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Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 04 (de 12)

FORMOSA E INFELIZ

Reading edition

A dita e a formosura,

Dizem patranhas antigas,

Que pelejaram um dia,

Sendo d'antes muito amigas.

Muitos hão que é phantasia;

Eu que vi tempos e annos,

Nenhuma cousa duvido

Como ella é azo de damnos.

BERNARDIM RIBEIRO.

São verdadeiras as trovas do poeta das Saudades.

Aquella Maria da Penha que o leitor viu, ainda agora, carpida n'um soneto, foi muito incensada por formosa antes da sua queda. Uns poetas a embriagaram com o perfume da lisonja, em quanto ella se manteve honesta; outros lhe depozeram alguns bagos de assafetida na ambula funeraria, quando os seus creditos eram mortos e responsados no catafalco que a sociedade levanta ás suas mesmas victimas.

E já que eu trasladei o soneto, como epitaphio do seu tumulo no convento onde se finou, trasladarei tambem uns versos que lhe deram alor e azas á vaidade que a perdeu.

Suspeito que o poeta d'estes cantares não fosse o fidalgo que a levou arrebatada de entre um thalamo e um berço. Os poetas, por via de regra, costumam enflorar os holocaustos sacrificados nas aras da prosa. Assim o requer o equilibrio do cosmos. Á poesia--a lyra que insinua no coração da mulher as phantasias com que mais se alinda e encarece; á prosa--as delicias d'essas bellas cousas, o dominio das aves do paraiso, que os poetas farejam, á laia de nebris que pairam a denuncial-as ao caçador sagaz.

A meu vêr, em quanto o marquez de Gouvêa mandava ajaezar os cavallos para a funesta fuga, um dos muitos idolatras da formosissima Maria motejava uma quadra e derivava d'ella a glosa tão presada n'aquelles tempos:

A D. MARIA DA PENHA DE FRANÇA

MOTE

Abre-te, penha constante, serás minha sepultura; e, se os meus ais te não movem, digo-te, penha, que és dura,

GLOSA

Penha, já sei que és tão dura, porque dous soes te geraram; seus raios te despojaram das reliquias da ternura: Porém, se a corrente pura de meus olhos incessante abrandar um diamante; a meu pranto sucessivo, quebra-te, marmore vivo, abre-te, penha constante. Até nas mais duras penhas, lavrador o tempo sendo, as aguas, que vão correndo, fazem regos, abrem brenhas. Não receies tu que venhas a perder por menos dura; pois meu pranto o que procura é desfazer-te em piedade; e, se abrir concavidade, serás minha sepultura. Lagrimas não te enternecem antes te tornam mais dura; roubou-lhe o preço a ventura ou por minhas desmerecem. Meus ais sentidos parecem golpes, que pedras commovem; mas como faiscas chovem de ti, que farei, oh penha, se o teu rigor mais se empenha e se os meus ais te não movem? Teu nome a dizer se empenha quem tu és por semelhança; pois no garbo és toda frança, na dureza és toda penha: Penha em que pienha tenha essa rara formosura; mas, se estatua ser procura a meu suspiro incessante, mais que o mais duro diamante, digo-te, penha, que és dura.

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