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Memoria sobre a cultura, e productos da cana de assucar

NOTAS QUE PERTENCEM A ESTA OBRA.

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NOTA I. Pag. 4.

Na Provincia do Minho, e em outras partes, há muita uva, que não pode amadurecer, porque as cêpas são encostadas a arvores, cujas folhas impedindo, que a luz toque nos cachos, não se pode aperfeiçoar o seu succo, nem alcançar doçura, condição, sem a qual se não pode fazer vinho generoso.

Estas uvas são sempre azêdas, e o seu vinho quasi não tem valor, por aspero, e inexportavel. He enriquecer aos seus habitantes, e por consequencia ao Estado, o dizer a forma, porque podem fazer vinho generoso, e com todas as qualidades, que lhe adquirem grande valor, e exportação. O meio simples, innocente, e infallivel, para conseguir esta perfeição, he ajuntar ao mosto máo, antes da fermentação, huma certa quantidade de Assucar, maior, ou menor, segundo a qualidade do mosto; porém que nunca poderá exceder a huma arroba por pipa, por mais verde, que elle possa ser; e governar-se a fermentação, assim como se diz nos principios para fazer aguardente. Esta despeza ha de ser compensada com usura na venda do vinho, pelo excesso de verde, a maduro, e bom. Macquer chegou a fazer vinho de verjus, que he huma uva, que nunca amadurece, e se servem della em França para tempero acido, assim como nos nos servimos do limão. Fez tambem, com uva muito má, vinho liquoroso, vinho como o de Tockay, que he feito de uva muito doce, quasi em passa, simplesmente com a addicção do Assucar. Não he preciso, que o Assucar seja branco, basta o mascavado, e mesmo o mel, se houver em abundancia.

NOTA II. Pag. 7.

Boyle pesou huma pouca de terra vegetal, de que encheo hum caixão; depositou nesta terra huma semente de buxo, e a regava, quando era preciso.

Passados annos, pesando este buxo, achou, que tinha cento e tantas libras, e a terra só tinha diminuido algumas onças.

NOTA III. Pag. 9

A luz depura as emanações dos vegetaes, prepara com ellas o elemento, que respirão os animaes, e rehabilita o que a sua respiração tem corrompido; porque o animal inspira ár, e expira gás: o vegetal, pelo contrario, absorve gás, e transpira ár puro; porem este ár á sombra, e de noite, corrompe-se, se a luz o não purifica. A materia, que vive nos animaes, e nos vegetaes, tem huma dependencia absoluta da luz; ella tem a faculdade de penetrar os corpos que toca, produzir nelles calor, desenvolver o que tem no seu seio, e aperfeiçoar os seus succos. As plantas, que são privadas da luz, por muito juntas, ficão delgadas, as folhas, e as hastes de hum verde desmaiado, por consequencia enfermas, e sem darem o producto, que se devia esperar.

NOTA IV. Ibid.

O ar he absolutamente preciso para entreter a vida animal, e vegetal. Se he corrompido, se não se renova, os animaes, e os vegetaes padecem, deperigão, e morrem. Já se disse em a nota antecedente, que os animaes inspiravão ár, e expiravão gás; e que os vegetaes absorvião gás, e transpiravão ár puro. Esta troca reciproca, estabelecida pelo Author da natureza, he a que faz ser o ár, que se respira no campo, tão saudavel, e nocivo, o das grandes povoações.

No campo há toda a facilidade para se fazer esta troca, que tanto se difficulta nas Cidades.

O gás, ou ár fixo, que os animaes expirão, e os vegetaes absorvem, he hum liquido incompressivel, que, não sendo misturado com sufficiente quantidade de ár puro, mata os animaes, que o inspirão, afogando-os, assim como faz a agua, ou qualquer liquido que nos seja visivel; porém elle se conhece so pelos effeitos, nas victimas que faz perecer, e não á simples vista.

NOTA V. Pag. 41.

Franklin navegando em frota na America do Norte, vio serem maltratados por huma tempestade, todos os Navios, e so dois novamente concertados, e alcatroados, sentirão muito pouco os seus effeitos. Vio tambem algumas gôttas de azeite lançado no mar, cuja reunião encheria apenas huma colher, temperar as ondas a mais de cem toezas, com huma celeridade de expanção tão maravilhosa, como a sua divisão; e que este effeito do azeite, ou qualquer oleo, principalmente do vegetal, era sobre tudo efficaz, para evitar o perigo dos mares encapelados. Todas as pessoas, que tem sentido no mar grandes tormentas, sabem, que os mares encapelados procedem de huma grande serra de mar, que agitado pelos ventos, forma huma horrorosa columna, a qual dobrando, ou encapelando, se por desgraça encontra alguma embarcação, seja ella a maior Náo, lançando-lhe dentro milhares de toneis de agua, a faz sossobrar. A pezar de ser Franklin quem isto diz, eu, que sabia o que erão mares encapellados, suspendi a minha crença, parecendo-me impossivel, que huma tão pequena quantidade de materia, fizesse cessar hum tão terrivel effeito: porém a primeira vez, que vi fazer Assucar, e que hum grande fogo lançado debaxo de huma caldeira, fazendo sublevar acima das bordas della alguns palmos o liquido, que continha, e que huma pitada de massa de Mamono, reduzia repentinamente este liquido á sua altura natural, lembrei-me logo da observação de Franklin, e ainda que eu não possa conceber o porque isto se faz; se huma pitada de massa de Mamono, que poderá conter apenas meio grão de azeite, e azeite crasso, he capaz de impedir a sublevação, e fuga do liquido de huma caldeira abrazada, creio certamente, que algumas oitavas de azeite bem expansivel, tal como o de amendobi, de que há abundancia em Angola, lançado por huma seringa de delgado canudo, contra o maior mar encapelado, o reduzirá a onda simples, que não tem perigo de consequencias para os Navios.

NOTA VI. Pag. 69.

O ponto indicado por M. Gentil, he para se fazer o vinho da uva; porém como todos os mostos são compostos dos mesmos principios, com mui pequenas modificações, o que succede no mosto da uva, he commum ao da maçan para a cidra, ao da cevada para a cerveja, ao sumo, e productos da Canna de Assucar, para se fazer aguardente. A passagem da dorna, ou cuba para a pipa, com os acidos mineraes, para impedir a fermentação ulterior; como do vinho de Canna, ou guarápa, o que se pretende he aguardente, tambem he o ponto desta guarápa, passar ao alambique para a distilação.

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