ACTO III.
Reading edition
Scena I.
Ignez só.
Miseranda!.. Que trance! Oh desventura!.. Oh sentença, cruel!.. Venceste, ó Fado. Apraziveis lugares, testemunhas Do mais ardente amor, ah, para sempre A malfadada Ignez de vós se aparta... Quanto fôra melhor, quanto mais doce Deixar a vida, que deixar o amante! Que!.. Eu... deixar o amante?.. Oh caro Esposo!.. Oh Ceos! podeis manda-lo, ou permitti-lo? Sereis tambem crueis como os humanos? Condemnareis os mesmos, que soprastes, Sentimentos d'Amor, da Natureza? Para hum castigo tal quaes são meus crimes?.. Se me queres punir, Deos de vingança, Os raios tens nas mãos, accende os raios, Meu terno coração reduze ao nada; Mas d'outro coração, a que o ligaste, Separa-lo jámais... Ah! nem tu mesmo, Nem tu, que podes tudo, tanto podes... Que proferes, blasfema! Aos Ceos te atreves?.. Oh virtude! Oh razão! Desamparais-me?.. Onde, Ignez, onde está tua constancia? Aos teus deveres torna, entra em ti mesma. Orgão do Ser Supremo, hum Rei te ordena, Que do Esposo te apartes; não resistas; He força obedecer; enfrêa n'alma, Suffoca as afflicções, cala os queixumes: Co'as desgraças os crimes não mistures: Mas deixa-lo!.. Ai de mim... Deixa-lo!.. Agora, Agora he que eu conheço as furias todas, Toda a força d'amor: elle triunfa Da razão, da virtude, e dos Ceos mesmo.
Scena II.
Ignez, e Elvira.
Elv. Senhora... (Ai triste!.. o pranto me suffoca!) Se he certo que impias ordens te condemnão A deixar Portugal, a triste Elvira, Que protestou viver, morrer comtigo, Sempre junto ao teu lado, a qualquer parte A que te arroje a sorte, ha de seguir-te: Confio que esta graça me concedas.
Ign. Ah! Não venhas juntar aos meus pezares O quadro da Amizade consternada: Para esmagar-me o coração sensivel Bem basta Amor, a Natureza basta. Não posso resistir a tantos males, Aos golpes da saudade que retalhão Da atribulada Ignez o peito afflicto. Mais pranto com teu pranto não me arranques, Que a hum terno coração inda mais custão As lagrimas que move, que as que verte. He mesmo o ser amado hum bem funesto, Que exacerba a desgraça aos desgraçados.
Elv. He possivel haver almas tão duras, Que hum tão sensivel coração flagellem!... Mas ah!.. Porque aos pezares succumbimos? D. Pedro he teu Esposo; elle ha de oppôr-se Defensor poderoso em teu soccorro; Ha de frustrar da tyrannia as ordens; Nelle pois confiemos: a excita-lo Bastarão tuas lagrimas...
Ign. ................... Que dizes! Que terrivel idéa me despertas! Em vez de confortar-me, vens, Elvira, Abater-me a constancia, aconselhar-me A que contra seu Pai revolte hum filho?.. Ah! Não... Embora Ignez infeliz seja; Mas nunca origem de rebeldes crimes: Amortecida já, mas inda accesa Brilha a luz da razão dentro em minha alma. Não consintas, oh Ceos, que amor a apague; Fortalecei meu peito. Sim, eu devo, Eu devo submetter-me ao meu destino: Cumprão-se as duras leis do duro fado: Amargurada irei longe do Esposo Acabar entre as garras da saudade... Porém os caros filhos... Ah! comigo, Comigo os levarei. Doces penhores Do mais constante amor, sereis ao menos Na minha adversidade terno allivio... Entre os meus braços sempre, sempre unidos Da inconsolavel Mãi ao peito anciado, Cobertos de caricias, de suspiros, Banhados com meu pranto, em seus semblantes O semblante verei do Esposo ausente. Aprenderão de mim... Mas ah! Que digo!.. Quereria eu acaso, associando Ao pavoroso horror do meu destino O destino dos filhos innocentes, Tolher sua ventura?.. Não; entregues De seu Pai aos desvelos, abrigados Á sua sombra fiquem; lembrem-lhe elles A miserrima Ignez continuamente... O retrato da Mãi nos filhos veja, Que eu memorias do Esposo não careço; No coração gravada a sua imagem, Ante os meus olhos sempre ha de seguir-me, Ha de, em quanto viver, viver comigo, E comigo baixar á sepultura.
Scena III.
D. Pedro, Ignez, e Elvira.(20)
(20) Ignez, apenas vê D. Pedro, busca enxugar as lagrimas. Elvira affasta-se para o fundo da Scena, e pouco depois se retira.
Ped. Ignez, querida Esposa... Mas que vejo!.. Debalde buscas enxugar teu pranto: Aos olhos de hum amante nada escapa. Impressas no teu rosto bem diviso As afflicçôes, que o coração me partem. Que motivo... Mas devo eu pergunta-lo? Não sei assaz a origem dos teus males?.. Eu sou, sim, sou eu mesmo o teu flagello; Mas o teu defensor, o teu Esposo: Nada receies pois, nada te afflija... Porém as tuas lagrimas se dobrão?.. Oh Ceos!..
Ign. .... Amado Esposo, não repares, Não te afflijas co'as lagrimas que choro: As tuas expressões, tua presença Aggravão minha dor, meu pranto augmentão. Ah! pelos tristes olhos sahir deixa Meu coração em lagrimas desfeito.
Ped. Antes em borbotões todo o meu sangue Eu quero ver correr, do que o teu pranto. De tua alma desterra vãos temores, Extermina os pezares, não succumbas A males transitorios que te opprimem. Os caprichos do Fado, a desventura Calcaremos aos pés: sim, cara Esposa, Sempre unidos seremos venturosos.
Ign. Unidos dizes tu!.. Oh Ceos!.. Unidos?..
Ped. Pois quem, quem poderia separar-nos?
Ign. O rigor... Ai de mim! Que vou dizer-te?.. Que raio a triste Ignez vai fulminar-te?.. Poupar teu coração, oh Ceos, quizera; Porém eu a deixar-te não me atrevo, Sem que te diga adeos... Ah! caro Esposo! Aperta-me em teus braços, e recebe As minhas derradeiras despedidas.
Ped. Que escuto!.. Que acontece?.. Ignez, que dizes?
Ign. Para sempre de ti vou separar-me.
Ped. Separar-te de mim!
Ign. ................. Atroz conflicto!.. Caro Principe, Esposo, não te esqueças Da desditosa Ignez... Mas ah! Que digo! Esquece-me se podes; sê ditoso; Vive, vive feliz. Eu só te rogo, Que dos queridos filhos te encarregues; Que affagues sua infancia, que os ampares; Que os defendas da inveja, da impiedade: Não cogites de mim, delles só cuida, He forçoso ceder ás leis do Fado: Longe de ti, mirrada de saudades, Vou exhalar meus ultimos suspiros.
Ped. Oh desesperação! Que idéa horrivel Surge dentro em minha alma! Acaso (eu tremo!) Atrever-se-ha meu Pai...
Ign. .................. Aos seus preceitos Obedecer devemos: intimados. Me forão já: de Portugal banida, Partir devo hoje mesmo para Hespanha.
Ped. Oh Furias! He possivel? Rei tyranno, Não levarás ávante os teus projectos... Nem elle, nem os Ceos, nem os Infernos Poderão arrancar-te de meus braços. Desengana-lo vou, parto a fallar-lhe: Trema o cruel de mim, se não revoga A barbara sentença.
Ign. ............. Oh Ceos! Que fazes?
Scena IV.
D. Pedro, Ignez, e D. Sancho.
Sanc. Teu Pai, Senhor, te busca: tudo prestes Para voltar á Corte... Mas que vejo! Elle mesmo he que vem.
Ped. ................ Querida Esposa, Retira-te, eu to rogo... Nada temas.
Ign. Eu me retiro, sim; mas só te imploro, Que te lembres que és filho, e que és vassallo.
Ped. Mas Esposo tambem, que he mais que tudo.
Scena V.
D. Affonso, D. Pedro, e D. Sancho.
Af. Então, quem nestes sitios te demora? Eia, segue-me já.
Ped. ........... Quem, eu!.. Seguir-te?.. Abandona-la! Não, não te obedeço.
Af. Que escuto, oh Ceos!
Ped. .................. Inda não disse tudo. Attende-me, Senhor: he necessario Declarar-me comtigo; o véo se rasgue; He tempo, he tempo em fim que me conheças. Entra em meu coração desesperado, De virtudes capaz, capaz de crimes, Se a crimes o excitar a tyrannia. Sabes que adoro Ignez, e projectavas Rouba-la ao meu amor? Que infernal furia Te aconselha a punir huma innocente, Que he só culpada, se a virtude he crime? E esperavas acaso que eu podesse Covarde tolerar seu menor damno, A injustiça maior, sem defende-la, Sem oppôr-me aos designios da impiedade? Eu fôra dos mortaes o mais abjecto, Se deixasse opprimir...
Af. .................. Ah! Não prosigas: Immudece, rebelde. Não sei como Reprimir posso a colera... Que arrojo!.. Ousas tu murmurar dos meus Decretos?..
Ped. Não só murmuro, atrevo-me a frustra-los. A razão, e os Ceos mesmos me authorisão. Defendendo a minha Esposa.
Af. ..................... A tua Esposa!..
Ped. A minha Esposa, sim. Sabe que os laços Do sagrado consorcio a Ignez me ligão. Intentarias pois inda opprimi-la?..
Af. Não julgues illudir-me, não te creio: A tão subtil ardil em vão recorres. Que! Esposa de meu filho huma vassalla!..
Ped. Huma vassalla, sim, para quem fôra Do Mundo todo o Imperio inda pequeno: Não duvides, Senhor. Que encontras nella Que indigna de teu filho julgar possas? Eu não quero fallar do Regio sangue, Que, dos teus ascendentes derivado, Lhe circula nas veias: outros dotes Mais bellos, mais sublimes a ennobrecem: Vassalla, a quem os Ceos prodigos derão Todas as perfeições que os Ceos dar podem, Para ser do teu filho digna Esposa, Ser filha de Monarchas não precisa. Se Ignez he virtuosa, que lhe falta? Quem mais digna do Throno que a Virtude! Mas dos seus predicados prescindamos. Castro he minha Consorte, tanto basta; He Princessa, por tal a reconhece, E o decoro lhe guarda de que he digna.
Af. Sim, tratada será como merece... Brevemente o verás.
Ped. ............. Olha o que fazes... Não queiras constranger-me inexoravel A perpetrar horriveis attentados: Se como Pai benigno, e Rei clemente Praticares comigo, has de em mim sempre Encontrar hum Vassallo respeitoso, E hum filho obediente; mas se acaso Insistes em roubar-me a cara Esposa, Hum mortal inimigo em mim contempla, Que cégo, furioso, e desesp'rado, Sem attender senão aos seus transportes, Será capaz de horrendos sacrilegios. Evitando-os, atalha huma injustiça: Revoga pois a barbara sentença.
Af. Sim, por outra mais justa, revogada (Descança.) ella vai ser. Espadanando Ha de ver teu coração da infame o sangue As chammas apagar que te devorão.
Ped.(21) Primeiro que o seu peito a ferir chegues, Hão de ser-me as entranhas arrancadas: Ha de em rios correr todo o meu sangue E o teu sangue tambem, se for preciso.
(21) Desesperado.
Af. Oh Ceos!.. Tremo de horror!..
Sanc. .......................... Senhor, que fazes? Ousas contra teu Pai?
Ped. ............... Ah! Que proferes? Pai? Eu tenho inda Pai?..(22) Nao, não, tyranno, Tu meu Pai já não és: não sou teu filho... Hum cruel como tu... Porém que digo!.. Com quem fallo?.. Onde estou?.. Quem me arrebata! O inferno, as furias todas me espedação... Quem falla não sou eu, trovejão ellas... Sacrilego!.. que fiz!..
(22) A D. Affonso, no mesmo frenetico arrebatamento.
Af. .................. Ceos, estais surdos!.. Onde os raios estão, que inda não chovem Sobre hum monstro, que tanto os desafia? Vingança!.. Maldições!..
Ped. .................. Tudo mereço. Ah! Se os Ceos inda immoveis não fulminão, He talvez que, assombrados de escutar-me, A desprender os raios não se atrevem. Debaixo de meus pés tremendo a terra, Quer abrir-se, e não ousa devorar-me... Até mesmo os abysmos se horrorisão De hum monstro, que soltou tantas blasfemias... Oh terror!.. Oh remorsos!.. Crime horrendo!.. Mas sabe o Ceo, Senhor, que, involuntarias, Não teve o coração parte nas vozes, Que por meus labios despejou o Inferno... O Inferno todo, que no peito encerro. Não me julgues capaz... Porém que digo!.. Infeliz!.. Desculpar-me intento ainda?.. Horror da Natureza, e de mim proprio, Nem me atrevo, Senhor, a supplicar-te O perdão... Não, eu delle não sou digno. Do pezo da existencia me allivia; Vinga da Natureza as leis sagradas, O respeito devido á Magestade, Que atropellei feroz: eterno exemplo Tu deves dar em mim ao Mundo inteiro. Salpicadas de sangue estas paredes, Que ouvírão minha voz blasfemadora, Aos seculos vindouros apregoem Meu lastimoso fim: ao vê-las tremão As Gerações futuras de imitar-me.(23) Eis-me a teus pés prostrado: vibra o ferro; Eis meu peito, retalha-o: não te lembres Que foste já meu Pai... sou delinquente: Lembra-te só que és Rei, castiga o crime. Porém... ah! não flagelles a virtude... Se me deves punir como culpado, Ignez como innocente absolver deves. Não me custa morrer; porém não posso, Não posso consentir que Ignez padeça... Nem ha de padecer em quanto eu viva. Pertender separar-nos he debalde; Té duvido que a morte possa tanto...(24) Releva ao meu amor estes transportes...(25) Eu sou sensivel... amo... e sou amado.
(23) Prostra-se aos pés de Affonso. (24) Tornando em si. (25) No tom mais pathetico.
Af. Todos os meus sentidos perturbados, Cheio de ira, e de horror... nem fallar posso... Affastem-me da vista esse rebelde. Ao proximo Castello conduzido, Seja em prizão segura afferrolhado: Sua guarda, D. Sancho, eu te confio; Em quanto justiçoso, inexoravel, Em Conselho d'Estado não decido Qual ser deva o castigo de seus crimes, E o supplicio da infame, que os motiva. Treme do meu furor, malvado, treme: Este dia talvez, dia horroroso! Será na longa serie das idades, De eterno espanto a Portugal, e ao Mundo.
Scena VI.
D. Pedro, e D. Sancho.
Ped. Inda mais horroroso do que pensas Certamente será, se não desistes De tão crueis designios. Que impiedade! O supplicio d'Ignez! Da minha Esposa!.. Como posso deixar de rebellar-me! Como evitar hum crime necessario, Que o dever, e a ternura me prescrevem?.. Hum crime disse?.. Ah, não; longe os remorsos; Defender huma Esposa não he crime; Crime fôra deixa-la ao desamparo. Longe, maximas vãs, leis oppressivas, Que a tyrrania impoz sobre a ignorancia, Nada se deve aos Pais pela existencia: Os desvelos depois, seus beneficios São os titulos só que lhes conferem Á nossa obediencia hum jus sagrado. Meu coração revoca os seus direitos: Arrependo-me só de arrepender-me Pelos ter justamente sustentado. Querias, Rei cruel, afferrolhar-me Em segura prisão, para a teu salvo Me poderes roubar a cara Esposa?.. Debalde o projectaste, não...
Sanc. ...................... Deliras?.. Que intentos são os teus?.. Resistir queres Ás ordens de teu Pai, que enfurecido...
Scena VII.
D. Pedro, D. Sancho, e D. Ignez.
Ign. Esposo, que fizeste?.. Oh Ceos, eu tremo!.. Da tua voz medonha horriveis écos Inda nestas abobadas retumbão; De furor suffocado, o rosto em fogo, Affonso espavorido, a longos brados Chama pelos atrozes Conselheiros: Certamente, faltando-lhe ao respeito, Lhe exacerbaste as iras. Que fizeste?
Ped. Menos inda talvez do que devia. Não te importe o que fiz, faze o que digo. As furias não receies do tyranno; Vai subito buscar os tenros filhos, E dispõe-te a seguir-me.
Ign. .................. Como!.. Aonde?..
Ped. Deixamos estes sitios, onde imperão A discordia, a injustiça, a iniquidade. Evitemos o extremo dos horrores: Acompanha-me, Esposa, se não queres Ver-me inda parricida.
Sanc. ............... Oh Ceos!
Ign. ........................ Que insania? Ah! Que dizes? Que intentas?
Ped. ...................... Defender-te, E possuir-te em paz; poupar-me ao crime. A tua vida, Ignez, ameaçar ousão; Affonso pertendia encarcerar-me, Talvez para ordenar o teu supplicio: Atreveo-se a dizer-mo: he necessario Fugir-lhe; ou repellir com braço armado Seus barbaros designios: eia, vamos, Não te demores mais.
Ign. .............. Eu desfaleço!... Desgraçada!... Onde queres conduzir-me?
Ped. Se necessario for, ao fim do Mundo: A meu lado segura, em qualquer parte Seremos venturosos; ermas grutas, Morada simples de prazeres puros, Mais gratas nos serão que aureos Palacios, Habitação fatal dos males todos.
Ign. Que me propões, Senhor! A voz me falta...
Sanc. Ah, Principe! Contempla o precipicio Em que vás despenhar-te, e a que me arrastas. Responsavel por ti...
Ped.. .............. A nada attendo.(26) Podes tombem, querendo, acompanhar-nos. Sim, eu te rogo, vem... De cãs coberto Tens conhecido assaz o ar pestilente, Que nas Côrtes costuma respirar-se, Halito venenoso, que derramão A traidora lisonja, a fraude, a intriga, Que em torno aos Solios quasi sempre girão. Longe de tanto horror, ah, vem ao menos Gozar em paz o resto de teus dias.
(26) Para D. Sancho.
Sanc. Feliz eu, se hontem fosse o derradeiro! Ah! Querias que proximo ao sepulchro Fosse ao meu Rei traidor? Que concorresse Para hum tal desatino?.. Eu, que incumbido Da tua educação (funesto emprego) Por elle mesmo fui, socio seria Em teus crimes, soffrendo que infringisses Teu dever!...
Ped. ....... Qual dever? Fúteis chimeras! O primeiro dever he ser ditoso, He seguir d'alma o natural instincto. Vamos, querida Ignez.
Ign. ............... Oh Deos! Que trance! Frenetico... ai de mim!.. Que premeditas? Teu nome, tua gloria offuscar queres? Seria a triste Ignez tão desgraçada, Que, origem de teus crimes, tolerasse A infamia de te ver por seu respeito A Patria abandonar, e o Throno excelso?.. Ah, que diria o Mundo...
Ped. .................. Que diria? Que o esplendor do Solio não deslumbra Huma alma como a minha. Eu nada perco Em deixa-lo por ti, não, cara Esposa; Vale mais ser feliz, que ser Monarcha.
Ign. E pode ser feliz quem atropella Da sociedade as leis, do sangue as vozes? Ah! Desiste, Senhor, de teus projectos; Obedece ao teu Rei: jámais esperes, Que eu approve, ou consinta os teus delirios: Nem te deixo partir, nem te acompanho... Eu não quero roubar a hum Pai seu Filho, Nem tolher a ventura aos Lusitanos, Privando-os do melhor dos seus Monarchas. Se os meus rogos...
Ped. ............. Teus rogos são inuteis: Que! Recusas, Ignez, acompanhar-me?.. Ah, não vês nestes sitios horrorosos Girar em torno a nós a morte, e os crimes!
Ign. He para os evitar que eu te não sigo. A honra, a gloria valem mais que a vida. Entre os crimes, e a morte, a morte escolho. Mas ah! porque tão proxima a divisas? Decretou-ma teu Pai? Nada me encubras: Sabe elle já que em vinculo sagrado...
Ped. Tudo lhe revelei: mas o tyranno, Fingindo não poder acreditar-me, Orgulhoso, tenaz em seu capricho, Ameaçou-me... que horror! com teu supplicio; E, para a seu sabor poder julgar-te, Em segura prizão manda encerrar-me No proximo Castello. He pois forçoso...
Ign. Obedecer-lhe, sim.
Ped. ................. Obedecer-lhe?..
Ign. Indispensavel he, vai, caro Esposo; Submisso aos Paternaes Regios preceitos, Eu to rogo, Senhor, á prizão corre. Outro meio não tens para salvar-me; Nem eu por outro meio a vida quero: Outra vez to asseguro, eu não te sigo; Jámais conseguirás...
Ped. ............... Basta: não queres Estes sitios deixar? Queres ver nelles Derramados por mim rios de sangue?.. De huma austera virtude enthusiasmado Ao parricidio, em fim, queres forçar-me? Pois bem, a perpetra-lo estou disposto. Eu vou, sim, eu vou já...
Ign. ................... Cruel; detem-te: Meus gemidos, meu pranto já não podem Mover-te o coração, domar-te as furias? Onde o imperio que Ignez tinha em tua alma?
Ped. Não te cances, debalde são agora Teus rogos, o teu pranto, os teus gemidos: Este dia horroroso he consagrado Á desesperação, ao crime, á morte. Inflammado em meu peito, só com sangue Das furias o tição pode apagar-se. Impedir ninguem pode, nem tu mesma, Os golpes espantosos, que o meu braço Vai já descarregar.
Ign. ............. Por mim começa: Rasga-me o coração, da Esposa o sangue Seja o primeiro sangue que derrames; E se elle não bastar a saciar-te, Aos sacrilegios todos te arremeça... Que horror! Nem ouso em ti fitar meus olhos. És tu? Não, tu não és o meu Esposo; O meu Esposo detestava os crimes: Eu amava hum Consorte virtuoso; Virtudes já não tens, já te não amo. Vai, monstro sanguinario... Mas que disse? Eu deixar de te amar? Não me acredites: O terno coração desmente as vozes, Que, a meu pezar, de ouvir-te horrorisada, Sem tino proferi... Olha o meu pranto.(27) Abatida a teus pés, co'elles me abraço... Ou tu has de ceder aos meus lamentos, Ou ver-me aqui morrer, e aos pés calcar-me.
(27) Prostra-se, e abraça-se com os pés de D. Pedro.
Ped. Oh Ceos!.. Querida Esposa.(28)
(28) Enternecido, querendo levantar D. Ignez.
Ign. ......................... Eu não te deixo, Daqui me não levanto, sem primeiro De tua alma banir as negras furias; Sem que tu me promettas obediente Ir subito cumprir as Regias ordens. Ah! se tu amas inda as minhas preces, Não has de resistir...
Ped. ................ Nem já resisto.(29) Deixar de obedecer-te, ah, quem, quem pode!.. Para a prizão já parto.(30) Amigo, vamos.(31) Poderás duvidar inda do imperio Que em meu coração tens?
(29) Levanta D. Ignez. (30) A D. Sancho. (31) Voltando-se para D. Ignez, e com a maior ternura.
Ign. .................. Oh Deos! Conforto!(32) Não me retalhes mais o peito afflicto.(33) Á trémula razão ceda a ternura; Não te demores mais...
(32) Voltando-se ternissimamente. (33) Affectando tranquillidade.
Ped. ................ Mas tu...
Ign. ......................... Socega; Nada temas por mim: o Ceo me inspira Os meios de abrandar de Affonso as iras. Irei c'os filhos a seus pés prostrar-me: Ninguem resiste á voz da natureza: Por mais duro que seja o seu caracter, Se tem hum coração, ao ver os Netos Abraçados em mim, chorar comigo, Não poderá deixar de commover-se, De perdoar-me em fim; nada receies. Adeos, Esposo, adeos.(34)
(34) Muito a seu pezar precipitadamente se retira.
Ped. ............... Ceos! que supplicio!