← Table of contents
Iracema

JOSÉ DE ALENCAR

Reading edition

COM UMA NOTICIA BIOGRAPHICA DO AUCTOR

13ª SERIE—NUMERO 49

LISBOA

COMPANHIA NACIONAL EDITORA

Successora de DAVID CCRAZZI e JUSTINO GUEDES

40—Rua da Atalaya—52

FILIAES: Praça de D. Pedro, 137, 1º andar, PORTO

38, rua da Quitanda, Rio de Janeiro

1890

Á TERRA NATAL

UM FILHO AUSENTE

INDICE

NOTICIA BIOGRAPHICA MEU AMIGO IRACEMA CAPITULO I CAPITULO II CAPITULO III CAPITULO IV CAPITULO V CAPITULO VI CAPITULO VII CAPITULO VIII CAPITULO IX CAPITULO X CAPITULO XI CAPITULO XII CAPITULO XIII CAPITULO XIV CAPITULO XV CAPITULO XVI CAPITULO XVII CAPITULO XVIII CAPITULO XIX CAPITULO XX CAPITULO XXI CAPITULO XXII CAPITULO XXIII CAPITULO XXIV CAPITULO XXV CAPITULO XXVI CAPITULO XXVII CAPITULO XXVIII CAPITULO XXIX CAPITULO XXX CAPITULO XXXI CAPITULO XXXII CAPITULO XXXIII NOTAS CARTA AO DR. JAGUARIBE

NOTICIA BIOGRAPHICA

José Martiniano do Alencar. Este grande escriptor brazileiro, mais conhecido pelo nome de José de Alencar, nasceu no Ceará no dia 1 de janeiro de 1829, sendo filho, ao que parece, do illustre politico do mesmo nome. Dizemos "ao que parece" porque nas biographias d'este grande escriptor, que temos presentes, não se accusa a sua filiação. Pode ser lapso, pode ser outro motivo qualquer que não precisamos de apurar. O que é certo é que José Martiniano d'Alencar mostrou desde creança um grande engenho. Tinha 17 annos quando em 1840 se matriculou na faculdade de direito de S. Paulo para tomar, como tomou, o grau de bacharel, tendo ido porém em 1848 concluir os seus estudos juridicos e formar-se na eschola de Olinda.

Em S. Paulo começou a manifestar-se o seu talento litterario, publicando varios artigos n'um periodico intitulado: Ensaios, e redigido pelos estudantes da Faculdade, que appareceu em S. Paulo nos annos de 1840 a 1848.

Em 1851 concluiu Alencar o seu curso, e veiu logo para o Rio de Janeiro, entregando-se então com mais desafogo aos trabalhos litterarios. Estreiou-se na capital do imperio escrevendo no Correio Mercantil um artigo de critica acerca das Poesias de Augusto Zaluar. N'esse mesmo anno, como que para mostrar que as suas preoccupações litterarias o não desviavam de estudos mais áridos, escreveu alguns artigos sobre a reforma hypothecaria, e em seguida começou a escrever, sempre no Correio Mercantil umas revistas semanaes, intituladas: Ao correr da penna assignadas com a sigla Al.

Em julho de 1855 sahiu da redacção do Correio Mercantil, e passou a collaborar no Jornal do Commercio, onde escreveu, entre outros artigos, um a respeito de Thalberg, outro a respeito do Othello e outro ácerca do padre Mont'Alverne. Em outubro de 1855 assumiu a direcção do Diario do Rio de Janeiro, que conservou até 1858.

Em 1856 publicou o seu primeiro folheto, que devia ser seguido por tamanho numero de volumes. Esse folheto intitulava-se: Cartas sobre a confederação dos Tamoyos, e era uma collecção de folhetins que haviam sido publicados no Diario do Rio de Janeiro, e em que se fazia a critica do celebre poema de Gonçalves Dias.

Em 1857, finalmente, sahia o Guarany o famoso romance brazileiro, que produziu um verdadeiro enthusiasmo, e que deu a José d'Alencar os fóros, emquanto a nós merecidissimos, de primeiro romancista brazileiro. Alguns criticos rabujentos notavam que aquelles Indios de José de Alencar eram plus beaux que nature, que eram uns Indios ideaes, muito diversos das creaturas porcas, rebaixadas e deprimidas que representam na actual civilisação brazileira o elemento indigena. Esses criticos porém esqueciam-se de uma cousa: de que os Indios actuaes não são os Indios que viviam livremente na floresta, na plenitude da sua força e da sua independencia, e tambem de que, se os guaranys de Alencar são pelo menos Indios de excepção, Indios de excepção eram tambem de certo aquelle suave Uncas, o ultimo dos mohicanos, e o pensativo Chingachgook, que viviam em tão santa harmonia com o Longa Carabina, aquelle Nathaniel Bempo, personagem querido de Fennimore Cooper.

Mas os protestos, se os houve, desappareceram no meio do coro unisono dos applausos. O Brazil tinha finalmente uma litteratura sua, bem sua, romances que se não modelavam pelas formas velhas e gastas dos romances europeus. A America do Sul tinha emfim o seu Cooper.

Pery, Izabel, Alvaro, Ayres Gomes foram personagens que ficaram, para sempre gravados no espirito do publico brazileiro, e, para mais se consagrar a gloria do Guarany, até o grande maestro brazileiro Carlos Gomes escolheu este formoso romance para d'elle se extrahir o libretto da sua opera o Guarany, que é a sua obra prima, a obra prima da musica brazileira, e uma das notaveis operas do nosso tempo, que já hoje tem fama universal, e é representada com applauso em todos os theatros do mundo.

O que, porém, sobretudo se apreciava no Guarany, e a esse respeito não havia diversidade de opiniões, era a belleza incomparavel do estylo, a magnificencia das descripções da natureza.

Ao mesmo tempo tentava José de Alencar o theatro, e, depois de fazer representar uma comedia de valor secundario Verso e reverso, dava ao theatro a sua obra prima, tambem uma das obras primas do theatro brazileiro, O Demonio familiar. É esta comedia um magnifico estudo dos costumes brazileiros, e foi decerto um profundo golpe vibrado á escravatura, porque o seu entrecho se cifra principalmente na demonstração da influencia nefasta do moleque na familia brazileira. O Demonio familiar é esse moleque, elemento permanente de discordia e de desmoralisação.

O Guarany e o Demonio familiar bastavam para assegurar a gloria de um escriptor; mas José de Alencar foi sempre consummido por uma sede insaciavel de escrever. Trabalhava com uma rapidez tal que isso prejudicava muitas vezes o acabado das suas obras, e impedia-o de lhes fazer attingir a perfeição, a que poderiam aliás ter chegado tanto quanto isso é possivel a obras humanas.

No theatro, pois, ao Demonio familiar e ao Verso e reverso seguiram-se o Credito, e os Jesuitas, drama que foi retirado de scena, porque o publico abandonou por tal forma o theatro em que elle se representava que diz um critico de Alencar, que talvez no Rio de Janeiro não fosse visto por um cento de pessoas. Esta ausencia do publico indignou muito José de Alencar que, publicando o drama, o precedeu de um prefacio em que diz que dava o drama á luz publica, só para que se visse que, se o theatro brazileiro não existia, não era por falta de bons auctores, nem de boas peças, mas sim pelo inqualificavel retrahimento do publico. Este accesso de vaidade não era permittido a um homem de tão verdadeiro merecimento como era José de Alencar. Effectivamente não tinha razão alguma: o drama os Jesuitas era detestavel, pueril, sem caracteres bem desenhados, sem acção logica, sem cousa alguma do que constitue verdadeiramente o merito de uma obra litteraria.

Não desanimou Alencar, e deu á scena as Azas de um Anjo, drama que se modelava um pouco pela Dama das Camelias, com a excepção de que no fim Margarida Gautier casa com Armand Duval. Um critico brazileiro muito divertido, que assigna com as iniciaes J. S. uma obra verdadeiramente inepta intitulada Manual de litteratura, diz a respeito das Azas de um Anjo o seguinte:

"É uma tocante oração em favor da perdida.

"No fim, sobretudo, no casamento d'esta com Luiz, nada ha de francez. É um traço de bondade e abnegação, proprio do caracter brazileiro, que o francez não approvaria."

Esperamos ainda assim que no Brazil não sejam extremamente vulgares esses actos de abnegação e de bondade, porque a geração que resultasse d'estes actos de bondade podia ser exquisitamente qualificada.

Mas o que é curioso é que, apesar d'esta peça ser a apotheose do caracter brazileiro, a auctoridade prohibiu que se representasse, e J.S. acha muito justa a prohibição. Já se vê que não quer que no theatro se ponham em relevo para ensinamento do publico a bondade e a abnegação tão proprias do caracter brazileiro.

José de Alencar acudiu em defeza da sua peça na imprensa, e outros escriptores o apoiaram. Effectivamente a pudibunda censura brazileira mostrou-se muito mais transigente com peças de um valor muito inferior ao das Azas de um Anjo.

A ultima peça de José de Alencar foi a Mai, representada em 1860.

N'esse mesmo anno era elle nomeado consultor do ministerio da justiça, e recebia a carta de conselho.

José de Alencar, ao passo que ia ganhando um brilhante nome litterario, não abandonava a politica nem descurava as cousas praticas da vida. Fôra, havia muito, nomeado professor de direito mercantil no Instituto Commercial do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo entrava como deputado na camara, pertencendo, porém, ao grupo conservador, em vez de se enfileirar, como o outro José Martiniano de Alencar, nas phalanges do partido liberal. Na sua carreira de empregado publico foi tambem, além de consultor do ministerio da justiça, director de secção.

A acção da politica no litterato sente-se na Guerra dos Mascates, romance em dois volumes, que elle publicou a bastante distancia de tempo um do outro, cujo enredo se trava em 1710 no tempo das desavenças dos moradores de Olinda com os do Recife, mas que tem apenas por intento fazer retratos contemporaneos com os nomes do seculo XVIII. Esta intenção era por tal forma transparente que no parlamento lh'o lançaram em rosto, porque effectivamente Alencar não se contentava com o desenho moral dos personagens, fazia o retrato physico tanto ao vivo que ninguem podia deixar de reconhecer o retratado. Assim o governador de Pernambuco D. Sebastião de Sousa Caldas é evidentemente o imperador D. Pedro II, o secretario Barbosa Lima é o visconde do Rio Branco, outro personagem é o marquez de S. Vicente, outro o barão de Inhomerim, etc., etc.

O retrato do imperador não está muito lisongeado, e não devia agradar ao personagem escolhido para modêlo, que se podia até considerar como injuriado positivamente. Comtudo, isso não obstou a que o imperador, em 1868, quando se formou o ministerio conservador, acceitasse a entrada de José Martiniano de Alencar para a pasta da justiça. Esteve porém pouco tempo no ministerio. Uma dissidencia no seio do partido conservador fêl-o sahir do governo, levando-o a ir sentar-se na camara ao lado dos dissidentes.

Continuando, porém, a apreciar o litterato, o romancista, citemos ainda dois dos seus melhores romances: o Gaúcho e Iracema. O caracter do gaúcho, que adora a sua egua Morena, que a entende, que lhe fala e que a escuta, está traçado com uma rara perfeição. Iracema é sobretudo um romancinho adoravelmente escripto. Nunca o estylo de Alencar attingiu tão delicada suavidade. Exhala-se de cada periodo como que o perfume das flores com que se elabora o mel das suas palavras. O sr. Pinheiro Chagas teve occasião de prestar a este livro a merecida homenagem. Fez porém algumas observações relativas á mania que teem alguns escriptores brazileiros, e um d'elles era Alencar, de pretenderem modificar as formas grammaticaes da lingua. Alencar entendeu dever responder na segunda edição do seu romance á critica do escriptor portuguez. Essa replica parecia-se um pouco com o prefacio dos Jesuitas. Manifestava uma grande vaidade realmente inadmissivel em escriptor de tão elevado merito, e mostrava um desprêso completo pelas regras mais elementares da philologia.

As Minas de prata passam por ser um dos seus menos bons romances; encerra comtudo algumas scenas primorosas. Queixam-se os paulistas de que as paizagens da sua provincia descriptas no Til, são perfeitamente phantasistas; Ubirajara, A pata da Gazella, O tronco do ipê, se não augmentaram a reputação do grande romancista não a prejudicaram tambem. O Sertanejo, muito criticado por alguns, parece-nos comtudo um dos seus bons romances. As paizagens que elle descreve são as paizagens da sua provincia natal, que elle conhece perfeitamente, e o typo do vaqueiro que ama em silencio a filha do seu patrão e que procura, com uma raiva intima, afastar todos aquelles que ella possa amar, está traçado com vigor.

Os seus romances de côrte, se assim nós podemos exprimir, são inferiores aos seus romances do sertão. Nem firmou alguns d'elles com o seu nome, Diva e Luciola, romances moldados pela comedia Azas de um Anjo tratam da rehabilitação de peccadoras; Cinco minutos, uma das suas primeiras obras e a Viuvinha são romances ligeirissimos, graciosamente desenhados; a Senhora encerra uma situação fortemente dramatica, mas mal desenvolvida. Trata-se de um homem de vis sentimentos, que despreza uma rapariga pobre que o adorava e despreza-a por ella ser pobre. Tempos depois, acceita o casamento com uma mulher deshonrada por outro homem, porque este lhe paga por uma avultada somma a venda do seu nome. Ora essa mulher é a tal que elle desprezara e que o seu desprêso arrojara pelo caminho da prostituição. O assumpto prestava-se, como vêem, ás mais dramaticas situações.

No genero de pamphletos, e obras politicas, etc., escreveu ainda José de Alencar, que sempre se mostrou hostil ao imperador, a imagem imperial, e as Cartas de Erasmo. Publicou em volume os seus discursos parlamentares de 1809, e os de 1871. É tambem sua, uma obra intitulada Estatistica da provincia do Ceará.

José de Alencar veiu á Europa em 1870. Voltando ao Brazil, foi inesperadamente colhido pela morte no anno de 1877, quando acabava de completar 48 annos, e quando se achava portanto na força da vida. A sua morte enluctou a litteratura brazileira e aquelles mesmos que tinham combatido Senio, pseudonymo querido de José de Alencar, foram os primeiros a render homenagem ao grande vulto, logo que elle desappareceu da scena publica.

(Do Diccionario Popular).

MEU AMIGO

Este livro vae naturalmente encontral-o no seu pittoresco sitio da varzea, no doce lar, que povoa a numerosa prole, alegria e esperança do casal.

Imagino que é a hora mais ardente da sesta.

O sol a pino dardeja raios de fogo sobre as areias nataes: as aves emmudecem; as plantas languem. A natureza soffre a influencia da poderosa irradiação tropical, que produz o diamante e o genio, as duas mais sublimes expressões do poder creador.

Os meninos brincam na sombra do outão, com pequenos ossos de rezes, que figuram a boiada. Era assim que eu brincava, ha quantos annos, em outro sitio, não muito distante do seu. A dona da casa terna e incansavel manda abrir o côco verde, ou prepara o saboroso creme do burity para refrigerar o esposo, que pouco ha recolheu de sua excursão pelo sitio, e agora repousa embalando-se na macia e commoda rêde.

Abra então este livrinho, que lhe chega da côrte imprevisto. Percorra suas paginas para desenfastiar o espirito das cousas graves que o trazem occupado.

Talvez me desvaneça amor do ninho, ou se illudam as reminiscencias da infancia avivadas recentemente. Senão, creio que ao abrir o pequeno volume, sentirá uma onda do mesmo aroma silvestre e bravio que lhe vem da varzea. Derrama-o a briza que perpassou os espathos da carnauba e a ramagem das aroeiras em flôr.

Essa onda é a inspiração da patria que volve a ella, agora e sempre, como volve de continuo o olhar do infante para o materno semblante que lhe sorri.

O livro é cearense. Foi imaginado ahi, na limpidez d'esse céo de cristallino azul, e depois vasado no coração cheio das recordações vivaces de uma imaginação virgem. Escrevi-o para ser lido lá, na varanda da casa rustica ou na fresca sombra do pomar, ao doce embalo da rêde, entre os murmures do vento que crepita na arêa ou farfalha nas palmas dos coqueiros.

Para lá, pois, que é o berço seu, o envio.

Mas assim mandado por um filho ausente, para muitos extranho, esquecido talvez dos poucos amigos, e só lembrado pela incessante desaffeição, qual sorte será a do livro?

Que lhe falte hospitalidade, não ha temer. As auras de nossos campos parecem tão impregnadas d'essa virtude primitiva, que quantas raças habitem ahi a inspiram com o halito vital. Receio sim que seja recebido como extrangeiro e hospede na terra dos meus.

Se, porém, ao abordar ás plagas do Mocoribe, fôr acolhido pelo bom cearense, presado de seus irmãos ainda mais na adversidade do que nos tempos prosperos, estou certo que o filho de minha alma achará na terra de seu pae, a intimidade e conchego da familia.

O nome de outros filhos ennobrece nossa provincia na politica e na sciencia; entre elles o meu, hoje apagado, quando o trazia brilhantemente aquelle que primeiro o creou. N'este momento mesmo a espada heroica de muito bravo cearense vae ceifando no campo da batalha ampla messe de gloria.

Quem não pode illustrar a terra natal canta as lendas suas, sem metro, na rude toada de seus antigos filhos.

Acolha pois a primeira mostra e offereça-a a nossos patricios a quem é dedicada.

Este pedido foi um dos motivos de lhe endereçar o livro: o outro lhe direi depois que o tenha lido.

Muita cousa me occorre dizer sobre o assumpto, que talvez devera anticipar á leitura da obra, para prevenir a surpreza de alguns e responder ás observações ou reparos de outros.

Mas sempre fui avêsso aos prologos; em meu conceito elles fazem á obra, o mesmo que o passaro á fructa antes de colhida; roubam as primicias do sabor litterario. Por isso me reservo para depois.

Na ultima pagina me encontrará de novo; então conversaremos a gosto, em mais liberdade do que teriamos n'este portico do livro, onde as etiquetas mandam receber o publico com a gravidade e reverencia devida a tão alto senhor.

Rio de Janeiro—Maio de 1865.

J. de Alencar.

IRACEMA

I

Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba:

Verdes mares que brilhaes como liquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros:

Serenae verdes mares, e alisae docemente a vaga impetuosa para que o barco aventureiro manso resvalle á flôr das aguas.

Onde vae a affouta jangada, que deixa rapida a costa cearense, aberta ao fresco terral a grande vela?

Onde vae como branca alcyone buscando o rochedo patrio nas solidÕes do oceano?

Tres entes respiram sobre o fragil lenho que vae singrando veloce, mar em fora:

Um joven guerreiro cuja tez branca não cora o sangue americano: uma creança e um rafeiro que viram a luz no berço das florestas, e brincam irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem.

A lufada intermittente traz da praia um écho vibrante, que resôa entre o marulho das vagas:

—Iracema!...

O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhos prêsos na sombra fugitiva da terra: a espaços o olhar empanado por tenue lagrima cahe sobre o giráu, onde folgam as duas innocentes creaturas, companheiras de seu infortunio.

N'esse momento o labio arranca d'alma um agro sorriso.

Que deixára elle na terra do exilio?

Uma historia que me contaram nas lindas varzeas onde nasci, á calada da noite, quando a lua passeava no céo argenteando os campos, e a brisa rugitava nos palmares.

Refresca o vento.

O rullo das vagas precipita. O barco salta sobre as ondas; desapparece no horisonte. Abre-se a immensidade dos mares: e a borrasca enverga, como o condor, as foscas azas sobre o abysmo.

Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, por entre as vagas revoltas, e te poje n'alguma enseada amiga. Soprem para ti as brandas auras: e para ti jaspeie a bonança mares de leite.

Em quanto vogas assim á discripção do vento, airoso barco, volva ás brancas areias a saudade, que te acompanha, mas não se parte da terra onde revoa.

II

Além, muito além d'aquella serra, que ainda azula no horisonte, nasceu Iracema:

Iracema, a virgem dos labios de mel, que tinha os cabellos mais negros que a aza da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.

O favo da jaty não era doce como seu sorriso; nem a baunilha rescendia no bosque como seu halito perfumado.

Mais rapida que a corsa selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipú, onde campeava sua guerreira tribu, da grande nação tabajara. O pé gracil e nú, mal rosçando, alisava apenas a verde pellucia que vestia a terra com as primeiras aguas.

Um dia, ao pino do sol, ella repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da oitycica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acacia silvestre esparziam flores sobre seus humidos cabellos. Escondidos na folhagem os passaros ameigavam o canto.

Iracema sahiu do banho: o aljofar d'agua ainda a roreja, como á dôce mangaba que córou em manhã de chuva. Emquanto repousa empluma das pennas do gará as flechas de seu arco; e concerta com o sabiá da mata pousado no galho proximo, o canto agreste.

A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto d'ella. Ás vezes sobe aos ramos da arvore e de lá chama a virgem pelo seu nome; outras remexe o urú de palha matisada, onde traz a selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá, as agulhas da jussára com que tece a renda, e as tintas de que matisa o algodão.

Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se.

Deante d'ella e todo a contemplal-a, está um guerreiro extranho, se é guerreiro e não algum máu espirito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar, nos olhos o azul triste das aguas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.

Foi rapido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gottas de sangue borbulham na face do desconhecido.

De primeiro impeto, a mão lesta cahiu sobre a cruz da espada; mas logo sorrio. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é symbolo de ternura e amor. Soffreu mais d'alma, que da ferida.

O sentimento que elle pôz nos olhos e no rosto, não sei eu. Porem a virgem lançou de si o arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro, sentida da magoa que causara. A mão que rapida ferira, estancou mais rapida e compassiva o sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha homicida: deu a haste ao desconhecido, guardando comsigo a ponta farpada.

O guerreiro falou:

—Quebras commigo a flecha da paz?

—Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem de meus irmãos? D'onde vieste a estas matas, que nunca viram outro guerreiro como tu?

—Venho de bem longe, filha das florestas. Venho das terras que teus irmãos já possuiram, e hoje tem os meus.

—Bemvindo seja o extrangeiro aos campos dos Tabajaras, senhores das aldeias, e á cabana de Araken, pae de Iracema.

III

O extrangeiro seguiu a virgem através da floresta.

Quando o sol descambava sobre a crista dos montes, e a rôla desatava do fundo da mata os primeiros arrulhos, elles descobriram no valle a grande taba: e mais longe, pendurada no rochedo, á sombra dos altos joaseiros, a cabana do Pagé.

O ancião fumava á porta, sentado na esteira de carnaúba, meditando os sagrados ritos de Tupan. O tenue sôpro da brisa carmeava, como frocos de algodão, os compridos e raros cabellos brancos. De immovel que estava, sumia a vida nos olhos cavos e nas rugas profundas.

O Pagé lobrigou os dois vultos que avançavam; cuidou vêr a sombra de uma arvore solitaria que vinha alongando-se pelo valle fora.

Quando os viajantes entraram na densa penumbra do bosque, então seu olhar como o do tigre, feito ás trevas, conheceu Iracema, e viu que a seguia um joven guerreiro, de extranha raça e longes terras.

As tribus tabajaras, d'além Ibyapaba, falavam de uma nova raça de guerreiros, alvos como flôres de borrasca, e vindos de remota plaga ás margens do Mearim. O ancião pensou que fôsse um guerreiro semelhante, aquelle que pisava os campos nativos.

Tranquillo, esperou.

A virgem aponta para o extrangeiro e diz:

—Elle veiu, pae.

—Veiu bem. É Tupan que traz o hospede á cabana de Araken.

Assim dizendo, o Pagé passou o cachimbo ao extrangeiro: e entraram ambos na cabana.

O mancebo sentou na rede principal, suspensa no centro da habitação.

Iracema accendeu o fogo da hospitalidade; e trouxe o que havia de provisões para satisfazer a fome e a sede: trouxe os restos da caça, a farinha d'agua, os fructos silvestres, os favos de mel e o vinho de cajú e ananaz.

Depois a virgem entrou com a igaçaba, que enchêra na fonte proxima de agua fresca para lavar o rosto e as mãos do extrangeiro.

Quando o guerreiro terminou a refeição, o velho Pagé apagou o cachimbo e falou:

—Vieste?

—Vim: respondeu o desconhecido.

—Bem vieste. O extrangeiro é senhor na cabana de Araken. Os Tabajaras tem mil guerreiros para defendel-o, e mulheres sem conto para servil-o. Dize, e todos te obedecerão.

—Pagé eu te agradeço o agasalho que me déste. Logo que o sol nascer deixarei tua cabana e teus campos onde vim perdido; mas não devo deixal-os sem dizer-te quem é o guerreiro, que fizeste amigo.

—Foi a Tupan que o Pagé serviu: elle te trouxe, elle te levará. Arake n nada fez pelo hospede; não pergunta d'onde vem, e quando vae. Se queres dormir, desçam sobre ti os sonhos alegres: se queres falar, teu hospede escuta.

O extrangeiro disse:

—Sou dos guerreiros brancos, que levantaram a taba nas margens do Jaguaribe, perto do mar, onde habitam os Pytiguaras, inimigos de tua nação. Meu nome é Martim, que na tua lingua diz como filho de guerreiro; meu sangue o do grande povo que primeiro viu as terras de tua patria. Já meus destroçados companheiros voltaram por mar ás margens do Parahyba, de onde vieram: e o chefe, desamparado dos seus, atravessa agora os vastos sertões do Apody. Só eu de tantos fiquei, porque estava entre os Pytiguaras de Acaraú, na cabana do bravo Poty, irmão de Jacaúna, que plantou commigo a arvore da amizade. Ha tres sóes partimos para a caça; e perdido dos meus vim aos campos dos Tabajaras.

—Foi algum máu espirito da floresta que cegou o guerreiro branco no escuro da mata: respondeu o ancião.

A cauâm piou, além. na extrema do valle. Cahia a noite.

IV

O Pagé vibrou a maracá, e sahiu da cabana: porém, o extrangeiro não ficou só.

Iracema voltára com as mulheres chamadas para servir o hospede de Araken, e os guerreiros vindos para obedecer-lhe.

—Guerreiro branco, disse a virgem, o prazer emballe a tua rêde durante a noite; e o sol traga luz aos teus olhos, alegria á tua alma.

E assim dizendo Iracema tinha o labio tremulo, e humida a palpebra.

—Tu me deixas? perguntou Martim.

—As mais bellas mulheres da grande taba comtigo ficam.

—Para ellas a filha de Araken não devia ter conduzido o hospede á cabana do Pagé.

—Extrangeiro, Iracema não pode ser tua serva. É ella que guarda o segredo da jurema e o mysterio do sonho. Sua mão fabrica para o Pagé a bebida de Tupan.

O guerreiro christão atravessou a cabana e sumiu-se na treva.

A grande taba erguia-se no fundo do valle, illuminada pelos faxos da alegria. Rugia o maracá; ao quebro lento do canto selvagem, batia a dança em torno a rude cadencia. O Pagé inspirado conduzia o sagrado tripudio e dizia ao povo crente os segredos de Tupan.

O maior chefe cia nação tabajara, Irapuam, descêra do mais alto da serra Ibyapaba, para levar as tribus do sertão contra o inimigo Pytiguara. Os guerreiros do valle festejam a vinda do chefe e o proximo combate.

O mancebo christão viu longe o clarão da festa, e passou além, e olhou o céo azul sem nuvens. A estrella morta que então brilhava sobre a cupula da floresta, guiou seu passo firme para as frescas margens do Acaraú.

Quando elle transmontou o valle e ia penetrar na matta, o vulto de Iracema surgiu. A virgem seguira o extrangeiro como a brisa subtil que resvalla sem murmurejar por entre a ramagem.

—Porque, disse ella, o extrangeiro abandona a cabana hospedeira sem levar o presente da volta? Quem fez mal ao guerreiro branco na terra dos Tabajaras?

O christão sentiu quanto era justa a queixa, e achou-se ingrato.

—Ninguem fez mal ao teu hospede, filha de Araken. Era o desejo de vêr seus amigos que o afastava dos campos dos Tabajaras. Não levava o presente da volta; mas leva em sua alma a lembrança de Iracema.

—Se a lembrança de Iracema estivesse na alma do extrangeiro, ella não o deixaria partir. O vento não leva a areia da varzea, quando a areia bebe a agua da chuva.

—A virgem suspirou:

—Guerreiro branco, espera que Cauby volte da caça. O irmão de Iracema tem o ouvido subtil que pressente a boicininga entre os rumores da matta; e o olhar do oitibó que vê melhor na treva. Elle te guiará ás margens do rio das garças.

—Quanto tempo se passará antes que o irmão de Iracema esteja de volta na cabana de Araken?

—O sol, que vae nascer, tornará com o guerreiro Cauby aos campos do Ipú.

—Teu hospede espera, filha de Araken: mas se o sol tornando, não trouxer o irmão de Iracema, elle levará o guerreiro branco á taba dos Pytiguaras.

Martim voltou á cabana do Pagé.

A alva rêde que Iracema perfumara com a resina do beijoim guardava-lhe um somno calmo e doce. O christão adormeceu ouvindo suspirar, entre os murmurios da floresta, o canto mavioso da virgem indiana.

V

O gallo da campina ergue a poupa escarlate fora do ninho. Seu limpido trinado annuncia a aproximação do dia.

Ainda a sombra cobre a terra. Já o povo selvagem colhe as redes na grande taba e caminha para o banho. O velho Pagé que velou toda a noite, falando ás estrellas, conjurando os máus espiritos da treva, entra furtivamente na cabana.

Eis retroa o boré pela amplidão do valle.

Travam das armas os rapidos guerreiros, e correm ao campo. Quando fôram todos na vasta ocára circular, Irapuam, o chefe, soltou o grito de guerra.

—Tupan deu á grande nação tabajara toda esta terra. Nós guardamos as serras, que manam os corregos, com os frescos ipús onde cresce a maniva e o algodão; e abandonamos ao barbaro Potyuara, comedor de camarão, as areias núas do mar, com os sêccos taboleiros sem agua e sem florestas. Agora os pescadores da praia, sempre vencidos, deixam vir pelo mar a raça branca dos guerreiros de fogo, inimigos de Tupan. Já os emboabas estiveram no Jaguaribe; logo estarão em nossos campos; e com elles os Potyuaras. Faremos nós, senhores das aldeias, como a pomba, que se encolhe em seu ninho, quando a serpente enrosca pelos galhos?

O irado chefe brande o tacape e o arremessa no meio do campo. Derrubando a fronte, cobre o rubido olhar:

—Irapuam falou; disse.

O mais moço dos guerreiros avança:

—O gavião paira nos ares. Quando a nambú levanta, elle cae das nuvens e rasga as entranhas da victima. O guerreiro tabajara, filho da serra, é como o gavião.

Troa e retroa a pocema da guerra.

O joven guerreiro erguera o tacape; e por sua vez o brandio. Girando no ar, rapida e ameaçadora, a arma do chefe passou de mão em mão.

O velho Andira, irmão do Pagé, a deixou tombar, e calcou no chão, com o pé agil ainda e firme.

Pasma o povo tabajara da acção desusada. Voto de paz em tão provado e impetuoso guerreiro! É o velho heroe, que cresceu na sanha, crescendo nos annos, é o feroz Andira quem derrubou o tacape, nuncio da proxima lucta?

Incertos todos e mudos escutam:

—Andira, o velho Andira, bebeu mais sangue na guerra do que já beberam cauim nas festas de Tupan, todos quantos guerreiros allumia agora a luz de seus olhos. Elle viu mais combates em sua vida do que luas lhe despiram a fronte. Quanto craneo de Potyuara escalpellou sua mão implacavel, antes que o tempo lhe arrancasse o primeiro cabello? E o velho Andira nunca temeu que o inimigo pisasse a terra de seus paes: mas alegrava-se quando elle vinha, e sentia com o faro da guerra a juventude renascer no corpo decrepito, como a arvore sêcca renasce com o sopro do inverno. A nação tabajara é prudente. Ella deve encostar o tacape da lucta para tanger o memby da festa. Celebra, Irapuam, a vinda dos emboabas e deixa que cheguem todos aos nossos campos. Então Andira te promette o banquete da victoria.

Desabriu emfim Irapuam a funda colera:

—Fica tu, escondido entre as igaçabas de vinho, tica, velho morcego, porque temes a luz do dia, e só bebes o sangue da victima que dorme. Irapuam leva a guerra no punho de seu tacape. O terror que elle inspira voa com o rouco som do boré. O Potyuara já tremeu ouvindo rugir na serra, mais forte que o ribombo do mar.

VI

Martim vae a passo e passo por entre os altos joaseiros que cercam a cabana do Pagé.

Era o tempo em que o doce aracaty chega do mar, e derrama a deliciosa frescura pelo arido sertão. A planta respira; um dôce arrepio irriça a verde coma da floresta.

O christão contempla o occaso do sol. A sombra, que desce dos montes e cobre o valle, penetra sua alma. Lembra-se do lugar onde nasceu, dos entes queridos que alli deixou. Sabe elle se tornará a vel-os algum dia?

Em tôrno carpe a natureza o dia que expira. Soluça a onda trepida e lacrimosa; geme a brisa na folhagem; o mesmo silencio anhela de afflicto.

Iracema parou em face do joven guerreiro:

—É a presença de Iracema que perturba a serenidade no rosto do extrangeiro?

Martim pousou brandos olhos na face da virgem:

—Não, filha de Araken: tua presença alegra, como a luz da manhã. Foi a lembrança da patria que trouxe a saudade ao coração presago.

—Uma noiva te espera?

O forasteiro desviou os olhos. Iracema dobrou a cabeça sobre a espadua, como a tenra palma da carnaúba, quando a chuva peneira na varsea.

—Ella não é mais doce do que Iracema, a virgem dos labios de mel; nem mais formosa! murmurou o extrangeiro.

—A flor da mata é formosa quando tem rama que a abrigue, e tronco onde se enlace. Iracema não vive n'alma de um guerreiro: nunca sentiu a frescura de seu sorriso.

Emmudeceram ambos, com os olhos no chão, escutando a palpitação dos seios que batiam oppressos.

A virgem falou emfim:

—A alegria voltará logo á alma do guerreiro branco; porque Iracema quer que elle veja antes da noite a noiva que o espera.

Martim sorriu do ingenuo desejo da filha do Pagé.

—Vem! disse a virgem.

Atravessaram o bosque e desceram ao valle. Onde morria a falda da collina o arvoredo era basto: densa abobada de folhagem verde-negra cobria o adyto agreste, reservado aos mysterios do rito barbaro.

Era de jurema o bosque sagrado. Em torno corriam os troncos rugosos da arvore de Tupan; dos galhos pendiam occultos pela rama escura os vasos do sacrificio: lastravam o chão as cinzas de extincto fogo, que servira á festa da ultima lua.

Antes de penetrar o recondito sitio, a virgem que conduzia o guerreiro pela mão, hesitou, inclinando o ouvido subtil aos suspiros da brisa. Todos os ligeiros rumores da mata tinham uma voz para a selvagem filha do sertão. Nada havia porém de suspeito no intenso respiro da floresta.

Iracema fez ao extrangeiro um gesto de espera e silencio, e desappareceu no mais sombrio do bosque. O sol ainda pairava suspenso no viso da serrania: e já noite profunda enchia aquella solidão.

Quando a virgem tornou, trazia n'uma folha gottas de verde extranho licor vasadas da igaçaba, que acabava de tirar do seio da terra. Apresentou ao guerreiro a taça agreste.

—Bebe!

Martim sentiu perpassar nos olhos o somno da morte: porém logo a luz inundou os seios d'alma: a fôrça exhuberou no coração. Reviveu os dias passados melhor do que os tinha vivido: fruiu a realidade de suas mais bellas esperanças.

Eil-o que volta á terra natal, abraça sua velha mãe, revê mais lindo e terno o anjo puro dos amores infantis.

Mas porque, mal de volta ao berço da patria, o joven guerreiro de novo abandona o tecto paterno e demanda o sertão?

Já atravessa as florestas; já chega aos campos do Ipú. Busca na selva a filha do Pagé. Segue o rastro ligeiro da virgem arisca, soltando á brisa com o crebro suspiro o doce nome:

—Iracema! Iracema!...

Já a alcança e cinge-lhe o braço pelo talhe esbelto.

Cedendo á meiga pressão, a virgem reclinou ao peito do guerreiro, e ficou alli tremula e palpitante como a timida perdiz, quando o terno companheiro lhe arrufa com o bico a macia penugem.

O labio do guerreiro suspirou mais uma vez o doce nome e soluçou, como se chamara outro labio amante. Iracema sentiu que sua alma se escapava para embeber-se no osculo ardente.

E a fronte reclinava, e a flôr do sorriso desabrochava já para deixar-se colher.

Subito a virgem tremeu; soltando-se rapida do braço que a cingia, travou do arco.

VII

Iracema passou entre as arvores, silenciosa como uma sombra: seu olhar scintillante coava entre as folhas, quaes frouxos raios de estrellas: ella escutava o silencio profundo da noite e aspirava as auras subtis que afflavam.

Parou. Uma sombra resvallava entre as ramas; e nas folhas crepitava um passo ligeiro, se não era o roer de algum insecto. A pouco e pouco o tenue rumor foi crescendo e a sombra avultou.

Era um guerreiro. De um salto a virgem estava em face d'elle, tremula de susto e mais de colera.

—Iracema! exclamou o guerreiro recuando.

—Anhanga turvou sem duvida o somno de Irapuam, que o trouxe perdido ao bosque da jurema, onde nenhum guerreiro penetra sem a vontade de Araken.

—Não foi Anhanga, mas a lembrança de Iracema, que turvou o somno do primeiro guerreiro tabajara. Irapuam desceu de seu ninho de aguia para seguir na varzea a garça do rio. As vozes da taba contaram ao ouvido do chefe que um extrangeiro era vindo á cabana de Araken.

A virgem estremeceu. O guerreiro cravou n'ella o olhar abrazado:

—O coração aqui no peito de Irapuam, ficou tigre. Pulou de raiva. Veio farejando a presa. O extrangeiro está no bosque, e Iracema o acompanhava. Quero beber-lhe o sangue todo: quando o sangue do guerreiro branco correr nas veias do chefe tabajara, talvez o ame a filha de Araken.

A pupilla negra da virgem scintillou na treva, e de seu labio borbulhou como gottas do leite caustico da euphorbia, um sorriso de despreso:

—Nunca Iracema daria seu seio, que o espirito de Tupan habita só, ao guerreiro mais vil dos guerreiros tabajaras! Torpe é o morcego porque foge da luz e bebe o sangue da victima adormecida!...

—Filha de Araken! Não assanha o jaguar! O nome de Irapuam voa mais longe que o goaná do lago, quando sente a chuva além das serras. Que o guerreiro branco venha, e o seio de Iracema se abra para o vencedor.

—O guerreiro branco é hospede de Araken. A paz o trouxe aos campos do Ipú, a paz o guarda. Quem offender o extrangeiro, offende o Pagé.

Rugiu de sanha o chefe tabajara:

—A raiva de Irapuam só ouve agora o grito da vingança. O extrangeiro vae morrer.

—A filha de Araken é mais forte que o chefe dos guerreiros, disse Iracema travando da inubia. Ella tem aqui a voz de Tupan, que chama o seu povo.

—Mas ella não chamará! respondeu o chefe escarnecendo.

—Não, porque Irapuam vae ser punido pela mão de Iracema. Seu primeiro passo, é o passo da morte.

A virgem retrahiu d'um salto o avanço que tomara, e vibrou o arco. O chefe cerrou ainda o punho do formidavel tacape; mas pela vez primeira sentio que pesava ao braço robusto. O golpe que devia ferir Iracema, ainda não alçado, já lhe trespassava, a elle proprio, o coração.

Conheceu quanto o varão forte, é pela sua mesma fortaleza, mais vencido das grandes paixões.

—A sombra de Iracema não esconderá sempre o extrangeiro á vingança de Irapuam. Vil é o guerreiro, que se deixa proteger por uma mulher.

Dizendo estas palavras, o chefe desappareceu entre as arvores. A virgem sempre alerta volveu para o christão adormecido; e velou o resto da noite a seu lado. As emoções recentes, que agitaram sua alma, a abriram inda mais á doce affeição, que iam filtrando n'ella os olhos do extrangeiro.

Desejava abrigal-o contra todo o perigo, recolhel-o em si como em um asylo impenetravel. Acompanhado o pensamento, seus braços cingiam a cabeça do guerreiro, e a apertavam ao seio.

Mas quando passou a alegria de vêr o extrangeiro salvo dos perigos da noite, entrou-a mais viva a inquietação, com a lembrança dos novos perigos que iam surgir.

—O amor de Iracema é como o vento dos areaes; mata a flôr das arvores: suspirou a virgem.

E afastou-se lentamente.

VIII

A alvorada abriu o dia e os olhos do guerreiro branco. A luz da manhã dissipou os sonhos da noite: e arrancou de sua alma a lembrança do que sonhara. Ficou apenas um vago sentir, como fica na moita o perfume do cacto que o vento da serra desfolha na madrugada.

Não sabia onde estava.

Á sahida do bosque sagrado encontrou Iracema: a virgem reclinava n'um tronco aspero do arvoredo: tinha os olhos no chão: o sangue fugira das faces; o coração lhe tremia nos labios, como gôtta de orvalho nas folhas do bambú.

Não tinha sorrisos, nem cores, a virgem indiana; não tem borbulhas, nem rosas, a acacia que o sol crestou; não tem azul, nem estrellas, a noite que enluctam os ventos.

—As flôres da matta já abriram aos raios do sol; as aves já cantaram: disse o guerreiro. Porque só Iracema curva a fronte e emmudece?

A filha do Pagé estremeceu. Assim estremece a verde palma, quando a haste fragil foi abalada; rorejam do espato as lagrimas da chuva; e os leques ciciam brandamente:

—O guerreiro Cauby vae chegar á taba de seus irmãos. O extrangeiro poderá partir com o sol que vem nascendo.

—Iracema quer vêr o extrangeiro fora dos campos dos Tabajaras; então a alegria voltará ao seu seio.

—A juruty, quando a arvore secca, abandona o ninho em que nasceu. Nunca mais a alegria voltará ao seio de Iracema: ella vae ficar, como o tronco nú, sem ramas, nem sombras.

Martim amparou o corpo tremulo da virgem; ella reclinou languida sobre o peito do guerreiro, como o tenro pampano da baunilha que enlaça o rijo galho do anjico.

O mancebo murmurou:

—Teu hospede fica, virgem dos olhos negros: elle fica para ver abrir em tuas faces a flôr da alegria e para colher, como a abelha, o mel de teus mimosos labios.

Iracema soltou-se dos braços do mancebo, e olhou-o com tristeza:

—Guerreiro branco, Iracema é filha do Pagé, e guarda o segredo da jurema. O guerreiro que possuisse a virgem de Tupan morreria.

—E Iracema?

—Pois que tu morrias!

Esta palavra foi sopro de tormenta. A cabeça do mancebo vergou e pendeu sobre o peito: mas logo se ergueu.

—Os guerreiros de meu sangue trazem a morte comsigo, filha dos Tabajaras. Não a temem para si, não a poupam para o inimigo. Mas nunca fóra do combate elles deixaram aberto o camocim da virgem na taba de seu hospede. A verdade falou pela bôcca de Iracema. O extrangeiro deve abandonar os campos dos Tabajaras.

—Deve: respondeu a virgem como um ecco.

Depois a sua voz suspirou:

—O mel dos labios de Iracema é como o favo que a abelha fabrica no tronco da guabiroba: tem na doçura o veneno. A virgem dos olhos azues e dos cabellos do sol guarda para seu guerreiro na taba dos brancos o mel da assucena.

Martim afastou-se rapido, e voltou, mas lentamente, A palavra tremia em seu labio:

—O extrangeiro partirá para que o socego volte ao seio da virgem.

—Tu levas a luz dos olhos de Iracema, e a flôr de sua alma.

Reboa longe na selva um clamor extranho. Os olhos do mancebo alongam-se.

—É o grito de alegria do guerreiro Cauby: disse a virgem. O irmão de Iracema annuncia a sua boa chegada aos campos dos Tabajaras.

—Filha de Araken, guia teu hospede á cabana. É tempo de partir.

Elles caminharam par a par como dois jovens cervos ao pôr do sol atravessam a capoeira recolhendo ao aprisco d'onde lhes traz a brisa um faro suspeito.

Quando passavam entre os joazeiros, viram que atravessava além o guerreiro Cauby, vergando os hombros robustos ao peso da caça. Iracema caminhou para elle.

O extrangeiro entrou só na cabana.

IX

O somno da manhã pousava nos olhos do Pagé como nevoas de bonança pairam ao romper do dia sobre as profundas cavernas da montanha.

Martim parou indeciso; mas o rumor de seu passo penetrou o ouvido do ancião, e abalou o corpo decrepito.

—Araken dorme! murmurou o guerreiro devolvendo o passo.

O velho ficou immovel:

—O Pagé dorme porque já Tupan voltou o rosto para a terra e a luz correu os máus espiritos da treva. Mas o somno é leve nos olhos de Araken, como o fumo do sapé no cocuruto da serra. Se o extrangeiro veiu para o Pagé, fale; seu ouvido escuta.

—O extrangeiro veiu, para te annunciar que parte.

—O hospede é senhor na cabana de Araken; todos os caminhos estão abertos para elle. Tupan o leve á taba dos seus.

Vieram Cauby e Iracema:

—Cauby voltou; disse o guerreiro tabajara. Traz a Araken o melhor da sua caça.

—O guerreiro Cauby é um grande caçador de montes e florestas. Os olhos de seu pae gostam de vêl-o.

O velho abriu as palpebras e cerrou-as logo:

—Filha de Araken, escolhe para teu hospede o presente da volta, e prepara o moquem da viagem. Se o extrangeiro precisa de guia, o guerreiro Cauby, senhor do caminho, o acompanhará.

O somno voltou aos olhos do Pagé.

Emquanto Cauby pendurava no fumeiro as peças de caça, Iracema colheu a sua alva rede de algodão com franjas de pennas, e accommodou-a dentro do urú de palha trançada.

Martim esperava na porta da cabana. A virgem veiu para elle:

—Guerreiro, que levas o somno de meus olhos, leva á minha rede tambem. Quando n'ella dormires, falem em tua alma os sonhos de Iracema.

—A tua rede, virgem dos Tabajaras, será minha companheira no deserto: venha embora o vento frio da noite, ella guardará para o extrangeiro o calor e o perfume do seio de Iracema.

Cauby sahiu para ir á sua cabana, que ainda não tinha visto depois da volta. Iracema foi preparar o moquem da viagem. Ficaram sós na cabana o Pagé que resonava, e o mancebo com a sua tristeza.

O sol transmontando, já começava a declinar para o occidente, quando o irmão de Iracema tornou da grande taba.

—O dia vae ficar triste, disse Cauby. A sombra já caminha para a noite. É tempo de partir.

A virgem pousou a mão de leve no punho da rêde de Araken.

—Elle vae! murmuraram os labios tremulos.

O Pagé levantou-se em pé no meio da cabana e accendeu o cachimbo. Elle e o mancebo trocaram a fumaça da despedida:

—Bem ido seja o hospede, como foi bem vindo á cabana de Araken.

O velho andou até á porta, para soltar ao vento uma espessa baforada de tabaco: quando o fumo a dissipou no ar, elle murmurou:

—Jurupary se esconda para deixar passar o hospede do Pagé.

Araken voltou á rêde e dormiu de novo. O mancebo tomou as suas armas mais pesadas que chegando suspendera ás varas da cabana e se dispôz a partir.

Adiante seguiu Cauby: a alguma distancia o extrangeiro: logo apóz d'elle Iracema.

Desceram a colina e entraram na matta sombria. O sabiá do sertão, mavioso cantor da tarde, escondido nas moitas espessas da ubaia, soltava já os preludios da suave endeixa.

A virgem suspirou:

—A tarde é a tristeza do sol. Os dias de Iracema vão ser longas tardes sem manhã, até que venha para ella a grande noite.

O mancebo voltara-se. Seu labio emmudeceu, mas os olhos falaram. Uma lagrima correu pela face guerreira, como as humidades que durante os ardores do estio transudam da escarpa dos rochedos.

Cauby avançando sempre, sumira-se entre a densa ramagem.

O seio da filha de Araken arfou, como o ésto da vaga que se franja de espuma, e soluçou. Mas sua alma, negra de tristura, teve ainda um pállido reflexo para illuminar a sêcca flôr das faces. Assim em noite escura vem um fogo fatuo luzir as brancas areias do taboleiro.

—Extrangeiro, toma o ultimo sorriso de Iracema... e foge!

A bôcca do guerreiro pousou na bôcca mimosa da virgem. Ficaram ambas assim unidas como dois fructos gemeos do araçá, que sahiram do seio da mesma flôr.

A voz de Cauby chamou o extrangeiro. Iracema abraçou para não cahir o tronco de uma palmeira.

X

Na cabana silenciosa medita o velho Pagé.

Iracema está apoiada no tronco rudo, que serve de esteio. Os grandes olhos negros, fitos nos recortes da floresta e rasos de pranto, parece estão n'aquelles olhares longos e tremulos enfiando e desfiando os aljofares das lagrimas, que rorejam as faces.

A ará, pousada no girau fronteiro, alonga para sua formosa senhora os verdes tristes olhos. Desde que o guerreiro branco pisou a terra dos Tabajaras, Iracema a esqueceu.

Os roseos labios da virgem não se abriram mais para que ella colhesse entre elles a polpa da fructa ou a papa do milho verde; nem a dôce mão a affagára uma só vez, alisando a penugem dourada da cabeça.

Se repetia o mavioso nome da senhora, o sorriso de Iracema já não se voltava para ella, nem o ouvido parecia escutar a voz da companheira e amiga, que d'antes tão suave era ao seu coração.

Triste d'ella! A gente tupy a chamava jandaia, porque sempre alegre estrugia os campos com seu canto fremente. Mas agora, triste e muda, desdenhada de sua senhora, não parecia mais a linda jandaia, e sim o feio urutão que sómente sabe gemer.

O sol remontou a umbria das serras; seus raios douravam apenas o viso das eminencias.

A surdina merencoria da tarde, que precede o silencio da noite, começava de velar os crebros rumores do campo. Uma ave nocturna, talvez illudida com a sombra mais espessa do bosque, desatou o estridulo.

O velho ergueu a fronte calva:

—Foi o canto da inhuma que accordou o ouvido de Araken? disse elle admirado.

A virgem estremecêra; já fóra da cabana voltou-se para responder á pergunta do Pagé:

—É o grito de guerra do guerreiro Cauby!

Quando o segundo pio da inhuma resoou, Iracema corria na matta, como a corça perseguida pelo caçador. Só respirou chegando á campina, que recortava o bosque, como um grande lago.

Quem seus olhos primeiro viram, Martim, estava tranquillamente sentado em uma sapopema, olhando o que passava alli. Contra, cem guerreiros tabajaras com Irapuam á frente, formavam arco. O bravo Cauby os affrontava a todos, com o olhar cheio de ira e as armas valentes empunhadas na mão robusta:

O chefe exigira a entrega do extrangeiro, e o guia respondera simplesmente:

—Matae Cauby, antes.

A filha do Pagé passara como uma flecha: eil-a deante de Martim oppondo tambem seu corpo gentil aos golpes dos guerreiros. Irapuam soltou o bramido da onça atacada na furna.

—Filha do Pagé, disse Cauby em voz baixa. Conduz o extrangeiro á cabana: só Araken pode salval-o.

Iracema voltou-se para o guerreiro branco:

—Vem!

Elle ficou immovel.

—Se tu não vens, disse a virgem, Iracema morrerá comtigo.

Martim ergueu-se; mas longe de seguir á virgem, caminhou direito a Irapuam. A sua espada flammejou no ar.

—Os guerreiros do meu sangue, chefe, jamais recusaram combate. Se aquelle que tu vês não foi o primeiro a provocal-o, é porque seus paes lhe ensinaram a não derramar sangue na terra hospedeira.

O chefe tabajara rugiu de alegria; sua mão possante brandio o tacape. Mas os dois campeões mal tiveram tempo de medir-se com os olhos; quando fendiam o primeiro golpe, já Cauby e Iracema estavam entre elles.

A filha de Araken debalde rogava ao christão, debalde o cingia em seus braços buscando arrancal-o ao combate. De seu lado Cauby em vão provocava Irapuam para attrahir a si a raiva do chefe.

A um gesto de Irapuam, os guerreiros afastaram os dois irmãos; o combate proseguiu.

De repente o rouco som da inubia reboou pela matta; os filhos da serra estremeceram reconhecendo o estridulo do buzio guerreiro dos Pytiguaras, senhores das praias, encombradas de coqueiros. O ecco vinha da grande taba, que o inimigo talvez assaltava já.

Os guerreiros precipitaram-se, levando por deante o chefe. Com o extrangeiro só ficou a filha de Araken.

XI

Os guerreiros tabajaras, acorridos á taba, esperavam o inimigo deante da caiçara.

Não vindo elles sahiram a buscal-o.

Bateram as matas em tôrno e percorreram os campos; nem vestigios encontraram da passagem dos Pytiguaras; mas o conhecido fremito do buzio das praias tinha resoado ao ouvido dos guerreiros da montanha; não havia duvidar.

Suspeitou Irapuam que fosse um ardil da filha de Araken para salvar o extrangeiro; e caminhou direito á cabana do Pagé. Como trota o guará pela orla da mata, quando vae seguindo o rastro da presa escápula, assim estugava o passo o sanhudo guerreiro.

Araken viu entrar em sua cabana o grande chefe da nação tabajara, e não se moveu. Sentado na rede, com as pernas cruzadas, escutava Iracema. A virgem referia os successos da tarde: avistando a figura sinistra de Irapuam saltou sobre o arco, e uniu-se ao flanco do joven guerreiro branco.

Martim a affastou docemente de si, e promoveu o passo.

A protecção, de que o cercava a elle guerreiro a virgem tabajara, o desgostava.

—Araken, a vingança dos tabajaras espera o guerreiro branco; Irapuam veiu buscal-o.

—O hospede é amigo de Tupan; quem offender o extrangeiro ouvirá o rugir do trovão.

—O extrangeiro foi quem offendeu a Tupan, roubando a sua virgem, que guarda os sonhos da jurema.

—Tua bôcca mente como o ronco da jiboia: exclamou Iracema.

Martim disse:

—Irapuam é vil e indigno de ser chefe de guerreiros valentes!

O Pagé falou grave e lento:

—Se a virgem abandonou ao guerreiro branco a flôr de seu corpo, ella morrerá; mas o hospede de Tupan é sagrado; ninguem lhe tocará, todos o servirão.

Irapuam bramio; o grito rouco troou nas arcas do peito, como o fremito da sucury na profundeza do rio.

—A raiva de Irapuam não pode mais ouvir-te, velho Pagé! Caia ella sobre ti, se ousas subtrahir o extrangeiro á vingança dos Tabajaras.

O velho Andira, irmão do Pagé, entrou na cabana; trazia no punho o terrivel tacape e nos olhos uma raiva ainda mais terrivel.

—O morcego vem te chupar o sangue, se é que tens sangue e não mel nas veias, tu que ameaças em sua cabana o velho Pagé.

Araken affastou o irmão:

—Paz e silencio, Andira.

O Pagé desenvolvera a alta e magra estatura, como a caninana assanhada, que se enrista sobre a cauda, para affrontar a victima em face. As rugas affundaram; e repuxando as pelles engelhadas esbugalharam os dentes alvos e afilados:

—Ousa um passo mais, e as iras de Tupan te esmagarão sob o peso d'esta mão sêcca e mirrada!

—N'este momento, Tupan não é comtigo! replicou o chefe.

O Pagé rio; e o seu riso sinistro reboou pelo espaço como o regougo da ariranha.

—Ouve seu trovão, e treme em teu seio, guerreiro, como a terra em sua profundeza.

Araken proferindo essa palavra terrivel, avançou até o meio da cabana; alli ergueu a grande pedra e calcou o pé com fôrça no chão: subito, abriu-se a terra. Do antro profundo sahiu um medonho gemido, que parecia arrancado das entranhas do rochedo.

Irapuam não tremeu, nem enfiou de susto; mas sentiu turvar-se a luz nos olhos, e a voz nos labios.

—O senhor do trovão é por ti; o senhor da guerra será por Irapuam.

O torvo guerreiro deixou a cabana; em pouco seu grande vulto mergulhou-se nas sombras do crepusculo.

O Pagé e seu irmão travaram a pratica na porta da cabana.

Martim ainda surprêso do que vira, não tirava os olhos da funda cava, que a planta do velho Pagé abrira no chão da cabana. Um surdo sumor, como o echo das ondas quebrando nas praias, ruidava alli.

O guerreiro christão scismava; elle não podia crêr que o Deus dos Tabajaras desse ao seu sacerdote tamanho poder.

Araken percebendo o que passava n'alma do extrangeiro, accendeu o cachimbo e travou do maracá:

—É tempo de applacar as iras de Tupan, e calar a voz do trovão.

Disse e partiu da cabana.

Iracema achegou-se então do mancebo; levava os labios em riso, os olhos em jubilo:

—O coração de Iracema está como o abaty n'agua do rio. Ninguem fará mal ao guerreiro branco na cabana de Araken.

—Arreda-te do inimigo, virgem dos Tabajaras; respondeu o extrangeiro com asperesa de voz.

Voltando brusco para o lado oposto, furtou o semblante aos olhos ternos e queixosos da virgem.

—Que fez Iracema, para que o guerreiro branco desvie seus olhos d'ella, como se fôra o verme da terra?

As falas da virgem resoaram docemente no coração de Martim. Assim resoam os murmurios da aragem nas frondes da palmeira. O mancebo sentiu raiva de si, e pena d'ella:

Não ouves tu, virgem formosa? exclamou elle apontando para o antro fremente.

—É a voz do Tupan!

—Teu Deus falou pela bôcca do Pagé. Se a virgem de Tupan abandonar ao extrangeiro a flôr de seu corpo, ella morrerá!...

Iracema pendeu a fronte abatida:

—Não é voz de Tupan que ouve teu coração, guerreiro de longes terras, é o canto da virgem branca que te chama!

O rumor extranho que sahia das profundezas da terra, apagou-se de repente: fez-se na cabana tão grande silencio, que ouvia-se pulsar o sangue na arteria do guerreiro, e tremer o suspiro no labio da virgem.

XII

O dia ennegreceu; era noite já.

O Pagé tornára á cabana; sopesando de novo a grande lage, fechou com ella a bôcca do antro. Cauby chegára tambem da grande taba, onde com seus irmãos guerreiros se recolhera depois que bateram a floresta, em busca do inimigo Pytiguara.

No meio da cabana, entre as redes armadas em quadro, extendeu Iracema a esteira da carnauba, e sobre ella serviu os restos da caça, e a provisão de vinhos da ultima lua. Sé o guerreiro tabajara achou sabor na ceia, porque o fel do coração que a tristeza expreme não amargava seu labio.

O Pagé bebia no cachimbo o fumo sagrado de Tupan, que lhe enchia as arcas do peito: o extrangeiro respirava, ar ás golfadas para refrescar-lhe o sangue effervescente; a virgem distillava sua alma como o mel de um favo, nos crebros soluços que lhe estalavam entre os labios tremulos.

Já partiu Cauby para a grande taba; o Pagé traga as baforadas do fumo, que prepara o mysterio do sagrado rito.

Levanta-se no resomno da noite um grito vibrante, que remonta ao céo.

Martim ergue a fronte e inclina o ouvido. Outro clamor semelhante resoa. O guerreiro murmura, que o ouça a virgem e só ella:

—Escutou Iracema, cantar a gaivota?

—Iracema escutou o grito de uma ave que ella não conhece.

—É a atyaty, a garça do mar, e tu és a virgem da serra, que nunca desceu as alvas praias onde arrebentam as vagas.

—As praias são dos Pytiguaras, senhores das Palmeiras.

Os guerreiros da grande nação que habitava as bordas do mar, se chamavam a si mesmos Pytiguaras, senhores dos valles; mas os Tabajaras, seus inimigos, por escarneo os apellidavam Potyuaras, comedores de camarão.

Iracema não quiz offender o guerreiro branco; por isso falando a respeito dos Pytiguaras, não lhes recusou o nome guerreiro que elles haviam tomado para si.

O extrangeiro reteve por um instante a palavra no seu labio prudente, emquanto reflectia:

—O canto da gaivota é o grito do guerra do valente Poty, amigo de teu hospede!

A virgem estremeceu por seus irmãos. A fama do bravo Poty, irmão de Jacaúna, subio das ribeiras do mar ás alturas da serra; rara é a cabana onde já não rugiu contra elle o grito da vingança, porque em quasi todas o golpe de seu valido tacape deitou um guerreiro tabajara em seu camocim.

Iracema cuidou que Poty vinha á frente de seus guerreiros para livrar o amigo. Era elle sem duvida que fizera retroar o buzio das praias, no momento do combate. Foi com um tom misturado de doçura e tristeza que replicou:

—O extrangeiro está salvo; os irmãos de Iracema vão morrer, porque ella não falará.

—Saia essa tristeza de tua alma. O extrangeiro partindo-se de teus campos, virgem tabajara, não deixará n'elles rasto de sangue, como o tigre esfaimado.

Iracema tomou a mão do guerreiro branco e beijou-a.

—Teu sorriso, continúa elle, apagou a lembrança do mal que elles me querem.

Martim ergueu-se e marchou para a porta.

—Onde vae o guerreiro branco?

—Adeante de Poty.

—O hospede de Araken não pode sahir d'esta cabana, porque os guerreiros de Irapuam o matarão.

—Um guerreiro só deve protecção a Deus e a suas armas. Não carece que o defendam os velhos e as mulheres.

—Não vale um guerreiro só contra mil guerreiros; valente e forte é o tamanduá, que mordem os gatos selvagens por serem muitos e o acabam. Tuas armas só chegam até onde mede a sombra de teu corpo; as armas d'elles voam alto e direitos como o anajê.

—Todo o guerreiro tem seu dia.

—Não queres tu que morra Iracema, e queres que ella te deixe morrer!

Martim ficou perplexo:

—Iracema irá ao encontro do chefe Pytiguara e trará a seu hospede as falas do guerreiro amigo.

O Pagé sahiu emfim de sua contemplação. O maracá rugiu-lhe na dextra; tiniram os guisos com o passo hirto e lento.

Chamou elle a filha de parte:

—Se os guerreiros de Irapuam vierem contra a cabana, levanta a pedra e esconde o extrangeiro no seio da terra.

—O hospede não deve ficar só; espera que volte Iracema. Ainda não cantou a inhuma.

Tornou a sentar-se na rede o velho. A virgem partiu, cerrando a porta da cabana.

XIII

Avança a filha de Araken nas trevas; pára e escuta.

O grito da gaivota terceira vez resôa ao seu ouvido; ella vae direito ao logar d'onde partiu; chega á borda de um tanque; seu olhar investiga a escuridão, e nada vê do que busca.

A voz maviosa, debil como susurro de colibri, resôa no silencio.

—Guerreiro Poty, teu irmão branco te chama pela bôcca de Iracema.

Só o ecco lhe respondeu.

—A filha de teus inimigos vem a ti, porque o extrangeiro te ama, e ella ama o extrangeiro.

A lisa lace do lago fendeu-se; e um vulto se mostra, que nada para a margem, e surge fora.

—Foi Martim quem te mandou, pois tu sabes o nome de Poty, seu irmão na guerra.

—Fala, chefe Pytiguara; o guerreiro branco espera.

—Torna a elle e diz que Poty é chegado para o salvar.

—Elle sabe, mandou-me para te ouvir.

—As falas de Poty sahirão de sua bôcca para o ouvido de seu irmão branco.

—Espera então que Araken parta e a cabana fique deserta; eu te guiarei á presença do extrangeiro.

—Nunca, filha dos Tabajaras, um guerreiro Pytiguara passou a soleira da cabana inimiga, se não foi como vencedor. Conduz aqui o guerreiro do mar.

—A vingança de Irapuam fareja em roda da cabana de Araken. Trouxe o irmão do extrangeiro bastantes guerreiros Pytiguaras para o deffender e salvar?

Poty reflectiu:

—Conta, virgem das serras, o que aconteceu em teus campos depois que a elles chegou o guerreiro do mar.

Iracema referiu como a colera de Irapuam se havia assanhado contra o extrangeiro, até que a voz de Tupan, chamada pelo Pagé, tinha apasiguado seu furor.

—A raiva de Irapuam é como a andira; foge da luz e voa na treva.

A mão de Poty cerrou súbito os labios da virgem; sua fala parecia um sopro.

—Suspende a voz e o respiro, virgem das florestas; o ouvido inimigo escuta na sombra.

As folhas crepitavam de manso, como se por ellas passasse a fragueira nambú. O rumor partido da orla da matta, vinha discorrendo pelo valle.

O valente Poty, resvallando pela relva, como o ligeiro camarão. de que elle tomara o nome e a viveza, desappareceu no lago profundo. A agua não soltou um murmurio, e cerrou sobre elle sua limpida onda.

Iracema voltou á cabana; em meio do caminho seus olhos perceberam as sombras de muitos guerreiros que rojavam pelo chão, como a intanha.

Araken vendo-a entrar, partiu.

A virgem tabajara contou a Martim o que ouvira de Poty; o guerreiro christão ergueu-se de um impeto para correr á defeza de seu irmão Pytiguara. Cingiu-lhe o collo Iracema com os lindos braços:

—O chefe não carece de ti; elle é filho das aguas; as aguas o protegem. Mais tarde o extrangeiro ouvirá em seus ouvidos as falas amigas.

—Iracema, é tempo que teu hospede deixe a cabana do Pagé e os campos dos Tabajaras. Elle não tem medo dos guerreiros de Irapuam, tem medo dos olhos da virgem de Tupan.

—Elles fugirão de ti.

—Fuja d'elles o extrangeiro, como o oitibó da estrella da manhã.

Martim promoveu o passo.

—Vae, guerreiro ingrato; vae matar teu irmão primeiro, depois a ti. Iracema te seguirá até aos campos alegres onde vão as sombras dos que foram.

—Matar meu irmão, dizes tu, virgem cruel?

—Teu rasto guiará o inimigo aonde elle se occulta.

O christão estacou em meio da cabana; e alli permaneceu mudo e quedo. Iracema receosa de fital-o, tinha os olhos postos na sombra do guerreiro, que a chamma do fogo projectava na vetusta parede da cabana.

O cão felpudo, deitado no borralho, deu signal de que se approximava gente amiga. A porta entretecida dos talos de carnaúba foi aberta por fora. Cauby entrou.

—O cauim perturbou o espirito dos guerreiros; elles vem contra o extrangeiro.

A virgem ergue-se de um impeto.

—Levanta a pedra que fecha a garganta de Tupan, para que ella esconda o extrangeiro.

O guerreiro tabajara, sopesando a lage enorme, emborcou-a no chão.

—Filho de Araken, deita na porta da cabana, e nunca mais te levantes da terra, se um guerreiro passar por cima do teu corpo.

Cauby obedeceu: a virgem cerrou a porta.

Decorreu breve trato. Resoa perto o estrupido dos guerreiros; travam-se as vozes iradas de Irapuam e Cauby.

—Elles vêm; mas Tupan salvará seu hospede.

N'esse instante, como se o Deus do trovão ouvisse as palavras de sua virgem, o antro mudo em principio retroou surdamente.

—Ouve! É a voz de Tupan.

Iracema cerra a mão do guerreiro, e o leva á borda do antro. Somem-se ambos nas entranhas da terra.

XIV

Os guerreiros tabajaras, excitados com as copiosas libações do espumante cauim, se inflammam á voz de Irapuam, que tantas vezes os guiou ao combate, quantas á victoria.

Aplaca o vinho a sêde do corpo; accende outra sêde maior na alma feroz. Rugem vingança contra o extrangeiro audaz que affrontando suas armas offende o Deus de seus paes, e o chefe da guerra, o primeiro varão tabajara.

Lá tripudiam de furor, e arremettem pelas sombras; a luz vermelha do ubiratan, que brilha ao longe, os guia á cabana de Araken. De espaço em espaço erguem-se do chão os que primeiro vieram para vigiar o inimigo.

—O Pagé está na floresta! murmuram elles.

—O extrangeiro? pergunta Irapuam.

—Na cabana com Iracema.

O grande chefe lança o terrivel salto; já é chegado á porta da cabana, e com elle seus valentes guerreiros.

O vulto de Cauby enche o vão da porta; suas armas guardam deante d'elle o espaço de um bote do maracajá.

—Vis guerreiros são aquelles que atacam em bando como os caetetús. O jaguar, senhor da floresta, e o anajê, senhor das nuvens, combatem só o inimigo.

—Morda o pó a bocca torpe que levanta a voz contra o mais valente guerreiro dos guerreiros tabajaras.

Proferidas estas palavras, ergue o braço de Irapuam o rigido tacape, mas estaca no ar; as entranhas da terra outra vez rugem, como rugiram, quando Araken accordou a voz tremenda de Tupan.

Levantam os guerreiros medonho alarido; e cercando seu chefe o arrebatam ao funesto lugar e á colera de Tupan, contra elles concitado.

Cauby extende-se de novo na soleira da porta; seus olhos adormecem; mas seu ouvido vella no somno.

A voz de Tupan emmudeceu.

Iracema e o christão perdidos nas entranhas da terra, descem a gruta profunda. Subito uma voz que vinha reboando pela crasta, encheu seus ouvidos:

—O guerreiro do mar escuta a falla de seu irmão?

—É Poty, o amigo de teu hospede: disse o christão para a virgem.

Iracema estremeceu:

—Elle fala pela bôcca de Tupan.

Martim respondeu emfim ao Pytiguara.

—As falas de Poty entram n'alma de seu irmão.

—Nenhum outro ouvido escuta?

—Os da virgem que duas vezes em um sol defendeu a vida de teu irmão!

—A mulher é fraca; o tabajara traidor; e o irmão de Jacaúna prudente.

Iracema suspirou: e pousou a cabeça no peito do mancebo:

—Senhor de Iracema, cerra seus ouvidos, para que ella não ouça.

Martim repelliu docemente a gentil fronte:

—Falle o chefe Pytiguara; só o escutam ouvidos amigos e fieis.

—Tu ordenas, Poty fala. Antes que o sol se levante na serra, o guerreiro do mar deve partir para as margens do ninho das garças; a estrella morta o guiará ás alvas praias. Nenhum tabajara o seguirá, porque a inubia dos Pytiguaras rugirá da banda da serra.

—Quantos guerreiros Pytiguaras acompanham seu chefe valente?

—Nenhum; Poty veiu só, com suas armas. Quando os espiritos máus da floresta separaram o guerreiro do mar de seu irmão, Poty veiu em seguimento do rastro. Seu coração não deixou que voltasse para chamar os guerreiros da sua taba; mas expediu seu cão fiel ao grande Jacaúna.

—O chefe Pytiguara está só; não deve rugir a inubia que chamará contra si todos os guerreiros tabajaras.

—É preciso para salvar o irmão branco; Poty zombará de Irapuam, como zombou quando combatiam cem contra ti.

A filha do Pagé, que ouvira callada, debruçou-se ao ouvido do christão:

—Iracema quer-te salvar e a teu irmão; ella tem seu pensamento. O chefe Pytiguara é valente e audaz; Irapuam é manhoso e traiçoeiro como a acauan. Antes que chegues á floresta, cahirás; e teu irmão da outra banda cahirá comtigo.

—Que fará a virgem tabajara para salvar o extrangeiro e seu irmão? perguntou Martim.

—Mais um sol e outro, e a lua das flores vae nascer. É o tempo da festa, em que os guerreiros tabajaras passam a noite no bosque sagrado, e recebem do Pagé os sonhos alegres. Quando estiverem todos adormecidos, o guerreiro branco deixará os campos do Ipú, e os olhos de Iracema, mas não sua alma.

Martim estreitou a virgem ao seio; mas logo a repelliu. O toque de seu corpo, doce como a assucena da mata, e quente como o ninho do beija flôr, espinhou seu coração; porque lhe recordou as palavras terriveis do Pagé.

A voz do christão disse a Poty o pensamento de Iracema; o chefe Pytiguara, prudente como o tamanduá, pensou e respondeu:

—A sabedoria fallou pela bôcca da virgem tabajara Poty espera o nascimento da lua.

XV

Nasceu o dia e expirou.

Já brilha na cabana de Araken o fogo, companheiro da noite. Correm lentas e silenciosas no azul do céo, as estrellas, filhas da lua, que esperam a volta da sua mãe ausente.

Martim se emballa docemente; e como a alva rêde que vae e vem, sua vontade oscilla de um a outro pensamento. Lá o espera a virgem loura dos castos affectos; aqui lhe sorri a virgem morena dos ardentes amores.

Iracema recosta-se langue ao punho da rêde; seus olhos negros e fulgidos, ternos olhos de sabiá, buscam o extrangeiro, e lhe entram n'alma. O christão sorri; a virgem palpita; como o sahy, fascinado pela serpente, vae declinando o lascivo talhe, que se prostra sobre o peito do guerreiro.

Já o extrangeiro a prime ao seio; e o labio avido busca o labio que o espera, para celebrar n'esse adyto d'alma, o hymineo do amor.

No recanto escuro o velho Pagé, immerso em sua contemplação e alheio ás cousas d'este mundo, soltou um gemido doloroso. Pressentira o coração o que não viram os olhos? Ou foi algum funesto presagio para a raça de seus filhos, que assim echoou n'alma de Araken?

Ninguem o soube.

O christão repelliu do seio a virgem indiana. Elle não deixará o rastro da desgraça na cabana hospedeira. Cerra os olhos para não vêr; e enche sua alma com o nome e a veneração do seu Deus:

—Christo!... Christo!...

A serenidade volta ao seio do guerreiro branco, mas todas as vezes que seu olhar pousa sobre a virgem tabajara, elle sente correr-lhe pelas veias uma scentelha de ardente chamma. Assim quando a creança imprudente revolve o brasido de intenso fogo, saltam as faúlhas inflammadas que lhe queimam o corpo.

Fecha os olhos o christão, mas na sombra de seu pensamento surge a imagem da virgem, talvez mais bella. Em balde chama elle o somno ás palpebras fatigadas; ellas se abrem, máu grado seu.

Desce-lhe do céo ao atribulado pensamento uma inspiração:

—Virgem formosa do sertão, esta é a ultima noite que teu hospede dorme na cabana de Araken, onde nunca viera, para teu bem e seu. Faze que seu somno seja alegre e feliz.

—Manda; Iracema te obedece. Que pode ella para tua alegria?

O christão falou submisso, para que não o ouvisse o velho Pagé:

—A virgem de Tupan guarda os sonhos da jurema que são doces e saborosos!

Um triste sorriso pungiu os labios de Iracema:

—O extrangeiro vae viver para sempre á cintura da virgem branca; nunca mais seus olhos verão a filha de Araken; e elle quer que o somno já feche suas palpebras, e o sonho o leve á terra de seus irmãos!

—O somno é o descanço do guerreiro, disse Martim; e o sonho a alegria d'alma. O extrangeiro não quer levar comsigo a tristeza da terra hospedeira, nem deixal-a no coração de Iracema!

A virgem ficou immovel.

—Vae e torna com o vinho de Tupan.

Quando Iracema foi de volta, já o Pagé não estava na cabana; tirou do seio o vaso que alli trazia occulto sob a carioba de algodão entretecida de pennas. Martim lh'o arrebatou das mãos, e libou as gottas poucas do verde e amargo licor. Não tardou que a rede recebesse seu corpo desfallecido.

Agora podia viver com Iracema, e colher nos seus labios o beijo, que alli viçava entre sorrisos, como o fructo na corolla da flor. Podia amal-a, e sugar d'esse amor o mel e o perfume, sem deixar veneno no seio da virgem.

O goso era vida, pois o sentia mais vivo e intenso; o mal era sonho e illusão, que da virgem elle não possuia mais que a imagem.

Iracema se affastara oppressa e suspirosa.

Abriram-se os braços do guerreiro e seus labios; o nome da virgem resoou docemente.

A juruty, que divaga pela floresta, ouve o terno arrulho do companheiro; bate as azas e vôa a conchegar-se ao tepido ninho. Assim a virgem do sertão, aninhou-se nos braços do guerreiro.

Quando veiu a manhã, ainda achou Iracema ali debruçada, qual borboleta que dormiu no seio do formoso cacto. Em seu lindo semblante accendia o pejo vivos rubores; e como entre os arrebões da manhã scintilla o primeiro raio do sol, em suas faces incendidas rutilava o primeiro sorriso da esposa, aurora de fruido amor.

Martim vendo a virgem unida ao seu coração, cuidou que o sonho continuava; cerrou os olhos para tornal-os a abrir.

A pocema dos guerreiros, troando pelo valle, o arrancou ao doce engano; sentiu que já não sonhava, mas vivia. Sua mão cruel abafou nos labios da virgem o beijo que alli se espanejava.

—Os beijos de Iracema são doces no sonho; o guerreiro branco encheu d'elles sua alma. Na vida, os labios da virgem de Tupan, amargam e doem como o espinho da jurema.

A filha de Araken escondeu no coração a sua alegria. Ficou timida e inquieta, como a ave que presente a borrasca no horisonte. Affastou-se rapida, e partiu.

As aguas do rio depuraram o corpo casto da recente esposa.

A jandaia não tornou á cabana.

Tupan já não tinha sua virgem na terra dos Tabajaras.

XVI

O alvo disco da lua surgiu no horisonte.

A luz brilhante do sol empallidece a virgem do céo como o amor do guerreiro desmaia a face da esposa.

—Jacy!... Mãe nossa!... exclamaram os guerreiros tabajaras.

E brandindo os arcos lançaram ao céo com a chuva das flechas o canto da lua nova:

"Veiu no céo a mãe dos guerreiros; já volta o rosto para vêr seus filhos. Ella traz as aguas, que enchem os rios e a polpa do cajú.

"Já veiu a esposa do sol; já sorri ás virgens da terra filhas suas. A doce luz accende O amor no coração dos guerreiros e fecunda o seio da joven mãe."

Cae a tarde.

Folgam as mulheres e os meninos na vasta ocara; os mancebos, que ainda não ganharam nome de guerra por algum feito brilhante, discorrem no valle.

Os guerreiros seguem Irapuam ao bosque sagrado, onde os espera o Pagé e sua filha para o mysterio da jurema. Iracema já accendeu os fogos da alegria. Araken está immovel e extactico no seio de uma nuvem de fumo.

Cada guerreiro que chega depõe a seus pés uma offerenda a Tupan. Traz um a succulenta caça; outro a farinha d'agua; aquelle, o saboroso piracem da trahira. O velho Pagé, para quem são estas dadivas, as recebe com desdem.

Quando foram todos sentados em torno do grande fogo, o ministro de Tupan ordena o silencio com um gesto, e tres vezes clamando o nome terrivel, enche-se do Deus, que o habita:

—Tupan!... Tupan!... Tupan!...

Tres vezes o echo ao longe repercutio.

Vem Iracema com a igaçaba cheia do verde licor.

Araken decreta os sonhos a cada guerreiro, e destribue o vinho da jurema, que transporta ao céo o valente tabajara.

Este, grande caçador, sonha que os veados e as pacas correm ao deante de suas flechas paras e traspassarem nellas; fatigado alfim de ferir, cava na terra o bucan, e assa tamanha quantidade de caça, que mil guerreiros em um anno não acabarão.

Outro, fogoso em amores, sonha que as mais bellas virgens dos tabajaras deixam a cabana de seus paes e o seguem captivas do seu querer. Nunca a rêde de chefe algum embalou mais voluptuosas caricias, que elle as frue n'aquelle extase.

O heroe sonha tremendas lutas, e horriveis combates de que sahe vencedor, cheio de gloria e fama. O velho renasce, na prole numerosa, e como o secco tronco donde rebenta nova e robusta sebe, cobre-se ainda de flôres.

Todos sentem a felicidade tão viva e continua, que no espaço da noite cuidam viver muitas luas. As boccas murmuram; o gesto falla; e o Pagé, que tudo escuta e vê, colhe o segredo das almas desnudas.

Iracema, depois que offereceu aos guerreiros o licor de Tupan, sahio do bosque. Não permittia o rito que ella assistisse ao somno dos guerreiros e ouvisse falar os sonhos.

Foi d'ali direito á cabana, onde a esperava Martim.

—Toma as tuas armas, guerreiro branco. É tempo de partir.

—Leva-me onde está Poty, meu irmão.

A virgem caminhou para o valle; o christão a seguio. Chegaram á falda do rochedo, que ia morrer á beira do tanque, em um massiço de verdura.

—Chama teu irmão!

Martim soltou o grito da gaivota. A pedra que fechava a entrada da gruta cahio; e o vulto do guerreiro Poty appareceu na sombra.

Os dois irmãos encostaram a fronte na fronte e o peito no peito, para exprimir que não tinham ambos mais que uma cabeça e um coração.

—Poty está contente porque vê seu irmão, que o máo espirito da floresta arrebatou de seus olhos.

—Feliz é o guerreiro que tem ao flanco um amigo como o bravo Poty; todos os guerreiros o invejarão.

Iracema suspirou, pensando que a affeição do Pytiguara bastava á felicidade do extrangeiro:

—Os guerreiros tabajaras dormem. A filha de Araken vae guiar os extrangeiros.

A virgem seguio adeante; os dois guerreiros apóz. Quando tinham andado o espaço que transpõe a garça de um vôo, o chefe Pytiguara tornou-se inquieto, e murmurou ao ouvido do christão:

—Manda á filha do Pagé que volte á cabana de seu pae. Ella demora a marcha dos guerreiros.

Martim entristeceu; mas a voz da prudencia e da amizade penetrou em seu coração. Avançou para Iracema; e tirou do seio uma voz doce para acalentar a saudade da virgem:

—Mais affunda a raiz da planta na terra, mais custa arrancal-a. Cada passo de Iracema no caminho da partida, é uma raiz que lança no coração de seu hospede.

—Iracema quer-te acompanhar até onde acabam os campos dos Tabajaras, para voltar com o socego em seu peito.

Martim não respondeu. Continuaram a caminhar, e com elles caminhava a noite; as estrellas desmaiaram e a frescura da alvorada alegrou a floresta. As roupas da manhã, alvas como o algodão, appareceram no céo.

Poty olhou a mata e parou. Martim comprehendeu e disse a Iracema:

—Teu hospede já não pisa os campos dos Tabajaras. É o instante de separar-te d'elle.

XVII

Iracema pousou a mão no peito do guerreiro branco:

—A filha dos Tabajaras já deixou os campos de seus paes; agora pode falar.

—Que guardas tu em teu seio, virgem formosa do sertão?

Ella pôz os olhos cheios no christão:

—Iracema não pode mais separar-se do extrangeiro.

—Assim é preciso, filha de Araken. Torna á cabana de teu velho pae, que te espera.

—Araken já não tem filha.

Martim tornou com gesto rudo e severo:

—Um guerreiro da minha raça jamais deixou a cabana do hospede, viuva de sua alegria. Araken abraçará sua filha, para não amaldiçoar o extrangeiro ingrato.

A virgem pendeu a fronte; velando-se com as longas tranças negras que se esparziam pelo collo, cruzando ao gremio os lindos braços, recolheu em seu pudor. Assim o roseo cacto, que já desabrochou em formosa flôr, cerra em botão o seio perfumado.

—Tua escrava te acompanhará, guerreiro branco: porque teu sangue dorme em seu seio.

Martim estremeceu.

—Os máos espiritos da noite turbaram o espirito de Iracema.

—O guerreiro branco sonhava, quando Tupan abandonou sua virgem, porque ella trahio o segredo da jurema.

O christão escondeu as faces á luz.

—Deus!... clamou seu labio tremulo.

Permaneceram ambos mudos e quedos.

Afinal disse Poty:

—Os guerreiros tabajaras despertam.

O coração da virgem como o do extrangeiro, ficou surdo á voz da prudencia. O sol levantou-se no horisonte; e seu olhar magestoso desceu dos montes á floresta. Poty de pé como um tronco decepado esperou que seu irmão quizesse partir.

Foi Iracema quem primeiro falou:

—Vem: emquanto não pisares as praias dos Pytiguaras, tua vida corre perigo.

Martim seguiu silencioso a virgem, que fugia entre as arvores, como a selvagem acoty. A tristeza lhe roia o coração; mas a onda de perfumes que deixava na brisa a passagem da formosa tabajara, açulava o amor no seio do guerreiro. Seu passo era tardo, o peito lhe offegava.

Poty scismava. Em sua cabeça de mancebo morava o espirito de um abaeté. O chefe pytiguara pensava que o amor é como o cauim, o qual bebido com moderação fortalece o guerreiro, e tomado em excesso abate a coragem do heroe. Elle sabia quanto veloz era o pé do tabajara; e esperava o momento de morrer defendendo o amigo.

Quando as sombras da tarde entristeciam o dia, o christão parou no meio da mata. Poty accendeu o fogo da hospitalidade. A virgem desdobrou a alva rêde de algodão franjada de pennas de tucano e suspendeu-a aos ramos de arvore.

—Esposo de Iracema, tua rêde te espera.

A filha de Araken foi sentar-se longe, na raiz de uma arvore, como a cerva solitaria, que o ingrato companheiro afugentou do aprisco. O guerreiro pytiguara desappareceu na espessura da folhagem.

Martim ficou mudo e triste, semelhante ao tronco d'arvore a que o vento arrancou o lindo cipó que o entrelaçava. A brisa perpassando levou um murmurio:

—Iracema!

Era o balido do companheiro; a cerva arrufando-se ganhou o doce aprisco.

A floresta distillava suave fragrancia e exhalava harmoniosos arpejos; os suspiros do coração se difundiram nos murmures do deserto. Foi a festa do amor e o canto do hymeneo.

Já a luz da manhã coou na selva densa. A voz grave e sonora de Poty repercutio no susurro da mata:

—O povo tabajara caminha na floresta!

Iracema arrancou-se dos braços que a cingiam e mais do labio que a tinha captiva: saltando da rede como a rapida zabelé, travou das armas do esposo, e levou-o atravez da mata.

De espaço a espaço o prudente Poty escutava as entranhas da terra; sua cabeça movia-se pesada de um a outro lado, como a nuvem que se embalança no cocuruto do rochedo, aos varios lufos da proxima borrasca.

—O que escuta o ouvido do guerreiro Poty?

—Escuta o passo veloz do povo tabajara. Elle vem como o tapyr, rompendo a floresta.

—O guerreiro pytiguara é a ema que vôa sobre a terra; nós o seguiremos, como suas azas; disse Iracema.

O chefe sacudio de novo a fronte:

—Emquanto o guerreiro do mar dormia, o inimigo correu. Os que primeiro partiram já avançam além como as pontas do arco.

A vergonha mordeu o coração de Martim.

—Fuja o chefe Poty e salve Iracema. Só deve morrer o guerreiro máo, que não escutou a voz de seu irmão e o pedido de sua esposa.

Martim arripiou o passo.

—A alma do guerreiro branco não escutou sua bocca Poty e seu irmão só tem uma vida.

O labio de Iracema não fallou: sorrio.

XVIII

Treme a selva com o estrupido da carreira do povo tabajara.

O grande Irapuam, primeiro, assoma entre as arvores. Seu olhar rubido viu o guerreiro branco entre nuvens de sangue; o grito rouco do tigre rompe de seu peito cavernoso. O chefe tabajara e seu povo, vão precipitar-se sobre os fugitivos, como a vaga encapelada que rebenta no Mocoribe.

Eis late o cão selvagem.

Poty solta o grito da alegria:

—O cão de Poty guia os guerreiros de sua taba em soccorro teu.

O rouco buzio dos Pytiguaras estruge pela floresta. O grande Jacaúna, senhor das praias do mar, chegava do rio das garças com seus melhores guerreiros.

Os Pytiguaras recebem o primeiro impeto do inimigo nas pontas erriçadas de suas flechas, que elles despedem do arco aos molhos, como o coandú os espinhos do seu corpo. Logo apóz sôa a pocema, estreita-se o espaço, e a luta se trava face a face.

Jacaúna atacou Irapuam. Prosegue o horrivel combate que bastára a dez bravos, e não esgotou ainda a força dos grandes chefes. Quando os dois tacapes se encontram, a batalha toda estremece como um só guerreiro até ás entranhas.

O irmão de Iracema veio direito ao extrangeiro, que arrancara a filha de Araken á cabana hospedeira; o faro da vingança o guia; a vista da irmã assanha a raiva em seu peito. O guerreiro Cauby assalta com furor o inimigo.

Iracema, unida ao flanco de seu guerreiro e esposo, vio de longe Cauby e fallou assim:

—Senhor de Iracema, ouve o rogo de tua escrava; não derrama o sangue do filho de Araken. Se o guerreiro Cauby tem de morrer, morra elle por esta mão, não pela tua.

Martim pôz no rosto da selvagem olhos de horror:

—Iracema matará seu irmão?

—Iracema antes quer que o sangue de Cauby tinja sua mão que a tua; porque os olhos de Iracema vêem a ti, e a ella não.

Travam a luta os guerreiros. Cauby combate com furor, o christão defende-se apenas; mas a seta embebida no arco da esposa guarda a vida do guerreiro contra os botes do inimigo.

Poty já prostrou o velho Andira e quantos guerreiros topou na luta seu valido tacape. Martim lhe abandona o filho de Araken, e corre sobre Irapuam.

—Jacaúna é um grande chefe; seu collar de guerra dá tres voltas ao peito. O tabajara pertence ao guerreiro branco.

—A vingança é a honra do guerreiro, e Jacaúna ama o amigo de Poty.

O grande chefe Pytiguara levou além o formidavel tacape. O combate renhio-se entre Irapuam e Martim. A espada do christão. batendo na clava do selvagem fez-se pedaços. O chefe tabajara avançou contra o peito inerme do adversario.

Iracema silvou como a boicininga, e se arremessou ante a furia do guerreiro tabajara. A arma rigida tremeu na dextra possante e o braço cahio desfallecido.

Soava a pocema da victoria. Os guerreiros pytiguaras conduzidos por Jacaúna e Poty varriam a floresta. Os tabajaras, fugindo, arrebataram seu chefe ao odio da filha de Araken que o podia abater, como a jandaia abate o procero coqueiro roendo-lhe o cerne.

Os olhos de Iracema estendidos pela floresta, viram o chão juncado de cadaveres de seus irmãos; e longe o bando dos guerreiros tabajaras que fugiam em nuvem negra de pó. Aquelle sangue que enrubecia a terra era o mesmo sangue brioso que lhe ardia as faces de vergonha.

O pranto orvalhou seu lindo semblante.

Martim affastou-se para não envergonhar a tristeza de Iracema. Deixou que sua dor núa se banhasse nas lagrimas.

XIX

Poty voltou de perseguir o inimigo. Seus olhos se encheram de alegria vendo salvo o guerreiro branco.

O cão fiel o seguia de perto, lambendo ainda nos pellos do focinho, a marugem do sangue tabajara de que se fartára; o senhor o acariciava satisfeito de sua coragem e dedicação. Fora elle quem salvara Martim, alli trazendo com tanta deligencia os guerreiros de Jacaúna.

—Os máos espiritos da floresta podem separar outra vez o guerreiro branco de seu irmão Pytiguara. O cão te seguirá d'aqui em deante, para que mesmo de longe Poty acuda a teu chamado.

—Mas o cão é teu companheiro e amigo fiel.

—Mais amigo e companheiro será de Poty, servindo a seu irmão que a elle. Tu o chamarás Japy, e elle será o pé ligeiro com que de longe corramos um para o outro.

Jacaúna deu o signal da partida.

Os guerreiros pytiguaras caminharam para as margens alegres do rio onde bebem as garças: alli se erguia a grande taba dos senhores das varzeas.

O sol deitou-se, e de novo se levantou no céo. Os guerreiros chegaram aonde a serra quebrava para o sertão; já tinham passado aquella parte da montanha, que por ser despida de arvoredo e tosquiada corno a capivara, a gente de Tupan chamava Ibyapina.

Poty levou o christão aonde crescia um frondoso jatobá, que affrontava as arvores do mais alto pincaro da serrania, e quando batido pela rajada parecia varrer o céo com a immensa copa.

—N'este logar nasceu teu irmão, disse o pytiguara: Martim estreitou o peito ao tronco enorme:

—Jatobá, que viste nascer meu irmão Poty, o extrangeiro te abraça.

—O raio te decepe arvore do guerreiro Poty, quando seu irmão o abandonar.

Depois o chefe assim falou:

—Ainda Jacaúna não era um guerreiro, Jatobá, o maior chefe, conduzia os Pytiguaras á victoria. Logo que as grandes aguas correram, elle caminhou para a serra. Aqui chegando, mandou levantar a taba, para estar perto do inimigo e vencêl-o mais vezes. A mesma lua que o vio chegar, alumiou a rêde onde Sahy sua esposa, lhe deu mais um guerreiro de seu sangue. O luar passava por entre as folhas do jatobá; e o sorriso pelos labios do varão possante, que tomara seu nome e robustez.

Iracema aproximou-se.

A rôla, que marisca na areia, se o companheiro se afasta, adeja inquieta de ramo em ramo e arrulla para que lhe responda o ausente amigo. Assim a filha da floresta errara pela encosta, modulando o singelo canto mavioso.

Martim a recebeu com a alma no semblante; e levando a esposa do lado do coração e o amigo do lado da força, voltou ao rancho dos pytiguaras.

XX

A lua cresceu.

Tres sóes havia que Martim e Iracema estavam nas terras dos Pytiguaras, senhores das margens do Camocim e Acaraú. Os extrangeiros tinham sua rêde na vasta cabana do grande Jacaúna. O valente chefe guardou para si a alegria de hospedar o guerreiro branco.

Poty abandonou sua taba, para acompanhar seu irmão de guerra na cabana de seu irmão de sangue, e gosar dos instantes que sobejavam do amor de Iracema para a amisade, no coração do guerreiro do mar.

A sombra já se retirou da face da terra: e Martim vio que ella não se retirara ainda da face da esposa, desde o dia do combate.

—A tristeza mora na alma de Iracema!

—A alegria para a esposa só vem de ti; quando teus olhos a deixam as lagrimas enchem os seus.

—Porque chora a filha dos Tabajaras?

—Esta é a taba dos Pytiguaras, inimigos do meu povo. A vista de Iracema já conheceu o craneo de seus irmãos espetado na caiçara; o ouvido já escutou o canto de morte dos captivos tabajaras; a mão já tocou as armas tintas do sangue de seus paes.

A esposa pousou as duas mãos nos hombros do guerreiro, e reclinou ao peito d'elle:

—Iracema tudo soffre por seu guerreiro e senhor. A ata é doce e saborosa; quando a machucam azeda. Tua esposa não quer que seu amor azede teu coração; mas que te encha das doçuras do mel.

—Volte o socego ao seio da filha dos Tabajaras; ella vae deixar a taba dos inimigos de seu povo.

O christão caminhou para a cabana de Jacaúna. O grande chefe alegrou-se vendo chegar seu hospede; mas a alegria fugio logo de sua fronte guerreira. Martim dissera:

—O guerreiro branco parte de tua cabana, grande chefe.

—Alguma cousa te faltou na taba de Jacaúna?

—Nada faltou a teu hospede. Elle era feliz aqui; mas a voz do coração o chama a outros sitios.

—Então parte, e leva o que é preciso para a viagem. Tupan te fortaleça, e traga outra vez á cabana de Jacaúna, para que elle festeje tua boa vinda.

Poty chegou: sabendo que o guerreiro do mar ia partir, falou:

—Teu irmão te acompanha.

—Os guerreiros de Poty precisam de seu chefe.

—Se tu não queres que elles vão com Poty, Jacaúna os conduzira á victoria.

—A cabana de Poty ficará deserta e triste.

—Deserto e triste será o coração de teu irmão longe de ti.

O guerreiro do mar deixou as margens do rio das garças, e caminhou para as terras onde o sol se deita. A esposa e o amigo seguem sua marcha. Passaram além da fertil montanha, onde a abundancia dos fructos creava grande quantidade de mosca, do que lhe veio o nome de Meruoca.

Atravessam os corregos que levam suas aguas ao rio das garças, e avistam longe rio horisonte uma alta serrania. Expira o dia; nuvem negra voa das bandas do mar: são os urubus que pastam nas praias a carniça que o oceano arroja, e com a noite tornam ao ninho.

Os viajantes dormem em Uruburetama. Quando o sol voltou, chegaram ás margens do rio, que nasce na quebrada da serra e desce a planicie enroscando-se como uma cobra. Suas voltas continuas enganam a cada passo o peregrino, que vae seguindo o tortuoso curso: por isso foi chamado Mundahú.

Perlongando as frescas margens, viu Martim no seguinte sol os verdes mares e as alvas praias onde as ondas murmurosas, ás vezes soluçam e outras raivam de furia, rebentando em frocos de espuma.

Os olhos do guerreiro branco se dilataram pela vasta immensidade; seu peito suspirou. Esse mar beijava tambem as brancas areias do Potengi, seu berço natal, onde elle vira a luz americana. Arrojou-se nas ondas e pensou banhar seu corpo nas aguas da patria, como banhara sua alma nas saudades d'ella.

Iracema sentiu chorar-lhe o coração; mas não tardou que o sorriso de seu guerreiro o acalentasse.

Entretanto Poty, do alto do coqueiro, flexava o saboroso camoropim que brincava na pequena bahia do Mundahú; e preparava o moquem para a refeição.

Explore with AITake your curiosity a little further.

Reading settings