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Nova Castro

ACTO II.

Reading edition

Scena I.

D. Affonso, e D. Pedro.

Af. Basta, Principe, basta: prescindamos De justas arguições, de escusas futeis; Não quizeste ir, vim eu. Quero esquecer-me, Perdoar quero mesmo as tuas faltas, Huma vez que obediente hoje as repares. Concluão-se estas nupcias proveitosas, Que para teu prazer, e a bem do Estado, Prudente contratei. Verás com gosto, Quando Lisboa entrares a meu lado, Com quanto regozijo o Povo todo, Teu consorcio applaudindo, a festeja-lo Com pompa jámais vista se prepara. Que doçura não he para os Monarchas, Espalhar alegria entre os Vassallos! Vê-los mandar ao Ceo ardentes votos, Pela conservação da Regia Prole, Que lhe segura a paz, a dita, a gloria! Vêr que as suas acções o Povo approva, E contente abençôa o seu Reinado, Curvando-se de grado ao leve jugo, Que sómente os máos Reis fazem pezado! Mil graças dou aos Ceos, pois satisfeitos Julgo estarão de mim os Lusitanos. E nada mais desejo que deixar-lhes, Em meu filho, outro eu, que sempre os ame, E que por elles seja sempre amado. Começa desde já neste consorcio A firmar o seu bem. Sim, hoje mesmo Deves partir comigo para a Corte, A fim de o celebrar, logo que chegue A Infanta de Castella, digno objecto Que escolhi para Esposa de meu filho.

Ped. Ah! Que seja possivel, por meu damno, Que o melhor dos Monarchas do Universo, Igualmente não seja o Pai mais terno! Que hum Rei, que desvelado buscou sempre Fazer os seus Vassallos venturosos, Queira fazer seu filho desgraçado!... Contratares, Senhor, sem consultar-me Hum consorcio, ignorando se teu filho Pode, ou quer d'Hymenêo ás leis cingir-se! Se essa, que lhe destinas para Esposa, Pode ao seu coração ser agradavel! Acaso julgas tu desnecessaria A minha approvação para estas nupcias! Não será livre hum coração ao menos Na escolha d'huma Esposa, que amar deve... Ah! Não queiras, Senhor, com tal violencia...

Af. Immudece, insensato; não prosigas Indignas expressões que me envergonhão... Bem conheço a razão porque assim pensas. Que indignos sentimentos, que fraqueza, Para quem deve hum dia ser Monarcha! Como, quando do Imperio as redeas tomes, Quando na mão a espada formidavel Da severa Justiça sustentares, Das paixões punirás o torpe effeito, Sendo tu proprio das paixões escravo? Como jámais serás obedecido, Se tu mesmo ao teu Rei desobedeces? Com quanta repugnancia os Portuguezes, Murmurando, verão no Luso Solio, Que de tantos Heróes tem sido assento, Hum Rei dado ás paixões, afeminado, Incapaz de empunhar o Sceptro augusto!

Ped. Mas capaz de os reger, e defende-los. Se das grandes paixões sou susceptivel, A molleza detesto, bem o sabes: Quando cumpre, Senhor, em campo armado; Ensinado por ti, brandindo a espada Sei por acções mostrar que sou teu filho; Nem para ser bom Rei (Senhor, perdôa) Eu julgo necessario huma alma dura; Mas antes me persuado não devêra O que fosse insensivel reger Homens. Corações que á ternura se não rendem, Jámais sabem carpir alheios males; Nem doêr-se das lagrimas do afflicto.

Af. Apagada a razão, cégo deliras; Isentos de paixões os Reis ser devem; Manão dos seus os publicos costumes: Se exemplificão mal os seus Estados, Os vicios dos Vassallos são seus vicios; Devem sacrificar os seus desejos; Ser comsigo crueis a bem dos Povos, Que o Ceo lhes confiou; e os que se ensaião Para lhes dar as Leis, devem mostrar-se Capazes destes nobres sacrificios. Os consorcios dos Principes são obra Dos int'resses do Estado, elles decidem, Elles dispõe de nós. Deixem-se ao Vulgo Caprichosos melindres com que exige, Que aos laços d'Hymenêo Amor presida. As doçuras de Amor para os Monarchas São de pouca valia: a nossa gloria Não se firma em tão fracos alicerces.

Ped. Se aos que devem reinar he necessario Ceder dos privilegios, dos direitos Que a Natureza deo aos Homens todos; Por tal preço, Senhor, não quero o Throno! Laços formar, que o coração repugna, Origem de desgraças, e de crimes... Assaz o exp'rimentei... grilhões tão duros, Por tuas mãos lançados, longo tempo Com bem custo arrastei... Supportar outros... Ah! Não, Senhor, não posso.

Af. ...................... Temerario! Basta já de soffrer hum filho ingrato. Se aos rogos, ás razões de hum Pai benigno Tu não queres ceder; cede aos preceitos De hum Monarcha severo, e justiçoso. Eu dei minha palavra, has de cumpri-la: Os tratados dos Reis não são falliveis: Debalde pois te oppões...

Ped. ................... Mas ah! Pondéra...

Af. Tenho em fim decidido. Acaso queres, Deixando de cumprir o meu Tratado, Entre os Povos soprar horrenda guerra? Queres vêr Portugal nadando em sangue? Contra nós conspirada a Europa inteira, Abraçando o partido de Castella, Vir vingar sua injuria? Ah!...

Ped. ......................... Que recêas? Portugal vencedor, nunca vencido, Zombará do poder do Mundo inteiro. Tão ousada será, tão nescia a Hespanha, Que contra nós se atreva a mover guerra? Não ha de inda lembrar-se o seu Monarcha, Que te deve os Dominios que possue? Que ha bem pouco, cercado de inimigos, Vendo nas mãos o Sceptro vacillante, Mandou a propria Esposa, filha tua, A implorar-te que fosses soccorre-lo, Ou antes sobre o Throno sustenta-lo? E que do filial pranto commovido, Não contente em mandar-lhe tuas Tropas, Tu proprio á testa dellas generoso Quizeste ir debellar seus inimigos, E segurar-lhe a C'roa na cabeça? Ha de offender quem soube defende-lo! Quem pode, apenas queira, anniquila-lo? Não; quem vio pelejar, ao teu commando Nas margens do Salado os Portuguezes, A atacar Portuguezes não se atreve; E se o tanto chegar a sua insania, Á maneira dos seus antepassados, Chorando o opprobrio de ficar vencido, Caro lhe custará seu louco arrojo. Oxalá que elle á guerra nos convide! Poderia teu filho então mostrar-te, Que te sabe imitar quando he preciso, Novos louros cingindo ao teu Diadema.

Af. Que desatino! Oh Ceos!.. Eu me envergonho De te haver dado o ser: de te ouvir tremo... Tristes Vassallos meus, amados filhos, Que Monarcha vos deixo sobre o Throno! Tu desejas a guerra? Esse flagello, Que envergonha, e devasta a Humanidade? O capricho dos Reis que imposta aos Povos? Ouve as lições de hum Pai, posto que iroso Só devêra tractar do teu castigo. Eu não posso deixar quando te escuto, De reprender-te, ó filho, e de ensinar-te: Talvez por ti mandado á sepultura, Bem depressa no Throno me succedas; Não te esqueças então dos meus dictames: Poupa o sangue dos miseros Vassallos, Do mais infimo delles préza a vida Outro tanto que a tua; teme a guerra, Que ao proprio vencedor sempre he funesta: No meio do triunfo os bons Reis chorão. Nessa mesma tão célebre batalha, Que julgas me cingio de louro eterno, Quando juncavão do Salado as margens Os montões de cadaveres sem conto De infieis derrotados inimigos; Por perder trinta só dos meus Soldados, Muito cara julguei esta victoria, E, dentro de mim proprio recolhido, Mais pranto derramei, do que elles sangue. Os Reis devem ser Pais de seus Vassallos; Nada mais que o seu bem deve importar-lhes... Elle exige estas nupcias, que te ordeno; Suas vozes escuto, e não as tuas. Já te disse que dei minha palavra, E torno-te a dizer que has de cumpri-la. Affonso he teu Monarcha: mando, e basta. Hoje mesmo comigo para a Corte Vê que deves partir, vai preparar-te.

Ped. Teus passos seguirei, porém debalde... Celebrar o consorcio que pertendes... Quizera obedecer-te, mas não posso... Sem que te diga mais, assaz te digo.

Scena II.

D. Affonso só.

He possivel, oh Ceos, que assim meu filho Temerario resista aos meus preceitos!.. Que cegueira! Que arrojo! He necessario Desarraigar-lhe d'alma por violencia A funesta paixão que o traz de rojo: Mas de que modo?.. Cumpre medita-lo... Seja em fim como for, desempenhado Meu Tratado ha de ser: o ingrato filho, Em vez de hum Pai benigno, hum Rei severo Ha de encontrar em mim. Oh lá, D. Nuno.(13)

(13) Chamando.

Scena III.

D. Affonso, e D. Nuno.

Nun. Que me ordenas, Senhor?

Af. ....................... Os Conselheiros Vai chamar... mas espera, ahi vem Pacheco.

Scena IV.

D. Affonso, Pacheco, e D. Nuno.

Af.(14) Quem tal dissera, Amigo! Eu me envergonho Sómente de o pensar: o iroso aspecto De hum Monarcha, de hum Pai, razões, ameaços Nada bastante foi: ousa o rebelde Ás nupcias recusar-se, aos meus preceitos; Mas ha de obedecer-me, aos Ceos o juro. Os meios estudemos, que efficazes A sua contumacia vencer possão: Se necessario for, inexoravel, Rigoroso serei.

(14) D. Affonso se dirige a Pacheco, e D. Nuno se afasta para o fundo da Scena.

Pach. ......... Dever funesto He, Senhor, na verdade, o de hum Vassallo, Que fiel ao seu Rei, bem que sensivel, Na precisão se vê de supplicar-lhe, Que suffoque a piedade, e que castigue... Mas o int'resse do Estado, e mais que tudo O decoro do Throno assim o exigem. De incorrupta lealdade claras provas Eu protesto dar sempre ao Rei, e á Patria. Longe de desculpar, porque he teu filho, Do Principe a Paixão, funesta origem Da sua contumacia; com franqueza Direi meus sentimentos, sem que possa Tolher-me as expressões o temor justo De perder o favor, de ser odiado De hum Principe que adoro, e que respeito. Se queres que teu filho te obedeça, Corta a indigna prizão que maniatado O coração lhe traz, e que o estorva De entrar em seus deveres: pune, extingue Esse objecto fallaz que a alma lhe encanta: De contrario, Senhor, serão baldados Outros meios quaesquer que projectares.

Af. Seja punida, sim, seja punida Mulher que tantos males origina; Que impera mais do que eu, e que se atreve A usurpar-me do filho a obediencia. Seu crime... Mas que digo!.. por ventura Não he meu filho mais culpado qu'ella! Serei eu parcial punindo Castro, Sem que seja igualmente castigado Quem deve mais do que ella ser punido?

Pach. O Principe he teu filho, tanto basta Para ser absolvido, e desculpado: A condição d'Ignez he mui diversa.

Af. Não puno condições, puno delictos. Antes de tudo interroga-la devo. D. Nuno, chama Ignez.(15) Ouvi-la quero, Sondar seu coração; depois veremos Se he digna de castigo.

(15) Parte D. Nuno.

Pach. ................ Ah! Se attenderes Suas vozes, Senhor, suas escusas, Por seu astuto pranto subornado, Deixarás por piedoso de ser justo. Quem foi capaz de fascinar o Filho, Pode o Pai fascinar. Arte impostora A peitos feminís Amor suggere: Quando as abraza criminosa chamma, Negão as expressões o que a alma sente, E c'o auxilio das lagrimas convencem. Attende, attende só ao bem do Estado, Ao exemplo que deves ao teu Povo, Que, murmurando já, talvez se azede Se vir que em nova guerra o precipita Do Principe a paixão escandalosa. Não soffrerá Castella a grave affronta De ser, do seu Tratado em menoscabo, Por teu Filho Beatriz repudiada: E o consorcio D. Pedro não celebra, Sem que até da lembrança Ignez lhe affastes. Atalha em quanto podes tantos males: Muitas vezes punir he ser piedoso.

Af. Tu me fazes entrar nos meus deveres. Para me resolver a castiga-la Basta o bem do meu Povo que me lembras. No coração de hum Rei digno do Throno, Se os int'resses do Estado a voz levantão, Compaixão, amizade, natureza, Tudo, tudo immudece. Exterminada, Em remota clausura Ignez reclusa, Da presença do Principe se affaste: Não torne a ver meu filho essa que o céga, Em quanto, da razão accêso o facho, As tochas de Hymenêo arder não faça; E se isto não bastar, mão lançaremos De outro mais efficaz, duro remedio.

Pach. Não bastará talvez; por mais que seja Recatado, e remoto qualquer sitio, Que para o seu desterro escolher possas, Lá mesmo irá teu Filho arrebata-la. Eu calo o mais que sinto, e só te lembro Que a quereres com ella ser piedoso, Poupando-lhe hum maior, justo castigo, De Portugal ao menos a desterres. Occasião, Senhor, tens opportuna De envia-la ao Monarcha de Castella, Que zeloso da filha no decoro, Guardará providente em segurança A rival que se atreve a disputar-lhe O coração do Principe. Este arbitrio Segue pois, se te apraz, bem que inda o julgo Para tão grande mal remedio fraco.

Af. Seguirei teu conselho; porém antes Já de brandura usando, já de ameaços, Quero tentar o coração de Castro; Vêr se a posso mover a que ella mesma As chammas que accendeo apagar busque... Mas ella para aqui já se encaminha.

Scena V.

D. Affonso, Ignez, Pacheco, e D. Nuno.(16)

(16) Pacheco afasta-se para o fundo da Scena, logo que Ignez se chega ao Rei, e D. Nuno que a conduz te retira.

Ign. Eu desfalleço... Oh Ceos... Excelso Affonso, Permitte que a teus pés Ignez prostrada...(17)

(17) Prostra-se aos pés do Rei.

Af. Levanta-te, ardilosa. Não he digna De beijar a Mão Regia huma vassalla, Que a perpetrar se atreve altos delictos.

Ign. Eu perpetrar delictos! Quaes são elles? Fiel sempre ao meu Rei, vassalla humilde, Ignoro em que offendesse a Magestade.

Af.(18) Além de criminosa, inda impostora!.. A fallaz artificio em vão recorres. De sobejo sciente do teu crime. Tua simulação mais me enfurece: Ousarás tu negar que amas meu filho?

(18) Contemplando-a iroso.

Ign. Não, Senhor, a nega-lo não me atrevo... Nem, por mais que eu quizesse, poderia Deixar de confessar o que os meus olhos, O rubor de meu rosto assaz te explicão: Sim, se he delicto amar, e ser amada, Meu coração, Senhor, he criminoso... Mas eu não sou culpada.

Af. .................. Que proferes? Se confessas tu mesma o teu delicto, Dizes não ser culpada?

Ign. ................ Sou ingenua. Em chamar-me impostora te enganaste: Tenho-te dicto assaz... e mais dissera, Se licito me fosse.

Af. .............. Acaba, dize: Que cegueira fatal, que louco arrojo, Vãs, altivas idéas te inspirárão? Como intentaste ousada ter imperio No coração d'hum Principe? Não vias A distancia empinada, inaccessivel, Que do teu berço vai ao Throno excelso?

Ign. Quando amante paixão nos predomina, Offuscada a razão, a ninguem lembrão As distincções fataes do berço, e sangue. São iguaes ante amor os mortaes todos: De virtude sómente se enamora Huma alma virtuosa: só virtudes Convidárão Ignez a amar teu filho.

Af. E atreves-te a fallar inda em virtude? Não profanes palavra tão sagrada; Antes dize que estólida esperança, Avidez de reinar, te fez culpada. Talvez da minha já cançada vida Contando os longos importunos dias, Te tardava o momento suspirado, Em que, baixando Affonso á sepultura, Vazio o Throno, aos teus desejos franco, Te cingisse o Diadema a indigna fronte.

Ign. Que injustiça!.. Minha alma não conheces, Não conheces de amor o desint'resse: Quem ama, só deseja ser amado. E a par de hum coração como o de Pedro, Os Diademas que são? Que vale o Mundo? Quem de seu terno peito o imperio obteve, Mais imperio não quer: nem se deslumbrão As almas grandes c'o esplendor do Throno. Quando a amor succumbi, do Solio estava Mais longe que o meu berço a minha idéa; Por isso não medi como devêra A declive distancia que os separa; Mas hoje a vejo assaz, e mais deploro A condição do Principe, que a minha; Quizera que tivesse antes nascido Vassallo o meu amante, que eu Princeza: Longe de o cobiçar, detesto o Throno: Nelle diviso só barreira odiosa, Que entre peitos sensiveis sorte adversa Alçou para que nunca unir-se possão... Sei que sou infeliz... e o serei sempre.

Af. Podes inda evitar maior desgraça; Quem logo que o conhece o crime atalha, A innocencia recobra. Extingue, ó Castro, As criminosas chammas que sopraste; Quanto são detestaveis não ignoras, E bem vês que nutri-las mais não podes. Antes pois que do Principe te affastes, (A tão graves delictos leve pena, Que hum benigno Monarcha te destina) Teu completo perdão merecer busca. Tu mesma de seus erros o dissuade, E o convence a cingir-se aos dignos laços Do plausivel consorcio que lhe ordeno: Concorre para o público socego, Em vez de o perturbar: não exacerbes Pertinaz em teu crime as minhas iras. Teme o castigo atroz de que és credora, Se ao coração do Principe as que urdiste Prisões abominaveis não desatas.

Ign. Muito exiges de mim!.. Ah! Se eu podesse As algemas romper que nos vinculão, Só por te obedecer (crê-me) o fizera: Mas como n'hum momento arrancar posso Do peito de teu filho sentimentos, Que amor, e sympathia originárão? Para sempre deixar a terna amante, E subito ir lançar-se em braços de outra!.. Se elle tivesse huma alma tão voluvel, Por ama-lo increpada eu não seria? Que proferi?.. Deliro... Oh Ceos... Perdôa... Perdôa-me, Senhor, talvez o tempo... Extinguir poderá... Não sei que digo.

Af. Basta: immudece já, mulher soberba. De sobejo em tua alma tenho entrado. Ousas alardear, ante mim proprio, Do mais nefando crime! Ah! que castigos Bastarão a punir teus attentados! Tudo quanto ha de horrivel...

Scena VI.

D. Affonso, Ignez, Coelho, e Pacheco.

Coel. ...................... De Castella Embaixador chegou, que Audiencia pede.

Af. Entrar póde.

Scena. VII.

D. Affonso, Ignez, e Pacheco.

Af. .......... Retira-te atrevida; De meus olhos te affasta; vai, que em breve Te serão minhas ordens intimadas.

Ign. Humilde, e respeitosa hei de cumpri-las. Mas só te rogo que, antes de punir-me, Te dignes sem paixão sondar meu crime; Pois se pezares bem os meus delictos, Espero que me julgues desculpavel.(19)

(19) Retira-se Ignez, e D. Affonso fica pensativo, em quanto Pacheco falla.

Scena VIII.

D. Affonso, e Pacheco.

Pac. Que insolente altivez ostentar ousa!.. Eu te lamento, ó Rei, quando te vejo Na dura precisão de repellires Da tua alma os impulsos compassivos, Constrangido a punir asperamente, Para evitar terriveis consequencias.

Scena IX.

D. Affonso, Coelho, Pacheco, e o Embaixador.

Emb. A Filha do meu Rei, que te saúda, Já dos Dominios teus piza as fronteiras; Mas o boato geral de que teu filho, Por violenta paixão allucinado, De Beatriz ao consorcio se recusa, Aos ouvidos chegou do meu Monarcha, Que me ordena te diga, e te assegure, Que se com tal repulsa, em seu desdouro, O Tractado solemne for violado, (O que elle não espera) dignamente Saberá sustentar a toda a força O decoro da filha, e do seu Throno.

Af. Dize da minha parte ao teu Monarcha, Que para dissipar seus vãos receios, Bastaria lembrar-se que os Reis Lusos, Fidelissimos sempre, seus Tractados Sabem desempenhar: não porque temão, Quaesquer que sejão, estrangeiras forças; Mas por dever, por gloria, e por costume. E para lhe mostrar como procedo, Hoje mesmo desterro de meus Reinos, E á sua guarda entrego Ignez de Castro, Que elle julga estorvar da Infanta as nupcias. Podes certificar-lhe, que consorte Ha de meu Filho ser da Filha sua.

Emb. Nem era de esperar que hum Rei tão sabio Procedesse jámais d'outra maneira, Prompto vou expedir ao meu Monarcha A plausivel resposta, que lhe envias.

Scena X.

D. Affonso, Coelho, e Pacheco.

Af. Sem demora, Pacheco, apromptar faze, Para Ignez conduzir, segura escolta: Vai, Coelho, dizer-lhe que se apreste: Partirá hoje Ignez para Castella, E meu filho comigo para a Corte.

Coel. Oxalá que assim seja! Mas duvido. Em castigar avaro em demasia, Além de ser, Senhor, simples desterro Aos delictos de Ignez pena mui leve; Receio que de horriveis attentados Seja origem fatal este projecto. Fôra talvez melhor lançar mão logo Dos efficazes, ultimos remedios. Eu conheço o caracter de teu filho: Mal souber que roubar-lhe Ignez intentas, Dos filiaes deveres esquecido, Com braço armado, temo que se atreva Contra seu proprio Pai.

Af. .................. Nem tal profiras: Não faças a meu filho essa injustiça: De tão feio attentado basta a idéa Para me horrorisar. Ide ligeiros Fazer que as minhas ordens se executem. Ah! Se alguem se atrevesse a contravi-las, Seu tremendo castigo serviria De memorando exemplo ao Mundo inteiro.

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