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Nas trevas

SENTIMENTO

Reading edition

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I O Conde de S. Salvador de Mattosinhos

O conde entrou no albergue arruinado De S. Miguel de Seide. Era anciosa A vida que eu vivia tormentosa, Á cegueira fatal já condemnado.

Eu vi-lhe o coração bondoso e honrado Na face ingenua e triste e maviosa; Pulsava n'elle a nota dolorosa Do estranho soffrimento recatado.

Chorava ao despedir-se. Era a tristeza De me deixar na formidavel presa Da treva, em quanto a morte a não dissolve.

Partiu chorando. E nunca mais nos vimos. Mortos! Ao mesmo tempo, ambos cahimos Na eterna escuridão que nos envolve.

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II Visconde de Benalcanfor

Já morto! Dilacera-me a saudade. Não tenho mais ninguem d'aquelles dias De ephemeras, vibrantes alegrias, Que me illumine a escura mocidade.

Que ridente e subtil jovialidade! Que brilhantes hyperboles fazias, Com graça encantadora, quando rias Dos sérios carnavaes da sociedade!

A dor de envelhecer não a venceste; Pois que do coração sempre viveste, Matou-te finalmente o coração.

Vencido luctador, meu pobre amigo, Desde hontem que tu dormes no jazigo O sinistro dormir da podridão.

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III A maior dor humana

(Na morte quasi simultânea dos dois filhos unicos de Theophilo Braga)

Que immensas agonias se formaram Sob os olhos de Deus! Sinistra hora Em que o homem surgiu! Que negra aurora, Que amargas condições o escravisaram!

As mãos, que um filho amado amortalharam, Erguidas buscam Deus. A Fé implora... E o ceu que respondeu? As mãos baixaram Para abraçar a filha morta agora.

Depois, um pai que em trevas vae sonhando, E apalpa as sombras d'elles onde os viu Nascer, florir, morrer!... Desastre infando!

Ao teu abysmo, pai, não vão confortos... És coração que a dôr impedreniu, Sepulchro vivo de dois filhos mortos.

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IV Luiz—O Bom

Quando El-Rei D. Luiz for accolhido Aos penetraes da escura eternidade, Será pungente a funeral saudade Que mais pondera e chora o bem perdido...

Não houve em seu reinado um só gemido De guerra fratricida! A Magestade, Passando o sceptro ás mãos da Caridade, Baixava ao lar sem pão, do desvalido.

Senhor! deram-te as lettras ledos dias, E as intimas, supremas alegrias De quem trabalha—Eterna e sancta lei!

Revives na saudade, alma serena! Se a patria em que reinaste era pequena, Fôras em maior reino um grande rei.

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V Lagrimas

Senhora! em vosso rosto macerado Transluz da alma afflicta a immensa dôr! D'um lado, a morte; do outro, o vosso Amor Tremenda lucta ao pé do Esposo amado!

Contaes as pulsações do peito anciado Em estos convulsivos do estertor; Só podem vossos labios dar calor Áquelle corpo inerte, hirto, gelado.

Vós bem vêdes, Senhora, este quebranto Que enluta Portugal! Ergue-se o pranto, Quando a morte do Paço se avisinha...

Pois quanto uma nação póde soffrer Não tem o acerbo e intenso padecer Das vossas sanctas lagrimas, Rainha!

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VI Corôa de espinhos

Das trevas d'alem-mundo o esposo amado, Rainha, é Rei comvosco! Inda reinaes, Que o vosso throno assenta em pedestaes Dos corações que tendes conquistado.

Mas que delicias tem esse reinado?! Senhora, alguma vez não invejaes Os remançosos dias sempre iguaes, D'um doce egoismo calmo e recatado?

Reinar!... reinar chorando a cada hora! O vendaval da dôr que ruge fóra E a propria dôr!... Chimeras dolorosas!

Ha tanto abysmo em flóridos caminhos... O diadema de Christo era de espinhos!... Sagradas sois, corôas tormentosas!

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VII Velhos problemas sagrados

Pergunta-se á divina Providencia Que segredos são estes do Destino? Ha vidas triumphaes: parecem hymno Sem nota de penosa intercadencia.

Mimosas em regalos d'opulencia, Não soffrem o revez d'um desatino: Se o buscam, acham sempre o Velocino, Sem medo que naufrague a consciencia.

Outros vão sobre espinhos arrastados Pela mão da Virtude, acorrentados Aos preceitos sanctissimos do Eterno!

Quem deu á infamia vida tão folgada? Quem dilacera a honra? É Deus ou Nada? Responde, Excelso auctor do meu inferno!

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VIII Rachel

Libavas, borboleta, a flôr da vida No parque ameno d'ideaes chimeras. Que seja amor, não sabes; mas esperas Vencer captiva, e captivar vencida.

Chega a paixão... Retraes-te espavorida! Saudade tens das quinze primaveras, Em que, menina e moça, amada eras, Sempre isenta, risonha e distrahida.

Vence a paixão... E o teu anjo innocente, Desligado de ti, mésto e dolente, Regressa para o ceo; mas vai chamando-te...

Não foste! És presa á minha desventura! Em grande amor te dei grande amargura... Fui teu verdugo, mas verdugo amando-te.

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IX Alexandre da Conceição

Bem me lembra que o vi, na juventude, Rosado pela aurora d'essa idade. Eram prismas d'amor e d'amisade Os carmes do seu mystico alahude.

Sendo fatal que degenere e mude A crença, o affecto e o bem da mocidade, Sangram-lhe o peito espinhos de vaidade, Nos arranques da briga azeda e rude.

Mais tarde o encontrei. Já era o homem Ralado por desgostos que consomem, E põem na face um gesto acre e severo.

Se o seu bondozo riso era apagado, Restava-lhe este honroso predicado: Prégando o Socialismo, era sincero.

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X Paciencia

Quem pode conceber que Deus creasse Tanta obra perfeitissima, esmaltada Pelo espaço infinito, e a desgraçada Raça humanal de imperfeições manchasse?

Quem pode conceber o acerbo enlace De miserias que esmagam, condemnada A creação mais nobre, atormentada Desde o berço até ás ancias do trespasse?

É certo que as desgraças são enormes; Mas tu, Deus abscondito, não dormes, Quando eu te invoco a divinal clemencia.

Ao dar-me as penas com que me torturas, Um thesouro me deste de venturas: Chama-se este thesouro a PACIENCIA.

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XI Veterano

Sensiveis corações, ouvi meus brados! Nasci lá nas montanhas de Barroso. Meu pae foi um pastor libidinoso, Que brutalmente fez alguns peccados.

Foi minha mãe pastora de cevados. Morreu quando eu nasci; mas tão mimoso Que foi meu berço! um antro penhascoso... Setenta e quatro annos são passados.

Soldado fui; servi, em Caçadores, Dois amos, ambos elles mais peores: Um era D. Miguel; o outro, o irmão

Metteram-me tres balas n'este flanco... Bem me custa, arrastado, andar tão manco De porta em porta a mendigar o pão.

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XII Scena trivial

Este homem que me vem pedir esmola, Muito bem conheci, galhardamente Vibrando o pingalim no dorso ardente Dos seus nedios frisões. Fez alta escola.

Quando o fulvo ginete encaracola E assesta o seu monoculo insolente Nas timidas donzellas, cuida a gente Que João Tenorio a virgindade assola!

Que descalabro é esse em que se liga Este esqualido velho que mendiga Ao dandy esvelto e triumphal que eu vi?!

Inquiro o desabar em tal miseria... Responde: «Essa pergunta será séria? «Fui rico, hoje sou pobre...» Ah! percebi...

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XIII Alcacer Kibir

Verdugo, que esmagaste a India aos pés Eis aqui, Portugal, o que tu fôste! Repulsivo morphetico d'Aoste... Eis aqui, Portugal, o que tu és!

Os Gamas, Albuquerques e Sodrés, Alçando a cruz em sanguinoso poste, Bradam ser Christo o general da hoste, Se os povos sangra o ferro portuguez.

Terrivel vae mostrar-se a Providencia, Arrancando das mãos da prepotencia A levantina raça acorrentada.

India, escrava gentil, espera um pouco... Lá vem sobre Marrocos um rei louco... Eis Alcacer-Kibir! estás vingada.

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XIV Jorge

Constantemente vejo o filho amado Na minha escuridão, onde fulgura A extatica pupila da loucura. Sinistra luz d'um cerebro queimado.

Nas rugas de seu rosto macerado Transpira a cruciantissima tortura Que escurentou na pobre alma tão pura Talento, aspirações... tudo apagado!

Meu triste filho, passas vagabundo Por sobre um grande mar calmo, profundo. Sem bussola, sem norte e sem pharol!

Nem goso nem paixão te altera a vida! Eu choro sem remedio a luz perdida... Bem mais feliz és tu, que vês o sol.

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