JOSÉ DE ALENCAR (continued 2)
Reading edition
XXI
Já descia o sol das alturas do céo.
Chegam os viajantes á foz do rio onde se criam em grande abundancia as saborosas trahiras; suas praias são povoadas pela tribu dos pescadores, da grande nação dos Pytiguaras.
Elles receberam os extrangeiros com a hospitalidade generosa, que era uma lei de sua religião; e Poty com o respeito que merecia tão grande guerreiro, irmão de Jacaúna, maior chefe da forte gente pytiguara.
Para repousar os viajantes, e acompanhal-os na despedida, o chefe da tribu recebeu Martim, Iracema e Poty na jangada, e abrindo a vela á brisa, levou-os até muito longe na costa. Todos os pescadores em suas jangadas seguiam o chefe e atroavam os ares com o canto de saudade, e os murmures do uraçá, que imita os soluços do vento.
Além da tribu dos pescadores estava mais entrada para as serras a tribu dos caçadores. Elles occupavam as margens do Soipé, cobertas de matas, onde os veados, as gordas pacas e os macios jacús abundavam. Assim os habitadores d'essas margens lhe deram o nome de paiz da caça.
O chefe dos caçadores, Jaguarassú, tinha sua cabana á beira do lago, que forma o rio perto do mar. Ahi acharam os viajantes o mesmo agasalho que haviam recebido dos pescadores.
Depois que partiram do Soipé, os viajantes atravessaram o rio Pacoty, em cujas margens cresciam as frondosas bananeiras balançando os verdes pennachos; mais longe o Iguape, onde a agua faz cintura em torno dos comoros de areia.
Além assomou no horisonte um alto morro de areia que tinha a alvura da espuma do mar. O cabo sobranceiro aos coqueiros parece a cabeça calva do condor, esperando alli a borrasca, que vem dos confins do oceano.
—Poty conhece o grande morro das areias? perguntou o christão.
—Poty conhece toda a terra que tem os Pytiguaras desde as margens do grande rio, que forma um braço do mar, até á margem do rio onde habita o jaguar. Elle já esteve no alto do Mocoribe, e de lá viu correr no mar as grandes igaras dos guerreiros brancos, teus inimigos, que está o no Mearim.
—Porque chamas tu Mocoribe, o grande morro das areias?
—O pescador da praia, que vae nas jangadas, lá onde voa a aty, fica triste, longe da terra e de sua cabana, onde dormem os filhos de seu sangue. Quando elle volta e que seus olhos primeiro avistam o morro das areias, a alegria volta ao seio do homem. Então elle diz que o morro das areias dá alegria!
—O pescador diz bem; porque teu irmão ficou contente como elle, vendo o monte das areias.
Martim subiu com Poty ao cimo do Mocoribe. Iracema seguindo com os olhos o esposo, divagava como a jaçanan em tôrno do lindo seio, que alli fez a terra para receber o mar. De passagem ella colhia os doces cajús, que aplacam a sede aos guerreiros, e apanhava as mimosas conchas para ornar seu collo.
Os viajantes estiveram em Mocoribe tres sóes. Depois Martim levou seus passos além. A esposa e o amigo o seguiram até á embocadura de um rio cujas margens eram alagadas e cobertas de mangue. O mar entrando por elle formava uma bacia de agua christalina, que parecia cavada na pedra como um camocim.
O guerreiro christão. ao percorrer essa paragem, começou de scismar. Até alli elle caminhava sem destino, movendo seus passos ao acaso; não tinha outra intenção mais que affastar-se das tabas dos Pytiguaras para arrancar a tristeza do coração de Iracema. O christão sabia por experiencia que a viagem acalenta a saudade, porque a alma pára emquanto o corpo se move. Agora sentado na praia pensava.
Poty veiu:
—O guerreiro branco pensa; o seio do irmão está aberto para receber seu pensamento.
—Teu irmão pensa que este lugar é melhor do que as margens do Jaguaribe para a taba dos guerreiros de sua raça. N'estas aguas as grandes igaras que vem de longes terras se esconderiam do vento e do mar; d'aqui ellas iriam ao Mearim destruir os brancos tapuias alliados dos Tabajaras, inimigos de tua nação.
O chefe pytiguara meditou e respondeu:
—Vae buscar teus guerreiros. Poty plantará sua taba junto da mayr de seu irmão.
Aproximava-se Iracema. O christão mandou com um gesto o silencio ao chefe Pytiguara.
—A voz do esposo se calla, e seus olhos se abaixam quando chega Iracema. Queres tu que ella se affaste?
—Quer teu esposo, que chegues mais perto, para que sua voz e seus olhos penetrem mais dentro de tua alma.
A formosa selvagem desfez-se em risos como se desfaz a flor do fructo que desponta, e foi debruçar-se na espadua do guerreiro.
—Iracema te escuta.
—Estes campos são alegres, e mais serão quando Iracema n'elles habitar. Que diz teu coração?
—O coração da esposa está sempre alegre junto de seu senhor e guerreiro.
O christão, seguindo pela margem do rio, escolheu o logar para levantar a cabana. Poty cortou esteios dos troncos da carnaúba; a filha de Araken ligava os leques da palmeira para vestir o tecto e as paredes: Martim cavou a terra com a espada e fabricou a porta das fasquias da taquára.
Quando veiu a noite os dois esposos armaram a rede em sua nova cabana; e o amigo no copiar que olhava para o nascente.
XXII
Poty saudou o amigo e faltou assim:
—Antes que o pae de Jacaúna e Poty, o valente guerreiro Jatobá, mandasse a todos os guerreiros pytiguaras, o grande tacape da nação estava na dextra de Batuireté, o maior chefe, pae de Jatobá. Foi elle que veiu pelas praias do mar até o rio do jaguar, e expulsou os tabajaras para dentro das terras, marcando a cada tribu seu logar; depois entrou pelo sertão até á serra que tomou seu nome.
Quando suas estrellas eram muitas, e tantas que em seu camocim já não cabiam as castanhas que marcavam o numero, o corpo vergou para a terra, o braço endureceu como o galho do ubiratan que não verga; seus olhos se escureceram.
Chamou então o guerreiro Jatobá e disse:—Filho, toma o tacape da nação pytiguara. Tupan não quer que Batuireté o leve mais á guerra, pois tirou a força de seu corpo, o movimento do seu braço e a luz de seus olhos. Mas Tupan foi bom para elle, pois lhe deu um filho como o guerreira Jatobá.
Jatobá empunhou o tacape dos Pytiguaras. Batuireté tornou o bordão de sua velhice e caminhou. Foi atravessando os vastos sertões, até os campos viçosos onde correm as aguas que vem das bandas da noite. Quando o velho guerreiro arrastava o passo pelas margens, e a sombra de seus olhos não lhe deixava que visse mais os fructos nas arvores ou os passaros no ar, elle dizia em sua tristeza:—Ah! meus tempos passados!
A gente que o ouvia chorava a ruina do grande chefe; e desde então passando por aquelles logares repetia suas palavras; d'onde veiu chamar-se o rio e os campos, Quixeramobim.
Batuireté veiu pelo caminho das garças até áquella serra que tu vês longe, onde primeiro habitou. Lá no pincaro o velho guerreiro fez seu ninho alto como o gavião, para encher o resto de seus dias, conversando com Tupan. Seu filho já dorme embaixo da terra, e elle ainda na outra lua scismava na porta de sua cabana, esperando a noite que traz o grande somno. Todos os chefes Pytiguaras, quando acordam á voz da guerra, vão pedir ao velho que lhes ensine a vencer, porque nenhum outro guerreiro jamais soube como elle combater. Assim as tribus não o chamam mais pelo nome, senão o grande sabedor da guerra, Maranguab.
O chefe Poty vae á serra vêr seu grande avô; mas antes que o dia morra elle estará de volta na cabana de teu irmão. Teus tu outra vontade?
—O guerreiro branco te acompanha. Elle quer abraçar o grande chefe dos Pytiguaras, avô de seu irmão; e dizer ao velho que renasce em seu neto.
Martim chamou Iracema; e partiram ambos guiados pelo Pytiguara para a serra, do Maranguab, que se levantava no horisonte. Foram seguindo o curso do rio até onde n'elle entrava o ribeiro da Pirapora.
A cabana do velho guerreiro estava junto das formosas cascatas, onde salta o peixe no meio dos borbotões de espuma. As aguas alli são frescas e macias, como a brisa do mar, que passa entre as palmas dos coqueiros, nas horas da calma.
Batuireté estava sentado sobre uma das lapas da cascata; e o sol ardente cahia sobre sua cabeça núa de cabellos e cheia de rugas como o genipapo. Assim dorme o jaburú na borda do lago.
—Poty é chegado á cabana do grande Maranguab, pae de Jatobá, e trouxe seu irmão branco para vêr o maior guerreiro das nações.
O velho soabriu as pesadas palpebras, e passou do neto ao extrangeiro um olhar baço. Depois o peito arquejou e os labios murmuraram:
—Tupan quiz que estes olhos vissem antes de se apagarem o gavião branco junto da narseja.
O abaeté derrubou a fronte aos peitos, e não falou mais, nem mais se moveu.
Poty e Martim julgaram que elle dormia e se afastaram com respeito para não perturbar o repouso de quem tanto obrára na longa vida. Iracema que se banhava na proxima cachoeira, veiu-lhes ao encontro, trazendo na folha da taioba favos do mel purissimo.
Discorreram os amigos pelas floridas encostas até que as sombras da montanha se extenderam pelo valle. Tornaram então ao logar onde tinham deixado o Maranguab.
O velho ainda lá estava na mesma attitude, com a cabeça derrubada ao peito e os joelhos encostados á fronte. As formigas subiam pelo seu corpo; e os tuins adejavam em torno e pousavam-lhe na calva.
Poty poz a mão no craneo do velho e conheceu que era finado: morrera de velhice. Então o chefe pytiguara entoou o canto da morte; e depois foi á cabana buscar o camocim, que transbordava com as castanhas do cajú. Martim contou cinco vezes cinco mãos.
Entanto Iracema colhia na floresta a andiroba, de que foi ungido o corpo do velho no camocim, onde a mão piedosa do neto o encerrou. O vaso funebre ficou suspenso ao tecto da cabana.
Depois que plantou ortiga em frente á porta, para deffender contra os animaes a oca abandonada, Poty despediu-se triste d'aquelles logares, e tornou com seus companheiros á borda do mar.
XXIII
Quatro luas tinham alumiado o ceu depois que Iracema deixara os campos do Ipú; e tres depois que ella habitava nas praias do mar a cabana de seu esposo.
A alegria morava em sua alma. A filha dos sertões era feliz, como a andorinha, que abandona o ninho de seus paes, e emigra para fabricar novo ninho no paiz onde começa a estação das flôres. Tambem Iracema achara ali nas praias do mar um ninho do amor, nova patria para o coração. Ella discorria as amenas campinas, como o colibri borboleteando entre as flôres da acacia. A luz da manhã já a encontrava suspensa ao hombro do esposo e sorrindo, como a enrediça, que entrelaça o tronco e todas as manhãs o coroa de nova grinalda.
Martim partia para a caça com Poty. Ella separava-se então d'elle, para mais sentir o desejo de tornar a elle.
Perto havia uma formosa lagoa no meio de verde campina. Para lá volvia a selvagem o ligeiro passo. Era a hora do banho da manhã; atirava-se á agua, e nadava com as garças brancas e as vermelhas jaçanans. Os guerreiros pytiguaras, que appareciam por aquellas paragens chamavam essa lagoa da belleza, porque n'ella se banhava Iracema, a mais bella filha da raça de Tupan.
E desde esse tempo as mães vinham de longe mergulhar suas filhas nas aguas da Porangaba que tinham a virtude de tornar as virgens formosas e amadas pelos guerreiros.
Depois do banho Iracema discorria até ás faldas da serra do Maranguab, onde nascia o ribeiro das marrecas. Ali cresciam na frescura e sombra as fructas mais saborosas de todo o paiz; d'ellas fazia copiosa provisão, e esperava, embalando-se nas ramas do maracujá, que Martim tornasse da caça.
Outras vezes não era a Jererahú que a levava sua vontade, mas do opposto lado, junto da lagoa da Sapiranga, cujas aguas diziam que inflammavam os olhos. Cerca d'ahi havia um bosque frondoso de muritys, que formavam no meio do taboleiro uma grande ilha de formosas palmeiras. Iracema gostava do Murityapuá, onde o vento suspirava docemente; ali espolpava ella o vermelho côco, para fabricar a bebida refrigerante, endossada com o mel da abelha, que os guerreiros amavam durante a maior calma do dia.
Uma manhã Poty guiou Martim á caça. Caminharam para uma serra, que se levanta ao lado da outra do Maranguab sua irmã. O alto cabeço se curva á semelhança do bico adunco da arara; pelo que os guerreiros a chamaram Aratanha. Elles subiram pela encosta da Guaiuba por onde as aguas descem para o valle, e foram até o corrego habitado pelas pacas.
Só havia sol no bico da arara quando os caçadores desceram de Pacatuba ao taboleiro. De longe viram Iracema, que viera esperal-os á margem de sua lagoa da Porangaba. Caminhou para elles com o passo altivo da garça que passeia á beira d'agua: por cima da cariola trazia uma cintura das flores da maniva que era o simbolo da fecundidade. Collar das mesmas cingia-lhe o collo e ornava os rijos seios palpitantes.
Travou da mão do esposo, e a impoz no regaço:
—Teu sangue já vive no seio de Iracema. Ella será mãe de teu filho!
—Filho, dizes tu? exclamou o christão em jubilo.
Ajoelhou ali e cingindo-o com os braços, beijou o ventre fecundo da esposa.
Quando se ergueu, Poty falou:
A felicidade do mancebo é a esposa e o amigo, a primeira dá alegria; o segundo dá força: o guerreiro sem a esposa é como a arvore sem folhas nem dores; nunca ella verá o fructo: o guerreiro sem amigo é como a arvore solitaria no meio do campo que o vento embalança; o fructo d'ella nunca amadura. A felicidade do varão é a prole, que nasce d'elle e faz seu orgulho; cada guerreiro que sahe de suas veias é mais um galho que leva seu nome ás nuvens, como a grimpa do cedro. Amado de Tupan é o guerreiro que tem uma esposa, um amigo e muitos filhos; elle nada mais deseja senão a morte gloriosa.
Martim unio o peito ao peito de Poty.
—O coração do esposo e do amigo falou por tua boca. O guerreiro branco é feliz, chefe dos Pytiguaras, senhores das praias do mar; e a felicidade nasceu para elle na terra das palmeiras, onde reacende a baunilha, e foi gerada do sangue de tua raça, que tem no rosto a côr do sol. O guerreiro branco não quer mais outra patria, senão a patria de seu filho e de seu coração.
Ao romper d'alva Poty partiu para colher as sementes de crajurú que dão a mais bella tinta vermelha, e a casca do angico de onde sae a cor negra mais lustrosa. De caminho sua flecha certeira abateu o pato selvagem que planeava nos ares: e elle arrancou das azas as longas penas. Subindo ao Mocoribe, rugiu a inubia. A refega que vinha do mar levou longe o ronco som. O buzio dos pescadores do Trahiry, e a trombeta dos caçadores do Soipé, responderam.
Martim banhou-se na agua do rio, e passeou na praia para secar o corpo ao vento e ao sol. Ao seu lado ia Iracema e apanhava o ambar amarello que o mar arrojava. Todas as noites a esposa perfumava seu corpo e a alva rede, para que o amor do guerreiro se deleitasse n'ella.
Voltou Poty.
XXIV
Foi costume da raça, filha de Tupan, que o guerreiro trouxesse no corpo as cores de sua nação. Traçavam em principio negras riscas, sobre o corpo, á semelhança do pello do coaty de onde procedeu o nome d'essa arte da pintura guerreira. Depois variaram as cores; e muitos e muitos guerreiros costumaram escrever os emblemas de seus feitos.
O extrangeiro tendo adoptado a patria da esposa e do amigo, devia passar por aquella ceremonia, para tornar-se um guerreiro vermelho, filho de Tupan. N'essa intenção fora Poty prover-se dos objectos necessarios.
Iracema preparou as tintas. O chefe, embebendo as ramas da pluma, traçou pelo corpo os riscos vermelhos e pretos, que ornavam a grande nação pytiguara. Depois pintou na fronte uma flecha e disse:
—Assim como a seta traspassa o duro tronco, assim o olhar do guerreiro penetra n'alma dos povos.
No braço um gavião:
—Assim como o anajê cahe das nuvens, assim cae o braço do guerreiro sobre o inimigo.
No pé esquerdo a raiz do coqueiro.
—Assim como a pequena raiz agarra na terra o alto coqueiro, o pé firme do guerreiro sustenta seu corpo.
No pé direito pintou uma aza:
—Assim como a aza da majoy rompe os ares o pé veloz do guerreirro não tem igual na corrida.
Iracema tomou a rama da penna e pintou uma folha com uma abelha sobre: sua voz resoou entre sorrisos:
—Assim como a abelha fabrica mel no coração negro do jacarandá, a doçura está no peito do mais valente guerreiro.
Martim abriu os braços e os labios para receber corpo e alma da esposa,
—Meu irmão é um grande guerreiro da nação pytiguara; elle precisa de um nome na lingua de sua nação.
—O nome de teu irmão está em seu corpo, onde o poz tua mão.
—Coatiyabo! exclamou Iracema.
—Tu disseste; eu sou o guerreiro pintado; o guerreiro da esposa e do amigo.
Poty deu a seu irmão o arco e o tacape, que são as armas nobres do guerreiro. Iracema havia tecido para ella o cocar e a arassoia, ornatos dos chefes illustres.
A filha de Araken foi buscar á cabana as iguarias do festim e os vinhos de genipapo e mandioca. Os guerreiros beberam copiosamente e trançaram as dansas alegres. Durante que volviam em torno dos fogos da alegria, resoavam as canções.
Poty cantava:
—Como a cobra que tem duas cabeças em um só corpo, assim é a amisade de Coatyabo e Poty.
Acudiu Iracema.
—Como a ostra que não deixa o rochedo, ainda depois de morta, assim é Iracema junto a seu esposo.
Os guerreiros disseram:
—Como o jatobá na floresta, assim é o guerreiro Coatyabo entre o irmão e a esposa: seus ramos abraçam os ramos do ubiratan, e sua sombra protege a relva humilde.
Os fogos da alegria arderam até que veio a manhã; e com elles durou o festim dos guerreiros.
XXV
A alegria ainda morou na cabana, todo o tempo que as espigas de milho levaram a amarellecer.
Uma alvorada, caminhava o christão pela borda do mar. Sua alma estava cançada.
O colibri sacia-se de mel e perfume; depois adormece em seu branco ninho de cotão até que volta rio outro anno a lua das flores. Como o colibri, a alma do guerreiro tambem se satura de felicidade, e carece de somno e repouso.
A caça e as excursões pelas montanhas em companhia do amigo, as caricias da terna esposa que o esperavam na volta, o doce carbeto no copiar da cabana já não acordavam n'elle as emoções d'outrora. Seu coração resonava.
Iracema brincava pela praia: os olhos d'elle tiravam-se d'ella para se estenderem pela immensidade dos mares.
Viram umas azas brancas, que adejavam pelos campos azues. Conheceu o christão que era uma grande igara de muitas velas, como construiam seus irmãos; e a saudade da patria apertou em seu seio.
Alto ia o sol; e o guerreiro, na praia seguia com os olhos as azas brancas que fugiam. Debalde a esposa o chamou á cabana, debalde offereceu a seus olhos, as graças d'ella e os fructos melhores do campo. Não se moveu o guerreiro, senão quando a vella se sumiu no horisonte.
Poty voltou da serra, onde pela vez primeira fora só. Tinha deixado a serenidade na fronte de seu irmão e achava alli a tristeza. Martim saiu-lhe ao encontro:
—A igara grande do branco tapuia passou no mar. Os olhos de teu irmão a viram voar para as margens do Mearim, alliados dos Tupinambás, inimigos de tua e minha raça.
—Poty é senhor de mil arcos; se é teu desejo elle te acompanhará com seus guerreiros ás margens do Mearim para vencer o Tapuytinga e seu amigo o traidor Tupinambá.
—Quando for tempo teu irmão te dirá.
Os guerreiros entraram na cabana, onde estava Iracema. A maviosa canção n'esse dia tinha emudecido nos labios da esposa. Ella tecia suspirando a franja da rede materna, mais larga e espessa que a rede do hymeneo.
Poty, que a viu tão occupada, fallou:
—Quando a sabiá canta é o tempo do amor; quando emmudece, fabrica o ninho para sua prole; é o tempo do trabalho.
—Meu irmão falla como a ran quando annuncia a chuva; mas a sabiá que faz seu ninho, não sabe se dormirá n'elle.
A voz de Iracema gemia. Seu olhar buscou o esposo. Martim pensava: as palavras de Iracema passaram por elle, como a brisa pela face lisa da rocha, sem echo nem rumores.
O sol brilhava sempre sobre as praias do mar, e as areias reflectiam os raios ardentes; mas nem a luz que vinha do ceu, nem a luz que ia da terra, espancaram a sombra n'alma do christão. Cada vez o crepusculo era maior em sua fronte.
Chegou das margens do Acaraú um guerreiro pytiguara, mandado por Jacaúna a seu irmão Poty. Elle veio seguindo o rastro dos viajantes até o Trahiry, onde os pescadores o guiaram á cabana.
Poty estava só no copiar; ergueu-se e abaixou a fronte para escutar com respeito e gravidade as palavras que lhe mandava seu irmão pela boca do mensageiro.
—O Tapuytinga, que estava no Mearim, veio pelas matas até o principio da Ibyapaba, onde fez alliança com Irapuam, para combater a nação pytiguara. Elles vão descer da serra ás margens do rio em que bebem as garças, e onde tu levantaste a taba de teus guerreiros. Jacaúna te chama para deffender os campos de nossos paes: e teu povo carece de seu maior guerreiro.
—Volta ás margens do Acaraú o teu pé não descance emquanto não pisar o chão da cabana de Jacaúna. Quando ahi estiveres dize ao grande chefe:—"Teu irmão é chegado á taba de seus guerreiros." E tu não mentirás.
O mensageiro partiu.
Poty vestiu suas armas, e caminhou para a varzea, guiado pelo passo de Coatyabo. Elle o encontrou muito além, vagando entre os canaviaes que bordam as margens de Jacarehy.
—O branco tapuia, está na Ibyapaba para ajudar os Tabajaras a combater contra Jacaúna. Teu irmão corre a deffender a terra de seus filhos, e a taba onde dormem os camocins de seus paes. Elle saberá vencer depressa para voltar á tua presença.
—Teu irmão parte contigo. Nada separa dois guerreiros amigos quando troa a inubia da guerra.
—Tu és grande, como o mar e bom como o céo.
Os dois amigos abraçaram-se; e seguiram com o rosto para as bandas do nascente.
XXVI
Caminhando, caminhando, chegaram os guerreiros á margem de um lago, que havia nos taboleiros.
O christão parou de repente e voltou o rosto para as bandas do mar: a tristeza sahiu de seu coração e subiu á fronte.
—Meu irmão, disse o chefe, teu pé creou raiz na terra do amor; fica, Poty voltará breve.
—Teu irmão te acompanha; elle disse, e sua palavra é como a seta de teu arco; quando soa, é chegada.
—Queres tu que Iracema te acompanhe ás margens do Acaraú?
—Nós vamos combater seus irmãos. A taba dos Pytiguaras não terá para ella mais que tristeza e dôr. A filha dos Tabajaras deve ficar.
—Que esperas tu então?
—Teu irmão se afflige porque a filha dos Tabajaras pode ficar triste e abandonar a cabana, sem esperar pela sua volta. Antes de partir elle queria socegar o espirito da esposa.
Poty reflectia:
—As lagrimas da mulher amollecem o coração do guerreiro, como o orvalho da manhã amollece a terra.
—Meu irmão é um grande sabedor. O esposo deve partir sem ver Iracema.
O christão avançou. Poty mandou-lhe que esperasse; da alvaja do setas que Iracema emplumara de pennas vermelhas e preta e suspendera aos hombros do esposo, tirou uma.
O chefe pytiguar vibrou o arco: a seta rapida atravessou um goiamum que discorria pelas margens do lago, e só parou onde a pluma não a deixou mais entrar.
Fincou o guerreiro no chão a flecha, com a presa atravessada e tornou para Coatyabo.
—Tu podes partir agora. Iracema seguirá teu rastro; chegando aqui verá tua seta, e obedecerá á tua vontade.
Martim sorriu; e quebrando um ramo do maracujá, a flôr da lembrança, o entrelaçou na haste da seta, e partiu alfim seguido por Poty.
Breve desappareceram os dois guerreiros entre as arvores. O calor do sol já tinha seccado seus passos na beira do lago. Iracema inquieta veio pela varzea seguindo o rastro do esposo até o tabuleiro. As sombras doces vestiam os campos quando ella chegou á beira do lago.
Seus olhos viram a seta do esposo fincada no chão, o goiamum trespassado, o ramo partido, e encheram-se de pranto.
—Elle manda que Iracema ande para traz, como o goiamum, e guarde sua lembrança, como o maracujá guarda sua flôr todo o tempo até morrer.
A filha dos Tabajaras retrahiu os passos lentamente, sem volver o corpo, nem tirar os olhos da seta de seu esposo, e tornou á cabana. Ahi sentada á soleira, com a fronte nos joelhos esperou, até que o somno acalentou a dôr em seu peito.
Apenas alvorou o dia, ella moveu o passo rapido para a lagoa, e chegou á margem. A flecha lá estava como na vespera: o esposo não tinha voltado.
Desde então á hora do banho, em vez de buscar a lagoa da belleza, onde outrora tanto gostara de nadar; caminhava para aquella, que vira seu esposo abandonal-a. Sentava-se junto á flecha, até que descia a noite, então recolhia á cabana.
Tão rapida partia de manhã, como lenta voltava á tarde. Os mesmos guerreiros que a tinham visto alegre nas aguas da Porangaba, agora encontrando-a triste e só, como a garça viuva, na margem do rio, chamavam aquelle sitio da Mocejana, a abandonada.
Uma vez que a formosa filha de Araken se lamentava á beira da lagoa da Mocejana, uma voz estridente gritou seu nome do alto da carnaúba:
—Iracema! Iracema!...
Ergueu ella os olhos e viu entre as folhas da palmeira sua linda jandaia, que batia as azas, e arrufava as pennas com o prazer de vêl-a.
A lembrança da patria, apagada pelo amor, resurgiu em seu pensamento. Viu os formosos campos do Ipú; as encostas da serra onde nascera, a cabana de Araken; e teve saudades; mas ainda n'aquelle instante, não se arrependeu de os ter abandonado.
Seu labio gaseou em canto. A jandaia abrindo as azas, esvoaçou-lhe em torno e pousou no hombro. Alongando fagueira o collo, com o negro bico alisou-lhe os cabellos e beliscou a bocca vermelha como uma pitanga.
Iracema lembrou-se que tinha sido ingrata para a jandaia esquecendo-a no tempo da felicidade; e agora ella vinha para a consolar no tempo da desventura.
Essa tarde não voltou só á cabana. Durante o dia seus dedos ágeis teceram o formoso urú de palha que forrou da felpa macia da monguba para agasalhar sua companheira e amiga.
Na seguinte alvorada foi a voz da jandaia que a despertou. A linda ave não deixou mais sua senhora; ou porque depois da longa ausencia não se fartasse de a vêr, ou porque advinhasse que ella tinha necessidade de quem a acompanhasse em sua triste solidão.
XXVII
Uma tarde Iracema viu de longe dois guerreiros que avançavam pelas praias do mar. Seu coração palpitou mais apressado.
Instantes depois ella esquecia nos braços do esposo tantos dias de saudade, e abandono que passara na solitaria cabana. Outra vez sua graça encheu os olhos do christão; a alegria voltou a habitar em sua alma.
Como a secca varzea, com a vinda do nevoeiro, reverdece e matisa-se de flôres, a formosa filha do sertão com a volta do esposo reanimou-se; e sua belleza esmaltou-se de meigos e ternos sorrisos.
Martim e seu irmão haviam chegado á taba de Jacaúna, quando soava a inubia; elles guiaram ao combate os mil arcos de Poty. Ainda d'essa vez os Tabajaras, apesar da alliança dos brancos tapuias do Mearim, foram levados de vencida pelos valentes Pytiguaras.
Nunca tão disputada victoria e tão renhida pugna, se pelejou nos campos que regam o Acaraú e o Camocim; o valor era igual de parte a parte, e nenhum dos dois povos fora vencido, se o Deus da guerra não tivesse decidido dar estas plagas á raça do guerreiro branco, alliada dos Pytiguaras.
Logo apóz a victoria o christão tornára ás praias do mar, onde construira sua cabana. De novo sentiu em sua alma a sede do amor; e tremia de pensar que Iracema houvesse partido, deixando ermo aquelle sitio tão povoado outrora pela felicidade.
O christão amou outra vez a filha do sertão, como da primeira vez, quando parece que o tempo não poderá exhaurir o coração. Mas breves sóes bastaram para murchar aquellas flôres de um coração exilado da patria.
O imbú, filho da serra, se nasceu na varzea porque o vento ou as aves trouxeram a semente, vingou, achando boa terra e fresca sombra; talvez um dia copou a verde folhagem e enflorou. Mas basta um sopro do mar, para tudo murchar. As folhas lastram o chão; as flôres leva-as a brisa.
Iracema tambem foge dos olhos do esposo, porque já percebeu que esses olhos tão amados se turbam com a vista d'ella, e em vez de se encherem de sua belleza como outrora, a despedem de si. Mas seus olhos d'ella não se cançam de acompanhar á parte e de longe o guerreiro senhor, que os fez captivos.
Ai d'ella!... Sentiu já o golpe no coração e como a copaiba ferida no amago, distilla lagrimas em fio.
XXVIII
Uma vez o christão ouviu dentro em sua alma o soluço de Iracema: seus olhos buscaram em torno e não a viram.
A filha de Araken estava além, entre as verdes moitas de ubaia, sentada na relva. O pranto desfiava de seu bello semblante; e as gotas que rolavam a uma e uma cabiam sobre o regaço, onde já palpitava e crescia o filho do amor. Assim cahem as folhas da arvore viçosa antes que amadureça o fructo.
—O que espreme as lagrimas do coração de Iracema!
—Chora o cajueiro quando fica tronco secco e triste. Iracema perdeu sua felicidade, depois que te separaste d'ella.
—Não estou eu junto a ti?
—Teu corpo está aqui; mas tua alma vôa á terra de teus pais, e busca a virgem branca, que te espera.
Martim doeu-se. Os grandes olhos negros que a indiana pousara n'elle o tinham ferido no amago.
—O guerreiro branco é teu esposo: elle te pertence.
A formosa tabajara sorriu em sua tristeza:
—Quanto tempo ha que retiraste de Iracema teu espirito? Antes teu passo te guiava para as frescas serras e os alegres taboleiros; teu pé gostava de pisar a terra da felicidade e seguir o rastro da esposa. Agora só buscas as praias ardentes, porque o mar que lá murmura vem dos campos em que nasceste; e o morro das areias, porque do alto se avista a igara que passa.
—É a ancia de combater o tupinambá que volve o passo do guerreiro para as bordas do mar: respondeu o christão.
Iracema continuou:
—Teu labio seccou para a esposa, como a canna quando ardem os grandes sóes; perde o grato mel e as folhas murchas não podem mais brincar quando passa a brisa. Agora só fallas ao vento da praia para que elle leve tua voz á cabana de teus paes.
—A voz do guerreiro branco chama seus irmãos para deffender a cabana de Iracema e a terra de seu filho, quando o inimigo vier.
A esposa meneou a cabeça: do fructo do genipapo e buscam a flôr do espinheiro; a fructa é saborosa, mas tem a côr dos Tabajaras; a flôr tem a alvura das faces da virgem branca. Se cantam as aves, teu ouvido não gosta já de escutar o canto mavioso da graúna; mas tua alma se abre para o grito do japim, porque elle tem as pennas douradas como os cabellos d'aquella que tu amas!
—A tristeza escurece a vista de Iracema e amarga seu labio. Mas a alegria ha de voltar á alma da esposa, como volta á arvore a verde rama.
—Quando teu filho deixar o seio de Iracema, ella morrerá, como o abaty depois que deu seu fructo. Então o guerreiro branco não terá mais quem o prenda na terra extrangeira.
—Tua voz queima, filha de Araken, como o sopro que vem dos sertões do Icó, no tempo dos grandes calores. Queres tu abandonar teu esposo?
—Vêem teus olhos lá o formoso jacarandá, que vae subindo ás nuvens; a seus pés ainda está a secca raiz da murta frondosa, que todos os invernos se cobria de rama e bagos vermelhos, para abraçar o tronco irmão. Se ella não morresse, o jacarandá não teria sol para crescer áquella altura. Iracema é a folha escura que faz sombra em tua alma; deve cahir, para que a alegria alumie teu seio.
O christão cingio o talhe da formosa indiana e a estreitou ao peito. Seu labio levou ao labio da esposa um beijo, mas aspero e amargo.
XXIX
Poty voltou do banho.
Segue na areia o rastro de Coatyabo, e sobe ao alto da Jacarécanga. Ahi encontra o guerreiro em pé no cabeço do monte com os olhos alongados e os braços estendidos para os largos mares.
Volve o Pytiguara as vistas e descobre uma grande igara, que vem sulcando os verdes mares, impedida pelo vento:
—É a grande igara dos irmãos de meu irmão que vem buscal-o!
O christão suspirou:
—São os guerreiros brancos inimigos de minha raça, que buscam as praias da valente nação pytiguara, para a guerra da vingança: elles foram derrotados com os Tabajaras nas margens do Camocim; agora vem com os seus amigos os Tupinambás pelo caminho do mar.
—Meu irmão é um grande chefe. Que pensa elle que deve fazer seu irmão Poty.
—Chama os caçadores de Soipé e os pescadores do Trahiry. Nós iremos ao seu encontro.
Poty accordou a voz da inubia: e os dois guerreiros partiram ambos para o Mocoribe. Pouco alem viram os guerreiros da Jaguarassú e Camoropim que corriam ao grito de guerra. O irmão de Jacaúna os avisou da vinda do inimigo.
O grande maracatim corre nas ondas, ao longo da terra que se dilata até ás margens do Parnahyba. A lua começava a crescer quando elle deixou as aguas do Mearim; ventos contrarios o tinham arrastado para os altos mares, muito alem do seu destino.
Os guerreiros pytiguaras, para não espantar o inimigo se occultam entre os cajueiros; e vão seguindo pela praia a grande igara: durante o dia avultam as brancas velas; de noite os fogos atravessam a negrura do mar, como vaga lumes perdidos na mata.
Muitos sóes caminharam assim. Passam alem do Camocim, e afinal pisam as lindas ribeiras da enseada dos papagaios.
Poty manda um guerreiro ao grande Jacaúna e se prepara para o combate. Martim, que subiu ao morro de areia, conhece que o maracatim vem recolher no seio da terra; e avisa seu irmão.
O sol já nasceu; os guerreiros guaraciabas e os tupinambás seus amigos, correm sobre as ondas nas ligeiras pirogas e pojam na praia. Formam o grande arco, e avançam como o cardume do peixe quando corta a correnteza do rio.
No centro estão os guerreiros do fogo, que trazem o raio; nas azas os guerreiros do Mearim que brandem o tacape.
Mas nação alguma jamais vibrou o arco certeiro, como a grande nação pytiguara; e Poty é o maior chefe, de quantos chefes empunharam a inubia guerreira. Ao seu lado caminha o irmão, tão grande chefe como elle, e sabedor das manhas da raça branca dos cabellos do sol.
Durante a noite os Pytiguaras fincam na praia a forte caiçara de espinho: e levantam contra ella um muro de areia, onde o raio esfria e se apaga. Ahi esperam o inimigo. Martim manda que outros guerreiros subam á copa dos mais altos coqueiros; alli defendidos pelas largas palmas, esperam o momento do combate.
A setta de Poty foi a primeira que partiu, e o chefe dos guaraciabas o primeiro heroe que mordeu o pó da terra extrangeira. Rugem os trovões na dextra dos guerreiros brancos; mas os raios que desferem mergulham-se na areia, ou se perdem nos ares.
As settas dos pytiguaras, já cahem do céo, já voam da terra, e se embebem todas no seio do inimigo. Cada guerreiro tomba crivado de muitas flechas, como a presa que as piranhas disputam nas aguas do lago.
Os inimigos embarcam outra vez nas pirogas, e voltam ao maracatim em busca dos grandes e pesados trovões, que um homem só, nem dois, podem manejar.
Quando voltam, o chefe dos pescadores, que corre nas aguas do mar como o veloz camoropim, de que tomou o nome, se arroja nas ondas, e mergulha. Ainda a espuma não se apagára, e já a piroga inimiga se afundou, parecendo que a tragára uma baleia.
Veiu a noite, que trouxe o repouso.
Ao romper d'alva, o maracatim fugia no horisonte para as margens do Mearim. Jacaúna chegou, não mais para o combate e sim para o festim da victoria.
N'essa hora em que o canto guerreiro dos pytiguaras celebrava a derrota dos guaraciabas, o primeiro filho que o sangue da raça branca gerara n'essa terra da liberdade, via a luz nos campos da Porangaba.
XXX
Iracema cuidou que o seio se lhe rompia: e buscou a margem do rio, onde crescia o coqueiro.
Estreitou-se com a haste da palmeira. A dôr lacerou suas entranhas; porém logo o choro infantil inundou todo o seu ser de jubilo.
A joven mãe, orgulhosa de tanta ventura, tomou o tenro filho nos braços e com elle se arrojou ás aguas limpidas do rio. Depois suspendeu-o á teta mimosa; seus olhos então o envolviam de tristeza e amor.
—Tu és Moacyr, o nascido de meu soffrimento.
A ará, pousada no olho do coqueiro, repetiu Moacyr; e desde então a ave amiga em seu canto unia ao nome da mãe, o nome do filho.
O innocente dormia; Iracema suspirava.
—A jaty fabrica o mel no tronco cheiroso do assasfraz; toda a lua das flores vôa de ramo em ramo, colhendo o suco para encher os favos; mas ella não prova sua doçura, porque a irara devora em uma noite toda a colmeia. Tua mãe tambem, filho de minha angustia, não beberá em teus labios o mel do sorriso.
A joven mãe passou aos hombros a larga faxa de macio algodão, que fabricara para trazer o filho sempre unido ao flanco; e seguiu pela areia o rastro do esposo, que ha tres sóes partira. Ella caminhava docemente para não despertar a creancinha adormecida como o passarinho sob a aza materna.
Quando chegou junto ao grande morro das areias, viu que o rastro de Martim e Poty seguia ao longo da praia; e adivinhou que elles eram partidos para a guerra. Seu coração suspirou; mas seus olhos sêccos buscaram o semblante do filho.
Volve o rosto para o Mocoribe.
—Tu és o morro da alegria; mas para Iracema tu não tens senão tristeza.
Tornando, a recente mãe pousou a creança sempre dormida na rêde de seu pae, viuva e solitaria em meio da cabana; ella deitou-se ao chão, na esteira onde repousava, desde que os braços do esposo se não tinham aberto mais para recebel-a.
A luz da manhã entrava pela cabana, e Iracema viu entrar com ella a sombra de um guerreiro.
Cauby estava em pé na porta.
A esposa de Martim ergueu-se de um impeto e saltou ávante para proteger o filho. Seu irmão levantou da rêde a ella uns olhos tristes, e falou com a voz ainda mais triste:
—Não foi a vingança que arrancou o guerreiro Cauby aos campos dos Tabajaras; elle já perdoou. Foi a vontade de ver Iracema, que trouxe comsigo toda a sua alegria.
—Então bemvindo seja o guerreiro Cauby na cabana de seu irmão: respondeu a esposa abraçando-o.
—O nascido de teu seio dorme n'essa rede; os olhos de Cauby gostariam de vêl-o.
Iracema abriu a franja de pennas; e mostrou o lindo semblante da creança. Cauby depois que o contemplou por muito tempo, entre risos, disse:
—Elle chupou tua alma.
E beijou nos olhos da joven mãe, a imagem da creança, que não se animava tocar com receio de offender.
A voz tremula da filha resoou:
—Ainda vive Araken sobre a terra?
—Pena ainda; depois que tu o deixaste sua cabeça, vergou para o peito e não se ergueu mais.
—Dize-lhe que Iracema é morta já, para que elle se console.
A irmã de Cauby preparou a refeição para o guerreiro, e armou no copiar a rêde da hospitalidade para que elle repousasse das fadigas da jornada. Quando o viajante satisfez o appetite, ergueu-se com estas palavras:
—Dize onde está teu esposo e meu irmão, para que o guerreiro Cauby lhe dê o abraço da amizade.
Os labios suspirosos da misera esposa moveram-se como as petalas do cacto que um sopro amarrota, e ficaram mudas. Mas as lagrimas debulharam dos olhos e cahiram em bagas.
O rosto de Cauby annuviou-se:
—Teu irmão pensava que a tristeza ficara nos campos que abandonaste; porque comtigo trouxeste todo o riso dos que te amavam!
Iracema seccou os olhos:
—O esposo de Iracema partiu com o guerreiro Poty para as praias do Acaraú. Antes que tres sóes tenham allumiado a terra elle voltará e com elle a alegria á alma da esposa.
—O guerreiro Cauby o espera para saber o que elle fez do sorriso que morava em teus labios.
A voz do tabajara enrouquecera; seu passo inquieto volveu a esmo pela cabana.
XXXI
Iracema cantava docemente, embalando a rêde para acalentar o filho.
A areia da praia crepitou sob o pé forte e rijo do guerreiro tabajara, que vinha das bordas do mar depois da abundante pesca.
A joven mãe cruzou as franjas da rede, para que as moscas não inquietassem o filho acalentado, e foi ao encontro do irmão:
—Cauby vae tornar ás montanhas dos Tabajaras! disse ella com brandura.
O guerreiro annuviou-se:
—Tu despedes teu irmão da cabana para que elle não veja a tristeza que a enche.
—Araken teve muitos filhos em sua mocidade; uns a guerra levou e morreram como valentes; outros escolheram uma esposa, e geraram por sua vez numerosa prole: filhos de sua velhice, Araken só teve dois. Iracema é para elle como a rôla que o caçador tirou do ninho. Só resta o guerreiro Cauby ao velho Pagé, para suster seu corpo vergado, e guiar seu passo tremulo.
—Cauby partirá quando a sombra deixar o rosto de Iracema.
—Como vive a estrella da noite, vive Iracema em sua tristeza. Só os olhos do esposo podem apagar a sombra em seu rosto. Parte, para que elles não se turvem com tua vista.
—Teu irmão parte para agradar tua vontade; mas elle voltará todas as vezes que o cajueiro florescer para sentir em seu coração o filho de teu ventre.
Entrou na cabana. Iracema tirou da rêde a creança; e ambos, mãe e filho, palpitaram sobre o peito do guerreiro tabajara. Depois Cauby passou a porta, e sumio-se entre as arvores.
Iracema, arrastando o passo tremulo, o acompanhou de longe até que o perdeu de vista na orla da mata. Ahi parou: quando o grito da jandaia de envolta com o choro infantil, a chamou á cabana, a areia fria onde esteve sentada, guardou o segredo do pranto que em bebera.
A joven mãe suspendeu o filho á teta; mas a bocca infantil não emmudeceu. O leite escasso não apojava o peito.
O sangue da infeliz diluia-se todo nas lagrimas incessantes que não estancavam dos olhos; nenhum chegava aos seios, onde se forma o primeiro licor da vida.
Ella dissolveu a alva cariman e preparou ao fogo o mingáo para nutrir o filho. Quando o sol dourou a crista dos montes, partiu para a mata, levando ao collo a creança adormecida.
Na espessura do bosque está o leito da irara ausente; os tenros caxorrinhos grunhem enrolando-se uns sobre os outros. A formosa tabajara approxima-se de manso. Prepara para o filho um berço da macia rama do maracujá; e senta-se perto.
Põe no regaço um por um os filhos da irara; e lhes abandona os seios mimosos, cuja teta rubra como a pitanga ungio do mel da abelha. Os caxorrinhos famintos precipitam-se gulosos e sugam os peitos avaros de leite.
Iracema curte dôr, como nunca sentiu; parece que lhe exhaurem a vida; mas os seios vão-se entumecendo; apojaram afinal, e o leite, ainda rubro do sangue, de que se formou, esguicha.
A feliz mãe arroja de si os caxorrinhos, e cheia de jubilo mata a fome ao filho. Elle é agora duas vezes filho de sua dôr, nascido d'ella e tambem nutrido.
A filha de Araken sentiu afinal que suas veias se estancavam; e comtudo o labio amargo de tristeza recusava o alimento que devia restaurar-lhe as forças. O gemido e o suspiro tinham crestado com o sorriso o sabor em sua bocca formosa.
XXXII
Descamba o sol.
Japy sae do mato e corre para a porta da cabana.
Iracema sentada com o filho no collo, banha-se nos raios do sol e sente o frio arripiar-lhe o corpo. Vendo o animal, fiel mensageiro do esposo, a esperança reanimou seu coração; quiz erguer-se para ir ao encontro de seu guerreiro e senhor, mas os membros debeis se recusaram á sua vontade.
Cahiu desfallecida contra o esteio. Japy lambia-lhe a mão desfallecida, e pulava travesso para fazer sorrir a creança, soltando uns doces latidos de prazer. Por vezes, afastou-se para correr até á orla da mata, e latir chamando o senhor, logo tornava á cabana para festejar a mãe e o filho.
Por esse tempo pisava Martim os campos amarellos do Tauape: seu irmão Poty, o inseparavel, caminhava a seu lado.
Oito luas havia que elle deixara as praias da Jacarecanga. Depois de vencidos os Guaraciabas na bahia dos papagaios, o guerreiro christão quiz partir para as margens do Mearim, onde habitava o barbaro alliado dos Tupinambás.
Poty e seus guerreiros o acompanharam. Depois que transpuzeram o braço corrente do mar que vem da serra de Tauatinga e banha as varzeas onde se pesca o piau, viram emfim as praias do Mearim, e a velha taba do barbaro tapuia.
A raça dos cabellos do sol cada vez ganhava mais a amizade dos Tupinambás: crescia o numero dos guerreiros brancos, que já tinham levantado na ilha a grande itaoca, para despedir o raio.
Quando Martim viu o que desejava, tornou aos campos da Porangaba, que elle agora trilha. Já ouve o ronco do mar nas praias do Mocoribe; já lhe bafeja o rôsto o sopro vivo das vagas do oceano.
Quanto mais seu passo o aproxima da cabana, mais lento se torna e pesado. Tem medo de chegar: e sente que sua alma vae soffrer, quando os olhos tristes e maguados da esposa, entrarem n'ella.
Ha muito que a palavra desertou seu labio secco; o amigo respeita este silencio, que elle bem entende. É o silencio do rio quando passa nos logares profundos e sombrios.
Tanto que os dois guerreiros tocaram as margens do rio, ouviram o latir do cão, que os chamava, e o grito da ará, que se lamentava. Eram mui proximos á cabana, apenas occulta por uma lingua de mato. O christão parou calcando a mão no peito para soffrear o coração, que saltava como o poraquê.
—O latido de Japy é de alegria, disse o chefe.
—Porque chegou; mas a voz da jandaia é de tristeza. Achará o guerreiro ausente a paz no seio da esposa solitaria, ou terá a saudado matado em suas entranhas o fructo do amor?
O christão moveu o passo vacillante. De repente, entre os ramos das arvores, seus olhos viram sentada, á porta da cabana, Iracema, com o filho no regaço e o cão a brincar. Seu coração o arrastou de um impeto, e toda a alma lhe estalou nos labios.—Iracema!...
A triste esposa e mãe sôabrio os olhos, ouvindo a voz amada. Com esforço grande, poude erguer o filho nos braços, e apresental-o ao pae, que o olhava extactico em seu amor.
—Recebe o filho de teu sangue. Vieste a tempo; meus seios ingratos já não tinham alimento para dar-lhe!
Pousando a creança nos braços paternos, a desventurada mãe desfalleceu como a jetyca se lhe arrancam o bulbo. O esposo vio então como a dôr tinha murchado seu bello corpo; mas a formosura ainda morava n'ella, como o perfume na flôr cabida do manacá.
Iracema não se ergueu mais da rêde onde a pousaram os afflictos braços de Martim. O esposo, em quem o amor renascera com o jubilo paterno, a cercou de caricias que encheram sua alma de alegria, mas não a poderam tornar á vida; o estame de sua flôr se rompera.
—Enterra o corpo de tua esposa ao pé do coqueiro que tu amaste. Quando o vento do mar soprar nas folhas, Iracema pensará que é tua voz que fala entro seus cabellos.
O labio emmudeceu para sempre; o ultimo lampejo despediu-se dos olhos baços.
Poty amparou o irmão em sua grande dôr. Martim, sentiu que um amigo verdadeiro é precioso na desventura; é como o outeiro que abriga do vendaval o tronco forte e robusto do ubiratan, quando o broca o copim.
O camocim recebeu o corpo de Iracema, embebido de resinas odoriferas; e foi enterrado ao pé do coqueiro, á borda do rio. Martim quebrou um ramo de murta, a folha da tristeza, e deitou-o no jazigo de sua esposa. A jandaia pousada no olho da palmeira repelia tristemente:—Iracema!
Desde então os guerreiros pytiguaras que passavam perto da cabana abandonada e ouviam resoar a voz plangente da ave amiga, se afastavam, com a alma cheia de tristeza, do coqueiro onde cantava a jandaia. E foi assim que veiu a chamar-se Ceará o rio onde crescia o coqueiro, e os campos onde serpeia o rio.
XXXIII
O cajueiro floresceu quatro vezes depois que Martim partiu das praias do Ceará, levando no fragil barco o filho e o cão fiel. A jandaia não quiz deixar a terra onde repousava sua amiga e senhora.
O primeiro cearense, ainda no berço, emigrava da terra da patria. Seria a predestinação de uma raça?
Poty com os seus guerreiros esperava na margem do rio. O christão lhe promettera voltar; todas as manhãs subia ao morro das areias e volvia os olhos ao mar a vêr se branqueava ao longe a vela amiga.
Afinal volta Martim de novo ás terras, que foram de sua felicidade, e são agora de amarga saudade. Quando seu pé sentiu o calor das brancas areias, derramou-se por todo o seu ser um fogo ardente, que lhe requeimou o coração: era o fogo das recordações accesas.
A chamma só applacou quando elle tocou a terra onde dormia sua esposa; porque n'esse instante seu coração transudou, como o tronco do jetahy nos ardentes calores, e refrescou sua pena de lagrimas abundantes.
Muitos guerreiros de sua raça acompanharam o chefe branco, para fundar com elle a mayri dos christãos. Veio tambem um sacerdote de sua religião, de negras vestes, para plantar a cruz na terra selvagem.
Poty foi o primeiro que ajoelhou aos pés do sagrado lenho: não soffria elle que nada mais o separasse de seu irmão branco; por isso quiz que tivessem ambos um só Deus, como tinham um só coração.
Elle recebeu com o baptismo o nome do santo, cujo era o dia; e o do rei, a quem ia servir, e sobre os dois o seu, na lingua dos novos irmãos. Sua fama cresceu e ainda hoje é o orgulho da terra, onde elle viu a luz primeiro.
A mayri que Martim erguera á margem do rio, nas praias do Ceará, medrou. A palavra do Deus verdadeiro germinou na terra selvagem; e o bronze sagrados resoou nos valles onde rugia o maracá.
Jacaúna veio habitar nos campos da Porangaba para estar perto de seu amigo branco; Camarão assentou a taba de seus guerreiros nas margens da Mocejana.
Tempo depois, quando veiu Albuquerque, o grande chefe dos guerreiros brancos, Martim e Camarão partiram para as margens do Mearim a castigar o feroz tupinambá e expulsar o branco tapuia.
Era sempre com emoção que o esposo de Iracema revia as plagas onde fora tão feliz, e as verdes folhas a cuja sombra dormia a formosa tabajara.
Muitas vezes ia sentar-se n'aquellas doces areias, para scismar e acalentar no peito a agra saudade.
As jandaias cantavam ainda no olho do coqueiro; mas não repetiam já o mavioso nome de Iracema.
Tudo passa sobre a terra.
FIM
NOTAS
Pag. 10.—Argumento historico.—Em 1603, Pero Coelho, homem nobre da Parahyba, partiu como capitão-mór de descoberta, levando uma força de 80 colonos e 800 indios. Chegou á foz do Jaguaribe e ahi fundou o povoado que teve nome de Nova-Lisboa.
Foi esse o primeiro estabelecimento colonial do Ceará.
Como Pero Coelho se visse abandonado dos socios, mandaram-lhe João Soromenho com soccorros. Esse official, auctorisado a fazer captivos para indemnisação das despezas, não respeitou os proprios indios do Jaguaribe, amigos dos Portuguezes.
Tal foi a causa da ruina do nascente povoado. Retiraram-se os colonos, pelas hostilidades dos indigenas; e Pero Coelho ficou ao desamparo, obrigado a voltar a Parahyba por terra, com sua mulher e filhos pequenos.
Na primeira expedição foi do Rio-Grande do Norte um moço de nome Martim Soares Moreno, que se ligou de amizade com Jacaúna, chefe dos indios do littoral e seu irmão Poty. Em 1608 por ordem de D. Diogo Menezes voltou a dar principio á regular colonisação d'aquella capitania: o que levou a effeito fundando o presidio de Nossa Senhora do Amparo em 1611.
Jacaúna, que habitava as margens do Acaracú, veiu estabelecer-se com sua tribu nas proximidades do recente povoado, para o proteger contra os indios do interior e os francezes que infestavam a costa.
Poty recebeu no baptismo o nome de Antonio Fillippe Camarão, que illustrou na guerra hollandeza. Seus serviços foram remunerados com o foro de fidalgo, a commenda de Christo e o cargo de capitão-mór dos indios.
Martim Soares Moreno chegou a mestre de campo e foi um dos excedentes cabos portuguezes que libertaram o Brazil da invasão hollandeza. O Ceará deve honrar sua memoria como de um varão prestante e seu verdadeiro fundador, pois que o primeiro povoado á foz do rio Jaguaribe foi apenas uma tentativa frustrada.
Este é o argumento historico da lenda; em notas especiaes se indicarão alguns outros subsidios recebidos dos chronistas do tempo.
Ha uma questão historica, relativa a este assumpto; fallo da patria do Camarão, que um escriptor pernambucano quiz pôr em duvida, tirando a gloria ao Ceará para a dar á sua provincia.
Este ponto aliás somente contestado nos tempos modernos pelo Sr. commendador Mello em suas Biographias, me parece sufficientemente elucidado já, depois da erudita carta do Sr. Basilio Quaresma Torreão, publicada no Mercantil n.° 26 de 26 de Janeiro de 1860, 2.ª pagina.
Entretanto farei sempre uma observação.
Em primeiro logar a tradicção oral é uma fonte importante da historia, e ás vezes a mais pura e verdadeira. Ora na provincia de Ceará em Sobral não só se referiam entre gente do povo noticias do Camarão, como existia lima velha mulher que se dizia d'elle sobrinha. Essa tradicção foi colhida por diversos escriptores, entre elles o conspicuo auctor da Corographia Brasilica.
O auctor do Valoroso Lucideno é dos antigos o unico que positivamente affirma ser Camarão filho de Pernambuco; mas além de encontrar essa asserção a versão de outros escriptores de nota, accresce que Berredo explica perfeitamente o dito d'aquelle escriptor, quando falla da expedição de Pero Coelho de Souza a Jaguaribe, sitio d'aquelle tempo e tambem no de hoje da jurisdicção de Pernambuco.
Outro ponto é necessario esclarecer para que não me censurem de infiel á verdade historica. É a nação de Jacaúna e Camarão que alguns pretendem ter sido a tabajara. Ha n'isso manifesto engano.
Em todas as chronicas se falla das tribus de Jacaúna e Camarão, como habitantes do littoral, e tanto que auxiliam a fundação do Ceará, como já haviam auxiliado a da Nova-Lisboa em Jaguaribe. Ora a nação, que habitava o littoral entre o Parnahyba e o Jaguaribe ou Rio-Grande, era a dos Pytiguaras, como attesta Gabriel Soares. Os Tabajaras. habitavam a serra de Ibyapa, e portanto o interior.
Como chefes dos Tabajaras são mencionados Mel Redondo no Ceará e Grão Deabo em Piauhy. Esses chefes foram sempre inimigos irreconciliaveis e rancorosos dos portuguezes, e alliados dos francezes do Maranhão, que penetraram até Ibyapaba. Jacaúna e Camarão são conhecidos pela sua alliança firme com os portuguezes.
Mas o que solve a questão é o seguinte texto. Lê-se nas memorias diarias da guerra brasilica do conde de Pernambuco:—1834, Janeiro, 18: "Pelo bom procedimento com que havia servido A. Ph. Camarão o fez El-rei capitão-mór de todos os indios não somente de sua nação, que era Pytiguar, mas das outras residentes em varias aldeias."
Esta auctoridade, além de contemporanea, testemunhal, não pode ser recusada, especialmente quando se exprime tão positiva e intencionalmente a respeito do ponto duvidoso.
Pag. 19.—Onde canta a jandaia.—Diz a tradicção que Ceará significa na lingua indigena—canto de jandaia.
Ayres do Casal, Corographia Brasilica, refere essa tradicção. O senador Pompêo, em seu excellente diccionario topographico, menciona uma opinião, nova para mim, que pretende vir Siará da palavra saia-caça, em virtude da abundancia de caça que se encontrava nas margens do rio. Essa etymologia é forçada. Para designar quantidade, usava a lingua tupy da desinencia iba; a desinencia ára junta aos verbos designa o sujeito que exercita a acção actual; junta aos nomes o que tem actualmente o objecto—exp. Coatyara—o que pinta.—Jussara—o que tem espinho.
Ceará é nome composto de cemo—cantar forte, clamar, e ará, pequena arara ou periquito. Essa é a etymologia verdadeira, e não só conforme com a tradicção, mas com as regras da lingua.
Pag. 20.—I. Giráu.—Na jangada é uma especie de estrado onde accommodam os passageiros: e ás vezes o cobrem de palha. Em geral é qualquer estiva elevada do solo e suspensa em forquilhas.
II. Iracema.—Em guarany significa labios de mel—de ira—mel e tembe labios. Tembe na composição altera-se em ceme, como na palavra ceme-yba.
III. Graúna é o passaro conhecido de cor negra luzidia.—Seu nome vem por corrupção de guira passaro e una, abreviação de pixuna de preto.
IV. Jaty.—Pequena abelha que fabrica delicioso mel.
Pag. 21.—I. Ipú.—Chamam ainda hoje no Ceará certa qualidade de terra muito fertil, que fórma grandes corôas ou ilhas no meio dos taboleiros e sertões, e é de preferencia procurada para a cultura. D'ahi se deriva o nome d'essa comarca da provincia.
II. Tabajaras.—Senhores das aldeias—de taba—aldeia—e—jara—senhor. Essa nação dominava o interior da provincia, especialmente a Serra da Ibyapaba.
III. Oitycica.—Arvore frondosa, apreciada pela deliciosa frescura que derrama sua sombra.
IV. Gará.—Ave palludal, muito conhecida pelo nome de guará. Penso eu que esse nome anda corrompido de sua verdadeira origem, que é—ig, agua e ará, arara; arara d'agua, pela bella côr vermelha.
V. Ará.—periquito. Os indigenas como augmentativo usavam repetir a ultima sillaba da palavra e ás vezes toda a palavra—como murémuré. Muré, frauta—murémuré, grande frauta. Arára vinha a ser pois o augmentativo de ará, e significaria a especie maior do genero.
VI. Urú.—Cestinho que servia de cofre ás selvagens para guardar seus objectos de mais preço e estimação.
VII. Crautá.—Bromelia vulgar, de que se tiram fibras tão ou mais finas que as do linho.
VIII. Jussara.—Palmeira de grandes espinhos, das quaes se servem ainda hoje para dividir os fios da renda.
Pag. 22.—I. Uiraçaba.—aljava—de uira seta e a desinencia—caba—cousa propria.
II. Quebrar a flecha.—Era entre os indigenas a maneira symbolica de estabelecerem a paz entre as diversas tribus, ou mesmo entre dois guerreiros inimigos. Desde já advertimos que não se extranhe a maneira porque o extrangeiro se exprime falando com os selvagens: ao seu perfeito conhecimento dos usos e lingua dos indigenas, e sobretudo a ter-se conformado com elles a ponto de deixar os trajos europeus e pintar-se, deveu Martim Soares Moreno a influencia que adquiriu entre os indios do Ceará.
Pag. 23.—I. Ibyapaba.—Grande serra que se prolonga ao norte da provincia e a extrema com Piauhy. Significa terra aparada. O Dr. Martins em seu glossario lhe attribue outra etymologia. Iby-terra—e pabe—tudo. A primeira porém tem a auctoridade de Vieira.
II. Igaçaba.—de ig—agua e a desinencia çaba—cousa propria.
Pag. 24.—I. Vieste.—A saudação usual da hospitalidade era esta:—Erc ioubé—tu vieste? pa-aiotu, vim sim. Auge-be, bem dito. Veja-se Lery, pag. 286.
II. Jaguaribe.—maior rio da provincia; tirou o nome da quantidade de onças que povoavam suas margens. Jaguar—onça—iba—desinencia para exprimir copia, abundancia.
III. Martim.—Da origem latina de seu nome, procedente de Marte, deduz o extrangeiro a significação que lhe dá.
IV. Pytiguaras.—Grande nação de indios que habitava o littoral da provincia e estendia-se desde o Parnahyba até o Rio Grande do Norte. A orthographia do nome anda mui viciada nas differentes versões, pelo que se tornou difficil conhecer a etymologia.
Iby significava terra; iby-tira veiu a significar serra, ou terra alta. Aos valles chamavam os indigenas iby-tira-cua—cintura das montanhas. A desinencia jara senhor, accrescentada, formou a palavra Ibyticuara—que por corrupção deu Pytiguara—senhores dos valles.
V. Mau espirito da floresta.—Os indigenas chamavam a esses espiritos caa-pora, habitantes da mata, d'onde por corrupção veiu a palavra caipora, introduzida na lingua portugueza em sentido figurado.
Pag. 25.—I. As mais bellas mulheres.—Este costume da hospitalidade americana é attestado pelos chronistas. A elle se attribue o bello rasgo de virtude de Anchieta, que para fortalecer a sua castidade, compunha nas praias de Iperoig o poema da Virgindade de Maria, cujos versos escrevia nas areias humidas, para melhor os polir.
II. Jurema.—Arvore mean, de folhagem espessa; dá um fructo excessivamente amargo, de cheiro acre, do qual juntamente com as folhas e outros ingredientes preparavam os selvagens uma bebida, que tinha o effeito do hatchis, de produzir sonhos tão vivos e intensos, que a pessoa fruia n'elles melhor do que na realidade. A fabricação d'esse licor era um segredo, explorado pelos Pagés, em proveito de sua influencia. Jurema é composto de ju-espinho e rema cheiro desagradavel.
Pag. 26.—I. Irapuam.—de ira-mel e apuam redondo: é o nome dado a uma abelha virulenta e brava, por causa da forma redonda de sua colmeia. Por corrupção reduziu-se esse nome actualmente a arapuá. O guerreiro de que se trata aqui é o celebre Mel-redondo, assim chamado pelos chronistas do tempo, que traduziam seu nome ao pé da lettra. Mel-redondo, chefe dos Tabajaras da serra Ibyapaba, foi encarniçado inimigo dos portuguezes, e amigo dos francezes.
II. Acaracú.—O nome do rio é Acaracú—de acará garça—co—buraco, toca, ninho, e y—som dubio entre i e u, que os portuguezes, ora exprimiam de um, ora de outro modo, significando agua. Rio do ninho das garças é pois a traducção de Acaracú; e o rio das garças a de Acaraú. Usou-se aqui da liberdade horaciana para evitar em uma obra litteraria, obra de gosto e artistica, um som aspero e ingrato. De resto quem sabe se o nome primitivo não foi realmente Acaraú, que se alterou como tantos outros, pela introducção da consoante?
III. Estrella morta.—A estrella polar, por causa da sua immobilidade; orientavam-se por ella os selvagens durante a noite.
IV. Boicininga.—é a cobra cascavel—de boia, cobra e cininga chocalho.
V. Oitibó.—é uma ave nocturna, especie de coruja.
Pag. 27.—I. Espiritos da treva.—A esses espiritos chamavam os selvagens curupira, meninos máus—de curumim, menino, e pira máu.
II. Boré.—frauta de bambú,—o mesmo que muré.
III. Ocara.—praça circular que ficava no centro da taba, cercada pela estacada, e para a qual abriam todas as casas. Composto de oca, casa e a desinencia ara, que tem; aquillo que tem a casa, ou onde a casa está.
IV. Potyuara.—comedor de camarão; de poty—e uara. Nome que por desprêso davam os inimigos aos Pytiguaras, que habitavam as praias e viviam em grande parte de pesca.
Este nome dão alguns escriptores aos Pytiguaras. porque o receberam de seus inimigos.
Pag. 28.—I. Pocema.—grande alarido que faziam os selvagens nas occasiões solemnes, como em começo de batalha, ou nas expansões da alegria; é palavra adoptada já na lingua portugueza e inserida no diccionario de Moraes. Vem de po-mão e cemo clamar; clamor das mãos, porque os selvagens acompanhavam o vozear com o bater das palmas e das armas.
II. Andira.—morcego: é em allusão a seu nome que Irapuam dirige logo palavras de despreso ao velho guerreiro.
Pag. 29.—Aracaty.—Significava este nome bom tempo de ara e catú. Os selvagens do sertão assim chamavam as brisas do mar que sopram regularmente ao cahir da tarde, e correndo pelo valle do Jaguaribe se derramam pelo interior e refrigeram da calma abrasadora do verão. D'ahi resultou chamar-se Aracaty o logar de onde vinha a monção. Ainda hoje no Icó o nome é conservado á brisa da tarde, que sopra do mar.
Pag. 32.—I. Afflar.—Sobre este verbo que introduzi na lingua portugueza do latim afflo, já escrevi o que entendi em nota de uma segunda edição da Diva que brevemente ha de vir á luz.
II. Anhanga.—Davam os indigenas este nome ao espirito do mal; compõe-se de anho atrito, só e anga alma. Espirito só, privado do corpo, phantasma.
Pag. 36.—I. Camocim.—vaso onde encerravam os indigenas os corpos dos mortos e lhes servia de tumulo; outros dizem camotim, e talvez com melhor orthographia, porque se não me engano o nome corrupção da phrase co buraco, ambyra defuncto, anhotim enterrar—buraco para enterrar o defuncto—c'am'otim. O nome dava-se tambem a qualquer pote.
II. Guabiroba.—Deve ler-se Andiroba. Arvore que dá um azeite amargo.
III. Cabellos do sol.—Em tupy guaraciaba. Assim chamavam aos europeus que tinham os cabellos louros.
Pag. 38.—I. Moquem.—Do verbo mocaém assar na labareda. Era a maneira por que os indigenas conservavam a caça para não apodrecer, quando a levavam em viagem. Nas cabanas a tinham ao fumeiro.
II. Senhor do caminho.—assim chamavam os indigenas ao guia—de py, caminho e guara, senhor.
Pag. 39.—I. O dia vae ficar triste.—Os tupys chamavam a tarde carúca, segundo o diccionario: Segundo Lery, che caruc acy, significa—"estou triste." Qual d'estes era o sentido figurado da palavra? Tiraram a imagem da tristeza, da sombra da tarde, ou a imagem do crepusculo do torvamento do espirito?
II. Jurupary.—demonio; de juroboca e apara torto, aleijado. O bocca torta.
III. Ubaia.—fructa conhecida da especie engenia. Significa fructa saudavel, de uba-fructa e aia saudavel.
Pag. 41.—I. Jandaia.—Este nome que anda escripto por diversas maneiras nhendaia, nhandaia e em todas alterado é apenas um adjectivo qualificativo do substantivo ará. Deriva-se elle das palavras nheng—falar—antan, duro, forte, aspero, e ara desinencia verbal que exprime o agente—nh' ant' ara; substituido o t por d—e o r por i, tornou-se nhandaia, d'onde jandaia, que se traduzirá por periquito grasnador.
Do canto d'esta ave, como se viu, é que vem o nome de Ceará, segundo a etymologia que lhe dá a tradicção.
II. Inhuma.—Ave nocturna palamedea. A especie de que se fala aqui é a palamedea chavaria, que canta regularmente á meia noite. A orthographia melhor creio ser anhuma, talvez de anho, só, e anum, ave agoureira conhecida. Significaria então assim anum solitario, assim chamado pela tal ou qual semelhança do grito desagradavel.
Pag. 42.—Inubia.—Trombeta de guerra. Os indigenas, segundo Lery, as tinham tão grandes que mediam um diametro na abertura.
Pag. 43.—Guará.—Cão selvagem, lobo brazileiro. Provêm esta palavra do verbo u comer, do qual se forma com o relativo G e a desinencia ara o verbal g-u-ára comedor. A syllaba final longa é a particula propositiva ã que serve para dar fôrça á palavra.
G-u-ára-ã realmente comedor, voraz.
Pag. 44.—I. Jiboia.—Cobra conhecida: de gi machado e boia cobra. O nome foi tirado da maneira porque a serpente lança o bote, semelhante ao golpe do machado; pode traduzir-se bem cobra de arremesso.
II. Sucury.—A serpente gigante que habita nos grandes rios e engole um boi. De Suu, animal e cury ou curu roncador. Animal roncador, porque de feito o rouco da sucury é medonho.
III. Se é que tens sangue e não mel.—Allusão que faz o velho Andira ao nome de Irapuam, o qual como se disse significa mel redondo.
IV. Ouve seu trovão.—Todo esse episodio do rugido da terra é uma astucia, como usavam os pagés e os sacerdotes de toda a nação selvagem para imporem á imaginação do povo. A cabana estava assentada sobre um rochedo, onde havia uma galeria subterranea que communicava com a varzea por estreita abertura; Araken tivera o cuidado de tapar com grandes pedras as duas aberturas, para occultar a gruta dos guerreiros. N'essa occasião a fenda inferior estava aberta e o Pagé o sabia; abrindo a fenda superior, o ar encanou-se pelo antro espiral com estridor medonho, e de que pode dar uma idéa o sussurro dos caramujos.—O facto é pois natural; a apparencia sim maravilhosa.
Pag. 45.—Abaty n'agua.—Abaty—arroz; Iracema serve-se da imagem do arroz que só viça no alagado, para exprimir sua alegria.
Pag. 53.—I. Ubiratan.—Páo ferro, de ubira—páo e antan duro.
II. Maracajá.—Gato selvagem.
III. Caetetus.—Porco do mato, especie de javali brazileiro. Do caeté—mato grande e virgem—e suu caça, mudado o s em t na composição pela euphonia da lingua. Caça do mato virgem.
IV. Jaguar.—Vimos que guará significa voraz. Jaguar tem inquestionavelmente a mesma etymologia; é o verbal guara e o pronome ja nós. Jaguar era pois para os indigenas todos os animaes que os devoravam. Jaguareté o grande devorador.
V. Anajê.—Gavião.
Pag. 55.—Acauan, ave inimiga das cobras—de caa pão e uan—do verbo u, que come pão.
Pag. 56.—Sahy.—Lindo passaro azul.
Pag. 57.—I. Carioba.—Camisa de algodão, de cary branco e oba roupa. Tinham tambem a arassoia de arára, e oba, vestido de pennas de arara.
II. Á cintura da virgem.—Os indigenas chamavam a amante possuida aguaçaba, de aba, homem, cua, cintura, çaba cousa propria; a mulher que o homem cinge, ou traz á cintura. Fica pois claro o pensamento de Iracema.
Pag. 59.—I. Jacy.—A lua. De já—pronome, nós, e cy—mãe.—A lua exprimia o mez para os selvagens; e seu nascimento era sempre por elles festejado.
II. Fogos da alegria.—Chamavam os selvagens tory, os fachos ou fogos; e toryba, a alegria, a festa, a grande copia dos fachos.
Pag. 60.—Bucan.—Significa uma especie de grelha que os selvagens faziam para assar a caça; d'ahi vem o verbo francez boucaner. A palavra é da lingua tupy.
Pag. 63.—I. Acoty.—cotia.
II. Abaeté.—varão abalisado; de aba—homem e eté—forte, egregio.
Pag. 66.—I. Jacaúna.—jacarandá preto—de jaca, abreviação de jacarandá, e una, preto. Este Jacaúna é o celebre chefe, amigo de Martim Soares Moreno.
II. Coandú.—porco espinho.
III. Seu collar de guerra.—O collar que os selvagens faziam dos dentes dos inimigos vencidos era um brazão e tropheu de valentia.
Pag. 68.—I. Japy.—significa, nosso pé, de ja—pronome, nós e py pé.
II. Ibyapina.—De Iby-terra, e apino, tosquiar.
III. Jatobá.—grande arvore real. O logar da scena é o sitio da hoje Villa Viçosa, onde diz a tradição ter nascido Camarão.
Pag. 71.—I. Meruoca. De mera, mosca, e oca, casa. Serra junto do Sobral, fertil em mantimentos.
II. Uruburetama.—patria ou ninho de urubus: serra bastante alta.
III. Mundahú.—rio muito tortuoso, que nasce na serra de Uruburetama. Mandé, cilada, e hu rio.
IV. Potengi.—rio que rega a cidade do Natal, d'onde era filho Soares Moreno.
Pag. 72.—I. As saborosas trahiras.—É o rio Trahiry trinta leguas ao norte da capital. De trahira, peixe e y, rio. Hoje é povoação e districto de paz.
II. Soipé.—paiz da caça. De Sôo caça, e ipé lugar onde. Diz-se hoje Siupé, rio e povoação pertencente a freguezia e termo da Fortaleza, situada á margem dos alagados chamados Jaguarassú na embocadura do rio.
III. Pacoty.—Rio das pacobas. Nasce na serra de Baturité e lança-se no Oceano duas leguas ao norte de Aquirás.
IV. Iguape.—Enseada distante duas leguas de Aquirás. De Ig, agua, cua, cintura e ipé, onde.
Pag. 73—I. Mocoribe.—morro de areia na enseada do mesmo nome a uma legua da Fortaleza; diz-se hoje Mucuripe. Vem de Corib alegrar e mo, particula ou abreviatura do verbo monhang fazer, que se junta aos verbos neutros e mesmo activos para dar-lhes significação passiva—exp.caneon affligir-se, mocaneon fazer alguem afflicto.
II. Rio que forma um braço de mar.—É o Parnahyba, rio de Piauhy. Vem de Pará. mar, nhanhe, correr e hyba, braço; braço corrente do mar. Geralmente se diz que Pará significa rio e Paraná mar; é inteiramente o contrario.
Pag. 74.—I. Mayr.—cidade. Talvez provenha o nome de mayr extrangeiro, e fosse applicado aos povoados dos brancos em opposição ás tabas dos indios.
II. Brancos tapuias.—em tupy, tapuitinga. Nome que os Pytiguaras davam aos francezes para differença-los dos Tupinambás. Tapuia, significa barbaro, inimigo. De taba, aldeia e puyr, fugir,—os fugidos da aldeia.
Pag. 75.—I. Batuireté.—narseja illustre, de batuira e eté. Appellido que tomara o chefe pytiguara, e que na linguagem figurada valia tanto como valente nadador. É o nome de uma serra fertilissima e da comarca que ella occupa.
II. Suas estrellas eram muitas.—Contavam os indigenas os annos pelo nascimento das pleiades no oriente; e tambem costumavam guardar uma castanha de cada estação de cajú. para marcar a idade.
III. Jatobá.—arvore frondosa, talvez de jetahy, oba, folha e a, augmentativo; jetahy de grande copa. É nome de um rio e de uma serra em S. Quiteria.
Pag. 76.—I. Quixeramobim.—segundo o Dr. Martins traduz-se por essa exclamação de saudade. Compõe-se de Qui, ah! xere, meus, amôbinhé, outros tempos.
II. Caminho das garças.—Em tupy Acarape, povoação na freguezia de Baturité a nove leguas da capital.
III. Maranguab.—A serra de Maranguape distante cinco leguas da capital, e notavel pela sua fertilidade e formosura. O nome indigena compõe-se de maran guerrear e coaub sabedor; maran talvez seja abreviação de maramonhang, fazer guerra, se não é, como eu penso, o substantivo simples guerrear, de que se fez o verbo composto. O Dr. Martins traz etymologia diversa. Mara, arvore, angai, de nenhuma maneira, guabe, comer. Esta etymologia nem me parece propria ao objecto, que é uma serra, nem conforme com os preceitos da lingua.
IV. Pirapora.—Rio do Maranguape, notavel pela frescura do suas aguas e excellencia dos banhos chamados da Pirapora, no lugar das cachoeiras. Provem o nome de Pira, peixe, pore, salto: salto do peixe.
Pag. 78.—O gavião branco—Batuireté chama assim o guerreiro branco, ao passo que trata o neto por narseja: elle prophetisa n'esse parallelo a destruição de sua raça pela raça branca.
Pag. 79. II. Porangaba.—significa belleza. É uma lagoa distante da cidade uma legua em sitio aprasivel. Hoje a chamam Arronches: e nas suas margens está a decadente povoação de mesmo nome.
II. Jererahu.—rio das marrecas; de jerere—ou irêrê, marreca, e hu agua. Este lugar ainda hoje é notavel pela excellencia da fructa, com especialidade as bellas laranjas conhecidas por laranjas de Jererahu.
III. Sapiranga.—lagoa no sitio Alagadiço Novo, a cerca de 2 leguas da capital. O nome indigena significa olhos vermelhos, de ceça, olhos e piranga vermelhos. Esse mesmo nome dão usualmente no norte a certa ophtalmia.
IV. Murytiapuá.—de murity—nome da palmeira mais vulgarmente conhecida por burity, e apuam, ilha. Logarejo no mesmo sitio referido.
V. Aratanha.—de arára, ave e tanha, dente. Serra mui fertil e cultivada em continuação da de Maranguape.
VI. Pacatuba.—de paca e tuba, leito ou couto das pacas. Recente, mas importante povoação, em um bello valle da serra da Aratanha.
VII. Guayúba.—De goaia, valle, y, agua, jur, vir, be por onde; por onde vem as aguas do valle. Rio que nasce na serra da Aratanha e corta a povoação do mesmo nome a seis leguas da capital.
Pag. 81.—I. Ambar. As praias do Ceará eram n'esse tempo muito abundantes de ambar que o mar arrojava. Chamavam-lhe os indigenas, Pira repoti esterco de peixe.
II. Coatyá.—pintar. A historia menciona esse facto de Martim Soares Moreno se ter coatyado quando vivia entre os selvagens do Ceará.
Pag. 82.—Coatyabo.—A desinencia abo significa o objecto que soffreu a acção do verbo, e talvez provenha de aba, gente, creatura.
Pag. 90.—Imbú.—Fructa da Serra do Araripe que não vem do littoral. É saborosa e semelhante ao cajá.
Pag. 93.—I. Tupinambás.—Nação formidavel, ramo primitivo da grande raça tupy. Depois de uma resistencia heroica, não podendo expulsar os portuguezes da Bahia emigraram até o Maranhão onde fizeram alliança com os francezes que já então infestavam aquellas paragens. O nome que elles se davam significava—gente parente dos Tupys—de Tupy—anama—ba.
II. Maracatim.—Grande barco que levava na proa tim—um maracá. Aos barcos menores ou canoas chamavam igara—de ig—agua—e jara, senhor; senhora d'agua.
Pag. 95.—Moacyir.—Filho do soffrimento—de moacy, dôr e ira, desinencia, que significa sahido de.
Pag. 96.—Faxa.—É o que chamam vulgarmente typoia; rejeitou-se o termo proprio do texto por andar degradado no estylo chulo.
Pag. 97.—Chupou tua alma.—Creança em tupy é pitanga, de piter chupar e anga alma; chupa alma. Seria porque as creanças attrahem e deleitam aos que as vêem; ou porque absorvem uma porção d'alma dos paes? Cauby fala n'esse ultimo sentido.
Pag. 99.—Cariman.—Uma conhecida preparação de mandioca. Caric, correr, mani, mandioca. Mandioca escorrida.
Pag. 100.—Tauape, lugar de barro amarello, de tauá e ipé. Fica no caminho de Maranguape.
Pag. 103.—Copim.—Insecto conhecido. O nome compõe-se de co buraco e pim ferrão.
Pag. 104.—Albuquerque.—Jeronymo d'Albuquerque chefe da expedição do Maranhão em 1612.
Pag. 117.—Colibri.—D'esse lethargo do colibri no inverno fala Simão de Vasconcellos.
Pag. 125—Mocejana.—Lagoa e povoação a 2 leguas da capital. O verbo cejar significa—abandonar; a desinencia ana indica a pessoa que exercita a acção do verbo. Cejana—significa o que abandona. Junta a particula mo do verbo monhang, fazer, vem a palavra a significar o que fez abandonar ou que foi lugar e occasião de abandonar.
CARTA AO DR. JAGUARIBE
Eis-me de novo, conforme o promettido.
Já leu o livro e as notas que o acompanham; conversemos pois.
Conversemos sem cerimonia, em toda a familiaridade, como se cada um estivesse recostado em sua rede, ao vaivem do languido balanço, que convida á doce pratica.
Se algum leitor curioso se puzer á escuta, deixal-o. Não havemos por isso de mudar o tom rasteiro da intimidade pela phrase garrida das salas.
Sem mais.
Ha de recordar-se você de uma noite que entrando em minha casa, quatro annos a esta parte, achou-me rabiscando um livro. Era isso em uma quadra importante, pois que uma nova legislatura, filha de nova lei, fazia sua primeira sessão; e o paiz tinha os olhos n'ella, de quem esperava iniciativa generosa para melhor situação.
Já estava eu meio descrido das cousas, e mais dos homens; e por isso buscava na litteratura diversão á tristeza que me infundia o estado da patria entorpecida pela indifferença. Cuidava eu porém que você, politico de antiga e melhor tempera, pouco se preoccupava com as cousas litterarias, não por menos preço, sim por vocação.
A conversa que tivemos então revelou meu engano; achei um cultor e amigo da litteratura amena; e juntos lemos alguns trechos da obra, que tinha, e ainda não perdeu, pretenções a um poema.
É, como viu o como então lhe esbocei a largos traços, uma heroida que tem por assumpto as tradicções dos indigenas brazileiros e seus costumes. Nunca me lembrara eu de dedicar-me a esse genero de litteratura, de que me abstive sempre, passados que foram os primeiros e fugaces arroubos da juventude. Supporta-se uma prosa mediocre, e estima-se pelo quilate da idéa; mas o verso mediocre é a peor triaga que se possa impingir ao pio leitor.
Commetti a imprudencia quando escrevi algumas cartas sobre a Confederação dos Tamoyos dizer: "as tradições dos indigenas dão materia para um grande poema que talvez um dia alguem apresente sem ruido nem apparato, como modesto fructo de suas vigilias."
Tanto bastou para que suppozessem que o escriptor se referia a si, e tinha já o poema em mão; varias pessoas perguntaram-me por elle. Metteu-me isto em brios litterarios; sem calcular das forças minimas para empresa tão grande, que assoberbou dois illustres poetas, tracei o plano da obra, e comecei-a com tal vigor que a levei quasi de um folego ao quarto canto.
Esse folego susteve-se cêrca de cinco mezes, mas amorteceu; e vou-lhe confessar o motivo.
Desde cedo, quando começaram os primeiros pruridos litterarios, uma especie de instincto me impellia a imaginação para a raça selvagem indigena. Digo instincto, porque não tinha eu então estudos bastantes para apreciar devidamente a nacionalidade de uma litteratura; era simples prazer que me deleitava na leitura das chronicas e memorias antigas.
Mais tarde, discernindo melhor as cousas, lia as producções que se publicavam sobre o thema indigena; não realisavam ellas a poesia nacional, tal como me apparecia no estudo da vida selvagem dos autoctonos brazileiros. Muitas pecavam pelo abuso dos termos indigenas accumulados uns sobre outros, o que não só quebrava a harmonia da lingua portugueza, como perturbava a intelligencia do texto. Outras eram primorosas no estylo e ricas de bellas imagens; porém certa rudez ingenua de pensamento e expressão, que devia ser a linguagem dos indigenas, não se encontrava ali.
Gonçalves Dias é o poeta nacional por excellencia ninguem lhe disputa na opulencia da imaginação, no fino lavor do verso, no conhecimento da natureza brazileira e dos costumes selvagens. Em suas poesias americanas aproveitou muitas das mais lindas tradicções dos indigenas; e em seu poema não concluido dos Timbiras, propoz-se a descrever a epopea brazileira.
Entretanto, os selvagens de seu poema falam uma linguagem classica, o que lhe foi censurado por outro poeta de grande estro, o dr. Bernardo Guimarães; elles exprimem idéas proprias do homem civilisado, e que não é verosimil tivessem no estado da natureza.
Sem duvida que o poeta brazileiro tem de traduzir em sua lingua as idéas, embora rudes e grosseiras, dos indios; mas n'essa traducção está a grande difficuldade; é preciso que a lingua civilisada se molde quanto possa á singeleza primitiva da lingua barbara; e não represente as imagens e pensamentos indigenas senão por termos e phrases que ao leitor pareçam naturaes na bôcca do selvagem.
O conhecimento da lingua indigena é o melhor criterio para a nacionalidade da litteratura. Elle nos dá não só o verdadeiro estylo, como as imagens poeticas do selvagem, os modos de seu pensamento, as tendencias de seu espirito, e até as menores particularidades de sua vida. É n'essa fonte que deve beber o poeta brazileiro; é d'ella que ha de sahir o verdadeiro poema nacional, tal como eu o imagino.
Commettendo portanto o grande arrojo, aproveitei o ensejo de realisar as idéas que me vagueavam no espirito, e não eram ainda plano fixo; a reflexão consolidou-as e robusteceu.
Na parte escripta da obra foram ellas vasadas em grande copia. Se a investigação laboriosa das bellezas nativas feita sobre imperfeitos e espurios diccionarios exhauria o espirito; a satisfação de cultivar essas flores agrestes da poesia brazileira, deleitava. Um dia porém fatigado da constante e aturada meditação ou analyse para descobrir a etymologia d'algum vocabulo, assaltou-me um receio.
Todo este improbo trabalho que ás vezes custava uma só palavra, me seria levado á conta? Saberiam que esse escropulo de ouro fino, tinha sido desentranhado da profunda camada, onde dorme uma raça extincta? Ou pensariam que fôra achado na superficie e trazido ao vento da facil inspiração?
E sobre esse, logo outro receio.
A imagem ou pensamento com tanta fadiga esmerilhados, seriam apreciados em seu justo valor, pela maioria dos leitores? Não os julgariam inferiores a qualquer das imagens em voga, usadas na litteratura moderna?
Occorre-me um exemplo tirado d'este livro. Guia chamavam os indigenas, senhor do caminho, pyguara. A belleza da expressão selvagem em sua traducção litteral e etymologica, me parece bem saliente. Não diziam sabedor do caminho, embora tivessem termo proprio, coaub, porque essa phrase não exprimiria a energia de seu pensamento. O caminho no estado selvagem não existe; não é cousa de saber. O caminho faz-se na occasião da marcha atravez da floresta ou do campo, e em certa direcção: aquelle que o tem e o dá, é realmente senhor do caminho.
Não é bonito? Não está ahi uma joia da poesia nacional?
Pois talvez haja quem prefira a expressão rei do caminho, embora os brasis não tivessem rei, nem idéa de tal instituição. Outros se inclinarão á palavra guia, como mais simples e natural em portuguez, embora não corresponda ao pensamento do selvagem.
Ora escrever um poema que devia alongar-se para correr o risco de não ser entendido, e quando entendido não apreciado, era para desanimar o mais robusto talento, quanto mais a minha mediocridade. Que fazer? Encher o livro de gryphos que o tornariam mais confuso e de notas que ninguem lê? Publicar a obra parcialmente para que os entendidos proferissem o veredicto litterario? Dar leitura d'ella a um circulo escolhido, que emittisse juizo illustrado?
Todos estes meios tinham seu inconveniente, e todos foram repellidos: o primeiro afeiava o livro; o segundo o truncava em pedaços; o terceiro não lhe aproveitaria pela ceremoniosa benevolencia dos censores. O que pareceu melhor e mais acertado foi desviar o espirito d'essa obra e dar-lhe novos rumos.
Mas não se abandona assim um livro começado, por peor que elle seja; ahi n'essas paginas cheias de rasuras e borrões dorme a larva do pensamento, que pode ser nympha de azas douradas, se a inspiração fecundar o grosseiro casulo. Nas diversas pausas de suas preoccupações o espirito volvia pois ao album, onde estão ainda incubados e estarão cerca de dois mil versos heroicos.
Conforme a benevolencia ou severidade de minha consciencia ás vezes os acho bonitos e dignos de verem a luz; outras me parecem vulgares, monotonos, e somenos a quanta prosa charra tenho eu estendido sobre o papel. Se o amor de pae abranda afinal esse rigor, não desvanece porem nunca o receio de "perder inutilmente meu tempo a fazer versos para cabocolos."
Em um d'esses volveres do espirito á obra começada, lembrou-me da experiencia in anima prosaico. O verso pela sua dignidade e nobreza não comporta certa flexibilidade de expressão, que entretanto não vae mal á prosa mais elevada. A elasticidade da phrase permittiria então que se empregassem com mais careza as imagens indigenas, de modo a não passarem desapercebidas. Por outro lado conhecer-se-hia o effeito que havia de ter o verso pelo effeito que tivesse a prosa.
O assumpto para a experiencia, de antemão estava achado. Quando em 1848 revi a nossa terra natal, tive a idéa de aproveitar suas lendas e tradições em alguma obra litteraria. Já em S. Paulo tinha começado uma biographia do Camarão. A mocidade d'elle, a amisade heroica que o ligava a Soares Moreno, a bravura e lealdade de Jacaúna, alliado dos portuguezes, e suas guerras contra o celebre Mel Redondo; ahi estava o thema. Faltava-lhe o perfume que derrama sobre as paixões do homem a belleza da mulher.
Sabe você agora o outro motivo que eu tinha de lhe endereçar o livro; precisava dizer todas estas cousas, contar o como e porque escrevi Iracema. E com quem melhor conversaria sobre isso do que com uma testemunha de meu trabalho, a unica, das poucas, que respira agora as auras cearenses?
Este livro é pois um ensaio ou antes amostra. Verá realisadas n'elles as minhas idéas a respeito da litteratura nacional; e achará ahi poesia inteiramente brazileira, haurida na lingua dos selvagens. A etymologia dos nomes das diversas localidades, e certos modos de dizer tirados da composição das palavras, são de cunho original.
Comprehende você que não podia eu derramar em abundancia essa riqueza no livrinho agora publicado, porque ellas ficariam desfloradas na obra de maior vulto, a qual só teria a novidade da fabula. Entretanto ha ahi de sobra para dar materia á critica, e servir de base ao juizo dos entendidos.
Se o publico ledor gostar d'essa forma litteraria, que me parece ter algum attractivo e novidade, então se fará um esforço para levar ao cabo o começado poema, embora o verso pareça na época actual ter perdido a sua influencia e prestigio. Se porém o livro fôr acoimado de serdiço e tedioso, ou se Iracema encontrar a usual indifferença, que vae acolhendo o bom e o mau com a mesma complacencia, quando não é o silencio desdenhoso e ingrato; então o auctor se desenganará de mais esse genero de litteratura, como já se desenganou do theatro; e os versos como as comedias passarão para a gaveta dos papeis velhos, reliquias autobiographicas.
Depois de concluido o livro e quando o reli apurado na estampa, conheci me tinham escapado senões que poderia corrigir se não fosse a pressa com que o fiz editar; noto algum excesso de comparações, certa semelhança entre algumas imagens, e talvez desalinho no estylo dos ultimos capitulos que desmerecem dos primeiros. Tambem me parece devia conservar aos nomes das localidades sua actual versão, embora corrompida. Se a obra tiver segunda edição será escoimada d'estes e de outros defeitos, que lhe descubram os entendidos.
Agosto de 1995.
J. DE ALENCAR.