SONETO XVI.
Reading edition
As molles azas a bater começa Entre as palhas o tenro passarinho, E largos dias por deixar o ninho Se cança, se fadiga, se arremeça.
H[~u] impulso, outro impulso é vão se apresa, Já se firma no pé, já no biquinho, Nas folhas se tem, passa ao raminho Té que a penna se esforce, e se endureça.
Quando emfim he capaz de movimento Deixa os arbustos vaga pelos ares, E sobre as altas faias toma assento:
Estes sejão, Salicio, os exemplares Em que a vossa virtude anime o alento, Porque hum dia da Fama honre os Altares.
Ao Illustrissimo Senhor Luiz Beltrão de Gouvea.
ODE.
Se entre as louras arêas Do meu Jaquitinhonha, hum Genio erguido Ás Regiões alheas Manda que em doce metro reppetido Hoje o teu Nome leve, Tanto á virtude, meu Beltrão, se deve.
Vejo a sordida inveja De ira morder-se, e as serpes sacudindo Por se tragar forceja: De pejo, e de vergonha em vão cobrindo Co' as frias mãos o rosto, Geme a calumnia no mortal desgosto.
Vós, Genios fortunados, Que do Templo da Gloria honrais a estancia, Os meritos sagrados Cantai do bom Ministro: He a constancia, A sabia fortaleza He quem o guia na maior empreza.
Se os rigidos palmares Da Idumeya consulto; o bravo Noto Os tormentosos ares Não podem mais dobralos: zomba immoto, Nem ás ondas tem medo Sobranceiro ao Egeo, firme penedo.
Tal a constancia tua Em meio foi dos perfidos rumores; A verdade, que nua Derramava em teu rosto as vivas côres, Sobre as aras decentes Vio por triunfo mil trofeos pendentes.
A vigilancia, o zelo, A rectidão do espirito; elevada Ao gráo mais rico, e bello, Essa virtude, que nos traz provada Em meio dos Thesouros A sã virtude, que enobrece os Louros:
Tudo, tudo apparece Sabio Ministro da victoria ao lado; Athenas, que me offerece No seu público Erario accreditado Aristides, o Justo, Em ti acena o seu modelo augusto.
Mil vezes orgulhosa Negra calumnia o seu desterro tenta; A virtude preciosa Contra o fero Themistocles sustenta. Não ha força que baste, Não ha poder que o peito lhe contraste.
Feliz o Rei, o Povo, Feliz tambem de Themis a ballança; De hum modo raro, e novo Nas tuas mãos eu vejo, que descança: Aos premios, ao castigo Se reparte sem queixa o braço amigo.
Ah! sinta a nossa idade De hum sangue illustre, de hum talento raro A próvida igualdade! Melhor do que nos marmores de Pharo, Em memoria nos vindouros T'ergue o Serro h[~u] Padrão nos seus Thesouros.
Imitando o sonho de Scipião.
ODE.
Já vou tocando, ó Licio, De Lustros dez o fatigado termo; E já meu corpo enfermo Se avisinha da morte ao duro officio: Que cedo o meu destino me promette Calcar as sombras do medonho Lethe!
Eu descerei contente A ver os Manes dos Avós amados; Que bem aventurados, Se outro mundo tratarão, se outra gente! Não virão elles, como eu triste vejo, O velho mando peiorar sem pejo.
Passárão da innocencia Pela candida estrada os pés levando; Inda a fera violencia Não corrompia da Justiça o mando; Praticava-se a próvida igualdade Entre a Santa Virtude, e a vil maldade.
A pura fé do Amigo, Renovava de Orestes a memoria: Commum era o perigo, Reciproca tambem a pena, a gloria: Que traições, e que enganos tem disposto Em nossos dias hum fingido rosto!
Tudo se vê mudado Nesta idade fatal em que de ferro O Idolo adorado Torpemente protege o crime, o erro: Como de susto, e de vergonha cheia Se retira de nós a bella Astrea!
Ah! E quem de teus laços Deve ao pezo gemer, ó mundo cego? Rotos em mil pedaços Os teus grilhões a pendurar já chego; Não mais os teus encantos me deleitem, Estes miseros restos se aproveitem.
Que differentes climas Já me finjo habitar! Os brandos ares, Que tu Zefiro, animas Que prazeres me inspirão! Dos pezares, Das magoas, do desgosto, e do tormento Aqui não sôa o tragico lamento.
Sôlto do mortal manto Cuido que o centro dos Elysios piso! Oh quanto he bella, quanto A margem deste Lago! Em fresco riso Lirios, e rosas, quaes não colhe Flora, Aqui saudão a perpetua Aurora.
Adoravel sciencia, Que encheste as noites, e esgotaste os dias, Da humana intelligencia, Agora sei quam longe te desvias! Este o seio da luz, aonde tudo Sem fadiga se alcança, e sem estudo!
O número, a distancia Dos Orbes Celestiaes já sabio admiro: Noto a eterna constancia Do Planeta da Luz; observo o giro Da Terra, que regula a varia face Com que a proxima Lua, ou morre, ou nasce.
Certa, e firme a carreira Já marco de Saturno, Marte, ou Jove, Da esfera derradeira Contemplo a força, que os mais Orbes move; A harmonia me encanta acorde, e rara, Que de Samos o Sabio já notára.
Aqui se patentêa Dos errados systemas o conceito; E longe a minha idéa De vacilar, já firma o mais perfeito. Quem senão tu, ó Genio, sobre humano Libertar me podéra deste engano!
De Massinissa o Paço De Carthago ao Heróe tal scena pinta: Ao soberbo ameaço Da Fortuna, elle vê clara, e distincta, Qual o meu Genio me retrata agora, A bella Patria, onde o descanço mora.
He este, ó Licio, he este Sem dúvida, o Paiz bello, e sereno, Aonde em paz celeste Não respira da inveja o atroz veneno: E aonde livres da infeliz mudança Descança o teu, e o meu bom Pai descança.
Que doce companhia Deveremos fazer-lhes? Ah se apresse O momento que hum dia Tão gostosa união nos lavra, e tece! Cheguemos a beijar as Mãos Sagradas, Que enchem de gloria as immortais Moradas.
Em praticas suaves Alli as breves horas gastaremos; Nem já nos serão graves Na lembrança os trabalhos que aqui temos; Nem da pezada humanidade nossa Pena haverá, que atormentar-nos possa.
Mas tu, que dos humanos Reges, ó Grande Deos, a dubia sorte; Tu, que a meta dos annos Firmas, descendo de teu mando a morte, Dilata os dias do meu Licio, em quanto, Douto me instrue, e me entertem seu canto.