Memorias (continued 3)
Reading edition
—Era um pulha, um pulha e um doido. Vejam o retrato que vem estampado no
Je sais tout
... Era elle quem escrevia cartas anonimas á propria mulher—afirma o João Barreira.
—Foi um grande exemplo e uma tremenda lição.
—Se escapa tinhamos ahi uma dictadura feroz. Era capaz de tudo!
Só o Manuel Ramos, obstinado e cego, teima:
—A memoria do rei há-de ser rehabilitada.
*
No conselho d'estado o João Franco foi absolutamente inconsciente. Por proposta do Julio de Vilhena não se leram as actas da sessão anterior, como é costume, para lhe não ser completamente desagradavel.
*
O João Franco teimou até á ultima, agarrou-se a tudo, para meter um ministro no governo—o Penha Garcia. Disseram-lhe:
—Mas não pode ser, bem vê que o governo tem de revogar a maior parte das suas medidas.
—Mas eu concordo com isso. Eu escrevo até uma carta concordando com isso.
*
A ultima piada do ministro dos estrangeiros, Luciano Monteiro:
—Então V. Ex.
a
não faz testamento?
—Não, o rei tambem o não fez...
*
O rei e os principes traziam rewolveres comsigo. Afirma-se que o principe real e o infante D. Manuel ainda chegaram a dar dois tiros n'um dos assassinos.
*
Hoje correram boatos de revolta no Porto, de ter chegado a Cascaes uma esquadra ingleza, etc.. Tudo falso.
*
No Paço, na camarilha, havia dois partidos, o do rei e o da rainha. O da rainha está agora de cima.
*
Insiste-se em que se o rei escapasse ao atentado havia uma hecatombe. Diz-se que o Fontes, que tinha a qualidade intuitiva de conhecer os homens, dizia de D. Carlos:—«Nunca o pude perceber».
*
Agora voltam-se as atenções para o novo rei. Dizem:—É Saboia.—No conselho d'estado foi simpatico. Chorou, entregou-se nas mãos dos que o ouviam:—Não estou preparado para reinar.
Os irmãos adoravam-se. O que foi assassinado zangava-se quando este lhe chamava
prior do Crato
. D. Luiz Fillipe era mais reflectido. Este é mais impetuoso—mas tem melhor coração.
Fevereiro—1908.
Nos ultimos tempos o rei tinha scenas violentissimas com a D. Amelia.
*
A impressão no Porto foi curiosa: Quem ás onze horas da noite passava na praça de D. Pedro via muita gente aos grupos de dez a onze pessoas cada um. Ninguem discutia, não se falava alto. Era um borborinho de quem conversa em segredo, a medo—ch... ch... ch...—ao ouvido. A noticia soube-se pelo telephone do Borges & Irmão.
*
Foi no automovel do Baltar do
Janeiro
que o Alpoim se safou para a Hespanha.
*
As Anjos contaram á D. Maria Augusta que o electricista de S. Carlos tinha tudo preparado para o D. Carlos morrer quando se encostasse ao rebordo do camarote no theatro.
O homem suicidou-se quando se viu descoberto.
*
O novo rei não gosta de
sport
. Sofre de reumatismo. Adora a musica. Em pequeno dizia:
—Reger uma orchestra n'uma grande sala e ouvir no fim os aplausos do publico, isso sim, é que é gloria!...
As meninas da alta roda, falando d'elle, diziam desdenhosas:
—Isso são
mariquices
do senhor infante.
*
Uma velha, a tia Julia, da familia Bordallo:
—Coitadinho do principe! Parecia mesmo uma menina!... E não estava estragado como estes rapazes d'agora. Tinha uma carinha de menina. E não era porque elle não
tivesse vontade
, era porque
o não deixavam!
...
*
Muita gente que tinha bombas em casa tem-nas deitado ao rio.
*
Da camarilha contam-se coisas como esta. Alguem me diz:
—Conheço uma senhora muito de bem, a quem este e aquelle (e cita os nomes) foram fallar da parte do rei, para ir a bordo do
yacht
. Ella deu-lhes uma desanda tremenda.
*
O João Franco já tinha organisado listas de proscripções. A alguns administradores de concelho foram enviadas circulares, pedindo o nome dos individuos que na localidade entravavam a marcha do governo.
*
O pae do João Franco e os redactores do
Jornal da Noite
foram corridos do Suisso.
*
Trindade Coelho conta que João Franco, nas vesperas dos acontecimentos, foi consultar a bruxa—M.
me
Brouillard, uma transmontana esperta que ahi está em Lisboa.
*
Já ha seis contos para a familia do Buiça. Muita gente lhe arrancou botões, cabellos, bocados de vestido. João de Deus Guimarães foi vel-o á
morgue
. Era prohibido tocar no cadaver. Entrou em conversa com o guarda:
—Ah! O Buiça tem ainda o braço rigido!
—Qual!
—Parece...
—Já teve, já, mas agora está lasso.
—Mas olhe que...
E aproximando-se do cadaver correu-lhe a mão pelo braço, como quem apalpa, e deu-lhe
um formidavel aperto de mão
.
O
frigorifico
é um buraco, e os tres cadaveres foram atirados uns por cima dos outros a trouxe mouxe, de mistura com pedaços de gelo. Toda a gente tira o chapéu e fala baixinho. O regicid é um buraco, e os tres cadaveres foram atirados uns por cima dos outros a trouxe mouxe, de mistura com pedaços de gelo. Toda a gente tira o chapéu e fala baixinho. O regicida está amarfanhado, com lama na barba e nos cabellos. Seus olhos não são olhos de morto—exprimem espanto e colera, e a figura é séria, é tremenda. Tem rasgões, feridas na cara, e mãos nervosas, mãos delicadas de mulher.
*
Diz hoje um professor que conheceu o Buiça:
—Era um homem profundamente serio e que protestava sempre com colera, quando se lhe falavam em politica:—Não me falem em politiquices! não me falem em politiquices!
*
O João Pinto dos Santos:
—Emquanto estive preso alimentei-me de vegetaes e de odio. Nos primeiros dias aquillo impressionou-me; mas logo que tive livros serenei... Queriam fechar as janellas, mas eu disse ao Malaquias de Lemos:—O ar não! o ar não m'o tirem, prefiro morrer! E tambem lhe peço que quando bater á porta m'a abram logo, senão não aguento. Antes duas balas!—Deixaram-me a janella aberta... Mandei vir uns poucos de fatos, calças de verão, d'inverno, etc.—para ter a sensação de que estava livre. Depois emprestaram-me livros. Entre outros um volume de viagens na China, onde ha algumas paginas sobre a vida da mulher chineza. E aquillo fez-me chorar, tão certo é que a desgraça nos aproxima dos desgraçados. Afinal chegaram os livros que tinha pedido, um compendio francez de philosophia, sete calhamaços de economia politica—e fui quasi feliz. O juiz interrogou-me:—Porque está preso?—Não sei.—Há uma testemunha que o viu no elevador da bibliotheca.—É falso. Estava n'uma casa perto da bibliotheca, para combinar com o Alpoim e alguns amigos a nossa atitude perante as prisões que estavam sendo feitas.—Chamou-se um policia a quem o juiz perguntou: —Conhece o snr. João Pinto dos Santos?—Não senhor.—Diante d'isto é claro que o juiz tinha de me mandar embora. Que imagina que fez o João Franco?
O João Franco avocou o processo a conselho de ministros e condemnou-me!
Era odio pessoal. Na municipal fui sempre bem tratado.
—E souberam?
—Alguma coisa presentimos na noite em que foi atacado o regimento de Campo d'Ourique. Supozemos uma revolução gorada. Se atiram bombas ao quartel eramos indubitavelmente fuzilados. Uma noite ouvimos formar as tropas, carregaram com precipitação as armas, um oficial passou a correr e diante do meu quarto bradou á sentinella:—Cuidado com esse sujeito!—O Chagas disse-me hontem que, quando chegou á janella, um soldado lhe fez um
manguito
. Os oficiaes é que continham a soldadesca—mas até onde?
—E disse no seu depoimento que havia de matar o João Franco?
—É falso; o comandante da guarda falou-me n'isso e eu respondi-lhe:—Bem vê V. Ex.
a
que não quero que meus filhos possam dizer:—Meu pae foi um assassino.—Isso não! Mas se um dia, depois de o insultar bem insultado, n'uma discussão em plena camara, elle avançar para mim, deito-lhe as mãos ás guellas, e nem V. Ex.
a
nem toda a guarda municipal m'o arrancam das unhas!
*
Ha quem diga do João Franco:—Foi sempre um cobarde. Em Coimbra a valentia vinha-lhe do José Lobo e dos irmãos, uns tipos d'aquelle feitio, e agora da municipal e da policia. O pae era a mesma coisa, e o tio, o
Mil diabos da capinha
, dava tiros e fazia disturbios sempre que tinha as costas quentes.
*
João Franco fazia cincoenta e quatro annos este mez de Fevereiro.
8 de Fevereiro—1908.
É hoje o dia do enterro. Essa gente que veio de fóra para assistir ao funeral, principes, duques, generaes, diplomatas, está cheia de medo. E por ahi diz-se á bocca cheia:
—Ainda bem que foram portuguezes os que executaram o rei. É a primeira vez que um rei portuguez morre ás mãos do seu povo. Até agora acabavam ás mãos das camarilhas.
*
Não me sae dos olhos este quadro do enterro. Esperam-se bombas... Os sinos tocam, todos os sinos das egrejas; rufam os tambores cobertos de luto. Desfilam coches com principes e carros com fardas. Um homem apregoa:—
O ultimo granadeiro!
quem quer
O ultimo granadeiro?
—Mais carros, mais coches, o filho do imperador da Allemanha, guardado por uma escolta de prussianos, que o pae mandou com elle com medo que lh'o matem. Tropas em fila, carroças de gala, generaes, diplomatas glabros, com o olho desconfiado e vontade que aquillo termine depressa... Agora a carroça com o sceptro e a corôa, e outra com crepes a rasto como se levasse o luto da monarchia.—
O ultimo granadeiro!
...—Mais coches, e aqui e alli o desfile cortado pela multidão irrespeitosa. Um laivo de grotesco na tragedia, riscos exagerados de carvão que fazem medo... Phisionomias lividas nas fardas pomposas, decorações, gente que mal se atreve a olhar a plebe temerosa—silencio e um largo ah! a que se segue uma gritaria d'inferno. Bicha de carros interminavel, mortos por largarem n'uma abalada de pavor—carros funerarios passando entre a indiferença gelada—farrapos de multidão que atravessam o prestito propositalmente, tropas esbandalhadas, corôas que parecem velhas... E por fim mais tropas e o mesmo grito insistente:—
O ultimo granadeiro!
quem quer
O ultimo granadeiro?
...
Dias mais tarde havia sujeitos que se chegavam á beira das pessoas que deitavam luto e perguntavam-lhe com ar de troça:—Então morreu-lhe alguem da familia?...
*
O Correia d'Oliveira:
—Se visse!... Quasi ninguem tirava o chapeu quando o enterro passou... A sombra do rei comeu, sumiu a do principe.
*
Tem-se distribuido muitos papeis com estes dizeres:
Morte aos Sanguinarios Afonso Costa, Alpoim, Ribeira Brava, os Verdadeiros Assassinos DE EL-REI E DO PRINCIPE REAL.
E outros, escriptos á machina, atribuindo o crime a este e áquelle...
*
A preocupação do rei é esta:
—N'este caso que faria D. Pedro V?
*
O João Franco possue cartas do rei, em que elle lhe apontava escandalos em diferentes secretarias.
*
O dr. Curry Cabral, que é um homem ponderado, disse em casa das Thomares:
—Ha cinco annos que o João Franco está doido.
E o Silva Bastos, que foi da sua intimidade:
—Ás vezes avançava para a gente de punhos fechados, n'um phrenesi. Depois dava-lhe a nevralgia e deitava as mãos á cara ou desatava aos berros—e, n'um instante, como n'uma roda que gira vertiginosamente e vae passando por dois buracos, lia-se-lhe nos olhos, sucessivamente e sem interrupção, colera, despreso, ambição, serenidade, medo, orgulho, riso, ferocidade, paz, vertigem...
*
E outro:
—Era a obra de Martins posta em pratica por um doido. Sómente o Martins dissera, arrependido, a Junqueiro:
—Nas penitenciarias está gente muito melhor que o rei.
11 de Fevereiro—1908.
Espalha-se que, se isto não socegar, o rei e a rainha se vão embora e o estrangeiro toma conta das colonias. Pede-se repressão. Diz-se que há oficiaes de artilharia e cavalaria que querem fazer uma
intentona
—e os politicos já se não entendem por causa das nomeações dos governadores civis!
*
O João Chagas surge na livraria, mais gordo, com um esplendido casacão alvadio:
—Tenho estado preso diferentes vezes, mas nunca senti tanto a falta de liberdade como d'esta. Das outras falava, tinha ar e luz á minha disposição. Agora foi a incomunicabilidade absoluta. E, se atirassem bombas ao quartel, eramos despedaçados. E eu, que sabia que alguns grupos tinham combinado tudo como quem resolve um problema—dizia comigo:—Se esses diabos não têm a caridade de se lembrarem de nós, estamos perdidos!—Um dia á noite tive a impressão nitida de que iamos ser fusilados. Ouvi reboliço, as tropas carregaram as armas, e até senti que, com a precipitação, deixavam cahir alguns cartuxos. Tentei espreitar por um postigo. Um oficial que passou correndo disse á sentinela:—Cuidado!—O frio era mortal. O soldado encostou-se á porta—não pude espreitar. Ignorava tudo. Estendi-me em cima da cama e só ás quatro horas da manhã sucumbi de cansaço... Que horas! É horrivel morrer assim sem lucta. Cheguei a fazer um pequeno testamento...
Oliveira Martins.—Desenho de Antonio Carneiro.

E o João Pinto dos Santos:
—Pude ver d'uma vez o
Diario Illustrado
, nas mãos d'um soldado, com o retrato do rei, mas calculei:—chegaram de Vila Viçosa.
—Mas nem sequer reparou na tarja de luto?
—Eu não. O Antonio José d'Almeida diz que reparou e que desconfiou que o rei tinha sido morto.
—Os oficiaes—continua o Chagas—trataram-me muito bem, mas á despedida disse-lhes:—Agradeço-lhes muito a amabilidade com que me trataram, mas para outra vez prefiro ir para a Penitenciaria. Lá talvez chegue algum rumor.
E conclue:
—Acalmação sim, acalmação, se assim o entenderem,
durante alguns mezes
. Ah não foi em vão que trabalhamos vinte annos!...
*
Fui hoje ao café do Gelo ver o sitio onde o Buiça se reunia com os amigos. O café é já de si curioso, com duas salas d'aspecto completamente diverso, uma para o Rocio, d'aparato; outra, nas trazeiras, baixa, para os freguezes envergonhados, com portas para a rua do Principe. Era ali, n'aquella meza, do canto, á direita quem entra pelas trazeiras, que o professor se juntava com os outros e passavam horas a conversar baixinho.
—Eram muitos?
—Ás vezes doze ou quinze—diz o creado.—E ficavam até tarde em grandes discussões...
*
Todos os politicos são concordes n'isto: o D. Carlos gastara nos ultimos annos, alem da dotação, dez ou doze mil contos.
*
E toda a gente diz que era um mentiroso e que difamava a mulher. Ainda hoje alguem contou que um dia apareceram uns papeis inventando infamias da rainha com a Sandoval. Investigou-se. E o José Luciano disse logo:—Escusam de procurar, isso é d'El-Rei.
*
O
Seculo
, disse-me o Avelino d'Almeida, tem tido tiragens de 160:000 exemplares.
Fevereiro—1908.
Depois da morte do rei o Arnoso foi ao Malaquias de Lemos propor-lhe a contra revolução.
—Nem me fale n'isso. Se veem para a rua corro-os a bala raza e vou já d'aqui contar tudo ao Ferreira do Amaral.
20 de Fevereiro—1908.
Era hoje que devia rebentar a contra revolução, para impôr ao Paço uma dictadura militar.
*
Hoje fui a casa do Schvalbach, ao Conservatorio. Coisas antigas e louça das Caldas, velhos quadros do Liborio e tectos pintados em caramanchão pelo Augusto Pina. O homem está aqui: é uma revista de anno—dificuldades de que sae com um sorriso, enredo, e um fio de oiro e de ternura a envolver tudo isto...
Conheceu o rei e explica-o:
—Quando queria era um
charmeur
. Ás vezes ninguem o podia aturar e mentia como uma cesta rôta. Ultimamente déra nesta: quando se falava d'alguma rapariga bonita, ahi dos seus quinze annos, dizia com um sorriso:—É minha filha.
E conclue:
—Era um grande pantomimeiro!
Fevereiro—1908.
O Antonio José de Freitas, amigo do Paço, do Arnoso e do Sabugosa:
—O rei era d'estes homens que gostam de esconder as boas qualidades e de salientar os seus defeitos. Inteligente, de bom coração, artista, não soube ou não quiz tratar com os homens. Podia ter com elle todos os que pensam ou escrevem em Portugal—afastou-os. Ha annos para cá o caso explica-se: garanto-lhe que, depois que teve o tipho, ficou impotente e sentia-se humilhado e inferior ao primeiro gallego que passa na rua... Ha cartas d'elle adoraveis de simplicidade, ha casos da sua vida e da vida palaciana que se não comprehendem.
—E como artista?
—Era elle, sem duvida, que fazia com talento os esboços. Mas, como não tinha tempo—outros lhe acabavam os quadros... Como rei só teve um mal—começou a sel-o apenas ha um anno.
Fevereiro—1908.
Todos os dias no Paço se recebem cartas anonimas com ameaças de morte. O medo é enorme. A rainha tem sempre deante dos olhos o quadro horroroso, e, se acorda de noite, quer por força vêr o filho.
*
O Manuel Ramos:
Serviam-se, o Franco e os outros, da pimponice do rei, para lhe arrancarem medidas de repressão. Se o viam hesitar:—Mas se Vossa Magestade receia...—E elle logo decidido:—Eu não!—E assignava tudo. E fique você sabendo: não foi elle só que comeu: a maior parte do dinheiro, dos dez ou doze mil co Serviam-se, o Franco e os outros, da pimponice do rei, para lhe arrancarem medidas de repressão. Se o viam hesitar:—Mas se Vossa Magestade receia...—E elle logo decidido:—Eu não!—E assignava tudo. E fique você sabendo: não foi elle só que comeu: a maior parte do dinheiro, dos dez ou doze mil contos gastos a mais, ficou no bolso dos politicos.
Fevereiro—1908.
A guarda-fiscal de Cascaes tem ordens apertadas. Teme-se um desembarque de armas e munições.
*
Foi prohibido o desfile do publico diante dos cadaveres regios, porque a urna do rei era coberta de escarros!
Fevereiro—1908.
O João Chagas:
—Tem visto a atitude palaciana do
Dia
? Eu, de mim, tenho um caderno com este titulo
Alpoim
e todos os dias collo pedaços do
Janeiro
e do
Dia
. Tome logares porque vai assistir a um espectaculo estraordinario... Nunca o estrangeiro fez tanta pressão sobre nós como agora... Impõe-nos um governo—e esse governo, não podendo ser rotativo, ha-de sahir da praça publica. Ora não sendo republicano, á maneira do que se fez na Italia ou no Brasil, vae ser do Alpoim. E verá! verá!... Eu já disse: escrevo logo um artigo com este titulo
O Regicida
, se elle e os seus amigos nos atraiçoarem—os seus amigos, que, diante de mim e de Afonso Costa, se declaravam todos republicanos. D'antes procuravam-nos todas as noites, agora fogem-nos. Vae ver, vae-os ver servirem-se da policia contra nós. Oh, mas eu hei-de declarar que elles é que nos forneciam as bombas! O Alpoim ha-de morrer ás nossas mãos!
Março—1908.
O Brazão conta que na
première
do
Othelo
, o irmão de Augusto Machado foi cumprimental-o ao camarim:
—Vaes admiravelmente no papel, mas deixa-me dizer-te (aqui para nós) a peça é uma grande borracheira...
9 de Março—1908.
Na recepção de ante-hontem a raínha tinha os olhos cheios de lagrimas sufocadas e disse:
—Não tenho medo por mim, é por elle...
—Os politicos, agora vão ter juizo...—disse alguem. E ella respondeu:
—Os politicos não teem coração.
E o rei dizia a um e a outro:
—Seja bom portuguez e meu amigo.
Março—1908.
—Vou a Lisboa—diz o Columbano ao conde d'Arnoso.
—Tambem eu vou a essa Penitenciaria onde andam os assassinos á solta.
Março—1908.
Antonio José de Freitas:
—O Marianno de Carvalho tinha ido a Paris negociar um emprestimo e, conversando com Rouvier, perguntou-lhe:
—Se se fizer a republica em Portugal?...
—Que me importa! Que me importa mesmo que se faça a republica em Hespanha. Mas se se fizer a federação iberica, então alto lá! fazemos a federação latina.
Rodrigo da Fonseca dizia dos Castilhos:
—Que familia! O melhor de todos é o cego—mas esse mesmo, se tivesse olhos, era preciso furar-lhos!
Março—1908.
O João Chagas:
—O Alpoim foi quem nos forneceu as armas para a revolução. Foi o que elle fez. Nós tinhamos homens, elles deram-nos as armas e uns contos de reis. Todos elles se declaravam republicanos, menos o Moreira d'Almeida, que disse:—Eu não só não sou republicano, mas sou anti-republicano.—Quando sahiamos das reuniões, eu e o Afonso Costa riamos ás gargalhadas.
Este João Chagas tão facil, tão insinuante, com o riso prompto nos labios grossos e sua pôpa branca no alto da cabeça, nunca conversa, nunca o vi conversar: se encontra alguem, seja onde fôr, conspira logo. Tem passado a vida, sempre simpathico e facil, sempre bem vestido e correcto como um actor que desempenha o seu papel. Mas no fundo d'esta alma, sob este riso e esta pôpa que parece pintada, só existe uma vontade que nunca esmorece, uma ambição tenaz e um egoismo feroz.
—Isto ha-de resolver-se em 1909. Ah, não passa d'ahi! É um conflicto inevitavel. Que me importa o Porto?
E como eu duvide:
—Temos o exercito comnosco. Até na municipal. Na provincia ha terras em que os regimentos são completamente nossos.
Abril—1908.
Hontem no Porto encontrei o Junqueiro, mais velho, mais magro, e a proposito da atitude palaciana de Eduardo Burnay no
Jornal do Commercio
, conta que elle em tempos, quando atacava o rei, o fôra procurar ao Porto e lhe disséra do D. Carlos:
—D'uma vez, n'uma d'aquellas ceias que dava no Alemtejo aos esturdios seus amigos, ofereceu a cada conviva uma navalha de ponta e mola, com as armas reaes.
Novembro—1908.
A rainha não disse que conhecia o assassino do rei. Phrase textual ouvida pelo Batalha Reis:
—Os outros não os conheço, mas aquella cara do homem das barbas nunca mais me sae dos olhos
[7]
.
Dezembro—1908.
O caso do dia é este:—Um alferes da guarnição no Paço, quando assistia ao jantar levantou-se, e, contra todas as regras e todas as conveniencias, falou ao rei pouco mais ou menos n'estes termos:—Vossa Magestade anda iludido.
Esta gente que o cerca engana-o. A situação do paiz é deploravel, etc.
Imaginem, se podem, as atitudes, o espanto, o espectaculo d'esta gente, interrompida pela primeira vez naquella representação em que o formulario é respeitado como um culto. Mas na verdade o alferes disse o que cada um sente no fundo da sua consciencia. Foi inconveniente, mas poz o dedo na ferida. O rei está rodeado de ficções e de mentiras. Não soube assumir as responsabilidades do pae, com decisão e coragem, nem totalmente repelil-as.
Enredam-no. Os politicos dão-se o ar de o proteger e é elle quem os protege. Hesita, tem medo... Sente-se que tudo isto vacila...
Janeiro—1909.
—Esta vida artificial como lhe sinto a falta!—exclama o Fialho ali ao pé do Suisso.
—E porque não vive em Lisboa?
—Não posso! não posso! Se soubesse!... Tenho um irmão epileptico, que meu pae me legou á hora da morte. Não devo abandonal-o, nem entregal-o a mãos mercenarias... Depois as arvores, depois as vides, a que a gente cria amor...—Uma pausa triste, uma hesitação, uma duvida e acrescenta isto:—Não tenho tido quinze dias de felicidade em toda a minha vida!
Falamos de politica:
—Isto está a pedir sangue... E olhe: no Alemtejo não ha republicanos—ha odios. O pobre não pode vêr o rico. É uma gente roída de invejas e rancores, que passa annos e annos da vida a cubiçar um campo...
*
O João Barreira, pequenino, inalteravel, de capinha:
—A revolução abortou em onze de Fevereiro porque os chefes foram todos presos. O Chagas tinha nas mãos as chaves do movimento.
*
Quem são os regicidas?... O Ferreira do Amaral, ao sahir do ministerio, declarou que não tinha apurado nada de definitivo. Diz:—Eu bem sabia, por cartas anonimas, que se preparavam para me alijar, mas deixei-os fazer...—Porquê, almirante?—A situação não me era agradavel.
*
Novos boatos de intentonas, de massacres, novos boatos de reacção. Agora é certo!... Os regicidas vão ser presos. Conta-se que o Heitor Ferreira dissera:—Vendi a carabina a Fulano.—O ministerio Amaral cahiu, porque, dispondo de todos os elementos, não quiz prender os assassinos. Um dos regicidas está em França, mas Clemenceau recusa-se a extradital-o.
*
O Mello Barreto garante como absolutamente autentico o boato que por ahi correu, de que o rei se confessa todas as semanas.
*
Larga distribuição d'estes papelinhos:
[nota de editor]
Janeiro—1909.
Fala-se hoje d'um Munhoz, oficial do exercito, tipo acabado de lisboeta—café, conversa e parodia, cheio de graça popular e literaria. Já reformado, vae aos domingos aos touros para a Outra Banda, com um cabaz no braço e um chalemanta ás costas... Esteve amigado com uma mulher já
fannée
, mas ainda com linha e um grande nariz imperial, que ahi andou por Lisboa e se fazia passar como aparentada com as mais ilustres familias de Hespanha. A mulher não tinha dinheiro, mas alguem presenteara-a, quando a deixou, com uma rica mobilia. E Munhoz e ella iam vivendo dos trastes, hoje um tremó vendido, amanhã uma comoda, depois um sofá...
—E que tal, Munhoz?
—Vae-se vivendo, filho. Vamos vendendo os trastes. Olha, menino, hoje almoçamos nós um
bidet
—e por signal que não estava nada mau!...
*
Lá no alto, no friorento Paço d'Ajuda, entre gente caduca e algumas damas do passado, a rainha Maria Pia passa os dias e as noites, como uma figura de tragedia, a regar as flores d'um tapete. Mataram-lhe o pae, o filho e o neto. Peor: envelheceu. Se pára de regar conta:—Um... dois... três...—A quem se refere? Ao pae, ao rei, ao principe, todos assassinados? Senta-se á meza e diz a figuras imaginarias ou aos phantasmas que se sentam a seu lado:—Come, Luiz? Não queres d'este prato, Carlos?—E lá torna a regar um dia, outro dia, sempre, as flores que não reverdecem do mesmo tapete do seu quarto... E esta mulher elegante, que despertou paixões e inspirou poetas, parece uma velha actriz, cheia de rugas, sem contracto, fóra do seu meio e da sua época. Ao vel-a passar, baixando a cabeça para aqui e para acolá, no mesmo gesto machinal, a gente supõe que o passado sahiu do sepulchro e teima em sorrir-nos, com os dentes postiços e o cabelo pintado a escorrer amarelo...
*
O D. Afonso adora o sobrinho. Afiança:—Se m'o matarem quero ser rei uma hora, mas n'essa hora hei-de mandar...
*
—E o rei?
—O rei...—diz alguem que foi duas ou tres vezes ao Paço—O rei é um fidalguinho muito religioso e temente a Deus, e cheio de vontade e de orgulho.—E acrescenta:—Não trata, como o pae, a gente por tu, mas por você.
Janeiro—1909.
Fala-se com o Antonio José de Freitas, do D. Pedro V e um do lado diz:
—Era um pedante.
—Se era! O que vocês não sabem é que deixou vinte e tantos calhamaços sobre coisas militares com o titulo em latim. E de todos esses livros não se apura uma pagina...
Do D. Luiz e da D. Maria Pia narra anecdotas, ditos...
—O D. Luiz mandava-me chamar muitas vezes ao Paço—e algumas por causa do Shakespeare. Uma vez quiz discutir o
Hamlet
commigo—elle que me roubou duzentas e tantas phrases!—e eu disse-lhe:—Pois sim, vamos lá discutir, mas V. Magestade não ha-de extranhar que eu me defenda com quantos argumentos tenha, nem que fale mais alto, porque fui professor de meninos e tenho esse mau habito. Alem de tudo isso sou um homem nervoso...—E discuti, discuti com unhas e dentes. Por fim elle disse-me:—Pois sim, Freitas, mas você o que não pôde é conceber o
Hamlet
como eu, sob o ponto de vista de dissimulador, porque não tem a minha categoria. Só um principe sabe o que é dissimular...
E eu respondi logo:
—Se V. Magestade dissimula por causa da sua categoria, é porque é um diplomata; se é por organisação é porque é um histerico...
E elle mandou-me embora.
*
Quem os põe assim aos reis, ao D. Carlos, ao D. Luiz, ao imperador do Brazil, são os grandes homens, o Victor Hugo, o Rossini, os que os incensam a torto e a direito. O D. Luiz era inteligente e conhecia os classicos musicaes, mas, como não estudava, tocava mal. Pois um dia o Rossini, em Paris, depois de o ouvir, disse-lhe:—Vou organisar um concerto em minha casa, para que V. Magestade, que é um dos melhores musicos que conheço, seja ouvido e apreciado.
*
O D. Luiz, como todos os fidalgos portuguezes, gostava de conviver com gente baixa. Quando se iam embora os ajudantes e a côrte, ficava com os particulares, com a gente que lhe chamava
doutor Tavares
, e então regalava-se de escandalo, de ditos, de má lingua ordinaria.
*
Não me admira que elle gostasse da Rosa Damasceno. Era uma mulher
caline
, muito meiga. Na intimidade devia ser adoravel. E boa. Desde que foi amante de D. Luiz, dava todo o dinheiro que ganhava no theatro.
*
A Maria Pia é uma mulher inteligente, apezar de pessimamente educada, sem mãe. Detestavam-se, mas que diplomatas, ella e o rei! Quando se anunciou o casamento do D. Carlos, D. Luiz disse-me:
—Casa por amôr. Fez a côrte á mulher, escreveram-se, elle mandou-lhe flôres e ia para a plateia d'um theatro em Paris namoral-a para o camarote.
*
Não sei quem fala do Saldanha...
—Foi o diabo para o mandarem para Londres, quando se quizeram vêr livres d'elle. O governo perguntou para a Inglaterra e de lá responderam que não era
persona grata
. Foi preciso que o D. Fernando escrevesse á rainha Victoria, que acabou por ceder, dizendo:—Mandem lá esse velho pecador.
Fevereiro—1909.
O Judice Bicker, oficial da armada e antigo governador da Guiné no tempo do Hintze:
—Não, não me falem em dictaduras nem em governos de repressão! Quando fui governador da Guiné apareceram-me lá um dia cem homens mandados pelo governo. E com elles uma simples lista de nomes, sem a minima indicação de crimes. Nada. Era gente que o governo me mandava e de que se queria desfazer. Que lhes havia de fazer na Guiné? Sentei-lhes praça, e d'esses
criminosos
, aos quaes nunca tive ocasião de aplicar um castigo, seis mezes depois tinham morrido
cincoenta
de febres!...
*
No outro dia—diz o Freitas—estive com a rainha D. Amelia. Está uma mulher amarella e feia, enorme, com as mãos do tamanho do Maximiliano d'Azevedo. E, como lhe notasse os dedos cheios de joias, estranhei, perguntei e explicaram-me:—São os aneis de brilhantes, que ella arrancou aos cadaveres do marido e do filho—e que traz sempre comsigo.
*
Um empregado da fazenda:
—Em cada um dos grandes bairros de Lisboa ha milhares de processos de dividas á fazenda parados. Companhia que tenha votos paga quando quer e como quer. Só os desgraçados são penhorados. Isto representa muitas centenas de contos, que se perdem por empenho, por politica, por desleixo.
Fevereiro—1909.
O Pad'Zé contado pelo Vicente da Camara:
—O extravagante Pad'Zé era no fundo um homem methodico. Quando chegava a Coimbra ia sempre com grandes ideias de aprumo e arranjo: uma cama para dormir, uma meza para escrever, etc.. Excusado será dizer que, meia duzia de dias depois, dormia no chão. Mas á cabeceira lá estavam sempre muito arranjadinhos os seus livros e os seus papeis. Se no dia em que se matou, na propria hora em que deitou a mão ao rewolver, alguem o convidasse para uma ceia,—adeus suicidio! adeus morte! trocava-a por uma guitarrada.
*
No dia em que fugiu para Badajoz o D. João da Camara encontrou-o: levava para o exilio um livro de Garrett, um par de meias e cinco mil reis emprestados.
*
Trazia sempre nas algibeiras envolucros de bombas e mostrava-os ás vezes aos amigos, no Suisso. Na algibeira do medico que morreu na explosão foi encontrada uma carta sua, pedindo-lhe que lhe mandasse pelo portador «seis peras do Fundão». Trazia-as ás vezes pela rua n'uma malinha de mão, e, quando ia ao urinol, pedia ao Anibal Soares, de quem era amigo intimo, para lha segurar:—Mas tem cuidado que são ovos!...—observava sempre.
*
Dizem por ahi que se matou, para não matar... Tinha-lhe cahido em sorte, n'uma
loja
, executar um alto personagem...
25 de Fevereiro—1909.
Visita ao Coelho de Carvalho, que está doente, e mora n'um velho palacio, na rua do Arco do Cego. Moveis Imperio, uma cama imponente com golphinhos doirados e espelhos, falsos quadros de mestre nas paredes d'estuque, onde todos os caiadores de Lisboa pintam sempre o mesmo friso azul ferrete, e salas que se sucedem com alguns moveis antigos isolados. São restos de grandeza d'uma existencia d'artista... Como sempre, fala-se em politica. Não se fala n'outra coisa...—A policia tem o processo do atentado concluido, mas fica-se por ahi. Sabe-se que no dia 21, n'uma
loja
maçonica, foi proposto o assassinato do rei. O Alpoim esperava na rua, dentro d'um carro, os seus amigos. Mal foi que o acordo com os franquistas gorasse. Sabe que o Alpoim teve uma combinação politica com o João Franco? Disse-mo elle a mim:—«O acordo esteve feito para uma dictadura liberal, mas o rei opoz-se. Foi quando eu e Sicrano e Beltrano decidimos perdel-o»...—Posso garantir-lhe isto: ouvi-o a elle proprio... Quem os aproximou, ao Alpoim e ao Franco, foi o Silva Graça. Tinham até ajustado uma serie de comicios de propaganda contra os adiantamentos. E foi por isso que o João Franco pôde responder como respondeu ao Centeno, dizendo-lhe que tinha nas mãos provas d'essa combinação.
Um tipo fino. Literato e homem de negocios, tendo ganho fortunas e dissipado fortunas. Tem um castello em Arade sobre rocha e mar e uma existencia um pouco dispersa. E com isto curioso e alegre, phantasista acima de tudo, paradoxal acima de tudo. O seu escriptorio de advogado que foi muito tempo no ministerio da justiça, é hoje alli n'uma meza do Martinho. Desconfio que mistifica os clientes—para se divertir... As dificuldades da sua vida são talvez invenciveis, mas a desgraça encontra-o sempre de pé, com o mesmo riso nas mesmas lindas barbas todas brancas enquadrando uma face moça, e oculos redondos de tartaruga, que lhe dão uma aparencia de retrato de Holbein.—Os oculos de Spinoza...—como elle lhes chama.
Março—1909.
O Armando Navarro:
—D'aqui por cincoenta annos estamos absorvidos pela Hespanha, sob a forma federativa. A autonomia municipal, a mais rasgada de todas as que conheço, e que o conservador e reaccionario Maura acaba de dar á Hespanha, é o primeiro passo...
6 de Março—1909.
Foi hoje o enterro do Taborda. Aqui ha tempos cahiu de cama e disse a alguem a chorar:
—D'esta vez é certo! Sinto que vou morrer... E a vida é tão linda!
Tinha oitenta e cinco annos. Os jornaes contaram d'elle esta coisa enternecedora: D'uma vez foi recitar um monologo a um asylo de raparigas da sua terra. O monologo começava assim: «Boas noites, meus senhores...». Entrou no palco e disse a phrase:
Boas noites, meus senhores...
E as meninas do asylo, que o conheciam todas, levantaram-se e responderam á uma:
—Muito boas noites, senhor Taborda!
A morte engrandece sempre, mas acho horrivel acabar na rua dos Calafates, entre a convenção e a mentira, andar por cima, andar por baixo, corôas secas, photographias e recordações de bastidores. Um velho tem direito a morrer entre arvores, em plena natureza. Os bichos, quando sentem aproximar-se o fim, procuram um buraco para se esconder... São mais felizes.
Março—1909.
As declarações do Ferreira do Amaral na Camara dos Pares vieram autenticar o que se dizia do rei. O Ferreira do Amaral afirmou:—«A reacção envolve o rei».—Acrescenta-se cá fóra que é um jesuita hespanhol quem dirige o rei e o Paço, e parece certo que o Ferreira do Amaral o impedia por vezes de ir de livro e contas á missa—fazendo-o visitar no Porto tres fabricas por cada missa que ouvia...
*
Espalha-se que foi a rainha quem pôz fóra o Ferreira do Amaral, e que elle quer lá voltar para lhe dar uma lição.
Março—1909.
Apresentam-me hoje um velho janota, o visconde da Torre da Murta. É um velho magro e esticado, de luvas e chapeu alto. Cheio de pretensões e os cabelos todos brancos. Parece ligado por arames. Vive na miseria. A mulher enganou-o, deixou-o. Pagou-lhe as dividas—e ficou pobre: são as Thomares que o sustentam. O velho conserva uma grande dignidade e só sae de luvas e chapeu alto. Mas quem sobretudo lhe vale é a creada, uma destas extraordinarias mulheres do povo, que nascem para os outros e que já disse que quando morrer lhe ha-de deixar as suas economias «para o senhor visconde não passar necessidades». O senhor visconde vive n'um cubiculo, e da sua passada grandeza restam-lhe meia duzia de livros com magnificas encadernações.
Março—1909.
Fuschini, que fui hoje visitar, está velho e tem uma doença de coração muito adiantada.
—Porque não escreve as suas memorias?
—Não sei, custa-me. Tenho pensado em escrever a minha autobiographia... Depois deixo-me d'isso.
E conta-me:
—Quando foi da conversão da divida externa fui eu e poucos mais que obstamos a que viessem tres estrangeiros para Portugal mandar n'isto. Creia... Chegaram a dizer-me:—Não faça questão, que será um dos membros da junta.
E diz:
—Ao tempo da dictadura do João Franco lembrei-me de reunir em Lisboa um congresso de todos os homens publicos. Procurei os republicanos, o Afonso Costa, que me prometeram o seu apoio. Estava de relações cortadas com o Hintze, mas mandei-lhe falar e elle fez-me ir ao Estoril. Disse-me o peor que é possivel do rei e acrescentou:—Aceito a sua idéa... E tem casa?—Tenho.—E se a policia intervier?—Resistimos e apelamos para o povo.—Bem, vá falar ao José Luciano.—Procurei essa
vil alforreca
, que exclamou:—Mas isso é a revolução!... Preciso de falar primeiro com o Hintze. Tenho uma idéa melhor...—Dias depois o Hintze dizia-me:—O José Luciano não quer fazer nada, disse-me que era melhor esperarmos para Outubro, quando o rei regressar a Lisboa.—Tambem me lembrei de escrever um manifesto dirigido ao estrangeiro e assignado pelos estadistas portuguezes.—Ex, que exclamou:—Mas isso é a revolução!... Preciso de falar primeiro com o Hintze. Tenho uma idéa melhor...—Dias depois o Hintze dizia-me:—O José Luciano não quer fazer nada, disse-me que era melhor esperarmos para Outubro, quando o rei regressar a Lisboa.—Tambem me lembrei de escrever um manifesto dirigido ao estrangeiro e assignado pelos estadistas portuguezes.—Excelente, disse-me logo o Hintze, venha cá amanhã... Olhe, amanhã não, que é o enterro do Casal Ribeiro. Depois de amanhã.—No dia seguinte estava morto.
Março—1909.
Eis a impressão geral: Foi a rainha quem tramou a queda do Ferreira do Amaral. O Julio de Vilhena queria que saissem apenas dois ministros regeneradores, substituindo-os por outros. Foi uma tramoia do Paço. Toda a gente diz que a rainha está feita com os reaccionarios. O D. Carlos, emquanto vivo, opunha-se-lhe, e, logo ás primeiras investidas—festas de Santo Antonio, etc.—poz-se do lado dos que combatiam a reacção. Agora manda. E conta-se que o Ferreira do Amaral entrou um dia d'estes no Paço e perguntou pelo rei.—Está com o seu director espiritual.—Então preciso de falar á rainha.—Está tambem com o seu director espiritual.
*
A rainha—dizem-no todos—arrisca-se um dia a ser desfeiteada. Acusam-na de deitar a perder o rei.
Março—1909.
Barreira conta-me que varios republicanos teem insistido junto do general Baracho para se pôr á frente d'um movimento.
—Bem sei, vocês querem que eu tire as castanhas do lume, para que os outros as comam!
Março—1909.
O Cunha e Costa:
—O Ferreira do Amaral desarmava pela bonhomia. Um dia constou ao Bernardino que para os lados do Campo Grande havia tumultos. Telefonou ao Amaral:—São os reaccionarios que querem repetir as scenas de cinco de Abril...—Vou indagar.—Meia hora depois:—Está? Sou o Amaral.—E muito placidamente:—Ó Bernardino, olhe que aquelles homens que os senhores mandaram para o Campo Grande ainda lá não chegaram...—!!!—Os republicanos do
Mundo
, quando lhes constou que iam ser atacados:—Senhor presidente do conselho, consta-nos isto...—A casa do cidadão é inviolavel e todos teem o direito de se defender.—Ao Pimentel Pinto, cheio de dividas e que não paga a ninguem, respondendo á acusação de jantar com os makavenkos:—Janto, janto, mas pago, meus senhores, pago sempre.—Ao Arroyo, quando lhe dizia:—Enganaram-no, almirante.—É que eu sou um ingenuo.
Abril—1909.
Fazem correr por ahi esta infamia: que o Wenceslau de Lima é amante da rainha D. Amelia.
*
O Eduardo Pimenta, que serviu com o Mousinho em Africa:
—Um orgulho desmedido, uma decisão rapida, e uma insensibilidade, como nunca vi, ao frio, á fome, ao trabalho... D'uma vez, por qualquer questiuncula, fomos obrigados a dar uma satisfação á Alemanha. Que scena! O Mousinho arrancou do peito constelado todas as medalhas, todas as condecorações—todas. Só lá deixou a Aguia Vermelha que obriga o alemão a conservar-se de pé diante dos que a teem. Poz o
bonnet
às tres pancadas e entrou por a casa do consul dentro. Ergueram-se todos—e elle, á porta, sacudido, impertinente, enorme, disse a phrase protocolar:—O governo de Sua Magestade Fidelissima encarrega-me, etc.—E sem esperar pela resposta, outra vez levou dois dedos ao
bonnet
e rodou sobre os calcanhares, deixando-os estupefactos.
*
Jayme de Seguier encontra o João Franco no estrangeiro. São amigos. E João Franco que não queria, que jurára não tornar a falar em politica, durante duas longas horas não conversou, não falou n'outra coisa.
—Tinha previsto tudo. Tinha previsto a minha morte: o que eu não previra foi o assassinato do rei. Isso nunca me passou pela cabeça...
—Mas o que eu não comprehendo é que dissolvesse as côrtes estando aliado com os progressistas...
—Tinha-lhes pedido ministros, recusaram-mos. Ficava enfraquecido. Isso é que não. Não podendo tel-os como amigos, então antes como inimigos declarados.
Quem me fornece estas notas (Jaime Victor) fala d'um João Franco cheio, de sensibilidade e de coração, capaz de ir até ao fim...—P'ra diante! p'ra diante contra tudo e contra todos!—Era um convencido. Diz-se que os outros o empurravam. A verdade é que ninguem o podia deter: nem palavras nem acções o faziam recuar; ia como uma bala na sua trajectoria. Contam-me que n'um dos ultimos conselhos de ministros João Franco expoz a situação: o movimento revolucionario, as medidas que tomára, etc.. Vasconcellos Porto, placido e enorme, expoz a sua opinião e concluiu:
—Deixe-os vir para a rua, que eu conto com o exercito. E depois de vencermos, governaremos...
Ao que João Franco respondera:
—Não, podendo evitar-se o sangue—evitamol-o.
E Jaime Victor conclue:
—A morte de D. Carlos trouxe-nos extraordinarias complicações. Elle, por exemplo, tinha seguro o tratado de comercio com o Brazil, que nunca mais se fará. No Brazil fizeram-se despezas extraordinarias para o receber.
Novembro—1909.
Guerra Junqueiro desalentado:
—Isto está liquidado, a ocasião passou. Agora o rei casa com uma ingleza e vem para ahi um caixeiro qualquer da Inglaterra, que manobra por traz da cortina. Não reparou n'isto?... Nas camaras passou uma lei que os auctorisa a vender inscripções. É a bancarrota adiada por muito tempo. D'aqui a annos o juro da divida interna é reduzido, mas vae-se vivendo e paga-se ao estrangeiro, que é o principal.
*
Do João Franco diz:
—Mentia com o coração nas mãos... Então é que era ocasião. O Franco e o rei eram dois cães damnados... A ocasião passou, a republica passou.
*
O Carneiro de Moura:
—Os bispos e as beatas deram para a imprensa reaccionaria, para
O Portugal
, vinte contos. Já lá vão em pagodes!
Dantas Baracho.—Caricatura inedita de Celso Herminio.

Novembro—1909.
Conta hoje o Fuschini—sempre com a Alice Lawrence atraz, sempre a caminho da Sé, com o chapeu sobre os olhos e um rôlo de papeis debaixo do braço, sempre sufocado quando sobe as escadas, porque o coração cada vez lhe trabalha peor, sempre irrequieto e interessante, apesar da edade e dos cabelos todos brancos:
—O Soveral é um homem de negocios
[8]
. O que elle quer é dinheiro. Já tive todos os fios d'essa meada nas mãos... Obrigou agora o rei a ir á Inglaterra fazer uma figura triste. Pois posso garantir-lhe que ha dois mezes esteve em Lisboa um correspondente do
Dail Maily
, que contou á Alice que o proprio duque de Fife mandára ao jornal o seu secretario desmentir a noticia do casamento.
*
O Avelino de Almeida, jornalista com a especialidade de padres e beatas:
—Quem deu o dinheiro para
O Portugal
foram as beatas. Um padre lazarista é que andou metido n'isso. Arranjaram dezoito contos. Só a viscondessa de Sarmento deu seis.
*
Um artigo curioso do
Corriere de la Sera
, assignado pelo Gomes dos Santos:
«Um caso singularissimo poz recentemente a policia na pista d'uma conspiração de aventureiros que punham o seu braço ao serviço do radicalismo, promptos para tudo quanto lhes fosse ordenado em nome... da utopia. Uma longa serie de crimes politicos que datam do regicidio e cujos auctores até agora tinham ficado envoltos no mysterio, coloca em evidencia os factos preteritos e abre um caminho seguro para a liquidação das responsabilidades. Hoje ninguem duvida da existencia d'uma sociedade secreta que, sob a aparencia de loja maçonica, é o verdadeiro poder executivo do partido revolucionario, o braço sempre prompto a ferir, a espada que cae traiçoeiramente sobre as victimas designadas pelos dirigentes da politica radical?
Ninguem ignora em Portugal as circumstancias em que se desenrolou o regicidio. Na confusão da tarde tragica, a policia cae sobre dois dos regicidas e mata-os em legitima defeza. Mas permanece sempre firme a convicção de que os regicidas não eram sómente Buiça e Costa, que pagaram com a vida o seu delicto! Esta convicção fundava-se em factos de ordem material e moral, sobre os quaes não havia duvida de especie alguma. A prova moral da existencia d'outros cumplices reside na impossibilidade do atentado haver sido organisado e levado a efeito apenas por dois homens. A prova material forneceram-na numerosissimas testemunhas que viram a carruagem real ser alvejada, simultaneamente, de varios pontos e observaram a fuga de alguns dos cumplices do regicidio, um dos quaes, perseguido pela policia quando fugia, com o rewolver fumegante em punho, conseguiu perder-se de vista ao voltar uma rua, confundindo-se depois com a multidão espavorida que fugia do logar do crime. É um vulgar principio de investigação judiciaria que os deliquentes se devem procurar entre aquelles a quem o delicto aproveita. Ora quem podia aproveitar com a carnificina da familia real? Se houvesse produzido uma mudança politica, aproveitavam evidentemente os republicanos cujo triumpho teria sido d'esta arte facilitado. Se tivesse originado apenas (como realmente produziu) uma substituição de governo resultaria proveitosa para os mesmos republicanos aos quaes João Franco havia fechado todos os caminhos. Vendo presos os seus principaes chefes e ameaçada toda a sua organisação, os republicanos esperavam reconquistar, com um golpe de mão, as posições primitivas. Não ha outras hypotheses a considerar, visto que o crime não podia ter sido perpetrado por uma conspiração de monarchicos nem representa um caso individual de terrorismo porque os regicidas não eram anarchistas.
O Buiça e o Gosta eram republicados militantes: trabalhavam nas ultimas filas dos revolucionarios. Livres pensadores, pertenciam á sociedade de propaganda d'onde, de resto, teem sahido todos os criminosos politicos. Homens de acção, pertenciam a uma loja secreta, a «Montanha», mixto de instituição maçonica e de comité revolucionario, sem local fixo e sem estatutos, que se reune a um simples convite dos jornaes da seita, ninguem sabe onde e que se compõe de homens capazes de tudo. Tudo deixa crer que o regicidio foi ahi deliberado e que, como é costume, os executores foram tirados á sorte, visto que apenas o sorteio explicava a escolha d'um dos regicidas, cujo passado se não ilustra com actos de grande coragem individual. Mas sobre o regicidio, que inaugura a conhecida série de delictos politicos, não mais se tratou de fazer luz. Não se chegou a apurar quem foram os cumplices da emboscada e, se porventura se tentou esclarecer o caso, acabaram por concluir que era melhor guardar silencio sobre elle. No entretanto, occorriam novos factos que vieram documentar melhor a existencia d'uma organisação que liquidava pelo assassinio as dificuldades susceptiveis de embaraçar o movimento revolucionario. Poucos mezes depois do regicidio, um humilde engraxador apresentava-se á policia perfeitamente apavorado e narrava que dois republicanos lhe tinham proposto lançar uma bomba no coche que devia conduzir D. Manuel ao Parlamento. A declaração era verdadeira? Ignoro-o. Mas a policia prende os dois mencionados instigadores, um dos quaes é fulminado por uma congestão cerebral no gabinete do juiz. Este, quando se prepara para colher do denunciante novos esclarecimentos, vê o engraxador morrer envenenado n'um hospital no meio de horriveis aflicções. O desventurado declarava que morria por haver dito a verdade. Por falta de provas o processo foi archivado, o que poz de bom humor a imprensa revolucionaria, que já se dispunha a desviar a opinião publica com um diversivo.
Poucos mezes depois outro crime vem afirmar a existencia da seita. Alguns militares acusados de terem tomado parte no movimento revolucionario de 28 de janeiro, foram condenados a penas graves pelo tribunal, graças ao depoimento d'um sargento chamado Lima, que se insurgiu e referiu o facto aos seus superiores. O sargento passeava um dia em Setubal, para onde fôra transferido, quando um revolucionario se lançou contra elle e lhe cravou um punhal no coração. O assassino, preso quando fugia, allega uma historia inverosimil de rivalidade que as investigações policiaes desmentiram. Quanto á opinião da auctoridade e dos que conhecem de perto as scenas, referidas anteriormente, da quadrilha revolucionaria, é clara e expressa: o sargento foi condemnado á morte por ter denunciado a existencia da conspiração. Dois suicidios mysteriosos—um sob o comboio de Cascaes, outro na redacção d'um jornal revolucionario—parecem ter intimas relações com a existencia da Mão Negra local. Diz-se que os suicidas, designados para certos cometimentos, preferiram escapar pela morte ás intimações d'uma implacavel organisação secreta. Não faço aqui menção do caso das bombas explosivas com que ultimamente pretenderam alvejar algumas egrejas, depois da execução de Ferrer. Não ha provas da intervenção da Mão Negra, mas simples indicios de presumpção. Mas o que acabou de esclarecer o paiz sobre a existencia d'uma formidavel e perigosa associação secreta foi o recente crime de Cascaes, a que os jornaes independentes dedicaram longas columnas. Vão decorridos alguns mezes depois que na administração das alfandegas se descobriu um importante furto de armas, que estavam para chegar ao seu destino. A ausencia d'um operario da fabrica de armas provou a sua responsabilidade no furto, logo confirmada pela captura d'um cumplice—um dos implicados na revolução republicana de 28 de janeiro—que era o receptador das armas roubadas. Já a policia averiguou o destino das armas, que se reservavam, com a complacencia de empregados aduaneiros, ao movimento revolucionario, quando no meio dos rochedos das arribas de Cascaes, a oito kilometros de Lisboa, se encontra assassinado mysteriosamente o empregado da alfandega, auctor do furto.
Com os documentos que lhe encontraram nas algibeiras e com as indicações fornecidas pela familia do assassinado, a policia reconstituiu facilmente o crime. O pobre empregado, vendo descoberto o furto das armas, dirigiu-se aos que o tinham impelido e suplica-lhes que o salvem. Deram-lhe dinheiro para transpôr a fronteira com promessa de o sustentarem no estrangeiro e o homem refugiou-se em Badajoz, territorio hespanhol. Mas o dinheiro falta; as promessas não são mantidas e o refugiado escreve aos que o haviam levado ao crime, suplicando socorro. Como não obtivesse resposta, ameaça-os com declarações. A Mão Negra destaca para Badajoz um dos seus agentes, que o conduz a Lisboa enganado com promessas de continuar a viagem para Africa; na primeira ocasião levam-no a Cascaes a fim de seguir ocultamente para o seu novo destino e matam-no, arrastando-o para o mar e precipitando-o do alto das ribas. O assassino foi preso na fronteira, quando tentava refugiar-se em Hespanha, e conduzido a Lisboa, sob rigorosa escolta. Aqui, depois de alguns dias de apertados interrogatorios, apanhado em contradição, não sabendo explicar as manchas de sangue que tinha no fato, confessa finalmente que cometera o crime,—e que, além de ser antigo empregado n'um centro republicano, é membro da associação secreta a «Montanha», como os regicidas, como os auctores dos outros crimes politicos. É a existencia da Mão Negra averiguada e confessada.
Os jornaes da seita, republicanos e revolucionarios, perante esta sensacional descoberta, mantiveram a principio o maior silencio; jornaes que costumavam ocupar columnas com o mais insignificante acontecimento, evitaram, por todos os modos, referir-se a elle. Depois, desesperados por não poderem conservar-se calados, começaram a agredir violentamente e, por ultimo, a ameaçar a imprensa independente que, mostrando-se bem informada, se ocupou dos factos com uma certa largueza. E, emquanto a imprensa vermelha assim procedia, a policia vinha a saber que os revolucionarios tinham projectado fazer evadir o preso e teve a finura de o transferir do deposito de segurança para uma caserna militar, onde está de sentinella á vista. Por outro lado, diz-se que as declarações relativas ao crime de Cascaes revelaram uma nova pista para a descoberta dos regicidas e a policia afadiga-se no intuito de descobrir e prender os membros da Mão Negra. Alguns jornaes lembram, a proposito d'este facto, a fuga precipitada de certa personagem para o estrangeiro. A Mão Negra é uma especie de comité executivo, dentro do qual se encontra todo o elemento revolucionario. Disporá o Estado de força para resistir a esta formidavel organisação que nem sequer hesita ante o crime? A experiencia da fraqueza dos governos, que se sucederam no poder após o regicidio, não auctorisa a responder tranquilamente a esta interrogação...»
Dezembro—1909.
Segundo varias pessoas, ha efectivamente em Lisboa muitas agremiações carbonarias.
Dezembro—1909.
O A... que se suicidou hontem tinha-se alcançado em não O A... que se suicidou hontem tinha-se alcançado em não sei quanto—outros, passeiam por essa Lisboa. Um, o M., alcançou-se em dezoito contos. Castigaram-no reformando-o com o ordenado por inteiro.
*
Conta o Columbano que a seu pae Manuel Bordallo Pinheiro, pediu um dia um companheiro de repartição:
—Tenho lá em casa na cocheira (do conde de Lumiares), um quadro muito negro que queria que você visse.
Manuel Bordallo foi buscar a tela, limpou-a da bosta dos cavalos, lavou-a da camada de negro... Era, nem mais nem menos, o retrato de Carlos I d'Inglaterra, por Van Dyck, que o D. Luiz depois comprou e está hoje na galeria do Paço d'Ajuda.
Dezembro—1909.
O Avelino d'Almeida:
—A verdadeira razão por que o
Seculo
se fez republicano?... É que no Paço, das ultimas vezes que o Silva Graça lá foi, receberam-no mal, trataram-no d'alto.
*
—Um homem muito honesto o Hintze—diz o Carneiro de Moura—um homem muito honesto que fazia assim:—Ó Val-Flôr, empreste-me vinte contos.—E o Val-Flôr emprestava-lhos—e recebia do Estado compensações que valiam o dôbro. Um homem muito honesto, o Hintze; que nunca tirou dos cofres do Estado o valor de cincoenta mil reis.
Dezembro—1909.
Ministerio novo. O bloco foi comido. O Alpoim furioso, exclama, em pleno Chiado:—O rei mentiu-nos! o rei é um imbecil! o rei tinha-nos prometido o poder!
E o Vilaça conta:
—O José Luciano reuniu-nos hontem á noite, a mim, ao Beirão, ao Dias Costa, ao Moreirinha e disse-nos:—Se os senhores estão no partido apenas para serem pares do reino e para que os encha de favores, isto acabou, hoje mesmo se liquida o partido progressista. Não podem recusar as pastas que eu lhes indicar.—Todos se curvaram, o Vilaça, que perde dez contos por anno, e o proprio Dias Costa, que de forma alguma queria ser outra vez ministro.
23 de Dezembro—1909.
O Julio de Vilhena deixou hoje de ser chefe do partido regenerador. Conta o João Pinto dos Santos, que o Vilhena falou ao rei de cabeça alta, e por tal forma, que D. Manuel sahiu afogueado d'essa ultima entrevista, dizendo a alguem:—Só lhe faltou bater-me...
Dezembro—1909.
O Mardel é um homemzinho pitoresco e anecdotico que conhece Lisboa como as suas mãos. Ninguem como elle desenha um tipo ou vae ao passado buscar uma figura. Sabe tudo e inventa o resto. É um prazer ouvil-o. Constroe genealogias, negoceia em
bric-à-brac
e escreve satyras. D'uma vez, a um figurão que se dizia filho natural de D. Pedro IV e que mostrava desvanecido a toda a gente o retrato do rei que tinha na sala, perguntando:—Hein, com quem se parece?...—escreveu elle a seguinte quadra:
Do Imperador, de quem diz que é filho, Tem o retrato na sala, Mas da p... que o pariu Não tem retrato nem fala...
*
Encontro em casa do Mardel o marquez da Foz, de barbas brancas e aspecto venerando, que desata a narrar conversas extraordinarias, surprehendidas a meninas do
Sacre Coeur
sobre a masculinidade dos creados... Depois fala d'arte, de mobilia, quadros e maravilhas que comprou e vendeu. Vive hoje arredado em Torres Novas.
—D'uma vez, quando se vendeu a mobilia do palacio de Oeiras, dos Pombaes, os que fizeram a liquidação, pediram-me para lhes ceder um andar d'uma casa que eu tinha com escriptos na rua do Ferragial, para se fazer o leilão. Cedi e antes da praça fui lá, agradaram-me diferentes coisas e comprei-as. Custaram-me oito contos. Entre varias trapalhadas iam cinco vasos da China, cinco maravilhas, como nunca tinha visto. Eram precisas duas pessoas para lhes pegarem. Ao centro de cada vaso viam-se as armas de Pombal. Quatro coloquei-os á entrada da minha casa, o outro levei-o para a sala de jantar e pul-o defronte d'uma estufa... Um dia reparei: por causa do calor o verniz estalára. Levantei-me, olhei: sob a casca aparecia outro desenho. Tirei com uma faca o
craquelé
—e debaixo das armas, do Pombal apareceram as armas dos Tavoras! Tão certo é que até os grandes homens estão sujeitos a estas miserias...
Depois trata da baixela do Paço, que no tempo de D. Luiz estudou a fundo, e que então andava a trouxe-mouxe pelos armarios. São peças magnificas,
signé Germain
, e que valem um milhar de contos.—D'uma vez disse a D. Luiz:—Deixe-me V. Magestade arranjar-lhe uma sala de jantar com a
boiserie
de Queluz e a sua baixela, que nenhuma côrte da Europa apresenta uma sala assim.—Ainda hoje não ha côrte nenhuma, nem a da Russia, que tenha uma baixela tão rica. São mil e tantas peças admiraveis. É falso que lá esteja tambem a baixela do duque de Aveiro. Vi as contas todas, photographei tudo...
*
—Um dia fui ao Leitão ourives, a esse artista...—e sorri com ironia—comprar qualquer joia. Ia a sahir quando dei com uma prata antiga a um canto.—Que é aquillo?—Está alli para derreter.—Deixem-me vêr.—Eram três peças esplendidas, com as armas do duque d'Aveiro—uma salva enorme, a que faltava um bocado da aza, com desenhos magnificamente gravados, e duas enormes compoteiras de prata com festões d'ervilhas, tudo marcado, assignado, admiravel.—São para derreter? Então venda-m'as. Quanto pezam?—Quinhentos mil reis.—Dou seiscentos.—Venderam-mas, levei-as para casa. Tinham feito uma tentativa para lhe apagar as armas. Quando depois as vendi deram-me alguns contos de reis.
Por fim fala de ninharias, d'isto, d'aquillo—e d'algumas peças que tinham pertencido ao D. Fernando e «nas quaes alguem fez mão baixa»...
*
Uma anecdota que elle tem como absolutamente autentica e que andou sempre na tradição da sua familia:
—O D. João VI estava para morrer. O patriarcha procurou a D. Carlota Joaquina para a reconciliar com o rei. Recebido na sala do throno, em Queluz, diz-lhe as palavras banaes do costume—mas ella não cede. Pede, suplica—perde o seu tempo. A rainha está renitente. Então retira-se depois das contumelias da pragmatica—e, ao sahir, volta-se de repente e dá com ella a fazer-lhe um grande, um imponente, um magestoso manguito...
*
Ha dias comprou por cento e cincoenta mil reis um quadro de Alberto Durer, absolutamente autentico e com a assignatura perfeita.—É o
pendant
do que está no Museu. E estou em vesperas de comprar mais quatro, entre os quaes um Corregio. Suspeito, pela proveniencia, que todos estes do que está no Museu. E estou em vesperas de comprar mais quatro, entre os quaes um Corregio. Suspeito, pela proveniencia, que todos estes quadros pertenceram á galeria do duque d'Aveiro.
Janeiro—1910.
Contam-me hoje a morte tragica do Marianno de Carvalho. Estava doente, de cama, e a familia sahiu, deixando-lhe uma campainha á cabeceira. Os creados aproveitaram a oportunidade e safaram-se tambem. Quando voltaram foram dar com elle morto, agarrado á campainha, n'um ultimo desespero...
Janeiro—1910.
O juiz d'instrucção criminal, dr. Antonio Emilio, a um amigo meu:
—No dia vinte e oito de Janeiro os soldados apanharam junto a qualquer quartel da municipal um homem com um caixote de bombas e duas pistolas automaticas. Meteram-no no calabouço—e confessa, não confessa... o homem nada! Então o oficial chamou um soldado e disse-lhe:—Nós vamos alli para a porta do calabouço e tu diz-me a tudo que sim. Vamos lá.—E começou:—Carrega lá essa pistola para darmos cabo d'esse diabo, que vinha aqui para nos atirar bombas!—Quando o oficial abriu a porta do calabouço o preso atirou-se-lhe aos pés:—Não me matem que eu confesso tudo.—Então quem te entregou o caixote?—Foi o Alfredo Costa.—Veio a participação para o governo civil—mas só chegou ás mãos do juiz depois da morte do rei...
José Maria de Alpoim.

*
O juiz:
—Estamos sobre um vulcão. Prendi varios homens das associações secretas, podia prender mil. Já ninguem salva isto a não ser uma forte dictadura militar. E eu vou-me embora porque não quero incorrer nas iras populares.
*
O dr. Antonio Emilio ao Beirão:
—Ou vamos para a frente, ou os senhores metam-se em casa á espera que os chacinem.
E garante que a explosão de outro dia na Baixa, atribuida a gaz extravasado, foi devida a uma bomba de dinamite.
Janeiro—1910.
Os brincos de brilhantes que o Pedro d'Araujo deu á mulher do José Luciano quando o fizeram par, custaram cem mil francos. Diz-se, diz-se...
Fevereiro—1910.
O Paço está rodeado de piquetes. Forças vigiam a Tapada. Garante-se por ahi que, emquanto os regicidas não forem presos, o rei não casa. O Maximiliano d'Azevedo, oficial do campo entrincheirado, conta-me que as forças do campo foram ante-hontem (1 de Fevereiro) postas sob as ordens do general de divisão e com ordem de marcharem sobre Lisboa ao primeiro aviso.
*
O que se diz por ahi baixinho, de ouvido para ouvido, é tremendo. Diz-se o que
O Povo d'Aveiro
, que está tendo tiragens enormes, publicou nos ultimos numeros
[9]
.
*
O T..., d'
O Mundo
, disse-me que janta duas vezes por semana com o Alpoim, e já se tem gabado que é elle um dos auctores do
Diz-se
...
*
O Colen, n'um jantar intimo, onde esteve alguem que m'o conta:
—No dia vinte e oito de Janeiro estava tudo preparado e seriamente preparado para a deposição de D. Carlos—marinha, tropa, organisações, tudo. E tudo falhou porque o Afonso Costa não quiz dar o signal sem que o João Franco estivesse morto.
Março—1910.
Á reunião celebre do Castello, onde se decidiu a morte do rei, assistiram trinta pessoas.
*
Paçô Vieira:
—A carta que o rei escreveu ao Hintze e que fez com que o ministerio cahisse, foi conhecida, antes de lhe ser enviada, pelos republicanos. Eu lhe conto: um dia estava em Paçô, quando o Hintze me chamou. Parti logo, corri logo a casa d'elle. Encontrei-o na sala de bilhar: tinha um papel na mão.—Desculpe e obrigado. Já não é necessario. Recebi hoje esta carta do rei que me levou a pedir a demissão.—Repliquei-lhe:—Sei perfeitamente o que diz essa carta. Posso repetir-lha quasi phrase por phrase.—E diante do espanto do Hintze:—Vim no comboio com o Afonso Costa que me disse, palavra por palavra, o que continha essa carta...—Assombro do Hintze. A copia da carta fôra mandada pelo rei aos republicanos—naturalmente ao Bernardino—antes de ser enviada ao Hintze.
Março—1910.
Quantos Fialhos, todos diferentes, tenho conhecido pela vida fóra! Este, de ventre e barbicha de bode, esta figura de que os mortos se conseguiram apoderar, agarrado á terra, conservador, discutindo com o padre da freguezia os melhoramentos da sua egreja, este é—emfim! emfim!—o descendente autentico dos cavadores alemtejanos. Custou... As suas melhores obras—as que sonhou e nunca se resolveu a escrever—leva-as elle para a cova... De quando em quando ainda tem uma revolta:
—É horrivel a minha vida na aldeia. Se não fossem os livros já me tinha suicidado. Cada vez preciso mais de ver gente e d'esta vida artificial de Lisboa. Na aldeia, em Cuba, não falo com ninguem, não tenho ninguem com quem comunicar. São de bronze aquelles filhos da p...! E nem a mais pequena sombra de sensibilidade. E se imaginam que a gente não tem dinheiro, estamos perdidos!...
—Fuja.
—Não posso. Quem me ha-de tratar d'aquillo? E depois criei interesse ás oliveiras que plantei, á vinha... Ah, mas as noites!... Tenho noites em que pego n'um livro e saio. Ha uma estrada em volta de Cuba—e eu alli ando á roda toda a noite a falar sósinho como um condenado!
Março—1910.
Centenario d'Herculano. Missa nos Jeronymos pelo padre Matos. O S. Boaventura diz-me que, pela avó materna, é ainda parente de Herculano.—Que eram seus avós?—Pedreiros.—Efectivamente no retrato Herculano parece um pedreiro da minha aldeia; efectivamente Herculano descende de pedreiros e toda a sua obra é, na realidade, a d'um homem que moe e lavra com solemnidade a pedra, a d'um d'esses extraordinarios montantes que metem o ferro até á raiz da fraga, racham o penedo, afeiçoam a lage, e acabam, emfim, por construir a cathedral. Herculano edificou em granito—e no granito abriu pacientes e admiraveis lavores... A seriedade, a obstinação, e até o amôr á terra, ao azeite e ao pão, seu ultimo ideal e refugio, são caracteristicos e o ideal tambem d'essa legião de trabalho imensa e obscura, cuja alma, á força de lidar com a pedra, adquire dureza e grandeza tambem. Essas figuras, só osso e pelle, descarnadas, que partem de manhã com o saquitel e a borôa, que só pronunciam palavras graves, e ao dar do meio dia se descobrem e mastigam o pedaço sêco de pão com um ar solemne,—acabaram, emfim, por encontrar um descendente como elles austero e grave, capaz de exprimir o universo—o que sentiram, o que sofreram e o que sonharam—e capaz de edificar com alicerces para seculos. Tudo, até a falta de phantasia e imaginação, até o miudo lavor pacientemente trabalhado, até a casa simples, vulgar e mal repartida, até a companheira, até a austeridade, veio a Herculano d'essa grande geração de pedreiros portuguezes, que antes d'elle fizeram obra digna de homens e desapareceram para sempre no pó—mas poderam transmitir, filho atraz de pae, a solemnidade e a grandeza, a quem um dia erguesse uma cathedral mais vasta e com raizes mais fundas do que elles todos juntos. Mas todos trabalharam tambem, sabe Deus durante quantos seculos, com tenacidade e firmeza, para a obra do pedreiro maximo de toda a sua geração.
Março—1910.
José d'Azevedo:
—Anno passado o rei chamou-me e pediu-me para votar o projecto da União Vinicola. Disse-lhe logo:—Não, meu senhor, não voto. E V. Magestade pede-me isso porque não sabe de que se trata. O projecto é ruinoso.
Abril—1910.
O Fernando de Serpa, agora em foco por causa das cartas que o Afonso Costa leu no Parlamento
[10]
e se teem publicado n'
O Mundo
—esteve estes dias para se suicidar. A mulher não dorme e o irmão d'ella entrou hoje n'
O Imparcial
e disse ao José d'Azevedo:—Se isto assim continua minha irmã endoidece, e se minha irmã endoidece eu mato o Afonso Costa.—Segundo elle, esse Fernando de Serpa que se metia em tantos negocios, deve afinal quinze contos de reis e tem agora os seus vencimentos suspensos...
*
Porque o José d'Azevedo não foi ministro com o Hintze:
—O Hintze tinha por mim uma grande admiração, mas nunca me fez ministro, porque a sua vida economica andava muito atrapalhada e um dia em que me mostraram uma lista de pares que elle ia fazer, entre os quaes estava o meu nome, eu disse:—Mas isso não é uma lista de pares—é uma lista de credores.—Soube-o logo e nunca me perdoou.
*
Quem roubou ao Paçô as celebres cartas de que o Afonso Costa se serviu no parlamento, foi o creado. Soube-o hoje por acaso. O Urbano Rodrigues vendo um rapaz de dezeseis annos na redacção d'
O Imparcial
, disse:—Este é o creado do Paçô, que vae muito ao
Mundo
e pertence ás associações secretas.
*
—O José Luciano foi sempre um homem pernicioso—diz o José d'Azevedo.
—Emquanto fôr uma sombra ha-de mandar—conclue o Fuschini. E acrescenta:—Quem manda é o seu
salão
onde se fazem os negocios mais escuros e mais porcos d'este paiz.
*
—Esse ministro italiano que ahi está—conta o José d'Azevedo—foi um dos que mais concorreu para salvar Dreyfus. Paulucci, então secretario de legação em Paris, viu os documentos da embaixada e convenceu-se da inocencia de Dreyfus. Falou ao embaixador, seu tio, que lhe disse:—Prohibo-te que te metas n'isso.—Não se importou. Procurou Bernard Lazare, que o recambiou para o José Reinach.—Isso é extraordinario. Vamos ter com Max Nordau e com Zola.—Reuniram-se e examinaram os documentos da legação italiana. Dos papeis não só se deprehendia que era outro o traidor, mas resaltava nitida e clara esta preciosa informação: o adido encarregado da espionagem alemã possuia a esse respeito vinte e nove cartas absolutamente decisivas. Max Nordau partiu para Berlim e pediu ao imperador da Alemanha a publicação das cartas. O imperador opoz-se. Paulucci não desanimou: foi a Roma, bateu á porta d'um cardeal, pediu-lhe que o partido catholico tomasse a defeza de Dreyfus inocente, o que assegurava ao catholicismo um papel triumphante no mundo; falou emfim a Leão XIII, a quem só arrancou boas palavras. (E d'ahi veio o combate da França republicana contra o clericalismo. Que outro não seria o papel da Egreja se Leão XIII se manifesta!) Nem assim Paulucci desanima. Insiste com o tio:—Pois meu tio tem nas suas mãos documentos que provam a inocencia de Dreyfus e pode dormir descançado! Apresento-me como testemunha.—O embaixador conseguiu que todos os secretarios fossem testemunhas no processo. Paulucci tinha doze mil e setecentos documentos (copias) da questão Dreyfus, que arderam no ultimo fogo da embaixada italiana no campo de Santa Clara. Paulucci dizia muitas vezes:—Andei dois annos com febre!
*
José d'Azevedo:
—Fui eu que machinei e atirei com o ministerio Ferreira do Amaral a terra. Tinha-me feito um agravo que, se é directo, m'o pagava n'um conflicto pessoal. Fui eu que fiz tudo. O José Luciano não queria. Procurei-o na Anadia. Obstinava-se. Mas eu fui ao Porto—e venci. Uma tarde o Campos Henriques recebeu uma carta do Paçô, que encontrára o Tavares Festas no comboio (o Tavares Festas vinha de casa do José Luciano), carta em que lhe dizia: «Ouvi que vae formar ministerio com estes nomes...» O Campos Henriques mostrou a carta á mulher:—Olha o que me diz o Paçô...—E riu-se. No dia seguinte era chamado ao Paço e organisava o ministerio, tal qual o Paçô lhe dizia na carta. Ordens de José Luciano.
1 de Maio—1910.
José d'Azevedo diz a respeito do escandalo do Credito Predial:—Não são sessenta contos que faltam, são oitocentos! A escripta está toda viciada. Venderam-se obrigações, deram-se juros entrando-se pelo capital, emfim um descalabro medonho, que se não podia fazer sem auctorisação dos governadores.
*
É um politico reservado e frio? Não sei. É um homem audacioso e inteligente, que parece calmo. Mas ha n'elle uma parte em carne viva. Sente-se a ferida sob aquella aparencia forte. Escreve sem uma emenda, linguado atraz de linguado; nem hesitações nem duvidas e um prazer que synthetisa n'estas palavras:—Babo-me... Não escrevo, babo-me...—Não crê senão em si mesmo, e não deve ter um amigo, como todos os que contam apenas com as suas proprias forças. A mulher d'um diplomata que viajou com elle, dizia:—As maneiras encantaram-me, os olhos meteram-me medo.—São os olhos dos Brocas.
—Sou das raras pessoas que teem assistido ao suplicio dos chinezes. Fui com o meu creado, a cavalo—e por signal que elle desmaiou. Cortam-lhes primeiro a carne dos ante-braços, depois a das pernas, depois os seios, depois os braços e as pernas pelas articulações; dão-lhes emfim um golpe no coração e acabam por os decepar. Pois durante todo o suplicio atroz, os desgraçados não deram um unico grito, um só gemido: erguiam a cabeça e bufavam ou mijavam-se. Mais nada. Um d'elles prestou-se, sorrindo, a que o photographassem, emquanto o carrasco levantava a espada para o degolar...
*
Uma phrase camilliana de uma tia, irmã de Camillo:—Sobrinho, Deus não existe... ou embarcou!
*
E esta de Camillo, que tinha vindo a Lisboa muito doente, e a quem Souza Martins, para o sacudir, começou ralhando muito. Camillo, para o José d'Azevedo, depois do medico sahir:
—Vê, meu sobrinho, vê, não me perdoam o
Eusebio Macario
, estes filhos de boticario!
*
Camillo para o José d'Azevedo, mostrando-lhe o filho, que já estava no primeiro periodo de loucura:—Veja esse desgraçado... Era um rapaz inteligente...—E depois d'uma pausa dolorosa:—E tudo isto porquê, sobrinho? Por ter lido as obras do Theophilo Braga.
Junho—1910.
Nos quarteis continua a fazer-se uma larga propaganda republicana. Distribuem-se aos soldados versos e folhetos. Exemplo:
PROPAGANDA ELEIÇOEIRA DO BLOCO PREDIAL (Musica—A MARSELHEZA) || || || || || || || || || || || || || || || || || || Ide escravos quebrar os grilhões, As algemas da fome homicida; Armas promptas contra esses ladrões, Que nos roubam a bolsa e a vida! (bis) Nova aurora de Paz, Redempção, Vá doirar nossos valles e cerros, Libertando os captivos dos ferros, Dando aos pobres a luz e o pão. Avante! Lusitanos! Largae a servidão! Unir! Unir! contra os tyramnos, Salvemos a Nação! Avante Lusitanos, Salvemos a Nação. Tareco.
E o folheto «Os Barbadões»
[11]
:
«O rei D. João I da gloriosa dynastia de Aviz, enamorou-se da filha de Pero Esteves, sapateiro alemtejano, conhecido pela alcunha O Barbadão; d'estes amores nasceu um filho que foi conde de Barcellos e primeiro duque de Bragança; casando este com uma filha do condestavel Nun'Alvares, deu origem á nobre casa que ha 267 annos reina em Portugal. A casa de Bragança foi-se engrandecendo á custa de doações regias, bens nacionaes que os reis cediam em usufructo apenas, e que o capricho do soberano ou a conveniencia do Estado, podiam fazer voltar ao seu legitimo proprietário: A Nação. Não foram os serviços relevantes que engrandeceram esta casa, mas as intrigas continuas, salientando-se entre todas a que levou o glorioso infante D. Pedro á chacina de Alfarrobeira. Com a revolução de 1640 que libertou Portugal do jugo da Espanha, o oitavo duque de Bragança foi aclamado rei com o nome de João IV; beato e poltrão liga-se aos jesuitas, e para salvar a pelle e o titulo de rei, não hesita em negociar por intermedio do padre Antonio Vieira (jesuita) a entrega do seu paiz á França, ou novamente á Espanha, a troco de o reconhecerem como rei do Brazil; a sua pessoa era tudo, o seu paiz era nada. Os melhores servidores do Estado foram lançados em prisões ou conduzidos ao cadafalso (o ministro Lucena, o marquez de Montalvão, Mathias d'Albuquerque vencedor de Montijo, etc.). O seu reinado foi coroado pelo presente que fez á Inglaterra, como dote de sua irmã, das cidades de Bombaim e Tanger, ricas flores de laranjeira que a infante portugueza levou prezas ao seu vestido de noiva!
Seu filho Afonso VI que no throno lhe sucedeu, corria de noite as ruas da cidade, com a sua purria fidalga, assaltando os cidadãos indefezos; era doido, e d'isso se aproveita seu irmão Pedro II para lhe tirar a corôa e... a mulher, com o consentimento do papa; este (Pedro II) dominado pelos jesuitas tambem, desterra o conde de Castello Melhor, glorioso ministro (que por tres vezes salvou Portugal da dominação espanhola), e celebra com a Inglaterra o vergonhoso tratado de Methwen, que nos tira o comercio do Oriente e nos impossibilita de montar fabricas e oficinas. João V que lhe sucede, gasta o oiro que do Brazil lhe vem, na construção de conventos, em festas de egreja e em presentes ao padre santo; deixa perder sem enviar socorros, as nossas colonias da India, Ceylão e Oceania, porque o dinheiro era pouco para presentear as freiras de quem fez amantes e o papa de quem se fez lacaio. José I faz morrer no cadafalso toda a familia Tavora, por meio de horriveis tormentos, com o pretexto de serem cumplices na conspiração do duque de Aveiro, o que se não provou, sendo a causa verdadeira a oposição que essa familia fazia aos seus amores adulteros com a marqueza; nada escapou ao seu furor sanguinario: nem velhos, nem mulheres, nem creanças. Para dignamente coroar o seu reinado, abandona aos mouros as cidades que possuiamos em Marrocos, e que tanto sangue portuguez custaram.
Teixeira de Sousa.

Maria I tira o poder ao Marquez de Pombal, entrega-o aos frades e endoidece; seu filho João VI que em seu nome governou e lhe sucedeu, foge covardemente para o Brazil abandonando o povo de que era rei, quando os francezes invadiram o paiz; Junot entra em Lisboa á frente de 70 soldados!!! Portugal revolta-se contra os francezes, e o rei entrega-o aos desprezos de Wellington e ás brutalidades de Beresford; os inglezes protegendo-nos, fazem-nos peor mal que os invasores: arrazam as nossas provincias, queimam as nossas fabricas, conquistam a Madeira, e impõem-nos os vergonhosos tratados de 1810, ainda peores que o de Methwen. O general Gomes Freire, por tentar libertar o paiz das garras inglezas, é enforcado em S. Julião da Barra; outros 17 martires pagam com a vida, no Campo de Sant'Anna, a sua dedicação patriotica. A revolução popular de 1820 salva Portugal do leopardo britanico, obriga o rei a voltar ao seu posto e liberta o exercito do oprobrio de ser comandado por oficiaes inglezes. D. Miguel foi quem primeiro estabeleceu em Portugal um governo de força, á semelhança do que desejam actualmente alguns idiotas barriguistas; nada lhe faltava: as alçadas, as forcas, o cacete, 80.000 homens de tropa e um povo fanatico e imbecil; contra si, em todo o paiz, apenas tinha alguns liberaes desarmados; o seu retrato figurava nos altares, e as mães pediam-lhe a honra de lhes desflorar as filhas. Prende, enforca ou manda fuzilar toda a gente de que suspeita, mas com toda a sua força, deixa que uma esquadra estrangeira lhe escarre na cara e no Paiz, sem que um só tiro partisse a repelir a afronta. Este idolo poderoso cahe do seu pedestal de sangue, é corrido do throno pela revolução triumphante; seu numeroso exercito pouco a pouco o foi abandonando, vindo para o lado do povo liberal, e o bronco tigre que ao começar a guerra civil tinha 80.000 homens ás suas ordens, perde a batalha de Asseiceira com os 5.000 homens unicos que até esse momento lhe ficaram fieis. Pedro IV, o que tem estatua no Rocio, revolta o Brazil contra Portugal, faz-se seu imperador e manda fuzilar no Rio de Janeiro os soldados portuguezes á traição; corrido do Brazil, volta a Portugal a tentar fortuna, dirigindo a guerra civil contra o irmão; emquanto esta se não decide a seu favor, não tem vergonha de offerecer á Inglaterra, em troca de auxilio desta, o pouco que nos restava do nosso imperio indiano.
Maria II para se aguentar no throno chama marujos inglezes e 30:000 soldados de Espanha; faz invadir a sua patria e assassinar o seu povo, para satisfação do seu orgulho de rainha liberal. Pedro V não poude passar sem irmãs de caridade, e deixa que mansamente de novo se estabeleçam entre nós as congregações religiosas; novamente, um almirante estrangeiro (Lavaud) nos faz o mesmo que Roussin fizera em tempo de D. Miguel. Luiz I arvora o cynismo em governo e faz reinar a bandalheira; deixa que na conferencia de Berlim nos roubem a maior parte do nosso territorio Africano, e conduz o paiz á bancarrota que estala pouco tempo depois da subida ao throno de seu filho Carlos. Este, esbofeteado pela Inglaterra, curva-se rasteiramente, chama piolheira á nação que lhe paga, e... rouba-a; rouba-lhe o seu dinheiro e rouba-lhe a liberdade; no seu reinado perdemos vastos territorios nas nossas colonias de Moçambique, Angola e Guiné. O seu ultimo ministro João Franco, que queria pôr tudo isto no xão atirou com elle ao chão. Seu filho Manuel II que lhe succedeu, com sua bella e radiosa mocidade, já deu a seu povo uma explendida amostra do muito amor que lhe tem: a chacina de 5 de abril (14 mortos e 100 feridos!); em troca o seu primeiro ministerio entendeu que o povo lhe devia dar mais ordenado; ainda não roubou como o papá, mas paga-se melhor; passa a sua vida de rozario na mão, envergando a roupêta de jezuita, seguindo os conselhos das fraldas femeninas reaccionario-palatinas.
Até hoje 14 reis da casa de Bragança teem governado o Paiz, e como se vê são os legitimos representantes duma nação de idiotas, barriguistas e poltrões; tambem não resta duvida que esta dynastia é, como tem sido, a mais solida garantia da integridade do nosso imperio ultramarino. Grandes são os beneficios que a Nação lhe deve: uma divida colossal de
oitocentos mil contos
, nenhumas industrias, nenhum commercio, uma agricultura atrazadissima, um povo tuberculoso e analphabeto, esmagado com impostos á mercê dos pontapés estrangeiros; nem exercito nem marinha; estradas ao abandono e bufos com fartura, taes são as fontes de riqueza que os Braganças nos deixam, e tudo isto por pouco dinheiro, baratinho:
365 contos
por anno só para elle, mais
60 contos
para a mamã,
outros 60
para a vóvó e
16
para o titi; tem tambem para alfinetes
160 contos
a mais por anno que o generoso Amaral lhe deu, pagamos tambem á sua guarda real de archeiros, á orchestra da sua real Camara, e ao seu yacht, e como isto é pouco, damos-lhe dinheiro pela honra que nos faz em alojar os seus cavallos e carros nas nossas casas e pela licença que nos deu de utilisarmos em serviço do Estado os nossos palacios; tudo isto, bem entendido, nada tem com os rendimentos da casa de Bragança que disfructa. Quando casar, se S. M. nos der essa felicidade, dar-lhe-hemos mais
60 contos
para os alfinetes de sua esposa; e se tiver meninos? então morreremos de alegria e daremos
20 contos
annuaes por cada pimpolho.
Como veem, não é pagar cara a certeza que temos de ganhar o reino do ceu pela mão do nosso radioso soberano, com a benção de Pio X, as indulgencias de Merry del Val e as preces solemnes do sr. patriarcha e do reverendo bispo de Beja.
*
Oliveira Martins, que foi ministro de D. Carlos, diz na sua historia de Portugal: Força é reconhecer que na familia dos Braganças não vingou a semente da nobre raça dos Nun'Alvares; viu-se em todos elles a descendencia do crasso sangue alemtejano da filha do
Barbadão
.
*
Portuguezes!
façamos votos pela conservação d'esta gloriosa dynastia—
Oremos
—
Padre Nosso
—
Ave-Maria
.
Junho—1910.
Fui hoje a casa do Fernando Martins de Carvalho consultal-o. Não sae ainda com medo aos republicanos. É pequeno, inteligente, arguto. Está livido.
—A rainha D. Amelia é que quiz forçosamente que o ministerio João Franco fôsse abaixo e até se opunha a que se lavrassem os decretos como habitualmente.
—E o rei?
—O rei, como dizia o Totenbach, não é um homem... Oh, vivemos dias horriveis! Olhe, tenho provas moraes absolutas de que os republicanos quizeram assassinar o João Franco, quando elle viesse de Carnide no automovel. Ha na estrada uma azinhaga: de repente uma carroça surgia, fazia parar o automovel e os assassinos cahiam-lhe em cima...
Julho—1910.
Do João de Menezes:
—Possuo documentos (que hão-de aparecer a seu tempo) e que provam que foi a rainha D. Amelia, d'acordo com a condessa de Paris e a duqueza de Monpensier, quem introduziu as ordens religiosas no paiz. Foram ellas que deram dinheiro para jornaes e o resto.
*
A dissidencia, o assassinato do rei, o caso do Credito Predial, foram golpes profundos e certeiros vibrados na monarchia. Está efectivamente tudo minado... E os ataques dos republicanos ao juiz de instrução criminal demonstram que elle lhes tocou na ferida... Mas quem ha ahi que se queira comprometer a serio pela monarchia, sobretudo depois do exemplo de João Franco?—A um ministro foi preciso escrever-lhe uma ordem necessaria «porque a mão lhe tremia...» O que resta de pé não passa de ficção. Quem manda, quem governa, mesmo na oposição, são os republicanos, que o Alpoim leva pela mão até ás questões importantes.—O exercito é nosso.—E o João Chagas, para convencer um oficial incredulo, manda desfilar certa noite no Rocio os soldados d'um regimento, que, por senha, um a um lhe fazem todos a continencia. Sucedem-se os governos, mas a força é outra, que se sente por traz do scenario... O José d'Azevedo desafia-os:—Venham para a rua!—Fiado em quê? O pacto de Vila Viçosa efectivamente existe?
[12]
Já o João Franco dizia tambem com arrogancia:—Se podem fazer a republica façam-na depressa, porque d'aqui a dois annos garanto-lhes que a não fazem.—Mas será este rei um chefe?—pergunta necessaria e decisiva, a que os proprios monarchicos respondem d'esta forma n'
O Liberal
:
«O rei de Portugal está exautorado, está reduzido a uma chancella de quem lhe bate os pés. «Podia ser um rei, e é um simulacro da realeza.
«Em tempo algum se curvaram os reis perante ameaças de qualquer natureza e ainda menos, quando tendentes a esquecer os nossos protestos e juramentos a que está ligada a propria dignidade e a honra de uma nação. «Póde asseverar-se que o snr. D. Manuel não chegou a ser rei. No momento em que se esqueceu do que devia á sua dignidade de nós todos, que lhe confiamos um cargo, que é incapaz de conservar sem o deixar cair, o snr. D. Manuel deixou de ser rei».
A excitação politica não tem diminuido, e o Teixeira de Souza, no poder, ignora tudo que o juiz d'instrucção repete a quem o quer ouvir:—Estamos sobre um vulcão!—A audacia dos republicanos todos os dias augmenta:—Lisboa é nossa!—exclama o Chagas.—Se os republicanos fizessem um comicio ao alto da Avenida e viessem por ali abaixo, a republica estava feita!—afirma o Silva Graça—E o Porto e a provincia?—pergunto eu ao Chagas.—Que me importa a provincia! Que importa mesmo o Porto! A republica fazemol-a depois pelo telegrapho.—Outro diz-me:—A marinha está toda comnosco. Tem havido ocasiões em que a esquadrilha do Algarve nos pertence desde o oficial mais graduado até ao ultimo fogueiro. O dificil tem sido contel-os...—Todos os dias corre um boato e a agitação popular augmenta pela carestia da vida
[13]
. Que vae sahir d'aqui? Uma grande revolução, o terror, mortes?...—Não, soceguem, quando se fizer a republica—já o anunciou ha annos o pontifice maximo Guerra Junqueiro—o que se ha-de ouvir não é um grande ruido de espadas, é um grande ruido de talheres...
A SOCIEDADE ELEGANTE
Rodeiam a rainha o Figueiró e a Figueiró, e algumas relações intimas da Figueiró e Sabugosa; e o rei o Ficalho, alguns velhos em oficio na côrte, como o marquez d'Alvito, o conde de Villa Nova de Cerveira, que, ao que se disse, morreu por ser preterido pelo conde de Sabugosa, por influencia da rainha—o que é redondamente falso: D. Pedro de Noronha, vulgo o Paço d'Arcos, morreu de velho. Era um homem sem cultura, e tinha oitenta e seis annos quando foi preciso nomear novo mordomo mór por morte do Ficalho. Acompanham o rei no yacht o Fernando de Serpa, o Manuel Figueira, o Pinto Basto (Nico), o Malaquias de Lemos, o Queiroz, que passou por ser a alma danada do paço; e que na realidade tinha um certo geito para disciplinar soldados, montar a cavallo, dirigir esperas de touros—e mais nada; algumas vezes o major Santos, feitor da Bacalhôa, e o Soveral que, quando estava em Lisboa, era o menino bonito da corte, onde tinham influencia o Bernardo Pindella, o Caldeira, comandante do yacht, e poucos mais.
A seguir ao paço podem citar-se os Palmellas, em casa de quem se dava beijamão aos creados e ás creadas, se isto não é uma lenda como muitas outras... Era uma pequena corte. Ella, a duqueza, viveu sempre entre coisas bellas; elle, o duque, era um apagado guarda livros
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. Só recebiam raros parentes, e a duqueza toda a vida detestou os Sousa Holstein. No tempo de D. Luiz ainda muita gente nobre mantinha uma grande linha, que se foi pouco a pouco apagando: os Penafieis que então fizeram uma vida brilhante; o marquez de Vianna cujo palacio se vendeu ao marquez da Praia.—Aquella gente nem sabe acender um lustre, dizia o velho marquez ao falar d'«esses morgadotes da ilha...» Os condes de Lumiares davam bellas festas no palacio quasi pegado, onde é hoje o do Marquez da Fóz. Abriam-se as janellas, apagavam-se os milhares de lustres e continuava-se a conversa ate á missa das almas na capella proxima.
Chamavam-se essas festas «rosas divinas». Debutou ahi, nas salas de Lisboa, o snr. Luiz de Soveral. No rez do chão do mesmo palacio davam pequenas partidas os Castellos Melhor. Tocava o seu amigo Bomtempo e juntavam-se alguns politicos, entre os quaes o Manuel Vaz Preto. No fim do reinado de D. Luiz já a maior parte dos palacios de Lisboa ou tinham sido alugados ou mudado de dono. No palacio de Tancos estava o colegio do dr. Sicuro; nos dos viscondes de Asseca instalou-se o visconde de Ouguella e depois uma fabrica; o dos condes de Murça transformou-se n'uma escola; o do marquez de Abrantes—que ocupava apenas um recanto—foi alugado pela legação da França; o dos condes Barão, no largo do mesmo nome, passou a uma familia de judeus, barão de Villa de Foscôa; o dos Almadas Carvalhaes, senhores d'Ilhavo, á Empreza Editora; no do conde da Ribeira, de quem o rei dizia que era o homem mais honesto do seu tempo, e que morava na casa dos Mordomos, instalou-se o colegio Arriaga. Já os Angejas, representados pelo conde de Peniche, tinham deixado o palacio de S. Lazaro, que depois ardeu, e o visconde de Sampaio mudára para a rua de S. Vicente. Os condes Valladares e Povolide haviam vendido ao snr. Burnay o palacio das Portas de Santo Antão e retirado para a provincia. O palacio dos condes de Paraty é hoje escola municipal, no dos condes da Ponte, á Boa Morte, habitou o general Palmeirim, e no dos condes de Farrobo móra o snr. Monteiro Milhões, que tambem comprou as Laranjeiras, vendidas depois successivamente até cahirem nas mãos do snr. conde de Burnay. O palacio dos Castellos Melhor passou ás mãos do marquez da Fóz, que alli deu algumas festas sumptuosas. Mas a mais brilhante, a que deixou grande impressão na gente da epoca, foi o celebre baile das Chagas, na antiga residencia, antes de mudar para o palacio da Avenida. N'esse baile se exhibiram todas as preciosidades que o marquez adquirira—quadros, baixelas Germain, etc. Romperam-se os tectos da sala de baile, para se construir uma galeria onde tocaram os musicos, acompanhados pelo côro de S. Carlos. Ahi começou tambem o marquez a arruinar-se. Gastou, gastou... Só as grades de ferro do corrimão do palacio da Avenida custaram noventa e cinco contos. O marquez chegou a ter cem contos de renda.
Muitas outras familias ilustres ocupavam, retiradas da vida mundana, os seus palacios: o conde de Alcaçovas, na rua da Cruz dos Poiaes, o marquez de Pombal na rua Formosa, os marquezes de Penalva, etc. Os condes de Sabugosa, n'uma residencia que o conde tornou encantadora, recebiam ainda com brilho. Na rua Formosa existia tambem o salão da snr.
a
D. Maria Kruz Brito, que no seu genero foi o unico comparavel aos salões da Restauração e 2.º Imperio, de Paris. Sua filha, a senhora condessa de Ficalho, no solarengo palacio dos Mellos de Serpa, aos Caetanos, reunia a fina flor da elegancia em certos dias da semana (segundas-feiras). É o palacio ainda hoje ocupado pela senhora D. Maria de Mello, condessa de Ficalho. O destruido e inhabitavel palacio da Rosa, solar dos viscondes de Villa Nova de Cerveira, marquezes de Ponte de Lima, resurgiu pelos esforços do actual marquez de Castello Melhor, visconde da Varzea pelo seu casamento com a herdeira das casas Castello Melhor e Ponte de Lima, e alli se deram e dão esplendidas festas.
Citam-se como as mulheres mais lindas d'essa epoca—fim do reinado de D. Luiz e principio de D. Carlos—a duqueza de Palmella, a condessa de Penamacôr, a condessa de Ficalho, a condessa de Villa Real e Mello, e a formosissima D. Anna de Sousa Coutinho, filha do Conde de Linhares, portanto neta da Senhora Infanta D. Anna de Jesus Maria, dama da rainha, e pelo espirito, pelo talento, a condessa de Rio Maior (mãe), a marqueza sua nora, filha dos marquezes de Bemposta Sub-Serra (Saint Leger) e tantas outras sumidas ou desaparecidas no turbilhão da vida.
Uns pobres, outros mortos, outros arredados, deram logar a esta sociedade mais mesclada, a gente de dinheiro, a gente que enriquece, alguns nobres de mistura, alguns fidalgotes feitos á ultima hora, e a uma certa roda que se diverte, citada nos jornaes, e que constitue em toda a parte o que se chama a sociedade elegante. Uma senhora de espirito dividia a sociedade portugueza em aristocracia,
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, alto pirismo (pirismo, é claro, vem de Pires), baixo pirismo e povo. «Esta ideia veio-me—diz ella—d'uma visita que recebemos um dia e que muito nos impressionou: num grupo d'automobilistas do Monte Estoril nossos conhecidos, tinha vindo a F..., aquelle sitio apartado á beira-mar, onde já o nosso pae costumava passar o verão, uma menina da boa sociedade de Cascaes. Essa menina, dizia minha irmã cheia de extranhêza, que nunca tinha vindo áquella casa, esteve durante toda a tarde exclusivamente a namorar um dos taes automobilistas, e nem antes nem depois nem nunca, esboçou para com os donos da casa um leve sorriso de agradecimento! Porquê n'uma menina tão fina tanto «falta de chá!...»? Porquê, entre ellas, e as meninas finas nossas conhecidas com mais intimidade, tamanha diferença?... Foi assim por comparações estabelecidas e deduções tiradas, que concluimos em dividir as classes da sociedade actual em aristocracia,
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,
alto pirismo
,
baixo pirismo
e povo.
É inutil explicar o que se entende por aristocracia e povo. Cada uma dessas classes, no seu extremo oposto, está suficientemente definida por sua propria natureza.
Baixo pirismo
é nome novo para a baixa burguezia, classe de que tanto, com tanta graça, e tanta verdade, se ocupou Gervasio Lobato.
Alto pirismo
... alto pirismo, somos nós, por exemplo, as manas da descoberta, muito bem acompanhadas por todas as nossas amigas e por quasi todos os nossos conhecimentos, mais ou menos endinheirados (ha de tudo!) de maior ou menor bom gosto e cultura. Classe numerosissima, em que está incluida toda a boa gente que cuida de ser bem educadinha e agradavel e que trata de sustentar, por um alevantado valor civico—que muitas vezes é inconsciente...!—as regras, os preconceitos, as convenções, de que uma sociedade bem organisada não pode prescindir.
Ha alguns grupos no alto pirismo, muitissimo agradaveis—se n'elle incluimos tanta gente!...—em que se cultiva ainda a boa conversa, em que, sem sombra de pedantismo, se discutem livros, ideias, arte, e em que ninguem sente saudades de jogar o bridge. Mas ha outros grupos, em que nas festas os homens não estão na mesma sala em que estão as senhoras, festas em que só dança, e pouco, a gente muito nova, e em que as meninas, nada interessantes, mas com aquelle ar de timidez e de recato, que tanto agrada aos portuguezes á volta d'uma viagem pelo extrangeiro, namoram pelos processos archaicos, sob os olhares mais ou menos adormecidos da mamã. Festas essas em que, a alturas tantas, nós, com a certeza absoluta de que o relogio está parado, começamos a sentir verdadeiro odio pelas begonias artificiaes—ainda se encontram!—que ornamentam a étagère, e que cresceram em leque de dentro d'uma especie de musgo sêco, muito mal imitado; festas em que só pela muita fôrça da boa educação recebida nos obrigamos a trocar umas palavras vazias de interesse por uma contorsão dificil e dolorosa do corpo, com a senhora gorda que está sentada no
borne
atraz de nós! (Tambem ainda se encontram muitos
bornes
!!)
São estes grupos do alto pirismo, é preciso dizer a verdade toda, que nos enchem precocemente a cabeça de cabelos brancos.
A
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(cá está a tal menina que apareceu na F...) foi certamente organizada em Cascaes. Deve ter nascido na Parada...—e foi fundada provavelmente por um pequeno grupo de aristocratas neurasthenicos e comodistas, aos quaes logo, muito contentes, se agregaram por facilidades de convivencia e porque os souberam imitar, alguns membros do alto pirismo. Hoje é uma classe bastante numerosa e certamente a mais