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O Guarany, romance brazileiro, Vol. 2 (of 2)

TERCEIRA PARTE OS AYMORÉS

Reading edition

I A PARTIDA

Na segunda-feira, erão seis horas da manhã, quando D. Antonio de Mariz chamou seu filho.

O velho fidalgo velara uma boa parte da noite; ou escrevendo ou reflectindo sobre os perigos que ameaçavão sua familia.

Pery lhe havia contado todas as particularidades de seu encontro com os Aymorés; e o cavalheiro, que conhecia a ferocidade e espirito vingativo dessa raça selvagem, esperava a cada momento ser atacado.

Por isso, de acordo com Alvaro, D. Diogo, com seu escudeiro Ayres Gomes, tinha tomado todas as medidas de precaução que as circumstancias e sua longa experiencia lhe aconselhavão.

Quando seu filho entrou, o velho fidalgo acabava de sellar duas cartas que escrevêra na vespera.

—Meu filho, disse elle com uma ligeira emoção, reflecti essa noite sobre o que nos pode acontecer, e assentei que deves partir hoje mesmo para S. Sebastião.

—Não é possivel, senhor!... Afastais-me de vós justamente quando correis um perigo?

—Sim! É justamente quando um grande perigo nos ameaça, que eu, chefe da casa, entendo ser do meu dever salvar o representante do meu nome e meu herdeiro legitimo, o protector de minha familia orphã.

—Confio em Deos, meu pai, que vossos receios serão infundados; mas se elle nos quizesse submetter a tal provança, o unico lugar que compete a vosso filho e herdeiro de vosso nome é nesta casa ameaçada, ao vosso lado, para defender-vos e partilhar a vossa sorte, qualquer que ella seja.

D. Antonio apertou seu filho ao peito.

—Eu te reconheço; tu és meu filho; é o meu sangue juvenil que gyra em tuas veias, e o meu coração de moço que falla pelos teus labios. Deixa porém que os cincoenta annos de experiencia que desde então passárão sobre minha cabeça encanecida te ensinem o que vai da mocidade á velhice, o que vai do ardente cavalheiro ao pai de uma familia.

—Eu vos escuto, senhor; mas pelo amor que vos consagro poupai-me a dôr e a vergonha de deixar-vos no momento em que mais precisais de um servidor fiel e dedicado.

O fidalgo proseguio já calmo:

—Não é uma espada, D. Diogo, que nos dará a victoria, fosse ella valente e forte como a vossa: entre quarenta combatentes que vão se medir talvez contra centenas e centenas de inimigos, um de mais ou de menos não importa ao resultado.

—Que assim seja, respondeu o cavalheiro com energia; reclamo o meu posto de honra, e a minha parte do perigo; não vos ajudarei a vencer, porém morrerei junto dos meus.

—E é por esse nobre mas esteril orgulho que quereis sacrificar o unico meio de salvação que talvez nos reste, se, como temo, as minhas previsões se realisarem?

—Que dizeis, senhor?

—Qualquer que seja a força e o numero de inimigos, conto que o valor portuguez e a posição desta casa me ajudarão a resistir-lhes por algum tempo, por vinte dias, mesmo por um mez; mas por fim teremos de succumbir.

—Então?... exclamou D. Diogo pallido.

—Então, se meu filho D. Diogo, em vez de ficar nesta casa por uma obstinação imprudente, tiver ido ao Rio de Janeiro, e pedido o auxilio que fidalgos portuguezes não lhe recusarão de certo, poderá voar em socorro de seu pai, e chegar com tempo para defender sua familia. Então verá que esta gloria de ser o salvador de sua casa vale bem a honra de um perigo inutil.

D. Diogo deitou o joelho em terra, e beijou com ternura a mão do fidalgo:

—Perdão, meu pai, por não vos ter comprehendido. Eu devia adivinhar que D. Antonio de Mariz não pode querer para o filho senão o que é digno do pai.

—Vamos, D. Diogo, não ha tempo a perder. Lembrai-vos que uma hora, um minuto de tardança talvez tenha de ser contado anciosamente por aquelles que vão esperar-vos.

—Parto neste instante, disse o cavalheiro dirigindo-se á porta.

—Tomai; esta carta é para Martim de Sá, governador desta capitania; esta outra é para meu cunhado e vosso tio Crispim Tenreiro, valente fidalgo que vos poupará o trabalho de procurardes defensores para vossa familia. Ide despedir-vos de vossa mãi e vossas irmãs: eu farei tudo preparar para a partida.

O fidalgo, reprimindo a sua emoção, sahio do gabinete onde se passava esta scena, e foi ter com Alvaro que o procurava.

—Alvaro, escolhei quatro homens que acompanhem D. Diogo ao Rio de Janeiro.

—D. Diogo parte?... perguntou o moço admirado.

—Sim, depois vos direi as razões. Por agora dai-vos pressa em que tudo esteja prompto dentro de uma hora.

Alvaro dirigio-se immediatamente ao fundo da casa onde habitavão os aventureiros.

Havia ahi grande agitação: uns fallavão em tom de queixa, outros murmuravão apenas palavras entrecortadas; e alguns finalmente rião e motejavão do descontentamento de seus companheiros.

Ayres Gomes com todo o seu arreganho militar passeava no meio do terreiro, a mão no punho da espada, a cabeça alta e o bigode retorcido. Quando o escudeiro passava, a voz dos aventureiros descia dous tons; mas á medida que elle se afastava, cada um dava livre desabafo ao seu máo humor.

Entre os mais inquietos et turbulentos distinguião-se tres grupos presididos por personagens de nosso conhecimento: Loredano, Ruy Soeiro e Bento Simões.

A causa desse descontentamento quasi geral era a seguinte:

Por volta de seis horas da manhã, Ruy, em virtude do emprazamento da vespera, dirigio-se o primeiro á escada para ganhar o matto.

Chegando ao fim da esplanada admirou-se de ver ahi Vasco Alphonso e Martim Vaz de vigia, o que era extraordinario; pois só á noite se usava de uma tal precaução, e esta cessava apenas amanhecia.

Ainda mais admirado porém ficou quando os dous aventureiros, cruzando as espadas, proferirão quasi ao mesmo tempo estas palavras:

—Não se passa.

—E por que razão?

—É a ordem, respondeu Martim Vaz.

Ruy empallideceu, e voltou apressadamente; a primeira idéa que lhe acudio foi que os tinhão denunciado, e cuidou em prevenir a Loredano.

Ayres Gomes porém embargou-lhe o passo, e dirigio-se com elle para o terreiro: ahi o digno escudeiro desempenando o corpo, e levando a mão á bocca em fórma de busina, gritou:

Olá! Á frente toda a banda!

Os aventureiros chegárão-se formando um circulo ao redor de Ayres Gomes; Ruy já tinha tido occasião de lançar uma palavra ao ouvido do italiano; e ambos, um pouco pallidos mas resolutos, esperavão o desfecho daquella scena.

—O Sr. D. Antonio de Mariz, disse o escudeiro, por meu intermedio vos faz saber a sua vontade, e manda que ninguem se afaste um passo da casa sem sua ordem. Quem o contrario fizer pereça morte natural.

Um silencio morno acolheu a enunciação desta ordem; Loredano trocou uma vista rapida com os seus dous complices.

—Estais entendidos? disse Ayres Gomes.

—O que nem eu, nem meus companheiros entendemos é a razão disto, retrucou o italiano avançando um passo.

—Sim; a razão? exclamou em coro a maioria dos aventureiros.

—As ordens cumprem-se, e não se discutem, respondeu o escudeiro com uma certa solemnidade.

—Comtudo nós... ia dizendo Loredano.

—Toca a debandar! gritou Ayres Gomes. Aquelle que não estiver contente, que o diga ao Sr. D. Antonio de Mariz.

E o escudeiro com uma fleugma imperturbavel rompeu o circulo, e começou a passear pelo terreiro olhando de travez os aventureiros, e rindo á sorrelfa do seu desapontamento.

Quasi todos estavão contrariados; sem fallar dos conspiradores que se havião emprazado para concertarem seu plano de campanha, os outros, cujo divertimento era caçar e bater os mattos, não recebião a ordem com prazer. Apenas alguns de genio mais bonachão e jovial tinhão tomado a cousa á boa parte, e zombavão da contrariedade que soffrião seus companheiros.

Quando Alvaro se aproximou todos os olhos se voltárão para elle, esperando a explicação do que se passava.

—Sr. cavalheiro, disse Ayres Gomes, acabo de transmittir a ordem para que ninguem arrede pé da casa.

—Bem, respondeu o moço, e continuou dirigindo-se aos aventureiros: Assim é preciso, meus amigos, estamos ameaçados de um ataque dos selvagens, e toda a prudencia é pouca nestas occasiões. Não é só a nossa vida que temos a defender, e essa pouco vale para cada um de nós; é sim a pessoa daquelle que confia em nosso zelo e coragem, e mais ainda o socego de uma familia honrada que todos prezamos.

As nobres palavras do cavalheiro, e a affabilidade do gesto que suavisava a firmeza de sua voz, serenárão completamente os animos; todos os descontentes mostrárão-se satisfeitos.

Apenas Loredano estava desesperado por ser obrigado a retardar a combinação do seu plano; pois era arriscado tenta-lo em casa, onde o menor gesto o podia trahir.

Alvaro trocou poucas palavras com Ayres Gomes, e voltou-se para os aventureiros:

—D. Antonio de Mariz precisa de quatro homens dedicados para acompanharem seu filho D. Diogo á cidade de S. Sebastião. É uma missão perigosa; quatro homens nestes desertos marchão de perigo em perigo. Quem de vós se offerece para desempenha-la?

Vinte homens se adiantárão; o cavalheiro escolheu tres entres elles.

—Vós sereis o quarto, Loredano.

O italiano, que se tinha escondido entre os seus companheiros, ficou como fulminado por estas palavras; sahir naquella occasião da casa era perder para sempre a sua mais ardente esperança; durante a ausencia tudo podia se descobrir.

—Peza-me ser obrigado a negar-me ao serviço que exigis de mim; mas sinto-me doente, e sem forças para uma viagem.

O cavalheiro sorrio.

—Não ha enfermidade que prive um homem de cumprir o seu dever; sobretudo quando é um homem valente e leal como vós, Loredano.

Depois abaixou a voz para não ser ouvido pelos outros aventureiros:

—Se não partis, sereis arcabuzado em uma hora. Esqueceis que tenho a vossa vida em minha mão, e vos faço esmola mandando-vos sahir desta casa?

O italiano comprehendeu que não tinha remedio senão partir; bastava que o moço o accusasse de ter atirado sobre elle, bastava a palavra de Alvaro para fazê-lo condemnar pelo chefe e pelos seus proprios companheiros.

—Aviai-vos, disse o cavalheiro aos quatro aventureiros escolhidos por elle; partis em meia hora.

Alvaro retirou-se.

Loredano ficou um momento abatido pela fatalidade que pesava sobre elle; mas a pouco a pouco foi recobrando a calma, animando-se; por fim sorrio. Para que sorrisse era necessario que alguma inspiração infernal tivesse subido do centro da terra a essa intelligencia votada ao crime.

Fez um aceno a Ruy Soeiro, e os dous encaminhárão-se para um cubiculo que o italiano occupava no fim da esplanada. Ahi conversárão algum tempo, rapidamente e em voz baixa.

Forão interrompidos por Ayres Gomes, que bateu com a espada na porta:

—Eh! lá! Loredano. A cavallo, homem; e boa viagem.

O italiano abrio a porta, e ia sahir; mas voltou-se para dizer a Ruy Soeiro:

—Olhai os homens da guarda; é o principal.

—Ide tranquillo.

Alguns minutos depois, D. Diogo, com o coração cerrado e as lagrimas nos olhos, apertava nos braços sua mãi querida, Cecilia que elle adorava, e Isabel que já amava tambem como irmã.

Depois desprendendo-se com um esforço, encaminhou-se apressadamente para a escada e desceu ao valle; ahi recebeu a benção de seu pai e abraçando a Alvaro saltou na sella do cavallo, que Ayres Gomes tinha pela redea.

A pequena cavalgata partio; com pouco sumia-se na volta do caminho.

II PREPARATIVOS

Ao tempo que D. Antonio de Mariz e seu filho conversavão no gabinete, Pery examinava as suas armas, carregava as pistolas que sua senhora lhe havia dado na vespera, e sahia da cabana.

A physionomia do selvagem tinha uma expressão de energia e ardimento, que revelava resolução violenta, talvez desesperada.

O que ia fazer, nem elle mesmo sabia. Certo de que o italiano e seus companheiros se reunirião naquella manhã, contava antes que a reunião se effectuasse ter mudado inteiramente a face das cousas.

Só tinha uma vida como dissera; mas essa com a sua agilidade e a sua força e coragem valia por muitas; tranquillo sobre o futuro pela promessa de Alvaro, não lhe importava o numero dos inimigos: podia morrer mas esperava deixar pouco ou talvez nada que fazer ao cavalheiro.

Sahindo de sua cabana, Pery entrou no jardim: Cecilia estava sentada n'um tapete de pelles sobre a relva, e amimava ao seio a sua rolinha predilecta, offerecendo os labios de carmim ás caricias que a ave lhe fazia com o bico delicado.

A menina estava pensativa; doce melancolia desvanecia a vivacidade natural de seu semblante.

—Tu estás agastada com Pery, senhora?

—Não, respondeu a menina fitando nelle os grandes olhos azues. Não quizeste fazer o que eu pedi; tua senhora ficou triste.

Ella dizia a verdade com a ingénua franqueza da innocencia. Na vespera, quando se tinha recolhido enfadada pela recusa de Pery, ficara contrariada.

Educada no fervor religioso de sua mãi, embora sem os prejuizos que a razão de D. Antonio corrigira no espirito de sua filha, Cecilia tinha a fé christã em toda a pureza e santidade. Por isso se affligia com a idéa de que Pery, a quem votava uma amizade profunda, não salvasse a sua alma, e não conhecesse o Deus bom e compassivo a quem ella dirigia suas preces.

Conhecia que a razão por que sua mãi e os outros desprezavão o indio era o seu gentilismo; e a menina no seu reconhecimento queria elevar o amigo e torna-lo digno da estima de todos.

Eis a razão por que ficara triste; era gratidão por Pery, que defendera sua vida de tantos perigos, e a quem ella queria retribuir salvando a sua alma.

Nesta disposição de espirito, seus olhos cahirão sobre a guitarra hespanhola que estava em cima da commoda e veio-lhe vontade de cantar. É cousa singular como a melancolia inspira! Seja por uma necessidade de expansão, seja porque a musica e a poesia suavisem a dôr, toda a creatura triste acha no canto um supremo consolo.

A menina tirou ligeiros preludios do instrumento emquanto repassava na memoria as letras de alguns soláos e cantigas que sua mãi lhe havia ensinado. A que lhe acudio mais naturalmente foi a chacara que ouvimos; havia nessa composição uns longes, um quer que seja que ella não sabia explicar, mas ia com seus pensamentos.

Quando acabou de cantar levantou-se, apanhou a flôr de Pery que tinha atirado ao chão, deitou-a nos cabellos, e fazendo a sua oração da noite, adormeceu tranquillamente. O ultimo pensamento que roçou a sua fronte alva foi um voto de gratidão pelo amigo que lhe salvára a vida naquella manhã. Depois um sorriso adejou sobre seu rosto gracioso, como se a alma durante o somno dos olhos viesse brincar nos labios entreabertos.

O indio, ouvindo as palavras que acabava de proferir Cecilia, sentio que pela primeira vez tinha causado uma mágoa real á sua senhora.

—Tu não entendestes Pery, senhora; Pery te pedio que o deixasses na vida em que nasceu, porque precisa desta vida para servir-te.

—Como?... Não te entendo!

—Pery, selvagem, é o primeiro dos seus; só tem uma lei, uma religião, é sua senhora; Pery, christão, será o ultimo dos teus; será um escravo, e não poderá defender-te.

—Um escravo!... Não! serás um amigo. Eu te juro! exclamou a menina com vivacidade.

O indio sorrio:

—Se Pery fosse christão, e um homem quizesse te offender, elle não poderia mata-lo, porque o teu Deus manda que um homem não mate outro. Pery selvagem não respeita ninguem; quem offende sua senhora é seu inimigo, e morre!

Cecilia, pallida de emoção, olhou o indio, admirada não tanto da sublime dedicação, como do raciocinio; ella ignorava a conversa que o indio tivera na vespera com o cavalheiro.

—Pery te desobedeceu por ti sómente; quando já não correres perigo, elle virá ajoelhar a teus pés, e beijar a cruz que tu lhe déste. Não fique zangada!

—Meu Deus!... murmurou Cecilia pondo os olhos no céo. É possivel que uma dedicação tamanha não seja inspirada por vossa santa religião!...

A alegria serena e doce de sua alma irradiava na physionomia encantadora:

—Eu sabia que tu não me negarias o que te pedi; assim não exijo mais; espero. Lembra-te sómente que no dia em que tu fôres christão, tua senhora te estimará ainda mais.

—Não ficas triste?

—Não; agora estou satisfeita, contente, muito contente!

—Pery quer pedir-te uma cousa.

—Dize, o que é?

—Pery quer que tu risques um papel para elle.

—Riscar um papel?...

—Como este que teu pai deo hoje a Pery.

—Ah! queres que eu escreva?

—Sim.

—O que?

—Pery vai dizer.

—Espera.

Ligeira e graciosa, a menina correu á banquinha, e tomando uma folha de papel e uma pena, fez signal a Pery que se aproximasse.

Não devia ella satisfazer os desejos do indio, como este satisfazia ás suas menores fantasias?

—Vamos: falla, que eu escrevo.

—Pery a Alvaro, disse o indio.

—É uma carta ao Sr. Alvaro? perguntou a menina corando.

—Sim: é para elle.

—Que vais tu dizer-lhe?

—Escreve.

A menina traçou a primeira linha, e depois, por pedido de Pery, o nome de Loredano e dos seus dous complices.

—Agora, disse o indio, fecha.

Cecilia sellou a carta.

—Entrega á tarde; antes não.

—Mas que quer isto dizer? perguntou Cecilia sem comprehender.

—Elle te dirá.

—Não que eu...

A menina balbuciou corando estas palavras: ia dizer que não fallaria ao cavalheiro e arrependeu-se; não queria revelar a Pery o que se tinha passado. Sabia que se o indio suspeitasse a scena da vespera, odiaria Isabel e Alvaro, só por lhe terem causado um pezar involuntario.

Emquanto Cecilia confusa procurava disfarçar o enleio, Pery fitava nella o seu olhar brilhante; mal pensava a menina que aquelle olhar era o adeos extremo que o indio lhe dizia.

Mas para isto fora preciso que adivinhasse o plano desesperado que elle havia concebido de exterminar naquelle dia todos os inimigos da casa.

D. Diogo entrou neste momento no quarto de sua irmã: vinha despedir-se della.

Quanto a Pery, deixando Cecilia dirigio-se á escada, e achou as mesmas vigias, que depois embargárão a passagem de Ruy Soeiro.

—Não se passa, disserão os aventureiros cruzando as espadas.

O indio levantou os hombros desdenhosamente; e antes que as sentinellas voltassem a si da sorpreza, tinha mergulhado sob as espadas, e descido a escada. Então ganhou a matta, examinou de novo as suas armas e esperou; já estava cansado quando viu passar a pequena calvagata.

Pery não comprehendeu o que succedia; mas conheceu que o seu plano tinha abortado.

Foi ter com Alvaro.

O cavalheiro explicou-lhe como se aproveitára da ida de D. Diogo ao Rio de Janeiro para expulsar o italiano sem rumor e sem escandalo. Então o indio por sua vez contou ao moço o que tinha ouvido na touça de cardos; o projecto que formára de matar os tres aventureiros naquelle manhã; e finalmente a carta que lhe escrevêra por intermedio de Cecilia, para, no caso de succumbir elle, saber o cavalheiro quem erão os inimigos.

Alvaro duvidava ainda acreditar em tanta perfidia do italiano.

—Agora, concluio Pery, é preciso que os dous tambem saião; se ficarem, o outro póde voltar.

—Não se animará! disse o cavalheiro.

—Pery não se engana! Manda sahir os dous.

—Fica descansado. Fallarei com D. Antonio de Mariz.

O resto do dia passou tranquillamente; mas a tristeza tinha entrado nesta casa ainda na vespera tão alegre e feliz; a partida de D. Diogo, o temor vago que produz o perigo quando se aproxima, e o receio de um ataque dos selvagens, preoccupavão os moradores do Paquequer.

Os aventureiros dirigidos por D. Antonio, executavão trabalhos de defesa tornando ainda mais inaccessivel o rochedo em que estava situada a casa.

Uns construião palissadas em roda da esplanada; outros arrastavão para a frente da casa uma colubrina que o fidalgo por excesso de cautela mandára vir de S. Sebastião havia dous annos. Toda a casa emfim apresentava um aspecto martial, que indicava a vespera de um combate; D. Antonio preparava-se para receber dignamente o inimigo.

Apenas em toda esta casa uma pessoa se conservava alheia ao que se passava; era Isabel, que só pensava no seu amor.

Depois de sua confissão, arrancada violentamente ao seu coração por uma força irresistivel, por um impulso que ella não sabia explicar, a pobre menina quando se vira só, no seu quarto, á noite, quasi morreu de vergonha.

Lembrava-se de suas palavras, e perguntava a si mesma como tivera a coragem de dizer aquillo, que antes nem mesmo os seus olhos se animavão a exprimir silenciosamente. Parecia-lhe que era impossivel tornar a ver Alvaro sem que cada um dos olhares do moço queimasse suas faces e a obrigasse a esconder o rosto de pejo.

Entretanto nem por isso seu amor era menos ardente; ao contrario agora é que a paixão, por muito tempo reprimida, se exacerbava com as lutas e contrariedades.

As poucas palavras doces que o moço lhe dirigira, a pressão das mãos, e o aperto rapido sobre o coração de Alvaro n'um momento de hallucinação, passavão e repassavão na sua memoria a lodo o momento.

Seu espirito, como uma borboleta em torno da flor, esvoaçava constantemente em torno das reminiscencias ainda vivas, como para libar todo o mel que encerravão aquellas sensações, as primeiras de seu infeliz amor.

Nesse mesmo dia de segunda-feira, á tarde, Alvaro encontrou-se um momento com Isabel na esplanada.

Ambos ficárão mudos, e corárão. Alvaro ia retirar-se.

—Sr. Alvaro... balbuciou a moça tremula.

—Que quereis de mim, D. Isabel? perguntou o moço perturbado.

—Esqueci-me restituir-vos hontem o que não me pertence.

—É ainda este malfadada bracelete?

—Sim, respondeu a moça docemente, é este malfadado bracelete: Cecilia teima que é elle vosso.

—Se meu é, vos peço que o aceiteis.

—Não, Sr. Alvaro, não tenho direito.

—Uma irmã não tem direito de aceitar a prenda que lhe offerece seu irmão?

—Tendes razão, respondeu a moça suspirando, eu o guardarei como lembrança vossa; não será adorno para mim, senão reliquia.

O moço não respondeu; retirou-se para cortar a conversa.

Desde a vespera Alvaro não podia eximir-se á impressão poderosa que causara nelle a paixão de Isabel; era preciso que não fosse homem para não se sentir profundamente commovido pelo amor ardente de uma mulher bella, e pelas palavras de fogo que corrião dos labios de Isabel impregnadas de perfume e sentimento.

Mas a razão direita do cavalheiro recalcava essa impressão no fundo do coração; elle não se pertencia; tinha aceitado o legado de D. Antonio de Mariz e jurado dar a sua mão a Cecilia.

Embora não esperasse mais realisar o seu sonho dourado, entendia que estava rigorosamente obrigado a sujeitar-se á vontade do fidalgo, a proteger sua filha, a dedicar-lhe sua existência. Quando Cecilia o repellisse abertamente, e D. Antonio o desobrigasse de sua promessa, então seu coração seria livre, se não estivesse morto pelo desengano.

O unico facto notavel que se deu nesse dia foi a chegada de seis aventureiros das vizinhanças, que prevenidos por D. Diogo vinhão offerecer seus serviços a D. Antonio.

Chegarão ao lusco-fusco; á frente delles vinha o nosso conhecido mestre Nunes, que um anno antes dera hospitalidade no seu pouso a frei Angelo di Lucca.

III VERME E FLOR

Erão onze horas da noite.

O silencio reinava na habitação e seus arredores, tudo estava tranquillo e sereno. Algumas estrellas brilhavão no céo; os sopros escassos da viração susurravão na folhagem.

Os dous homens de vigia, apoiados ao arcabuz e reclinados sobre o alcantil, sondavão a sombra espessa que se estendia pela aba do rochedo.

O vulto magestoso de D. Antonio de Mariz passou lentamente pela esplanada, e desappareceu no canto da casa. O fidalgo fazia a sua ronda nocturna, como um general na vespera de uma batalha.

Passados alguns momentos ouvio-se cantar uma coruja no valle, junto da escada de pedra; uma das vigias abaixou-se, e tomando dous pequenos seixos deixou-os cahir um depois do outro.

O som fraco que produzio a quedadas pedras sobre o arvoredo da varzea foi quasi imperceptivel; seria difficil distingui-lo do rumor do vento nas folhas.

Um instante depois um vulto subio ligeiramente a escada, e reunio-se aos dous homens que fazião a guarda nocturna:

—Tudo está preparado?

—Só esperamos por vós.

—Vamos! não ha tempo a perder.

Trocadas estas palavras rapidamente entre o que chegava e uma das vigias, os tres encaminhárão-se com todas as precauções para a alpendrada em que habitava a banda dos aventureiros.

Ahi, como no resto da casa, tudo estava calmo e tranquillo; apenas via-se luzir na soleira da porta do aposento de Ayres Gomes a claridade de uma luz.

Um dos tres chegou-se á entrada do alpendre, e esgueirando-se pela parede perdeu-se na escuridão que havia no interior.

Os outros dous se dirigirão ao fim da casa, e ahi occultos pela sombra e pelo angulo que formava um largo pilar do edificio, começárão um dialogo breve e rapido.

—Quantos são? perguntou o homem que chegára.

—Vinte ao todo.

—Restão-nos?

—Dezenoze.

—Bem. A senha?

—Prata.

—E o fogo?

—Prompto.

—Aonde?

—Nos quatro cantos.

—Quantos sobrão?

—Dous apenas.

—Seremos nós.

—Precisais de mim?

—Sim.

Houve uma pequena pausa, em que um dos aventureiros parecia reflectir profundamente emquanto o outro esperava; por fim o primeiro ergueu a cabeça:

—Ruy, vós me sois dedicado?

—Dei-vos a prova.

—Preciso de um amigo fiel.

—Contai comigo.

—Obrigado.

O desconhecido apertou a mão de seu companheiro.

—Sabeis que amo uma mulher?

—Vós m'o dissestes.

—Sabeis que é mais por essa mulher do que por esse thesouro fabuloso que concebi este plano horrivel?

—Não; não o sabia.

—Pois é a verdade; pouco me importa a riqueza; sêde meu amigo; servi-me lealmente, e tereis a maior parte do meu thesouro.

—Fallai; que quereis que eu faça?

—Um juramento; mas um juramento sagrado, terrivel.

—Qual dizei!

—Hoje esta mulher me pertencerá; entretanto se por qualquer acaso eu vier a morrer, quero que...

O desconhecido hesitou:

—Quero que nenhum homem possa ama-la, que nenhum homem possa gozar a felicidade suprema que ella pode dar.

—Mas como?

—Matando-a!

Ruy sentio um calafrio.

—Matando-a, para que a mesma cova receba nossos dous corpos; não sei porque, mas parece-me que ainda cadaver, o contacto desta mulher deve ser para mim um gozo immenso.

—Loredano!... exclamou seu companheiro horrorisado.

—Sois meu amigo e sereis meu herdeiro! disse o italiano agarrando-lhe convulsivamente no braço. É a minha condição; se recusais, outro aceitará o thesouro que rejetais!

O aventureiro estava em luta com dous sentimentos oppostos; mas a ambição violenta, cega, esvairada, abafou o grito fraco da consciencia.

—Jurais? perguntou Loredano.

—Juro!... respondeu Ruy com a voz estrangulada.

—Avante então!

Loredano abrio a porta do seu cubiculo, e voltou algum tempo depois trazendo uma taboa longa e estreita que collocou sobre o despenhadeiro como uma especie de ponte suspensa.

—Ides segurar esta taboa, Ruy. Entrego em vossas mãos a minha vida, e nisto dou-vos a maior prova de confiança. Basta que deixeis esta prancha mover-se para que eu me precipite sobre os rochedos.

O italiano achava-se então no mesmo lugar que na noite da chegada, algumas braças distante da janella de Cecilia, onde não podia chegar por causa do angulo que formava o rochedo e o edificio.

A taboa foi collocada na direcção da janella; a primeira vez tinha-lhe bastado o seu punhal; agora porém necessitava de um apoio seguro, e do livre movimento de seus braços. Ruy collocou-se sobre a ponta da taboa, e segurando-se a um frechai do alpendre manteve immovel sobre o precipicio essa ponte pensil em que o italiano ia arriscar-se.

Quanto a este, sem hesitar, tirou as suas armas para ficar mais leve, descalçou-se, segurou a longa faca entre os dentes, e pôz o pé sobre a prancha.

—Esperar-me-heis do outro lado, disse o italiano.

—Sim, respondeu Ruy com a voz tremula.

A razão por que a voz de Ruy tremia, era um pensamento diabolico que começava a fermentar no seu espirito. Lembrou-lhe que tinha na mão Loredano e o seu segredo; que para vêr-se livre de um e senhor do outro, bastava afastar o pé e deixar a taboa inclinar sobre o abysmo.

Entretanto hesitava; não que o remorso anticipado lhe exprobasse o crime que ia commetter; já tinha-se afundado muito no vicio e na depravação para recuar. Mas o italiano exercia sobre seus complices tal prestigio e influencia tão poderosa, que Ruy não podia mesmo nesse momento esquivar-se a elles.

Loredano estava suspenso sobre o abysmo pela sua mão; podia salva-lo ou precipital-o no despenhadeiro; e comtudo dessa posição ainda elle impunha respeito ao aventureiro.

Ruy tinha medo: não comprehendia o motivo desse terror irresistivel; mas o sentia como uma obsessão e um pesadelo.

No emtanto a imagem da riqueza esplendida, brilhante, radiando galas e luzimentos, passava diante de seus olhos e o deslumbrava; um pouco de coragem, e seria o unico senhor do thesouro fabuloso, de cujo segredo era o italiano depositario.

Mas coragem é o que lhe faltava; por duas ou tres vezes o aventureiro teve um impeto de suspender-se ao frechai, e deixar a taboa rolar no abysmo; não passou de um desejo.

Venceu a final a tentação.

Teve um momento de desvario: os joelhos acurvárão-se; a taboa soffreu uma oscillação tão forte, que Ruy admirou-se como o italiano se tinha podido suster.

Então o medo desappareceu; foi substituido por uma especie de raiva e frenesi que se apoderou do aventureiro; o primeiro esforço lhe dera a ousadia, como a vista do sangue excita a féra.

Um segundo abalo mais forte agitou a taboa, que oscillou á borda do rochedo; porém não se ouvio o baque de um corpo; não se ouvio mais que o choque da madeira sobre a pedra. Ruy, desesperado, ia soltar a prancha, quando chegou-lhe ao ouvido, abafada e sumida, a voz do italiano, que apenas se percebia no silencio profundo da noite.

—Estais cansado, Ruy?... Podeis tirar a taboa: não preciso mais della.

O aventureiro ficou espavorido; decididamente esse homem era um espirito infernal que plainava sobre o abysmo, e escarnecia do perigo; um ente superiora quem a morte não podia tocar.

Elle ignorava que Loredano, com a sua previdencia ordinaria, quando entrara no seu cubiculo para tirar a prancha, tivera o cuidado de passar por um caibro do alpendre, que era de telhavan, a ponta de uma longa corda que cahio sobre a parte de fóra da parede uma braça distante da janella de Cecilia.

Assim, apenas deo o primeiro passo sobre a ponte improvisada, o italiano mio se descuidou de estender o braço e agarrar a ponta da corda, que logo atou á cintura: então se o apoio lhe faltasse ficaria suspenso no ar, e, embora com mais difficuldade, realisaria o seu intento.

Foi por isso que os dous abalos produzidos pelo seu complice não tiverão o resultado que elle esperava; logo de primeiro, Loredano adivinhou o que se passava n'alma de Ruy, mas não querendo dar-lhe a perceber que conhecia a sua traição, servio-se de um meio indirecto para dizer-lhe que estava em segurança, e que era inutil a tentativa de precipita-lo.

A taboa não fez mais um só movimento; conservou-se immovel como se estivera solidamente pregada ao rochedo.

Loredano adiantou-se, tocou a janella da moça, e com a ponta da faca conseguio levantar a aldraba; as gelosias abrindo-se afastárão as cortinas de cassa que vendavão o asylo do pudor e da innocencia.

Cecilia dormia envolta nas alvas roupas de seu leito; sua cabecinha loura apparecia entra as rendas finissimas sobre as quaes se desenrolavão os lindos anneis dourados de seus cabellos. O doce amortecimento de um somno calmo e sereno vendava seu rosto gracioso, como a sombra esvaecida que desmaia o semblante das virgens de Murillo; seu sorriso era apenas enlevo.

O talho de sua anagoa abrindo-se deixava entrever um collo de linhas puras, mais alvo do que a cambraia; e com a ondulação que a respiração branda imprimia ao seu peito, desenhavão-se sob a lençaria diaphana os seios mimosos.

Tudo isto resaltava como um quadro d'entre as ondas de uma colcha de damasco azul que nas suas largas dobras moldava sobre a alvura transparente do linho os contornos harmoniosos e puros.

Havia porém nessa belleza adormecida uma expressão indefinivel, um quer que seja de tão casto e innocente, que envolvia essa menina no seu somno tranquillo e parecia afugentar della um pensamento profano.

Chegando-se á beira daquelle leito, um homem ajoelharia antes como ao pé de uma santa, do que se animaria a tocar na ponta dessas roupagens brancas que protegião a innocencia.

Loredano aproximou-se tremendo, pallido e offegante; toda a força de sua vigorosa organisação, toda a sua vontade poderosa e irresistivel, estava ahi vencida, subjugada, diante de uma menina adormecida. O que sentio quando seu olhar ardente cahio sobre o leito, é difficil dizer, é talvez mesmo difficil de comprehender. Foi a um tempo suprema ventura e horrivel supplicio.

A paixão brutal o devorava escaldando-lhe o sangue nas veias e fazendo saltar-lhe o coração; entretanto o aspecto dessa menina que não tinha para sua defesa senão a sua castidade, o encadeava.

Sentia que o fogo queimava-lhe o seio; sentia que seus labios tinhão sêde de prazer; e a mão gelada e inerte não se podia erguer, e o corpo estava paralysado: apenas o olhar scintillava, e as narinas dilatadas aspiravão as emanações voluptuosas de que estava impregnada a sua atmosphera.

E a menina sorria no seu placido somno, enleiando-se talvez n'algum sonho gracioso, n'algum dos sonhos azues que Deus esparge como folhas de rosas sobre o leito das virgens.

Era o anjo em face do demonio; era a mulher em face da serpente; a virtude em face do vicio.

O italiano fez um esforço supremo, e passando a mão pelos olhos como para arrancar uma visão importuna, encaminhou-se a um bofete e acendeu uma vela de cera côr de rosa.

O aposento, até então esclarecido apenas por uma lamparina collocada sobre uma cantoneira, illuminou-se; e a imagem graciosa de Cecilia appareceu cercada de uma aureola.

Sentindo a impressão da luz sobre os olhos, a menina fez um movimento, e voltando um pouco o rosto para o lado opposto continuou o somno, que nem fôra interrompido.

Loredano passou entre o leito e a parede, e pôde então admira-la em toda a sua belleza; não se lembrava de nada mais, esquecêra o mundo e seu thesouro: nem pensava no rapto que ia praticar.

A rolinha que dormia sobre a commoda no seu ninho de algodão ergueu-se e agitou as azas; o italiano, despertado por este rumor, conheceu que já era tarde e que não tinha tempo a perder.

IV NA TREVA

Alguns esclarecimentos são necessarios aos acontecimentos que acabavão de passar.

Quando Loredano viu-se obrigado pela ameaça de Alvaro a partir para o Rio de Janeiro, ficou succumbido; mas, depois de alguns momentos, um sorriso diabolico tinha enrugado os seus labios.

Este sorriso era uma idéa infame que luzira no seu espirito como a flamma desses fogos perdidos que brilhão no seio das trevas em noites de grande calma.

O italiano lembrou-se que no momento em que todos o suppunhão em viagem, podia preparar a execução do seu plano que elle realisaria naquella mesma noite.

Na conversa que tivera com Ruy Soeiro transmittio-lhe as suas instrucções, breves, simples e concisas; consistião em livrarem-se dos homens que podião pôr embaraços á sua empreza.

Para isso os seus complices recebêrão ordem de quando se recolhessem para dormir, collocarem-se ao lado de cada um dos homens da banda fieis a D. Antonio de Mariz.

Naquelle tempo e naquelles lugares não era possivel que os aventureiros tivessem cada um o seu cubiculo, poucos gozavão desse privilegio, e assim mesmo erão obrigados a partilhar o seu aposento com um companheiro: os outros dormião na vasta alpendrada que occupava quasi toda essa parte do edificio.

Ruy Soeiro tinha, conforme ás instrucções de Loredano, arranjado as cousas de tal modo que naquelle momento cada um dos aventureiros dedicados a D. Antonio de Mariz tinha a seu lado um homem que parecia adormecido, e que só esperava ouvir pronunciara senha convencionada para enterrar o seu punhal na garganta do seu companheiro.

Ao mesmo tempo havia pelos cantos da casa grandes molhos de palha secca collocados junto das portas ou mettidos pela beirada do telhado, e que só esperavão uma faisca para atear o incendio em todo o edificio.

Ruy Soeiro, com uma sagacidade e uma prudencia dignas de seu chefe, dispuzera tudo isto; parte durante o dia, e parte nas horas mortas da noite em que tudo estava recolhido.

Não se esqueceu da recommendação especial de Loredano, e offereceu-se voluntariamente a Ayres Gomes para fazer a guarda nocturna com um dos seus companheiros, visto recear-se ataque de inimigo; o digno escudeiro, que o conhecia como um dos mais valentes da banda, cahio no laço e aceitou o offerecimento.

Senhor do campo, o aventureiro pôde então acabar livremente os seus preparativos, e para mais segurança arranjou traça de ver-se livre do escudeiro, que podia de um momento para outro vir incommoda-lo.

Ayres Gomes em companhia de seu velho amigo mestre Nunes esvasiava uma botelha de vinho de Valverde que elles bebião lentamente, trago a trago, para assim disfarçarem a módica porção do liquido destinado a humedecer as guelas de dous formidaveis bebedores.

Mestre Nunes applicou voluptuosamente os labios á borda do cangirão, tomou uma vez de vinho, e dando um ligeiro estalinho com a lingua no céo da bocca, repimpou-se na tripeça em que estava sentado, cruzando as mãos sobre o seu ventre proeminente com uma beatitude celeste.

—Ora estou desde que cheguei para perguntar-vos uma cousa, amigo Ayres; e sempre a passar-me.—Não a deixeis passar agora, Nunes. Aqui me tendes para responder-vos.

—Dizei-me cá, quem é um tal que acompanhava D. Diogo, e a quem dais um diabo de nome que não é portuguez?

—Ah! Quereis fallar de Loredano? Um tunante?

—Conheceis este homem, Ayres?

—Por Deus! se elle é dos nossos!

—Quando pergunto se o conheceis, quero dizer se sabeis donde veio, quem era e o que fazia?

—Á fé que não! Appareceu-nos aqui um dia a pedir hospitalidade; e depois como sahisse um homem, ficou em lugar delle.

—E quando isto, se vos lembra?

—Esperai! Estou com os meus cincoenta e nove...

O escudeiro contou pelos dedos consultando o seu calendario, que era a sua idade.

—Foi por este tempo, ha um anno; principios de março.

—Estais bem certo? exclamou mestre Nunes.

—Certissimo: é conta que não engana. Mas que tendes?

Com effeito mestre Nunes se erguêra espantado.

—Nada! Não é possivel!

—Não acreditais?

—É outra cousa, Ayres! É um sacrilegio! uma obra de Satan! uma simonia horrenda!

—Que dizeis, homem, explicai-vos lá de uma vez.

Mestre Nunes conseguio restabelecer-se da sua perturbação, e contou ao escudeiro as suas desconfianças a respeito de Frei Angelo di Lucca e da sua morte, que nunca fôra possivel explicar: notou-lhe a coincidencia do desapparecimento do carmelita com o apparecimento do aventureiro, e o facto de serem da mesma nação.

—Depois, concluio Nunes, aquella voz, aquelle olhar!... Quando o vi hoje estremeci, e recuei espavorido julgando que o frade tinha sahido debaixo da terra.

Ayres Gomes levantou-se furioso, e saltando sobre o seu catre, agarrou o espadão que tinha á cabeceira.

—Que ides fazer? gritou mestre Nunes.

—Mata-lo, e desta vez ás direitas; que não torne. Esqueceis que vai longe?

—É verdade! murmurou o escudeiro rangendo os dentes de raiva.

Ouvio-se um ligeiro rumor na porta; os dous amigos o attribuîrão ao vento e não se voltárão sentados em face um do outro, continuárão em voz baixa a sua conversa interrompida pela brusca revelação de Nunes.

Entretanto fóra passavão-se cousas que devião excitar a attenção do digno escudeiro. O rumor que ouvira fôra produzido pela volta que Ruy dera á chave, fechando a porta.

O aventureiro tinha ouvido todo a conversa; a principio aterrado, cobrou animo, e lembrou-se que em todo o caso era bom estar senhor do segredo do italiano para qualquer emergencia futura. Confiado nessa excellente idéa, Ruy metteu a chave no peito do gibão, e foi reunir-se a seu companheiro que estava de vigia junto da escada.

Esperava por Loredano, que devia entrar na casa alta noite, para dirigir toda essa trama que havia urdido com uma intelligencia superior.

O italiano tinha facilmente illudido a D. Diogo de Mariz; sabia que o ardente cavalheiro ia de rota batida, e que não se demoraria em caminho por motivo algum.

A tres leguas do Paquequer, inventou um pretexto de ter-se quebrado a cilha de sua cavalgadura, e parou para arranja-la; emquanto D. Diogo e seus companheiros pensavão que os seguia de perto, elle tinha voltado sobre os passos, e escondido nas vizinhanças esperava que a noite se adiantasse.

Quando percebeu que tudo estava em silencio aproximou-se; trocou o signal convencionado, que era o canto da coruja; e introduzio-se furtivamente na habitação.

O mais já vimos. Sabendo que tudo estava preparado e prompto ao primeiro signal, Loredano deo começo á execução de seu projecto, e conseguio penetrar no quarto de Cecilia.

Tomar a menina nos braços, rapta-la, atravessar a esplanada, chegar á porta da alpendrada, e pronunciar a senha convencionada, era cousa que elle contava realisar n'um momento.

Quando Cecilia, arrancada de seu leito, lançasse um grito que elle não podesse abafar, isto pouco lhe importava; antes que alguem despertasse teria chegado ao outro lado, e então a uma palavra sua o fogo e o ferro virião em seu soccorro.

Ruy lançaria a chamma á palha preparada para este fim; e a faca de cada um dos seus complices se enterraria na gorja dos homens adormecidos.

Depois no meio desse horror e confusão, os vinte demonios acabarião a sua obra, e fugirião como os máos espiritos das lendas antigas, quando a primeira luz da alvorada terminava o sabbat infernal.

Ião ao Rio de Janeiro; ahi, ligados todos por um mesmo laço do crime, por um mesmo perigo e uma só ambição, Loredano contava ter nelles agentes fieis e dedicados para levar ao cabo a sua empreza.

Emquanto a traição solapava assim o socego, a felicidade, a vida e a honra desta familia, todos dormião tranquillos e descuidados; nem um presentimento os vinha advertir da desgraça que os ameaçava.

Loredano, graças á sua agilidade e á sua força, tinha conseguido chegar até ao leito da menina, sem que o menor rumor trahisse a sua presença, sem que na habitação alguem tivesse podido perceber o que se passava.

Certo pois do bom resultado, o italiano advertido pela innocente avezinha, que não sabia o mal que fazia, cuidou em consummar a sua obra. Abrio a commoda de Cecilia, tirou roupas de sedas e linho e fez de tudo isto um embrulho tão pequeno quanto era possivel; depois envolveu-o em uma das pelles que servião de tapete, e collocou n'uma cadeira, a geito de o poder apanhar com facilidade.

Era cousa original o pensamento deste homem. Ao passo que commettia um crime, tinha a lembrança delicada de querer suavisar a desgraça da menina fazendo que nada lhe faltasse na viagem incommoda que tinha de fazer.

Quando tudo estava preparado abrio a portinha que dava para o jardim, e estudou o caminho que tinha de seguir. Era preciso; porque apenas tomasse Cecilia nos braços devia partir e chegar d'uma só corrida direita, rapida e cega.

A porta ficava n'um canto do aposento, defronte do vão que havia entre o leito e a parede; collocado neste lugar, não tinha senão um movimento a fazer, agarrar a menina e lançar-se fóra do aposento.

Na occasião em que elle se aproximava ouvio-se um gemido, quasi um suspiro, abafado e cheio de angustia.

Os cabellos irriçárão-se sobre a fronte do italiano; gotas de suor frio e gelado sulcárão as suas faces pallidas e contrahidas.

A pouco e pouco foi sahindo do estupor que o paralysára, e volvendo lentamente ao redor de si uns esgares d'olhos allucinados.

Nada! Nem um insecto parecia acordado na solidão profunda da noite em que tudo dormia excepto o crime, o verdadeiro duende da terra, o máo genio das crenças de nossos pais.

Tudo estava em socego; até o vento parecia se ter abrigado no calice das flôres e adormecido neste berço perfumado, como n'um regaço de amante.

O italiano restabeleceu-se do violento abalo que soffrêra, deo um passo, e inclinou-se sobre o leito.

Cecilia sonhava neste momento.

Seu rosto esclareceu-se com uma expressão de alegria angelica; sua mãozinha, que repousava aninhada entre os seios, moveu-se com a indolencia e a molteza do somno, e recahio sobre a face.

A pequena cruz de esmalte que tinha ao collo e que estava agora presa entre os dedos da mão roçou-lhe os labios; e uma musica celeste escapou-se, como se Deus tivesse vibrado uma das cordas de sua harpa àolis.

Foi a principio um sorriso que adejou-lhe nos labios; depois o sorriso colheu as azas e formou um beijo por fim o beijo entreabrio-se como uma flôr e exhalou um suspiro perfumado.

—Pery!

O collo arfou docemente, e a mão descahindo foi de novo aninhar-se entre o talho da sua anagoa de cambraia.

O italiano ergueu-se pallido.

Não se animava a tocar naquelle corpo tão casto, tão puro; não podia fitar aquella physionomia radiante de innocencia e de candura.

Mas o tempo urgia.

Fez um esforço supremo sobre si mesmo; firmou o joelho na bordado leito, fechou os olhos, estendeu as mãos.

V DEOS DISPÕE

O braço de Loredano estendeu-se sobre o leito; porém a mão que se adiantava e ia tocar o corpo de Cecilia estacou no meio do movimento, e subitamente impellida foi bater de encontro á parede.

Uma setta, que não se podia saber d'onde vinha, atravessara o espaço com a rapidez de um raio, e antes que se ouvisse o sibillo forte e agudo pregára a mão do italiano no muro do aposento.

O aventureiro vacillou, e abateu-se por detrás da cama; era tempo, porque uma segunda setta, despedida com a mesma força e a mesma rapidez, cravava-se no lugar onde ha pouco se projectava a sombra de sua cabeça.

Passou-se então ao redor da innocente menina adormecida na isenção de sua alma pura uma scena horrivel, porém silenciosa.

Loredano nos transes da dôr por que passava comprehendêra o que succedia; tinha adivinhado naquella setta que o ferira a mão de Pery; e sem ver, sentia o indio aproximar-se terrivel de odio, de vingança, de colera e desespero pela offensa que acabava de soffrer sua senhora.

Então o reprobo teve medo; erguendo-se sobre os joelhos arrancou convulsivamente com os dentes a setta que pregava sua mão á parede, e precipitou-se para o jardim, cego, louco e delirante.

Nesse mesmo instante, dous segundos talvez depois que a ultima flecha cahira no aposento, a folhagem do oleo que ficava fronteiro á janella de Cecilia agitou-se e um vulto embalançando-se sobre o abysmo, suspenso por um fragil galho da arvore, veio cahir sobre o peitoril.

Ahi agarrando-se á hombreira saltou dentro do aposento com uma agilidade extraordinaria; a luz dando em cheio sobre elle desenhou o seu corpo flexivel e as suas fórmas esbeltas.

Era Pery.

O indio avançou-se para o leito, e vendo sua senhora salva respirou; com effeito a menina, a meio despertada pelo rumor da fugida de Loredano, voltára-se do outro lado e continuára o somno forte e reparador como é sempre o somno da juventude e da innocencia.

Pery quiz seguir o italiano e mata-lo, como já tinha feito aos seus dous complices; mas resolveu não deixar a menina exposta a um novo insulto, como o que acabava de soffrer, e tratou antes de velar sobre sua segurança e socego.

O primeiro cuidado do indio foi apagar a vela, depois fechando os olhos aproximou-se do leito e com uma delicadeza extrema puxou a colcha de damasco azul até ao collo da menina.

Parecia-lhe uma profanação que seus olhos admirassem as graças e os encantos que o pudor de Cecilia trazia sempre vendados; pensava que o homem que uma vez tivesse visto tanta belleza, nunca mais devia ver a luz do dia.

Depois desse primeiro desvelo, o indio restabeleceu a ordem no aposento; deitou a roupa na commoda, fechou a gelosia e as abas da janella, lavou as nodoas de sangue que ficárão impressas na parede e no soalho; e tudo isto com tanta solicitude, tão subtilmente, que não perturbou o somno da menina.

Quando acabou o seu trabalho, aproximou-se de novo do leito, e á luz frouxa da lamparina contemplou as feições mimosas e encantadoras de Cecilia.

Estava tão alegre, tão satisfeito de ter chegado a tempo de salva-la de uma offensa e talvez de um crime; era tão feliz de vê-la tranquilla e risonha sem ter soffrido o menor susto, o mais leve abalo, que sentio a necessidade de exprimir-lhe por algum modo a sua ventura.

Nisto seus olhos abaixando-se descobrirão sobre o tapete da cama dous pantufos mimosos forrados de setim e tão pequeninos que parecião feitos para os pés de uma criança; ajoelhou e beijou-os com respeito, como se forão reliquia sagrada.

Erão então perto de quatro horas; pouco tardava para amanhecer; as estrellas já ião se apagando a uma e uma; e a noite começava a perder o silencio profundo da natureza quando dorme.

O indio fechou por fóra a porta do quarto que dava para o jardim, e mettendo a chave na cintura, sentou-se na soleira como o cão fiel que guarda a casa de seu senhor, resolvido a não deixar ninguem aproximar-se.

Ahi reflectio sobre o que acabava de passar; e accusava-se a si mesmo de ter deixado o italiano penetrar no aposento de sua senhora; Pery, porém calumniava-se, porque só a Providencia podia ter feito nesta noite mais do que elle; porque tudo quanto era possivel á intelligencia, á coragem, á sagacidade e á força do homem, o indio havia realisado.

Depois da partida de Loredano, e da conversa que teve com Alvaro, certo de que sua senhora já não corria perigo, e de que os dous complices do italiano ião ser expulsos como elle, o indio não pensando mais senão no ataque dos Aymorés partio immediatamente.

O seu pensamento era ver se descobrisse pelas vizinhanças do Paquequer indicios da passagem de alguma tribu da grande raça guarany a que elle pertencia; seria um amigo e um alliado para D. Antonio de Mariz.

O odio inveterado que havia entre as tribus da grande raça e a nação degenerada dos Aymorés, justificava a esperança de Pery; mas infelizmente, tendo percorrido todo o dia a floresta, não encontrou o menor vestigio do que procurava.

O fidalgo estava pois reduzido ás suas proprias forças; mas embora fossem estas pequenas, o indio não desanimou; tinha consciencia de si; e sabia que na ultima extremidade a sua dedicação por Cecilia lhe inspiraria meios de salvar a ella e a tudo que ella amava.

Voltou á casa já noite fechada: foi ter com Alvaro; perguntou-lhe o que era feito dos dous aventureiros; o cavalheiro disse-lhe que D. Antonio de Mariz recusára crer na accusação.

De facto, o fidalgo leal, habituado ao respeito e á fidelidade de seus homens, não admittia que se concebesse uma suspeita sem provas; entretanto, como a palavra de Pery tinha para elle toda a valia, ficára de ouvir de sua bocca a narração do que presenciára, para conhecer o peso que devia dar a semelhante accusação.

Pery retirou-se inquieto e arrependido de não ter persistido no seu primeiro projecto; emquanto estes dous homens que elle já suppunha expulsos estivessem ali, sabia que um perigo pairava sobre a casa.

Assim resolveu não dormir; tomou o seu arco e sentou-se na porta de sua cabana; apezar de possuir a clavina que lhe dera D. Antonio, o arco era a arma favorita de Pery; não demandava tempo para carregar; não fazia o menor estrepito; lançava quasi instantaneamente dous, tres tiros: e sua flecha era tão terrivel e tão certeira como a bala.

Passado muito tempo o indio ouvio cantar uma coruja do lado da escada; esse canto causou-lhe estranheza por duas razões: a primeira, porque era mais sonoro do que é o cacarejar daquella ave agoureira; a segunda, porque em vez de partir do cimo de uma arvore sahia do chão.

Esta reflexão o fez levantar; desconfiou da coruja que tinha habitos differentes de suas companheiras; quiz conhecer a razão desta singularidade.

Viu do outro lado da esplanada tres vultos que atravessavão ligeiramente; isto augmentou a sua desconfiança; os homens de vigia erão ordinariamente dous e não tres.

Seguio-os de longe; mas quando chegou ao pateo, não viu senão um dos homens que entrava na alpendrada; os outros tinhão desapparecido.

Pery procurou-os por toda parte e não os viu; estavão occultos pelo pilar que se elevava na ponta do rochedo, e não lhe era possivel descobri-los.

Suppondo que tivessem tambem entrado no alpendre, o indio agachou-se e penetrou no interior; de repente a sua mão tocou uma lamina fria que conheceu immediatamente ser a folha de um punhal.

—És tu, Ruy? perguntou uma voz sumida.

Pery emmudeceu; mas de chofre aquelle nome de Ruy lembrou-lhe Loredano e o seu projecto; percebeu que se tramava alguma cousa: e tomou um partido.

—Sim! respondeu com a voz quasi imperceptivel.

—Já é hora?

—Não.

—Todos dormem.

Emquanto trocavão essas duas perguntas, a mão de Pery correndo pela lamina de aço tinha conhecido que outra mão segurava o cabo do punhal.

O indio sahio do alpendre, e dirigio-se ao quarto de Ayres Gomes; a porta estava fechada, e junto della tinhão collocado um grande montão de palha.

Tudo isto denunciava um plano prestes a realisar-se; Pery comprehendia, e tinha medo de já não ser tempo para destruir a obra dos inimigos.

Que fazia aquelle homem deitado que fingia dormir, e que tinha o punhal desembainhado na mão como se estivesse prompto a ferir? Que significava aquella pergunta da hora e aquelle aviso de que todos dormião? Que queria dizer a palha encostada á porta do escudeiro?

Não restava duvida; havia ali homens que esperavão um signal para matarem seus companheiros adormecidos, e deitarem fogo á casa; tudo estava perdido se o plano não fosse immediatamente destruido.

Cumpria acordar os que dormião, preveni-los do perigo que corrião, ou ao menos prepara-los para se defenderem e escaparem de uma morte certa e inevitavel.

O indio agarrou convulsamente a cabeça com as duas mãos como se quizesse arrancar á força de seu espirito agitado e em desordem um pensamento salvador. Seu largo peito dilatou-se; uma idéa feliz luzira de repente na confusão de tantos pensamentos encontrados que fermentavão no cerebro, e reanimára sua coragem e força.

Era uma idéa original.

Pery lembrára-se que o alpendre estava cheio de grandes talhas e vasos enormes contendo agua potavel, vinhos fermentados, licores selvagens de que os aventureiros fazião sempre uma ampla provisão.

Correu de novo ao saguão, e encontrando a primeira talha tirou a torneira; o liquido começou a derramar-se pelo chão; ia passar á segunda quando a voz, que já lhe tinha fallado, soou de novo, baixa mas ameaçadora.

—Quem vai lá?...

Pery comprehendeu que a sua idéa ia ficar sem effeito, e talvez não servisse senão de apresar o que elle queria evitar.

Não hesitou pois; e quando o aventureiro que fallava erguia-se, sentio duas tenazes vivas que cahião sobre o seu pescoço e o estrangulavão como uma golilha de ferro, antes que podesse soltar um grito.

O indio deitou o corpo hirto sobre o chão sem fazer o menor rumor, e consumou a sua obra; todas as talhas do alpendre esvasiavão-se a pouco e pouco e inundavão o chão.

Dentro de um segundo a frialdade acordaria todos os homens adormecidos, e os obrigaria a sahir do alpendre; era o que Pery esperava.

Livre do maior perigo, o indio rodeou a casa para ver se tudo estava em socego; e teve então occasião de notar que por todo o edificio tinhão Aposto feixes da palha para atear um incendio.

Pery inutilisando estes preparativos, chegou ao canto da casa que ficava defronte de sua cabana; parecia procurar alguem. Ahi ouvio a respiração offegante de um homem cosido com a parede junto do jardim de Cecilia.

O indio tirou a sua faca; a noite estava tão escura que era impossivel descobrir a menor sombra, o menor vulto entre as trevas.

Mas elle conheceu Ruy Soeiro.

Pery tinha o ouvido subtil e delicado, e o faro do selvagem que dispensa a vista; o som da respiração servia-lhe de alvo; escutou um momento, ergueu o braço, e a faca enterrando-se na bocca da victima cortou-lhe a garganta.

Nem um gemido escapou da massa inerte que se estorceu um momento e quedou de encontro ao muro.

Pery apanhou o arco que encostára á parede, e voltando-se para lançar um olhar sobre o quarto de Cecilia, estremeceu.

Acabava de ver pela soleira da porta o reflexo vivo de uma luz; e logo depois sobre a folhagem do oleo um clarão que indicava estar a janella aberta.

Ergueu os braços com um desespero e uma angustia inexprimivel; estava a dous passos de sua senhora e entretanto um muro e uma porta o separavão delia, que talvez áquella hora corria um perigo imminente.

Que ia fazer? Precipitar-se de encontro a essa porta quebra-la, espedaça-la? Mas podia aquella luz não significar cousa alguma, e a janella ter sido aberta por Cecilia.

Este ultimo pensamento tranquillisou-o, tanto mais quando nada revelava a existencia de um perigo, quando tudo estiva em socego no jardim e no quarto da menina.

Lançou-se para a cabana, e segurando-se ás folhas da palmeira galgou o ramo do oleo, e aproximou-se para ver porque sua senhora estava acordada áquella hora.

O espectaculo que se apresentou diante de seus olhos fez correr-lhe um calafrio pelo corpo; a gelosia aberta deixou-lhe ver a menina adormecida, e o italiano que tendo aberto a porta do jardim dirigia-se ao leito.

Um grito de desespero e de agonia ia romper-lhe do seio; mas o indio mordendo os labios com força reprimio a voz, que se escapou apenas n'um som rouco e plangente. Então prendendo-se á arvore com as pernas, o indio estendeu-se ao longo do galho e esticou a corda do arco.

O coração batia-lhe violentamente; e por um momento o seu braço tremeu só com a idéa de que a sua flecha tinha de passar perto de Cecilia.

Quando porém a mão do italiano se adiantou e ia tocar o corpo da menina, não pensou, não viu mais nada senão esses dedos prestes a mancharem com o seu contacto o corpo de sua senhora, não se lembrou senão dessa horrivel profanação.

A flecha partio rapida, prompta, e veloz como o seu pensamento; a mão do italiano estava pregada ao muro.

Foi só então que Pery reflectio que teria sido mais acertado ferir essa mão na fonte da vida que a animava; fulminar o corpo a que pertencia esse braço: a segunda setta partio sobre a primeira, e o italiano teria deixado de existir se a dôr não o obrigára a curvar-se.

VI REVOLTA

Quando Pery acabou de reflectir sobre o que passara ergueu-se, abrio de novo a porta, fechou-a por dentro, e seguio pelo corredor que ia do quarto de Cecilia ao interior da casa.

Estava tranquillo sobre o futuro; sabia que Bento Simões e Ruy Soeiro não o incommodarião mais, que o italiano não lhe podia escapar, e que áquella hora todos os aventureiros devião estar acordados; mas julgou prudente prevenir D. Antonio de Mariz do que occorria.

A este tempo Loredano já tinha chegado á alpendrada, onde o esperava uma nova e terrivel sorpreza, uma ultima decepção.

Lançando-se do quarto de Cecilia, sua intenção era ganhar o fundo da casa, pronunciar a senha convencionada, e senhor do campo voltar com seus complices, raptar a menina, e vingar-se de Pery.

Mal sabia porém que o indio tinha destruido toda a sua machinação; chegando ao pateo viu o alpendre illuminado por fachos, e todos os aventureiros de pé cercando um objecto que não pôde distinguir.

Aproximou-se e descobrio o corpo de seu complice Bento Simões, que jazia no chão alagado do pavimento: o aventureiro tinha os olhos saltados das orbitas, a lingua sahida da bocca, o pescoço cheio de contusões; todos os signaes emfim de uma estrangulação violenta.

De livido que estava o italiano tornou-se verde; procurou com os olhos a Ruy Soeiro e não o viu; decididamente o castigo da Providencia cahia sobre as suas cabeças, conheceu que estava irremediavelmente perdido, e que só a audacia e o desespero o podião salvar.

A extremidade em que se achava inspirou-lhe uma idéa digna delle: ia tirar partido para seus fins daquelle mesmo facto que parecia destrui-los; ia fazer do castigo uma arma de vingança.

Os aventureiros espantados sem comprehenderem o que vião, olhavão-se e murmura vão em voz baixa fazendo supposições sobre a morte do seu companheiro. Uns despertados de sobresalto pela agua que corria das talhas, outros que não dormião apenas admirados, se havião erguido, e no meio de um côro de imprecações e blasphemias acendêrão fachos para ver a causa daquella inundação.

Foi então que descobrirão o corpo de Bento Simões, e ficárão ainda mais surprendidos; os complices temendo que aquillo não fosse um começo de punição, os outros indignados pelo assassinato de seu companheiro.

Loredano percebeu o que passava no espirito dos aventureiros:

—Não sabeis o que significa isto? disse elle.

—Oh! não! explicai-nos! exclamarão os aventureiros.

—Isto significa, continuou o italiano, que ha nesta casa uma vibora, uma serpente que nós alimentamos no nosso seio, e que nos morderá a todos com o seu dente envenenado.

—Como?... Que quereis dizer?... Fallai!...

—Olhai, disse o frade apontando para o cadaver e mostrando a sua mão ferida; eis a primeira victima, e a segunda que escapou por um milagre; a terceira... Quem sabe o que é feito de Ruy Soeiro?

—É verdade!... Onde está Ruy? disse Martim Vaz.

—Talvez morto tambem!

—Depois delle virá outro e outro até que sejamos exterminados um por um; até que todos os christãos tenhão sido sacrificados.

—Mas por quem?... Dizei o nome do vil assassino! É preciso um exemplo! O nome!...

—E não adivinhais? respondeu o italiano. Não adivinhais quem nesta casa póde desejar a morte dos brancos, e a destruição da nossa religião? Quem senão o herege, o gentio, o selvagem traidor e infame?

—Pery?... exclamarão os aventureiros.

—Sim, esse indio que conta assassinar-nos a todos para saciar a sua vingança!

—Não ha de ser assim como dizeis, eu vos juro, Loredano! exclamou Vasco Affonso.

—Bofé! gritou outro, deixai isto por minha conta. Não vos dê cuidado!

—E não passa desta noite. O corpo de Bento Simões pede justiça.

—E justiça será feita.

—Neste mesmo instante.

—Sim; agora mesmo. Eia! Segui-me.

Loredano ouvia estas exclamações rapidas que denunciavão como a exacerbação ia lavrando com intensidade; quando porém os aventureiros quizerão lançar-se em procura do indio, elle os conteve com um gesto.

Não lhe convinha isto; a morte de Pery era cousa accidental para elle; o seu fim principal era outro, e esperava consegui-lo facilmente.

—O que ides fazer? perguntou imperativamente aos seus companheiros.

Os aventureiros ficárão pasmados com semelhante pergunta.

—Ides mata-lo?...

—Mas de certo!

—E não sabeis que não podereis fazê-lo? Que elle é protegido, amado, estimado por aquelles que pouco se importão se morremos ou vivemos?

—Seja embora protegido, quando é criminoso...

—Como vos illudis! Quem o julgará criminoso? Vós? Pois bem; outros o julgarão innocente e o defenderão; e não tereis remedio senão curvar a cabeça e calar-vos.

—Oh! isso é de mais!

—Julgais que somos alimarias que se podem matar impunemente! retrucou Martim Vaz.

—Sois peiores que alimarias; sois escravos!

—Por São Braz, tendes razão, Loredano.

—Vereis morrer vossos companheiros assassinados infamemente, e não podereis vinga-los; e sereis obrigados a tragar até as vossas queixas, porque o assassino é sagrado! Sim, não o podereis tocar, repita.

—Pois bem; eu vo-lo mostrarei!

—E eu! gritou toda a banda.

—Qual é vossa tenção? perguntou o italiano.

—A nossa tenção é pedirmos a D. Antonio de Mariz que nos entregue o assassino de Bento.

—Justo! E se elle recusar, estamos desligados do nosso juramento e faremos justiça pelas nossas mãos.

—Procedeis como homens de brio e pundonor: liguemo-nos todos e vereis que obteremos reparação; mas para isto é preciso firmeza e vontade. Não percamos tempo. Quem de vós se incumbe de ir como parlamentario a D. Antonio?

Um aventureiro dos mais audazes e turbulentos da banda offereceu-se: chamava-se João Feio.

—Serei eu!

—Sabeis o que lhe deveis dizer?

—Oh! ficai descansado. Ouvirá boas!

—Ides já?

—Neste instante.

Uma voz calma, sonora e de grave entonação, uma voz que fez estremecer todos os aventureiros, soou na entrada do alpendre:

—Não é preciso irdes, pois que vim. Aqui me tendes.

D. Antonio de Mariz, calmo e impassivel, adiantou-se até o meio do grupo, e cruzando os braços sobre o peito, volveu lentamente pelos aventureiros o seu olhar severo.

O fidalgo não tinha uma só arma; e entretanto o aspecto de sua physionomia veneravel, a firmeza de sua voz e a altivez de seu gesto nobre bastárão para fazer curvar a cabeça de todos esses homens que ameaçavão.

Advertido por Pery dos acontecimentos que tinhão tido lugar naquelle noite, D. Antonio de Mariz ia sahir, quando apparecérão Alvaro e Ayres Gomes.

O escudeiro, que depois de sua conversa com mestre Nunes tinha adormecido, fôra despertado de repente pelas imprecações e gritos que soltavão os aventureiros quando a agua começou a invadir as esteiras em que esta vão deitados.

Admirado desse rumor extraordinario, Ayres bateu o fuzil, acendeu a vela, e dirigio-se para a porta para conhecer o que pertubava o seu somno: a porta, como sabemos, estava fechada e sem chave.

O escudeiro esfregou os olhos para certificar-se do que via, e acordando Nunes, perguntou-lhe quem tomara aquella medida de precaução: seu amigo ignorava como elle.

Nesse momento ouvia-se a voz do italiano que excitava os aventureiros á revolta; Ayres Gomes percebeu então do que se tratava.

Agarrou mestre Nunes, encostou-o á parede como se fosse uma escada, e sem dizer palavra trepou do catre sobre os seus hombros, e levantando as telhas com a cabeça enfiou por entre as ripas dos caibros.

Apenas ganhou o telhado, o escudeiro pensou no que devia fazer; e assentou que o verdadeiro era dar parte a Alvaro e ao fidalgo, a quem cabia tomar as providencias que o caso pedia.

D. Antonio de Mariz sem se pertubar ouvio a narração do escudeiro, como tinha ouvido a do indio.

—Bem, meus amigos! sei o que me cumpre fazer. Nada de rumor; não perturbemos o socego da casa; estou certo que isto passará. Esperai-me aqui.

—Não posso deixar que vos arrisqueis só, disse Alvaro dando um passo para segui-lo.

—Ficai; vós e esses dous amigos dedicados velareis sobre minha mulher, Cecilia e Isabel. Nas circumstancias em que nos achamos, assim é preciso.

—Consenti ao menos que um de nós vos acompanhe?

—Não, basta a minha presença; emquanto que aqui todo o vosso valor e fidelidade não bastão para o thesouro que confio á vossa guarda.

O fidalgo tomou o seu chapéo, e poucos momentos depois apparecia imprevistamente no meio dos aventureiros, que tremulos, cabisbaixos, corridos de vergonha, não ousavão proferir uma palavra.

—Aqui me tendes! repetio o cavalheiro. Dizei o que quereis de D. Antonio de Mariz, e dizei-o claro e breve. Se fôr de justiça, sereis satisfeitos; se fôr uma falta, tereis a punição que merecerdes.

Nem um dos aventureiros ousou levantar os olhos; todos emmudecêrão.

—Calais-vos?... Passa-se então aqui alguma cousa que não vos atreveis a revelar? Acaso ver-me-hei obrigado a castigar severamente um primeiro exemplo de revolta e desobediencia? Fallai? Quero saber o nome dos culpados!

O mesmo silencio respondeu ás palavras firmes e graves do velho fidalgo.

Loredano hesitava desde o principio desta scena; não tinha a coragem necessaria para apresentar-se em face de D. Antonio; mas tambem sentia que se elle deixasse as cousas marcharem pela maneira por que ião, estava infallivelmente perdido.

Adiantou-se:

—Não ha aqui culpados, Sr. D. Antonio de Mariz, disse o italiano animando-se progressivamente; ha homens que são tratados como cães; que são sacrificados a um capricho vosso, e que estão resolvidos a reivindicarem os seus fóros de homens e de christãos!

—Sim! gritárão os aventureiros reanimando-se. Queremos que se respeite a nossa vida!

—Não somos escravos!

—Obedecemos, mas não nos captivamos.

—Valemos mais que um herege!

—Temos arriscado a nossa existência para defender-vos!

D. Antonio ouvio impassivel todas estas exclamações que ião subindo gradualmente ao tom da ameaça.

—Silencio, vilões! Esqueceis que D. Antonio de Mariz ainda tem bastante força para arrancar a lingua que o pretendesse insultar! Miseraveis, que lembrais o dever como um beneficio! Arriscastes a vossa vida para defender-me?... E qual era vossa obrigação, homens que vendeis o vosso braço e sangue ao que melhor paga. Sim'! Sois menos que escravos, menos que cães, menos que féras! Sois traidores infames e refeces!... Mereceis mais do que a morte; mereceis o desprezo.

Os aventureiros, cuja raiva fermentava surdamente, não se contiverão mais; das palavras de ameaça passárão ao gesto.

—Amigos! gritou Loredano aproveitando habilmente o ensejo. Deixareis que vos insultem atrozmente, que vos cuspão o desprezo na cara? E por que motivo!...

—Não! Nunca! vociferarão os aventureiros furiosos.

Desembainhando as adagas estreitarão o circulo ao redor de D. Antonio de Mariz; era uma confusão de gritos, injurias, ameaças, que corria por todas as boccas, emquanto os braços suspensos hesitavão ainda em lançar o golpe.

D. Antonio de Mariz, sereno, magestoso, calmo, olhava todas essas physionomias decompostas com um sorriso de escarneo; e sempre altivo e sobranceiro, parecia sob os punhaes que o ameaçavão, não a victima que ia ser immolada, mas o senhor que mandava.

VII OS SELVAGENS

Os aventureiros com o punhal erguido ameaçavão; mas não se animavão a romper o estreito circulo que os separava de D. Antonio de Mariz.

O respeito, essa força moral tão poderosa, dominava ainda a alma daquelles homens cegos pela cólera e pela exaltação; todos esperavão que o primeiro ferisse; e nem um tinha a coragem de ser o primeiro.

Loredano conheceu que era necessario um exemplo; o desespero de sua posição, as paixões ardentes que tumultuavão em seu coração, derão-lhe o delirio que suppre o valor nas circumstancias extremas.

O aventureiro apertou convulsivamente o cabo de sua faca, e fechando os olhos e dando um passo ás cegas, ergueu a mão para desfechar o golpe.

O fidalgo com um gesto nobre afastou o seio do gibão, e descobrio o peito; nem um tremor imperceptivel agitou os musculos de seu rosto; sua fronte alta conservou a mesma serenidade; o seu olhar limpido e brilhante não se turvou.

Tal era a influencia magnetica que exercia essa coragem nobre e altiva, que o braço do italiano tremeu, e a ponta do ferro tocando a vestia do fidalgo paralysou os dedos hirtos do assassino.

D. Antonio sorrio com desdem; e abaixando a sua mão fechada sobre o alto da cabeça de Loredano, abateu-o a suas plantas como uma massa bruta e inerte: então erguendo a ponta do pé á fronte do italiano, o estendeu de costas sobre o pavimento.

O baque do corpo no chão echoou no meio de um silencio profundo; todos os aventureiros, mudos e estaticos, parecião querer sumir-se pelo seio da terra.

—Abaixai as armas, miseraveis! O ferro que ha de ferir o peito de D. Antonio de Mariz não será manchado pela mão cobarde e traiçoeira de vis assassinos! Deus reserva uma morte justa e gloriosa áquelles que vivêrão uma vida honrada!

Os aventureiros aturdidos embainhárão machinalmente os punhaes; aquella palavra sonora, calma e firme tinha um accento tão imperativo, uma tal força de vontade, que era impossivel resistir.

—O castigo que vos espera ha de ser rigoroso; não deveis contar com a clemencia nem com o perdão: quatro d'entre vós á sorte soffrerão a pena de homizio; os outros farão o officio dos executores da alta justiça. Bem vêdes que tanto a pena como o officio são dignos de vós!

O fidalgo pronunciou estas palavras com um soberano desprezo, e encarou os aventureiros como para ver se d'entre elles partia alguma reclamação, algum murmurio de desobediencia; mas todos esses homens, ha pouco furiosos, estavão agora humildes, e cabisbaixos.

—Dentro de uma hora, continuou o cavalheiro apontando para o corpo de Loredano, este homem será justiçado á frente da banda; para elle não ha julgamento; eu o condemno como pai, como chefe, como um homem que mata o cão ingrato que o morde. É ignobil de mais para que o toque com as minhas armas; entrego-o ao baraço e ao cutelo.

Com a mesma impassibilidade e o mesmo socego que conservava desde o momento em que apparecêra imprevistamente, o velho fidalgo atravessou por entre os aventureiros immoveis e respeitosos, e caminhou para a sahida.

Ahi voltou-se; e levando a mão ao chapéo descobrio a sua bella cabeça encanecida, que destacava sobre o fundo negro da noite e no meio do clarão avermelhado das tochas com um vigor de colorido admiravel.

—Se algum de vós der o menor signal de desobediencia; se uma das minhas ordens não fôr cumprida prompta e fielmente; eu, D. Antonio de Mariz, vos juro por Deus e pela minha honra, que desta casa não sahirá um homem vivo. Sois trinta; mas a vossa vida, de todos vós, tenho-a na minha mão; basta-me um movimento para exterminar-vos, e livrar a terra de trinta assassinos.

No momento em que o fidalgo ia retirar-se appareceu Alvaro pallido de emoção, mas brilhante de coragem e indignação.

—Quem se animou aqui a erguer a voz para D. Antonio de Mariz? exclamou o moço.

O velho fidalgo sorrindo com orgulho pôz a mão no braço do cavalheiro.

—Não vos occupeis disto, Alvaro; sois bastante nobre para vingar uma affronta desta natureza, e eu bastante superior para não ser offendido por ella.

—Mas, senhor, cumpre que se dê um exemplo!

—O exemplo vai ser dado, e como cumpre. Aqui não ha senão culpados e executores da pena. O lugar não vos compete. Vinde!

O moço não resistio, e acompanhou D. Antonio de Mariz, que se dirigio lentamente á sala, onde achou Ayres Gomes.

Quanto a Pery, voltára ao jardim de Cecilia, decidido a defender sua senhora contra o mundo inteiro.

O dia vinha rompendo.

O fidalgo chamou Ayres Gomes e entrou com elle no seu gabinete de armas, onde tiverão uma longa conferencia de meia hora.

O que ahi se passou ficou um segredo entre Deus e estes dous homens; apenas Alvaro notou, quando a porta do gabinete se abrio, que D. Antonio estava pensativo, e o escudeiro livido como um morto.

Neste momento ouvio-se um pequeno rumor na entrada da sala; quatro aventureiros parados, immoveis, esperavão uma ordem do fidalgo para se aproximarem.

D. Antonio fez-lhes um signal; e elles vierão ajoelhar-se a seus pés; as lagrimas rolavão por essas faces queimadas pelo sol; e a palavra tremia balbuciando nesses labios pallidos que ha instantes vomitavão ameaças:

—Que significa isto? perguntou o cavalheiro com severidade.

Um dos aventureiros respondeu:

—Vimo-nos entregar em vossas mãos, preferimos appellar para o vosso coração do que recorrer ás armas para escaparmos á punição de nossa falta.

—E vossos companheiros? replicou o fidalgo.

—Deus lhes perdoe, senhor, a enormidade do crime que vão commetter. Depois que vos retirastes tudo mudou; preparão-se para atacar-vos!

—Que venhão, disse D. Antonio, eu os receberei. Mas vós porque não os acompanhais? Não sabeis que D. Antonio de Mariz perdoa uma falta, mas nunca uma desobediencia?

—Embora, disse o aventureiro que fallava em nome de seus camaradas; aceitaremos de bom grado o castigo que nos impozerdes. Mandai, que obedeceremos. Somos quatro contra vinte e tantos; dai-nos essa punição de morrer defendendo-vos, de reparar pela nossa morte um momento de hallucinação!... É a graça que vos pedimos!

D. Antonio olhou admirado os homens que estavão ajoelhados a seus pés; e reconheceu nelles os restos dos seus antigos companheiros de armas no tempo em que o velho fidalgo combatia os inimigos de Portugal.

Sentio-se commovido; sua alma grande, inabalavel no meio do perigo, orgulhosa em face da ameaça, deixava-se facilmente dominar pelos sentimentos nobres e generosos.

Essa prova de fidelidade que davão aquelles quatro homens na occasião da revolta geral dos seus companheiros; a acção que acabavão de praticar, e o sacrificio com que desejavão expiar a sua falta, elevou-os no espirito do fidalgo.

—Erguei-vos. Reconheço-vos!... Já não seis os traidores que ha pouco reprehendi; sois os bravos companheiros que pelejastes a meu lado; o que fazeis agora esquece o que fizestes ha uma hora. Sim!... Mereceis que morramos juntos, combatendo ainda uma vez na mesma fileira. D. Antonio de Mariz vos perdoa. Podeis levantar a cabeça e trazê-la alta!

Os aventureiros erguêrão-se radiantes do perdão que o nobre fidalgo tinha lançado sobre suas cabeças; todos elles estavão promptos a dar sua vida para salvarem o seu chefe.

O que tinha occorrido depois da sahida de D. Antonio do alpendre, seria longo de descrever.

Loredano tornando a si da vertigem que lhe causara o atordoamente e a violencia da queda, soube da ordem que havia a seu respeito. Não era preciso tanto para que o audaz aventureiro recorresse á sua eloquencia afim de excitar de novo a revolta.

Pintou a posição de todos como desesperada, attribuio o seu castigo e as desgraças que ião succeder ao fanatismo que havia por Pery; esgotou emfim os recursos de sua intelligencia.

D. Antonio não estava mais ahi para conter com a sua presença a colera que ia fermentando, a excitação que começava a lavrar, a principio surdamente, as queixas e os murmurios que a final fizerão côro.

Um incidente veio atear a chamma que lastrava; Pery, apenas começou a romper o dia, via a alguma distancia do jardim o cadaver do Ruy Soeiro; e temendo que sua senhora acordando não presenciasse este triste espectaculo, tomou o corpo, e atravessando a esplanada, veio atira-lo no meio do pateo.

Os aventureiros empallidecêrão, e ficárão estupefactos; depois rompeu a indignação feroz, raivosa, delirante; estavão como possessos de furor e vingança. Não houve mais hesitação; a revolta pronunciou-se; apenas o pequeno grupo de quatro homens que desde a sabida de D. Antonio se conservava em distancia, não tomou parte na insubordinação.

Ao contrario quando virão que seus companheiros com Loredano á frente se preparavão para atacar o fidalgo, forão, como vimos, offerecer-se voluntariamente ao castigo, e reunir-se ao seu chefe para partilharem a sua sorte.

Pouco tardou que João Feio não se apresentasse como parlamentario da parte dos revoltosos; o fidalgo não o deixou fallar.

—Dize a teus companheiros, rebelde, que D. Antonio de Mariz manda e não discute condições: que elles estão condemnados; e verão se sei ou não cumprir o meu juramento.

O fidalgo tratou então de dispôr os seus meios de defeza; apenas podia contar com quatorze combatentes; elle, Alvaro, Pery, Ayres Gomes, mestre Nunes com os seus companheiros, e os quatro homens que se havião conservado fieis; os inimigos erão em numero de vinte e tantos.

Toda a sua familia já então despertada recebeu a triste sorpreza de tantos acontecimentos passados durante aquella noite fatal: D. Lauriana, Cecilia e Isabel recolhêrão-se ao oratorio, e rezavão emquanto se preparava tudo para uma resistencia desesperada.

Os aventureiros commandados por Loredano arregimentárão-se, e marchárão para a casa dispostos a dar um assalto terrivel; o seu furor redobrava tanto mais, quanto o remorso no fundo da consciencia começava a mostrar-lhes toda a hediondez de sua acção.

No momento em que dobra vão o canto ouvio-se um som rouco que se prolongou pelo espaço, como o echo surdo de um trovão em distancia.

Pery estremeceu, e lançando-se para a beira da esplanada estendeu os olhos pelo campo que costeava a floresta. Quasi ao mesmo tempo um dos aventureiros que estava ao lado de Loredano cahio traspassado por uma flecha.

—Os Aymorés!...

Apenas soltou Pery esta exclamação, uma linha movediça, longo arco de côres vivas e brilhantes, agitou-se ao longe na planicie, irradiando á luz do sol nascente.

Homens quasi nús, de estatura gigantesca e aspecto feroz, coberto de pelles de animaes e pennas amarellas e escarlates, armados de grossas clavas e arcos enormes, avançavão soltando gritos medonhos.

A inubia retroava; o som dos instrumentos de guerra misturado com os brados e alaridos formavão um concerto horrivel, harmonia sinistra que revelava os instinctos dessa horda selvagem reduzida á brutalidade das féras.

—Os Aymorés!... repetirão os aventureiros empallidecendo.

VIII DESANIMO

Dous dias passárão depois da chegada dos Aymorés; a posição de D. Antonio de Mariz e de sua familia era desesperada.

Os selvagens tinhão atacado a casa com uma força extraordinaria; diante delles a india terrivel de odio os excitava á vingança.

As settas escurecendo o ar abatião-se como uma nuvem sobre a esplanada, e crivavão as portas e as paredes do edificio.

Á vista do perigo imminente que corrião todos, os aventureiros revoltados retirárão-se e tratárão de defender-se do ataque dos selvagens.

Houve como que um armisticio entre os rebeldes e o fidalgo; sem se reunirem, os aventureiros conhecerão que devião combater o inimigo commum, embora depois levassem ao cabo a sua revolta.

D. Antonio de Mariz, encastellado na parte da casa que habitava, rodeado de sua familia e de seus amigos fieis, resolvêra defender até á ultima extremidade esses penhores confiados ao seu amor de esposo e de pai.

Se a Providencia não permittisse que um milagre os viesse salvar, morrerião todos; mas elle contava ser o ultimo, afim de velar que mesmo sobre os seus despojos não atirassem um insulto.

Era o seu dever de pai, e o seu dever de chefe, como o capitão que é o ultimo a abandonar o seu navio, elle seria o ultimo a abandonar a vida, depois de ter assegurado ás cinzas dos seus o respeito que se deve aos mortos.

Bem mudada estava essa casa que vimos tão alegre e tão animada! Parte do edificio que tocava com o fundo onde habitavão os aventureiros tinha sido abandonada por prudencia; D. Antonio concentrara sua familia no interior da habitação para evitar algum accidente.

Cecilia deixara o seu quartinho tão lindo e tão mimoso, e nelle estabelecêra Pery o seu quartel-general e o seu centro de operações; porque, é preciso dizer, o indio não partilhava o desanimo geral, e tinha uma confiança inabalavel nos seus recursos.

Serião dez horas da noite: a lampada de prata suspensa no tecto da grande sala illuminava uma scena triste e silenciosa.

Todas as janellas e portas estavão fechadas; de vez em quando ouvia-se o estrepito que fazia uma setta cravando-se na madeira, ou enfiando-se por entre as telhas.

Nas duas extremidades da sala e na frente tinhão-se praticado no alto da parede algumas setteiras, junta das quaes os aventureiros fazião a noite uma sentinella constante, afim de prevenir uma sorpreza.

D. Antonio de Mariz, sentado n'uma cadeira de espaldar, sob o docel, repousava um instante; o dia fôra rude; os indios tinhão investido por differentes vezes a escada de pedra da esplanada; e o fidalgo com o pequeno numero de combatentes de que dispunha e com o auxilio da colubrina conseguira repelli-los.

A sua clavina carregada descansava de encontro ao espaldar da cadeira; e as suas pistolas estavão collocadas em cima de um bufete ao alcance do braço.

Sua bella cabeça encanecida pendida ao seio resaltava sobre o velludo preto de seu gibão, coberto por uma rede finissima de malhas d'aço que lhe guarnecia o peito.

Parecia adormecido, mas de vez em quando erguia os olhos e corria o vasto aposento, contemplando com uma melancolia extrema a scena que se desenhava no fundo meio esclarecido da sala.

Depois voltava á mesma posição, e continuava suas dolorosas reflexões; o fidalgo conservava toda a firmeza e coragem, mas interiormente tinha perdido a esperança.

Do lado opposto Cecilia recostada em um sofá parecia desfallecida; seu rosto perdera a habitual vivacidade: seu corpo ligeiro e gracioso, alquebrado por tantas emoções, prostrava-se com indolencia sobre uma colcha de damasco. A mãozinha cahia immovel como uma flôr a que tivessem quebrado a haste delicada; e os labios descorados agitavão-se ás vezes murmurando uma prece.

De joelhos á beira do sofá, Pery não tirava os olhos de sua senhora; dir-se-hia que aquella respiração branda que fazia ondular os seios da menina, e que se exhalava de sua bocca entreaberta, era o sopro que alimentava a vida do indio.

Desde o momento da revolta não deixou mais Cecilia; segui-a como uma sombra; sua dedicação, já tão admiravel, tinha tocado o sublime com a imminencia do perigo. Durante estes dous dias elle havia feito cousas incriveis, verdadeiras loucuras de heroismo e abnegação.

Succedia que um selvagem aproximando-se da casa soltava um grito que vinha causar um ligeiro susto á menina?

Pery lançava-se como um raio, e antes que tivessem tempo de contê-lo, passava entre uma nuvem de flechas, chegava á beira da esplanada, e com um tiro de sua clavina abatia o Aymoré que assustára sua senhora, antes que elle tivesse tempo de soltar um segundo grito.

Cecilia, afflicta e doente, recusava tomar o alimento que sua mãi ou sua prima lhe trazião?

Pery correndo mil perigos, arriscando-se a despedaçar-se nas pontas dos rochedos e a ser crivado pelas flechas dos selvagens, ganhava a floresta, e d'ahi a uma hora voltava trazendo um fructo delicado, um favo de mel envolto de flôres, uma caça exquisita, que sua senhora tocava com os labios para assim pagar ao menos tanto amor e tanta dedicação.

As loucuras do indio chegárão a ponto que Cecilia foi obrigada a prohibir-lhe que sahisse de junto della, e a guarda-lo á vista com receio de que não se fizesse matar a todo o momento.

Além da amizade que lhe tinha, um quer que seja, uma esperança vaga lhe dizia que na posição extrema em que se achavão, se alguma salvação podia haver para sua familia, seria á coragem, á intelligencia e á sublime abnegação de Pery que a deverião.

Se elle morresse, quem velaria sobre ella com a solicitude e o ardente zelo que tinha ao mesmo tempo o carinho de uma mãi, a protecção de um pai, a meiguice de um irmão? Quem seria seu anjo da guarda para livra-la de um pezar, e ao mesmo tempo seu escravo para satisfazer o seu menor desejo?

Não; Cecilia não podia de modo algum admittir nem a possibilidade de que seu amigo viesse a morrer; por isso mandou, pedio, e até supplicou-lhe que não sahisse de junto della; queria por sua vez ser para Pery o bom anjo de Deus, o seu genio protector.

Do mesmo lado em que estava Cecilia, mais n'um outro canto da sala, via-se Isabel sentada de encontro á hombreira da janella; enfiava um olhar ardente, cheio de anciedade e de susto por uma pequena fresta, que ella entreabrira a furto.

O raio de luz que filtrava por esta aberta da janella servia de mira aos indios, que fazião chover settas sobre settas naquella direcção: mas Isabel, alheia de si, nem se importava com o perigo que corria.

Ella olhava Alvaro, que no alto da escada com a maior parte dos aventureiros fieis fazia a guarda nocturna; o moço passeava pela esplanada ao abrigo de uma ligeira palissada. Cada setta que passava por sua cabeça, cada movimento que fazia, causavão em Isabel uma afflicção immensa; sentia não poder estar junto delle para ampara-lo, e receber a morte que lhe fosse destinada.

D. Lauriana, sentada em um dos degráos do oratorio, rezava: a boa senhora era uma das pessoas que mais coragem e mais calma mostravão no transe horrivel em que se achava a familia; animada pela sua fé religiosa e pelo sangue nobre que gyrava nas suas veias, ella se tinha conservado digna de seu marido.

Fazia tudo quanto era possivel; pensava os feridos, encorajava as meninas, auxiliava os preparativos de defeza, e ainda em cima dirigia sua casa como se nada se passasse.

Ayres Gomes encostado á porta do gabinete, com os braços cruzados, e immovel, dormia; o escudeiro guardava o posto que lhe fôra confiado pelo fidalgo. Desde a conferencia que os dous tinhão tido, Ayres se postára naquelle lugar, donde não sabia senão quando D. Antonio vinha sentar-se na cadeira que havia junto da porta.

Dormia de pé; porém mal um passo, por mais subtil que fosse, soava no pavimento, acordava sobresaltado, com a pistola em punho, e a mão sobre o fecho da porta.

D. Antonio de Mariz levantou-se, e passando á cinta as suas pistolas e tomando a sua clavina, dirigio-se ao sofá onde repousava sua filha, e beijou-a na fronte; fez o mesmo a Isabel, abraçou sua mulher e sahio. O fidalgo ia render a Alvaro, que fazia o seu quarto desde o anoitecer; poucos momentos depois de sua sahida, a porta abrio-se de novo, e o cavalheiro entrou.

Alvaro trajava um gibão de lã forrado de escarlate; quando elle appareceu no vão da porta, Isabel soltou um grito fraco, e correu para elle.

—Estais ferido? perguntou a moça com anciedade, e tomando-lhe as mãos.

—Não; respondeu o moço admirado.

—Ah!... exclamou Isabel respirando.

Tinha-se illudido; o rasgão que uma flecha fizera sobre o hombro mostrando o forro escarlate do gibão, tinha de repente lhe parecido uma ferida.

Alvaro procurou desprender suas mãos das mãos de Isabel; mas a moça supplicando-o com o olhar, e arrastando-o docemente, levou-o até o lugar onde estava ha pouco, e obrigou o cavalleiro a sentar-se junto della.

Muitos acontecimentos se tinhão passado entre elles nestes dous dias; ha circumstancias em que os sentimentos marchão com uma rapidez extraordinaria, e devorão mezes e annos n'um só minuto.

Reunidos nesta sala pela necessidade extrema do perigo, vendo-se a cada momento, trocando ora uma palavra, ora um olhar, sentindo-se emfim perto um do outro, esses dous corações, se não se amavão, comprehendião-se ao menos.

Alvaro fugia e evitava Isabel; tinha medo desse amor ardente que o envolvia n'um olhar, dessa paixão profunda e resignada que se curvava a seus pés sorrindo melancolicamente, sentia-se fraco para resistir, e entretanto o seu dever mandava que resistisse.

Elle amava, ou cuidava amar ainda a Cecilia; promettêra a seu pai ser seu marido; e na situação em que se achavão, aquella promessa era mais do que um juramento, era uma necessidade imperiosa, uma fatalidade que se devia cumprir.

Como podia elle pois alimentar uma esperança de Isabel? Não seria infame, indigno, aceitar o amor que ella lhe offerecêra supplicando? Não era seu dever destruir naquelle coração esse sentimento impossivel?

Alvaro pensava assim, e evitava todas as occasiões de estar só com a moça, porque conhecia a impressão vehemente, a attracção poderosa que exercia essa belleza fascinadora quando a paixão, animando-a, cercava-a de um brilho deslumbrante.

Dizia a si mesmo que não amava, que nunca amaria Isabel! entretanto sabia que se elle a visse outra vez como no momento em que lhe confessara seu amor, cahiria de joelhos a seus pés, e esqueceria o dever, a honra, tudo por ella.

A luta era terrivel; mas a alma nobre do cavalheiro não cedia, e combatia heroicamente: podia ser vencida, mas depois de ter feito o que fosse possivel ao homem para conservar-se fiel á sua promessa.

O que tornava a luta ainda mais violenta era que Isabel não o perseguia com o seu amor; depois daquella primeira hallucinação concentrava-se, e resignada amava sem esperança de nunca ser amada.

IX ESPERANÇA

Sentando-se junto da moça, Alvaro sentio a sua coragem vacillar.

—Que me quereis, Isabel? perguntou elle com a voz um pouco tremula.

A menina não respondeu; estava embebida a contemplar o moço; saciava-se de olha-lo, de senti-lo junto de si, depois de ter soffrido a angustia de ver a morte roçando a sua cabeça, e ameaçando a sua vida.

É preciso amar para comprehender essa voluptuosidade do olhar que se repousa sobre o objecto amado, que não se cansa de ver aquillo que está impresso na imaginação, mas que tem sempre um novo encanto.

—Deixai-me olhar-vos! respondeu Isabel supplicando. Quem sabe! Talvez seja pela ultima vez!

—Porque essas idéas tristes? disse Alvaro com brandura. A esperança ainda não está de todo perdida.

—Que importa?... exclamou a moça. Ainda ha pouco vos vi de longe que passeáveis sobre a esplanada, e a cada momento me parecia que uma setta vos tocava, vos feria e...

—Como!... Tivestes a imprudencia de abrir a janella?...

O moço voltou-se, e estremeceu vendo a janella entreaberta, crivada da parte exterior pelas settas dos selvagens.

—Meu Deus!... exclamou elle, porque expondes assim a vossa vida, Isabel?...

—Que vale a minha vida, para que a conserve? disse a moça animando-se. Tem ella algum prazer, alguma ventura, que me prenda? De que serviria a existencia se não fosse para satisfazer um impulso de nossa alma? A minha felicidade é acompanhar-vos com os olhos e com o pensamento. Se esta felicidade me deve custar a vida, embora!...

—Não falleis assim, Isabel, que me partis a alma.

—E como quereis que falle? Mentir-vos é impossivel; depois daquelle dia, em que trahi o meu segredo, de escravo que elle era, tornou-se senhor, senhor despotico e absoluto. Sei que vos faço soffrer...

—Nunca disse semelhante cousa!

—Sois bastante generoso para dizê-lo, mas sentis. Eu conheço, eu leio nos vossos menores movimentos. Vós me estimais talvez como irmão, mas fugis de mim, e tendes receio que Cecilia pense que me amais; não é verdade?

—Não, exclamou Alvaro insensivelmente; tenho receio, tendo medo... mas é de amar-vos!

Isabel sentio uma commoção tão violenta, ouvindo as palavras rapidas do moço, que ficou como extatica sem fazer um movimento; as palpitações fortes do seu coração a suffocavão.

Alvaro não estava menos commovido; subjugado por aquelle amor ardente, impressionado pela abnegação da menina que expunha sua vida só para acompanha-lo de longe com um olhar e protegê-lo com a sua solicitude, tinha deixado escapar o segredo da luta que se passava em sua alma.

Mas apenas pronunciara aquellas palavras imprudentes, conseguio dominar-se, e tornando-se frio e reservado, fallou a Isabel em um tom grave.

—Sabeis que amo Cecilia; mas ignorais que prometti a seu pai ser seu marido. Emquanto elle por sua livre vontade não me desligar de minha promessa, estou obrigado a cumpri-la. Quanto ao meu amor, este me pertence, e só a morte me pode desligar delle. No dia em que eu amasse outra mulher, que não ella, me condemnaria a mim mesmo como um homem desleal.

O moço voltou-se para Isabel com um triste sorriso:

—E comprehendeis o que faz um homem desleal que tem ainda a consciencia precisa para se julgar a si?

Os olhos da moça brilhárão com um fogo sinistro:

—Oh! comprehendo!... É o mesmo que faz a mulher que ama sem esperança, e cujo amor é um insulto ou um soffrimento para aquelle a quem ama!

—Isabel!... exclamou Alvaro estremecendo.

—Tendes razão! Só a morte póde desligar de um primeiro e santo amor aos corações como os nossos!

—Deixai-vos dessas idéas, Isabel! Crede-me; uma unica razão póde justificar semelhante loucura.

—Qual? perguntou Isabel.

—A deshonra.

—Ha ainda outra, respondeu a moça com exaltação; outra menos egoista, mas tão nobre como esta; a felicidade daquelles que se ama.

—Não vos comprehendo.

—Quando se sabe que se pôde ser uma causa de desgraça para aquelles que se estima, melhor é desatar o unico laço que nos prende á vida do que vê-lo despedaçar-se. Não dizieis que tendes medo de amar-me? Pois bem, agora sou eu que tenho medo de ser amada.

Alvaro não soube o que responder: estava n'uma terrivel agitação: conhecia Isabel, e sabia que força tinhão aquellas palavras ardentes que soltavão os labios da moça.

—Isabel! disse elle tomando-lhe as mãos. Se me tendes alguma affeição, não me recuseis a graça que vou pedir-vos. Repelli esses pensamentos! Eu vos supplico!

A moça sorrio-se melancolicamente:

—Vós me supplicais?... Me pedis que conserve esta vida que recusastes!... Não é ella vossa? Aceitai-a; e já não tereis que supplicar!

O olhar ardente de Isabel fascinava; Alvaro não se pôde mais conter; ergueu-se; e reclinando-se ao ouvido da moça balbuciou:

—Aceito!...

Emquanto Isabel, pallida de emoção e felicidade, duvidava ainda da voz que resoava no seu ouvido, o moço tinha sahido da sala.

Durante que Alvaro e Isabel conversavão á meia voz, Pery continuava a contemplar sua senhora.

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