← Table of contents
O Oraculo do Passado, do presente e do Futuro (6/7)

TRADIÇÃO PRUSSIANA

Reading edition

Ao pé do rio Memer, e não longe da cidade de Tilsit, levanta-se um monte alto e redondo que se chama o monte do castello. Ha muitos e muitos annos houve alli um grande castello, como ainda hoje se póde vêr pelas ruinas das paredes, e por um fosso muito fundo e duas linhas de muralhas que estão de redor. A quem pertence e quem agora lá mora, é cousa de que ninguem sabe dar noticia, mas corre na terra uma tradição que reza que elle se aluiu de repente, e ainda hoje se mostra no cume do monte, mesmo no meio d'elle, um largo e escuro boqueirão, cujo fundo ainda ninguem pôde achar com cordas: diz-se que deve ter sido a chaminé do antigo castello. N'esses muros derribados reza a mesma tradição que é guardado um thesouro immenso por um porteiro, velhinho de cabellos brancos, que já tem sido visto muitas vezes pelos viajantes que sobem ao monte, e que ninguem até hoje tem podido ir aproveitar-se d'elle.{26}

Um dia andavam muitos rapazes de uma aldeia proxima de Tilsit a pastorear gado no monte do castello. O dia ia em mais de meio, o sol queimava e os rapazes deitaram-se á sombra de um rosal bravo e pozeram-se a contar historias. Entre outras cousas fallaram no muito ouro que estava no monte por debaixo d'elles, e mostraram desejos de que lhes apparecesse o porteiro do castello para irem atraz d'elle e deitarem mão ao thesouro. Mas mostravam esse animo por ser dia claro, porque nenhum d'elles era capaz de se deixar ficar só no monte do castello depois de escurecer.

—Sim, dizia o mais novo, fazia-me boa conta o ouro, e ainda mais a minha mãi que está velha, corcovada e trôpega e ainda se assenta á roda de fiar, ganhando assim com muito trabalho mas honestamente o escasso pão de cada dia; que alegria não seria a d'ella se eu podesse levar-lhe para casa uma boa mão cheia de dinheiro! Mas eu não quero nada com o tal phantasma do homem pequenino.

—Tolo! disseram os outros, elle não faz mal a ninguem; provavelmente descançaria e não lhe seria preciso andar a vaguear pelo monte, se alguem achasse o thesouro, porque então não teria mais que guardar.

Assim palravam elles até que um se lembrou de irem todos ao boqueirão e atirarem pedras para baixo. Mas por maiores que fossem as pedras que arrastassem até ao buraco e lançassem dentro, não ouviam cahir nenhuma no fundo.

—Se houvesse uma corda bem comprida, disse Fernando que era o mais velho, e rapaz forte e animoso, poderia um de nós descer um bom pedaço, e vêr se acharia alguma porta ou cousa semelhante que fosse dar onde está o ouro.

—Em casa de meu amo, disse outro, ha um poço,{27} e está uma corda no guindaste que com certeza é duas vezes tão comprida como este monte. Querem que a vá buscar? Em casa não está agora ninguem porque meu amo e minha ama sahiram para longe para um baptisado.

A proposta foi bem recebida por todos, menos pelo pequeno Theophilo.

—Nós, disse Fernando com os olhos afogueados, podemos talvez ser ricos com pouco custo, não precisando mais de guardar gado pelo ardor do sol; podemos mesmo comprar casa e campos e ter moços para o gado, se enchermos bem os bolsos lá em baixo. Vai buscar a corda, depois tiraremos á sorte quem ha-de descer á cova; os outros ficarão a segurar a corda em cima, e o que descer será içado logo que dê signal puxando por ella.

Todos estavam muito contentes, menos o pequeno Theophilo, que como medroso se oppunha áquella resolução, mas foi escarnecido pelos camaradas. Quando chegou a corda e foram lançadas as sortes, a quem tocou a vez foi justamente ao timorato Theophilo, que bem fugiria d'alli para longe se os camaradas não o segurassem e não o atassem á força com a corda. Gritando e bracejando, com grandes risadas dos companheiros foi lançado no boqueirão redondo e descido devagar. A ponta da corda foi atada com muita segurança ao tronco de uma arvore, e pouco a pouco foram os rapazes deixando ir cada vez mais para o fundo o seu pequeno camarada. Passados alguns minutos curvaram-se na borda do buraco e disseram: «Que vês lá embaixo, Theophilo?» Mas Theophilo só pedia que o puxassem para fóra.

A final já não se entendia o que elle dizia: a corda, que era mais comprida do que a altura da torre{28} da igreja de Tilsit, estava já a chegar ao fim, e ainda se sentia retesada e pesada, signal certo de que Theophilo ainda não tinha chegado ao fundo. Mas de repente viu-se que estava bamba. Os moços do gado deram gritos de alegria, vendo que por fim estava Theophilo em terra firme: estenderam meio corpo por sobre a borda do boqueirão; chamaram e pozeram-se a escutar, mas o silencio era de mortos. Assim esperaram muito tempo, uma hora e ainda mais; agora, diziam elles, já Theophilo tem tido tempo de ver tudo e de encher os bolsos com ouro e prata. Puxaram a corda para cima, mas a corda não trazia nada. Como esperassem ainda uma hora e outra hora sem que a corda trouxesse alguma cousa acima, começaram a affligir-se e a inquietar-se. Depois correram muito pezarosos á aldeia, e com medo de castigo disseram á velha mãi doente do seu camarada perdido que Theophilo tinha trepado sósinho ás ruinas do monte do castello e de repente tinha desapparecido.

Foi grande a angustia da pobre mãi do rapaz, cuja alegria unica era o seu Theophilo. Chorou e gemeu toda a noite, não houve somno que lhe fechasse os olhos, e bem quizera ella morrer para ir ter com seu filho ao céo, porque elle de certo tinha cahido no fundo do boqueirão do monte do castello, e lá estava despedaçado e morto.

Quando na manhã seguinte Fernando e os outros moços do gado levavam outra vez os rebanhos para o pasto da vespera, ainda afflictos pelo que tinha acontecido, correu Theophilo ao encontro d'elles na raiz do monte. Todos os seus bolsos, e o barrete, e mesmo as mãos, estavam cheias de ouro, e elle com grande alegria contou aos camaradas como tudo lhe tinha corrido bem. Disse elle:{29}

—Logo que me senti em chão firme e que me desatei da corda, vi uma porta diante de mim e por ella entrei em uma cozinha muito grande. Ardia no lar uma grande fogueira que não fazia fumo nenhum, e em toda a parte não se via senão cousas de ouro e de prata. De repente veio direito a mim um velhinho pequeno, pegou-me na mão com muito bons modos e me disse que não tivesse medo porque me assegurava que não havia alli ninguem que me fizesse mal. Então perdi o medo, e atravessei com o bom velho muitas salas cada vez mais bonitas, onde havia montes de ouro. Então deu-me o castellão differentes iguarias muito boas para comer, e mostrou-me uma cama em que eu podia dormir. O vinho muito dôce que bebi pesou-me na cabeça, e eu dormi como um morto até que o mesmo velho pequenino me foi acordar. Então encheu-me de ouro o barrete e os bolsos tanto quanto podiam levar, e disse-me: «Guarda isto em lembrança do porteiro do castello e tracta de tua velha mãi.» E pegando-me em uma mão, abriu uma porta pequena, e quando puz os pés fora, vi o céo azul e o sol da manhã, e ouvi o sino da aldeia que tocava ás ave-marias. Elle não sahiu, disse-me adeus com a mão, e desappareceu. A porta por onde tinha sahido não a tornei a vêr. Graças a Deus, tudo foi bem até ao fim. Como minha mãi vai ficar contente!

E Theophilo correu logo á aldeia, sem dar mais ouvidos aos seus camaradas que bem queriam ouvir contar mais alguma cousa.

—Agora, disseram elles uns para os outros quando viram as grandes riquezas com que Theophilo appareceu, devemos ir tambem ao bom porteiro velho e trazer alguma cousa do seu thesouro. Vamos vêr a quem por sorte caberá a vez de ir lá abaixo.{30}

—Para que ha-de ser á sorte? disse Fernando; eu sou o mais velho de todos, e hei-de ser o primeiro a descer. A quem não estiver pelo que digo, provarei que está do meu lado o direito do mais forte.

Os camaradas resmungaram, mas não se atreveram a resistir ao robusto rapaz, e por isso foi Fernando descido ao boqueirão, depois de ter primeiro tirado o seu pão da saccola pastoril, para ter onde deitar muito ouro que esperava receber do porteiro do arruinado castello. De novo se mostrou a corda retesada quasi até ao fim, e os outros a colheram sem que trouxesse nada, mas não esperaram que o camarada sahisse para fóra n'aquelle mesmo dia, porque sabiam que elle tinha lá em baixo boas cousas para comer e uma cama bem fofa para passar a noite, e que lhes appareceria de manhã muito alegre, como o pequeno Theophilo, ao pé do monte. A ausencia de Fernando foi pouco notada na aldeia; os companheiros levaram-lhe a casa o gado, e elle não tinha uma mãi que o chorasse.

Na manhã seguinte todos os outros cheios de impaciencia sahiram com o gado mais cedo do que costumavam, mas não encontraram Fernando. Esperaram um pouco, depois correram ao alto do monte, deitaram a corda ao boqueirão, e inquietos chamaram o camarada pelo nome. Mas não houve resposta. Depois ninguem tornou a ver Fernando, nem appareceu ninguem que tivesse animo para descer ao fundo do monte do castello, e apanhar o thesouro que lá está enterrado.{31}

Explore with AITake your curiosity a little further.

Reading settings