialectos creolos de Santo Antão, Guiné, etc., revelam
graus diversos na acquisição do portuguez
. A lingua franca póde ser considerada como o typo mais rudimentar das formações de que nos temos occupado. Aqui devemos observar um facto interessante: consiste elle em que o povo de qualquer paiz achando-se em contacto com estrangeiros que não fallam a sua lingua reduz esta tambem, por assim dizer instinctivamente, ao mesmo typo privado de fórmas grammaticaes que caracterisam os dialectos creolos
[11]
.
Nos contos populares, os mouros, os turcos e os negros são apresentados pelo povo a fallar uma lingua em que o infinito substitue as outras fórmas verbaes; assim em G. Pitré,
Fiabe, novelle e racconti popolari siciliani
, I, 17, n.º 1, ha o seguinte dialogo entre um turco e S. Nicolau: «Bonciornu Santu Nicola!»—«Addiu Maumettu.»—«
Pigghiari
tanticchia d'ogghiu?»—«
Pigghiari
quanto vôi.» Póde comparar-se a versão portugueza d'essa facecia em a nossa collecção de
Contos populares portuguezes
, n.º 72. O douto e indefesso collector das tradições sicilianas ministra-nos a seguinte nota: «Nel
Malmantile
del Lippi annotato dal Minucci, vol. III, pag. 257, a proposito della frase del Lippi
star usanza
si legge: «
Star usanza
. È detto alla maniera degli stranieri, specialmente tedeschi, o turchi, che cominciando a parlar un poco Italiano, si servono quasi sempre dell'infinito in luogo di qualsivoglia tempo. È curiosa la perifrase d'uno schiavo turco, che avendo rubato un turibolo d'argento, volendolo vendere, andava dicendo negli orecchi a coloro, ch'egli supponeva lo potessino comprare:
Voler comprar un andare un venire un sentir buono?
»
É com razão que M. E. Egger nas suas
Observations et réflexions
sur le développement de l'intelligence et du langage chez les enfants
(Paris, 1879. 8.º) compara a linguagem das creanças aos dialectos creolos: «A vingt-huit mois l'enfant connaît le sens des trois mots:
ouvrir
,
rideau
et
pas
(négation); déjà il les rapproche avec une certaine dextérité, en les acompagnant du geste et du monosyllabe
ça
.
Pas ouvrir ça
signifie «la fenêtre est fermée»;
pas rideau ça
signifie «la fenêtre n'a pas de rideau». On reconnaît là ces grossières façons de parler qu'on décore parfois du nom de patois nègre, parce que les nègres de nos colonies n'empruntent guère à la langue de leurs maîtres qu'un petit nombre de vocables, les plus nécessaires, et qu'ils les accouplent, selon le strict besoin, sans aucun souci de la conjugaison et même de la syntaxe.» Ob. cit., p. 44.
Os dialectos de que nos temos occupado não são pois o resultado de uma transformação lenta, gradual, tendo por ponto de partida principal a alteração phonetica, como a que se opera nas linguas que seguem o curso normal da sua evolução, como a que transformou o latim em portuguez, hespanhol, provençal, italiano e valachio; nos dialectos creolos e similhantes a alteração phonetica é o menos; com ella pouco se explica da estructura morphologica e syntactica d'essas fórmas de linguagem. Bopp e Diez são de muito pouca utilidade immediata, os principios da grammatica comparada usual de pouco nos servem para entendermos aquelles dialectos.
A transformação da linguagem em virtude da alteração phonetica é um phenomeno de base physiologica; a formação dos dialectos creolos é no que tem de essencial um phenomeno psychologico. Formam-se elles rapidamente, para acudir á necessidade das relações; é o povo inferior pela raça, pelo estado de civilisação, mas ao mesmo tempo mais forte de instinctos, mais rico de espontaneidade, é esse que os forma com os materiaes da lingua do povo superior, que em regra não desce a aprender ou mesmo a dar attenção ás expressões do barbaro, do selvagem. Ao ouvido do povo inferior chegam primeiro como ondas sonoras tumultuosas as palavras do povo superior, depois aquelle percebe como que um rythmo, depois n'aquelle oceano de palavras descobre alguns pontos firmes, salientes; fixa-se n'elles: são as fórmas mais geraes e frequentes da linguagem; ellas bastam—a lingua nova, o instrumento indispensavel para o trato está forjado; enriquecel-o, approximando-o do typo perfeito, é obra do tempo, se o houver, se as condições o permittirem; mas a riqueza não será muitas vezes mais do que anomalia, porque aquella fórma primeira de linguagem, nascida de um trabalho todo espontaneo, era perfeitamente coherente. Por fim dá-se muitas vezes um phenomeno curioso: entendido do povo superior, do povo que em geral manda, o povo inferior não quer saber mais nada da lingua d'elle, contentando-se com o dialecto que formou: então o povo superior ver-se-ha obrigado a fallar a sua propria lingua alterada
[12]
.
É innegavel que a primeira reducção morphologica (podemos assim definir o processo de formação dos nossos dialectos) que uma lingua experimenta na bôca de um povo que tinha já outra deixa vestigios profundos, ainda quando o povo acaba por esquecer completamente a sua lingua propria e por conhecer de um modo mais completo a morphologia da lingua que adopta de um outro povo. Os processos periphrasticos da primeira phase da acquisição da lingua estranha não desapparecerão de todo, e mais tarde, quando a alteração phonetica, que elles favorecem, obscurecer certas fórmas grammaticaes, esses processos voltarão a ser normaes na lingua. Não será a causa d'esta natureza que serão devidos os futuros periphrasticos, por exemplo, nas linguas romanicas? Até hoje não se determinou com precisão o grau e caracter da influencia exercida por um povo sobre a lingua estranha que a conquista ou outras causas lhe faz adoptar. O erro capital n'esta questão consiste, a nosso ver, em se suppor que a lingua estranha é alterada pelo typo da lingua propria. O estudos dos dialectos creolos permitte-nos resolver esta questão.
2.º
Os dialectos romanico-creolos, indo-portuguez e todas as formações similhantes devem a origem á acção de leis psychologicas ou physiologicas por toda a parte as mesmas e não á influencia das linguas anteriores dos povos em que se acham esses dialectos.
Os factos accumulados por nós mostram á evidencia que os caracteres essenciaes d'esses dialectos são por toda a parte os mesmos, apesar das differenças de raça, de clima, das distancias geographicas e ainda dos tempos. É em vão que se buscará, por exemplo, no indo-portuguez uma influencia qualquer do tamul ou do singalez. No dialecto macaista a formação do plural por duplicação do singular póde attribuir-se a uma influencia chineza, mas esse processo é tão rudimentar que nenhuma conclusão podemos fundar sobre elle. No dialecto da ilha de Sant'Iago
muito muito
é um superlativo.
Os phenomenos phoneticos que nos offerecem os dialectos creolos nada têem de especial: a suppressão do
r
final, a tendencia para o iotacismo, por exemplo, apparecem-nos quasi por toda a parte; as proprias excepções são as mesmas: assim temos
ser
e não
sê
em Ceylão, em Macau, no archipelago de Cabo Verde. Nenhum som das linguas indigenas foi transportado para os dialectos creolos; mas alguns sons das linguas europeas foram modificados. Ora na propria Europa se notam modificações similhantes. A seguinte observação do dr. Bos sobre o creolo da ilha Mauricio é, emquanto aos sons, quasi inteiramente applicavel a todos os dialectos similhantes: «É provavel que os sons do francez que o negro não pôde reproduzir faltavam na sua lingua. A influencia das linguas negras reduziu-se a isso; ellas não.... implantaram nenhum som novo; ellas supprimiram os que ellas ignoravam
[13]
, para os substituir por outros mais ou menos analogos:
e
mudo por
i
,
ui
por
i
,
j
por
z
,
ch
por
ç
, etc.»
No fallar brazileiro, por exemplo, não parece haver nenhum dos sons particulares do tupi-guarani.
A acção das leis psychologicas geraes vae quasi sempre nos dialectos de que nos occupâmos até ás feições miudas; assim não só a periphrase com as fórmas mais geraes nos apparece para substituir as fórmas não adquiridas, mas ainda a mesma preferencia por certas fórmas auxiliares se nota quasi por toda a parte; assim o presente formado com
ta
(==
estar
) em Macau, nas ilhas de Cabo Verde, em Curaçáo; em Ceylão como em Curaçáo
lo
é o elemento formativo do futuro. Na Luisiania
té
==
était
serve para formar o imperfeito.
A preferencia dada n'esses dialectos aos pronomes regimens, que vêem occupar o logar dos pronomes sujeitos encontra-se entre nós no fallar das creanças e tem grande extensão nas phrases populares das nossas linguas europêas
[14]
.
A propria selecção lexiologica, isto é, a preferencia dada a certos termos, manifesta a acção das mesmas leis geraes, das mesmas tendencias nas formações que estudâmos, apesar das differenças de raças e de meios; assim para significar fallar ou dizer encontrâmos em Ceylão, Curaçáo, archipelago de Cabo Verde, etc., a palavra
papiá
, o que é tanto mais interessante quanto esse termo não parece existir hoje nem em hespanhol nem em portuguez. O substantivo
misté
(
mister
) em Ceylão, em Macau, em Curaçáo, no archipelago de Cabo Verde, tem o valor de um verbo significando ser preciso, ter necessidade de, dever.
Pamóde
e
promodi
(==por amor de) tomam em Macau, como em Santo Antão, o logar da conjuncção porque, de um modo independente; em quanto o
passóba
(==
por es'obra
) de Curaçáo nos lembra o
quamobrem
latino.
Assilai
por
tal
em Ceylão e Macau deve ter-se produzido tambem independentemente n'um e n'outro dialecto; a palavra é composta de
assi
(d'este modo) e
lai
por
laia
, que em portuguez significa especie, sorte, estofo. sentido desenvolvido do de
lã
.
A extensão já tão consideravel d'este artigo não nos permitte desenvolvermos mais completamente estas idéas, julgâmos porém ter ministrado sufficientes provas de que os dialectos creolos e formações similhantes não revelam influencia alguma directa, salvo no vocabulario, das linguas anteriores dos povos que os fallam, mas que se deve ver n'elles apenas o resultado da acção de leis geraes a que obedece por toda a parte o espirito humano.
O nosso
Estudo sobre a grammatica e o vocabulario do indo-portuguez
completará as nossas observações na parte comparativa
[15]
.
Notas:
[1]
Logo qui por
quê l'or qui
. Hoje é muito usado na cidade da Praia.
[2]
O desapparecimento da syllaba inicial de
minha
explica-se pelo facto d'esta palavra se tornar proclitica? G. Vicente tem
enha
.
[3]
As particularidades historicas que seguem são extrahidas da obra Ceylon, an account of the Island, etc. by sir James Emerson Tennent. London, 1860, 2 volumes, 8.º
[4]
Istes Escrituras de Novo Testamento, (que nossa Senhor Jesus Christo ja papia,)
particularmente
te da sabe, istes Mandamentos, que quer dizia.
[5]
Apud
Carl Engel,
An Introduction to the Study of National Music.
London, 1866. 8.º, p. 351.
[6]
Catin en patois normand est une poupée.
[7]
Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro.
1878-1879. Vol. IV.
Manuscripto guarani da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro
, etc.,
publicado com a traducção portugueza, notas, e um esboço grammatical do abáñee
pelo dr. Baptista Caetano d'Almeida Nogueira, p. XI-XII.
[8]
O Selvagem
, I. Curso da lingua geral segundo Ollendorf. II. Origens, costumes, região selvagem, por Couto de Magalhães. Rio de Janeiro, 1876, 8.º, p. 40.
[9]
Ob. cit., p. 77.
[10]
O Selvagem
, I. Curso da lingua geral segundo Ollendorf, etc., p. 77.
[11]
«Dès 1633, le père Lejeune se plaignait qu'on employât entre Français et Indiens un jargon qui n'était, à proprement parler, ni le français ni l'indien, et cependant, ajoutait-il avec surprise, les Français, à l'user, se flattent de parler indien, et les Indiens pensent s'exprimer en bon français.» Maspèro
Rev. ling.
IX, 405.
[12]
Vid. acima as interessantes observações de Bocandé.
[13]
Seria preferivel dizer: parte dos que ellas ignoravam.
[14]
Vid. J. Storm,
Englische Philologie
, I, 207 ss.
[15]
N'esse estudo tentaremos tanto quanto nos é possivel fazer com os materiaes que temos á nossa disposição, indicar as particularidades phoneticas do indo-portuguez, escondidas em grande parte sob a orthographia adoptada pelos missionarios inglezes, e que julgâmos não dever modificar no specimen que démos, reproduzido do folheto que contém
Orações
,
Dez Mandamentos
,
O sermão riba do montanha
(sem data nem logar de impressão).