ANTONIO SERRÃO DE CASTRO
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As indagações de Diogo Barbosa Machado, ácerca do poeta Serrão, reduzem-se a datar-lhe o nascimento.
Á falta de outros subsidios, bastariam as poesias do travesso sujeito a esclarecer-lhe a vida mysteriosa aos mais atilados investigadores. O maior numero d'ellas está inedito. E o seu mais notavel poema, em tercetos, que perfazem 2:090 versos octosyllabos, chama-se Os ratos da inquisição.
No palacio da inquisição passou elle alguns annos de sua vida, que de certo não foram os melhores.
Pelos modos, era hebreu dos quatro costados; mas não adorava o bezerro, nem se abstinha dos paios do Alemtejo. Em quanto o deixaram, viveu e medrou á lei da natureza. Seguiu fervorosamente a religião do prazer, repartindo alma e versos por judias, christãs e mouras, consoante lhe sahiam a talho de fouce. Tanto afinava a lyra para cantar fidalgas como regateiras. Entre estas, houve uma vendilhona de maçãs camoezas que não foi das menos amadas e menos esquivas. Se os poetas modernos querem ajuizar do lyrismo plebeu d'este seu bisavô, aqui teem uma das cançonetas dedicadas á saloia das camoezas, e cantada pelos cytharedos d'aquelle tempo:
Para a feira vai Luiza Co seu balaio á cabeça Todo enramado de louro E cheio de camoezas. Leva saia de jilezia, Tambem jubão branco leva, Que serve o jubão de branco[7] D'onde Amor atira as flechas. Sobre os dedos, pendurados Leva seus punhos de renda, Tão valentona caminha Que treme o bairro de vêl-a. Lá no meio do Rocio Levanta a voz mui serena Como se aprendera solfa: «Eu já tenho camoezas.» A voz tão divina e grave, A voz tão de prata e bella, Os galantes se alvorotam E ferve a bulha na feira. Deixam todos as boninas Só por ver esta açucena; Em um momento, cercada Se viu esta fortaleza. Os requebros que lhe dizem São balas de feras peças: Mas no muro de seu peito Acham grande resistencia. Uns apreçavam a fruta, Outros tiram da algibeira Ás mancheias os tostões, Aos alqueires as moedas. Mas Luiza, mui de espaço, Levantando a voz tão bella, De quando em quando repete: «Eu já tenho camoezas.»
Hoje em dia, por acerto haverá ahi poetastro a quem pareçam, sequer toleraveis, estas linhas toadas, sem faisca de ideal, sem realismo, sem as satanisações modernas; no entanto, o coração entende-se melhor n'aquelles poetas que, em vez de se evolarem á poeira luminosa da via-lactea, andavam alli pelo Rocio amoriscados de fruteiras de camoezas.
Por causa d'estes amores innocentes e frescos, não foi Antonio Serrão de Castro disputar aos ratos da inquisição a magra pitança da sua alcofa. O leitor alguma vez ha de lêr os queixumes do hebreu, repassados de tanta ironia, que a gente se admira que os graves monges de S. Domingos lhe não acendrassem o engenho no fogo.
Quando o poema satyrico se escoou das grades do carcere para a assembléa dos catholicos, um poeta christão, no intuito de apressar o processo do judeu, divulgou as seguintes decimas:
Judeu de mau proceder, Que, se em teus versos discorro, Logo pareces cachorro, No ladrar e no morder. Ainda espero vêr-te arder, Pois com tanta sem-razão Murmuras da inquisição; Porém, é força em teu erro, Se te tratam como perro; Que te vingues como cão. Dos ratos, d'esta maneira, Te queixas e de seus tratos; É mau queixar-te dos ratos, Estando na ratoeira. Tua allusão sorrateira Saber o engenho procura, E a rhetorica se apura N'esta allusão que formaste, Pois d'esta figura usaste, Antes de fazer figura. Nescio, depois de judeu, Quando o sambenito mamas, Triste portuguez te chamas, Sendo o mais astuto hebreu! Quem te vira posto em breu Ou partido de uma bala! Ninguem comtigo se iguala, Pois fazes, quando precito, Sendo infame o sambenito, D'esse sambenito gala. Se viveste descortez, Com repetida torpeza, Mais á lei da natureza Do que na lei de Moysés, Queixa-te só d'esta vez De ti, mas não de outro trato; Que eu sei que nunca do rato Te queixarás, asneirão, Se assim como foste cão, Poderás tornar-te gato.
Os ferventes desejos d'este catholico, assim rimados, chegaram ao ergastulo do cantor dos ratos, e vibraram-lhe os nervos da espinha dorsal. Não lhe pareceu caso novo e original queimarem-no. Embridou, por tanto, a musa da galhofa, e cahiu em si. Começou de escrever poesias orthodoxas ao nascimento do Menino-Deus, aos santos e santas mais em voga, ungindo tudo de lagrimas de contrição que era uma piedade lêr-lhe os sonetos, os quaes, ainda agora, li bastantemente commovido. O certo é que o vaticinio do bardo christão foi desmentido pelo hebreu que sahiu absolto, e por ahi andou por Lisboa até aos setenta e quatro annos, rindo de tudo com resalva das conveniencias, e vivendo com as largas, que lhe davam os seus admiradores, e acamaradado com os primeiros fidalgos. Nasceu em 1610 e morreu em 1684.
[7] Alvo.
FIM DO 4.º NUMERO