TOADA PARA AS MÃES ACALENTAREM OS FILHOS
Reading edition
A Bertha Cayolla Gil Vianna, minha sobrinha
Oh Desgraça! vae-te embora, Que esta linda criancinha Andou no meu ventre e agora Trago-a nos braços. É minha!…
Do berço, segue-me os passos; Onde eu vou, seus olhos vão… E quando a aperto nos braços —Abraço o meu coração.
Quando o seu chôro receio, Embalo-a, faço que acceite A alegria do meu seio Na brancura do meu leite…
E quando assim não descança, Que tristezas me consomem! —Mas antes chore em creança Que depois, quando fôr homem…
Se ao dal-o ao mundo soffri Tormentos, ancias mortaes, Desgraça, vae-te d'aqui, O que pretendes tu mais?!
Bate as azas, mas ao voares, Não me apagues esta estrella. Se alguem d'aqui precisares, —Aqui me tens, em vez della!
Tocam ás ave-marias. Foi-se o sol. Não vem a lua. Luzinha que me allumias, Que sorte será a tua?…
Riquezas tenhas tão grandes, E tal bondade tambem, Que ao redor d'onde tu andes Não fique pobre ninguem.
Que a todos chegue a ventura: Toda a bocca tenha pão, Toda a nudez cobertura, Toda a dôr, consolação…
Mas se o oiro é mau caminho, —Antes tu venhas a ser O pobre mais pobrezinho De quantos pobres houver.
Iremos por esses montes Altos e azues, como os céus… Que onde ha fructos e onde ha fontes, —Está a meza de Deus!
E, quando a neve cahir E as seivas adormecerem, Iremos então pedir… (Acceitar o que nos derem!)
Andaremos á mercê Dos genios bons, e dos falsos, Leguas e leguas a pé, Rotinhos, magros, descalços…
E onde houver urzes e tojos, Pedras que rasgam a pelle, Porei o corpo de rôjos —Passarás por cima delle!
Dorme, dorme, meu menino, Foi-se o sol. Nasceu a lua. Qual será o teu destino? Que sorte será a tua?…
Se um crime tens de fazer, Antes fique vago um throno, Antes um palacio a arder, —Do que uma enxada sem dono…
Se, porém, no teu destino, Ha tão cruentos signaes, Dorme, dorme, meu menino, —Não tornes a acordar mais!