LYRA VIII.
Reading edition
Em cima dos viventes fatigados As verdes dormideiras espremia, Os mentirosos sonhos me cercavão. Na vaga fantasia Ao vivo me pintavão As glorias, que disperto Meu coração pedia.
Eu vou, eu vou subindo a Náo possante Nos braços conduzindo a minha bella; Voltêa a grande roda, e a grossa amarra Se enlêa em torno della: Já ponho a prôa á barra, Já cáhe ao som do apito Ora huma, ora outra véla.
Os arvoredos já se não distinguem: A longa praia ao longe não branqueija; E já se vão sumindo os altos montes. Já não ha que se veja Nos claros Orizontes, Que não sejão vapores, Que Ceo, e mar não seja.
Parece vão correndo as negras ondas, E o pinho qual rochedo estar parado: Ergue-se a onda, vem á Náo direita E quebra no costado: O Navio se deita, E ella finge a ladeira Sahindo do outro lado.
Vejo nadarem os brilhantes peixes; Cahir do Láes a linha, que os engana: Hum dourado no anzol está pendente, Soffre morte tyranna; Entre tanto que a sente Ao tombadilho açoita A cauda, e a barbatana.
Sobre as ondas descubro huma Carroça De formosas conchinhas enfeitada; Delfins a movem, e vem Thetis nella: Na popa está parada: Nem póde a Deosa bella Tirar os brandos olhos Da minha doce amada.
Nas costas dos Golfinhos vem montados Os nûz Tritões, deixando a Esfera cheia Co' rouco som dos buzios retorcidos. Recrêa, sim recrêa Meus attentos ouvidos O canto sonoroso Da musica Serêa.
Já sóbe ao grande mastro o bom gageiro; Descobre arrumação, e grita terra: Á murada caminha alegre a gente; Alguns entendem que erra: Pelo immovel sómente Conheço não ser nuvem, Sim o cume de alta serra.
De Mafra já descubro as grandes torres; (E que nova alegria me arrebata!) De Cascaes a muleta já vem perto, Já de abordar-nos trata: Já o piloro esperto Inda debaixo manda Soltar mezena, e gata.
Eu vou entrando na espaçosa barra: A grossa artilheria já me atrôa. Lá ficão Paço de Arcos, e a Junqueira. Já corre pela prôa Huma amarra ligeira; E a Náo já fica surta Diante da grã Lisboa.
Agora, agora sim, agora espero Renovar da amizade antigos laços: Eu vejo ao velho Pai, que lentamente Arrasta a mim os passos: Ah como vem contente! De longe mal me avista Já vem abrindo os braços.
Dóbro os joelhos pelos pés o aperto, E manda que dos pés ao peito passe: Marilia quanto eu fiz fazer intenta; Antes que os pés lhe abrace Nos braços a sustenta; Dá-lhe de filha o nome, Beija-lhe a branca face.
Vou a descer a escada (ó Ceos!) acórdo, Conheço não estar no claro Tejo. Abro os olhos, procuro a minha amada, E nem se quer a vejo. Venha a hora affortunada, Em que não fique em sonhos Tão ardente desejo.
A huma despedida.
Chegou-se o dia mais triste, Que o dia da morte fêa: Cahi do throno Dircéa, Do throno dos braços teus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.
Impio Fado, que não pôde Os doces laços quebrar-me, Por vingança quer levar-me Distante dos olhos teus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.
Parto em fim, e vou sem vêr-te, Que neste fatal instante, Ha de ser o teu semblante Mui funesto aos olhos meus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.
E crês, Dircéa, que devem Vêr meus olhos penduradas Tristes lagrimas salgadas Correrem dos olhos teus? Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.
De teus olhos engraçados, Que podérão piedosos, De tristes em venturosos Converter os dias meus? Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.
Desses teus olhos divinos, Que ternos, e socegados, Enchem de flores os prados, Enchem de luzes os Ceos? Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.
Desses teus olhos em fim, Que domão Tigres valentes? Que nem rigidas Serpentes Resistem aos tiros seus? Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.
Da maneira que serião Em não vêr-te criminosos Em quanto forão ditosos, Agora serião réos. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.
Parto em fim, Dircéa bella, Rasgando os ares cinzentos; Virão nas azas dos ventos Buscar-te os suspiros meus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.
Talvez, Dircéa adorada, Que os duros Fados me neguem A gloria de que elles cheguem Aos ternos ouvidos teus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.
Mas se ditosos chegarem, Pois os sólto a teu respeito; Dá-lhes abrigo no peito, Junta-os c'os suspiros teus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.
E quando tornar a vêr-te Ajuntando rosto, a rosto, Entre os que dérmos de gosto; Restitue-me então os meus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.