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O Oraculo do Passado, do presente e do Futuro (6/7)

O FATO NOVO DO REI

Reading edition

(Anderson).

Era uma vez um rei que gostava tanto de roupas novas, que empregava em se vestir todo o dinheiro que tinha.

Se passava revista aos seus soldados, se apparecia nos espectaculos ou passeios publicos, não tinha outro fim em vista que não fosse mostrar como ia vestido. Era um fato para cada hora do dia; de maneira que assim como é costume dizer-se de qualquer rei: «Sua magestade está em conselho de ministros», a respeito d'este dizia-se: «Sua magestade está no seu guarda-roupa».

A capital em que elle vivia, era uma cidade alegre, principalmente pelo grande numero de estrangeiros que alli concorrião. Um dia chegárão áquella cidade dois impostores que se annunciárão como tecelões, dizendo que sabião tecer um panno como nunca se vira. Era um estofo notavel, não só pela belleza das côres e do desenho, mas sobretudo porque tinha a maravilhosa qualidade de se tornar invisivel para quem não exercesse, como devia, o seu emprego, ou fosse demasiadamente estupido.

—Uma roupa d'esse panno deve ser impagavel—disse comsigo o rei;—por meio d'ella chegarei a conhecer quaes são os homens incapazes do meu reino, e poderei distinguir os intelligentes dos estupidos. Um{38} fato assim é uma cousa indispensavel.—Em seguida mandou adeantar aos homens muito dinheiro para poderem desde logo dar começo á obra.

Os aventureiros armárão effectivamente dois teares e pozerão-se a fingir que trabalhavão, embora nas lançadeiras não houvesse nem sombra de fiado. A cada passo estavão a pedir seda da mais fina e ouro do melhor quilate, que ião ensacando, sem todavia deixarem de trabalhar nos teares vasios até alta noite.

Passado algum tempo, lembrou-se o rei de sair para ver em que altura ia o artefacto. Sentiu-se porém seriamente embaraçado, quando se recordou de que o estofo não podia ser visto por quem fosse tolo ou não exercesse condignamente o seu mister. Não era porque duvidasse de si; em todo o caso julgou prudente, pelo sim, pelo não, mandar adeante alguem que examinasse o estofo. Toda a cidade sabia da qualidade maravilhosa que elle tinha; cada um estava ancioso por saber se o seu vizinho era idiota ou inhabil.

—Vou mandar o meu velho e honrado ministro,—disse comsigo o rei.—Ninguem, como elle, para avaliar a obra, porque alem de ser um homem fino, é irreprehensivel no desempenho das suas funcções.

O ministro entrou na sala onde trabalhavão os dois impostores, e arregalando muito os olhos, disse de si para si:—Meu Deos, não vejo nada!—Mas, nem palavra. Os dois tecelões pedirão-lhe que se approximasse, e perguntárão que tal achava o desenho, e se as côres erão ou não magnificas. Ao mesmo tempo apontavão-lhe para os teares, onde o velho ministro tinha os olhos pregados, mas onde não via nada, pela simples razão de não haver lá nada que vêr.

—Pois na realidade, serei eu tambem um asno?—perguntava elle a si mesmo.—É preciso que ninguem{39} o suspeite. Serei eu incapaz de exercer o meu cargo? Não! não darei a saber a ninguem que não vi o tecido.

—Então, que dizeis?—perguntou um dos tecelões.

—Admiravel, é uma cousa surprehendente!—respondeu o ministro, pondo os oculos.—Este desenho, estas côres... vou immediatamente participar ao rei que fiquei satisfeitissimo.

—Isso é uma grande honra para nós,—disserão os dois tecelões, e começarão a chamar-lhe a attenção sobre as côres e desenhos imaginarios, aos quaes elles tinhão o cuidado de ir dando um nome. O ministro ouviu attentamente, para repetir deante do rei tudo quanto elles dizião.

Alguns dias depois o rei mandou outro funccionario honesto examinar o estofo e vêr se estava prompto. Aconteceu a este o que tinha acontecido já ao ministro: por mais que olhasse, não via nada.

—Não é verdade que isto é um tecido admiravel?—perguntavam os dois impostores, e ião mostrando as côres e desenhos que não existião.

—Pois eu não sou tolo!—pensava o homem.—Dar-se-ha o caso que eu não seja digno de exercer o meu emprego? Isso é singular; mas eu farei por o não perder.—E em seguida elogiou muito o tecido, e louvou sobretudo a escolha das côres e do desenho. Foi dizer ao rei que o estôfo era magnifico, e d'ahi a pouco não havia ninguem que não fallasse nelle.

Por ultimo quiz o rei ir vê-lo pessoalmente, emquanto estava ainda no tear, e acompanhado d'um grande sequito de pessoas escolhidas, entre as quaes se encontravão os dois funccionarios honestos, dirigiu-se ao logar onde os dois trapaceiros continuavão{40} a trabalhar com todo o cuidado, mas sem fio de seda ou de ouro, nem especie de fiado algum.

—Então não é excellente?—perguntárão os dois ministros.—O desenho e as côres são dignas de vossa magestade.—E apontavão para os teares vasios, como se os outros pudessem ver ahi alguma cousa.

—Que é isto?—disse comsigo o rei—eu não vejo nada. Acaso serei eu imbecil?! Não serei digno de ser rei? Esta é a maior infelicidade que me podia acontecer.—Depois exclamou de repente:—Magnifico! Declaro-me completamente satisfeito.

Abanou a cabeça em signal de approvação, e contemplou o tear sem se atrever a dizer a verdade. Todos os do sequito contemplarão tambem, sem comtudo nada verem, e disserão com o rei:—É magnifico!—Depois aconselhárão-no que estreasse o fato novo numa procissão que devia sair d'ahi a pouco.—É magnifico! admiravel! excellente!—dizião todos á uma; e a alegria era indescriptivel.

Os dois impostores forão condecorados, e recebêrão o titulo de tecelões da casa real. Na vespera da procissão trabalharão toda a noite á luz de dezeseis velas.

A final fingirão tirar a peça do tear; cortárão, no ar, com grandes tesouras; coserão com agulhas desenfiadas, e depois de tudo isto disserão que estava prompto o fato.

Veio o rei em pessoa, acompanhado dos seus ajudantes de campo, e os dois trapaceiros com os braços levantados como se segurassem alguma cousa, disserão:—Aqui tem vossa magestade a calça, a casaca e o manto. Tudo isto é leve como uma teia de aranha. Ha-de parecer a vossa magestade que não traz nada{41} sobre o corpo, mas é justamente nisto que está a principal qualidade do tecido.

—É verdade,—respondêrão os ajudantes de campo, mas sem verem nada.

Em seguida os tecelões pedirão ao rei que se collocasse deante d'um espelho, afim de lhe provarem o fato, e depois de o despirem todo, fingirão que lhe vestião uma por uma as differentes peças. O rei ia-se mirando e remirando ao espelho.

—Que bem lhe fica! que bem talhado!—exclamavão todos os cortezãos.—Que desenhos! E as côres? É um fato precioso!

—Está lá fora o pallio, debaixo do qual vossa magestade tem de ir na procissão,—disse o mestre de ceremonias.

—Bom, eu estou prompto—respondeu o rei;—penso que assim não vou mal.—E viu-se ainda uma vez ao espelho, para contemplar o esplendor em que ia.

Os caudatarios apalpárão o chão, como se quizessem levantar a cauda do manto, e caminhárão com os braços estendidos como se segurassem alguma cousa, não querendo dar a entender que não vião nada.

Assim caminhava o rei debaixo do magnifico pallio, e toda a gente da rua e das janellas exclamava:—Que sumptuoso vestido! que bella cauda tem o manto! o feitio é irreprehensivel!—Ninguem queria dar a conhecer que não via nada, para não ser taxado de estupido ou incapaz de exercer o seu emprego. Nunca fato algum do rei tinha dado tanto na vista.

—Mas o rei vae nú;—gritou uma creancinha.

—Meu Deus! escutae a voz da innocencia—disse o pae.

Immediatamente correu por toda a multidão, que{42} uma creança dissera que o rei ia nú; e a final exclamárão todos á uma:—O rei vae nú!

Este sentiu-se extremamente mortificado, porque lhe parecia que tinha razão; mas cobrou animo e disse comsigo:—Seja o que for, é indispensavel que eu fique até ao fim.—Depois tomou uns ares ainda mais magestosos, e os caudatarios continuarão a segurar, com todo o respeito, a cauda que não existia.

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