Memorias (continued 4)
Reading edition
chic
. Distingue-se das outras por varias coisas; por exemplo: desprezo absoluto pela prudente instituição do «chaperon» (esses entreteem-se com o bluff)—desprezo absoluto pelas boas maneiras, pela cortezia corrente (só se cumprimentam as pessoas que passem perto e essas mesmas com marcada indiferença)—ignorancia completa das regras da gramatica (isso seria «falar dificil»!) e da orthographia. Cultivam só o corpo diplomatico e a religião; vestem bem, jogam muito, dançam muito e bem, e flirtam na perfeição. Votaram ao ostracismo algumas palavras que nós dizemos e que são
pessidonias
como: chavena, trem, pharmacia, carnaval etc. etc. etc. Tratam-se todos por «você»; alguns teem muita
piada
e usam todos um ar muito
chateado
. (É da praxe, o calão.) A
smart
diverte-se... mas não sabe sorrir».
Esta sociedade, que anda todos os dias nos jornaes, vem do alto até baixo, da aristocracia ao povo, forma uma lista infindavel, tem um chronista celebre, o snr. Luiz Trigueiros, e pode ser vista ás tardes no
Dia
e de manhã no
Diario Nacional
. Dessa lista destaca outro informador algumas senhoras: Branca de Gonta Colaço, poetisa distincta, voz de ouro, herdada do pae, bonita a valer e sempre apaixonada pelo marido, o artista Jorge Colaço; Magdalena Trigueiros de Martel Patricio, pequenina, vivissima compleição d'artista, gostos aristocraticos, fazendo versos em francês e d'uma alegria comunicativa; Elisa Baptista de Sousa Pedroso, pianista eximia, sempre em concertos, em recitas de caridade, em festas que dá em sua casa e onde reune uma sociedade mesclada de artistas, diplomatas, aristocratas e politicos; Sarah da Motta Vieira Marques, voz rica e sciencia no cantar, só rivalisando com a sciencia de receber: o seu salão pode considerar-se um dos poucos refugios dos ultimos dez annos, no dizer dos seus amigos; Adelaide Coelho da Cunha, esposa do director do
Diario de Noticias
, grande organisadora de festas, no seu palacio a S. Vicente de Fora, festas dramaticas d'uma grande riqueza de apresentação e mise-en-scêne; a malograda Ada Weinstin, a esposa do conhecido banqueiro, recitando maravilhosamente, vestindo com suprema distincção, bonita, elegante, cheia de
charme
; Candida da Nova Kendall, formosura triumphante, que passou pela sociedade lisboeta como um meteoro louro, cantou como um rouxinol, e voou para terras da Santa Cruz, sua patria: ella a bem dizer tinha duas patrias: Bahia-Paris; Alda Decken Lino, figurinha de madona, de bandós negros e olhos transparentes, mulher do architecto Raul Lino; Maria Emilia Macieira Lino, cantora e organisadora de soirées artisticas com representações de autos de Gil Vicente; Alice Munró dos Anjos, dando festas na sua casa da Praça dos Restauradores, onde se dança alegremente, presididas pelas suas filhas, a linda condessa de Arnoso e a simpathica condessa de S. Lourenço; Luzia Patricio de Balsemão, grande linha de elegancia, certa em todas as premiéres; Irene Gilman, filha de Thomaz Ribeiro, loura, inteligente, maliciosa e dançando maravilhosamente; Christina Rezende da Silva, d'uma belleza e elegancia patricias; Elisa Baerlein; Conceição de Carvalho, filha de Mariano, organisadora de festas artisticas, para que escrevia peças, em casa de seus sogros os Viscondes de Carnaxide, bonita e intelligente; Zulmira Franco Teixeira, pequenina, d'uma requintada elegancia, fazendo versos, como sua irmã a condessa de Almeida Araujo, etc. etc.
*
A sociedade lisboeta tinha dois pontos principaes de contacto—Cascaes e o theatro de S. Carlos. Era ahi que os ricos, ou os que aparentavam, procuravam impor-se a certa roda, que dificilmente os recebia.
De 1880 para cá as emprezas succedem-se em S. Carlos como os ministerios progressistas e regenerador e Valdez disputa com Freitas Brito a vinda a Lisboa das grandes celebridades. Se Valdez traz Masini, Patti, Devriés, Vidal, Castel Mary, Devoyod, Cotogni, a tragica Ristori, a Regina Pacini, Novelli, de Bassini, que passou por amante d'uma rainha (vêr Fialho), os irmãos Andrades, etc.; Freitas Brito apresenta Varesi, Gayarre, Rapp, irmãos De Reskée, Navarrini, Tetrazzini, Theodorini, Gabrielesco, Nevada, Kaschmann, Sarah Bernhard, Marini, Ristori, Salvini, Rossi, Desreins, Sherie, Belincioni, Ferrani Darclée, Tamagno, Borghi Mamo (Herminia), baritono Aldighieri, Pandolfini, Saloni, Arkel, maestro Gula, Delman, tenor De Marchi, Morconi, Sarasate, e tantos outros. Os partidarios de Freitas Brito pateavam sempre na epoca de Valdez, os de Valdez na epoca de Freitas Brito—o que não os impedia de se juntarem em jantares semanaes, a que assistiam os dois emprezarios... A estas duas emprezas segue Paccini, que faz fortuna. Foi n'essa epoca que S. Carlos se transformou n'um grande salão. Vem a Lisboa os reis e presidentes de republicas. O numero de recitas augmenta, a assignatura augmenta. Paccini dá cincoenta recitas de assignatura, vinte e quatro extraordinarias e doze extraordinarissimas, a que o publico chama dos
Sebastiões
, e no palco desfilam Belincioni, Krucinisky, De Lerma, Renaud, Tita Ruffo, Lassalle, etc., etc. Segue-se Anahory, com a carruagem, o charuto, Wagner—e o desastre.
Ahi está todo o mundo literario e elegante, nos camarotes ou na plateia, toda a Lisboa como se diz nos jornaes: Carlos de Freitas Jacome, antigo diletanti, e que se julgava pae da Patti, Freitas Rego, o Principe Negro, conquistador irresistivel, D. Luiz da Camara, o conde de Mesquitella e Antonio de Brito, que formavam um grupo, de que Bordallo fez tres medalhões para distribuir pelos assignantes de S. Carlos; Joaquim Pessoa, do
Diario de Noticias
, apaixonado da Baresi; José Saragga, critico do
Jornal do Commercio
; o phantastico Eduardo Cheira; Mr. Garaty e mulher, assignantes chronicos de S. Carlos, elle muito baixo, ella muito alta; dr. Patrocinio, professor de mathematica, com uma paixão assolapada pela cantora Pasqua; Antonio da Costa e Silva, um dos mais elegantes rapazes de Lisboa; Alfredo Anjos, enamorado da Devriés, e que na noite do seu beneficio lhe mandou compor um deslumbrante jardim natural para o 3.º acto do Fausto; Francisco da Fonseca Benevides e esposa, o auctor da «Historia do Theatro de S.Carlos» (recitas impares n'uma frisa, recitas pares n'uma torrinha), Freitas Branco, Silva Canellas, Jayme Arthur da Costa Pinto, que foi director da sociedade lyrica que se fundou em S. Carlos com o Paccini pae; Motta Marques, que casou com a cantora Meccoci; May Figueira, o exotico marquez de Franco e Silva Carvalho, todos tres adoradores do corpo de baile; Custodio Borja, José Bacellar e Ottolini da Veiga, com mania de canto e voz de
basso
—e que, d'uma vez, corrido pelo publico, a quem fizera um manguito, fugiu no comboio para o Porto, ainda vestido de frade, com o fraque enfiado por cima—Eduardo Cordeiro e Augusto Ribeiro, enorme e sempre com muitos calos; Dantas Baracho; Eduardo Tavares; Espregueira e mulher n'uma frisa; José Martinho da Silva Guimarães; o Guerra, pae das meninas Guerras; o barão da Regaleira, Antonio Duarte da Cruz Pinto, Agostinho Franco, José d'Alpoim, Rufino d'Almeida, o padeiro gordissimo de S. Carlos, etc., etc. e n'uma torrinha, que ficou na tradição, a 115, o Antonio Manuel Teixeira, depois secretario de S. Luiz de Braga, o Luiz Campeão e o Oliveira, chamado das
cautelas
de
25
: era d'ahi que partiam sempre os aplausos ou as pateadas monumentaes.
Nos camarotes e nas frizas as lindas sobrinhas do marquês de Franco, Falcarreras; a lindissima baroneza da Regaleira; e a mais bella mulher de todos os tempos, já velha e sempre decotada, a duqueza de Avila e Boiama; Espregueira, que foi a primeira que se apresentou com vestidos sem hombros, ostentando magnificos collares de brilhantes; Moreira Marques; a condessa de Figueiró; a condessa de Taveira, acompanhada pelo marido, sempre de casaca com botões amarellos; a condessa d'Edla, o gentilissimo pagem do
Baile de Mascaras
,—da cantora a rainha—; Poitier, loira ideal, que casou com o filho de Monteiro Milhões; a duqueza de Palmella; a condessa de Alferrarede; a condessa de Alverca; a viscondessa de Idanha, e a de S. Luiz de Braga etc. etc. e no camarote de bocca de 3.ª ordem n.º 70—esta Lisboa foi sempre monumental!—a Antonia Moreno com as suas espanholas, pilar do estado, necessario e decerto muito mais util que a Junta de Credito Publico. Essa mulher acabou deixando por testamenteiro Frederico Arouca, que repudiou a fortuna que ella lhe legou, e depois de passar para alguns camarotes brazonados de fresco uma ou outra das suas mais lindas pupilas...
«Cascaes, com a adjacencia dos Estoris,—diz-me um frequentador—era a côrte na intimidade, em robe-de-chambre, mais faceis as relações, mais accessiveis e amaveis, tu cá, tu lá. Quasi tudo gente do rei, que ia para lá cedo, por meiados de setembro, cansados de Cintra onde D. Carlos raro pernoitava, fugindo, a pretexto de tudo e de nada, á convivencia da rainha e da Figueiró. A separação do rei e da rainha, segundo me informaram, porviera de certa dama, que lançou entre elles a sizania. Conheci-a ainda linda e elegante, um pouco roliça, de olhos aveludados e labios vermelhos: nos ultimos annos engordára, e banalisara-se. Tinha a furia do dominio, e rodeava-a uma côrte de gente em que ella mandava e da qual fazia parte um diplomata mais tarde em evidencia. Passava por ter relações anormaes com a rainha... O marido pouco esperto, só tinha como ideal ser ministro plenipotenciario e par do reino.
Em Cascaes, a rainha não se vulagrizava. Saía a cavalo emquanto poude montar. Tinha varizes nas pernas,—informou um dia o D. Afonso. No meu tempo não passeava de barco, passeava de carruagem, descendo ás vezes para andar a pé. Dava as suas recepções á tarde, principalmente em vespera de festa, para serem apresentadas pessoas que desejavam ir aos bailes, e que em Cascaes mais facilmente obtinham o convite e a apresentação preliminar indispensavel, que o conde da Ribeira, quando estava de serviço, facilitava extraordinariamente. A Figueiró voltava para Cintra logo que acabava serviço.
O D. Carlos fazia vida hygienica de madrugador, tirava photographias, pintava ligeiramente algumas marinhas,
sentindo
o mar. Logo de manhã, saía de carro ou a cavalo, com chuva ou com sol (demorava-se até meiados de novembro em Cascaes), ou ia á procura de senhoras que elle perseguia. Tivera, pelo menos um anno, n'uma vila do Mont'Estoril, uma amante, mas isso não o dispensava de querer que o julgassem homem de boas fortunas. Escrevia a miudo a outras damas, em caligraphia disfarçada, cartas em prosa e verso á mistura, quasi sempre em francez. Eram muito tolas. Vi algumas e podia ter guardado uma, que rasguei. Serviam-no dois alcoviteiros ilustres, que o faziam encontrado com as mulheres que lhe agradavam. Outro chegou a dar um baile, para que o rei conhecesse uma senhora da burguezia media atraz de quem andou annos.
Iam ao Sporting Club, mais conhecido pela Parada, jogar o tennis. Não havia escolha nos pareceiros. O almirante Capelo, o explorador, ficava com o sobretudo do rei no braço, emquanto elle jogava. D. Carlos era um timido, falava pouco, nunca olhava de frente: seus pequenos olhos claros evitavam sempre os dos outros.
A Parada era a capital do reino de Cascaes. Ahi se reunia a flor da aristocracia e o ingresso não era facil, como socio. Só nos ultimos tempos é que o Tompson, a quem chamavam moço fidalgo, facilitou a entrada. Aos domingos davam-se salsifrés á noite, e todos os annos um grande baile, a que assistia o rei, que distribuia os parceiros e dançava uma contradança. A rainha, se ia, não se demorava. Nos dias de semana, poucas pessoas lá estavam, preferindo os casinos á beira-mar, principalmente o Estoril.
O rei, todas as tardes, ia para a Boca do Inferno e quedava-se ali, se encontrava algumas senhoras que o interessassem. Por isso chegaram a chamar ao D. Carlos o
balão cativo
...
O rei mal recebia os ministros, de que se desfazia logo que lhe era poss O rei mal recebia os ministros, de que se desfazia logo que lhe era possivel. Não se demoravam em Cascaes, não os convidava para assistir, sequer, ás partidas. Teve d'uma vez, como hospede, o Soveral. Não lhe conheci nenhum outro.
O D. Afonso ia cedo para o Monte Estoril, para a vila sobre o mar, que ali possuia a mãe. Descia a praia, com uma grande simplicidade de maneiras. Falava pouco, era bom rapaz, e a maior manifestação intelectual que lhe conheci foi anti-clerical*. Vestia-se sumariamente: uma camisola azul, casaco e calça da mesma côr e bonet. Assim andava, de manhã até á noite. Ás vezes ia ao mar, e os barqueiros gostavam d'elle. Nunca tinha vintem. Os ajudantes ou oficiaes ás ordens não lhe emprestavam dinheiro, porque sabiam que elle não lhes pagava.
Não era dado a senhoras—preferia as outras... Certa condessa é que conseguiu ser amante d'elle, porque conhecia todas as maneiras de conquistar um homem. Deu um baile para que convidou o infante e a fina flôr. O marido estava encantado. Nenhuma moral em nenhum d'elles. Elle era muito cioso da sua nobreza e gostava de parecer. Ella queria gozar a vida. O A... que foi seu amante, contou-me que em Madrid ella dissera d'uma vez ao marido, que não tinha um ceitil quando casou: «Tu, para chulo, és caro de mais!»
Em Cascaes era dificil chegar a vias de facto com uma mulher. Meio pequeno, coscovilheiro, maldoso, maldizente. Não se falava senão nesta ou naquella, em escandalos, repetindo-se os ditos de ouvido para ouvido ou acentuando-se as infamias. A M... foi apanhada no pinhal dos Olivaes n'uma atitude equivoca... A S... faz namoro descarado ao rei... Mas as coisas arranjavam-se para Lisboa. Vinham ao dentista, ás compras, etc. A forçada e grande intimidade estabelecida, de manhã na praia, á tarde na Boca do Inferno, onde toda a gente ia, apezar do vento e da poeira, na Parada ou á boquinha da noite no passeio Maria Pia, junto á cidadela, onde ás vezes fazia uma ventania infernal, á noite nos casinos, ou nalguma partida de bridge, a vida quasi em comum e os namoros travados, o ar do mar que desiquilibra os nervos e torna os amores exigentes, fizeram tecer muitas aventuras escandalosas. Um ainda fugiu a tempo com a mulher, que já madura, esteve em vesperas de cair... Nunca mais voltou a Cascaes.
As ceias nos bailes eram pugnas. Vi isso até no Paço. Uma descendente de D. João IV, vi-a eu agarrar-se a um bufete, com unhas e dentes. Em certas casas, as ceias nunca chegavam. Uma madrugada, num baile do M..., chegou a iniciar-se a lucta... A alta sociedade era, em regra, pelintra. As grandes familias tinham gasto as fortunas, e muitas não queriam, ou não podiam, dar bailes. Só tinham dividas. Não era possivel deixar d'ir a S. Carlos e de satisfazer outras exigencias. Havia-os com actrizes com dezasseis annos de assignatura... As ceias nos bailes eram pugnas. Vi isso até no Paço. Uma descendente de D. João IV, vi-a eu agarrar-se a um bufete, com unhas e dentes. Em certas casas, as ceias nunca chegavam. Uma madrugada, num baile do M..., chegou a iniciar-se a lucta... A alta sociedade era, em regra, pelintra. As grandes familias tinham gasto as fortunas, e muitas não queriam, ou não podiam, dar bailes. Só tinham dividas. Não era possivel deixar d'ir a S. Carlos e de satisfazer outras exigencias. Havia-os com actrizes com dezasseis annos de assignatura... Fóra o Palmella e poucos mais, não recebiam porque de todo não podiam. E, se o faziam, era sem-cerimonia. Não havia dinheiro! não havia dinheiro!
Descaiam muito os fidalgos, mas obstinavam-se sempre em
parecer
. Um oficial jogador e pae de uma serie de filhos, mandava a miudo incomodar D. Carlos... Todos os seus famulos lhe extorquiam dinheiro, quanto podiam. Choravam, punham-se de joelhos, contavam-lhe miserias reaes ou falsas. Tive, em Cascaes, semanas uma arca com prata para fugir a uma penhora iminente... Um grande fidalgo, no fim de algum tempo, despediu os creados—mas nunca pagou a nenhum. Outro chegou a não ter que jantar, porque o mercieiro não lhe fiava, ninguem lhe fiava, mas bebia todos os dias garrafas de champagne.
Havia mancebias antigas e tão respeitaveis, como o casamento, assim, por exemplo, F... e F... Já ninguem convidava uma sem o outro.
Quer que lhe fale tambem da gente que fingia de nobre, da burguezia vaidosa e que fazia mexerico para ser convidada? A mulher d'um grande industrial conseguiu entrar na casa d'um fidalgo, onde ia toda a gente, da grande e da baixa. Convidou-a para jantar, para o theatro e andava contente como um cuco. Um dia não a convidou mais. Chorou. Isto foi-me afirmado por uma amiga que o viu. Era uma dama, muito linda, com um soberbo colo, mas com o cerebro d'uma arara...»
Ahi fica o quadro levemente esboçado por um frequentador de Cascaes. Tudo isto é frivolo e tragico. Lembremo-nos que d'esta maledicencia, dos ditos d'estas boccas que sorriem, da ninharia e do encanto, se gerou parte da athmosphera donde devia sahir o descredito da rainha e o assassinato do rei.
O MUNDO POLITICO
Novembro—1918.
Os acontecimentos dos ultimos reinados afiguraram-se-me sempre faltos de logica e de nexo. Estão talvez muito perto de nós ainda: precisam de perspectiva que os coloque nos seus devidos logares. Só o historiador poderá crear mais tarde, com documentos e memorias, e certa aparencia de verdade, o romance da nossa vida. Nós, por ora não sabemos nada, nem mesmo dar resposta plausivel ás perguntas que nos obsidiam... Porque foi, por exemplo, morto D. Carlos? É fora de duvida que até os monarchicos receberam com alegria a sua morte. «Não vi lagrimas»—diz Julio de Vilhena. Eu avanço mais: só vi aplausos. E no entanto já hoje se pode afirmar sem erro que D. Carlos não foi morto pelos seus defeitos, mas pelas suas qualidades. Respirou-se! respirou-se!—o que não impede que, a cada anno que passa, esta figura cresça, a ponto de me parecer um dos maiores reis da sua dinastia. Já redobra de proporções e não se tira do horizonte da nossa consciencia. O rei tinha na verdade defeitos, mas—diga-se! diga-se!—não foram os seus defeitos que o mataram, foram as suas qualidades. Só o assassinaram quando elle tomou a serio o seu papel de reinar, e quando, com João Franco, quiz realisar dentro da monarchia o sonho de Portugal Maior. Foi esse o momento em que, talvez pela primeira vez na historia, os monarchicos aplaudiram um crime que os deixava sem chefe, e se abriram de par em par as portas das prisões, congraçando-se todos os politicos sobre os corpos ainda mornos dos dois desventurados.
O D. Luiz pôde ir até ao fim do seu reinado, porque elle proprio o disse—«um principe é um dissimulador». Mas D. Carlos é que não foi nunca um dissimulador. D. Carlos desprezava os politicos. Dizia:—Tu ouvel-os falar? Se lesses as cartas que me escrevem enchias-te de nojo.—Essas cartas existem... Na verdade toda a gente dizia mal da politica e desprezava os politicos: só elle os não podia desprezar. É authentico tambem que no seu desdem chegou a envolver o paiz. Toda a gente, desde o literato ao homem rude, dizia mal do paiz. Tempo houve em que foi moda dizel-o. Só elle não devia dizer mal do paiz. Realmente pediu muito dinheiro aos politicos, mas os politicos pediram muito mais dinheiro á nação, dando cabo d'elle com as suas clientelas. E ninguem lhes tomou nunca contas: todos morreram honrados. Hintze passou por ser um homem integro. José Luciano tambem. Pessoalmente decerto, mas com o que ambos elles esbanjaram reconstruia-se o paiz de alto a baixo. O partido regenerador tinha tal fama que se dizia em Lisboa: «quem não é regenerador é ladrão de si mesmo». Na realidade não havia a esse tempo—porque hoje tudo mudou de figura—senão um partido em Portugal capaz de sacrificios, o partido republicano: os outros, para me servir da phrase tão justa de Homem Christo, eram apenas «quadrilhas politicas». Ser politico em Portugal foi a mais rendosa de todas as industrias. «Logo que chega ao poder um chefe de partido não pensa senão em explorar o paiz em proveito das suas clientellas. O Estado é a preza dos politicos... Se eu podesse encontrar um homem integro que podesse modificar tudo isto dar-lhe-hia todo o meu apoio».
Parecia que o proprio paiz na verdade só queria
comer
:—Pedem tudo! pedem as maiores poucas vergonhas!—exclamava o Alpoim; e o dr. Antonio Cabral escrevia:
«No tempo da monarquia essa mesma maioria acomodaticia e pedinchona, só conhecia o caminho dos ministérios para ir importunar os secretarios de Estado com solicitações de empregos, de benesses, de estradas, de favores, até de escandalos. Não ia levar aos ministros uma ideia, um plano, a lembrança de um beneficio para o país. Ia procurar interesses, buscar comodidades, exigir condescendencias, sem se lembrar de que tudo isso custava, muitas vezes, dinheiro ao Tesouro Publico e só causava prejuizos á nação. Depois, quando a tempestade bramia e as moscas varejeiras zumbiam em tôrno da montureira politica, essa mesma maioria, de larga guela e incomensuravel ventre, era a primeira a gritar contra as imoralidades que provocara, contra os atropelos da lei que impuzera, contra os êrros de administração que imperiosamente reclamara! Para essa maioria prudente... e de muito comer, os culpados de tudo—criminosos execrandos!—eram o Rei, os ministros, os deputados, todos, emfim, que tinham na mão as rédeas da governação publica. Ella, a maioria exigente e dificil de contentar, era inocente e de tudo lavava as mãos. Ella, a maioria composta dos influentes, dos caciques, dos compadres, dos despoticos senhores do país, que hoje se encolhem, transidos de pavor, e então barafustavam do alto do seu pedestal de mandões; ella, a maioria que ordenava, que dispunha de votos, que sabia impôr-se com arrogancia—ella, de nada era culpada e escondia o rosto púdico na alva clamide de vitima dos maus politicos!... Veiu, por fim, a queda no abismo, em que se evidenciou a traição de muitos e a incompetencia de tantos. A maioria dos portugueses, se não delirou de contentamento, remeteu-se ao cómodo e discreto silencio em que se comprazem os covardes e os maus cidadãos, para só os interromper com murmurios de reprovação, soprados nos centros de conversa contra os politicos... que ella empurrára para o mau caminho e ajudara a despenhar no precipicio. Oh! a maioria dos bons cidadãos de larga pança!...»
Hintze e José Luciano tinham-se congraçado no reinado de D. Carlos, e só elles podiam tudo, só d'elles dependiam lugares, favores, vaidades e interesses. Antonio Cabral está certo que foi pelos seus meritos—que não são poucos—que chegou a ministro?... Ai de quem lhes desagradasse. Ao irrequieto Fuschini entretiveram-no com as obras da Sé para o arredarem da politica; ao José Dias Ferreira, que foi dos raros homens de governo comezinho do seu tempo, nem sequer o ouviam nas camaras. Toda a gente lhe voltava as costas quando falava. Sabia-se que o Paço o detestava. O José Luciano e o Hintze sucederam-se, d'acordo, no governo do paiz e no governo do Credito Predial, com identico sucesso!
Ambos elles eram pessoalmente muito boas pessoas, ambos elles tiveram um fraco extraordinario pelos tratantes. O Hintze, o
homem que não ri
, o
casaca de ferro
, era um homem um pouco cansado e com um lindo sorriso para toda a gente:—Pois sim, pois sim...—Trato encantador. Nas camaras era vel-o! Ninguem apresentava assim as questões: tinha tudo catalogado, arrumado, disposto, e os papeis saltavam-lhe da carteira por arte magica. O José Luciano, mais bonacheirão e ao mesmo tempo mais caustico, conhecia como poucos os homens que lhe tinham passado em fita pelo salão da sua casa, com as suas vaidades, as suas miserias, os seus rancores e os seus vicios, e tocava-lhes sempre no ponto fraco. Pessoalmente honesto,—quem o duvida?—mas tendo cada vez mais imperiosa a necessidade de satisfazer clientelas cada vez mais sofregas—ambos acabaram de corromper o paiz, já meio corrompido, até á medula. Importa pouco que o snr. D. Luiz de Castro diga: «Hintze vendeu todo o seu patrimonio e o de sua mulher para servir o reino e o rei» (
Dia
, fevereiro, 1917). Sim, mas Hintze distribuiu a rodos o dinheiro da nação, principalmente depois da scisão João Franco, e colocou toda a gente a começar pelos seus
[15]
.
Não resistiu. Delapidou, principalmente depois da scisão João Franco, sem conta nem pezo nem medida. Anselmo Vieira diz: «José Maria dos Santos entregou á viuva do Hintze, no dia do enterro, 21 contos de lettras vencidas. Ora a questão do alcool entre o norte e o sul foi sempre adiada pelo Hintze, o que fez ganhar 300 contos ao José Maria dos Santos.» Na sua phrase pitoresca a politica portugueza estava condemnada porque era um regimen de validos e
badamecos
. E cita este e aquelle e aquelloutro, que, na sua opinião, e todos juntos, não valiam um estadista. O Hintze não resolvia um problema, arredava-o, e as complicações augmentavam sempre; se tinha a escolher entre dez homens, escolhia sempre o peor... O honradissimo capitão Machado, duro como o silex, chegou a par, porque, quando atacavam o José Luciano na camara alta, dizia sempre:—Viessem elles cá para os deputados e quem os ensinava era eu.—O pobre monsenhor inutil, que se chamou Santos Viegas, achou outro
truc
para o Hintze o elevar á mesma cathegoria: quando o chefe do partido regenerador falava, cahia n'um assombro, de que não havia arrancal-o!...—«Chegaram a ministros seres destituidos de todo o miolo. O honradissimo Pequito, santissima creatura, foi um dia para uma comissão, a que o José Dias presidia, com o Contracto dos Tabacos, que elle só tinha assignado e mais nada. Havia um artigo redigido de forma que cincoenta milhões de francos ficavam encobertos, para se poderem pagar as dividas da Casa Real. José Dias pediu explicações, o outro embrulhou-se, José Dias insistiu, o outro ficou de bocca aberta, com cara de pasmo—até que o velho rabula lhe disse com soberano desprezo:—Comprehendo, comprehendo... o snr. ministro da fazenda precisa de ouvir os seus colegas para depois responder...—Se o José Dias tem deixado passar aquella trapalhada talvez D. Carlos não tivesse sido assassinado.»
A politica portugueza chegára a estar apenas nas mãos e dependente da vontade dos chefes. O José Luciano dizia:—O meu partido não é que me leva ao poder—sou eu que levo o meu partido ao poder. Dois homens e clientelas. Alguem se filiou jamais n'um destes partidos por principio, por ideal? ou foi por interesses, e, mais simplesmente, por simpathias pessoaes?
E assim a força desses dois homens chegára tambem a ser ficticia:—não provinha do paiz—provinha do rei... As camaras mero scenario; os discursos, as atitudes, theatraes: o que havia a decidir não se decidia alli. Tudo estava resolvido, preparado de antemão, nos salões, nas ante camaras, nos gabinetes ou nos corredores, entre os chefes. O resto era um espectaculo com as suas regras e os seus figurantes, absolutamente inutil—absolutamente falso—absolutamente fóra de toda a realidade...
*
As camaras... Por lá passou Junqueiro, que de lá sahiu um dia dizendo:—Vão áquella parte—; por lá passou o grande, o pobre João de Deus, que nunca poude abrir a bocca, e outros homens ilustres. De lá sahiu Fuschini, que se foi embora fazendo-lhes um manguito, quando Arroyo n'uma sessão celebre lhe disse:—Ajoelhe a meus pés!—Oliveira Martins, exhausto de trabalho; o romantico Chagas, cujas ultimas palavras foram estas:—A vida é uma comedia.—Já não os ouvi, mas vi e ouvi ainda o pachydermico Antonio d'Azevedo Castello Branco, o esguio e taciturno Beirão, sempre alheado, o grande orador Antonio Candido, o canarim Elvino de Brito, que manejava a palavra como quem maneja um florete, e que o Hintze tratava d'alto, o anecdotico Baracho, cujos discursos não tinham fim, o Campos Henriques,
lyrio pendente
, o theatral Arroyo, o José d'Azevedo, o Eduardo Villaça tão amavel para todos, tão afavel que ficou para sempre o Villacinha, o Chanceleiros, com a sua grande gaforina branca, o severo e taciturno Dias Costa, que morreu de desgosto, tendo cumprido o seu dever como um soldado, a nobilissima figura do conde de Arnoso, que vejo sempre diante de mim, bradando por justiça, e que acabou envolto em treva, jungido á sua dor, o Jacintho Candido, um pouco apagado, mas resistente e teimoso, o João Franco, o decorativo Wenceslau de Lima, o Pimentel Pinto, do alto dos seus tacões, o Albano de Mello, tão admirador do José Luciano que chegou a ponto de se parecer com elle na atitude, na voz e até no rosto, e, na outra camara, a um lado o pitoresco conego José Dias, apopletico e jovial, lá das bandas de Monsão, o torrencial Oliveira Mattos, que, a primeira vez que falou, fez rebentar os cós das calças ao Chagas, que perguntava entre spasmos de riso:—Mas quem é este homem? onde foram buscar este homem?—e a quem ouço ainda invectivando o ministro da guerra:—Heroe de Trajouce! heroe de Trajouce!—os Cabraes, um polido e soturno, que o Hintze estimava, o outro, Antonio, de bigodes assanhados, como um galo de combate; o José d'Alpoim, impulsivo, terrivel na replica; o João Pinto dos Santos, um sistema de philosophia para cada caso futil do dia, já branco, de punhos solidos, e sempre o mesmo aprumo, a mesma linha, a mesma conducta; o Moreirinha, o Centeno, e o juiz Francisco Medeiros que pouco antes de morrer (estou a ouvil-o) me disse assim:—Tenho pena de não ter roubado como os outros...—E, diante do meu espanto, concluiu:—Quando morrer deixo a minha filha pobre e os outros estão ricos.—E a outro lado, o elegante, o frivolo conde de Paçô Vieira, o lustroso conde de Castro Solla, o Anselmo Vieira, sempre a debater finanças, sempre á espera das grandes ocasiões, sempre esquecido á ultima hora na lista do ministerio, o estrabico Dias Ferreira, falando baixinho para dois fieis que lhe restavam; o Matoso dos Santos, sempre enfronhado em algarismos, o Sergio de Castro, o D. Alberto Bramão e outros jornalistas da
Tarde
, o Schwalbach aparecendo, desaparecendo, atarefado, e tantos outros sumidos lá para o fundo na obscuridade e no silencio.
Juntem a este mundo o mundo dos jornaes, os meios politicos onde tudo se comenta e desfigura, e o mundo financeiro, com alguns tipos que é necessario anotar rapidamente: primeiro os Mosers e o Foz, predominando com o Mariano, a casa Torlades e outros grupos; a casa Burnay e o impenetravel Jonh, e, nos ultimos tempos da monarchia, a casa Wernestein, Alfredo da Silva e a casa alemã Ernest George. Entre essas figuras conheci uma d'um alto pitoresco: Gomes Netto, sem instrucção, mas d'um grande senso pratico. Não raro o encontravam em mangas de camisa no seu escriptorio. Escrevia em largos quartos de papel e depois dizia:—Ponham-lhe lá a gramatica!—Acabou já velho e amoroso, fazendo todos os dias compras de legumes e peixe, na Praça da Figueira, que depois ia distribuir de
coupé
por casa das amantes, pescada aqui, pescada alli... Juntem a isto as redacções dos jornaes, em forja rubra a certas horas da tarde ou da noite, os ditos, as noticias espalhadas, a côrte ao senhor conselheiro... Era peor o que se dizia do que o que se fazia... Era o descredito lançado sobre tudo e todos, a tal ponto que um dia, mais tarde, quando um juiz monarchico (Paçô Vieira) foi despachado para a provincia, o delegado disse-lhe muito a serio:—Mas como queria V. Ex.
a
que se sustentasse um regimen em que as filhas do José Luciano eram apalpadeiras da alfandega com cem mil reis por mez?—Nos comicios asseverava-se que a rainha D. Amelia comprava no estrangeiro vestidos por vinte e quatro contos. Peor, peor... Depois da republica o Eduardo Villaça encontrou-se com João Chagas em Paris e perguntou-lhe com ironia:—Então esses famosos inqueritos da republica, com que fizeram tanto espalhafato, não deram nada?—Ao que o outro, lépido, respondeu:—Vocês que querem? Tanto se acusaram de ladrões uns aos outros, que a gente acreditou...
*
—Um homem! um homem!—reclamava o D. Carlos. Um momento de hesitação e de duvida na sua vida... Dois caminhos na frente: um commodo e largo, de transigencias faceis, o outro perigoso mas util para o seu paiz. Decidiu-se pelo peor. Ia jogar a vida.
Elle era, como toda a gente, um mixto de qualidades e defeitos... Ha homens que se nos afiguram d'uma só peça. Desconfiem d'elles: andam mascarados... Timidez e orgulho. Todos dizem:—Era encantador.—Todos estão de acordo n'este ponto: ninguem o podia aturar. Um oficial afirma:—Tratava os politicos como lacaios, tratava a gente do povo com extrema bondade.—Um dia escreveu um bilhete nas costas do Hintze, que se curvou para lhe servir de secretária; outro dia, já a cavalo para uma ferra de touros, atirou com a capa a um velho general seu servidor:—Guarda lá isso!—D'outra vez dispoz o ministerio á chuva para lhe tirar o retrato. Tratava-os com desdem. Sacrificou sempre os homens que se lhe dedicaram, o Martins e o Mousinho, por exemplo. O Carlos Lobo d'Avila tinha-lhe dado uma formula que o lisonjeou e o deitou a perder. Era um valente. Escrevia cartas anonimas á mulher. Media tudo pela mesma bitola—e, se o deixam viver, tinha sido um dos maiores reis da sua dinastia. Acabou á bala, quando ia matal-o o figado: comia e bebia enormemente e pezava-lhe em cima esta tara: era filho d'uma histerica e d'um sifilitico. Este mixto, n'um homem inteligente como elle, só tem uma explicação: timidez e orgulho—timidez e orgulho...
Efectivamente resolver-se a luctar contra os interesses dos partidos e dos homens, desencadear paixões, era lançar-se n'um combate de que não podia esperar senão contrariedades e a morte. Salientaram-lhe logo todos os defeitos. Tudo que se fazia de mau era sempre o rei que o fazia. Obscureceram-lhe de proposito as qualidades. Esqueceram que D. Carlos colocara o paiz n'uma situação externa admiravel, e que os dois ou tres actos de homem d'estado do seu tempo lhe pertencem, como a unica acção grande da republica pertence a Bernardino Machado, que conseguiu levar as tropas portuguezas para a frente europeia—quando os inglezes reclamavam apenas o nosso esforço em Africa
[16]
. As viagens a Paris, a Berlim, a Londres corôam o anno de 1895. A aliança ingleza é um facto. Veem a Lisboa os grandes chefes d'estado. Vae começar uma grande época. Aponta a Africa a uma pleiade brilhante de oficiaes, que elle proprio incita, comprehendendo que o grande Portugal é outro, e que esta facha de terreno, com um clima agricola horrivel, só pode ser uma vinha e um logar de repouso e prazer. De lá, d'esse novo Brazil—dos extensos planaltos d'Angola, que duas vezes por anno produzem trigo—tem de nos vir o oiro e o pão. O resto é visão de pequenos estadistas de trazer por casa. Só elle concebe e incita. Só elle fala e sonha n'um Portugal maior, n'um Portugal esplendido. O plano estabelecido e iniciado, fecha-se com um ponto culminante: o tratado de commercio com o Brazil, que D. Carlos teve realisado, e que, ao que parece, tarde, dificilmente, ou jamais, se conseguirá. Foi este homem que assassinaram como ladrão a uma esquina de Lisboa...
Porque foi morto, afinal, o rei?... Um velho philosopho meu amigo traduziu um dia toda a ancia contemporanea n'aquella grande phrase, que não me canso de repetir:—Nós tambem queremos comer...—Sómente para ser justo e completo, a uma verdade devia juntar outra verdade:—E não cabemos todos!
Não, os partidos não cabiam todos, não podiam caber todos, e estavam completamente desacreditados. A grande força de João Franco foi, na realidade, de protesto. E quem falhou, diga-se já, não foi o rei, foi João Franco; quem não esteve á altura do seu papel, não foi D. Carlos, foi o dictador. João Franco tinha atraz de si um partido pouco numeroso (as clientellas haviam de vir...), mas resistente, tenaz, entusiastico. Os franquistas de hontem são ainda hoje franquistas. Não perdem a fé, e nem agora nem nunca despegam um olho do Fundão, embora lancem o outro, com prazer, ironia ou desdem, sobre o ridente panorama da vida... É preciso que realmente esse homem disponha de qualidades excepcionais para conseguir tal poder de dominação. Era um impulsivo: grande fraqueza e grande força. Procurava os obstaculos para os dominar e gastou uma energia desmedida a resolver ninharias. Em Lisboa dizia-se com espanto:—Este homem só levanta carrapatas!—Ora caçava no seu terreno, ora no terreno dos republicanos. Homem d'estado, ia talvez ter ocasião de o mostrar—depois da morte do rei. Ahi é que era vel-o!... Valente e calmo foi-o decerto. Vi-o eu n'uma ocasião grave da sua vida. Os republicanos (Ribeira Brava, talvez) tinham obtido a sua prisão logo depois do cinco d'outubro. De Cintra levaram-no para um gabinete da Boa-Hora. Cá fóra o França Borges, refestelado n'uma poltrona, gosava a sua vingança e o seu triumpho, separado do cacifro por uma porta escancarada. O juiz Meirelles e um delegado de pera ruiva e gravatinha vermelha, vinham de quando em quando trocar não sei que impressões com elle. Pela porta aberta vi o João Franco de pé, sereno e palido: parecia enorme, junto dos dois bonifrates. E quando o juiz lhe disse, acabado o interrogatorio:—É talvez melhor sahir por outra porta, porque o povo mata-o!...—o homem teimou, o homem cresceu dois palmos:—Eu só saio por a porta por onde entrei.—Estava preso, obrigaram-o emfim a descer umas escadinhas, a meter-se ás escondidas no automovel, que o esperava na calçada que sobe quasi a pique para a Biblioteca, emquanto alguem—juro-o—prevenia a furiosa onda popular, que correu aos gritos de—morra! morra!—a esperal-o em baixo, á esquina. Um borborinho. Tiros de pistola. Dois marinheiros apontaram as espingardas, defendendo o automovel, que só a custo arrancou—emfim! emfim!—pela calçada acima.—Morra o João Franco!...—E as vozes colericas gritavam:—Morra! matem-no!...—Era este o homem, que, com o rei, estava em frente dos partidos progressista, regenerador, dissidente e republicano. Os ataques sucediam-se e agravavam-se. Os monarchicos, dificilmente sustidos pelos chefes, ameaçavam ingressar no partido republicano, que todos os dias ganhava em numero, cohesão e audacia. O proprio José Luciano perdia a serenidade:
«Ha uma coisa que aos governos nunca deve esquecer, que a lição da historia a cada instante repete: á revolução do alto, pode muito bem suceder que responda a revolução de baixo». (Correio da Noite, 14 de Maio de 1907). «O presidente do conselho blazona e conta com o auxilio, sem duvida, poderoso e eficaz do Rei, e zomba da opinião publica, que tanto pretendeu captar, antes de subir ao poder? Faz mal, porque ha-de chegar e oxalá que chegue a tempo o momento em que El-Rei se recorde das suas palavras de ha um anno:
A responsabilidade do decreto, ainda que aparentemente só acto do poder executivo, recahe mais uma vez sobre o Rei, a quem todos hão de pedir a responsabilidade da sua assignatura». (Correio da Noite, 15 de Maio de 1907).
E a 24 de Maio vociferava: «A monarchia precisa dos monarchicos... a monarchia precisa dos monarchicos, mais do que estes precisam da monarchia». Todos os dias novos boatos, todos os dias nova causa de excitação. Barafunda, prisões, protestos. N'uma reunião celebre, por um triz que os regeneradores não passam em massa para o campo republicano. E o
Correio da Noite
, no acesso do delirio, apelava já para a linguagem biblica: «O que tem ouvidos para ouvir ouça; o que tem olhos para ver veja...»
«Do alto deve descer o exemplo, e quando as acções dos que governam são de preversão e de crime, de corrupção e de suborno, de desbarato dos dinheiros publicos e de abuso do poder, os actos dos governados não podem ser de veneração e de paz, de obediencia e de acatamento.
Com torrentes de sangue se conquistou a alforria do povo, com oceanos de lagrimas se lavou a mancha do absolutismo». (
Correio da Noite
, 1 de Junho de 1907).
Que faziam os dissidentes, o mais avançado dos partidos monarchicos? Os dissidentes conspiravam. As dissidencias anteriores, a do Mariano, a do Navarro, tinham fracassado: a do Alpoim ia dar como resultado a revolução.—Foi o senhor que fez a republica.—E elle dizia, com o olho esperto a luzir:—Levei-os pela mão.—Julgando conquistar o poder, perdeu-o para sempre. «Baralhou para dar», como aconselhava o Marçal Pacheco—mas enganou-se no trunfo. Depois que se separou do José Luciano nunca mais acertou, na phrase do Moreira d'Almeida... Era um grupo tremendo: o João Pinto dos Santos, tenaz e resoluto como as armas; o pratico Centeno, mola distendida sabe Deus até onde; o Queiroz Ribeiro, o Pedro Martins; o sagacissimo Egas Moniz, a quem ninguem consegue ouvir os passos—mas que toda a noite, todo o dia, roda nos meandros da politica, conspirador e politico até á medula; o Moreira d'Almeida, capaz de falar e de escrever um dia inteiro, sem um desfalecimento, enfiando todas as formas e todos os estilos, de tal maneira que, muitas vezes o Antonio Ennes ou o Alpoim duvidavam se os artigos, que elle escrevia, lhes pertenciam, apanhando no ar as questões, e com um grupo de amigos
a latere
, que conheciam a fundo as colonias e as finanças; mais este e aquelle, e outras raizes lançadas ao acaso, e ligações no Porto com um «mercante espertissimo», como nas discussões ouvi chamar a Lima Junior. O chefe d'este grupo unido e compacto era extraordinario... Agitação perpetua. Orador admiravel, sobretudo na réplica, em que perdia a retorica e ficava incisivo e nu como uma espada. Um passo a mais e seria um escriptor ilustre: não teve um momento de seu para rever as provas. Com a paixão, a colera, o arrebatamento, um grande coração. Nunca lhe conheci odios, e muitas vezes lhe ouvi defender até o seu maior inimigo, o José Luciano. Ao proprio D. Manuel elle diz: «...O José Luciano vale mais do que todos os progressistas e regeneradores juntos, contando com elle proprio Alpoim ». (
Documentos politicos
). E quem conheceu o Alpoim sabe que as notas que o rei escreveu são mais que exactas, são phonographadas. É elle a falar d'este e d'aquelle, dos amigos, dos inimigos—de Deus e do Diabo. Uma ambição do poder que o leva arrastado, mais pela lucta em si, necessaria a um temperamento excessivo, do que por vaidade ou vangloria. Principios poucos—meios aquelles que os adversarios, a tenacidade e o rancor de José Luciano, lhe deixavam. Acusaram-no de tudo—acusaram-no da morte de D. Carlos... «Até disseram, Senhor, que fui eu que matei El-Rei D. Carlos!!!» (
Documentos politicos
). Resistiu sempre; morreu a conspirar. Nos seus ultimos annos não sei que tristeza o envolve... A figura parece maior, as palavras simplificam-se-lhe, os sentimentos tambem. Engrandece. Raros teriam, como elle teve, a sinceridade de escrever: «Na minha defeza, que teve de ser espectaculosamente rude por vezes e d'uma acção subterranea por outras, excessos cometi de que me penitenceio—mais do que se imagina»... E repete e insiste: «Em muitos actos da minha vida de lucta, por vezes injustamente combatido, tenho sido exagerado—e errei. De muitas coisas estou repezo, e d'ellas hoje se admira a minha inteligencia e peço perdão á minha propria consciencia e até aos homens!» Quantos ha ahi capazes d'esta grandeza? Quantos—tendo todos juntos concorrido para a morte de D. Carlos—o acusaram a elle só, com a tinta do
Correio da Noite
ainda fresca?
«Aqui d'El-Rei—se nos pode ouvir El-Rei—contra quem mandou assassinar o povo de Lisboa.» (Correio da Noite, tarjado de luto). «Aparecem hoje, segundo ameaças do governo e segundo as suas notas oficiosas sempre irritantes á imprensa, decretos esmagadores. Tanto peor para o Rei e para as Instituições. As responsabilidades d'esses decretos, ainda que aparentemente só do poder executivo recairão mais uma vez sobre o Rei, a quem todos hão-de pedir a responsabilidade da sua assignatura. (Correio da Noite, 20 de Junho de 1907).
*
Quem reina agora em Portugal não é o senhor D. Manuel, é sua Magestade o Mêdo. Que quadro para um Saint-Simon, que descrevesse os politicos e a côrte, o que se diz e o que se adivinha, o que resalta dos
Documentos politicos
, e o que se conserva na sombra como um baixo relevo de odios e de interesses! Enredam, intrigam-se, perdem-se todos juntos. A politica portugueza gira sobre este fulchro: «O José Luciano, não podendo governar por se achar impossibilitado... e não querendo substituir-se para não perder o comando de que é muito cioso»
[17]
emprega até ao fim todos os esforços para inutilisar o Julio de Vilhena. Só pela vã ambição de mandar? O velho é perspicaz e teimoso, o velho conhece, como poucos, os homens e entende que só elle pode e sabe governar. É teimosia e grandeza. Não abdica, não pode. Toda a vida foi obedecido. Aferra-se. O que elle quer é ser o «Deus ex-machina da nossa politica sem se mexer da sua
chaise-longue
». Que tipo! Governou sempre, mandou sempre, conservou-se sempre lucido. E tanta serenidade, que até no dia em que lhe assaltaram a casa dos Navegantes, é o unico que não perde o sangue-frio, e, quando o querem esconder n'uma banheira, teima em ficar na cadeira de rodas! Tem a logica do diabo e uma manha, um conhecimento dos homens, a que os outros não chegam. Desde o principio que todos se congregam para enfraquecer o partido regenerador. «Isto—diz a velha rapoza—é uma lucta de politicos que se querem inutilisar e desacreditar uns aos outros». É assim—e nenhum d'elles se lembrou que só os republicanos lucravam. Até os franquistas. «Os franquistas, por intermedio do Martins de Carvalho, forneceram aos republicanos todos os elementos que poderam colligir para descredito dos rotativos» (T. do Amaral ao rei). Até os nacionalistas. Entretanto o rei ouve-os e toma notas... A sua vontade é acertar. Passa a vida a acertar, o que não é bem a missão d'um chefe, mas a d'um relojoeiro. Não creio que os homens se governem só pelo interesse ou pelo terror, como queria Napoleão, mas creio que se não governam com pannos quentes, e que mais vale tomar uma decisão má do que não tomar nenhuma. O povo, como o soldado, precisa de sentir um chefe, e adivinha-o logo. Tudo no rei são boas intenções. Mal ousa dar um passo, não se resolve nunca—e atraz d'elle está a mãe, que quer educal-o para rei, mas que tem diante dos olhos o quadro horroroso... Apezar d'isso é ella propria que o incita a passear á luz do dia, como uma vez quando o trouxeram a galope, entre uma escolta de cavalaria, do Rocio ao Paço... Arrisca-o. Procura congraçar toda a gente. E odiada. A D. Maria Pia, histerica e perdularia, agradou sempre: até os seus ditos se repetiam:—O senhor é um merda!—ao D. Luiz, quando elle aceitou as imposições do Saldanha; até os seus vestidos, a sua ostentação, a atmosphera de rainha extravagante, que só sabia que existiam contos e patacos, os chapeus que mandava vir de Paris, aos trinta e quarenta, em cada estação; até a sua desordem elegante de histerica. Nem os jornaes republicanos a atacavam. E quando foi para o exilio, já doida, com um pão debaixo do braço e uma manta pela cabeça, só ella deixou saudades. Era a Rainha. A D. Amelia não. Essa senhora, de quem alguem disse:—É um grande homem de bem!—subiu todo o calvario da vida. Era religiosa—o que só a honra—chamaram-lhe beata. Andou nos folhetins e nos pamphletos. Os seus criados detestavam-na
[18]
. Ao passo que a rainha D. Maria Pia, falso anjo de caridade, pouco fez com o seu espalhafato e foi adorada, a D. Amelia, que combateu metodicamente a tuberculose, espalhando o bem a mãos cheias, fundando a Assistencia Nacional, com os seus sanatorios e dispensarios, as cozinhas economicas, o hospital do Rego, o Instituto de Socorros a Naufragos, e contribuindo para a fundação do Instituto Bacteriologico, etc., foi sempre odiada, calumniada, insultada. Nem dentro de sua casa lhe era possivel conversar. Um dia, para falar em segredo com um ministro, chamou-o para o meio da sala:—Aqui, porque senão vem tudo amanhã no
Mundo
.—E vinha. Até o homem dos telephones era carbonario... Estou em dizer que é o acaso que governa a vida: a razão não é, com certeza.
Ponham agora á roda d'estas figuras, os politicos e as paixões falando cada vez mais alto. É o momento em que todos á uma querem ser chefes! Querem ser chefes o Teixeira de Souza e o Alpoim, querem-no ser o Wenceslau de Lima e o Campos Henriques, e até o pobre, o inculto Pimentel Pinto, que Antonio Candido fez um dia ministro, tem um deslumbramento e sonha na candidatura. Elle é «o Vilhena muito afectuoso, muito lisongeiro e muito avido de poder»; elle é o Teixeira de Souza, «todo agrado, comtanto que elle entre no governo n'uma situação que não seja inferior á do Campos Henriques»—retrata-os o Wenceslau, que é o unico que sobe, como um balão cheio de vento, no conceito de quasi todos os politicos, que se reveem n'elle como n'um espelho.—E o José Luciano teima: «O Vilhena está quasi abandonado pelos seus marechaes». Todos á uma proclamam ao rei e ao mundo que esse homem é incompetente.—É um homem de talento—afirma um ex-ministro graduado—mas nunca vi incompetencia maior como politico.—Porquê? É o que resta saber. Elle é dos poucos que sabe o que quer, que tem um plano e que o apresenta (
Antes da Republica
)—é tambem o unico com superioridade mental organisada. Pequeno, sempre pendurado no charuto, conserva, até nas ocasiões criticas, serenidade e firmeza. Mas todos concordam na sua inferioridade politica...
Se só pelo triumpho é que se demonstra tino politico, como quer alguem—na verdade Julio de Vilhena falhou completamente. Nem todos os meios lhe serviam, e em Portugal não existem correntes de idéas ou de principios que levem um homem ao poder. O que se chama opinião não se pronuncia. Os chefes de partido são simples chefes de bando. O Paço é que faz ou desfaz os politicos, ou outros meios obscuros, de que cada um se pode servir, como no tempo de Luiz XIV. Escolheram-no para chefe n'uma occasião em que nenhum dos outros o podia ser, mas atraz delle estava a tenacidade do Teixeira de Souza, a politiquice de Campos Henriques e a astucia de Wenceslau.—Esse sim, chame V. Magestade o Wehceslau—diz o Alpoim.—O Wenceslau sim—concorda o José Luciano. Elle é o homem do Paço e dos politicos. Começa a ser indispensavel. O outro tropeço não lhes sae da frente. Era a occasião de governar quem governasse, mas ao José Luciano só lhe convêm «governos mixtos em que elle mande, ou que, pelo menos, ponham o cofre das graças á sua disposição.» (P. Pinto). E todos ou quasi todos só pensam no Wenceslau, que promete muito, que sorri a toda a gente, e que não tem nada lá dentro. É o optimista necessario. Impõe-se pela parte decorativa, pela boa educação, pela maneira como contenta o mundo. As vezes chega a oferecer o governo a um, tendo-o já oferecido a outro... (J. de Vilhena). Só o lunatico não entende... Elle bem protesta: «Quem o conhece tem obrigação de saber que nunca foi um aventureiro ambicioso, nem um intrigante ordinario, capaz de empregar processos menos correctos para obter quaesquer posições». Mas foi exactamente isso que o perdeu! Num paiz onde não ha opinião, não pode haver chefes de partido. Que diferença entre elle e o Teixeira de Souza, espadaúdo e forte, abundante, abrindo logo os braços a toda a gente:—Tu que queres, filho?!—D'outro feitio era o Campos Henriques, procurador encartado do norte, escrevendo a meio mundo e satisfazendo a outro meio (agua molle em pedra dura...); d'outro feitio, emfim, era o palaciano Wenceslau de Lima, o favorito, que censurava as cartas do rei e lhe escrevia os borrões. Nenhum homem mais
souple
nem mais agradavel, sempre a mastigar e a sorrir. Está nas antecamaras quando o rei conferenceia, e ha um momento em que só elle põe e dispõe, e em que aconselha ao rei:—Chame-me a mim, para eu declinar!—E o rei chama-o. As duas grandes figuras do reinado, vinham a ser o Wenceslau de Lima e o Soveral. O proprio José Luciano estava condemnado...
Tudo isto se passa sob o olhar ironico ou severo dos republicanos e diante do phantasma da republica. Nem assim os interesses e as ambições abdicam. Nunca, nem no inferno, abdicaram! Acima de tudo está o odio do José Luciano, estão as paixões do Alpoim, que sonha no poder, e que na manhã de 5 d'Outubro ainda dizia:—Agora, sufocada a revolução, o rei não pode deixar de me chamar a mim...—Interesses e homens, tendo cada um «a sua policia», como diz o Teixeira de Souza. E o rei no trono, no palacio onde as paredes teem ouvidos, sempre a rabiscar papeis, incitando-os ás vezes (J. de Vilhena), sem prever o mundo de coleras que está para vir á superficie. Quando á noite se apanha só, abre a gaveta e desata a escrever aquelle interminavel romance politico, que caminha a galope para o remate da fuga e do exilio. E as vozes, cada vez mais altas, obstinaram-se:—Não pode haver ordem nem tranquilidade com o Alpoim no paiz—exclama um.—Elle é um espirito claro e nada mais! protesta outro.—É uma cambada! A propria dissidencia que é? É um inferno!—conclue o Alpoim.—É um idiota! O mal foi elegel-o para chefe.—E o Teixeira do Amaral observa ácerca d'um grupo:—São pescadores d'aguas turvas...
Quem ha-de conter os homens e os acontecimentos? O rei? O rei escreve, escreve sempre... O Credito Predial desaba:—Foi então que os burguezes, vendo-se roubados, nos deixaram fazer a republica...—asseverou Junqueiro. Ao poder sobe emfim o fatidico Teixeira de Souza. Os acontecimentos precipitam-se. Atraz dos homens está uma força monstruosa que parece empurral-os a todos—até ao rei, que, de quando em quando, pára de escrever e sorri enlevado para os dois bonecos que tem em cima da comoda, a caricatura d'um marinheiro inglez e a caricatura do Soveral—e vae leval-os a todos, sob o olhar impassivel do destino, para o desenlace fatal.
Todos esses homens tinham defeitos. Alguns eram até ridiculos. Mas, apezar de tudo, não ultrapassavam determinada linha, apegados a preconceitos e a formulas, de que não havia arrancal-os... Vae o senhor D. Manuel, não tarda, porque a monarchia ha-de voltar—tudo sucede vertiginosamente n'este paiz—conhecer outros, com muito menos escrupulos, que o hão-de encher de desgostos. V. Magestade verá.
FIM DO 1.º VOLUME
INDICES
LISTA DAS PESSOAS CITADAS NO 1.º VOLUME
A
Abel d'Andrade
Abrantes (Marquez de)
Ada Weinstin
Adelaide Coelho da Cunha
Adrião de Seixas
Affonso Costa
Affonso (Infante D.)
Affonso VI
Affonso XII
Affonso XIII
Agostinho Franco
Albano de Mello
Albano da Fonseca (Coronel)
Alberto Bramão (D.)
Alberto Braga
Alberto Pimentel
Alberto d'Oliveira
Albuquerque (Alexandre)
Alcaçovas (Conde de)
Alda Decken Lino
Alexandre Herculano
Alferrarede (Condessa de)
Alexandre Cabral
Alfredo Anjos
Alfredo Costa
Alfredo da Silva
Alice Lawrence
Alice Munró
Alpoim
Almada Carvalhais
Almeida Araujo (Condessa de)
Alvito (Marquez de)
Ameal (Conde do)
Amelia (D.)
Anna de Sousa Coutinho (D.)
Angejas
Anibal Soares
Anjos (As)
Anna de Jesus
Antonio Azevedo
Antonio Bandeira
Antonio de Brito
Antonio Cabral
Antonio Candido
Antonio Centeno
Antonio Emilio
Antonio da Costa e Silva
Antonio D. da Cruz Pinto
Antonio Ennes
Antonio José d'Almeida
Antonio José de Freitas
Antonio Manuel Teixeira
Antonia Morena
Antonio Moreira da Camara Coutinho
Antonio Nobre
Angela Pinto
Anselmo Vieira
Antero
Armando Navarro
Arnaldo Fonseca
Arnoso (Conde de)
Arnoso (Condessa)
Arroyo (Antonio)
Arroyo (João)
Arthur de Mello
Asseca (Viscondes de)
Augusto Cymbron
Augusto Machado
Augusto Pina
Augusto Ribeiro
Avelino d'Almeida
Aveiro (Duque de)
Avila e Bolama (Duqueza de)
Avila (Conde de)
Ayres de Gouveia
B
Baltar
Barão (Condes)
Barahona
Barbosa Colen
Barbosa du Bocage
Barjona
Barros Gomes
Batalha Reis
Bemposta Sub-Serra (Marquezes da)
Beirão
Bernard Lazare
Bernardino Machado
Bernardo Pindella
Bomtempo
Borges & Irmão
Bourbon de Menezes
Braamcamp
Branca de Gonta Colaço
Brazão
Brito Aranha
Brouillard (Madame)
Buiça
Bulhão Pato
Burnay
C
Caldeira
Camillo
Campos Henriques
Candida da Nora Kendall
Candido dos Reis
Capelo (Almirante)
Cardia
Carlos (D.)
Carlos de Freitas Jacome
Carlos Lobo d'Avila
Carlos Mayer
Carlota Joaquina (Dr.)
Carnaxide (Visconde de)
Carneiro de Moura
Carracida
Carrilho
Casal Ribeiro (Conde de)
Castello-Melhor
Castilho
Castro Solla (Conde de)
Celso Herminio
Chancelleiros
Chapuy
Christina Rezende da Silva
Cipriano Jardim
Coelho de Carvalho
Columbano
Conceição de Carvalho
Correia de Barros
Correia d'Oliveira
Costa Pinto
Costa Santos
Croneau
Cunha e Costa
Curry Cabral
Custodio Borja
D
Dantas Baracho
Delcassé
Dias Costa
Dreyfus
Duval Telles
E
Eça de Queiroz
Eça Leal
Edla (Condessa de)
Eduardo Burnay
Eduardo Cheira
Eduardo Cordeiro
Eduardo de Sousa
Eduardo Pimenta
Eduardo Tavares
Eduardo VII
Egas Moniz
Elisa Baerlein
Elisa Baptista de Sousa Pedroso
Elvino de Brito
Emidio Navarro
Emilia Adelaide
Emilia das Neves
Ernest George
Espregueira
Eugenio de Castro
F
Falcarreras
Fernandes Thomaz
Fernando (D.)
Fernando de Serpa
Fernando Martins de Carvalho
Ferreira d'Almeida
Ferreira do Amaral
Fialho
Ficalho (Conde de)
Ficalho (Condessa de)
Ficalho (Marquez de)
Fife (Duque de)
Figueiró (Conde de)
Figueiró (Condessa de)
Fonseca, Santos & Viana
Fontes
Foz (Marquez da)
França Borges
Francisco Figueira
Francisco Medeiros
Franco (Marquez de)
Francisco da Fonseca Benevides
Frederico Arouca
Frei
Freitas Branco
Freitas Brito
Freitas Rego
Fronteira (Marquez da)
Fumega (Major)
Fuschini
G
Garrett
Garaty (Mr. Garaty (Mr. e M.
me
)
Garrido
Guerra Junqueiro
Gervasio Lobato
Gomes dos Santos
Gomes Leal
Gomes Netto
Graça (Major)
Guilherme de Azevedo
H
Heitor Ferreira
Henrique de Vasconcellos
Hintze Ribeiro
I
Idanha (Viscondessa de)
Imperador do Brazil
Irene Gilman
J
Jacintho Candido
Jayme Arthur da Costa Pinho
Jayme de Seguier
Jayme Victor
João d'Alarcão (D.)
João Barreira
João Chagas
João Chrisostomo
João da Camara (D.)
João de Deus
João de Deus Guimarães
João Franco
João Pinto dos Santos
João de Menezes
João VI (D.)
Joaquim da Boa Morte Alves de Moura
Joaquim Pessoa
John Burnay
Jorge Colaço
Jorge O'Neill
José d'Azevedo
José Bacellar
José Dias (conego)
José Dias Ferreira
José de Figueiredo
José Lobo
José Luciano
José Maria dos Santos
José Nunes
José Paulo Menano
José Reinach
José Saragga
Julio de Vilhena
Judeu
Judice Bicker
Julia Bordallo
Justino
L
Latino Coelho
Leão XIII
Leitão (Ourives)
Lencastre de Menezes (General)
Lima Junior
Linhares (conde de)
Lopo Vaz
Loubet
Loulé (Duqueza de)
Luciano Monteiro
Lumiares (condes de)
Luiza Patricio de Balsemão
Luiz (D.)
Luiz da Camara (D.)
Luiz Campeão
Luiz de Castro (D.)
Luiz Fillipe (D.)
Luiz Osorio
Luiz Trigueiros
M
Machado (capitão)
Malaquias de Lemos
Manuela Rey
Manuel (D.)
Manuel Bordallo Pinheiro
Manuel Figueira
Manuel Hintze Ribeiro
Manuel Ramos
Manuel Ribeiro Borges
Manuel Vaz Preto
Marçal Pacheço
Magdalena Trigueiros
Mardel
Maria Augusta (D.)
Maria Emilia Seabra (D.)
Maria Emilia Macieira Lino (D.)
Maria (Infanta D.)
Maria II (D.)
Maria Kruz Brito (D.)
Maria Pia (D.)
Maria Tereza Pinto de Magalhães (D.)
Marquez da Foz
Marcelino de Mesquita
Mariano
Martins de Carvalho
Mathias de Carvalho
Matoso dos Santos
Maura
Max Nordau
Maximiliano d'Azevedo
May Figueira
Mello Barreto
Mesquitella (conde de)
Monpensier (Duqueza de)
Moreira d'Almeida
Moreira Marques
Moreirinha
Monteiro Milhões
Motta Marques Meirelles (Juiz)
Moser
Moura Cabral
Mousinho
Munhoz
Murça (condes de)
N
Napoles
Navarro
Nazareth
Norton de Mattos
Nuno Castello Branco
O
Oliveira (das
cautellas
)
Oliveira Martins
Oliveira Mattos
Ottolini da Veiga
Ouguella (Visconde de)
Ovidio d'Alpoim
P
Paccini
Paçô Vieira (conde de)
Pad' Zé
Padre Matos
Palmeirim
Palmeirim (General)
Palmella (Duqueza de)
Paraty (condes de)
Paris (condessa de)
Patrocinio (D.)
Paulucci
Pedro d'Araujo
Pedro Martins
Pedro de Noronha (D.)
Pedro IV (D.)
Pedro V (D.)
Pedro Victor
Penalva (Marquez de)
Penamacor (condessa de)
Penha Garcia (conde de)
Peniche (conde de)
Pequito
Pereira das Neves
Pimentel Pinto
Pinheiro Chagas
Pinto Basto
Poitier
Pombal (Marquez de)
Ponte de Lima (Marquezes)
Povolide (conde de)
Praia (Marquezes da)
Prim
Q
Queiroz
Queiroz Ribeiro
R
Ramalho
Rangel de Lima
Raphael Bordalo
Rebello da Silva
Regaleira (Baroneza da)
Ressano Garcia
Rezende
Ribeira Brava (Visconde da)
Ribeira Grande (conde da)
Ricardo Jorge
Rio-Maior (condessa de)
Rodin
Rodrigo da Fonseca Magalhães
Rosa Damasceno
Rosa pae
Rossini
Rufino d'Almeida
S
Sabugosa (conde de)
Saldanha (Duque de)
Sampaio (Visconde de)
Santos (Major)
Santos Viegas
Sarah da Motta Vieira Marques
Saraiva de Carvalho
Schwalbach
Sebastião Telles
Sergio de Castro
S. Boaventura
S. Lourenço (condessa de)
S. Luiz de Braga (Viscondes de)
Silva Bastos
Silva Canellas
Silva Carvalho
Silva Graça
Silva Pinto
Silva Telles
Sousa Holstein
Sousa Martins
Soveral (Marquez de)
T
Taborda
Tavares Festas
Taveira (condessa de)
Teixeira de Sousa
Teodoro d'Almeida
Theophilo Braga
Thomaz Ribeiro
Tompson
Torlades (casa)
Torre da Murta (Visconde da)
Totenbach
Trindade Coelho
U
Urbano de Castro
Urbano Rodrigues
V
Valbom
Valdez
Valença (conde de)
Val-Flôr (Marquez de)
Vallada (Marquez de)
Valladares (conde de)
Varzea (Visconde da)
Vasconcellos Porto
Vianna (Marquez de)
Vicente da Camara
Victor Hugo
Victoria (Rainha)
Vilaça
Villa de Fozcoa (Barão de)
Villa Nova de Cerveira (conde de)
Villa Real e Mello (condessa de)
Vimioso (conde de)
W
Wenceslau de Lima
Wernestein
Z
Zola
Zulmira Franco Teixeira
INDICE DOS CAPITULOS
Pags.
Prefacio 9
Algumas Figuras 27
Pó da Estrada 93
A Sociedade Elegante 267
O Mundo Politico 289
INDICE DAS GRAVURAS
Pags.
Columbano, Auto—retrato 33
Fialho d'Almeida 49
D. João da Camara 57
Eça de Queiroz 65
Antonio Nobre no caixão 81
Correia d'Oliveira 89
Fernandes Thomaz, no seu gabinete 97
Guerra Junqueiro 113
José Luciano encerra o Parlamento 129
Celso Herminio 145
Gomes Leal 161
D. Carlos I de Portugal 177
Oliveira Martins 193
Papelinhos sobre o regicidio 206
Dantas Baracho 225
José Maria d'Alpoim 241
Teixeira de Sousa 257
acabou de se imprimir na tipografia da «renascença portuguesa» rua dos mártires da liberdade, 178, aos 21 de janeiro de 1919. porto
Notas:
[1]
Estas
Memorias
devem formar quatro volumes:—2.º vol.—Os bastidores da monarchia. Vida literaria. Theatro por dentro; 3.º vol.—A Republica. O comercio e a finança. Jornaes e jornalistas; 4.º vol.—A Republica e os seus homens. Vida militar.
[2]
Republica
, 23 de Fevereiro de 1915.
[3]
«Volta-se para o governo do seu paiz, e pede-lhe que se lembre da recepção de Afonso XII em Paris, e que ponha Sua Magestade a coberto de qualquer manifestação que possa porventura nascer, da atitude da Rainha. Limem-se as dificuldades, empreguem-se todos os esforços, nossos e alheios; lancemos mão da nossa situação privilegiada com a Inglaterra; ponhamos todos os elementos disponiveis em acção, para que o céo serene. Por exemplo: que está fazendo o sr. Soveral em Paris? Façam-no recolher imediatamente a Londres».
[4]
Existe uma carta em que o rei D. Carlos diz ao Navarro, que é absolutamente falso que elle se oponha a que o nomeiem par do reino. Seriam os politicos capazes de armar a intriga?...
[5]
Um dos seus sobrinhos escreveu um artigo interessante, do qual extracto os seguintes periodos:
«No seu espirito fluctuava uma bondade inata que se traduzia por uma profunda afabilidade na vida intima e por uma indulgencia estranha no julgamento dos homens. Jámais acreditou em malevolas intenções e nunca da sua bocca saiu uma insinuação maliciosa. Confiava sempre na bondade dos outros, não hesitando, nos momentos de agitação popular, em atravessar serenamente as ruas da capital revoltada, como sucedeu em 5 de outubro e 14 de maio. E quando a familia, naturalmente receiosa, lhe solicitava para não sahir, respondia sempre com toda a tranquilidade: «a mim ninguem me faz mal, pois eu nunca fiz mal a ninguem».
«As suas ferias passava-as a estudar. Ora meditava trabalhos de jurisprudeneia, ora, para descansar, apreciava as mais belas obras de literatura. Dotado de uma memoria privilegiada, sabia de cór longos trechos de versos, e até nos ultimos horriveis momentos da sua existencia, arquejando no leito de dôr, ora recomendava pontos importantes dos processos que trazia entre mãos, ora citava frases de grandes poetas e filosofos referentes á hora suprema que rapidamente se aproximava. E quando a noite cahia, tudo envolvendo no seu manto de tristeza, era com uma anciedade estranha que esperava, na longa vigilia dolorosa, a chegada do sol radiante. E foi com uma precisão rara que previu a hora da sua morte. Mais tres dias, mais dois dias e tudo estará acabado. E, de facto, assim sucedeu!
«Apaixonava-o o estudo da astronomia, e nos ultimos tempos antes de morrer, apesar da sua avançada idade de 75 anos, vergado sobre obras da especialidade e, nas horas silenciosas das serenas noites de verão, passeando na sua quinta dos Covas, ou encostado ás amplas janelas da sua biblioteca, que tanto amava, reconhecia uma a uma as constelações e descobria entre os inumeros astros que recamavam o firmamento, aquelles que os seus auctores haviam indicado.»
[6]
«Effectivamente, segundo nos informam... o homem das
barbas e da carabina não sahiu debaixo da Arcada
(sic) do Ministerio do Reino, visto, que com outro individuo se encontravam juntos da aludida arvore.»—
Para quê?...
por
José Nunes
.
[7]
Parece que o que salvou a rainha foi o cocheiro poder arrancar, bater nos cavalos, por ordem da condessa de Figueiró, e aquilo seguir, com os mortos e a rainha louca de dôr:—Mortos! mortos! e ninguem para os salvar!—N'um gesto maternal debruçara-se cobrindo o filho com o proprio corpo.
—Quem matou o rei... «O grupo foi em parte organisado durante o dia 31 e ás 3 horas da madrugada do dia 1 de fevereiro, em uma quinta dos arredores de Lisboa decidiu-se que só fossem cinco os individuos a executar o plano do Boulevard Poissonière.»—
Para Quê
? por
José Nunes
.
...«Se na tarde do 1.º de fevereiro de 1908 não se désse mais que o primeiro tiro que se deu, e esse foi de carabina, ficariam vivas todas as pessoas reaes, excepto o rei. Não obstante o tiroteio ter-se desenvolvido momentaneamente, assaltando-se ao mesmo tempo a carruagem, foi então que, sobre o pae e o filho, se dispararam mais tiros, alguns d'elles mortaes».—
Para Quê
? por
José Nunes
.
...—Ao menos responda-nos a esta pergunta: o Buiça e o Costa teriam cumplices?
E o sr. Laranjeira, sorrindo, affirma:
—Tinham varios amigos...?—E hesita.—O que lhe posso garantir, é que o Buiça não foi o heroe principal; quem preparou tudo foi o Alfredo Costa na «Loja Obreiros do Trabalho». O Costa tinha uma grande influencia sobre varios rapazes de valor e de audacia. Tambem sem receio de ser desmentido lhe posso asseverar que o Alfredo Luiz da Costa foi assassinado por mão occulta, quando vinha, preso e vivo, para o posto da Camara Municipal. Note que as suas ultimas palavras foram estas.—Ai minha mãe, que me trahiram!—E o chefe Bazilio, um dos que o conduzia, não pôde vêr quem lhe descarregára a arma, matando-o... No meu modo de vêr, os novelleiros encartados, dizem coisas sobre coisas, sem conhecerem o
fio á meada
, e é exactamente o que tem prejudicado tudo e todos.»
Revelações sobre o regicidio—Entrevista com o sr. Rodrigues Larangeira publicada no
Imparcial
de 1 de julho de 1910.
[8]
Apurou-se que o ex-ministro em Londres, de julho de 1892 a 12 de Novembro de 1910, recebera o seguinte:
1892-1893 10.833$890
1893-1894 12.841$593
1894-1895 16.699$006
1895-1896 (10 de Junho a 30 de Setembro) 2.163$750
1896-1898 17.264$456
1896-1897 (26 de Abril a 26 de Julho) 2.441$625
1898-1899 15.618$168
1899-1900 15.835$443
1900-1901 12.976$500
1901-1902 14.211$412
1902-1903 21.807$881
1903-1904 15.963$505
1904-1905 35.481$112
A transportar 194.138$341
Transporte 194.138$341
1905-1906 21.437$118
1906-1907 25.749$787
1907-1908 20.447$868
1908-1909 11.802$562
1909-1910 12.487$687
1910-1911 (de 16 de Julho a 12 de Novembro) 3.515$680
289.679$044
Recebeu mais:
Pela rubrica de adeantamentos 5.743$815
Pela rubrica de suprimentos 226$035
Pela rubrica de adeantamentos 450$000
Pela rubrica da visita aos Reis d'Inglaterra, 1904-1905. 21.042$935
Total—Reis 317.041$828
—As despezas legaes auctorisadas eram de 10.950$000 réis por anno. Vê-se como eram excedidas!
—Segundo o oficio do ex-ministro Vilaça para o ministro da fazenda, pedindo mais dinheiro para Soveral, este, no almoço e ornamentação da legação, na visita do rei Carlos, consumira mais o seguinte:
Almoço, libras 325 — 12 — 0
Vinho, libras. 49 — 6 — 6
Decorações, libras 1.760 — 1 — 0
Total, libras. 2.134 — 19 — 6
—Averiguou-se, pelo oficio do ex-director geral da thesouraria, Perestrelo, que pelo mesmo motivo da visita do rei Carlos, Soveral recebera mais:
Em 30 de Novembro de 1904, libras 1.500
Em 10 de Dezembro do mesmo anno, libras 1.000
Total, libras. 2.500
Todas estas quantias, em libras, ou em réis, foram calculadas ao cambio par. Como n'aquellas épocas houve subido agio sobre o ouro, e calculando esse agio n'uma media de 15%, vê-se que notavel aumento ha nas despezas descritas!
Soveral recebeu mais, pela verba de despezas diversas extraordinarias no anno economico de 1909-1910, sem qualquer justificação, réis 1.934$855; e pela verba destinada á viagem a Londres do rei D. Manuel, réis 4.468$900.
Na liquidação e pagamento dos direitos de mercê, emolumentos e sellos, houve enorme trapalhada durante muitos annos, d'onde resultou Soveral esquivar-se ao cumprimento das leis fiscaes.
Deve os direitos de mercê e emolumentos e sello pelo titulo de Conselho, pelo titulo de Marquez, pelo cargo de secretario da legação em Londres, pelo cargo de ministro em Londres, pela gran-cruz da Torre e Espada, etc.
Quando foi ministro dos negocios estrangeiros, teve a habilidade de em 17 mezes, só á sua parte, consumir em despezas reservadas, réis 37.757$515, sem deixar no ministerio qualquer documento, explicando ou justificando o emprego de qualquer verba!—
Intransigente
, de 31 de Março de 1911.
[9]
«Escrevem-nos de Braga:
Joaquim de Sequeira Lopes, negociante, e Manoel Coelho dos Santos, penhorista, são pessoas de bem e residem em Espinho.
Sequeira Lopes foi em Novembro de 1907 para Lisboa curar uma molestia hospedando-se em casa de seu irmão Frederico, negociante, chefe graduado do alpoinismo. D'ali escrevia semanalmente ao Coelho, com quem tinha negocios, quando na capital começou a agitação para derrubar o Franco, dando em cada carta uma noticia politica, que o Coelho lia em toda a parte onde se lia politica. Na quarta-feira ou quinta da semana do regicidio, essa noticia era d'este theor:
Disseram hoje a Frederico, no escriptorio forense... que João Franco seria assassinado em 24 horas
. Quando chegou a Espinho a carta que continha esta noticia, tinham passado as taes 24 horas, por isso o valor da noticia estava prejudicado. Deu-se o atentado no sabado e na quarta-feira seguinte a carta habitual dava esta noticia:
Os revolucionarios, vendo-se perdidos pela prisão dos chefes, reuniram-se secretamente, republicanos e dessidentes d'acção, e resolveram a morte da familia real. Propoz-se que os executores fossem tirados á sorte, mas o professor Buiça protestou, oferecendo-se voluntariamente, sendo o seu alvitre secundado por muitos que se promptificaram a auxilial-o.
Estes apontamentos foram dados ao ministro Campos Henriques logo depois da formação do gabinete Amaral. Foram em carta anonyma, mas acompanhados d'um grande numero de testemunhas que viram e leram as taes noticias, figurando n'ellas o coronel reformado Raul de Passos, d'Elvas, que na ocasião residia em Espinho e dava a semelhantes noticias um grande valor para a investigação.
Campos Henriques, o que demitiu o juiz Alves Ferreira e chamou o outro da Meda, fez de conta que nada era com elle. N'esta pista ninguem mexeu.»
*
«A reunião, afirma-se, teve logar na Costa do Castello. Tomaram parte n'ella quadrilheiros da quadrilha republicana e de todas as quadrilhas monarchicas»...
[9a]
[10]
Essa extraordinaria sessão, em que o parlamento parecia estar no banco dos réus e o Afonso Costa, theatral, surgia como um acusador triumphante!... O ministerio tinha desaparecido. Fugira! Ninguem sabia do que se ia tratar: esperava-se peor, muito peor... A impressão real, patente, autentica, era de que elle ia fulminal-os com provas á vista, acusando-os d'um crime... De que crime tremendo? Quando leu os documentos houve uma impressão de alivio, quasi a exclamação:—Era só aquillo?...—E quando baralhou e se enganou nos nomes da pessoa que acusava—ninguem soube aproveitar o momento, o erro, a oportunidade... Ninguem se quiz comprometer... A defeza feita pelo Paçô foi fragil, risonha, quasi «pedindo desculpa»...
[11]
Folheto de 10 paginas, com este titulo:
Os Barbadões, resumo historico por D. Sebastião de Vasconcellos, Bispo de Beja, Par do Reino e Comendador da Nobilissima Ordem de N. S. da Conceição de Villa Viçosa. Propriedade da Empreza Editora do Jornal «Portugal» Limitada
.
[12]
Carta publicada n'
O Norte
de 1 de Setembro de 1918 pelo snr. Bourbon e Menezes:
Meu Senhor:
Tenho a honra de communicar a V. Magestade que, nos termos assentados, escrevi ao seu encarregado de negocios em Berlim para fazer-lhe saber a conveniencia q. haveria em retro-trahir
(sic)
a data da visita de V. Magestade para 20 de novembro e nesta orientação lhe expuz, para levar ao conhecimento do Ministerio dos Negocios Estrangeiros allemão, os argumentos e razões que me pareceram apropriados ao fim que se pretende. Julgo q. isto merecerá a aprovação de V. Magestade.
Quanto ao assunto da nossa conversação no Paço das Necessidades, entendi hoje aproveitar a oportunidade de vir o marquez de Villalobar dar-me uns informes que é natural que V. Magestade já conheça pelo conde de Sabugosa, para entrar com elle em conversa officiosa sobre a conveniencia de estreitar em bases definidas as nossas relações politicas, visto os dois paizes soffrerem de um mal commum—a invasão da onda democratica. Neste sentido lhe fiz um longo arrazoado que elle recebeu com agrado a ponto de me perguntar se queria que levasse isso ao conhecimento do seu soberano ou apenas do Presidente do Conselho. Fiz-lhe notar que esta idea era apenas
pessoal
e
minha
, que sobre ella não tinha consultado o governo e que V. Magestade nem de leve suspeitava d'este meu ponto de vista, que a minha idea era de que as duas nações por um instrumento secreto se comprometessem a um mutuo auxilio, no caso de irrompessem
(sic)
movimentos revolucionarios que puzessem lá e cá em risco a segurança das instituições.
Elle concordou em que o interesse era commum e por isso reciproca a vantagem e lhe parecia que seria grato ao coração de S. Magestade o Rei D. Affonso o lembrarmo-nos d'elle em tal conjunctura, independentemente das estipulações da nossa alliança com a Inglaterra. Entendi pôr n'este pé a questão porq. tinha opurtunidade
(sic)
e corresponde a uma necessidade que não é
só nossa
mas tambem d'elles. O ministro comprehendeu bem a minha idea e disse-me que a ia transmitir a Espanha, a Canalejas, afirmando-me que poria n'isto todo o seu empenho. Fiz-lhe sentir que seria bom pôr só a questão
em principio
e quanto á extensão e detalhes do acordo seria para regular depois quando V. Magestade e o governo conhecessem o assumpto. Não quiz ir mais longe para me não envolver em dissertações sobre acordos economicos que me parecem pouco convenientes agora para nós. Eis o que fiz e o que me parece que diviria
(sic)
fazer-se por emquanto, pois que este assumpto, quanto ás outras nações, carece de opurtunidade
(sic)
e entrados na via de explicações correriamos o risco de prejudicar os interesses que temos em vista.
O que se me affigura necessario e conveniente é ligar os dois paizes n'uma deffeza
(sic)
commum, visto que as vantagens e riscos são communs e não julgo difficil chegar-se ao desejado fim, tanto mais quanto as suas informações se referem a um movimento revolucionario nos dois paizes, com dinheiro vindo de França.
Muito prazer terei se o meu parecer merecer a subida honra da aprovação de V. Magestade, pois que outro não é o meu desejo se não de corresponder á sua confiança com a pratica de actos meus que sejam acertados.
Mostrou-se o Marquez de Villalobar muito empenhado em saber o quer que fosse do casamento de V. Magestade. Continuei affirmando-lhe q. nada sabia porque o que se estava ainda fazendo em Inglaterra era
à l'insu
do governo, mas que logo q. soubesse cousa digna de ser-lhe communicada, lhe não faltaria com essa confidencia.
Disse-me elle q. o seu empenho de saber correspondia ás sucessivas perguntas que de Espanha lhe fazia o seu Soberano.
Forse che si: forse che nó.
Beijo respeitosamente as mãos de V. Magestade e em tudo aguardo, com o devido respeito, as ordens que se dignar dar ao
seu ministro
e subdito obediente
Lisboa, 19-7-910.
(a) José d'Azevedo Castello Branco.
[13]
PREÇO DA VIDA
Pão—kilo 90
Carne de segunda qualidade 300
Carne limpa 600
Vitella 800
Carne de porco 480
Toucinho 320
Banha 320
Assucar pilé 240
Bacalhau 200
Massas 150
Manteiga 800
Ovos—duzia 250
Feijão branco—litro 70
Petroleo 90
Leite 100
Feijão frade 50
Feijão da ilha (manteiga) 100
Azeite 400
Carvão—arroba 300
Uma pescada 500
Um vestido de senhora 30$000
Um fato de homem 20$000
Um par de botas 4$000
Média do aluguer d'um andar, por semestre (casa para uma familia da mediania) 120$000
[14]
Foi oficial na marinha ingleza, condecorado na campanha do Baltico com a medalha militar, e um excelente administrador. Diz-se que graças a elle é que a casa da mulher sahiu da barafunda e quasi ruina a que chegára á data do casamento. Por isso talvez é que passou por um apagado guarda livros...
[15]
Do
Correio Nacional
, na sua secção
Ecos
:
O sr. Hintze Ribeiro é d'uma grande generosidade para com a sua familia. Demonstra-o a seguinte lista, cuidadosamente confeiçoada sob informes do Diario do Governo: Para o elevado logar de inspector dos impostos no Porto foi transferido o sr. dr. José Paulo Menano, de 24 annos de edade, casado com uma cunhada do sr. Hintze. Ha tempos, foi colocado no logar de director do hospital das Caldas da Rainha o sr. dr. Augusto Cymbron Borges de Sousa, cunhado do sr. Hintze. O sr. Manuel Hintze Ribeiro, irmão do sr. Hintze, foi graduado em inspector superior da alfandega de Ponta Delgada, passando de 1.170$000 a 1.700$000, mais do que ganha um director geral. O sr. Antonio Moreira da Camara Coutinho, sobrinho do sr. Hintze, foi nomeado director da alfandega do Porto, com quatro contos de reis anuaes, o ordenado d'um ministro, quasi. O sr. Manuel Rebello Borges, 2.º oficial da alfandega de S. Miguel, foi nomeado director da mesma casa fiscal, com um conto seiscentos e vinte mil reis. É uma fortuna para o paiz que a familia do sr. Hintze não seja mais numerosa. Aliaz, não haveria contribuintes cuja pelle chegasse para pagar tantos encargos...
[16]
De passagem apontemos a figura de Norton de Matos, o maior ministro da guerra contemporaneo, organizador capaz d'um trabalho de ferro, que só os technicos serão capazes de avaliar em toda a sua extensão.
[17]
Todas as palavras entre comas são dos
Documentos politicos
.
[18]
Introduziu a ordem no Paço.—Até o preço do peixe quer saber!—dizia-se cá fóra com indignação. Quando do 5 d'outubro todos os creados diziam bem do rei—todos diziam mal da rainha. O pequeno quadro que segue explica talvez muita coisa:
«Havia familias das proximidades do Paço que se alumiavam só com as vellas do palacio real, compradas por vil preço. As contrabandistas andavam pelas casas dos seus freguezes oferecendo roupas, desde os vestidos da rainha e dos fatos do rei até ás roupas brancas, meias de seda e sapatos de setim com a corôa real, para não oferecer duvidas acerca da procedencia. D'estes factos tivemos conhecimento de sciencia certa, por vivermos n'esse tempo perto do Paço e nos terem vindo oferecer por mais de uma vez os espojos do saque, que não aceitamos por varias razões, sendo uma d'ellas a falta de vocação para receptadores de roubos. A vocação nasce com a pessoa. Da ucharia do Paço banqueteavam-se os parentes dos empregados e cremos que até os amigos.
A audacia do latrocinio chegou ao extremo. Indo um dia o rei D. Luiz caçar á Tapada e tendo morto tres coelhos, ao chegar ao Paço lembrou-se de os mostrar á rainha.
Mandou-os buscar, mas apenas lhe apresentaram um, porque os dois restantes tinham desaparecido durante o breve precurso da Tapada até á Ajuda.
Nos proprios charutos do rei todos os dias dava um ataque epileptico que os obrigava a saltar das caixas sem que se soubesse para onde tinham desertado. Chegou o descaramento a ponto de não deixarem um charuto para o rei fumar».