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O Guarany, romance brazileiro, Vol. 2 (of 2)

TERCEIRA PARTE OS AYMORÉS (continued 2)

Reading edition

O indio estava pensativo: e via-se que uma idéa o preoccupava, e absorvia toda a sua attenção.

Por fim levantou-se, e lançando um ultimo olhar repassado de tristeza a Cecilia, encaminhou-se lentamente para a porta da sala.

A menina fez um ligeiro movimento e levantou a cabeça:

—Pery!...

Elle estremeceu, e voltando foi de novo ajoelhar-se junto do sofá.

—Tu me promette não deixar tua senhora! disse Cecilia com uma doce exprobação.

—Pery quer te salvar.

—Como?

—Tu saberás. Deixa Pery fazer o que tem no pensamento.

—Mas não correrás nem um perigo?

—Porque perguntas isto, senhora? disse o indio timidamente.

—Porque?... exclamou Cecilia levantando-se com vivacidade. Porque se para nos salvar é preciso que tu morras, eu rejeito o teu sacrificio, rejeito-o em meu nome e no de meu pai.

—Socega, senhora; Pery não teme o inimigo; sabe o modo de vencê-lo.

A menina abanou a cabeça com ar incredulo.

—Elles são tantos!...

O indio sorrio com orgulho.

—Sejão mil; Pery vencerá a todos; aos indios e aos brancos.

Elle pronunciou estas palavras com a expressão de naturalidade e ao mesmo tempo de firmeza que dá a consciencia da força e do poder.

Comtudo Cecilia não podia acreditar o que ouvia; parecia-lhe inconcebivel que um homem só, embora tivesse a dedicação e o heroismo do indio, podesse vencer não só os aventureiros revoltados, como os duzentos guerreiros Aymorés que assaltavão a casa.

Mas ella não contava com os recursos immensos de que dispunha essa intelligencia vigorosa, que tinha ao seu serviço um braço forte, um corpo agil, e uma destreza admiravel; não sabia que o pensamento é a arma mais poderosa que Deus deo ao homem, e que com ella se abatem os inimigos, se quebra o ferro, se doma o fogo, e se vence por essa força irresistivel e providencial que manda ao espirito dominar a materia.

—Não te illudas; vais fazer um sacrificio inutil. Não é possivel que um homem só vença tantos inimigos ainda mesmo que este homem seja Pery.

—Tu verás! respondeu o indio com segurança.

—E quem te dará força para lutar contra um poder tão grande?...

—Quem?... Tu senhora, tu só, respondeu o indio fitando nella o seu olhar brilhante.

Cecilia sorrio, como devem sorrir os anjos.

—Vai, disse ella, vai salvar-nos. Mas lembra-te que se tu morreres, Cecilia não aceitará a vida que lhe deres.

Pery ergueu-se.

—O sol que se levantar amanhã será o ultimo para todos os teus inimigos; Ceci poderá sorrir como dantes, e ficar alegre e contente.

A voz do indio tornou-se tremula; sentindo que não podia vencer a emoção atravessou rapidamente a sala e sahio.

Chegando á esplanada Pery olhou as estrellas que começavão a apagar-se, e viu que o dia pouco tardaria a raiar: não tinha tempo a perder.

Qual era o projecto que havia concebido, e que lhe dava uma certeza e uma convicção profunda a respeito do seu resultado? Que meio ousado tinha ella para contar com a destruição dos inimigos, e salvação de sua senhora?

Fôra difficil adivinhar; Pery guardava no fundo do coração esse segredo impenetravel, e nem a si mesmo o dizia com receio de trahir-se, e de annullar o effeito, que esperava com uma confiança inabalavel.

Tinha todos os inimigos na sua mão; e bastava-lhe um pouco de prudencia para fulmina-los a todos como a colera celeste, como o fogo de raio.

Pery dirigio-se ao jardim e entrou no quarto de Cecilia, então abandonado por sua senhora, por causa da proximidade em que ficava do fundo da casa occupado pelos aventureiros revoltados.

O quarto estava ás escuras: mas a tenue claridade que entrava pela janella bastava ao indio para distinguir os objectos perfeitamente; a perfeição dos sentidos é um dom que os selvagens possuem no mais alto gráo.

Elle tomou suas armas uma a uma, beijou as pistolas que Cecilia lhe havia dado e deitou-as no chão no meio do aposento, tirou os seus ornatos de pennas, sua faxa de guerreiro, a pluma brilhante do seu cocar e lançou-os como um tropheo sobre as suas armas.

Depois agarrou o seu grande arco de guerra, apertou-o ao seio e curvando-o de encontro ao joelho quebrou-o em duas metades, que forão juntar-se ás armas e aos ornatos.

Por algum tempo Pery contemplou com um sentimento de dôr profunda esses despojos de sua vida selvagem; esses emblemas de sua dedicação sublime por Cecilia, e de seu heroismo admiravel.

Em luta com essa emoção poderosa, insensivelmente murmurou na sua lingua algumas destas palavras que a alma manda aos labios nos momentos supremos:

—Arma de Pery, companheira e amiga, adeus! Teu senhor te abandona e te deixa: comtigo elle venceria; comtigo ninguem poderia vencê-lo. E elle quer ser vencido...

O indio levou a mão ao coração:

—Sim!... Pery, filho de Ararê, primeiro de sua tribu, forte entre os fortes, guerreiro goytacaz, nunca vencido, vai succumbir na guerra. A arma de Pery não pode ver seu senhor pedir a vida ao inimigo; o arco de Ararê, já quebrado, não salvará o filho.

Sua cabeça altiva e sobranceira emquanto pronunciava estas palavras cahio-lhe sobre o seio; por fim venceu a sua emoção, e cingindo nos seus braços esse tropheo de suas armas e de suas insignias de guerra, estreitou-as ao peito em um ultimo abraço de despedida.

Um aroma agreste das plantas que começavão a se abrir com a aproximação do dia, avisou-lhe que a noite estava a acabar.

Quebrou a axorca de fructos que trazia na perna sobre a artelho, como todos os selvagens: este ornato era feito de pequenos cocos ligados por um fio, e tingidos de amarello.

Pery tomou dous destes fructos, e partio-os com a faca, sem comtudo separar as cascas; fechando-os então na sua mão, levantou o braço como fazendo um desafio ou uma ameaça terrivel e lançou-se fora do aposento.

X A BRECHA

Quando Pery entrou no quarto de Cecilia, Loredano passeava do outro lado da esplanada, em frente do alpendre.

O italiano reflectia sobre os acontecimentos que havião passado nos ultimos dias, sobre as vicissitudes que corrêra a sua vida e a sua fortuna.

Por differentes vezes tinha posto o pé sobre o tumulo; tinha tocado a sua ultima hora; e a morte fugira delle, e o respeitára. Tambem por differentes vezes havia encarado a felicidade, o poder, a fortuna; e tudo se esvaecêra como um sonho.

Quando á frente dos aventureiros revoltados ia atacar a D. Antonio de Mariz que não lhe podia resistir, os Aymorés tinhão apparecido de repente e mudado a face das cousas.

A necessidade da defeza contra o inimigo commum trouxe uma suspensão de hostilidades; acima da ambição estava o instincto da vida e da conservação. A luta de interesses e de odios cedeu á grande luta das raças inimigas.

Por isso no primeiro ataque dos selvagens, todos por um movimento espontaneo tratárão de repellir o inimigo, e de salvar a casa da ruina que a ameaçava. Depois separárão-se de novo, e sempre observando-se, sempre promptos a defenderem-se um do outro, os dous grupos continuárão a repellir os indios com a maior coragem.

No meio disto porém Loredano, que se constituîra o chefe da revolta, não abandonava o seu projecto de apoderar-se de Cecilia, e vingar-se de D. Antonio de Mariz e de Alvaro.

Seu espirito tenaz trabalhava incessantemente procurando o meio de chegar áquelle resultado; atacar abertamente o fidalgo era uma loucura que não podia commetter. A menor luta que houvesse entre elles, entregava-os todos aos selvagens, que excitados pela vingança e pelos seus instinctos sanguinarios e ferozes, atacavão o edificio sem repouso e sem descanso.

A unica barreira que continha os Aymorés era a posição inexpugnavel da casa, assentada sobre um rochedo, apenas accessivel por um ponto, pela escada de pedra que descrevêmos no primeiro capitulo desta historia.

Esta escada era defendida por D. Antonio de Mariz e pelos seus homens; a ponte de madeira tinha sido destruida; mas apezar disto os selvagens a substituirião facilmente se não fosse a resistencia desesperada que o fidalgo oppunha aos seus ataques.

Desde o momento pois que, impellido pelo seu amor, D. Antonio corresse em defeza de sua familia, e abandonasse a escada, os duzentos guerreiros Aymorés se precipitarião sobre a casa, e não havia coragem que lhes podesse resistir.

O italiano, que comprehendia isto, estava bem longe de tentar o menor ataque a peito descoberto; a prudencia o aconselhava então como o tinha aconselhado no dia do primeiro assalto.

O que elle procurava era um meio de, sem estrepito, sem luta, imprevistamente, fazer morrer D. Antonio de Mariz, Pery, Alvaro, e Ayres Gomes; feito isto os outros se reunirião a elle pela necessidade da defeza, e pelo instincto da conservação.

Tornar-se-hia então senhor da casa; ou repellia os indios, salvava Cecilia, se realisava todos os seus sonhos de amor e de felicidade; ou morria tendo ao menos esgotado até ao meio a taça do prazer que seus labios nem sequer havião tocado.

Era impossivel que esse espirito satanico, fixando-se em uma idéa durante tres dias, não tivesse conseguido achar um meio para a consummação desse novo crime que planejara.

Não só o tinha achado, mas já havia começado a pô-lo em pratica; tudo o protegia, até mesmo o inimigo que o deixava em repouso, atacando unicamente o lado da casa protegido por D. Antonio de Mariz.

Passeava pois embalando-se de novo nas suas esperanças, quando Martim Vaz, sahindo do alpendre, chegou-se a elle.

—Uma com que não contávamos!... disse o aventureiro.

—O que? perguntou o italiano com vivacidade.

—Uma porta fechada.

—Abre-se!

—Não com essa facilidade.

—Veremos.

—Está pregada por dentro.

—Terão presentido?...

—Foi a idéa que já tive.

Loredano fez um gesto de desespero.

—Vem!

Os dous encaminhárão-se para o alpendre, onde dormião os aventureiros armados, promptos ao menor signal de ataque.

O italiano acordou João Feio, e por precaução mandou-o fazer a guarda na esplanada, apezar de não haver receio que os selvagens atacassem do seu lado.

O aventureiro, ainda tonto do somno, ergueu-se e sahio.

Loredano e seu companheiro caminhárão para uma sala interior que servia de cozinha e despensa a esta parte da casa. Quando ião entrar, a luz que o aventureiro levava na mão para esclarecer o caminho, apagou-se de repente.

—Sois um desasado! disse Loredano contrariado.

—E tenho eu culpa! Quexai-vos do vento.

—Bom! não gasteis o tempo em palavras! Tirai fogo!

O aventureiro voltou a procurar o seu fuzil.

Loredano ficou em pé na porta á espera que o seu companheiro voltasse; e pareceu-lhe ouvir perto delle a respiração de um homem. Applicou o ouvido para certificar-se; e por segurança tirou o seu punhal e collocou-se no centro da porta, para impedir a sahida de quem quer que fosse.

Não ouvio mais nada; porém sentio de repente um corpo frio e gelado que tocou-lhe a fronte; o italiano recuou, e brandindo a sua faca deu um golpe ás escuras.

Pareceu-lhe que tinha tocado alguma cousa; entretanto tudo conservou-se no mais profundo silencio.

O aventureiro voltou trazendo a luz.

—É singular, disse elle; o vento póde apagar uma candeia, mas não lhe tira o pavio.

—O vento, dizeis. Acaso o vento tem sangue?

—Que quereis dizer?

—Que o vento que apagou a vela é o mesmo que deixou o seu signal neste ferro.

E Loredano mostrou ao aventureiro a sua faca, cuja ponta estava tinta de sangue ainda liquido.

—Ha aqui então um inimigo?...

—De certo; os amigos não precisão occultar-se.

Nisto ouvirão um rumor no telhado, e um morcego passou agitando lentamente as grandes azas: estava ferido.

—Eis o inimigo!... exclamou Martim rindo-se.

—É verdade, respondeu Loredano no mesmo tom; confesso que já tive medo de um morcego.

Tranquillos a respeito do incidente que os havia demorado, os dous entrárão na cozinha, e d'ahi por uma brecha estreita praticada na parede penetrárão no interior da casa ha pouco habitada por D. Antonio de Mariz e sua familia.

Atravessárão parte do edificio e chegárão a uma varanda que tocava de um lado com o quarto de Cecilia e do outro com o oratorio e o gabinete d'armas do fidalgo.

Ahi o aventureiro parou; e mostrando a Loredano a porta adufada de jacarandá, que dava entrada para o gabinete, disse-lhe:

—Não é com duas razões que a deitaremos dentro!

Loredano aproximou-se e reconheceu que a solidez e fortaleza da porta não lhe permittia a menor violencia: todo o seu plano estava destruido.

Contava durante a noite se introduzir furtivamente na sala, e assassinar a D. Antonio de Mariz, Ayres Gomes e Alvaro antes que elles podessem ser soccorridos por seus companheiros; consummado o crime, estava senhor da casa.

Como remover o obstaculo que lhe apparecia? A menor violencia contra a porta despertaria a attenção de D. Antonio de Mariz, e inutilisaria todo o seu projecto.

Emquanto reflectia nisto, os seus olhos cahirão sobre uma estreita fresta que havia no alto da parede do oratorio, e que servia mais para dar ar do que luz.

Por esta abertura o italiano conheceu que aquella parte da parede era singela, e feita de um só tijolo; com effeito o oratorio tinha sido outr'ora um corredor largo que ia da varanda á sala, e que fôra separado por uma ligeira divisão.

Loredano medio a parede de alto a baixo, e acenou ao seu companheiro.

—É por aqui que havemos de entrar, disse elle apontando para a parede.

—Como? A menos de não ser um mosquito para passar por aquella fresta!

—Esta parede assenta sobre uma viga; tirada ella, está aberto o caminho!

—Entendo.

—Antes que possão tornar a si do susto, teremos acabado.

O aventureiro quebrou com a ponta da faca o reboco da parede, e descobrio a viga que lhe servia de alicerce.

—Então?

—Não ha duvida. Daqui a duas horas dou-vos isto prompto.

Martim Vaz, depois da morte de Ruy Soeiro e Bento Simões, tinha-se tornado o braço direito de Loredano, era o unico a quem o italiano confiára o seu segredo, occulto para os outros em quem receava ainda a influencia de D. Antonio de Mariz.

O italiano deixou o aventureiro no seu trabalho, e voltou pelo mesmo caminho; chegando á cozinha, sentio-se suffocado por uma fumaça espessa que enchia todo o alpendre. Os aventureiros acordados de repente blasphemavão contra o autor de semelhante lembrança.

Quando Loredano no meio delles procurava indagar a causa do que succedia, João Feio appareceu na entrada do alpendre.

Havia na sua physionomia uma expressão terrivel de colera e ao mesmo tempo de espanto; de um salto aproximou-se do italiano, e chegando-lhe a bocca ao ouvido, disse:

—Renegado e sacrilego, dou-te uma hora para ires entregar-te a D. Antonio de Mariz, e obter delle o nosso perdão, e o teu castigo. Se o não fizeres dentro desse tempo, é comigo que te has de avir.

O italiano fez um movimento de raiva; mas conteve-se:

—Amigo, o sereno transtornou-vos o juizo; ide deitar-vos. Boa noite, ou antes bom dia.

A alvorada despontava no horizonte.

XI O FRADE

Sahindo do quarto de Cecilia, Pery tomára pelo corredor que communicava com o interior do edificio.

O indio, á cuja perspicacia nada escapava do que se passava no interior da casa, por mais insignificante que fosse, havia percebido o plano de Loredano desde a primeira pancada dada para a abertura da brecha.

Na vespera o som do ferro na parede tinha ido despertar a sua attenção na sala onde elle repousava um momento, deitado aos pés do leito de sua senhora; seu ouvido fino e delicado auscultára o seio da terra. Levantou-se de salto, e atravessando todo o edificio chegou, guiado pelas pancadas, ao lugar onde Loredano e o aventureiro começavão a abrir uma fenda no muro.

Em vez de atemorisar-se com esta nova audacia do italiano, o indio sorrio-se; a brecha que praticava seria a sua perdição, porque ia dar facil passagem a elle Pery.

Contentou-se pois em examinar todas as portas que communicavão com a sala e prega-las por dentro; seria um novo obstaculo que demoraria os aventureiros, e lhe daria tempo de sobra para extermina-los.

Foi por isso que do quarto de Cecilia, cuja porta fechou sobre si, caminhou direito á brecha e por ella penetrou na despensa dos aventureiros.

Era uma sala bastante espaçosa, onde havia uma mesa, algumas talhas e uma grande quartola de vinho; o indio mesmo ás escuras chegou-se a cada um desses vasos; e por alguns instantes ouvio-se o fraco vascolejar do liquido que elles continhão.

Então Pery viu uma luz que se aproximava; era Loredano e o seu companheiro.

A vista do italiano lhe gelou o sangue no coração. Tal odio votava a esse homem abjecto e vil, que teve medo de si, medo de o matar. Isso fôra agora uma imprudencia; pois inutilisaria todo o seu plano.

Muita vez depois da noite em que Loredano penetrára na alcova de Cecilia, Pery tivera impetos de ir vingar a injuria feita á sua senhora no sangue do italiano, para quem pensava que uma morte não era bastante punição.

Mas lembrava-se que não se pertencia; que precisava da vida para consummar sua obra salvando Cecilia de tantos inimigos que a cercavão. E recalcava a vingança no fundo do coração.

Fez o mesmo então: cosido com a parede conseguio apagar a vela. Ia sahir, quando sentira que o italiano tomava a porta.

Hesitou.

Podia lançar-se sobre Loredano e subjuga-lo; mas isto produziria uma luta, e denunciaria a sua presença; era preciso que fugisse sem que restasse um só vestigio de sua passagem: a mais leve suspeita faria abortar o seu plano.

Teve uma idéa feliz, ergueu a mão molhada e tocou o rosto do italiano; emquanto este recuava para atirar a punhalada ás escuras, o indio resvalou entre elle e a porta.

A faca de Loredano tinha-lhe ferido o braço esquerdo; não soltou porém nem um gemido, não fez um movimento que o trahisse; ganhou o fundo do alpendre antes que o aventureiro voltasse com a luz.

Mas Pery não estava contente; o seu sangue ia denuncia-lo; não lhe convinha de modo algum que o italiano suspeitasse que elle ali tinha estado.

Os morcegos que esvoaçavão espantados pelo tecto do alpendre lembrárão-lhe um excellente expediente; agarrou o primeiro que lhe passou ao alçance do braço, e abrindo-lhe uma cesura com a faca, soltou-o.

Elle sabia que o vampiro procuraria a luz, e iria esvoaçar em torno dos dous aventureiros; contava que as gotas de sangue que cahião de sua aza ferida os enganaria; a realidade correspondeu ás suas previsões.

Apenas Loredano desappareceu, Pery continuou a execução do seu plano; chegou-se a um canto do alpendre onde havia um resto de fogo encoberto pela cinza, e atirou sobre elle alguma roupa dos aventureiros que ahi estava a enxugar.

Este incidente, por insignificante que pareça, entrava nos planos de Pery; a roupa queimando-se devia encher a casa de fumaça, acordar os aventureiros e excitar-lhes a sêde. Era justamente o que desejava o indio.

Satisfeito do resultado que obtivera, Pery atravessou a esplanada: ahi porém foi obrigado a recuar, surprehendido do que via.

Um homem do lado de D. Antonio de Mariz e um aventureiro revoltado conversavão através da estacada que dividia esses dous campos inimigos; havia realmente motivo para que o indio se admirasse.

Não só isso era contra a ordem expressa de D. Antonio de Mariz, que prohibira qualquer relação entre seus homens e os revoltados, como contrariava o plano de Loredano, que temia ainda o respeito e o habito de obediencia que os aventureiros tinhão para com o fidalgo.

O que se tinha passado antes explicava esse acontecimento extraordinario.

O aventureiro a quem Loredano mandára rondar a esplanada, emquanto elle entrava, tinha começado o seu gyro de uma ponta á outra do pateo.

Sempre que chegava junto da estacada, notava que do outro lado um homem se aproximava como elle, voltava, e se alongava pela beira da esplanada; adivinhou facilmente que era tambem uma sentinella.

João Feio era um franco o jovial companheiro, e não podia supportar o tedio de um passeio alta noite, no meio de um somno interrompido, sem uma pinga para beber, sem um camarada para conversar, sem uma distracção emfim.

Para maior desprazer, uma das vezes que se aproximava da estacada, sentio uma baforada de tabaco, e viu que o seu companheiro de guarda fumava.

Levou a mão ao bolso das bragas, e achou algumas folhas de fumo, mas não trazia o seu caximbo; ficou desesperado, e decidio dirigir-se ao outro.

—Olá, amigo! Tambem fazeis a vossa guarda?

O homem voltou-se, e continuou o seu caminho sem dar resposta.

No segundo gyro o aventureiro atirou segunda isca.

—Felizmente o dia não tarda a raiar; não vos parece?

O mesmo silencio que a primeira vez: o aventureiro comtudo não desanimou, e na terceira volta retrucou:

—Somos inimigos, camarada; mas isto não impede a um homem cortez de responder quando outro lhe falla.

Desta vez o silencioso sentinella voltou-se de todo:

—Antes da cortezia está a nossa santa religião, que manda a todo christão não fallar a um herege, a um reprobo, a um phariseo.

—Que é lá isto? Fallais serio, ou quereis fazer-me enraivar por nonadas?

—Fallo-vos serio, como se estivesse diante do nosso Santo Redemptor confessando as minhas culpas.

—Pois então, digo-vos que mentis! Porque tão bom podeis ser, porém melhor crente que eu não o é outrem.

—Tendes a lingua um pouco longa, amigo. Mas Belzebuth vos fará as contas, que não eu: perderia minha alma se tocasse o corpo de endemoniados!

—Por S. João Baptista, meu patrão, não me façais saltar esta estacada para perguntar-vos a razão por que tratais em ar de mofa a devoção dos mais. Chamai-nos rebeldes, mas hereges não.

—E como quereis então que chame os companheiros de um frade sacrilego, maldito, que abjurou dos seus votos, e atirou o seu habito ás ortigas?

—Um frade! Dissestes vós?

—Sim, um frade. Não o sabeis?

—O que? De que frade fallais vós?

—Do italiano, bofé!

—Elle!...

O homem, que não era outro senão o nosso antigo conhecido mestre Nunes, contou então, exagerando com o fervor de seus sentimentos religiosos, aquillo que sabia da historia de Loredano.

O aventureiro horrorisado, tremendo de raiva, não deixou mestre Nunes acabar a sua historia e lançou-se para o alpendre, onde viu-se a ameaça que fez ao italiano.

Quando elles se separárão, Pery saltou por cima da estacada, e dirigio-se para o quarto que ha pouco tinha deixado.

O dia vinha então rompendo; os primeiros raios do sol illuminavão já o campo dos Aymorés, assentado sobre a varzea á margem do rio. Os selvagens irritados olhavão de longe a casa, fazendo gestos de raiva por não poderem vencer a barreira de pedra que defendia o inimigo.

Pery olhou um momento aquelles homens de estatura gigantesca, de aspecto horrivel, aquelles duzentos guerreiros de força prodigiosa, ferozes como tigres.

O indio murmurou:

—Hoje cahirão todos como a arvore da floresta, para não se erguerem mais.

Sentou-se no vão da janella, e encostando a cabeça sobre a curva do braço, começou a reflectir.

A obra gigantesca que emprehendêra, obra que parecia exceder todo o poder do homem, estava prestes a realisar-se: já tinha levado ao cabo metade della, faltava a conclusão, a parte a mais difficil e a mais delicada.

Antes de lançar-se, Pery queria prever tudo; fixar bem no seu espirito as menores circumstancias; traçar a sua linha invariavel, afim de marchar firme, direito, infallivel ao alvo a que visada; afim de que a menor hesitação não pozesse em risco o effeito do seu plano.

Seu espirito percorreu em alguns segundos um mundo de pensamentos; guiado pelo seu instincto maravilhoso e pelo seu nobre coração, formulou n'um rapido instante um grande e terrivel drama, do qual devia ser o heróe; drama sublime de heroismo e dedicação, que para elle era apenas o cumprimento de um dever e a satisfação de um desejo.

As almas grandes têm esse privilegio; suas acções, que nos outros inspirão a admiração, se anihilão em face dessa nobreza innata do coração superior, para o qual tudo é natural e possivel.

Quando Pery ergueu a cabeça estava radiante de felicidade e orgulho; felicidade por salvar sua senhora; orgulho pela consciencia de que elle só bastava para fazer o que cincoenta homens não farião; o que o proprio pai, o amante, não conseguirão nunca.

Não duvidava mais do resultado: via nos acontecimentos futuros como no espaço que se estendia diante delle, e no qual nem um objecto escapava ao seu olhar limpido; tanto quanto é possível ao homem, elle tinha a certeza e a convicção de que Cecilia estava salva.

Cobrio o peito e as costas com uma pelle de cobra que ligou estreitamente ao corpo; vestio por cima o seu saiote de algodão; experimentou os musculos dos braços e das pernas; e sentindo-se forte, agil e flexivel, sahio inerme.

XII DESOBEDIENCIA

Alvaro, recostado da parte de fora a uma das janellas da casa, pensava em Isabel.

Sua alma lutava ainda, mas já sem força, contra o amor ardente e profundo que o dominava; procurava illudir-se, mas a sua razão não o permittia.

Conhecia que amava Isabel, e que a amava como nunca tinha amado Cecilia; a affeição calma e serena de outr'ora fôra substituida pela paixão abrasadora.

Seu nobre coração revoltava-se contra essa verdade; mas a vontade era impotente contra o amor; não podia mais arranca-lo do seu seio; não o desejava mesmo.

Alvaro soffria; o que dissera na vespera a Isabel era realmente o que sentia; não se exagerára; no dia em que deixasse de amar Cecilia e fosse infiel á promessa feita a D. Antonio, se condemnaria como um homem sem honra e sem lealdade.

Consolava-o a idéa de que a situação em que se achavão não podia durar muito; pouco tardava que exhaustos, enfraquecidos, succumbissem á força dos inimigos que os atacavão.

Então nos momentos extremos, á bordado tumulo, quando a morte o tivesse já desligado da terra, poderia com o ultimo suspiro balbuciar a primeira palavra do seu amor! poderia confessar a Isabel que a amava.

Até então lutaria.

Nisto Pery chegou-se e tocou-lhe no hombro:

—Pery parte.

—Para onde?

—Para longe.

—Que vais fazer?

O indio hesitou:

—Procurar soccorro.

Alvaro sorrio-se com incredulidade.

—Tu duvidas?

—De ti não; mas do soccorro.

—Escuta; se Pery não voltar, tu farás enterrar as suas armas.

—Podes ir tranquillo? eu te prometto.

—Outra cousa.

—O que é?

O indio hesitou de novo:

—Se tu vires a cabeça de Pery desligada do corpo, enterra-a com as suas armas.

—Porque este pedido? A que vem semelhante lembrança?

—Pery vai passar pelo meio dos selvagens, e pode morrer. Tu és guerreiro; e sabes que a vida é como a palmeira: murcha quando tudo reverdece.

—Tens razão. Farei tudo quanto pedes; mas espero ver-te ainda.

O indio sorrio.

—Ama a senhora, disse elle estendendo a mão ao moço.

O seu adeus era uma ultima prece pela felicidade de Cecilia.

Pery entrou na sala onde se achava reunida a familia.

Todos dormião; só D. Antonio de Mariz velava sempre, apezar da velhice; sua vontade poderosa cobrava novas forças, e reanimava o corpo gasto pelos annos. Não lhe restava senão uma esperança; a de morrer rodeado dos entes que amava, cercado de sua familia, como um fidalgo portuguez devia morrer; com honra e coragem.

O indio atravessou a sala, e collocando-se junto do sofa em que Cecilia adormecida repousava, contemplou-a um instante com um sentimento de profunda melancolia.

Dir-se-hia que nesse olhar ardente fazia uma ultima e solemne despedida; que partindo-se, o escravo fiel e dedicado queria deixar a sua alma enleiada naquella imagem, que representava a sua divindade na terra.

Que sublime linguagem não fallavão aquelles olhos intelligentes, animados por um brilhante reflexo de amor e de fidelidade? Que epopéa de sentimento e de abnegação não havia naquella muda e respeitosa contemplação?

Por fim Pery fez um esforço supremo, e a custo conseguio quebrar o encanto que o prendia, e o conservava immovel, como uma estatua, diante da linda menina adormecida. Reclinou sobre o sofá, e beijou respeitosamente a fimbria do vestido de Cecilia; quando ergueu-se, uma lagrima triste e silenciosa que deslisava pela sua face cahio sobre a mão da menina.

Cecilia, sentindo aquella gota ardente, entreabrio os olhos; mas Pery não viu este movimento, porque já se tinha voltado e aproximava-se de D. Antonio de Mariz.

O fidalgo, sentado na sua poltrona, recebeu-o com um sorriso pungente:

—Tu soffres? perguntou o indio.

—Por elles, por ella especialmente, por minha Cecilia.

—Por ti não? disse Pery com intenção.

— Por mim? Daria a minha vida para salva-la: e morreria feliz!

—Ainda que ella te pedisse que vivesse?

—Embora me supplicasse de joelhos.

O indio sentio-se alliviado como de um remorso.

—Pery te pede uma cousa?

—Falla!

—Pery quer beijar a tua mão.

D. Antonio de Mariz tirou o seu guante, e sem comprehender a razão do pedido do indio, estendeu-lhe a mão.

—Tu dirás a Cecilia que Pery partio; que foi longe; não deves contar-lhe a verdade: ella soffrerá. Adeus; Pery sente te deixar; mas é preciso.

Emquanto o indio proferia estas palavras em voz baixa e inclinado ao ouvido do fidalgo, este surprehendido procurava ligar-lhes um sentido que lhe parecia vago e confuso:

—Que pretendes tu fazer Pery? perguntou D. Antonio.

—O mesmo que tu querias fazer para salvar a senhora.

—Morrer!... exclamou o fidalgo.

—Pery levou o dedo aos labios recommendando silencio; mas era tarde; um grito partido do canto da sala fê-lo estremecer.

Voltando-se viu Cecilia, que ao ouvir a ultima palavra de seu pai quizera correr para elle, e cahira de joelhos, sem forças para dar um passo. A menina com as mãos estendidas e supplicantes parecia pedir a seu pai que evitasse aquelle sacrificio heroico, e salvasse a Pery de uma morte voluntaria.

O fidalgo a comprehendeu:

—Não, Pery; eu, D. Antonio de Mariz, não consentirei nunca em semelhante cousa. Se a morte de alguem podesse trazer a salvação de minha Cecilia e de minha familia, era a mim que competia o sacrificio. E por Deus e pela minha honra o juro, que a ninguem o cederia; quem quizesse roubar-me esse direito me faria um insulto cruel.

Pery volvia os olhos de sua senhora afflicta e supplicante para o fidalgo severo erigido no cumprimento de seu dever; temia aquellas duas opposições differentes, mas que tinhão ambas um grande poder sobre a sua alma.

Podia o escravo resistir a uma supplica de sua senhora, e causar-lhe uma mágoa, quando toda a sua vida fôra destinada a fazê-la alegre e feliz? Podia o amigo offender a D. Antonio de Mariz, a quem respeitava, praticando uma acção que o fidalgo considerava como uma injuria feita á sua honra?

Pery teve um momento de hallucinação, em que pareceu-lhe que o coração lhe estacava no peito, a vida lhe fugia, e a cabeça se despedaçava com a pressão violenta das idéas que tumultuavão no cerebro.

No rapido instante que durou a vertigem, elle viu gyrarem rapidamente em torno de si as figuras sinistras dos Aymorés, que ameaçavão a vida preciosa daquelles a quem mais amava no mundo. Vio Cecilia supplicando, não a elle, mas ao inimigo feroz e sanguinario, prestes a mancha-la com as mãos impuras; viu a bella e nobre cabeça do velho fidalgo rojar mutilada com os alvos cabellos tintos de sangue.

O indio horrorisado com estas imagens lugubres que lhe desenhava a sua imaginação em delirio, apertou a cabeça entre as mãos, com para arranca-la daquella febre.

—Pery balbuciava Cecilia; tua senhora te pede!...

—Morreremos todos juntos, amigo, quando chegar o momento, dizia D. Antonio de Mariz.

Pery levantou a cabeça, e lançou sobre a menina e o fidalgo um olhar hallucinado:

—Não!... exclamou elle.

Cecilia ergueu-se com um movimento instantaneo, de pé e pallida, soberba de cólera e indignação, a gentil e graciosa menina de outr'ora se tinha de repente transformado n'uma rainha imperiosa.

Sua bella fronte alva resplandecia com um assomo de orgulho; seus olhos azues tinhão desses reflexos fulvos que illuminão as nuvens no meio da tormenta; seus labios tremulos e ligeiramente arqueados parecião reter a palavra para deixa-la cahir com toda a força.

Atirando a cabecinha loura sobre o hombre esquerdo commum gesto de energia, ella estendeu a mão para Pery:

—Prohibo-te que saias desta casa

O indio julgou que ia enlouquecer; quiz lançar-se aos pés de sua senhora, mas recuou anhelante, oppresso e suffocado. Um canto; ou antes uma celeuma dos selvagens soava ao longe.

Pery deo um passo para a porta; D. Antonio o reteve:

—Tua senhora, disse o fidalgo friamente, acaba de te dar uma ordem; tu a cumprirás. Tranquillisa-te, minha filha; Pery é meu prisioneiro.

Ouvindo esta palavra que destruia todas as suas esperanças, que o impossibilitava de salvar sua senhora, o indio retrahindo-se deo um salto, e cahio no meio da sala.

—Pery é livre!... gritou elle fora de si; Pery não obedece a ninguem mais; fará o que lhe manda o coração!

Emquanto D. Antonio de Mariz e Cecilia, admirados desse primeiro acto de desobediencia, olhavão espantados o indio de pé no meio do vasto aposento, elle lançou-se a um cabide de armas, e empunhando um pesado montante, como se fôra uma ligeira espada, correu á janella e saltou.

—Perdoa a Pery, senhora!

Cecilia soltou um grito, e precipitou-se para a janella.

Não viu mais Pery.

Alvaro e os aventureiros, de pé sobre a esplanada, tinhão os olhos fitos sobre a arvore que se elevava a um lado da casa, na encosta opposta, e cuja folhagem ainda se agitava.

Longe descortinava-se o campo dos Aymorés; a brisa que passava trazia o rumor confuso das vozes e gritos dos selvagens.

XIII COMBATE

Erão seis horas da manhã.

O sol elevando-se no horizonte derramava cascatas de ouro sobre o verde brilhante das vastas florestas.

O tempo estava soberbo; o céo azul, esmaltado de pequenas nuvens brancas que se achamalotavão como as dobras de uma lençaria.

Os Aymorés, grupados em torno de alguns troncos já meio reduzidos á cinza, fazião preparativos para dar um ataque decisivo.

O instincto selvagem suppria a industria do homem civilisado; a primeira das artes foi incontestavelmente a arte da guerra,—a arte da defeza e da vingança, os dous mais fortes estímulos do coração humano.

Nesse momento os Aymorés preparavão settas inflammaveis para incendiar a casa de D. Antonio de Mariz; não podendo vencer o inimigo pelas armas, contavão destrui-lo pelo fogo.

A maneira por que arranjavão esses terriveis projectis que lembravão os pelouros e bombardas dos povos civilisados era muito simples; envolvião a ponta da flecha com frocos de algodão embebido na resinada almecegueira.

Essas settas assim inflammadas, despedidas dos seus arcos voavão pelos ares e ião cravar-se nas vigas e portas das casas; o fogo que o vento incitava, lambia a madeira, estendia a sua lingua vermelha, e lastrava pelo edificio.

Emquanto se occupavão com esse trabalho, um prazer feroz animava todas essas physionomias sinistras, nas quaes a braveza, a ignorancia e os instinctos carniceiros tinhão quasi de todo apagado o cunho da raça humana.

Os cabellos arruivados cahião-lhes sobre a fronte e occultavão inteiramente a parte mais nobre do rosto, creada por Deos para a séde da intelligencia, e para o throno d'onde o pensamento deve reinar sobre a materia.

Os labios decompostos, arregaçados por uma contracção dos musculos faciaes, tinhão perdido a expressão suave e doce que imprimem o sorriso e a palavra; de labios de homem se havião transformado em mandibulas de féra, affeitas ao grito e ao bramido.

Os dentes agudos como as presas do jaguar, já não tinhão o esmalte que a natureza lhes dera; armas ao mesmo tempo que instrumentos da alimentação, o sangue os tingira da côr amarellenta que têm os dentes dos animaes carniceiros.

As grandes unhas negras e retorcidas que crescião nos dedos, a pelle aspera e callosa fazião de suas mãos antes garras temiveis, do que a parte destinada a servir ao homem e dar ao aspecto a nobreza do gesto.

Grandes pelles de animaes cobrião o corpo agigantado desses filhos das brenhas, que a não ser o porte erecto se julgaria alguma raça de quadrumanos indigena no novo mundo.

Alguns se ornavão de pennas, e collares de ossos; outros completamente nús tinhão o corpo untado de oleo por causa dos insectos.

Entre todos distinguia-se um velho que parecia ser o chefe da tribu. Sua alta estatura, direita apezar da idade avançada, dominava a cabeça dos seus companheiros sentados ou grupados em torno do fogo.

Não trabalhava; presidia apenas aos trabalhos dos selvagens, e de vez em quando lançava um olhar de ameaça para a casa que se elevava ao longe sobre o rochedo inexpugnavel.

Ao lado delle, uma bella india na flôr da idade, queimava sobre uma pedra côva algumas folhas de tabaco cuja fumaça se elevava em grossas espiraes e cingia a cabeça do velho de uma especie de bruma ou nevoa.

Elle aspirava esse aroma embriagador que fazia dilatar o seu vasto peito, e dava á sua physionomia terrivel um quer que seja de sensual, que se poderia chamar a voluptuosidade dos seus instinctos de cannibal. Envolta pelo fumo espesso que se ennovelava em torno delia, aquella figura fantastica parecia algum idolo selvagem, divindade creada pelo fanatismo desses povos ignorantes e barbaros.

De repente a pequena india que soprava o brasido queimando as folhas de pityma estremeceu levantou a cabeça e fitou os olhos no velho, como para interrogar a sua physionomia.

Vendo-o calmo e impassivel, a menina debruçou-se sobre o hombro do selvagem, e tocando-lhe de leve na cabeça, disse-lhe uma palavra ao ouvido. Elle voltou-se tranquillamente, e um riso sardonico mostrou os seus dentes; sem responder obrigou a india a sentar-se de novo, e a voltar á sua occupação.

Pouco tempo havia passado depois deste pequeno incidente, quando a menina tornou a estremecer, tinha ouvido perto o mesmo rumor que já ouvira ao longe. Ao passo que ella espantada procurava confirmar-se, um dos selvagens sentados em roda do fogo a trabalhar fez o mesmo movimento que a india, e levantou a cabeça.

Como se um fio electrico se communicasse entre esses homens e imprimisse a todos successivamente o mesmo movimento, um após outro interrompeu o seu trabalho de chofre, e inclinando o ouvido poz-se á escuta.

A menina não escutava só; collocando-se longe do fumo e de encontro á brisa que soprava, de vez em quando aspirava o ar com a finura de olfacto com que os cães farejão a caça.

Tudo isto passou rapidamente, sem que os actores desta scena tivessem nem sequer o tempo de trocar uma observação e dizer o seu pensamento.

De repente a india soltou um grito; todos voltárão-se para ella e a virão tremula, offegante, apoiando-se com uma mão sobre o hombro do velho cacique, e a outra estendida na direcção da floresta que passava a duas braças servindo de fundo a esse quadro.

O velho ergueu-se então sempre com a mesma calma feroz e sinistra; e empunhando a sua pesada tagapema, que parecia uma clava de cyclope, fê-la gyrar sobre a sua cabeça como um junco; depois fincando-a no chão e apoiando-se sobre ella, esperou.

Os outros selvagens armados de arcos e tacapes, especie de longas espadas de páo que cortavão como ferro, collocárão-se a par do velho, e promptos para o ataque, esperavão como elle. As mulheres misturárão-se com os guerreiros: as crianças e meninos, defendidos pela barreira que oppunhão os combatentes conservárão-se no centro do campo.

Todos com os olhos fitos, os sentidos applicados, contavão ver o inimigo apparecer a cada momento e se prepara vão para cahir sobre elle com a audacia e o impeto de ataque que distinguia a raça dos Aymorés.

Um segundo se passou nesta expectativa inquieta.

O estalido que a principio tinhão ouvido cessou completamente; e os selvagens cobrando-se do susto, voltárão aos seus trabalhos, convencidos de que tinhão sido illudidos por algum vago rumor da floresta.

Mas o inimigo cahio no meio delles, subitamente, sem que podessem saber se tinha surgido do seia da terra, ou se tinha descido das nuvens.

Era Pery.

Altivo, nobre, radiante da coragem invencivel e do sublime heroismo de que já dera tantos exemplos, o indio se apresentava só em face de duzentos inimigos fortes e sequiosos de vingança.

Cahindo do alto dc uma arvore sobre elles, tinha abatido dous; e volvendo o seu montante como um raio em torno de sua cabeça, abrio um circulo no meio dos selvagens.

Então encostou-se a uma lasca de pedra que descansava sobre uma ondulação do terreno, e preparou-se para o combate monstruoso de um só homem contra duzentos.

A posição em que se achava o favorecia, se isto é possivel á vista de uma tal disparidade de numero; apenas dous inimigos podião ataca-lo de frente.

Passado o primeiro espanto, os selvagens bramindo atirárão-se todos como uma só mola, como uma tromba do oceano, contra o indio que ousava ataca-los a peito descoberto.

Houve uma confusão, um turbilhão horrivel de homens que se repellião, tombavão e se estorcião; de cabeças que se levantavão e outras que desapparecião; de braços e dorsos que se agitavão e se contrahião, como se tudo isto fosse partes de um só corpo, membros de algum monstro desconhecido debatendo-se em convulsões.

No meio desse cahos via-se brilhar aos raios do sol com reflexos rapidos e luzentes a lamina do montante de Pery, que passava e repassava com a velocidade do relampago quando percorre as nuvens e atravessa o espaço.

Um côro de gritos, imprecações e gemidos roucos e abafados, confundindo-se com o choque das armas, se elevava desse pandemonio, e ia perder-se ao longe nos rumores da cascata.

Houve uma calma aterradora; os selvagens immoveis de espanto e de raiva suspendêrão o ataque; os corpos dos mortos fazião uma barreira entre elles e o inimigo.

Pery abaixou o seu montante e esperou; seu braço direito fatigado desse enorme esforço não podia mais servir-lhe, e cahia inerte; passou a arma para a mão esquerda.

Era tempo.

O velho cacique dos Aymorés se avançava para elle, sopesando a sua immensa clava crivada de escamas de peixe e dentes de féra; alavanca terrivel que o seu braço possante fazia jogar com a ligeireza da flecha.

Os olhos de Pery brilhárão; endireitando o seu talhe, fitou no selvagem esse olhar seguro e certeiro, que não o enganava nunca.

O velho aproximando-se levantou a sua clava e imprimindo-lhe o movimento de rotação, ia descarrega-la sobre Pery e abatê-lo; não havia espada nem montante que podesse resistir áquelle choque.

O que passou-se então foi tão rapido, que não é possivel descrevê-lo; quando o braço do velho volvendo a clava ia atira-la, o montante de Pery lampejou no ar e decepou o punho do selvagem; mão e clava forão rojar pelo chão.

O velho selvagem soltou um bramido, que repercutio ao longe pelos échos da floresta, e levantando ao céo o seu punho decepado atirou as gotas de sangue que vertião sobre os Aymorés, como conjurando-os á vingança.

Os guerreiros lançárão-se para vingar o seu chefe; mas um novo espectaculo se apresentava aos seus olhos.

Pery vencedor do cacique, volveu um olhar em torno delle, e vendo o estrago que tinha feito, os cadaveres dos Aymorés amontoados uns sobre os outros, fincou a ponta do montante no chão e quebrou a lamina. Tomou depois os dous fragmentos, e atirou-os ao rio.

Então passou-se nelle uma luta silenciosa, mas terrivel para quem podesse comprehendê-la. Tinha quebrado a sua espada, porque não queria mais combater; e decidira que era tempo de supplicar a vida ao inimigo.

Mas quando chegou o momento de realisar essa supplica conheceu que exigia de si mesmo uma cousa sobrehumana, uma cousa superior ás suas forças.

Elle, Pery, o guerreiro invencivel, elle o selvagem livre, o senhor das florestas, o rei dessa terra virgem, o chefe da mais valente nação dos Guaranys, supplicar a vida ao inimigo! Era impossivel.

Tres vezes quiz ajoelhar, e tres vezes as curvas de suas pernas distendendo-se como duas molas de aço o obrigárão a erguer-se.

Finalmente a lembrança de Cecilia foi mais forte do que a sua vontade.

Ajoelhou.

XIV O PRISIONEIRO

Quando os selvagens se precipitavão sobre o inimigo, que já não se defendia e se confessava vencido, o velho cacique adiantou-se; e deixando cahir a mão sobre o hombro de Pery, fez um movimento energico com o braço direito decepado.

Este movimento exprimia que Pery era seu prisioneiro, que lhe pertencia como o primeiro que tinha posto a mão sobre elle, como o seu vencedor; e que todos devião respeitar o seu direito de propriedade, o seu direito da guerra.

Os selvagens abaixárão as armas, e não derão um passo; esse povo barbaro tinha seus costumes e suas leis; e uma dellas era esse direito exclusivo do vencedor sobre o seu prisioneiro de guerra, essa conquista do fraco pelo forte.

Tinhão em tanta conta a gloria de trazerem um captivo de combate e sacrifica-lo no meio das festas e ceremonias que costumavão celebrar, que nenhum selvagem matava o inimigo que se rendia; fazia-o prisioneiro.

Quanto a Pery, vendo o gesto do cacique e o effeito que produzia, a sua physionomia expandio-se; a humildade tingida, a posição supplicante que por um esforço supremo conseguira tomar, desappareceu immediatamente.

Ergueu-se; e com um soberbo desdem estendeu os punhos aos selvagens que por mandado do velho se dispunhão a ligar-lhe os braços; parecia antes um rei que dava uma ordem aos seus vassallos, do que um captivo que se sujeitava aos vencedores; tal era a altivez do seu porte, e o desprezo com que encarava o inimigo.

Os Aymorés, depois de ligarem os punhos do prisioneiro, o conduzirão a alguma distancia a sombra de uma arvore, e ahi o prendêrão com uma corda de algodão matizada de varias côres, a que os Guaranys chamavão mussurana.

Depois, ao passo que as mulheres enterravão os mortos, reunirão-se em conselho, presididos pelo velho cacique, a quem todos ouvião com respeito, e respondião cada um por sua vez.

Durante o tempo que os guerreiros fallavão, a pequena india escolhia os melhores fructos, as bebidas mais bem preparadas, e offerecia ao prisioneiro, a quem estava encarregada de servir.

Pery, sentado sobre a raiz da arvore e apoiado contra o tronco, não percebia o que se passava em torno delle; tinha os olhos fitos na esplanada da casa que se elevava a alguma distancia.

Via o vulto de D. Antonio de Mariz que assomava por cima da palissada; e suspensa ao seu braço, reclinada sobre o abysmo, Cecilia, sua linda senhora, que lhe fazia de longe um gesto de desespero; ao lado Alvaro e a familia.

Tudo que elle havia amado neste mundo ali estava diante de seus olhos; sentia um prazer intenso por ver ainda uma vez esses objectos de sua dedicação extrema, de seu amor profundo.

Adivinhava e comprehendia o que sentia então o coração de seus bons amigos; sabia que soffrião vendo-o prisioneiro, proximo a morrer, sem terem o poder e a força para salva-lo das mãos do inimigo.

Consolava-o porém essa esperança que estava prestes a realisar-se; esse gozo ineffavel de salvar sua senhora, e de deixa-la feliz no seio de sua familia, protegida pelo amor de Alvaro.

Emquanto Pery, preoccupado por essas idéas, enlevava-se ainda uma vez em contemplar mesmo de longe a figura de Cecilia, a india de pé de fronte delle olhava-o com um sentimento de prazer misturado de surpreza e curiosidade.

Comparava suas fórmas esbeltas e delicadas com o corpo selvagem de seus companheiros; a expressão intelligente de sua physionomia com o aspecto embrutecido dos Aymorés; para ella Pery era um homem superior e excitava-lhe profunda admiração.

Foi só quando Cecilia e D. Antonio de Mariz desapparecêrão da esplanada, que Pery, lançando ao redor um olhar para ver se a sua morte ainda se demoraria muito, descobrio a india perto delle.

Voltou o rosto e continuou a pensar em sua senhora, e a rever a sua imagem; debalde a menina selvagem, lhe apresentava um lindo fructo, um alimento, um vinho saboroso; elle não lhe dava attenção.

A india tornou-se triste por causa dessa obstinação com que o prisioneiro recusava o que lhe offerecia; e achegando-se levantou a cabeça pensativa de Pery.

Havia nos olhos da menina tanto fogo, tanta lubricidade no seu sorriso; as ondulações morbidas do seu corpo trahião tantos desejos e tanta voluptuosidade, que o prisioneiro comprehendeu immediatamente qual era a missão dessa enviada da morte, dessa esposa do tumulo, destinada a embellezar os ultimos momentos da vida!

O indio voltou o rosto com desdem; recusava as flôres como tinha recusado os fructos; repellia a embriaguez do prazer como havia repellido a embriaguez do vinho.

A menina enlaçou-o com os braços, murmurando palavras entrecortadas de uma lingua desconhecida, da lingua dos Aymorés, que Pery não entendia; era talvez uma supplica, ou um consolo com que procurava mitigar a dôr do vencido.

Mal sabia que o indio ia morrer feliz e esperava o supplicio como a realisação de um sonho doce, como a satisfação de um desejo querido e por muito tempo afagado com amor.

Mas podia ella, pobre selvagem, presentir e mesmo comprehender semelhante cousa? O que sabia era que Pery ia ser morto; que ella devia suavisar-lhe a ultima hora; e cumpria esse dever com um certo contentamento.

Pery sentindo os braços da menina cingirem seu collo, repellio-a vivamente para longe de si; e voltando procurou ver por entre as folhas se descobria os preparativos que os Aymorés fazião para o sacrificio.

Tardava-lhe o momento supremo em que devia ser immolado á colera e á vingança dos inimigos; sua altivez revoltava-se contra essa humilhação do captiveiro.

A india continuava a olha-lo tristemente, e sem comprehender porque a repellia; ella era linda e desejada por todos os jovens guerreiros de sua tribu; seu pai, o velho cacique, tinha-a destinado para o mais valente prisioneiro, ou para o mais forte dos vencedores.

Depois de conservar-se muito tempo nesta posição, a menina adiantou-se de novo, tomou um vaso cheio de cauim, e apresentou-o a Pery sorrindo e quasi supplicante.

Ao gesto de recusa que fez o indio, ella deitou o vaso no rio, e escolhendo sobre as folhas um cardo vermelho e doce como um favo de mel, estendeu a mão e tocou com o fructo a bocca do prisioneiro.

Pery engeitou o fructo como tinha engeitado o vinho, e a virgem selvagem atirando-o por sua vez ao rio, aproximou-se e offereceu ao prisioneiro seus labios encarnados, ligeiramente destendidos como para receberem o beijo que pedião.

O indio fechou os olhos, e pensou em sua senhora. Elevando-se até Cecilia, seu pensamento desprendia-se do involucro terrestre, e adejava n'uma atmosphera pura e isenta da fascinação dos sentidos que escravisa o homem.

Comtudo Pery sentia o halito ardente da menina que lhe requeimava as faces: entreabrio os olhos, e viu-a na mesma posição, esperando uma caricia, um afago daquelle a quem a sua tribu mandára que amasse, e a quem ella já amava espontaneamente.

Na vida selvagem, tão proxima da natureza, onde a conveniencia e os costumes não reprimem os movimentos do coração, o sentimento é uma flor que nasce como a flor do campo, e cresce em algumas horas com uma gota de orvalho e um raio de sol.

Nos tempos de civilisação, ao contrario, o sentimento torna-se planta exotica; e só vinga e floresce nas estufas, isto é, nos corações onde o sangue é vigoroso, e o fogo da paixão ardente e intenso.

Vendo Pery no meio do combate, só contra toda a sua tribu, a india o admirara: contemplando-o depois quando prisioneiro, o achára mais bello do que todos os guerreiros.

Seu pai a destinára para esposa do inimigo que ia ser sacrificado; e portanto ella que começára por admira-lo acabava por deseja-lo, por ama-lo algumas horas apenas depois que o tinha visto.

Mas Pery, frio e indifferente, não se commovia, nem aceitava essa affeição passageira e ephemera que tinha começado com o dia e devia acabar com elle, sua idéa fixa, a lembrança de seus amigos, o protegia contra a tentação.

Voltando as costas, levantou os olhos ao céo para evitar o rosto da selvagem que acompanhava a sua vista, como certas flôres acompanhão a rotação apparente do sol.

Entre a folhagem das arvores passava-se uma das scenas graciosas e singelas, que a cada momento no campo se offerecem á attenção daquelles que estudão a natureza nas suas pequenas creaturas.

Um casal de corrixos, que tinha feito o seu ninho n'um ramo, sentindo a habitação do homem e o fogo em baixo da arvore, mudava a sua pequena casa de palha e algodão.

Um desfazia com o bico o ninho, e o outro conduzia a palha para longe, para o lugar onde ião novamente fabrica-lo; quando acabárão este trabalho, acariciárão-se, e batendo as azas forão esconder o seu amor n'algum lindo retiro.

Pery se divertia em ver esse innocente idyllio, quando a india levantando-se de repente soltou um pequeno grito de alegria e de prazer, e sorrindo mostrou ao prisioneiro os dous passarinhos que voavão um a par do outre sobre o cupola da floresta.

Emquanto elle procurava comprehender o que queria dizer este aceno, a virgem desappareceu, e voltou quasi immediatamente trazendo um instrumento de pedra que cortava como faca e um arco de guerra.

Aproximou-se do indio, soltou-lhe os laços que lhe ligavão os punhos, e partio a mussurana que o prendia á arvore. Executou isto com uma extrema rapidez; e entregando a Pery o arco e as flechas, estendeu a mão na direcção da floresta, mostrando-lhe o espaço que se abria diante delles.

Seus olhos e o seu gesto fallavão melhor do que a sua linguagem inculta, e exprimião claramente o seu pensamento:

—Tu és livre. Partamos!

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