DEPOIS DO COMETA
Reading edition
{114} {115}
DEPOIS DO COMETA
De olhos pisados e presos num halo de violeta cinta, ALEXANDRINA ergueu-se da steeple-chaise, e beijou a mão da velha senhora D. CAROLINA, que acompanhava MIMI, naquella matutina visita de nupcias.
Ao depois, como duas flores de uma só haste separadas para sempre que se reencontrassem, a recem-cazada recebeu alacremente nos braços a figura da amiga e beijaram-se fartamente.
De outro lado, ARTHUR, o novel esposo, enfardado no seu dolman de brins brancos, cumprimentàra, ceremoniosamente, a DONA CAROLINA e com um sorrizo prazenteiro applaudiu as bregeirices de MIMI.
Esta e ALEXANDRINA, ao depois de affaveis cumprimentos geraes, confidenciavam numa janella, por{116} detraz de arrendadas cortinas, onde se foram acastellar para a permuta de segredos...
—A que horas despertaste?
—Nem sei mesmo...
—Não é possivel.
—Palavra!
—Então ferraste no somno, e...
—Ao contrario: não durmimos.
—É exquisito.
—Como te enganas! Não calculas o que seja a estafa de um dia de noivado.
—O dia mais bello da mulher...
—Parece-te?
—Esta é bôa, Alexandrina! Sou eu quem deve perguntar-te: não te sentiste extraordinariamente feliz?
—Ah! sim... Casei-me por meu gosto...
—Olha que já me pareces outra com tanta sisudez e seccura...
—Não é, Mimi. Arthur e Dona Carolina nos olham insistentemente. É preciso que não me tenham na conta de alguma leviana: jà hoje em dia, minha amiga, tenho segredos que te não posso falar...{117}
—Prohibiram-te de dizer-m'os..
—Não! Nem sei explicar-te, mas ha tanta alteração na vida de uma mulher que se caza, dentro das primeiras vinte e quatro horas de sua vida conjugal, que nem sei como me reconheceste hoje... Jà viste, no craveiro, o botãosinho verde; o casúlo de folhas, como, na manhan seguinte, está um perfumoso cravo, uma flor distincta? Se te dessem as duas cousas, pela vez primeira, tu contestarias o facto como inveridico...
—Mas eu te vejo a mesma boniteza...
—Sim! É questão de alma. Suppõe que adormeceste no começo de uma viagem e que quando despertaste estavas numa terra de extranhos. O teu corpo seria o mesmo, a tua lindeza não seria transformada, mas o teu coração palpitaria diversamente na sociedade desconhecida a que aportaste. As tuas amigas ficariam noutra parte. Se quizesses vel-as, seria preciso que regressasses ou que ellas viajassem para onde fôras. Assim no cazamento: viajei para muito longe de ti. Para nos irmanarmos como dantes, ou voltarei à minha immaculabilidade de hontem, o que seria impossivel, ou tu ascenderás ao matrimonio para o que faço votos.
—Tens razão!{118}
—Não te parece?
—Falas e procedes tão judiciosamente que não me atrevo a duvidar das alterações por que passaste... Eu, porem, serei capaz de repudiar o cazamento para não me esquecer tão depressa das intimidades com as minhas amigas...
—Não me esqueci. És injusta! Não te darei novas confidencias: as velhas, entretanto, ficarão acariciadas como um sonho de felicidades na vida de uma mulher inditosa.
—Pois pensei que me dirias tudo...
—Tudo... quê?
—Ora!
—Denuncias que pensas em algumas coisas que não são veridicas, ou, pelo menos, não o foram para mim.
—Foste differente das outras!
—Offendes-me.
—Não te offendo, não. Desconheço-te.
—Que quererias tu que eu te falasse?
—Não sei. Se soubesse, desnecessario seria que me referisses.
—Objectiva o que queres saber... e depressa, porque Arthur me acompanha com um olhar seriamente investigador e tua mãe franze o sobrolho para mim... Um ha de{119} suppôr-me indiscreta para te communicar tolices... e a outra... corrupta para te ensinar... loucuras...
—Não! Deixa...
—És má! Tens talento e não queres comprehender a minha situação, especialmente no dia de hoje.
—Jà te comprehendi: e estou pelo que tu quizeres...
—Amúas sem razão.
—Com que direito a planta exige viço da flor que já foi colhida? Comprehendo, perfeitamente, agora, que entre nós duas existe a alma do sr. Arthur...
—Não exaggeres...
—Pódes ouvir de mim o maior segredo, bem como ouvirás delle tambem. Os meus serão contados, syllaba por syllaba, aos ouvidos do sr. teu esposo, porque não deve haver um conhecimento novo que não pertença a ambos: os delle... morrerão comtigo, porque não deves trahir à tua fé conjugal...
—És incondescendente!
—Sim, sou incondescendente na verdade das cousas.
—Em parte, minha amiga.
—Não. Em tudo.
—Veremos.{120}
—Pois experimenta!
—E se eu te provar?
—Pago-te com um beijo...
—Oh! Pois então a mulher que se cazou póde beijar outra pessôa que não seja o seu esposo?
—Deste modo, Mimi, não chegaremos a um accordo. Ha beijos como ha conversas... O que te conversei até hontem, não conversarei jamais com o meu esposo. O que te converso agora, não conversarei jamais com a tua maman. Beijos!... Os que te dou são da ordem dos que sempre te dei...
—Bem te comprehendo. A mulher cazada tem duas existencias.
—Não sei se sómente duas, mas, a solteira, antes do matrimonio, nem sei quantas tem...
—Comtudo, conto-te eu um incidente de minha intimidade feminina. Dizes ou não ao teu marido?
—Conforme.
—Não é caso de dubiedades. Dizes ou não?
—Se fôr só do teu interesse, não.
—Faço-te justiça, minha boa Alexandrina: a tua gentileza obriga-te ao falseamento agora, sómente agora, do teu dever. Contarás tudo o que te disserem, ou serás uma perjura na fé{121} conjugal. Eu mesma duvidaria de tuas intenções, se occultasses do teu marido o menor acontecimento que te revelassem. E, por fim, em tudo quanto te falarem has de descobrir sempre esse interesse que não é exclusivo da pessôa que te fallou, para contares tudo ao teu companheiro. Deixemos essas cousas de parte, e affectemos a nossa convivencia hypocrita, como tu queres...
—Dou-te razão, minha amiga. O mundo é esse mesmo e não serei eu quem o modificará.
—Estavas bella, Alexandrina, nas tuas vestias de noiva!
—Achaste?
—Encantadoramente bella!
—E tu me viste?
—Sim. Passaste bem junto de mim quando saltavas da carruagem à porta da igreja. Tinhas um rubor nas faces de matar de inveja.
—Era a ultima nota do meu pudor de virgem!
—A tua costureira fez o teu vestido a capricho e o teu cabelleireiro assentou-te a grinalda como uma corôa de rainha. Agradou-me a tua elegancia. E, porque não te censurar? só não gostei de trazeres os olhos{122} humildemente baixos... Faltava-te o sol do teu olhar esplendido.
—Lisonjeira!
—Eu traria os olhos bem illuminados, fascinando as multidões que se dominavam com a curiosidade de ver-me...
—Tens razão. Naquella hora, eu temia os olhos de tanta gente... sem saber que... mais tarde...
—Dize... dize...
—Dir-te-ei... mais tarde... eu teria sobre o meu corpo olhares mais algozes...
—De véras?
—Sim, minha amiga! Não calculas o olhar de Arthur quando elle... Oh! Digo-te de mais! Perdôa se te offendo...
—Desculpo-te. Senhora de mim, sei dispensar-te das leviandades que, ainda ha pouco, condemnavas. Onde puzeste o teu veu?
—Guardei-o já para offerenda a uma Santa.
—Quem t'o tirou?
—A maman... Arthur conversava no salão com o papà e dois amigos retardatarios... Sentia-me alquebrada. Tambem jà era alta hora da madrugada. Duas ou tres, não sei.
—E o teu vestido? Era primoroso...
—Está no armoire-à-glace...{123}
—Muito amarrotado?
—Não. Quando o despi... chorei! Como é que uma mulher só se veste tão bem uma vez na vida?!...
—Choraste, Alexandrina?
—Sim.
—É de mau agoiro. Dizem que morrerá primeiro aquelle que chora...
—Não sabia.
—Nem que morrerá antes do outro o que se deitou por primeiro?
—Tambem não! E por isso tambem serei eu quem morrerá antes...
—Ah! já estavas deitada quando elle appareceu na alcôva?
—Sim. Elle se abeirou de mim e, segurando-me uma das mãos, tratou do successo das festas de nosso cazamento. Recapitulamos toda a seroada, desde as asperezas do juiz cazamenteiro, até às melifluidades de voz do sacerdote, quando fez a pratica sobre a felicidade conjugal. Recompuzemos a sociedade que aqui esteve. As dansas, o serviço de buffet, a ceremonia do chá... Tudo se conservou. Elle dizia uma coisa, eu lembrava outra. Sorriamo-nos, commentavamos, com seriedade, as incorrecções dos outros...
—E o tempo se passava...{124}
—É exacto, Mimi. O tempo se escoava enganadoramente. Não sabes, porem, como foi opportuna a nossa conversação. Quando extremecemos, ouviu-se o tiro das cinco horas...
—E então?
—Arthur lembrou-se do cometa... Já o viste?
—Ainda não!
—Pois é bello! Arthur mostrou-m'o... Que lindo esteve elle na madrugada do meu cazamento?!... Se todos vissem o cometa como eu vi...
Interrompidas por DONA CAROLINA, MIMI e ALEXANDRINA, dando-se as mãos, nervosamente, passaram ao recinto da sala e entraram na conversação commum...{125}